Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo I

A Pergunta que Abre o Livro: a quem dirigimos a oração?

לְמִי הָעֲבוֹדָה
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

A obra começa com uma correspondência, em torno da pergunta mais prática da religião: a oração que oferecemos — a quem se dirige? Ao Ein Sof, o Infinito, ou ao "Ze'ir Anpin" emanado? O questionador mostra que a resposta cabalística citada choca-se com a doutrina da unidade absoluta de D'us.

A pergunta

Um dos discípulos perguntou, nestes termos: "Ensine-nos o nosso mestre: o serviço e a oração que oferecemos — a quem se dirigem? À Causa das Causas, bendita seja, ou ao ser emanado que dela procedeu (o Ze'ir Anpin)?" — pois assim nos explicou o mestre Sálem ben David, que partiu daqui para a Terra Santa segundo "a fé verdadeira", como se expõe nos livros Matzref haEmuná e Al haTorá: que quem serve ao Ein Sof o Infinito serve a quem "não é o D'us verdadeiro nem o D'us do juízo" — de modo que saibamos a quem devemos servir. Responde-nos depressa, meu senhor.

שאול שאל אחד מן התלמידים וז"ל יודיענו מ"ו העבודה והתפלה שאנו מתפללים למי שייכא. לעילת העילות ב"ו או לנאצל אשר נאצל ממנו (ז"א) כאשר פירש לנו באוזניכם מ"ו סאלם ן' דוד שנסע מכאן לארץ הקדש ע"פ האמונה האמתית כמפורש בס' מצרף האמונה ובס' עה"ת שהעובד לאין סוף עובד ללא אלהי אמת וללא אלהי משפט כדי שנדע את מי נעבוד ותשובתך מהרה אדוני ע"כ.
Nota — o vocabulário da cabala. Para acompanhar o debate: na cabala luriânica, o Ein Sof ("Sem-Fim", o Infinito) é a divindade em si, inacessível; dela "emanam" dez sefirot e cinco partzufim (configurações: Arich Anpin, Abba, Imma, Ze'ir Anpin e a Nukva), no "mundo da Emanação" (Atzilut). A pergunta do discípulo é fulcral para Qafih: se a oração deve ir ao Ze'ir Anpin (uma configuração "inferior"), e não ao Ein Sof, então — argumentará ele — estar-se-ia a dirigir o culto a algo que não é o próprio D'us Uno.
A resposta

Resposta do primeiro respondente: "A tua resposta está exposta no livro Kisé Eliyahu, da página 13 à 18 — 'ouça o sábio e aumentará o saber'. E o que temos por tradição é que o serviço se dirige a um só D'us-Senhor, para d'Ele fazer descer a abundância às dez sefirot, como escreveu o Léchem Shlomó." — Fim das palavras do respondente.

תשובה. תשובתך מבוארת בספר כסא אליהו מדף י"ג עד דף י"ח ישמע חכם ויוסף לקח. והמקובל בידינו שהעבודה לאל אדון אחד להמשיך השפע ממנו אל עשר ספירות כמו שכתב לחם שלמה. עכ"ל המשיב.
A réplica

Tornou o que perguntara e respondeu: a tua resposta, meu amigo, veio fechada e selada, e não passa de uma indicação de lugar — "ver no Kisé Eliyahu, da página 13 à 18...". E não compreendi a tua opinião nem a tua intenção: se essa "tradição" que tens concorda com o Kisé Eliyahu ou o contradiz. Pois, quando examinei o Kisé Eliyahu no lugar que me indicaste, não achei o que buscava; pelo contrário, ali (p. 3) ele compara a unidade do Criador às demais espécies de unidade: escreveu que "assim como esta casa, no seu todo, se chama 'uma casa' — e, se entrares nela, acharás vários aposentos, grandes e pequenos, e a cada um se dá o nome de 'um'... e a parede sagrada foi construída de partes (cada pedra, cada torrão de terra, a cal, à parte), e depois que o construtor juntou todas essas partes com a sua arte, umas nas outras e umas ao lado das outras, fez-se uma só parede, e então tudo é uma só peça; e assim é a questão entre nós".

חזר השואל והשיב. תשובתך ידידי באה סתומה וחתומה ואין בה אלא מורה מקום, "לעיין בכסא אליהו מדף י"ג עד דף י"ח ישמע חכם ויוסף לקח והמקובל בידינו שהעבודה לאל אדון אחד" וכו'. ולא הבנתי דעתך וכוונתך בזה, אם זה המקובל בידך הוא כדברי כסא אליהו או היפך דבריו. כי כאשר עיינתי בכסא אליהו מקום שרשמת לי, לא מצאתי מבוקשי, אדרבא שם בדף ג' מדמה אחדות הבורא לשאר מיני האחדים, ששם כתב: כמו שזה הבית בכללותו נקרא בשם בית אחד. ואם תכנס בו תמצא כמה וכמה חדרים גדולים וקטנים וכמה מקומות זולתם. וכל א' ואחד מתארים לו תואר שם אחד. גם הבנין של עצים שיש בתוכו כמה תארים יש בו. גם תמצא עוד שזה הכותל קדש שנבנה היה חלקים כל אבן ואבן היא חלוקה מצרורות העפר לעצמו והסיד לעצמו כו'. ואחר שבא הבנאי וחבר כל חלקים אלו בחכמתו זה בתוך זה וזה אצל זה ונעשו כותל אחד וכו', נמצא אז הכל חתיכה אחת וחלק אחד. וכן הענין אצלנו וכו'.
Nota — as "comparações" da unidade. O cerne da objeção: o questionador acusa a fonte cabalística de comparar a unidade de D'us a coisas compostas — uma casa de muitos aposentos, uma parede de muitas pedras, um corpo de muitos membros. Para o racionalista, isso é inadmissível: a unidade divina não é a soma de partes. (Os cabalistas respondem — e o texto o dirá adiante — que tais imagens não descrevem o Ein Sof, mas "luzes" emanadas, "sem forma nem apreensão"; é precisamente o ponto em disputa.)
A doutrina citada

E ali (pp. 25, 29) ele O compara ao corpo humano, composto de ossos, tendões, carne, cabeça, olho, ouvido, nariz, boca, mãos e pés — e a tudo se chama "um homem", "Reuven" ou "Shimon". E nas pp. 25–27 escreveu: "O princípio que daqui resulta é que a Causa Primeira, que todos os cabalistas chamam Ein Sof, é a que emanou, criou, formou e fez; e Ela se oculta dentro do Ze'ir Anpin — e então é o Ze'ir Anpin que governa todas as criaturas, conduzindo-as, nutrindo-as e sustentando-as pela força do Ein Sof que há nele. Por isso ele é o nosso D'us e nós somos o seu povo... e a ele servimos. Quanto ao Ein Sof, com os demais partzufim configurações acima do Ze'ir e da sua Nukva — se dirigirem a oração a eles em particular, sem orarem ao Ze'ir Anpin, ainda que tencionem a alma neles oculta, estarão clamando e não serão atendidos; e, mais ainda, serão punidos, pois esta é a vontade da Causa Primeira: que seja Ele o Ze'ir quem faz descer a abundância aos mundos inferiores, e não há outro além d'Ele" — assim diz ele.

ושם בדף כ"ה וכ"ט מדמה אותו לגוף האדם המחובר מעצמות וגידים ובשר וראש ועין ואזן וחוטם ופה וידים ורגלים והכל נקרא בשם אדם ראובן או שמעון. ובדף כ"ה וכ"ו וכ"ז כתב: הכלל העולה כי הסבה הראשונה הנקרא בפי כל המקובלים אין סוף, הוא אשר האציל וברא ויצר ועשה והוא מסתתר תוך זעיר אנפין ואזי זעיר אנפין הוא השולט על כל הברואים ומנהיגם וזנם ומפרנסם בכח אין סוף שבו. ולכן הוא אלהינו ואנחנו עמו כי נשמותינו הם חלקו ואותו נעבוד והוא אלהי אבותינו שבידו הנהגת העולמות בשכר ועונש אבל האין סוף עם שאר הפרצופים שלמעלה מזעיר ונוקביה אם יסדרו בני אדם תפלתם להם בפרטות מבלי שיתפללו לזעיר אנפין גם אם יכוונו לנשמה המסתתרת בהם יהיו צועקים ואינם נענים. ואדרבה יהיו המתפללים אליהם נענשים כי זהו רצון הסבה הראשונה שיהיה הוא המוציא והמביא שפעו לתחתונים ואין עוד מלבדו ע"ש היטב.
Nota — o ponto que alarma Qafih. Aqui está o que, para o Rav Qafih, ultrapassa a linha: a afirmação de que orar ao Ein Sof "não será atendido", e que se deve orar ao Ze'ir Anpin. Lida ao pé da letra, ela parece dirigir o culto a uma entidade emanada, e não ao próprio Infinito — o que ele equipara a servir "a um não-D'us". É a sua razão para escrever o livro. (Vale lembrar: os mestres da cabala entendem os partzufim como modos do mesmo Ein Sof, e não como deuses distintos.)
A objeção

Ora, estas palavras do Kisé Eliyahu erguem-se contra as do Rambam (no Comentário à Mishná, no Mishné Torá e no Guia dos Perplexos), contra as do piedoso autor do Chovot haLevavot (no "Portão da Unidade"), contra o Rav Saadiá Gaon no Emunot veDeot, e contra o Rokeach — os quais escreveram que a unidade d'Ele, bendito seja, não é como a de um par, nem como a de uma espécie, nem como a de um indivíduo que se divide em muitos, nem como a de um corpo simples que admite divisão sem fim; mas o Santo, bendito seja, é Um, numa unidade que não tem semelhante.

ודברי הר' כסא אליהו עומדים נגד דברי הרמב"ם ז"ל בפי' המשנה ובחבור ובמורה נבוכים ונגד דברי החסיד בעל חובת הלבבות בשער היחוד והרס"ג בס' האמונות והדעות והרוקח שכתבו שאחדותו ית' איננו כאחד הזוג ולא כאחד המין ולא כאיש האחד שנחלק לאחדים רבים. ולא אחד כמו הגוף הפשוט וכו' שמקבל החלוק לאין סוף. אבל השי"ת הוא אחד באחדות שאין כמותה.
Nota — a régua racionalista. O capítulo fecha enunciando a régua pela qual Qafih medirá tudo: a unidade de D'us, segundo o Rambam, o Chovot haLevavot, o Rav Saadiá Gaon (no próprio Emunot veDeot, também traduzido neste site) e o Rokeach, não se assemelha a nenhuma unidade composta — "uma unidade que não tem semelhante". É o princípio maimonidiano da unidade absoluta e simples; toda a polêmica do livro decorre dele.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A pergunta que move o livro

Todo o Milchamot Hashem nasce desta única pergunta de um discípulo: a quem dirigimos a oração? Não é uma questão acadêmica — é a mais prática das questões religiosas. Se a resposta cabalística citada estiver certa (orar ao Ze'ir Anpin, e não ao Ein Sof), então, argumenta o questionador, o culto estaria voltado para algo que não é o próprio D'us Uno. Qafih usa esta correspondência real como porta de entrada: a partir dela, examinará as fontes e oporá a elas a tradição racionalista.

Unidade simples × unidade composta

O coração filosófico do capítulo é o choque entre duas ideias de "unidade". A fonte citada compara a unidade de D'us à de uma casa, de uma parede, de um corpo — unidades feitas de partes reunidas. Contra isso, o questionador invoca a linha do Rambam, de Saadiá Gaon e de Bachyá: a unidade divina não é a soma de nada, não admite divisão nem composição — "uma unidade que não tem semelhante". É a mesma tese que o Rav Saadiá demonstra no Emunot veDeot (Tratado II), também traduzido neste site.

Um debate vivo, não um veredicto

É importante lê-lo como o que é: a abertura de um debate, apresentada pelo lado racionalista. A própria obra traz, em seguida, a réplica que defende a cabala — sustentando que as "comparações" se referem a luzes sem forma e que invocar o Ze'ir Anpin é invocar o Ein Sof que nele habita. O leitor honesto, como pede o próprio editor na Introdução, deve "ler a obra inteira" antes de julgar. Apresentamo-la na íntegra justamente para que essa voz seja ouvida com seriedade — sem desmerecer os que encontram na cabala um caminho de verdade.