Mei HaShiloach · Volume IV · Parashá 4

Shelach

שְׁלַח
Rabi Mordechai Yosef Leiner de Izhbitz (1801–1854) · hebraico de domínio público · tradução original PT-BR

Catorze parágrafos sobre a quarta parashá do Sêfer Bamidbar. Na Parte I, do Volume I do Sefaria: os três mundos do Zohar e a oração, com Calev, Yehoshua e os espias; o yud que Moshé acrescentou ao nome de Yehoshua; as dez difamações da Terra; o azeite e o incenso e o apanhador de lenha; os tsitsit junto ao Shabat; o temor e a firmeza dos tsitsit e dos gedilim; e as seis matérias da parashá diante das seis coisas de Tehilim 19. Na Parte II, do Volume II: o que está sob a veste da Torá e o olhar dos espias; o pecado dos espias, feito em nome do Céu; as libações e o vinho dos amargurados; a ordem das libações e da chalá; o louvor depois de comer e o Nome 37; os tsitsit e os gedilim, com as perguntas a Ben Zomá; e a tchelet, o temor e o amor — hebraico e português lado a lado.

Parágrafos

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Parte I · Sefaria Volume I
Parágrafo 1

“E falou o Eterno a Moshé, dizendo: Envia homens para ti” (Bamidbar 13:1-2). Está no Zohar (Bamidbar 159a): “Três mundos tem o Santo, Bendito Seja: um mundo que está oculto n’Ele e não se conhece de modo algum; um mundo em que Ele é conhecido sempre; e um mundo em que Ele é conhecido e não é conhecido” — o texto está em aramaico —. O sentido é este: há quem não seja ajudado por nenhuma oração, e este se chama o mundo que não se conhece de modo algum; isto é, diante desse homem o Santo, Bendito Seja, retira a Sua glória para o alto — não se deixa encontrar por ele —. O mundo em que Ele é conhecido sempre corresponde ao homem a quem o Nome, bendito seja, está sempre em auxílio e amparo, mesmo sem oração, de modo que não precisará de oração. O mundo em que Ele é conhecido e não é conhecido corresponde ao homem que não tem auxílio sem oração, mas pela oração é atendido; e é a este homem que vem ao coração o desejo de orar. Pois aos dois primeiros não vem ao coração desejo nenhum de orar: quem anda com auxílio do Céu não precisará de oração, e aquele a quem a oração de nada serviria tampouco sente no coração vontade alguma de orar. Mas o homem, quando não lhe vem vontade de orar, precisa discernir por que não há nele essa vontade: se é porque a oração não lhe serviria ou porque ele não precisa dela. E assim é também com os espias. Aos espias nenhuma oração serviria; por isso não lhes veio ao coração desejo de orar. Calev precisava de oração; por isso foi prostrar-se sobre os túmulos de seus pais — em Hebron — e orou. Yehoshua não precisava de oração, pois andava com o auxílio do Eterno, como está escrito no Zohar (Bamidbar 158b), a saber, que Moshé o abençoou com um auxílio superior — o texto do Zohar está em aramaico —; por isso não precisava de oração. Acréscimo ao texto: nesta parashá se inclui todo o tema da oração, pois, a quem precisa de grandes misericórdias, o Nome, bendito seja, envia ao coração do justo, o condutor da geração — o líder da época, aqui Moshé —, o impulso de abençoá-lo e orar por ele; e este foi Yehoshua, a quem Moshé Rabenu abençoou e por quem orou. Calev não precisava da oração de Moshé; por isso não veio ao coração de Moshé Rabenu orar por ele, e só ele próprio orou. E aos espias a oração não serviria; por isso não veio ao coração de Moshé Rabenu orar por eles. E o justo da geração precisa, para isto, de grande discernimento, para entender por que não lhe veio ao coração o desejo de orar: se é porque a pessoa não precisa de oração ou porque a oração não lhe serviria. Fecho do acréscimo.

וַיְדַבֵּר ה׳ אֶל מֹשֶׁה לֵּאמֹר שְׁלַח לְךָ אֲנָשִׁים. אִיתָא בַּזוה"ק (במדבר קנ"ט.) תְּלַת עָלְמִין אִית לֵיהּ לְקוּדְשָׁא בְּרִיךְ הוּא, עָלְמָא דְּגָנִיז בְּגַוֵּיהּ וְלֹא אִתְיְדַע כְּלָל, וְעָלְמָא דְּאִתְיְדַע בֵּהּ תָּמִיד, וְעָלְמָא דְּאִתְיְדַע וְלֹא אִתְיְדַע. וְהָעִנְיָן בָּזֶה כִּי יֵשׁ שֶׁאֵין תְּפִלָּה מוֹעִיל לוֹ כְּלָל וְזֶה נִקְרָא עָלְמָא דְּלֹא אִתְיְדַע כְּלָל, הַיְינוּ שֶׁנֶּגֶד הָאָדָם הַזֶּה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מְסַלֵּק כְּבוֹדוֹ לְעֵילָא. וְעָלְמָא דְּאִתְיְדַע בֵּיהּ תָּמִיד, הוּא נֶגֶד הָאָדָם שֶׁהַשֵּׁם יִתְבָּרַךְ הוּא תָּמִיד בְּעֶזְרוֹ וּמְסַיְּעוֹ אַף בְּלֹא תְּפִלָּה וְלֹא יִצְטָרֵךְ לִתְפִלָּה. עָלְמָא דְּאִתְיְדַע וְלֹא אִתְיְדַע, הוּא נֶגֶד אָדָם שֶׁאֵין לוֹ סִיַּעְתָּא בְּלֹא תְּפִלָּה אַךְ עַל יְדֵי תְּפִלָּה הוּא נַעֲנֶה, וְלָאָדָם הַזֶּה יָבֹא בַּלֵּב רָצוֹן לִתְפִלָּה, כִּי לְאֵלּוּ הַשְּׁנַיִם הָרִאשׁוֹנִים לֹא יָבֹא שׁוּם רָצוֹן בַּלֵּב לְהִתְפַּלֵּל, וְכֵן הוּא הָעִנְיָן כִּי הַהוֹלֵךְ בְּסִיַּעְתָּא לֹא יִצְטָרֵךְ לִתְפִלָּה וּמִי שֶׁלֹּא יוֹעִיל לוֹ תְּפִלָּה גַּם כֵּן לֹא יָבֹא לוֹ בַּלֵּב שׁוּם רָצוֹן לִתְפִלָּה, אַךְ הָאָדָם כַּאֲשֶׁר לֹא יָבֹא לוֹ רָצוֹן לִתְפִלָּה צָרִיךְ לְהָבִין מִפְּנֵי מָה אֵין בּוֹ רָצוֹן, אִם הוּא מִפְּנֵי שֶׁלֹּא יוֹעִיל לוֹ אוֹ מִפְּנֵי שֶׁאֵין צָרִיךְ, וּכְמוֹ כֵן הָעִנְיָן בַּמְרַגְּלִים, וְהַמְרַגְּלִים לֹא הָיָה מוֹעִיל לָהֶם שׁוּם תְּפִלָּה לְפִיכָךְ לֹא בָּא בְּלִבָּם רְצוֹן תְּפִלָּה, וְכָלֵב הָיָה צָרִיךְ לִתְפִלָּה לְפִיכָךְ נִשְׁתַּטֵּחַ עַל קִבְרֵי אֲבוֹתָיו וְהִתְפַּלֵּל, וִיהוֹשֻׁעַ לֹא הָיָה צָרִיךְ לִתְפִלָּה כִּי הָלַךְ בְּסִיַּעְתָּא מֵה׳ כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב בַּזוה"ק (במדבר קנ"ח:) כִּי מֹשֶׁה בֵּרְכוֹ בְּסִיַּעְתָּא עִילָּאָה, לְפִיכָךְ לֹא הָיָה צָרִיךְ לִתְפִלָּה (שֶׁבָּזֶה הַפָּרָשָׁה נִכְלָל כָּל עִנְיְנֵי תְּפִלָּה, כִּי מִי שֶׁצָּרִיךְ רַחֲמִים גְּדוֹלִים שׁוֹלֵחַ הַשֵּׁם יִתְבָּרַךְ בְּלֵב הַצַּדִּיק וּמַנְהִיג הַדּוֹר לְבָרְכוֹ וּלְהִתְפַּלֵּל עָלָיו וְזֶה הָיָה יְהוֹשֻׁעַ שֶׁמֹּשֶׁה רַבֵּנוּ בֵּרְכוֹ וְהִתְפַּלֵּל עָלָיו, וְכָלֵב לֹא הָיָה צָרִיךְ לִתְפִלַּת מֹשֶׁה לָכֵן לֹא בָּא בְּלֵב מֹשֶׁה רַבֵּינוּ לְהִתְפַּלֵּל עָלָיו וְרַק בְּעַצְמוֹ הִתְפַּלֵּל, וְלַמְרַגְּלִים לֹא הוֹעִיל תְּפִלָּה לָכֵן לֹא בָּא בְּלֵב מֹשֶׁה רַבֵּינוּ לְהִתְפַּלֵּל עֲלֵיהֶם, וְצַדִּיק הַדּוֹר צָרִיךְ לָזֶה מְבִינוּת גָּדוֹל לְהָבִין מִפְּנֵי מָה לֹא בָּא רָצוֹן בְּלִבּוֹ לְהִתְפַּלֵּל, אִם מֵחֲמַת שֶׁאֵינוֹ נִצְרָךְ לוֹ תְּפִלָּה אוֹ מֵחֲמַת שֶׁלֹּא יוֹעִיל לוֹ תְּפִלָּה. תַּשְׁלוּם.).
Parágrafo 2

“E chamou Moshé a Hoshea, filho de Nun, Yehoshua” (Bamidbar 13:16). Eis que a letra yud alude à integridade — a inocência de quem não procura artifícios —, pois é um pequeno ponto; e foi por isso que Moshé lhe acrescentou o yud. Pois está na Guemará (Kidushin 58b): quem diz ao seu companheiro “sai e consagra-me uma mulher”, e o outro foi e a consagrou para si mesmo, ela fica consagrada ao segundo — ao próprio mensageiro —; e a Guemará diz a respeito disto: apenas, ele agiu com o outro com conduta de fraude — isto é, o ato vale, mas o mensageiro procedeu como um trapaceiro —. E assim parecia também aqui com Yehoshua: Moshé o enviou para espiar a Terra de Israel e, no fim, ficou estabelecido que ele próprio a espiou para si — como o mensageiro que consagrou a mulher para si —, e parecia que o seu caminho não fora feito com integridade. Por isso Moshé lhe acrescentou a letra yud, que indica que ele é íntegro em todos os seus atos. E é o que traz o Targum de Yonatan ben Uziel: “E quando Moshé viu a humildade de Hoshea, chamou Hoshea bar Nun de Yehoshua” — o texto está em aramaico —.

וַיִּקְרָא מֹשֶׁה לְהוֹשֵׁעַ בִּן נוּן יְהוֹשֻׁעַ. הִנֵּה אוֹת יוֹ"ד רוֹמֵז לִתְמִימוּת כִּי הִיא נְקֻדָּה קְטַנָּה, וְעַל יְדֵי זֶה הוֹסִיף לוֹ הַיּוֹ"ד כִּי אִיתָא בַּגְּמָרָא (קדושין נ"ח:) הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ צֵא וְקַדֵּשׁ לִי אִשָּׁה וְהָלַךְ וְקִדְּשָׁהּ לְעַצְמוֹ מְקֻדֶּשֶׁת לַשֵּׁנִי וְאָמַר הַגְּמָרָא עַל זֶה אֶלָּא שֶׁנָּהַג בּוֹ מִנְהַג רַמָּאוּת, וְכֵן הָיָה נִרְאֶה גַּם כָּאן בִּיהוֹשֻׁעַ כִּי מֹשֶׁה שָׁלַח אוֹתוֹ לָתוּר אֶת אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל וּלְבַסּוֹף נִסְתַּיֵּם הַדָּבָר שֶׁלְּעַצְמוֹ תָּר אוֹתָהּ וְהָיָה נִרְאֶה שֶׁהֲלִיכָתוֹ לֹא הָיָה בִּתְמִימוּת, לָכֵן הוֹסִיף לוֹ אוֹת יוֹ"ד שֶׁמּוֹרָה עָלָיו שֶׁהוּא תָּמִים בְּכָל מַעֲשָׂיו, וְזֶה שֶׁתַּרְגּוּם יוֹנָתָן בֶּן עֻזִּיאֵל וְכַד חָמֵי מֹשֶׁה עַנְוְתָנוּתוֹ דְּהוֹשֵׁעַ קְרָא לְהוֹשֵׁעַ בַּר נוּן יְהוֹשֻׁעַ.
Parágrafo 3

“E contaram-lhe e disseram: Viemos à terra etc. Porém forte é o povo” (Bamidbar 13:27-28). Isto porque difamaram a terra com dez palavras de difamação, pois eram dez espias e cada um disse uma coisa; e o nome de cada um indica a coisa que ele disse e com a qual difamou a terra — o texto não as enumera —. E quem entende entenderá.

וַיְסַפְּרוּ לוֹ וַיֹּאמְרוּ בָּאנוּ אֶל הָאָרֶץ כוּ׳ אֶפֶס כִּי עַז הָעָם. לֶהֱיוֹת כִּי גִּנּוּ אֶת הָאָרֶץ בְּעֶשֶׂר דְּבָרִים שֶׁל גְּנוּת, כִּי הָיוּ עֲשָׂרָה מְרַגְּלִים וְכָל אֶחָד אָמַר דָּבָר אֶחָד וְשֵׁם כָּל אֶחָד מוֹרֶה עַל הַדָּבָר שֶׁאָמַר וְגִנָּה בָּהּ אֶת הָאָרֶץ, וְהַמֵּבִין יָבִין.
Parágrafo 4

“E estavam os filhos de Israel no deserto e encontraram um homem apanhando lenha no dia de Shabat” (Bamidbar 15:32). Está na Guemará (Menachot 59a): há oferendas que exigem azeite e incenso, azeite sem incenso, e incenso sem azeite. O azeite indica glória para Ele, da parte do homem — o homem que dá glória ao Eterno —, isto é, que o homem seja justo e puro na profundeza do seu coração e que a sua intenção seja voltada ao Céu, como será explicado em seu lugar (acima, Volume I, parashá Vayeshev, na passagem que começa “Vayehi Er”). E o incenso indica glória para quem o faz, isto é, que haja glória para o homem que age, aos olhos das pessoas. Ora, o homem deve cuidar para que todos os seus atos sejam glória para quem os faz e glória para Ele, da parte do homem; mas às vezes se encontra um tempo de agir pelo Eterno em que o homem não precisa atentar à glória de quem faz, bastando que a sua intenção seja voltada ao Céu — sem se preocupar com a aparência diante dos outros —, como está escrito (Tehilim 119:126): “É tempo de agir pelo Eterno; violaram a Tua Torá” — a lei é violada, e por isso se age —; e às vezes isto é a vontade do Nome, bendito seja. E também às vezes se encontra o oposto: ainda que a intenção do homem seja voltada ao Céu, é proibido agir contra a Torá. E também o apanhador de lenha, ainda que a sua intenção fosse voltada ao Céu, como está no Midrash (Targum Yonatan, neste versículo), mesmo assim foi castigado — com a morte por apedrejamento (Bamidbar 15:36) —, pois não é vontade do Nome que o homem se coloque numa coisa assim. Só quando lhe vier por acaso às mãos algo que tenha glória para Ele, da parte do homem, não precisa atentar à glória de quem o faz, nem deve lançar-se nisso de início — sem que as circunstâncias o tragam a isso —; pois, de início, é preciso cuidar de achar graça aos olhos de Deus e dos homens.

וַיִּהְיוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל בַּמִּדְבָּר וַיִּמְצְאוּ אִישׁ מְקֹשֵׁשׁ עֵצִים בְּיוֹם הַשַּׁבָּת. אִיתָא בַּגְּמָ' (מנחות נ"ט.) יֵשׁ טְעוּנוֹת שֶׁמֶן וּלְבוֹנָה שֶׁמֶן וְלֹא לְבוֹנָה וּלְבוֹנָה וְלֹא שֶׁמֶן. שֶׁמֶן מוֹרֶה עַל תִּפְאֶרֶת לוֹ מִן הָאָדָם, הַיְינוּ שֶׁיִּהְיֶה הָאָדָם צַדִּיק וְטָהוֹר בְּעוֹמֶק לִבּוֹ וְיִהְיֶה כַּוָּנָתוֹ לְשֵׁם שָׁמַיִם כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר בִּמְקוֹמוֹ (לעיל ח"א פ' וישב ד"ה ויהי ער), וּלְבוֹנָה מוֹרָה עַל תִּפְאֶרֶת לְעוֹשֶׂיהָ הַיְינוּ שֶׁיִּהְיֶה תִּפְאֶרֶת לָאָדָם הָעוֹשֶׂה לְעֵינֵי אָדָם, וְהִנֵּה הָאָדָם צָרִיךְ לִרְאוֹת שֶׁכָּל מַעֲשָׂיו יִהְיוּ תִּפְאֶרֶת לְעוֹשֶׂיהָ וְתִפְאֶרֶת לוֹ מִן הָאָדָם, אַךְ לִפְעָמִים נִמְצָא עֵת לַעֲשׂוֹת לַה' שֶׁאֵין הָאָדָם צָרִיךְ לְהַשְׁגִּיחַ עַל תִּפְאֶרֶת לְעוֹשֶׂיהָ רַק שֶׁיִּהְיֶה כַּוָּנָתוֹ לְשֵׁם שָׁמַיִם, כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב (תהלים קי"ט,קכ"ו) "עֵת לַעֲשׂוֹת לַה' הֵפֵרוּ תּוֹרָתֶךָ", וְלִפְעָמִים זֶה הוּא רְצוֹן הַש"י, וְגַם לִפְעָמִים יִמָּצֵא לְהֵיפֶךְ אַף כִּי כַּוָּנַת הָאָדָם הוּא לְשֵׁם שָׁמַיִם אָסוּר לַעֲשׂוֹת נֶגֶד הַתּוֹרָה, וְגַם הַמְקוֹשֵׁשׁ אַף שֶׁהָיְתָה כַּוָּנָתוֹ לְשֵׁם שָׁמַיִם כִּדְאִיתָא בַּמִּדְרָשׁ (תרגום יונתן כאן) מִכָּל מָקוֹם נֶעֱנַשׁ, כִּי אֵין רְצוֹן הַש"י שֶׁהָאָדָם יַכְנִיס עַצְמוֹ בְּדָבָר כָּזֶה, רַק לִכְשֶׁיְּאוּנֶּה לְיָדוֹ דָּבָר שֶׁיֵּשׁ לָהּ תִּפְאֶרֶת מִן הָאָדָם, אֵין צָרִיךְ לְהַשְׁגִּיחַ עַל תִּפְאֶרֶת לְעוֹשֶׂיהָ וְלֹא לְהַכְנִיס עַצְמוֹ בָּזֶה לְכַתְּחִילָּה, כִּי לְכַתְּחִילָּה צָרִיךְ לִרְאוֹת שֶׁיִּמְצָא חֵן בְּעֵינֵי אֱלֹקִים וְאָדָם.
Parágrafo 5

“E farão para si tsitsit” (Bamidbar 15:38). O sentido de a porção dos tsitsit franjas rituais vir junto à do apanhador de lenha é que os tsitsit aludem ao temor, como está escrito “e vê-lo-eis e vos lembrareis” (Bamidbar 15:39); e o Shabat alude à grande firmeza — a firmeza de quem não cede de sua convicção —, pois alude ao dia que é todo Shabat, quando se retirarão todos os temores. É como na palavra do Midrash (Torat Kohanim, Bechukotai, parashá 3:3): “Eu passearei convosco no Gan Eden”, e as mitzvot serão anuladas no tempo vindouro (Nidá 61b) — quando já não haverá necessidade de temor —. E estava na opinião do apanhador de lenha que no Shabat não é preciso valer-se da qualidade do temor. Mas, na verdade, agora, antes do esclarecimento — a depuração final do mundo —, é preciso valer-se do temor, e em particular para praticar uma ação.

וְעָשׂוּ לָהֶם צִיצִית. הָעִנְיָן שֶׁנִּסְמַךְ פָּרָשַׁת צִיצִית לְפָרָשַׁת הַמְקוֹשֵׁשׁ כִּי צִיצִית מְרַמְּזִין עַל יִרְאָה כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב "וּרְאִיתֶם אֹתוֹ וּזְכַרְתֶּם", וְשַׁבָּת מְרַמֵּז עַל גּוֹדֶל תַּקּוּפוּת כִּי מְרַמֵּז עַל יוֹם שֶׁכֻּלּוֹ שַׁבָּת שֶׁאָז יִסְתַּלְּקוּ כָּל הַיִּרְאוֹת כְּמַאֲמַר הַמִּדְרָשׁ (תורת כהנים בחוקותי פרשה ג',ג') "אֲנִי אֲטַיֵּיל עִמָּכֶם בְּגַן עֵדֶן" וּמִצְוֹת בְּטֵילוֹת לֶעָתִיד לָבֹא (נדה ס"א:), וְהָיָה בְּדַעַת הַמְקוֹשֵׁשׁ כִּי בְּשַׁבָּת אֵין צָרִיךְ לְהִשְׁתַּמֵּשׁ בְּמִדַּת הַיִּרְאָה, וּבֶאֱמֶת עַתָּה קוֹדֶם הַבֵּרוּר צָרִיךְ לְהִשְׁתַּמֵּשׁ בְּיִרְאָה וּבִפְרָט לַעֲשׂוֹת מַעֲשֶׂה.
Parágrafo 6

“E farão para si tsitsit” (Bamidbar 15:38). O sentido dos tsitsit, que também são chamados gedilim cordões trançados (Devarim 22:12). Tsitsit indica temor: que o homem não seja sábio aos seus próprios olhos a ponto de transgredir as palavras da Torá, ainda que na medida de um fio de cabelo, e que tema também ser limpo aos olhos das pessoas — sem mancha perante elas —. E gedil o cordão trançado indica firmeza: que o homem não se enfraqueça diante dos que o acusam com ódio e seja firme em sua convicção diante deles.

וְעָשׂוּ לָהֶם צִיצִית. הָעִנְיָן שֶׁל צִיצִית הַנִּקְרָאִים גַּם כֵּן גְּדִילִים. צִיצִית מוֹרָה עַל יִרְאָה שֶׁלֹּא יִהְיֶה הָאָדָם חָכָם בְּעֵינָיו לַעֲבֹר עַל דִּבְרֵי תּוֹרָה אַף כְּחוּט הַשַּׂעֲרָה וְיִרְאֶה גַּם לִהְיוֹת נָקִי מֵעֵינֵי הָאָדָם. וּגְדִיל מוֹרֶה עַל תַּקּוּפוּת שֶׁלֹּא יֵרַךְ הָאָדָם מִפְּנֵי הַמְּקַטְרֵיגִים עָלָיו בְּשִׂנְאָה וְיִהְיֶה תַּקִּיף בְּדַעְתּוֹ נֶגְדָּם.
Parágrafo 7

Nesta parashá encontram-se seis temas, e correspondem às seis coisas que disse David, o rei, a paz sobre ele, no livro de Tehilim (19:8). “A Torá do Eterno é íntegra, restaura a alma”: ela corresponde à porção das libações, pois a porção das libações lhes foi dada para reanimar e fazer voltar a sua alma depois do episódio dos espias. Por isso lhes foi dada a porção das libações, que alude à alegria, como na abertura do Rabi Tanchuma — o proêmio com que o Midrash Tanchuma inicia a parashá — (Shelach 14): “Vai, come com alegria o teu pão” (Kohelet 9:7); e aludiu-lhes que, com este ato, alegraram o Nome, bendito seja. E isto lhes foi dado depois de terem julgado que haviam pecado até a profundeza da sua vitalidade — até o mais fundo da sua vida —; e esta é a intenção do Midrash (Bamidbar Rabá 16:4): “Estrangeiros eram os espias”, pois a raiz do tema goy gentio, nação estrangeira é cólera, e esta qualidade não tem parte alguma em Israel. E sobre isto se diz “A Torá do Eterno é íntegra, restaura a alma”, isto é, Ele fez voltar a alma deles, pois na verdade visaram a vontade do Nome, já que a palavra do Nome foi (Bereshit 15:16): “E na quarta geração voltarão para cá” — a promessa feita a Avraham —. E na verdade estava ao seu alcance elogiar a Terra; só que tinham um discernimento no coração, da parte do Eterno, de que, ao difamá-la, visavam a vontade do Nome, e foi-lhes dada a porção das libações. E isto é chamado (Shir HaShirim 5:1) “bebi o meu vinho”, isto é, que alegraram o Eterno por se deixarem vencer pelo Nome, bendito seja — aceitando não prevalecer diante da vontade divina —, e isto só Israel pode. Pois nenhum gentio traz libações sem um sacrifício; só Israel — isto é, só Israel traz libações avulsas —, como está em Menachot (73b), porque um estrangeiro não pode concordar em ser vencido pelo Eterno, como foi explicado. “O testemunho do Eterno é fiel, torna sábio o simples”: testemunho é coisa clara, e isto corresponde a Yehoshua, pois, enquanto não estão claros para o homem os motivos das mitzvot, ele pode facilmente deixar-se seduzir por qualquer coisa que lhe surja pela frente; mas, quando se lhe revelam os motivos das mitzvot, não pode mais ser seduzido. E, como Yehoshua tinha as qualidades da integridade, como foi explicado — no parágrafo 2 —, o Nome, bendito seja, o fixou na tenda de Moshé — Yehoshua, o servidor de Moshé, que não saía da tenda —, pois de Moshé Rabenu, a paz sobre ele, ele se deixava seduzir, já que só se deixava seduzir para o bem; e é por isso que o seu nome foi chamado Yehoshua. “Os preceitos do Eterno são retos, alegram o coração”: preceitos do Eterno, isto é, decretos e advertências do Eterno, que, embora pareçam decretos, são em profundidade cheios de misericórdia e amor; e isto corresponde à porção do apanhador de lenha. Embora o Nome, bendito seja, tenha advertido sobre o Shabat com várias advertências, e se diga “seus profanadores” etc. (Shemot 31:14), isto é porque há no Shabat um bem profundo e Ele teme que não o recebam em plenitude; sobre isto o Santo, Bendito Seja, advertiu, para que não percam o bem, mas o recebam em plenitude, como o pai ameaça o filho por amor. “O mandamento do Eterno é puro, ilumina os olhos”: isto corresponde à porção dos tsitsit, pois tsitsit indica temor, e, pelo temor que o homem tem, o Eterno lhe ilumina os olhos. E como está no Midrash (na Guemará, Menachot 43b): quem é cuidadoso com o mandamento dos tsitsit merece receber a face da Shechiná — a Presença Divina —. “O temor do Eterno é puro, permanece para sempre”: isto corresponde ao mandamento da chalá, e é que o homem não deixe de reconhecer o Nome, bendito seja, como Rei sobre si, nem por um instante. E, ainda que tenha reconhecido o Eterno ao separar da colheita as terumot e os maaserot — as porções sagradas devidas ao Santuário, aos sacerdotes e aos levitas —, mesmo assim, quando quiser desfrutar da colheita e comer dela, precisa estar em temor, reconhecer o Eterno como Rei e separar a chalá — o pedaço de massa que se separa para o sacerdote —. “Os julgamentos do Eterno são verdade, justos todos juntos”: isto corresponde à porção “E quando errardes” (Bamidbar 15:22), e alude a que não há contradição alguma nas mitzvot do Eterno, de modo que uma anule a outra, como diz a Guemará (Horayot 13a), embora aqui se diga “um novilho em holocausto e um bode em expiação” (Bamidbar 15:24) e na porção de Vayikra se diga “um novilho em expiação” (Vayikra 4:14). E como resolveu ali a Guemará: aqui se trata de idolatria — o bode e o novilho de Bamidbar 15 — e ali dos demais mandamentos — o novilho de Vayikra 4 —, e não há contradição alguma.

בְּהַסִּדְרָה הַזֹּאת נִמְצָא שִׁשָּׁה עִנְיָנִים וְהֵם נֶגֶד שִׁשָּׁה דְּבָרִים שֶׁאָמַר דָּוִד הַמֶּלֶךְ עָלָיו הַשָּׁלוֹם בְּסֵפֶר תְּהִלִּים (י"ט,ח'). "תּוֹרַת ה' תְּמִימָה מְשִׁיבַת נָפֶשׁ", הִיא נֶגֶד פָּרָשַׁת נְסָכִים כִּי פָּרָשַׁת הַנְּסָכִים נִתַּן לָהֶם לְהַחֲיוֹת וּלְהָשִׁיב נַפְשָׁם אַחַר מַעֲשֵׂה הַמְרַגְּלִים, לְפִיכָךְ נִתַּן לָהֶם פָּרָשַׁת נְסָכִים שֶׁרוֹמֵז עַל שִׂמְחָה כִּפְתִיחַת רַבִּי תַּנְחוּמָא (שלח י"ד) "לֵךְ אֱכֹל בְּשִׂמְחָה לַחְמֶךָ" וְרָמַז לָהֶם כִּי שִׂמְּחוּ אֶת הַש"י בַּמַּעֲשֶׂה הַזֹּאת. וְזֶה נִתַּן לָהֶם אַחַר שֶׁסָּבְרוּ שֶׁחָטְאוּ עַד עֹמֶק חִיּוּתָם וְזֶה כַּוָּונוֹת הַמִּדְרָשׁ (במדבר רבה פרשה ט"ז,ד') נָכְרִים הָיוּ הַמְרַגְּלִים, כִּי שֹׁרֶשׁ עִנְיַן גּוֹי הוּא כַּעַס וְזֹאת הַמִּדָּה אֵין לָהּ שׁוּם חֵלֶק בְּיִשְׂרָאֵל. וְעַל זֶה נֶאֱמַר "תּוֹרַת ה' תְּמִימָה מְשִׁיבַת נָפֶשׁ" הַיְנוּ שֶׁהֵשִׁיב אֶת נַפְשָׁם, כִּי בֶּאֱמֶת כִּוְּנוּ לִרְצוֹן הַש"י, כִּי מַאֲמַר הַש"י (בראשית ט"ו,ט"ז) "וְדוֹר רְבִיעִי יָשׁוּבוּ הֵנָּה". וּבֶאֱמֶת הָיָה בִּיכָלְתָּם לְשַׁבֵּחַ אֶת הָאָרֶץ רַק שֶׁהָיָה לָהֶם בִּינָה בְּלִבָּם מֵאֵת ה' שֶׁבָּזֶה שֶׁגִּנּוּ אוֹתָהּ, כִּוְּנוּ לִרְצוֹן הַש"י וְנִתַּן לָהֶם פָּרָשַׁת נְסָכִים. וְזֶה נִקְרָא (שיר השירים ה',א') "שָׁתִיתִי יֵינִי", הַיְנוּ שֶׁשִּׂמְּחוּ אֶת ה' בְּמַה שֶּׁהָיוּ מַנִּיחִים אֶת עַצְמָם לִהְיוֹת מְנֻצָּחִים מֵהַש"י וְזֶה לֹא יוּכַל כִּי אִם יִשְׂרָאֵל. כִּי אֵין גּוֹי מֵבִיא נְסָכִים בְּלֹא זֶבַח רַק יִשְׂרָאֵל כִּדְאִיתָא בִּמְנָחוֹת (ע"ג:) לְפִי שֶׁאֵין נָכְרִי יָכוֹל לְהַסְכִּים לִהְיוֹת מְנֻצָּח מֵה' כַּמְבֹאָר. "עֵדוּת ה' נֶאֱמָנָה מַחְכִּימַת פֶּתִי". עֵדוּת הוּא דָּבָר בָּרוּר וְזֶה הוּא נֶגֶד יְהוֹשֻׁעַ כִּי בְּעוֹד שֶׁאֵין בָּרוּר לָאָדָם טַעֲמֵי הַמִּצְוֹת יוּכַל בְּקַל לְהִתְפַּתּוֹת לְכָל דָּבָר שֶׁיָּבֹא נִכְחוֹ. אַךְ כַּאֲשֶׁר נִגְלוּ לוֹ טַעֲמֵי הַמִּצְוֹת לֹא יוּכַל עוֹד לְהִתְפַּתּוֹת. וּלְפִי שֶׁיְּהוֹשֻׁעַ הָיָה לוֹ מִדּוֹת הַתְּמִימוּת כְּמוֹ שֶׁנִּתְבָּאֵר וְלָכֵן קָבַע אוֹתוֹ הַש"י בְּאֹהֶל מֹשֶׁה, כִּי מִמֹּשֶׁה רַבֵּנוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם הָיָה מַנִּיחַ אֶת עַצְמוֹ לְהִתְפַּתּוֹת כִּי לֹא נִתְפַּתָּה רַק לְטוֹב, וְזֶה שֶׁנִּקְרָא שְׁמוֹ יְהוֹשֻׁעַ. "פִּקּוּדֵי ה' יְשָׁרִים מְשַׂמְּחֵי לֵב", פִּקּוּדֵי ה' הַיְינוּ גְּזֵרוֹת וְאַזְהָרוֹת ה' אַף שֶׁנִּרְאִים כִּגְזֵרוֹת הֵם בָּעוֹמֶק מָלֵא רַחְמָנוּת וְאַהֲבָה וְזֶה נֶגֶד פָּרָשַׁת מְקוֹשֵׁשׁ, אַף כִּי בְּשַׁבָּת הִזְהִיר הַש"י כַּמָּה אַזְהָרוֹת וְנֶאֱמַר "מְחַלְלֶיהָ" וְכוּ׳, וְזֶה מִפְּנֵי שֶׁיֵּשׁ בְּשַׁבָּת טוֹבָה עֲמֻקָּה וְיָרֵא פֶּן לֹא יְקַבְּלוּ אוֹתָהּ בִּשְׁלֵמוּת, עַל זֶה הִזְהִיר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁלֹּא לְאַבֵּד הַטּוֹבָה רַק לְקַבְּלָהּ בִּשְׁלֵמוּת וּכְמוֹ שֶׁהָאָב יְאַיֵּם עַל בְּנוֹ מִפְּנֵי אַהֲבָתוֹ. "מִצְוַת ה' בָּרָה מְאִירַת עֵינָיִם". זֶה נֶגֶד פָּרָשַׁת צִיצִית כִּי צִיצִית מוֹרָה עַל יִרְאָה וְעַל יְדֵי יִרְאָה שֶׁיִּהְיֶה לָאָדָם עַל יְדֵי זֶה יָאִיר ה' אֶת עֵינָיו. וּכְמוֹ דְּאִיתָא בַּמִּדְרָשׁ (בגמ' מנחות מ"ג:) כָּל הַזָּהִיר בְּמִצְוַת צִיצִית זוֹכֶה וּמְקַבֵּל פְּנֵי הַשְּׁכִינָה. "יִרְאַת ה' טְהוֹרָה עוֹמֶדֶת לָעַד". הוּא נֶגֶד מִצְוַת חַלָּה וְהוּא שֶׁלֹּא יַנִּיחַ הָאָדָם מִלְּהַמְלִיךְ אֶת הַש"י עָלָיו אַף רֶגַע אֶחָד. וְאַף כִּי הִמְלִיךְ אֶת ה' בְּהַפְרִישׁוֹ מֵהַתְּבוּאָה תְּרוּמוֹת וּמַעַשְׂרוֹת, עִם כָּל זֶה כַּאֲשֶׁר יִרְצֶה לֵהָנוֹת וְלֶאֱכֹל מֵהַתְּבוּאָה צָרִיךְ לִהְיוֹת בְּיִרְאָה וּלְהַמְלִיךְ אֶת ה' וּלְהַפְרִישׁ חַלָּה. "מִשְׁפְּטֵי ה' אֱמֶת צָדְקוּ יַחְדָּו". הוּא נֶגֶד פָּרָשַׁת "וְכִי תִשְׁגּוּ", וְהוּא רוֹמֵז שֶׁאֵין שׁוּם סְתִירָה בְּמִצְוֹת ה' שֶׁיִּסְתְּרוּ זֶה אֶת זֶה כְּמַאֲמַר הַגְּמָרָא (הוריות י"ג.) אַף שֶׁבְּכָאן נֶאֱמַר פַּר לְעוֹלָה וְשָׂעִיר לְחַטָּאת וּבְפָרָשַׁת וַיִּקְרָא נֶאֱמַר פַּר לְחַטָּאת. וּכְמוֹ שֶׁתֵּרֵץ שָׁם הַגְּמָרָא כָּאן בַּעֲבוֹדָה זָרָה וְכָאן בִּשְׁאָר מִצְוֹת וְאֵין שׁוּם סְתִירָה.
Parte II · Sefaria Volume II
Parágrafo 8

“E falou o Eterno a Moshé, dizendo: Envia homens para ti, e que espiem a terra de Canaã etc., e voltaram de espiar a terra ao fim de quarenta dias etc.” (Bamidbar 13:1-2, 25). Este é o sentido do que disse o versículo (Tehilim 119:18): “Abre os meus olhos, e contemplarei maravilhas da Tua Torá”. Está no Zohar (Behaalotcha 152a): “o que está sob a veste da Torá” — o texto está em aramaico; a veste é a casca externa, a letra e o cumprimento visíveis —. Pois a raiz da Terra de Israel é que nela as palavras da Torá estão explícitas, e ali se revela que é uma terra que o Eterno busca sempre (Devarim 11:12). Por isso os cuteus — os povos que o rei da Assíria estabeleceu na Terra — não tiveram subsistência na Terra de Israel até que aprenderam o julgamento do Deus da terra (Melachim II 17:26) e cumpriram as palavras da Torá. Pois as palavras da Torá fixadas no inanimado — o plano mais baixo da criação, aqui a própria terra — estão muito escondidas sob a veste e não se veem; porque também nas palavras da Torá explícitas não se vê, na veste, a profundidade da sua preciosidade, já que, sobre a veste, aparecem como jugo e fardo. Mas quem busca o Eterno ora ao Nome, bendito seja, que lhe abra os olhos e contemple maravilhas da Sua Torá, o que está sob a veste da Torá, e então verá que o seu interior é todo entretecido de amor. E assim também aos espias Moshé Rabenu ordenou que contemplassem a profundeza do interior, e isto é o que indica a palavra “e espiarão”, do verbo tur explorar a fundo. E, se tivessem feito assim, teriam visto que em profundidade ela é cheia de bem; mas eles olharam apenas para a veste, e pareceu que é uma terra que devora os seus habitantes (Bamidbar 13:32). E, se não tivessem se queixado com cólera, mas tivessem orado ao Nome, bendito seja, que lhes abrisse os olhos para verem maravilhas da Sua Torá, então teriam reconhecido que em profundidade há ali palavras da Torá explícitas e que, sob a veste, ela é toda entretecida de amor.

וַיְדַבֵּר ה' אֶל מֹשֶׁה לֵּאמֹר, שְׁלַח לְךָ אֲנָשִׁים וְיָתֻרוּ אֶת אֶרֶץ כְּנַעַן וְגוֹ' וַיָּשֻׁבוּ מִתּוּר הָאָרֶץ מִקֵּץ אַרְבָּעִים יוֹם וְגוֹ'. זֶה שֶׁאָמַר הַכָּתוּב (תהלים קי"ט,י"ח) "גַּל עֵינַי וְאַבִּיטָה נִפְלָאוֹת מִתּוֹרָתֶךָ", אִיתָא בַּזה"ק (בהעלותך קנ"ב.) מַה דִּתְחוֹת לְבוּשָׁא דְּאוֹרַיְיתָא, כִּי שֹׁרֶשׁ אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל הוּא שֶׁמְּפֹרָשׁ בָּהּ הַדִּבְרֵי תּוֹרָה, וְשָׁם נִתְגַּלֶּה שֶׁהוּא אֶרֶץ אֲשֶׁר ה' דּוֹרֵשׁ אוֹתָהּ תָּמִיד, וְלָכֵן לֹא הָיָה לְהַכּוּתִים קִיּוּם בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל עַד שֶׁלָּמְדוּ מִשְׁפַּט אֱלֹהֵי הָאָרֶץ וְקִיְּמוּ דִּבְרֵי תּוֹרָה, כִּי הַדִּבְרֵי תּוֹרָה הַנִּקְבָּעִים בַּדּוֹמֵם מְאֹד נִסְתָּרִים עַל הַלְּבוּשׁ וְלֹא יִתְרָאוּ, כִּי גַּם בְּדִבְרֵי תּוֹרָה מְפֹרָשִׁים לֹא נִתְרָאֶה עַל הַלְּבוּשׁ עוֹמֶק יַקְרוּתָם, כִּי עַל הַלְּבוּשׁ יִתְרָאוּ כְּעוֹל וּמַשָּׂא, אַךְ הַמְבַקֵּשׁ ה' מִתְפַּלֵּל לְהַשי"ת שֶׁיְּגַלֶּה עֵינָיו וְיַבִּיט נִפְלָאוֹת מִתּוֹרָתוֹ מַה דִּתְחוֹת לְבוּשָׁא דְאוֹרַיְיתָא וְאָז יִרְאֶה שֶׁתּוֹכָם רָצוּף אַהֲבָה, וְכֵן לְהַמְרַגְּלִים צִוָּה מֹשֶׁה רַבֵּינוּ שֶׁיַּבִּיטוּ לְעוֹמֶק הַפְּנִימִיּוּת שֶׁזֶּה מוֹרֶה לְשׁוֹן וְיָתֻרוּ, וְאִם עָשׂוּ כֵן הָיָה רוֹאִים שֶׁבָּעוֹמֶק הוּא מָלֵא טוֹבָה, אַךְ הֵם הִסְתַּכְּלוּ רַק עַל הַלְּבוּשׁ וְהָיָה נִרְאֶה שֶׁהוּא אֶרֶץ אוֹכֶלֶת יוֹשְׁבֶיהָ, וְאִם לֹא הִתְרַעֲמוּ בְּכַעַס רַק הִתְפַּלְּלוּ לְהַשי"ת שֶׁיְּגַל עֵינָם וְיִרְאוּ נִפְלָאוֹת מִתּוֹרָתוֹ אָז הִכִּירוּ שֶׁבָּעוֹמֶק יֵשׁ שָׁם דִּבְרֵי תוֹרָה מְפֹרָשִׁים וְתַחַת הַלְּבוּשׁ הוּא רָצוּף אַהֲבָה.
Parágrafo 9

O tema do pecado dos espias: a intenção deles era, de fato, voltada ao Céu, e foi uma avera lishmá transgressão praticada com intenção voltada ao Céu. Pois sabiam com clareza que a morte de Moshé Rabenu dependia da entrada na Terra, e sabiam também o que está na Guemará (Avodá Zará 5b): “Não se firma uma pessoa na mente do seu mestre senão após quarenta anos” — isto é, só ao cabo de quarenta anos de convivência o discípulo chega a compreender o mestre; o texto está em aramaico —. Por isso planejaram um estratagema para retardar a entrada na Terra, a fim de que Moshé Rabenu pudesse permanecer ainda com eles, para que eles pudessem apreender a profundidade da sua mente. Mas, na verdade, isso foi considerado pecado, pois o Nome, bendito seja, disse: Acaso não Me chamo “grande em conselho” (Yirmiyahu 32:19), e Todo-Poderoso? Se for a Minha vontade que Moshé Rabenu permaneça ainda convosco, algo Me seria extraordinário (Bereshit 18:14)? Pois junto ao Nome, bendito seja, não se encontram duas coisas que se contradizem — aqui, a vida de Moshé e a entrada na Terra —, e Ele não precisa de conselho humano — ao contrário da astúcia dos espias —; e, se fosse a Sua vontade a vida de Moshé, a entrada na Terra não a contradiria. E eis a prova: Yehoshua e Calev também sabiam isto e queriam também a vida de Moshé, mas foram com a sua integridade e não maquinaram estratagema algum contra a vontade do Nome, e obtiveram o seu pedido e o seu desejo. E disse o Nome, bendito seja: Vede a profundidade dos resultados da conduta de Yehoshua e Calev, que, na sua integridade, obtiveram do Nome, bendito seja, a sua vontade.

עִנְיַן חֵטְא הַמְרַגְּלִים כַּוָּנָתָם הָיָה בֶּאֱמֶת לְשֵׁם שָׁמַיִם וְהָיָה עֲבֵירָה לִשְׁמָהּ שֶׁזֹּאת יָדְעוּ בָּרוּר שֶׁמִּיתַת מֹשֶׁה רַבֵּינוּ תְּלוּיָה בְּבִיאַת הָאָרֶץ וְגַם זֹאת יָדְעוּ שֶׁאִיתָא בַּגְּמָרָא (ע"ז ה':) לֹא קָאֵי אִינִשׁ אַדַּעְתֵּיהּ דְּרַבֵּיהּ עַד אַרְבְּעִין שְׁנִין לָכֵן הִתְחַכְּמוּ עֵצָה לְעַכֵּב בִּיאַת הָאָרֶץ כְּדֵי שֶׁיּוּכַל מֹשֶׁה רַבֵּינוּ לִהְיוֹת עוֹד אֶצְלָם לְמַעַן שֶׁיּוּכְלוּ לַעֲמֹד עַל עוֹמֶק דַּעְתּוֹ, אָכֵן בֶּאֱמֶת הָיָה זֶה נֶחְשָׁב לְחֵטְא, כִּי הַשי"ת אָמַר הֲלֹא אֲנִי נִקְרָא גְּדוֹל הָעֵצָה וְכֹל יָכוֹל וְאִם יִהְיֶה רְצוֹנִי שֶׁיִּהְיֶה מֹשֶׁה רַבֵּינוּ עוֹד אֶצְלְכֶם הֲיִפָּלֵא מִמֶּנִּי דָּבָר הֲלֹא אֵצֶל הַשי"ת לֹא נִמְצָא תַּרְתֵּי דְּסַתְרֵי, וְאֵינוֹ צָרִיךְ לַעֲצַת אָדָם וְאִם הָיָה רְצוֹנוֹ בְּחַיֵּי מֹשֶׁה לֹא הָיָה בִּיאַת הָאָרֶץ סוֹתֵר לָזֶה, וְהָא רְאָיָה הֲלֹא יְהוֹשֻׁעַ וְכָלֵב גַּם כֵּן יָדְעוּ זֹאת וְרָצוּ גַּם כֵּן בְּחַיֵּי מֹשֶׁה וְהָלְכוּ לְתֻמָּם וְלֹא הִתְחַכְּמוּ שׁוּם עֵצָה נֶגֶד רְצוֹן הַשי"ת וְהִשִּׂיגוּ שְׁאֵלָתָם וְחֶפְצָם, וְאָמַר הַשי"ת רְאוּ עוֹמֶק תּוֹצְאוֹת הַדָּבָר שֶׁל יְהוֹשֻׁעַ וְכָלֵב שֶׁבְּתֻמָּם הֵפִיקוּ רְצוֹנָם מֵהַשי"ת.
Parágrafo 10

Depois da porção dos espias está escrita a porção das libações. Isto é, depois que o Nome, bendito seja, viu a grandeza da amargura do coração deles após o episódio dos espias, deu-lhes a porção das libações para reanimar a sua alma e o seu coração amargurado, como está escrito (Mishlei 31:6): “e vinho aos amargurados de alma”. E é o que está escrito (Kohelet 9:7): “Vai, come com alegria o teu pão e bebe com bom coração o teu vinho”, isto é, quem está em tristeza e amargura e bebe vinho, para que com isso o seu coração se fortaleça e ele tenha bom coração, tem permissão de beber; mas quem bebe vinho para esquentar o sangue e irar-se, isso é uma qualidade muito reprovável — o vinho serve à alegria que fortalece, não à cólera —. E é o que se diz: “Nada há nos Profetas que não esteja aludido na Torá” — o texto está em aramaico —; pois, desta porção, disse Shlomo, o rei, a paz sobre ele — a quem a tradição atribui o livro de Mishlei —, “e vinho aos amargurados de alma”.

אַחַר פָּרָשַׁת מְרַגְּלִים כְּתִיב פָּרָשַׁת נְסָכִים. הַיְינוּ אַחַר שֶׁרָאָה הַשי"ת אֶת גּוֹדֶל מְרִירוּת לִבָּם אַחַר מַעֲשֵׂה הַמְרַגְּלִים לָכֵן נָתַן לָהֶם פָּרָשַׁת נְסָכִים לְהַחֲיוֹת אֶת נַפְשָׁם וְלִבָּם הַנִּמְרָר כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב (משלי ל"א,ו') "וְיַיִן לְמָרֵי נָפֶשׁ" וְזֶה שֶׁכָּתוּב (קהלת ט',ז') "לֵךְ אֱכֹל בְּשִׂמְחָה לַחְמֶךָ וּשְׁתֵה בְלֶב טוֹב יֵינֶךָ", הַיְינוּ מִי שֶׁהוּא בְּעוֹצֶב וּמְרִירוּת וְשׁוֹתֶה יַיִן שֶׁעַל יְדֵי זֶה יִתְחַזֵּק לִבּוֹ וְיִהְיֶה לוֹ לֵב טוֹב מֻתָּר לִשְׁתּוֹת, אֲבָל מִי שֶׁשּׁוֹתֶה יַיִן לִרְתֹּחַ דָּמוֹ וְלִכְעֹס זֶה הוּא מִדָּה מְגֻנָּה מְאֹד, וְזֶה שֶׁלֵּיכָּא מִידֵי בִּנְבִיאֵי דְּלֹא רְמִיזָא בְּאוֹרַיְיתָא שֶׁמִּזֶּה הַפָּרָשָׁה אָמַר שְׁלֹמֹה הַמֶּלֶךְ עָלָיו הַשָּׁלוֹם "וְיַיִן לְמָרֵי נָפֶשׁ".
Parágrafo 11

Sobre o tema da porção das libações e da chalá, está no Midrash Tanchuma (Shelach 14): “Vai, come com alegria o teu pão, e bebe com bom coração o teu vinho” (Kohelet 9:7). E, assim sendo, a ordem deveria ter sido a porção da chalá e depois as libações, pois, na verdade, a mitzvá da chalá alude a um temor intenso: ainda que tenha separado a terumá e o primeiro e o segundo dízimo, é preciso ainda recordar o Nome na hora de amassar a massa — o momento da separação da chalá —. E as libações indicam firmeza, pois os canais perfuram e descem até o abismo — os canais sob o altar por onde escorriam as libações —, como está na Guemará (Sucá 49a), o que indica que cada coisa foi esclarecida em profundidade. E, assim sendo, a ordem deveria ter sido, primeiro, a porção da chalá, isto é, que, antes da ação, o homem precisa de temor; e depois, quanto ao que já passou, o homem precisa fortalecer-se com firmeza — a firmeza de ânimo de quem não se abate —. Porém aqui se diz primeiro a porção das libações, porque aqui isso foi uma coisa dita no seu tempo, quão boa! Pois, depois do episódio dos espias, eles desesperaram em seu conhecimento — perderam a esperança —, por terem visto que, na profundeza do seu coração, não amariam a Terra e ela não seria boa aos seus olhos, como está escrito “Nossos irmãos fizeram derreter o nosso coração” (Devarim 1:28). E por isso lhes pareceu que, Deus nos livre, a sua vida era o oposto da vontade do Nome. Por isso está dito sobre isto em Tanna Devei Eliyahu Rabá (cap. 29): “saiu-lhes o coração” — perderam o ânimo —. Pois em todos os assuntos, mesmo que o homem, Deus nos livre, transgrida palavras da Torá, ainda assim, na sua raiz, está apegado ao Nome; mas aqui, em que lhes pareceu que na raiz do seu coração não amariam a Terra, por isso “saiu-lhes o coração”, pois o coração indica a raiz da vida. E por isso o Nome, bendito seja, lhes deu a porção das libações, que indica firmeza; e por isso foi dita primeiro a porção das libações, pois esta porção era uma coisa dita no seu tempo.

עַל עִנְיַן פָּרָשַׁת נְסָכִים וְחַלָּה, אִיתָא בְּמִדְרַשׁ תַּנְחוּמָא (שלח י"ד) "לֵךְ אֱכֹל בְּשִׂמְחָה לַחְמֶךָ, וּשְׁתֵה בְלֶב טוֹב יֵינֶךָ", וְאִם כֵּן הָיָה צָרִיךְ לִהְיוֹת הַסֵּדֶר פָּרָשַׁת חַלָּה וְאַחַר כָּךְ נְסָכִים, כִּי בֶּאֱמֶת מִצְוַת חַלָּה רוֹמֵז לְיִרְאָה עֲצוּמָה שֶׁאַף שֶׁהִפְרִישׁ תְּרוּמָה וּמַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן וְשֵׁנִי צָרִיךְ לִזְכֹּר עוֹד אֶת הַשי"ת בִּשְׁעַת גִּלְגּוּל עִיסָה, וּנְסָכִים מוֹרֶה עַל תַּקּוּפוּת כִּי הַשִּׁיתִין נוֹקְבִין וְיוֹרְדִין עַד הַתְּהוֹם כִּדְאִיתָא בַּגְּמָרָא (סוכה מ"ט.) שֶׁזֶּה מוֹרֶה שֶׁנִּתְבָּרֵר כָּל דָּבָר בְּהָעֹמֶק, וְאִם כֵּן הָיָה צָרִיךְ לִהְיוֹת הַסֵּדֶר תְּחִלָּה פָּרָשַׁת חַלָּה הַיְינוּ שֶׁקֹּדֶם הַמַּעֲשֶׂה צָרִיךְ הָאָדָם יִרְאָה, וְאַחַר כֵּן עַל הֶעָבָר צָרִיךְ הָאָדָם לְהִתְחַזֵּק בְּתַקּוּפוּת, אָכֵן כָּאן נֶאֱמַר פָּרָשַׁת נְסָכִים תְּחִלָּה כִּי כָּאן הָיָה זֶה דָּבָר בְּעִתּוֹ מַה טּוֹב, כִּי אַחַר מַעֲשֵׂה הַמְרַגְּלִים נִתְיָאֲשׁוּ בְּדַעְתָּם יַעַן שֶׁרָאוּ שֶׁבְּעֹמֶק לִבָּם לֹא יֹאהֲבוּ אֶת הָאָרֶץ וְלֹא יִיטַב בְּעֵינָם, כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב "אַחֵינוּ הֵמַסּוּ אֶת לְבָבֵנוּ", וְלָכֵן נִדְמָה לָהֶם שֶׁחָלִילָה חַיֵּיהֶם הוּא הֵיפֶךְ מֵרְצוֹן הַשי"ת, וְלָכֵן אִיתָא עַל זֶה בְּתדבא"ר (פכ"ט) יָצָא לִבָּם, כִּי בְּכָל עִנְיָנִים אַף שֶׁחָלִילָה עוֹבֵר הָאָדָם עַל דִּבְרֵי תּוֹרָה מִכָּל מָקוֹם בְּשָׁרְשׁוֹ הוּא דָּבוּק לְהַשי"ת, אֲבָל כָּאן שֶׁנִּדְמָה לָהֶם שֶׁבְּשֹׁרֶשׁ לִבָּם לֹא יֹאהֲבוּ אֶת הָאָרֶץ לָכֵן יָצָא לִבָּם כִּי לֵב מוֹרֶה עַל שֹׁרֶשׁ הַחַיִּים, וְלָכֵן נָתַן לָהֶם הַשי"ת פָּרָשַׁת נְסָכִים שֶׁמּוֹרָה עַל תַּקּוּפוּת, וְלָכֵן נֶאֱמַר פָּרָשַׁת נְסָכִים תְּחִלָּה כִּי זֶה הַפָּרָשָׁה הָיָה דָּבָר בְּעִתּוֹ.
Parágrafo 12

“E aquele que oferecer a sua oferenda ao Eterno trará uma oferenda de farinha: flor de farinha, um décimo, misturada com um quarto de hin de azeite, e vinho para a libação, um quarto de hin etc.” (Bamidbar 15:4-5). Este é o sentido do que disse o versículo (Yoel 2:26): “E comereis até fartar e saciar-vos, e louvareis o nome do Eterno vosso Deus”, isto é, que também depois de comerdes e vos fartardes louvareis o Nome do Eterno. A isto alude o tema das libações: Israel santifica vinho — separa-o para o altar — e o leva ao altar, de modo que, ainda que sem o seu conhecimento, esteja cheio de louvores ao Eterno; isto é, mesmo em esquecimento e distração, a que alude o vinho, ainda assim estão apegados ao Eterno. E é o que conclui o versículo (Yoel 2:27): “e sabereis que no meio de Israel estou Eu, e Eu sou o Eterno vosso Deus, e não há outro, e o meu povo não será envergonhado para sempre”. Pois Ani “Eu” é o nome 37 dos 72 Nomes, que corresponde a esta parashá, que é a parashá 37, que corresponde à sefirá de Guevurá de Yesod — o rigor dentro de Yesod, a sefirá pela qual flui a influência —, que parece ser uma restrição na influência. E, porque nesta parashá foi dito “pois o Eterno não está no meio de vós” (Bamidbar 14:42), por isso disse o versículo “e sabereis que no meio de Israel estou Eu”. E, ainda que às vezes pareça que o Nome está em ocultamento da face em relação a Israel, como está escrito (Devarim 31:18): “E Eu esconderei, esconderei a Minha face naquele dia”, e os inimigos de Israel digam “não há Deus no meio deles” — eufemismo para o próprio Israel —, por isso disse que, ainda que “esconderei, esconderei”, mesmo assim Eu estou no meio de vós.

וְהִקְרִיב הַמַּקְרִיב קָרְבָּנוֹ לַה' מִנְחָה סֹלֶת עִשָּׂרוֹן בָּלוּל בִּרְבִעִית הַהִין שָׁמֶן, וְיַיִן לַנֶּסֶךְ רְבִיעִית הַהִין וְגוֹ'. זֶה שֶׁאָמַר הַכָּתוּב (יואל ב',כ"ו) "וַאֲכַלְתֶּם אָכוֹל וְשָׂבוֹעַ וְהִלַּלְתֶּם אֶת שֵׁם ה' אֱלֹהֵיכֶם", הַיְינוּ שֶׁאַף אַחַר שֶׁתֹּאכְלוּ וְתִשְׂבְּעוּ תְּהַלְלוּ אֶת שֵׁם ה'. שֶׁלָּזֶה רוֹמֵז עִנְיַן נְסָכִים שֶׁיִּשְׂרָאֵל מַקְדִּישִׁים יַיִן וּמְבִיאִין לַמִּזְבֵּחַ שֶׁאַף שֶׁלֹּא מִדַּעְתָּם יִהְיֶה מָלֵא הִלּוּלִים לַה', הַיְינוּ אַף מִתּוֹךְ שִׁכְחָה וְטִרְדָּה שֶׁלָּזֶה רוֹמֵז יַיִן מִכָּל מָקוֹם הֵם דְּבוּקִים בַּה'. וְזֶה שֶׁסִּיֵּם (שם) "וִידַעְתֶּם כִּי בְקֶרֶב יִשְׂרָאֵל אָנִי וַאֲנִי ה' אֱלֹהֵיכֶם וְאֵין עוֹד וְלֹא יֵבֹשׁוּ עַמִּי לְעוֹלָם", כִּי אֲנִי הוּא שֵׁם הַל"ז שֶׁבְּע"ב שֵׁמוֹת שֶׁהוּא כְּנֶגֶד פָּרָשָׁה זוֹ שֶׁהוּא פָּרָשָׁה ל"ז שֶׁהוּא נֶגֶד סְפִירַת גְּבוּרָה שֶׁבַּיְּסוֹד שֶׁנִּדְמֶה שֶׁהוּא צִמְצוּם בְּהַשְׁפָּעָה, וּלְפִי שֶׁנֶּאֱמַר בְּפָרָשָׁה זוֹ "כִּי אֵין ה' בְּקִרְבְּכֶם" לָכֵן אָמַר הַכָּתוּב "וִידַעְתֶּם כִּי בְקֶרֶב יִשְׂרָאֵל אָנִי" וְאַף שֶׁלִּפְעָמִים נִרְאֶה שֶׁהַשי"ת בְּהֶסְתֵּר פָּנִים מִיִּשְׂרָאֵל כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב (דברים ל"א,י"ח) "וְאָנֹכִי הַסְתֵּר אַסְתִּיר פָּנַי בַּיּוֹם הַהוּא" וְשׂוֹנְאֵי יִשְׂרָאֵל יֹאמְרוּ אֵין אֱלֹהִים בְּקִרְבָּם לָכֵן אָמַר שֶׁאַף עַל פִּי שֶׁהַסְתֵּר אַסְתִּיר מִכָּל מָקוֹם אֲנִי בְּקִרְבְּכֶם.
Parágrafo 13

“E farão para si tsitsit” (Bamidbar 15:38). E em outro lugar são chamados gedilim, pois tsitsit aludem ao temor e ao amor. O ramo — a franja que pende da veste — chama-se temor, isto é, que o homem não seja sábio aos seus próprios olhos e não saia das palavras da Torá nem na medida de um fio de cabelo; e, mesmo que tinokot shel beit raban crianças pequenas em idade escolar lhe perguntem se agiu como manda a lei, e ele tenha nisso uma intenção profunda, ainda assim lhes dirá a sua intenção e se mostrará submisso diante delas, e, se, Deus nos livre, errou, dirá a elas: errei. E isto se chama tsitsit. E gedil chama-se amor, isto é, se o homem sabe que aquele que lhe perguntou o faz por ódio, não precisas atentar a ele de modo algum, e terás firmeza e não lhe responderás. E este é o tema das duas perguntas que fizeram a Ben Zomá quando saiu do Pardes, como está na Guemará (Hagigá 14b), e como foi explicado na Primeira Parte (parashá Emor) e nesta parte (parashá Emor) o original traz “Emor” nas duas remissões. Pois estas duas perguntas eram: se lhe é leve, aos olhos, zombar das criaturas do Santo, Bendito Seja, num lugar onde a vontade do Nome é que se deve falar e revelar a intenção; e a segunda pergunta: talvez ele perceba o poder das criaturas como maior do que o que há nelas — atribuindo-lhes mais força do que realmente têm —. E isto é, que tenha firmeza no lugar em que vê a vontade do Nome iluminando-lhe com amor e firmeza; então deve atar a sua intenção como o gedil, que alude a isto, como foi explicado nesta parte (na parashá Ki Tetsé). E por isso havia gedil e petil fio na mitzvá dos tsitsit, pois o homem deve servir-se destes dois conforme lhe ilumine, diante de si, a vontade do Nome.

וְעָשׂוּ לָהֶם צִיצִת. וּבְמָקוֹם אַחֵר נִקְרָאִים גְּדִילִים, כִּי צִיצִית רוֹמְזִים לְיִרְאָה וְאַהֲבָה, הָעָנָף נִקְרָא יִרְאָה הַיְינוּ שֶׁלֹּא יִהְיֶה הָאָדָם חָכָם בְּעֵינָיו וְלֹא יֵצֵא חוּץ מִדִּבְרֵי תּוֹרָה כִּמְלֹא הַשַּׂעֲרָה, וַאֲפִילּוּ אִם תִּינוֹקֹת שֶׁל בֵּית רַבָּן יִשְׁאֲלוּ לוֹ אִם עָשָׂה כַּדִּין וְהוּא יֵשׁ לוֹ כַּוָּנָה עֲמוּקָה בָּזֶה, מִכָּל מָקוֹם יֹאמַר לָהֶם כַּוָּנָתוֹ בָּזֶה וְיִהְיֶה נִכְנָע מִפְּנֵיהֶם וְאִם חָלִילָה טָעָה יֹאמַר לָהֶם טָעִיתִי, וְזֶה נִקְרָא צִיצִית. וּגְדִיל נִקְרָא אַהֲבָה, הַיְינוּ שֶׁאִם יוֹדֵעַ הָאָדָם שֶׁזֶּה שֶׁשָּׁאַל לוֹ הוּא מִצַּד שִׂנְאָה אֵין אַתָּה צָרִיךְ לְהַשְׁגִּיחַ עָלָיו כְּלָל וְיִהְיֶה לְךָ תַּקּוּפוּת וְלֹא תַעֲנֶה לוֹ, וְזֶה הוּא עִנְיַן הַשְּׁנֵי שְׁאֵלוֹת שֶׁשָּׁאֲלוּ אֶת בֶּן זוֹמָא בְּעֵת שֶׁיָּצָא מִפַּרְדֵּס כִּדְאִיתָא בַּגְּמָרָא (חגיגה י"ד:) וְכַמְבֹאָר בְּחֵלֶק רִאשׁוֹן (פרשת אמור) וּבְחֵלֶק זֶה (פרשת אמור) כִּי אֵלּוּ הַשְּׁנֵי שְׁאֵלוֹת הָיָה אִם נָקֵל בְּעֵינָיו לְהִתְלוֹצֵץ מִבְּרִיּוֹתָיו שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּמָקוֹם שֶׁרְצוֹן הַשי"ת שֶׁצָּרִיךְ לוֹמַר וּלְגַלּוֹת הַכַּוָּנָה, וְכֵן הַשְּׁאֵלָה הַשְּׁנִיָּה אוּלַי מַשִּׂיג אֶת כֹּחַ הַבְּרוּאִים יוֹתֵר מִמַּה שֶּׁנִּמְצָא בָּהֶם, וְהַיְינוּ שֶׁיִּהְיֶה לוֹ תַּקּוּפוּת בְּמָקוֹם שֶׁרוֹאֶה אֶת רְצוֹן הַשי"ת שֶׁמֵּאִיר לוֹ בְּאַהֲבָה וּבְתַקּוּפוּת, אָז צָרִיךְ לְקַשֵּׁר כַּוָּנָתוֹ כְּמוֹ גְּדִיל שֶׁרוֹמֵז עַל זֹאת וְכַמְבֹאָר בְּחֵלֶק זֶה (בפרשת תצא), וְלָכֵן הָיוּ גְּדִיל וּפְתִיל בְּמִצְוַת צִיצִית שֶׁצָּרִיךְ הָאָדָם לְשַׁמֵּשׁ בְּאֵלּוּ הַשְּׁנַיִם כְּפִי שֶׁיָּאִיר לְפָנָיו רְצוֹן הַשי"ת.
Parágrafo 14

“E isto será para vós tsitsit, e vê-lo-eis e vos lembrareis de todos os mandamentos do Eterno e os cumprireis, e não seguireis etc.” (Bamidbar 15:39). E depois está escrito “e cumprireis todos os Meus mandamentos” (Bamidbar 15:40). Pois o tema da tchelet o fio azul-turquesa indica temor; e, no começo, quando o homem entra nas palavras da Torá, deve andar com temor, pois todos os começos são difíceis. Por isso está escrito em terceira pessoa “todos os mandamentos do Eterno etc. e não seguireis” — o versículo 39 fala de Deus em terceira pessoa, e o 40 em primeira, “Meus mandamentos” —, porque, Deus nos livre, seriam castigados. Mas depois, quando o homem aceita sobre si o jugo do reino do Céu, chega aos degraus do amor e vê o Nome diante de si, e é isso que está dito: “e cumprireis todos os Meus mandamentos”.

וְהָיָה לָכֶם לְצִיצִת וּרְאִיתֶם אֹתוֹ וּזְכַרְתֶּם אֶת כָּל מִצְוֹת ה' וַעֲשִׂיתֶם אֹתָם וְלֹא תָתוּרוּ וְגוֹ׳. וְאַחַר כָּךְ כְּתִיב "וַעֲשִׂיתֶם אֶת כָּל מִצְוֹתָי". כִּי עִנְיַן תְּכֵלֶת מוֹרֶה עַל יִרְאָה, וּבְהַתְחָלָה בְּעֵת שֶׁנִּכְנָס הָאָדָם לְדִבְרֵי תּוֹרָה צָרִיךְ לֵילֵךְ בְּיִרְאָה שֶׁכָּל הַהַתְחָלוֹת קָשׁוֹת, לָכֵן כְּתִיב בִּלְשׁוֹן נִסְתָּר "אֶת כָּל מִצְוֹת ה' וְגוֹ׳ וְלֹא תָתוּרוּ" כִּי חַס וְשָׁלוֹם יִתְעַנְשׁוּ, אֲבָל אַחַר כֵּן כְּשֶׁאָדָם מְקַבֵּל עָלָיו עוֹל מַלְכוּת שָׁמַיִם בָּא אֶל מַדְרֵגוֹת אַהֲבָה וְרוֹאֶה אֶת הַשי"ת לְנֹכַח, וְזֶה שֶׁנֶּאֱמַר "וַעֲשִׂיתֶם אֶת כָּל מִצְוֹתָי".