Agora o questionador constrói a sua resposta. A pergunta é simples e cortante: se o Ein Sof rege os mundos de cima e o Ze'ir Anpin os de baixo, então há "duas potências". Contra isso, ele convoca os Sábios, o Midrash e o Rambam: não há D'us senão o Único — em cima e embaixo —, e tudo foi criado do nada, não emanado por natureza. Logo, só ao Único se dirige o culto.
Rogo-te, meu senhor, informa-me também: quem governa todos os mundos ocultos de que os cabalistas não falaram, e quem os alimenta e sustenta? Se é este Ze'ir Anpin, que está na Emanação Atzilut, quem os alimenta e sustenta — e é a ele que adoram e se prostram —; ou se o Ein Sof é o D'us deles, e só a Ele adoram, enquanto nós adoramos o Ze'ir Anpin, pois é ele que nos alimenta e é o nosso D'us, como disseram os cabalistas? Segue-se, então, que o Ein Sof é o D'us dos seres superiores, e o Ze'ir Anpin o D'us dos inferiores — e eis aqui duas potências shtei reshuyot, D'us nos livre! E explicitamente disseram alguns deles: "toda a grande obra do Senhor" — do que se infere que há também uma "pequena".
Mas os nossos verdadeiros Rabinos disseram — trazido na Menorat ha-Maor (§143) — que, na hora da entrega da Torá, D'us rasgou para eles os sete firmamentos e abriu as sete terras, e disse a Israel: "Discerni nos mundos de cima e discerni nos de baixo, e sabei que não há Deus além de mim — nem em cima, nem embaixo: Eu sou o Senhor teu D'us."
E no Midrash Rabá, parashá Yitró, disseram, sobre "Eu sou o Senhor teu D'us": disse Rabi Abahu — uma parábola de um rei de carne e sangue que reina: ele tem pai, ou irmão, ou filho. Disse o Santo, bendito seja: Eu não sou assim — "Eu sou o primeiro e Eu sou o último, e além de mim não há D'us". Eu sou o primeiro, pois não tenho pai; e Eu sou o último, pois não tenho filho; e além de mim não há D'us, pois não tenho irmão. (Fim da citação do Midrash, etc.)
O Rav Etz Yosef, de abençoada memória, explica: a realeza de um rei de carne e sangue não é completa, porque ele tem pai — a quem deve honrar e com quem partilha o reino —, ou tem irmão, que tem parte na honra da realeza, ou tem filho, que exerce poder com ele e, depois dele, é o herdeiro. E o sentido de "não tem pai" é que Ele é a Causa Primeira; "não tem irmão", pois Ele é Um e não há segundo a Ele; "não tem filho", pois os seres causados não emanaram d'Ele por natureza, como o filho provém do pai — como pensaram alguns (esta é a posição dos cabalistas, que disseram que o Ze'ir Anpin é filho de Abba e Imma, e é pai dos causados que vêm depois dele, etc., e tem uma irmã, ou irmãs — a sua nukva) —, pois, segundo essa posição, não estaria em Seu poder mudar coisa alguma, e a Sua realeza não seria completa. Mas o Santo, bendito seja, disse "Eu sou o Senhor teu D'us": pois foi este o Seu poder — tirá-los da terra do Egito — visto que a Sua realeza é completa e "não há quem detenha a Sua mão". (Fim da citação.)
E no Talmud Yerushalmi (Shabat, cap. Bameh Ishá) disseram os nossos Sábios: "e a aparência do quarto era semelhante a um filho dos deuses" Daniel 3:25. Disse Rabi Reuven: naquela hora desceu um anjo e esbofeteou aquele ímpio Nabucodonosor na boca, dizendo-lhe: "Corrige as tuas palavras! Acaso Ele tem filho?" Nabucodonosor retratou-se e disse: "Bendito seja o D'us de Shadrach, Meshach e Abed-Nego, que enviou o Seu anjo e livrou os Seus servos" Daniel 3:28 — não está escrito aqui "o Seu filho", mas "o Seu anjo". (Fim.)
Ou seja: o ímpio Nabucodonosor pensou que os anjos são seres causados, que emanam d'Ele por natureza — como o filho vem do pai —, conforme as palavras dos cabalistas a respeito das sefirot de todos os mundos, e assim também a respeito das almas; e por isso o anjo o esbofeteou. E ele retratou-se, dizendo "que enviou o Seu anjo", etc. Eis que sai, explícito, das palavras do Midrash Rabá e do Yerushalmi, o oposto das palavras dos cabalistas: que todos os existentes, o Santo (bendito seja) os trouxe à existência pela Sua bondade, do nada yesh me-ayin — desde a primeira forma até o menor mosquito — e não que eles se prolonguem da Sua essência, como o filho se forma da força do sêmen que provém do seu pai.
O que se extrai de tudo isto é que não se deve adorar nenhum partzuf nem forma dentre todos os seres criados — existentes no mundo superior e no inferior — que o Santíssimo (bendito seja) trouxe à existência pela Sua bondade. Pois só a Ele é digno adorar e orar; e sobre isto veio o mandamento e a advertência no Sinai: "Eu sou o Senhor teu D'us; não terás outros deuses" — como escreveu o Rambam, de abençoada memória, no capítulo segundo das Hilchot Avodá Zará As Leis da Idolatria.
O capítulo abre com a objeção que dá nome a toda a obra. Se o culto da Cabala se dirige ao Ze'ir Anpin — "o nosso D'us", "aquele que nos alimenta" — e não ao Ein Sof, então, na prática, há um D'us para os mundos de cima e outro para os de baixo. É a shtei reshuyot, a fórmula com que a tradição sempre nomeou o erro dualista. O questionador não inventa a acusação: extrai-a, diz ele, das próprias formulações cabalísticas. Toda a sequência de provas que se segue existe para fechar essa fenda e restaurar a unidade simples.
O coração do argumento é a parábola de Rabi Abahu, lida pelo Etz Yosef: a realeza de D'us é "completa" justamente porque Ele não tem pai (é a Causa Primeira), nem irmão (é Um, sem segundo), nem filho. E "não ter filho" significa, aqui, algo preciso: os seres não emanam d'Ele por natureza, como um filho do pai. Se emanassem, a criação seria necessária e D'us não seria livre "para mudar coisa alguma" — não poderia fazer milagres nem tirar Israel do Egito. A liberdade do Criador é inseparável da Sua unidade.
Daí a distinção decisiva, reforçada pelo episódio de Nabucodonosor (que é repreendido por dizer "filho de D'us" e corrigido para "Seu anjo"): tudo o que existe foi criado do nada yesh me-ayin, por bondade e vontade — "da primeira forma até o menor mosquito" — e não "se prolonga da essência" divina. É a doutrina que Saadiá Gaon estabelece no Emunot veDeot e que o Rambam codifica: o Criador é outro que a criação, não a sua raiz genealógica. Para o questionador, falar de sefirot que "nascem" umas das outras como pais e filhos é trocar o criar pelo gerar — e é aí que a unidade se arrisca.
A conclusão é sóbria e direta: se nada do que foi criado — nenhum partzuf, nenhuma "forma", em mundo nenhum — é o Criador, então a nenhum deles se dirige o culto. "Só a Ele é digno adorar e orar." E é precisamente isto, lembra o questionador, o conteúdo do primeiro mandamento do Sinai, tal como o Rambam o fixa nas Hilchot Avodá Zará. Note-se o que não está em disputa: ninguém aqui nega a santidade dos mestres nem o valor do estudo mais profundo. A "guerra" é por um único ponto — que toda oração suba ao Único, e a mais nenhum.