Mei HaShiloach · Volume IV · Parashá 3

Behaalotcha

בְּהַעֲלֹתְךָ
Rabi Mordechai Yosef Leiner de Izhbitz (1801–1854) · hebraico de domínio público · tradução original PT-BR

Vinte parágrafos sobre a terceira parashá do Sêfer Bamidbar. Na Parte I, do Volume I do Sefaria: as sete lâmpadas e a sétima, a da intenção voltada ao Céu; o que Aharon não alterou e a alegria da festa; o que Aharon eleva e o que cada um deve iluminar por si; as três coisas de Avot, de onde vieste, para onde vais e diante de quem prestarás contas, e a navalha, a água e as vestes dos levitas; os cabelos, a ira e o nazir; a partida da Arca e o toque da teruá; Yitro e os que se queixam; a carne, Moshé e Yehoshua; o ciúme por Moshé; e Miriam e Aharon diante do Eterno, com os degraus de Moshé e o prazer sem bênção. Na Parte II, do Volume II: o Pessach em seu tempo determinado; a nuvem sobre o Tabernáculo, as paradas e as partidas; o que o justo da geração vê; Chovav, os dosséis dos justos e o converso; o desejo e a tristeza; Yehoshua e o ciúme; a praga e Nachshon; a humildade de Moshé; “boca a boca”, a halachá e o Rei Messias, até a cana de Rava; e o deserto como o que ainda não alcançou a forma do homem — hebraico e português lado a lado.

Parágrafos

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Parte I · Sefaria Volume I
Parágrafo 1

“E falou o Eterno a Moshé, dizendo: Fala a Aharon e dize-lhe: Quando acenderes as lâmpadas, em frente à face do candelabro iluminarão as sete lâmpadas.” (Bamidbar 8:1-2). Ora, o fato de estar escrito “as sete lâmpadas” e não “as seis lâmpadas”, sendo que todas as lâmpadas se inclinavam para o lado da lâmpada do meio — de modo que o texto poderia ter contado só as seis laterais —, tem este sentido: mesmo onde a intenção do homem é voltada ao Céu, é preciso entender e discernir como agir e qual é a vontade do Nome. É isto que significa “as sete lâmpadas”: a sétima lâmpada corresponde à intenção voltada ao Céu a lâmpada central, e também ela precisa ser inclinada para a Shechiná, isto é, o homem deve compreender a profundidade da vontade do Nome, para onde ela se inclina. Isto foi esclarecido no fim da parashá, onde se registrou pecado sobre Moshé, Aharon e Miriam — o episódio de Bamidbar 12 —. E a isto alude (Kohelet 10:1): “Mais preciosa que a sabedoria e a honra é um pouco de tolice”: concordou-se, no entendimento deles, que se registrasse pecado sobre eles, para que a vontade do Nome se completasse. Pois nesta parashá os degraus de Moshé Rabenu, a paz sobre ele, saíram para a prática — tornaram-se manifestos —, como será explicado no versículo “boca a boca” (Bamidbar 12:8); e Miriam e Aharon concordaram em que se registrasse pecado sobre eles, para que viesse à luz e se reconhecessem e compreendessem os degraus de Moshé Rabenu. E este é o sentido de “purifica nosso coração para Te servir em verdade” da liturgia: embora esteja dito “para Te servir”, e o que não é verdade não se chama serviço do Eterno, também no serviço do Eterno há uma profundidade maior do que o homem alcança com a sua mente quando alcança uma intenção voltada ao Céu. Pois às vezes se encontra “um pouco de tolice” que é mais preciosa que a sabedoria e a honra; mas está dito “um pouco de tolice”, porque o homem deve cuidar para reduzi-la, de modo que só um pequeno resultado de sua falta saia para a prática.

וַיְדַבֵּר ה' אֶל מֹשֶׁה לֵּאמֹר דַּבֵּר אֶל אַהֲרֹן וְאָמַרְתָּ אֵלָיו בְּהַעֲלֹתְךָ אֶת הַנֵּרֹת אֶל מוּל פְּנֵי הַמְּנוֹרָה יָאִירוּ שִׁבְעַת הַנֵּרוֹת. וְהִנֵּה מַה שֶּׁנִּכְתַּב שִׁבְעַת הַנֵּרוֹת וְלֹא שֵׁשֶׁת הַנֵּרוֹת, כִּי כָל הַנֵּרוֹת הָיוּ מְצַדְּדִים כְּלַפֵּי נֵר הָאֶמְצָעִי, אַךְ הָעִנְיָן בָּזֶה כִּי אַף בְּמָקוֹם שֶׁכַּוָּנַת הָאָדָם לְשֵׁם שָׁמַיִם צָרִיךְ לְהָבִין וּלְהַשְׂכִּיל אֵיךְ יַעֲשֶׂה וְאֵיךְ הוּא רְצוֹן הַש"י, וְזֶה שֶּׁכָּתוּב שִׁבְעַת הַנֵּרוֹת, כִּי נֵר הַשְּׁבִיעִי הוּא נֶגֶד כַּוָּנָה לְשֵׁם שָׁמַיִם, וְגַם זֹאת צָרִיךְ לְהַטּוֹת כְּלַפֵּי שְׁכִינָה הַיְינוּ שֶׁיָּבִין עוֹמֶק רְצוֹן הַש"י לְהֵיכָן הוּא נוֹטֶה, וְזֶה נִתְבָּאֵר בְּסוֹף הַסִּדְרָה שֶׁנִּרְשַׁם חֵטְא עַל מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן וּמִרְיָם. וְזֶה רוֹמֵז (קהלת י',א') "יָקָר מֵחָכְמָה מִכָּבוֹד סִכְלוּת מְעָט", הַיְינוּ שֶׁהוּסְכַּם בְּדַעְתָּם שֶׁיֵּרָשֵׁם חֵטְא עֲלֵיהֶם בִּכְדֵי שֶׁיִּשְׁלַם רְצוֹן הַש"י , כִּי בְּזֶה הַסִּדְרָה יָצָא לַפֹּעַל מַדְרֵגוֹת מרבע"ה כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר בְּפָסוּק "פֶּה אֶל פֶּה", וְהוּסְכַּם דַּעַת מִרְיָם וְאַהֲרֹן שֶׁיֵּרָשֵׁם עֲלֵיהֶם חֵטְא בִּכְדֵי שֶׁיֵּצֵא לָאוֹר שֶׁיּוּכַּר וְיוּבַן מַדְרֵגוֹת משרבע"ה, וְזֶה פֵּירוּשׁ וְטַהֵר לִבֵּנוּ לְעָבְדְּךָ בֶּאֱמֶת, כִּי אַף שֶׁנֶּאֱמַר לְעָבְדְּךָ וּבְאִם אֵינוֹ אֱמֶת לֹא נִקְרָא עֲבוֹדַת ה', אַךְ כִּי גַּם בַּעֲבוֹדַת ה' יִמָּצֵא עוֹמֶק עָמוֹק יוֹתֵר מֵהַשָּׂגַת הָאָדָם בְּדַעְתּוֹ שֶׁיַּשִּׂיג בְּכַוָּנָה לְשֵׁם שָׁמַיִם, כִּי נִמְצָא לִפְעָמִים סִכְלוּת מְעָט שֶׁיָּקָר מֵחָכְמָה וּמִכָּבוֹד, אַךְ נֶאֱמַר "סִכְלוּת מְעָט" שֶׁצָּרִיךְ הָאָדָם לִרְאוֹת לְמַעֵט שֶׁלֹּא יֵצֵא לַפֹּעַל רַק דָּבָר מוּעָט מֵחֶסְרוֹנוֹ.
Parágrafo 2

“E assim fez Aharon.” (Bamidbar 8:3). Diz Rashi: — para narrar o louvor de Aharon, que não alterou —. Não alterou em hebraico, shiná, que também significa “repetir” quer dizer que a mitzvá não era para ele algo repetido por rotina, feita como o homem faz por hábito; ao contrário, fazia a mitzvá sempre como coisa nova, que o homem faz com alegria e presteza. E é isto que está dito na Guemará (Rosh HaShaná 16b): o homem deve purificar-se na regel “festa de peregrinação”, literalmente “pé”, pois está dito “e em seus cadáveres não tocareis” (Vayikra 11:8). Pois o cadáver indica algo de que saiu a vida; assim é quem cumpre uma mitzvá sem alegria e sem presteza, apenas como “mitzvá de homens, aprendida de cor” (Yeshayahu 29:13), semelhante a algo em que não há vida. Por isso, na festa de peregrinação, porque o Nome derrama vida sobre Israel, o homem precisa receber essa vida com alegria.

וַיַּעַשׂ כֵּן אַהֲרֹן. פירש"י לְהַגִּיד שִׁבְחוֹ שֶׁל אַהֲרֹן שֶׁלֹּא שִׁינָּה, שִׁינָּה פֵּירוּשׁ שֶׁלֹּא הָיָה אֶצְלוֹ כִּדְבַר וְשׁוֹנֶה בָּהּ, שֶׁעָשָׂה כְּדַעַת הָאָדָם בְּהֶרְגֵּל, רַק תָּמִיד הָיָה עוֹשֶׂה אֶת הַמִּצְוָה כְּדָבָר חָדָשׁ שֶׁאָדָם עוֹשֶׂה בְּשִׂמְחָה וּבִזְרִיזוּת, וְזֶה שֶׁאָמַר בַּגְּמָרָא (ר"ה ט"ז:) חַיָּיב אָדָם לְטַהֵר אֶת עַצְמוֹ בָּרֶגֶל שֶׁנֶּאֱמַר "וּבְנִבְלָתָם לֹא תִגָּעוּ", כִּי נְבֵלָה מוֹרָה עַל דָּבָר שֶׁיָּצָא מֵאִתָּהּ הַחַיִּים וְכֵן הוּא הָעוֹשֶׂה מִצְוָה בְּלֹא שִׂמְחָה וּזְרִיזוּת, רַק כְּמִצְוַת אֲנָשִׁים מְלוּמָּדָה דּוֹמֶה שֶׁאֵין בָּהּ חַיִּים, וְלָכֵן בָּרֶגֶל לְפִי שֶׁהַש"י מַשְׁפִּיעַ חַיִּים לְיִשְׂרָאֵל צָרִיךְ הָאָדָם לְקַבֵּל הַחַיִּים בְּשִׂמְחָה.
Parágrafo 3

“E assim fez Aharon.” (Bamidbar 8:3). Para narrar o louvor de Aharon, que não alterou. Consta no Likutei Torá do Arizal, de memória abençoada (parashá Behaalotcha), que sobre isto foi dito “e assim fez”, porque parecia que ele alterara: no mandamento foi dito “iluminarão as sete lâmpadas”, isto é, que por si mesmas iluminarão e que ele não faria o acendimento completo; e depois foi dito “fez subir as suas lâmpadas” (Bamidbar 8:3), o que dá a entender que ele fazia todo o acendimento. Sobre isto foi dito “e assim fez Aharon”. O ponto é que a ocupação do cohen era sempre defender e depurar as ações dos filhos de Israel diante do Lugar um dos nomes de Deus, e corrigir as ações que haviam feito: ainda que parecessem inadequadas, Aharon, o cohen, as elevava com a sua santidade e a sua oração, até que se tornassem méritos. Mas isto vale só depois da ação; antes da ação o homem não deve apoiar-se nisso, e sim cuidar-se até onde a sua mão alcança — até onde lhe é possível —. Esta é a explicação do versículo “quando acenderes as lâmpadas”: embora Aharon corrigisse e elevasse as ações dos filhos de Israel e lhes fizesse chegar luz, ainda assim “em frente à face do candelabro iluminarão”, isto é, ele os advertia de que, antes da ação, cuidassem de iluminar por si mesmos, fazendo ações corretas e depuradas, sem se apoiar em que Aharon os elevaria. E isto é “e assim fez Aharon”: antes ele viu que os havia advertido a não se apoiar nele, mas a corrigir-se cada um até onde a sua mão alcança; e sobre as ações já feitas, Aharon corrigiu tudo. E por isso “fez subir as suas lâmpadas” está no passado, e isto é que não alterou.

וַיַּעַשׂ כֵּן אַהֲרֹן. לְהַגִּיד שִׁבְחוֹ שֶׁל אַהֲרֹן שֶׁלֹּא שִׁינָּה. אִיתָא בְּלִיקּוּטֵי תּוֹרָה מֵהָאֲרִ"י ז"ל (פרשת בהעלותך) שֶׁעַל זֶה נֶאֱמַר "וַיַּעַשׂ כֵּן" לְפִי שֶׁהָיָה נִרְאֶה שֶׁשִּׁינָּה, מֵחֲמַת שֶׁבַּצִּוּוּי נֶאֱמַר "יָאִירוּ שִׁבְעַת הַנֵּרוֹת", פֵּירוּשׁ שֶׁמֵּעַצְמוֹ יָאִירוּ וְלֹא שֶׁיַּעֲשֶׂה הוּא גְּמַר הַדְלָקָתָן, וְאַחַר כָּךְ נֶאֱמַר "הֶעֱלָה נֵרֹתֶיהָ" וּמַשְׁמַע שֶׁהָיָה עוֹשֶׂה כָּל הַהַדְלָקָה וְעַל זֶה נֶאֱמַר "וַיַּעַשׂ כֵּן אַהֲרֹן". וְהָעִנְיָן בָּזֶה כִּי עֵסֶק הַכֹּהֵן הָיָה תָּמִיד לְזַכּוֹת וּלְבָרֵר אֶת מַעֲשֵׂה בְּנֵי יִשְׂרָאֵל לִפְנֵי הַמָּקוֹם וּלְתַקֵּן אֶת מַעֲשֵׂיהֶם שֶׁעָשׂוּ, אַף שֶׁהָיוּ נִרְאִים כְּאֵינָם מְהוּגָּנִים הָיָה אַהֲרֹן הַכֹּהֵן מַעֲלֶה אוֹתָם בִּקְדוּשָּׁתוֹ וּבִתְפִילָּתוֹ עַד שֶׁנַּעֲשׂוּ כְּזָכִיּוֹת וְזֶה הוּא דַּוְקָא אַחַר הַמַּעֲשֶׂה, אַךְ קוֹדֶם הַמַּעֲשֶׂה לֹא יִסְמוֹךְ הָאָדָם עַל זֶה רַק צָרִיךְ לְהִזָּהֵר עַד מְקוֹם שֶׁיָּדוֹ מַגַּעַת. וְזֶהוּ בֵּיאוּר הַפָּסוּק "בְּהַעֲלוֹתְךָ אֶת הַנֵּרוֹת", כִּי אַף שֶׁהָיָה אַהֲרֹן מְתַקֵּן וּמַעֲלֶה אֶת מַעֲשֵׂה בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְהוּא מַשְׁפִּיעַ לָהֶם אוֹר, וְעכ"ז "אֶל מוּל פְּנֵי הַמְּנוֹרָה יָאִירוּ", הַיְינוּ שֶׁיַּזְהִיר אוֹתָם כִּי קוֹדֶם הַמַּעֲשֶׂה יִרְאוּ שֶׁיָּאִירוּ מֵעַצְמָם, הַיְינוּ שֶׁיַּעֲשׂוּ מַעֲשִׂים כְּשֵׁרִים וּמְבוֹרָרִים וְלֹא יִסְמְכוּ עַל זֶה שֶׁאַהֲרֹן מַעֲלֶה אוֹתָם, וְזֶה "וַיַּעַשׂ כֵּן אַהֲרֹן", כִּי קוֹדֶם רָאָה שֶׁהִזְהִיר שֶׁלֹּא יִסְמְכוּ עָלָיו שֶׁיְּתַקֵּן כָּל אֶחָד וְאֶחָד עַד מְקוֹם שֶׁיָּדוֹ מַגַּעַת, וְעַל מַעֲשִׂים הַנַּעֲשִׂים כְּבָר תִּקֵּן אַהֲרֹן אֶת הַכֹּל, וְזֶה "הֶעֱלָה נֵרֹתֶיהָ" הֶעֱלָה הוּא לְשׁוֹן עָבָר, וְזֶהוּ שֶׁלֹּא שִׁינָּה.
Parágrafo 4

“E assim farás para eles, para purificá-los: asperge sobre eles água de expiação, e façam passar navalha sobre toda a sua carne, e lavem as suas roupas, e purifiquem-se.” (Bamidbar 8:7). Estas três coisas correspondem às três coisas que os nossos sábios, de memória abençoada, advertiram (Avot 3:1): “Observa três coisas e não virás a cair em transgressão: sabe de onde vieste, para onde vais e diante de quem estás destinado a prestar juízo e contas”. “De onde vieste” corresponde a “façam passar navalha”, pois os cabelos indicam ira (Zohar, Bamidbar 151b), e isto corresponde a “de onde vieste”: quando o homem compreende de onde veio, não pode irar-se nem mesmo contra uma criatura pequena, pois entende o seu próprio valor. “Asperge sobre eles água de expiação” a água da vaca vermelha corresponde a “para onde vais”: que o homem tenha sossego da mente em tudo o que fizer, vendo se desse ato resultará permanência e vida eterna, mesmo depois que o corpo desaparecer; e é isto que ensina a aspersão da água de expiação, que provém de algo que já foi queimado e virou cinza — a cinza da vaca vermelha, que lembra o fim do corpo —. “E lavem as suas roupas” corresponde a “diante de quem estás destinado a prestar juízo e contas”: que o homem depure e refine sempre as suas ações, para que sejam claras, como está escrito (Kohelet 9:8): “Em todo tempo sejam brancas as tuas vestes”. Pois a cor branca é distante e isenta de qualquer cor tingida; muitas coisas são brancas sem nenhuma operação, apenas foram criadas assim, porque o branco é a preparação para tingir nele todas as cores; assim o homem deve estar sempre preparado e aguardar a salvação do Nome. “E purifiquem-se” indica que façam para si mesmos gederim “cercas”: restrições além do que a Torá exige e se santifiquem mesmo no que lhes é permitido; pois a cerca que o homem faz para si o ajuda a salvar-se de toda coisa má mais do que o aviso da proibição. Assim está na Guemará (Nedarim 8a): de onde se sabe que se jura para cumprir uma mitzvá? Porque está dito “jurei e o cumprirei” (Tehilim 119:106). E isso lhe permanece mesmo na hora da prova, como está na Guemará (Nedarim 32b): be-idna de-yetzer hará lét man de-madkar le-yetzer tov em aramaico: “na hora do impulso mau não há quem lembre o impulso bom”, pois então se esquece do homem todo o peso da proibição presente no ato, como foi explicado sobre o versículo “Que lucro há” (Bereshit 37:26; acima, parashá Vayeshev, comentário que começa em “E disse”). Mas a cerca que o homem faz para si não se esquece e permanece com ele mesmo na hora da prova. Assim contou de si mesmo um rav santo: veio-lhe uma prova e fechou-se-lhe a lembrança do peso da proibição naquele ato, mas lembrou-se de que fizera para si uma cerca: a de não fazer coisa alguma da qual não resultasse nachat ruach “satisfação, contentamento” para o Nome; e disse a si mesmo: embora aqui não haja proibição, que satisfação haverá para o Nome deste ato? E logo que pôs isso no coração, lembrou-se do peso da proibição que havia no ato.

וְכֹה תַעֲשֶׂה לָהֶם לְטַהֲרָם הַזֵּה עֲלֵיהֶם מֵי חַטָּאת וְהֶעֱבִירוּ תַעַר עַל כָּל בְּשָׂרָם וְכִבְּסוּ בִגְדֵיהֶם וְהִטֶּהָרוּ. הַשְּׁלֹשָׁה דְּבָרִים הָאֵלֶּה הֵם נֶגֶד שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים שֶׁהִזְהִירוּ חֲזַ"ל בְּמַסֶּכֶת אָבוֹת (פ"ג מ"א) "הִסְתַּכֵּל בִּשְׁלֹשָׁה דְבָרִים וְאֵין אַתָּה בָּא לִידֵי עֲבֵרָה, דַּע מֵאַיִן בָּאתָ, וּלְאָן אַתָּה הוֹלֵךְ, וְלִפְנֵי מִי אַתָּה עָתִיד לִיתֵּן דִּין וְחֶשְׁבּוֹן". מֵאַיִן בָּאתָ הוּא נֶגֶד "וְהֶעֱבִירוּ תַעַר", כִּי שְׂעָרוֹת מוֹרֶה עַל כַּעַס (זוהר במדבר קנ"א:) וְהוּא נֶגֶד מֵאַיִן בָּאתָ, כִּי הָאָדָם כְּשֶׁיָּבִין מֵאַיִן בָּא לֹא יוּכַל לִכְעוֹס אַף עַל בְּרִיָּה קְטַנָּה כִּי יָבִין עֶרְכּוֹ. וְ"הַזֵּה עֲלֵיהֶם מֵי חַטָּאת" הוּא נֶגֶד לְאָן אַתָּה הוֹלֵךְ, שֶׁיִּהְיֶה לָאָדָם יִשּׁוּב הַדַּעַת בְּכָל דָּבָר שֶׁיַּעֲשֶׂה בְּאִם יִהְיֶה מֵהַמַּעֲשֶׂה הַזֶּה קִיּוּם וְחַיִּים נִצְחִיִּים אַף כְּשֶׁיֵּעָדֵר הַגּוּף, וְזֶהוּ מוֹרֶה הַזָּאוֹת מֵי חַטָּאת שֶׁכְּבָר נִשְׂרַף וְנַעֲשָׂה אֵפֶר. "וְכִבְּסוּ בִגְדֵיהֶם" הוּא נֶגֶד לִפְנֵי מִי אַתָּה עָתִיד לִיתֵּן דִּין וְחֶשְׁבּוֹן, הַיְינוּ שֶׁהָאָדָם יְבָרֵר וִיצָרֵף מַעֲשָׂיו תָּמִיד שֶׁיִּהְיוּ מְזֻכָּכִים כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב (קהלת ט',ח') "בְּכָל עֵת יִהְיוּ בְגָדֶיךָ לְבָנִים", (שֶׁגָּוֶון לָבָן הוּא רָחוֹק וּמֻשְׁלָל מִכָּל גָּוֶון הַנִּצְבָּע, כִּי הַרְבֵּה דְּבָרִים הֵם בְּגָוֶון לָבָן בְּלֹא שׁוּם פְּעוּלָּה רַק נִבְרְאוּ כָּךְ, כִּי הַגָּוֶון הַלָּבָן הוּא הֲכָנָה לִצְבּוֹעַ בְּהַדָּבָר כָּל הַגְּוָונִים, כֵּן יִהְיֶה הָאָדָם תָּמִיד מוּכָן וִיצַפֶּה לִישׁוּעַת הַשי"ת. תַּשְׁלוּם.). "וְהִטֶּהָרוּ" מוֹרֶה שֶׁיַּעֲשׂוּ לְעַצְמָם גְּדָרִים וִיקַדְּשׁוּ עַצְמָם אַף בַּמֻּתָּר לָהֶם, שֶׁהַגָּדֵר שֶׁהָאָדָם עוֹשֶׂה לְעַצְמוֹ יוֹעִיל לוֹ לְהַצִּילוֹ מִכָּל דָּבָר רַע יוֹתֵר מִמַּה שֶּׁאַזְהָרוֹת הָאִסּוּר מוֹעִיל, כִּדְאִיתָא בַּגְּמָרָא (נדרים ח'.) מִנַּיִן שֶׁנִּשְׁבָּעִין לְדָבָר מִצְוָה שֶׁנֶּאֱמַר "נִשְׁבַּעְתִּי וַאֲקַיֵּמָה" וְכוּ׳, וְהוּא שֶׁעוֹמֵד לוֹ אַף בִּשְׁעַת הַנִּסָּיוֹן כִּדְאִיתָא בַּגְּמָרָא (נדרים ל"ב:) בְּעִידָּנָא דְּיֵצֶר הָרָע לֵית מַאן דְּמַדְכַּר לְיֵצֶר טוֹב, כִּי אָז נִשְׁכָּח מֵאָדָם כָּל חוֹמֶר הָאִסּוּר שֶׁיֵּשׁ בְּהַמַּעֲשֶׂה כַּמְבוֹאָר עַל פָּסוּק "מַה בֶּצַע" (לעיל פ' וישב ד"ה ויאמר), אַךְ הַגָּדֵר שֶׁהָאָדָם עוֹשֶׂה לְעַצְמוֹ לֹא יִשָּׁכַח מִמֶּנּוּ וְיַעֲמוֹד לוֹ אַף בִּשְׁעַת הַנִּסָּיוֹן. כַּאֲשֶׁר סִיפֵּר רַב וְקָדוֹשׁ אֶחָד בְּעַצְמוֹ, שֶׁאֵרַע לוֹ נִסָּיוֹן וְנִסְתַּם מִמֶּנּוּ חוֹמֶר הָאִסּוּר שֶׁבַּדָּבָר הַזֶּה, אַךְ זֹאת זָכַר שֶׁעָשָׂה לְעַצְמוֹ גָּדֵר שֶׁלֹּא יַעֲשֶׂה דָּבָר שֶׁלֹּא יַגִּיעַ מִמֶּנָּה נַחַת רוּחַ לְהַש"י, וְאָמַר אֶל לִבּוֹ אַף שֶׁאֵין בְּכָאן אִסּוּר, מִכָּל מָקוֹם מַה נַּחַת רוּחַ יִהְיֶה לְהַש"י מֵהַמַּעֲשֶׂה הַזֶּה, וְתֵיכֶף שֶׁנָּתַן זֹאת אֶל לִבּוֹ זָכַר חוֹמֶר הָאִסּוּר שֶׁהָיָה בְּהַמַּעֲשֶׂה.
Parágrafo 5

“E façam passar navalha sobre toda a sua carne.” (Bamidbar 8:7). O tema da santidade dos levitas, que se dava pela remoção do cabelo; já quanto ao nazir está escrito “deixará crescer a madeixa do cabelo de sua cabeça” (Bamidbar 6:5), pois os cabelos indicam ira, como está explicado no sagrado Zohar (Bamidbar 151b). Os levitas eram limpos e purificados do desejo, e por isso precisavam remover o cabelo — sem desejo a combater, não precisavam da ira que o cabelo representa —. O nazir, porém, é aquele em quem entrou uma falta nas qualidades do desejo, como está explicado na Guemará (Nedarim 9b): “Sucedeu com Shimon, o Justo”. E contra o desejo há um conselho: que o homem se lance na ira, como está escrito na Guemará (Kidushin 40a): “vista-se de preto”, isto é, bile negra — a melancolia —, que também é um tema de ira. Este é o conselho para salvar-se do desejo: lançar-se na ira. E por isso lhe foi ordenado deixar crescer a madeixa, como está explicado sobre o versículo “E enviou o corvo” (Bereshit 8:7; acima, parashá Noach).

וְהֶעֱבִירוּ תַעַר עַל כָּל בְּשָׂרָם. עִנְיַן קְדֻשַּׁת הַלְוִיִּם שֶׁהָיָה בְּהַעֲבָרַת שֵׂעָר, וּבְנָזִיר כְּתִיב "גַּדֵּל פֶּרַע שְׂעַר רֹאשׁוֹ", כִּי שְׂעָרוֹת מוֹרֶה עַל כַּעַס כַּמְבוֹאָר בַּזוה"ק (במדבר קנ"א:) וְהַלְוִיִּם הָיוּ מְנוּקִים וּמְזֻכָּכִים מִתַּאֲוָה לָכֵן צְרִיכִים לְהַעֲבִיר הַשֵּׂעָר, וְנָזִיר הַיְינוּ שֶׁנִּכְנַס חֶסְרוֹנוֹ בְּמִדּוֹת הַתַּאֲוָה כַּמְבוֹאָר בַּגְּמָרָא (נדרים ט':) מַעֲשֶׂה בְּשִׁמְעוֹן הַצַּדִּיק, וְנֶגֶד תַּאֲוָה יֵשׁ עֵצָה שֶׁהָאָדָם יַכְנִיס עַצְמוֹ בְּכַעַס כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב בַּגְּמָרָא (קידושין מ'.) "יִלְבַּשׁ שְׁחוֹרִים" הַיְינוּ מָרָה שְׁחוֹרָה וְהוּא גַּם כֵּן עִנְיַן כַּעַס, וְזֶה עֵצָה לְהִנָּצֵל מִתַּאֲוָה לִכְנוֹס עַצְמוֹ בְּכַעַס, וְזֶה שֶׁנִּצְטַוָּה לְגַדֵּל פֶּרַע כְּמוֹ שֶׁמְּבוֹאָר עַל פָּסוּק "וַיְשַׁלַּח אֶת הָעֹרֵב" (לעיל פ' נח).
Parágrafo 6

“E sucedeu que, ao partir a Arca, Moshé disse: Levanta-Te, Eterno etc.” (Bamidbar 10:35). Pois a partida a marcha pelo deserto é quando o homem sai para o caminho sem saber o que lhe acontecerá, e então precisa trovejar e clamar ao Eterno. É por isso que, antes de cada partida, soava-se um toque de teruá, pois teruá é “voz de trovão” — da mesma raiz de “raam”, trovão —; também na festa se tocava, porque, numa mudança de tempo, o homem precisa clamar ao Eterno que o guarde de toda coisa má que se levante contra ele. E agora que começaram a partir rumo à Terra de Israel e a Arca partiu, está escrito antes “e Moshé disse: Levanta-Te, Eterno”, isto é, ele começou a rezar para que esta partida fosse em paz, livre de todo mau encontro no caminho.

וַיְהִי בִּנְסוֹעַ הָאָרֹן וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה קוּמָה ה' כוּ׳. כִּי נְסִיעָה הוּא שֶׁהָאָדָם יוֹצֵא לַדֶּרֶךְ וְלֹא יוֹדֵעַ מַה יִּוָּלֵד לוֹ צָרִיךְ לְהַרְעִים וְלִצְעוֹק לַה', וְזֶה שֶׁקֹּדֶם כָּל נְסִיעָה הָיוּ תּוֹקְעִין תְּרוּעָה, כִּי תְּרוּעָה הַיְינוּ קוֹל רַעַם וְגַם בְּיוֹם טוֹב הָיוּ תּוֹקְעִים, כִּי בְּשִׁינּוּי הַזְּמַן צָרִיךְ הָאָדָם לִצְעוֹק לַה' שֶׁיִּשְׁמְרוֹ מִכָּל דָּבָר רַע שֶׁיָּבֹא נֶגְדּוֹ, וְעַתָּה שֶׁהִתְחִילוּ לִנְסוֹעַ לְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל וְנָסַע הָאָרוֹן, קֹדֶם כְּתִיב "וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה קוּמָה ה'" הַיְינוּ שֶׁהִתְחִיל לְהִתְפַּלֵּל שֶׁיִּהְיֶה נְסִיעָה הַזּוֹ לְשָׁלוֹם מִכָּל פֶּגַע רַע בַּדֶּרֶךְ.
Parágrafo 7

“E o povo era como os que se queixam.” (Bamidbar 11:1). “E disse Moshé a Chovav.” (Bamidbar 10:29). O tema da ordem desses assuntos: quando as bandeiras foram dispostas e estavam próximos de entrar na Terra de Israel, enfraqueceu-se o ânimo de Moshé, pois soube que não os introduziria na Terra de Israel, e por isso quis aproximar Yitro, e por causa de… — o trecho está incompleto no original, que traz aqui a indicação “complemento” — O motivo é que “os conversos são difíceis para Israel etc.” — a frase completa é “como a sarna”, de Rabi Chelbo — (Nidá 13b). Israel é chamado brasa e as nações, chama; isto é, os corações dos filhos de Israel estão cheios de alegria, enquanto as nações, embora pareçam alegres, têm em verdade o coração cheio de tristeza. Quando foi dito a Yitro: “E será que aquele bem, o bem que o Eterno fizer conosco, também o faremos a ti” (Bamidbar 10:32), e estas palavras de Torá entraram no seu coração, saiu então a tristeza que havia em seu coração, e isso foi difícil para Israel. Por isso foi dito logo depois: “E o povo era como os que se queixam”, como quando se turvam águas límpidas; e depois disso voltaram ao que eram antes.

וַיְהִי הָעָם כְּמִתְאוֹנְנִים. (וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה לְחוֹבָב. עִנְיַן הַסֵּדֶר מֵאֵלּוּ הָעִנְיָנִים כִּי כַּאֲשֶׁר נִסְדְּרוּ הַדְּגָלִים וְהָיוּ קְרוֹבִים לִיכָּנֵס לְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל חָלְשָׁה דַּעְתּוֹ שֶׁל מֹשֶׁה כִּי יָדַע שֶׁהוּא לֹא יְבִיאֵם לְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל וּמֵחֲמַת זֶה רָצָה לְקָרֵב אֶת יִתְרוֹ וּמֵחֲמַת. תַּשְׁלוּם.) שֶׁקָּשִׁים גֵּרִים לְיִשְׂרָאֵל כוּ' (נדה י"ג:), כִּי יִשְׂרָאֵל נִקְרְאוּ גַּחֶלֶת וְהָאֻמּוֹת לֶהָבָה הַיְינוּ כִּי לִבּוֹת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל מְלֵאִים שִׂמְחָה, וְהָאֻמּוֹת אַף שֶׁנִּרְאִים שְׂמֵחִים אַךְ בֶּאֱמֶת לִבָּם מָלֵא עַצְבוּת, וְכַאֲשֶׁר נֶאֱמַר לְיִתְרוֹ "וְהָיָה הַטּוֹב הַהוּא כוּ' וְהֵטַבְנוּ לָךְ", וְנִכְנַס בְּלִבּוֹ דִּבְרֵי תּוֹרָה הָאֵלּוּ אָז יָצָא הָעַצְבוּת שֶׁבְּלִבּוֹ וְהָיָה קָשֶׁה לְיִשְׂרָאֵל, עַל כֵּן נֶאֱמַר תֵּכֶף אַחַר זֶה "וַיְהִי הָעָם כְּמִתְאוֹנְנִים" כְּמוֹ שֶׁנֶּעְכַּר מַיִם צְלוּלִים, וְאַחַר זֶה שָׁבוּ כְּבָרִאשׁוֹנָה.
Parágrafo 8

“De onde me virá carne?” (Bamidbar 11:13). Isto é: o aspecto de Moshé é o maná, como está escrito (Shemot 16:4): “Eis que farei chover para vós pão do céu”. “Do céu” significa em claridade; e, do lado dele, o pão vinha com uma claridade — sem ocultamento — maior que a de todos os bens deste mundo. Já a carne é o bem que vai além do pão, pois a carne é alargamento, como está escrito (Devarim 12:20): “Quando alargar” etc.; e isso não pertencia ao aspecto de Moshé neste mundo, mas somente à vida do Mundo Vindouro. Por isso ele disse: “o povo em cujo meio estou” (Bamidbar 11:21), isto é, do meu aspecto, como lhes darei carne? Mas, como então começou o aspecto de Yehoshua, foi-lhes dada carne; pois, em Yehoshua, “carne” designa a liberdade da sujeição aos reinos. Por isso Eldad e Medad profetizaram: “Moshé morre e Yehoshua introduz” — isto é, introduz na Terra —. E também nesta carne houve um alargamento semelhante ao Mundo Vindouro, pois, mesmo vendo que os seus companheiros morriam, não deixaram de comer, porque vale mais uma hora de contentamento no Mundo Vindouro do que toda a vida deste mundo (Avot 4:17).

מֵאַיִן לִי בָּשָׂר. הַיְינוּ כִּי בְּחִינַת מֹשֶׁה הוּא הַמָּן כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב (שמות ט"ז,ד') "הִנְנִי מַמְטִיר לָכֶם לֶחֶם מִן הַשָּׁמָיִם". "מִן הַשָּׁמָיִם" הַיְינוּ בִּבְהִירוּת וּמִצִּדּוֹ הָיָה הַלֶּחֶם בִּבְהִירוּת גָּדוֹל מִכָּל הַטּוֹבוֹת שֶׁבָּעוֹלָם הַזֶּה. וּבָשָׂר הַיְינוּ הַטּוֹבָה מִלֶּחֶם כִּי בָּשָׂר הוּא הַרְחָבָה כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב (דברים י"ב,כ') "כִּי יַרְחִיב" כוּ', לֹא הָיָה מִבְּחִינַת מֹשֶׁה כְּלָל בָּעוֹלָם הַזֶּה רַק בְּחַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא. וְלָכֵן אָמַר "הָעָם אֲשֶׁר אָנֹכִי בְּקִרְבּוֹ" הַיְינוּ מִבְּחִינָה שֶׁלִּי אֵיךְ אֶתֵּן לָהֶם בָּשָׂר, אַךְ לַאֲשֶׁר אָז הֵחֵל בְּחִינַת יְהוֹשֻׁעַ לָכֵן נִתַּן לָהֶם בָּשָׂר, כִּי אֵצֶל יְהוֹשֻׁעַ נִקְרָא בָּשָׂר הַחֵירוּת מִשִּׁעְבּוּד מַלְכֻיּוֹת, וְלָכֵן הִתְנַבְּאוּ אֶלְדָּד וּמֵידָד "מֹשֶׁה מֵת וִיהוֹשֻׁעַ מַכְנִיס", וְגַם בָּזֶה הַבָּשָׂר הָיָה הַרְחָבָה מֵעֵין הָעוֹלָם הַבָּא, כִּי אַף כְּשֶׁרָאוּ שֶׁחַבְרֵיהֶם מֵתִים עכ"ז לֹא הִנִּיחוּ מִלֶּאֱכֹל כִּי יָפָה שָׁעָה אַחַת שֶׁל קוֹרַת רוּחַ בָּעוֹלָם הַבָּא מִכָּל חַיֵּי הָעוֹלָם הַזֶּה.
Parágrafo 9

“E disse-lhe Moshé: Tens ciúme por mim?” (Bamidbar 11:29). “Por mim” significa algo que vem de mim, pois aquela profecia que eles tinham vinha de Moshé Rabenu, a paz sobre ele, como está escrito: “E tomou do espírito que estava sobre ele e o pôs sobre setenta homens” (Bamidbar 11:25); e “quem dera que todo o povo do Eterno etc., que o Eterno pusesse o Seu espírito sobre eles” (Bamidbar 11:29). Isto é: ainda que o Eterno desse do Seu espírito sobre eles, sem que viesse do meu lado — sem passar por mim —, também então eu não teria ciúme deles.

וַיֹּאמֶר לוֹ מֹשֶׁה הַמְקַנֵּא אַתָּה לִי. "לִי" הוּא דָּבָר שֶׁהוּא מִמֶּנִּי, כִּי אוֹתָהּ הַנְּבוּאָה הָיְתָה לָהֶם מִמֹּשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב "וַיָּאצֶל מִן הָרוּחַ אֲשֶׁר עָלָיו וַיִּתֵּן עַל שִׁבְעִים אִישׁ", "וּמִי יִתֵּן כָּל עַם ה' וכו' כִּי יִתֵּן ה' אֶת רוּחוֹ עֲלֵיהֶם". הַיְינוּ אַף כִּי יִתֵּן ה' מֵרוּחוֹ עֲלֵיהֶם וְלֹא יִהְיֶה מִצִּדִּי, גַּם כֵּן לֹא הָיִיתִי מְקַנֵּא לָהֶם.
Parágrafo 10

“E falaram Miriam e Aharon contra Moshé etc. Se houver entre vós um profeta, o Eterno, em visão etc. Não é assim o Meu servo Moshé: boca a boca falo com ele, em visão e não em enigmas, e a imagem do Eterno ele contempla.” (Bamidbar 12:1-8). O assunto: encontramos na Guemará que também o rei Shlomo, quiseram contá-lo entre os que não têm parte no Mundo Vindouro etc.; a chama de fogo os envolveu etc., até que saiu uma voz do céu: “Será de junto de ti que Ele a retribuirá?” etc. (Sanhedrin 104b). O sentido é que, em verdade, foram entregues aos Homens da Grande Assembleia todas as leis, tal como saíam deles — isto é, de seu próprio julgamento —; por isso, segundo a lei, quiseram decidir que Shlomo fosse contado entre eles etc., até que saiu a voz do céu “será de junto de ti que Ele a retribuirá?”. Isto é, abriu-se para eles a luz no comentário de Shlomo, o rei, e então viram claramente a luz dele, que era muito, muito mais do que a sua própria compreensão; e então não disseram mais nada. Assim também, quando o Eterno lhes disse aqui “não é assim o Meu servo Moshé”, e ao dizer-lhes “boca a boca falo”, isto é, assim que as palavras saíram do Eterno, viram claramente, olho no olho, a luz e a compreensão de Moshé Rabenu, a paz sobre ele; e quando o Eterno disse a palavra “nele”, isso se ocultou deles, e então entenderam os degraus de Moshé Rabenu. Do mesmo modo, quando o Eterno disse “e a imagem do Eterno”, entrou em seus corações a luz e a compreensão de Moshé Rabenu, e quando disse a palavra “contempla”, isso se fechou para eles. Mas depois disso ficou em seus corações essa compreensão: às vezes alcançavam algo como as compreensões de Moshé Rabenu, mas sabiam que isso não lhes pertencia e era próprio dos degraus de Moshé Rabenu, e perceberam o que lhes faltava em relação aos degraus dele. Pois antes disso supunham que não havia degrau algum acima dos seus, e depois lhes foi dado a saber que há algo acima. Contudo, no momento do pecado não entenderam que aquela luz não pertencia à sua parte, pois julgavam que essa compreensão vinha deles, e não do Nome, que queria mostrar-lhes os degraus de Moshé Rabenu. Por isso provaram uma luz maior do que poderiam provar se soubessem que não pertencia à sua parte; pois então só poderiam prová-la como alguém que contempla a parte do seu companheiro, e não como quem desfruta do que é seu. Mas, como foi pela via do pecado e supuseram que era a sua parte, provaram-na como quem desfruta do que é seu. E isto porque o Santo, bendito seja, quis mostrar-lhes os degraus de Moshé Rabenu sem nenhuma falta, para que reconhecessem o seu valor. E este é o sentido do que diz a Guemará (Berachot 35a): “Quem desfruta deste mundo sem bênção é como se tivesse cometido desvio sacrílego”. Pois quem desfruta com bênção reconhece que a coisa não lhe pertence, e sim ao Eterno, e por isso não lhe vem prazer da santidade da coisa, apenas como o que contempla; mas, se se deixa ao homem desfrutar sem bênção, é como se desfrutasse plenamente das coisas sagradas do Céu, e isto é “como se tivesse cometido desvio sacrílego”. E considera bem, pois é profundo, profundo.

וַתְּדַבֵּר מִרְיָם וְאַהֲרֹן בְּמֹשֶׁה כוּ׳ אִם יִהְיֶה נְבִיאֲכֶם ה׳ בַּמַּרְאָה כוּ׳ לֹא כֵן עַבְדִּי מֹשֶׁה פֶּה אֶל פֶּה אֲדַבֶּר בּוֹ בְּמַרְאֶה וְלֹא בְחִידֹת וּתְמֻנַת ה׳ יַבִּיט. הָעִנְיָן מָצִינוּ בַּגְּמָרָא אַף שְׁלֹמֹה הַמֶּלֶךְ בִּקְשׁוּ לִמְנוֹת כוּ׳ לִהֲטָה אֵשׁ סְבִיבָם כוּ׳ עַד שֶׁיָּצְתָה בַּת קוֹל "הַמֵּעִמְּךָ יְשַׁלְּמֶנָּה" כוּ׳ (סנהדרין ק"ד:). הָעִנְיָן בָּזֶה כִּי בֶּאֱמֶת נִמְסַר לְאַנְשֵׁי כְּנֶסֶת הַגְּדוֹלָה כָּל הַהֲלָכוֹת כְּפִי אֲשֶׁר יָצָא מֵאִתָּם, וְלָכֵן כְּפִי הַהֲלָכָה רָצוּ לִפְסֹק לִהְיוֹת שְׁלֹמֹה נִמְנֶה כוּ׳, עַד שֶׁיָּצְתָה בַּת קוֹל "הַמֵּעִמְּךָ יְשַׁלְּמֶנָּה", הַיְינוּ שֶׁנִּפְתַּח לָהֶם הָאוֹר בְּפֵרוּשׁ שֶׁל שְׁלֹמֹה הַמֶּלֶךְ וְאָז רָאוּ מְפֹרָשׁ הָאוֹר שֶׁלּוֹ אֲשֶׁר הוּא יוֹתֵר וְיוֹתֵר מִכְּפִי הַשָּׂגָתָם, אֲזַי עוֹד לֹא אָמְרוּ וְלֹא מִידִי, וְכֵן כְּשֶׁאָמַר הַש"י לָהֶם כָּאן, "לֹא כֵן עַבְדִּי מֹשֶׁה", וּבְאָמְרוֹ אֲלֵיהֶם "פֶּה אֶל פֶּה אֲדַבֶּר", הַיְינוּ תֵּכֶף כְּשֶׁיָּצָא הַדִּבּוּר מִן הַש"י הַמִּלּוֹת הָאֵלּוּ אָז רָאוּ מְפֹרָשׁ הָאוֹר וְהַהַשָּׂגָה שֶׁל מֹשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם עַיִן בְּעַיִן, וְכַאֲשֶׁר אָמַר הַש"י תֵּיבוֹת "בּוֹ", נֶעֱלַם מֵהֶם וְאָז הֵבִינוּ מַדְרֵגוֹת מֹשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם, וּכְמוֹ כֵן כְּשֶׁאָמַר הַש"י "וּתְמוּנַת ה׳" נִכְנַס בְּלִבָּם הָאוֹר וְהַהַשָּׂגָה שֶׁל מֹשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם וְכַאֲשֶׁר אָמַר תֵּיבַת "יַבִּיט" נִסְתַּם מֵהֶם, וְגַם אַחַר כָּךְ נִשְׁאַר בְּלִבָּם זֹאת הַהַשָּׂגָה שֶׁהָיוּ מַשִּׂיגִים לִפְעָמִים כְּהַשָּׂגוֹת מֹשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם, אַךְ שֶׁהָיוּ יוֹדְעִים שֶׁזֶּה אֵין שַׁיָּךְ לָהֶם רַק לְמַדְרֵגוֹת מֹשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם וְהִשִּׂיגוּ מַה שֶּׁחָסֵר לָהֶם נֶגֶד מַדְרֵגוֹת מֹשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם, כִּי קֹדֶם זֶה הָיוּ סוֹבְרִים שֶׁאֵין שׁוּם מַדְרֵגָה לְמַעְלָה מִמַּדְרֵגוֹתָם, וְאַחַר זֶה נוֹדַע לָהֶם שֶׁיֵּשׁ לְמַעְלָה, אַךְ בִּשְׁעַת הַחֵטְא לֹא הֵבִינוּ שֶׁזֶּה הָאוֹר אֵין שַׁיָּךְ לְחֶלְקָם כִּי הָיָה בְּדַעְתָּם שֶׁזֶּה הַהַשָּׂגָה הוּא מִצִּדָּם וְלֹא מִצַּד הַש"י שֶׁיִּרְצֶה לְהַרְאוֹת לָהֶם מַדְרֵגוֹת מֹשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם, וְלָכֵן טָעֲמוּ אוֹר גָּדוֹל יוֹתֵר מִכְּפִי אֲשֶׁר הָיוּ יְכוֹלִים לִטְעוֹם כַּאֲשֶׁר הָיוּ יוֹדְעִים שֶׁאֵין שַׁיָּךְ לְחֶלְקָם, כִּי אָז לֹא הָיוּ יְכוֹלִים לִטְעוֹם רַק כְּפִי אֲשֶׁר יִתְבּוֹנֵן הָאָדָם בְּחֵלֶק חֲבֵרוֹ וְלֹא כַּאֲשֶׁר יֵהָנֶה בְּשֶׁלּוֹ, וְכַאֲשֶׁר הָיָה דֶּרֶךְ חֵטְא וְסָבְרוּ שֶׁזֶּה הוּא חֶלְקָם אָז טָעֲמוּ כְּאָדָם הַנֶּהֱנֶה מִשֶּׁלּוֹ, וְזֶהוּ לְפִי שֶׁרָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְהַרְאוֹת לָהֶם מַדְרֵגוֹת מֹשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם בְּלִי מִגְרַעַת בִּכְדֵי שֶׁיַּכִּירוּ אֶת עֶרְכּוֹ, וְזֶה פֵּרוּשׁ הַגְּמָרָא (ברכות ל"ה.) "כָּל הַנֶּהֱנֶה מֵעוֹלָם הַזֶּה בְּלֹא בְרָכָה כְּאִלּוּ מָעַל", כִּי הַנֶּהֱנֶה בִּבְרָכָה הַיְינוּ שֶׁמַּכִּיר שֶׁאֵין שַׁיָּךְ לוֹ הַדָּבָר רַק לַה׳ וְלָכֵן לֹא יַגִּיעַ לוֹ הֲנָאָה מִקְּדֻשַּׁת הַדָּבָר רַק כְּאָדָם הָרוֹאֶה, וְכַאֲשֶׁר יְאֻנֶּה לְאָדָם שֶׁיֵּהָנֶה בְּלֹא בְרָכָה אָז כְּאִלּוּ נֶהֱנֶה מִקָּדְשֵׁי שָׁמַיִם בִּשְׁלֵמוּת, וְזֶהוּ כְּאִלּוּ מָעַל, וְדוֹק כִּי עָמוֹק עָמוֹק הוּא.
Parte II · Sefaria Volume II
Parágrafo 11

“E façam os filhos de Israel a Pessach em seu tempo determinado.” (Bamidbar 9:2). Consta na Guemará (Pesachim 77a): “em seu tempo determinado” — mesmo no Shabat; “em seu tempo determinado” — mesmo em impureza etc.; o versículo fixou um único tempo para todos. Ora, a expressão “em seu tempo determinado” indica um lugar em que o Nome ilumina de modo explícito diante dos olhos do homem; ali é permitido agir até contra as regras gerais das palavras da Torá, como está escrito (Tehilim 119:126): “É tempo de agir para o Eterno: violaram a Tua Torá”. Por isso mesmo no Shabat, que é o conjunto de todas as palavras da Torá, e ainda assim ele é posto de lado; e também em impureza, o que indica que mesmo onde ao homem parece haver nisso um neguiá interesse pessoal que turva o ato, e por causa desse interesse não há ali glória para quem o faz — como está explicado em vários lugares no primeiro volume; a expressão alude a Avot 2:1, “glória para quem o faz e glória para ele da parte dos homens” —, ele não deve atentar para isso, desde que a vontade do Nome está explícita diante dele; e isso é para ele glória da parte do homem. Pois, em sua figura de homem, ele está orientado para a vontade do Nome, explícita diante dele, e não olhará para coisa alguma.

וְיַעֲשׂוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת הַפָּסַח בְּמוֹעֲדוֹ. אִיתָא בַּגְּמָרָא (פסחים ע"ז.) "בְּמוֹעֲדוֹ" וַאֲפִילּוּ בְּשַׁבָּת "בְּמוֹעֲדוֹ" וַאֲפִילּוּ בְּטֻמְאָה וְכוּ' הַכָּתוּב קְבָעוֹ מוֹעֵד אֶחָד לְכֻלָּן, וְהִנֵּה עִנְיַן "בְּמוֹעֲדוֹ" מוֹרֶה עַל מָקוֹם שֶׁהַשי"ת מֵאִיר מְפֹרָשׁ לְעֵינֵי הָאָדָם, שָׁם מֻתָּר לַעֲשׂוֹת אֲפִילּוּ נֶגֶד כְּלָלֵי דִּבְרֵי תּוֹרָה, כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב (תהלים קי"ט,קכ"ו) "עֵת לַעֲשׂוֹת לַה' הֵפֵרוּ תּוֹרָתֶךָ" וְלָכֵן אֲפִילּוּ בְּשַׁבָּת, שֶׁשַּׁבָּת הוּא כְּלָל כָּל הַדִּבְרֵי תּוֹרָה מִכָּל מָקוֹם נִדְחֶה, וְכֵן אֲפִילּוּ בְּטֻמְאָה, שֶׁזֶּה מוֹרֶה שֶׁאֲפִילּוּ בְּמָקוֹם שֶׁנִּדְמֶה לְהָאָדָם שֶׁיֵּשׁ לוֹ נְגִיעָה בָּזֶה הַדָּבָר וּמֵחֲמַת הַנְּגִיעָה אֵין בָּזֶה תִּפְאֶרֶת לְעוֹשֶׂיהָ (כְּמוֹ שֶׁמְּפֹרָשׁ בְּכַמָּה מְקוֹמוֹת בְּחֵלֶק רִאשׁוֹן) לֹא יַשְׁגִּיחַ עַל זֶה כֵּיוָן שֶׁמְּפֹרָשׁ נֶגְדּוֹ רְצוֹן הַשי"ת וְהִיא תִּפְאֶרֶת לוֹ מִן הָאָדָם, שֶׁבְּצוּרַת אָדָם שֶׁלּוֹ מְכֻוָּן לִרְצוֹן הַשי"ת הַמְפֹרָשׁ נֶגְדּוֹ לֹא יַבִּיט עַל שׁוּם דָּבָר.
Parágrafo 12

“E no dia em que foi erguido o Tabernáculo, a nuvem cobriu o Tabernáculo etc.” (Bamidbar 9:15). Nesta parashá o homem pode sustentar-se todos os dias de sua vida, pois todos os corpos da Torá dependem dela. Isto porque o tema da marcha de Israel pelo deserto, de estação em estação, é que eles saíram para fora de sua fronteira, para lugares desolados e rebeldes, a fim de submeter todas as forças rebeldes, chamadas “serpente ardente, escorpião e sede” (Devarim 8:15), e extrair dali a santidade. Do mesmo modo, o homem tem em sua alma forças rebeldes que querem fazê-lo pecar, e elas são almin de-itcharvu aramaico: “mundos que foram destruídos”; o homem precisa introduzi-las na santidade, e isto se chama partida. Já a parada se chama assim porque há tempos em que a vontade do Nome é que Israel não se estenda para fora de sua fronteira, mas se contraia por todo tipo de contrações, no sentido de “Honra-te e fica em tua casa” (Melachim II 14:10); e dessa parada vinha todo o sofrimento que Israel suportou. Por isso está escrito “a nuvem cobriu o Tabernáculo”: Tabernáculo se chama o ponto de profundidade no coração de Israel, e “a nuvem cobriu o Tabernáculo” significa que o homem não deve estender-se para introduzir santidade vinda de fora de sua fronteira; por isso eram obrigados a suportar a ocultação — a nuvem cobrindo o Tabernáculo — por um dia, ou dois, ou um mês, ou um ano, conforme a vontade do Nome. E por isso está escrito “e às vezes a nuvem ficava da tarde até a manhã” (Bamidbar 9:21). Isto é: o Nome conduz com uma condução gradual, como criou dia e noite, e então o homem está em naiha aramaico: “repouso”, como está escrito “e a nuvem subia pela manhã e partiam” (Bamidbar 9:21); o homem está em repouso porque a ocultação não se prolonga, mas é preciso haver um pouco de ocultação para que haja revelação da sua luz, e isto é a condução gradual. Assim também, às vezes a ocultação era maior, até que fosse da vontade do Nome que lhes fosse permitido partir para novas aquisições. E conforme está no Midrash (Bamidbar Rabá, Naso 7:8), todos os cercados e a santificação dos acampamentos valiam só durante a parada; mas, desde que se enrolaram as cortinas quando se punha o Tabernáculo em marcha, permitia-se que os que têm fluxo e os leprosos entrassem no acampamento. E é isto que está escrito: “E quando a nuvem se demorava sobre o Tabernáculo muitos dias” (Bamidbar 9:19); e consta no Midrash (Shemot Rabá 1:41) que todo lugar em que se diz “muitos dias” são dias de aflição; e então foi dito “e guardaram os filhos de Israel a guarda do Eterno”, isto é, precisavam guardar com força, para não forçar o Fim e a hora; e por isso o Nome nos salvará.

וּבְיוֹם הָקִים אֶת הַמִּשְׁכָּן כִּסָּה הֶעָנָן אֶת הַמִּשְׁכָּן וגו'. בְּזֶה הַפָּרָשָׁה יוּכַל הָאָדָם לְכַלְכֵּל בָּהּ כָּל יְמֵי חַיָּיו, כִּי כָּל גּוּפֵי תּוֹרָה תְּלוּיִים בָּהּ, כִּי עִנְיַן נְסִיעַת יִשְׂרָאֵל בַּמִּדְבָּר מִמַּסָּע לְמַסָּע, הוּא שֶׁיָּצְאוּ חוּץ לִגְבוּלָם לִמְקוֹמוֹת הַשּׁוֹמְמִים וְהַשּׁוֹבָבִים לְהַכְנִיעַ כָּל הַכֹּחוֹת הַשּׁוֹבָבִים הַנִּקְרָאִים נָחָשׁ שָׂרָף וְעַקְרָב וְצִמָּאוֹן, וּלְהוֹצִיא מִשָּׁם הַקְּדֻשָּׁה, וְכֵן הָאָדָם בְּנַפְשׁוֹ יֵשׁ לוֹ כֹּחוֹת שׁוֹבָבִים שֶׁרוֹצִים לְהַחְטִיאוֹ וְהֵם עָלְמִין דְּאִתְחָרְבוּ, וְצָרִיךְ הָאָדָם לְהַכְנִיסָם לְהַקְּדֻשָּׁה, וְזֶה נִקְרָא נְסִיעָה. וַחֲנִיָּה נִקְרָא שֶׁיֵּשׁ עִתִּים שֶׁרְצוֹן הַשי"ת הוּא שֶׁלֹּא יִתְפַּשְּׁטוּ יִשְׂרָאֵל חוּץ לִגְבוּלָם רַק יְצַמְצְמוּ עַצְמָם בְּכָל מִינֵי צִמְצוּמִים כְּעִנְיַן "הִכָּבֵד וְשֵׁב בְּבֵיתֶךָ" (מלכים ב י״ד:י׳) וּמִזֶּה הַחֲנִיָּה הָיָה כָּל הַסַּבְלָנוּת שֶׁסָּבְלוּ יִשְׂרָאֵל וְלָכֵן כְּתִיב "כִּסָּה הֶעָנָן אֶת הַמִּשְׁכָּן", מִשְׁכָּן נִקְרָא נְקֻדַּת הָעֹמֶק שֶׁבְּלֵב יִשְׂרָאֵל וְ"כִסָּה הֶעָנָן אֶת הַמִּשְׁכָּן" הַיְינוּ שֶׁלֹּא יִתְפַּשֵּׁט הָאָדָם לְהַכְנִיס קְדֻשָּׁה מִחוּץ לִגְבוּלוֹ, וְלָכֵן הָיוּ מֻכְרָחִים לִסְבֹּל הַהַסְתָּרָה יוֹם אוֹ יוֹמַיִם אוֹ חֹדֶשׁ אוֹ שָׁנָה, כְּפִי רְצוֹן הַשי"ת, וְלָכֵן כְּתִיב "וְיֵשׁ אֲשֶׁר יִהְיֶה הֶעָנָן מֵעֶרֶב עַד בֹּקֶר". הַיְינוּ שֶׁהַשי"ת מַנְהִיג בְּהַנְהָגָה בְּהַדְרָגָה כְּמוֹ שֶׁבָּרָא יוֹם וְלַיְלָה אָז הָאָדָם הוּא בְּנַיְיחָא, כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב "וְנַעֲלָה הֶעָנָן בַּבֹּקֶר וְנָסָעוּ", שֶׁהָאָדָם הוּא בְּנַיְיחָא שֶׁלֹּא יַאֲרִיךְ הַהֶסְתֵּר רַק שֶׁצָּרִיךְ לִהְיוֹת מְעַט הֶסְתֵּר כְּדֵי שֶׁיִּהְיֶה הִתְגַּלּוּת אוֹרָה וְזֶהוּ הַנְהָגָה בְּהַדְרָגָה, וְכֵן הָיָה לִפְעָמִים נִסְתָּר יוֹתֵר עַד שֶׁהָיָה בִּרְצוֹן הַשי"ת שֶׁיִּהְיוּ רַשָּׁאִים לִסַּע לִקְנוֹת חֲדָשׁוֹת, וְכִדְאִיתָא בַּמִּדְרָשׁ (רבה נשא פ"ז,ח') שֶׁכָּל הַגְּדָרִים וְקִדּוּשׁ מַחֲנוֹת הָיָה רַק בִּשְׁעַת חֲנִיָּה, אֲבָל מִשֶּׁהֻגְלְלוּ הַפָּרֹכֶת הֻתְּרוּ זָבִים וּמְצֹרָעִים לִכָּנֵס לַמַּחֲנֶה, וְזֶה שֶׁכָּתוּב "וּבְהַאֲרִיךְ הֶעָנָן עַל הַמִּשְׁכָּן יָמִים רַבִּים" וְאִיתָא בַּמִּדְרָשׁ (רבה שמות פ"א,מ"א) כָּל מָקוֹם שֶׁנֶּאֱמַר יָמִים רַבִּים הֵם שֶׁל צַעַר וְאָז נֶאֱמַר "וְשָׁמְרוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת מִשְׁמֶרֶת ה'" הַיְינוּ שֶׁהָיוּ צְרִיכִין לִשְׁמֹר בְּכֹחַ שֶׁלֹּא יִדְחֲקוּ אֶת הַקֵּץ וְאֶת הַשָּׁעָה וּבִשְׁבִיל זֶה יוֹשִׁיעַ לָנוּ הַשי"ת.
Parágrafo 13

“Pela ordem do Eterno acampavam e pela ordem do Eterno partiam; guardavam a guarda do Eterno, pela ordem do Eterno por meio de Moshé.” (Bamidbar 9:23). A retirada da nuvem e da Sua Presença só era vista por Moshé Rabenu, a paz sobre ele; e assim em cada geração quem é o justo da geração vê a vontade do Nome, como está escrito (Mishlei 10:32): “Os lábios do justo conhecem o que agrada”. O Yehudi Hakadosh, cuja memória, de justo e santo, seja para a vida do Mundo Vindouro, viu em sua geração a vontade do Nome no atraso do horário da oração, e apoiou-se na palavra do versículo (Devarim 12:4): “Não fareis assim ao Eterno, vosso Deus”; o ken “assim”, mas também “fixo, estabelecido” alude a uma fixidez sem vida. Quando viu nisso a vontade do Nome, atrasou por isso a sua oração; e a sua alma brilha no Jardim do Éden por causa disso, pois visou a luz da vontade do Nome. E embora isso possa, com a mudança dos tempos, mudar, ainda assim “fiel a Deus era o seu espírito” — expressão de Tehilim 78:8, aqui sem a negação — até o tempo do fim.

עַל פִּי ה' יַחֲנוּ וְעַל פִּי ה' יִסָּעוּ אֶת מִשְׁמֶרֶת ה' שָׁמָרוּ עַל פִּי ה' בְּיַד מֹשֶׁה. הִסְתַּלְּקוּת הֶעָנָן וּשְׁכִינָתוֹ לֹא נִרְאָה רַק לְמֹשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם, וְכֵן בְּכָל דּוֹר וָדוֹר מִי שֶׁהוּא צַדִּיק הַדּוֹר רוֹאֶה רְצוֹן הַשי"ת כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב (משלי י',ל"ב) "שִׂפְתֵי צַדִּיק יֵדְעוּן רָצוֹן", וְהַיְּהוּדִי הַקָּדוֹשׁ זצללה״ה בְּדוֹרוֹ רָאָה רְצוֹן הַשי"ת בְּאִיחוּר זְמַן תְּפִלָּה וְנִסְמַךְ עַל מַאֲמַר הַכָּתוּב (דברים י"ב,ד') "לֹא תַעֲשׂוּן כֵּן לַה' אֱלֹהֵיכֶם", כֵּן רוֹמֵז עַל קְבִיעוּת בְּלִי חַיִּים, וּכְשֶׁרָאָה רְצוֹן הַשי"ת בָּזֶה לָכֵן הִתְאַחֵר בִּתְפִלָּתוֹ, וְנִשְׁמָתוֹ מְאִירָה בְּגַן עֵדֶן מִזֶּה כִּי כִּוֵּן לְאוֹר רְצוֹן הַשי"ת, אַף כִּי יָכוֹל זֹאת בְּשִׁנּוּי זְמַנִּים לְהִשְׁתַּנּוֹת מִכָּל מָקוֹם נֶאֶמְנָה אֶת אֵל רוּחוֹ עַד עֵת קֵץ.
Parágrafo 14

“E disse: Não nos deixes, peço-te, etc. e serás para nós como olhos.” (Bamidbar 10:31). É preciso entender: Moshé Rabenu não precisava de que Chovav — Yitro, sogro de Moshé — lhe indicasse o caminho; por que então disse “e serás para nós como olhos”? O sentido é o que está na Guemará (Bava Batra 75a): disse Rabá, disse Rabi Yochanan: no futuro o Santo, bendito seja, fará sete dosséis para cada justo, como está dito (Yeshayahu 4:5): “E o Eterno criará sobre toda morada etc., pois sobre toda glória haverá um dossel”; isto ensina que, para cada um, o Santo, bendito seja, faz um dossel conforme a sua honra. “Fumaça no dossel, por quê?” — pois o versículo cita nuvem, fumaça e fogo — Disse Rabi Chanina: todo aquele cujos olhos são maus para com os sábios da Torá neste mundo, seus olhos se enchem de fumaça no Mundo Vindouro. “Fogo no dossel, por quê?” Disse Rabi Chanina: isto ensina que cada um se queima com o dossel do seu companheiro. E o essencial do dossel é, como está escrito ali, “pois sobre toda glória haverá um dossel”: que cada um seja honrado pelo que adquiriu neste mundo e seja honrado diante do seu companheiro menor que ele; e mesmo o menor de Israel será honrado diante do maior dos conversos. Por isso era necessário que houvesse um ger “converso, prosélito”, para completar a elevação e a honra da comunidade de Israel, mostrando-lhe aos olhos que, a esta honra do nativo e da raiz de Israel, nenhuma criatura que não seja da semente de Israel tem capacidade de chegar, mesmo depois da grandeza de seus serviços. E, embora em verdade o converso tenha feito algo grande ao entrar sob as asas da Presença, ainda assim consta no sagrado Zohar (Yitro 87a): “converso justo” é o seu nome, e nada além disso. E isto é “e serás para nós como olhos”. Como está escrito (Yeshayahu 66:21): “E também deles tomarei para sacerdotes, para levitas”; isto é, ao aspecto do serviço também os conversos podem chegar, mas à raiz de Israel não podem chegar, enquanto vestem a roupagem de conversos, como consta no sagrado Zohar (Sava de-Mishpatim 95b).

וַיֹּאמֶר אַל נָא תַעֲזֹב אֹתָנוּ וְגוֹ' וְהָיִיתָ לָּנוּ לְעֵינָיִם. לְהָבִין הֲלֹא לֹא הָיָה צָרִיךְ מֹשֶׁה רַבֵּינוּ שֶׁחוֹבָב יִהְיֶה מוֹרֶה דֶּרֶךְ שֶׁלּוֹ וְלָמָּה אָמַר "וְהָיִיתָ לָּנוּ לְעֵינָיִם". אָכֵן הָעִנְיָן בָּזֶה כִּדְאִיתָא בַּגְּמָרָא (ב"ב ע"ה.) אָמַר רַבָּה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן עָתִיד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לַעֲשׂוֹת שֶׁבַע חוּפּוֹת לְכָל צַדִּיק וְצַדִּיק, שֶׁנֶּאֱמַר (ישעיה ד',ה') "וּבָרָא ה' עַל כָּל מְכוֹן וְגוֹ' כִּי עַל כָּל כָּבוֹד חֻפָּה" מְלַמֵּד שֶׁכָּל אֶחָד וְאֶחָד עוֹשֶׂה לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא חוּפָּה לְפִי כְּבוֹדוֹ, עָשָׁן בַּחוּפָּה לָמָּה אָמַר רַבִּי חֲנִינָא שֶׁכָּל מִי שֶׁעֵינָיו צָרוֹת בְּתַלְמִידֵי חֲכָמִים בָּעוֹלָם הַזֶּה מִתְמַלְּאוֹת עֵינָיו עָשָׁן לָעוֹלָם הַבָּא, וְאֵשׁ בַּחוּפָּה לָמָּה אָמַר רַבִּי חֲנִינָא מְלַמֵּד שֶׁכָּל אֶחָד וְאֶחָד נִכְוֶה מֵחוּפָּתוֹ שֶׁל חֲבֵירוֹ, וְעִיקַּר הַחוּפָּה הוּא כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב (שם) "כִּי עַל כָּל כָּבוֹד חֻפָּה" שֶׁכָּל אֶחָד יִתְכַּבֵּד מִמַּה שֶּׁקָּנָה בָּעוֹלָם הַזֶּה וְיִתְכַּבֵּד נֶגֶד חֲבֵירוֹ הַקָּטָן מִמֶּנּוּ וַאֲפִילּוּ הַקָּטָן שֶׁבְּיִשְׂרָאֵל יִתְכַּבֵּד נֶגֶד הַגָּדוֹל שֶׁבַּגֵּרִים, וְלָכֵן מוּכְרָח שֶׁיִּהְיֶה גֵּר לְהַשְׁלִים הַהִתְנַשְּׂאוּת וְכָבוֹד שֶׁל כְּלַל יִשְׂרָאֵל לְהַרְאוֹת לוֹ לָעֵינַיִם שֶׁלַּכָּבוֹד הַזֶּה שֶׁל אֶזְרָח וְשׁוֹרֶשׁ יִשְׂרָאֵל אֵין בִּיכוֹלֶת שׁוּם בְּרִיאָה שֶׁאֵינוֹ מִזֶּרַע יִשְׂרָאֵל לְהַשִּׂיג אַף אַחַר גּוֹדֶל עֲבוֹדוֹת, וְאַף שֶׁבֶּאֱמֶת הַגֵּר עָשָׂה דָּבָר גָּדוֹל לִכָּנֵס תַּחַת כַּנְפֵי הַשְּׁכִינָה מִכָּל מָקוֹם אִיתָא בַּזה"ק (יתרו פ"ז.) גֵּר צֶדֶק אִקְרֵי וְלֹא יַתִּיר וְזֶהוּ "וְהָיִיתָ לָּנוּ לְעֵינָיִם", וּכְמוֹ שֶׁכָּתוּב (ישעיה ס"ו,כ"א) "וְגַם מֵהֶם אֶקַּח לַכֹּהֲנִים לַלְוִיִּם", הַיְינוּ לִבְחִינַת עֲבוֹדָה יְכוֹלִים גַּם הַגֵּרִים לְהַגִּיעַ אֲבָל לְשׁוֹרֶשׁ יִשְׂרָאֵל אֵין יְכוֹלִים לְהַגִּיעַ בִּלְבוּשׁ הַגֵּרִים כִּדְאִיתָא בַּזה"ק (סבא משפטים צה:).
Parágrafo 15

“E o povo era como os que se queixam, mal aos ouvidos do Eterno; e o Eterno ouviu e Sua ira se acendeu etc. E a ralé que estava em seu meio sentiu um desejo etc. E acendeu-se muito a ira do Eterno, e aos olhos de Moshé foi mau.” (Bamidbar 11:1, 11:4, 11:10). É preciso entender por que, no pecado dos que se queixam, não foi dito “e aos olhos de Moshé foi mau”. É que o tema do pecado dos que se queixam não era senão atzvut tristeza, abatimento, como está explicado no primeiro volume; e por tristeza ninguém pode achar mau — reprovar —, aos seus olhos, o seu companheiro, pois este mundo obriga à tristeza. Está escrito apenas “e o Eterno ouviu e Sua ira se acendeu”, porque “força e alegria estão em Seu lugar” (Divrei HaYamim I 16:27). Já no pecado do taavá desejo, então também aos olhos de Moshé foi mau, pois, por causa de um desejo, também um homem pode exigir rigor do seu companheiro. E, no tema do pecado do desejo, o Nome mostra que não pune ninguém senão pela sua intenção: pois, em verdade, a vontade do Nome era que desejassem, mas só segundo a profundidade da vontade do Nome; e eles desejaram segundo a sua própria intenção, por isso foram punidos.

וַיְהִי הָעָם כְּמִתְאוֹנְנִים רַע בְּאָזְנֵי ה' וַיִּשְׁמַע ה' וַיִּחַר אַפּוֹ וְגוֹ' וְהָאסַפְסֻף אֲשֶׁר בְּקִרְבּוֹ הִתְאַוּוּ תַּאֲוָה וְגוֹ' וַיִּחַר אַף ה' מְאֹד וּבְעֵינֵי מֹשֶׁה רָע. לְהָבִין מַה שֶּׁבְּחֵטְא מִתְאוֹנְנִים לֹא נֶאֱמַר וּבְעֵינֵי מֹשֶׁה רָע, כִּי עִנְיַן חֵטְא מִתְאוֹנְנִים לֹא הָיָה רַק עַצְבוּת כַּמְבוֹאָר בְּחֵלֶק רִאשׁוֹן, וְעַל עַצְבוּת לֹא יוּכַל לְהָרַע בְּעֵינֵי שׁוּם אִישׁ עַל חֲבֵירוֹ, כִּי הָעוֹלָם הַזֶּה מְחַיֵּיב עַצְבוּת, וְרַק כְּתִיב "וַיִּשְׁמַע ה' וַיִּחַר אַפּוֹ" כִּי עֹז וְחֶדְוָה בִּמְקוֹמוֹ, אֲבָל בְּחֵטְא תַּאֲוָה אָז אַף בְּעֵינֵי מֹשֶׁה רָע כִּי עַל תַּאֲוָה יָכוֹל גַּם אָדָם לְהַקְפִּיד עַל חֲבֵירוֹ, וּבְעִנְיַן חֵטְא הַתַּאֲוָה מַרְאֶה הַשי"ת שֶׁאֵינוֹ מַעֲנִישׁ שׁוּם אָדָם רַק עַל כַּוָּנָתוֹ כִּי בֶּאֱמֶת רְצוֹן הַשי"ת הָיָה שֶׁיִּתְאַוּוּ רַק כְּעוֹמֶק רְצוֹן הַשי"ת וְהֵם הִתְאַוּוּ כְּכַוָּנָתָם לָכֵן נֶעֶנְשׁוּ עַל זֶה.
Parágrafo 16

“E respondeu Yehoshua bin Nun, servo de Moshé, de seus jovens, e disse: Meu senhor Moshé, detém-nos.” (Bamidbar 11:28). Consta na Guemará (Eruvin 63a): disse Rabi Levi: todo aquele que motiv mila aramaico: “levanta uma palavra”, isto é, objeta ou opina diante de seu mestre desce ao Sheol sem filho, como está dito “e respondeu Yehoshua bin Nun” etc., e está escrito (Divrei HaYamim I 7:27) “Nun seu filho, Yehoshua seu filho” — a genealogia termina em Yehoshua, sem menção de filho —. E, embora não houvesse nisso nenhum interesse pessoal, e ele tenha dito isso apenas pela honra de seu mestre, aqui, contudo, era preciso entender, pela fala deles, que era palavra do Nome, “assim diz o Eterno”, e não lhe cabia expressar a sua opinião.

וַיַּעַן יְהוֹשֻׁעַ בִּן נוּן מְשָׁרֵת מֹשֶׁה מִבְּחֻרָיו וַיֹּאמַר אֲדֹנִי מֹשֶׁה כְּלָאֵם. וְאִיתָא בַּגְּמָרָא (עירובין ס"ג.) אָמַר רַבִּי לֵוִי כָּל דְּמוֹתִיב מִלָּה קַמֵּיה רַבֵּיהּ אָזִיל לִשְׁאוֹל בְּלֹא וָלָד שֶׁנֶּאֱמַר "וַיַּעַן יְהוֹשֻׁעַ בִּן נוּן" וְגוֹ' וּכְתִיב (דה"א ז',כ"ז) "נוּן בְּנוֹ יְהוֹשֻׁעַ בְּנוֹ", וְאַף שֶׁלֹּא הָיָה בָּזֶה שׁוּם נוֹגֵעַ לְעַצְמוֹ וְרַק מִצַּד כְּבוֹד רַבּוֹ אָמַר זֹאת, אָכֵן בְּכָאן הָיָה צָרִיךְ לְהָבִין מִדִּיבּוּרָם שֶׁהוּא מַאֲמַר הַשי"ת כֹּה אָמַר ה' וְלֹא הָיָה לוֹ לְחַוּוֹת דַּעְתּוֹ.
Parágrafo 17

“A carne ainda estava entre os seus dentes, antes de ser mastigada etc., e o Eterno feriu o povo com uma praga muito grande etc.” (Bamidbar 11:33). Não foi dito “e morreu povo numeroso”, mas sim “praga muito grande”, e dessa expressão se entende que foi tirada deles uma alma muito preciosa. Assim como encontramos escrito (Shemuel II 24:16): “E disse ao anjo destruidor entre o povo: Basta” — em hebraico rav “basta”, mas também “grande, mestre”. E consta sobre isso na Guemará (Berachot 62b): disse Rabi Elazar: disse o Santo, bendito seja, ao anjo: “Toma-me um grande deles, em quem haja de que cobrar deles muitas dívidas”; naquela hora morreu Avishai ben Tzruiá, que valia a maior parte do Sanhedrin. Assim também aqui se entende que morreu naquela hora uma alma preciosa, e parece que foi Nachshon ben Aminadav. E o apoio para isso está no sagrado Zohar (Behaalotcha 156a): ha ana pegima ve-Aharon pagim ve-Nachshon ben Aminadav pagim aramaico: “eis que eu sou imperfeito, e Aharon imperfeito, e Nachshon ben Aminadav imperfeito”. Pois Nachshon era o braço esquerdo, como consta no sagrado Zohar (Vaetchanan 260b); e a morte de Moshé e de Aharon está escrita na Torá, enquanto a morte de Nachshon não está escrita.

הַבָּשָׂר עוֹדֶנּוּ בֵּין שִׁנֵּיהֶם טֶרֶם יִכָּרֵת וְגוֹ' וַיַּךְ ה' בָּעָם מַכָּה רַבָּה מְאֹד וְגוֹ'. וְלֹא נֶאֱמַר וַיָּמָת עַם רָב רַק "מַכָּה רַבָּה מְאֹד" שֶׁמִּלָּשׁוֹן זֶה מַשְׁמַע שֶׁנִּלְקַח מֵהֶם נֶפֶשׁ יָקָר לִמְאֹד, כְּמוֹ שֶׁמָּצִינוּ שֶׁכָּתוּב (ש"ב כ"ד,ט"ז) "וַיֹּאמֶר לַמַּלְאָךְ הַמַּשְׁחִית בָּעָם רָב" וְאִיתָא עַל זֶה בַּגְּמָרָא (ברכות ס"ב:) אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר אָמַר לֵיהּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לַמַּלְאָךְ טוֹל לִי רַב שֶׁבָּהֶם שֶׁיֵּשׁ בּוֹ לִיפָּרַע מֵהֶם כַּמָּה חוֹבוֹת בְּאוֹתָהּ שָׁעָה מֵת אֲבִישַׁי בֶּן צְרוּיָה שֶׁשָּׁקוּל כְּרוּבָּהּ שֶׁל סַנְהֶדְרִין, וְכֵן מַשְׁמַע בְּכָאן שֶׁמֵּת בְּאוֹתָהּ שָׁעָה נֶפֶשׁ יָקָר, וְנִרְאֶה שֶׁזֶּה הָיָה נַחְשׁוֹן בֶּן עַמִּינָדָב, וְסֶמֶךְ לָזֶה מִזה"ק (בהעלותך קנ"ו.) הָא אֲנָא פְּגִימָא וְאַהֲרֹן פָּגִים וְנַחְשׁוֹן בֶּן עַמִּינָדָב פָּגִים, כִּי נַחְשׁוֹן הָיָה דְּרוֹעָא שְׂמָאלָא כִּדְאִיתָא בַּזה"ק (ואתחנן ר"ס:) וּמִיתַת מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן נִכְתַּב בַּתּוֹרָה וּמִיתַת נַחְשׁוֹן לֹא נִכְתַּב.
Parágrafo 18

“E o homem Moshé era muito humilde, mais que todo homem que há sobre a face da terra.” (Bamidbar 12:3). O tema deste versículo aqui: pois, em verdade, por que Moshé não respondeu a Aharon e a Miriam sobre isso? Sobre isso foi escrito que ele era tão humilde que nem lhe passou pela mente o que Aharon e Miriam falavam dele.

וְהָאִישׁ מֹשֶׁה עָנָו מְאֹד מִכֹּל הָאָדָם אֲשֶׁר עַל פְּנֵי הָאֲדָמָה. עִנְיַן פָּסוּק זֶה לְכָאן כִּי בֶּאֱמֶת לָמָּה לֹא הֵשִׁיב מֹשֶׁה לְאַהֲרֹן וּמִרְיָם עַל זֶה כָּתוּב שֶׁהָיָה כָּל כָּךְ עָנָו שֶׁלֹּא עָלָה עַל דַּעְתּוֹ כְּלָל מַה שֶּׁאַהֲרֹן וּמִרְיָם מְדַבְּרִים עָלָיו.
Parágrafo 19

“Se houver entre vós um profeta do Eterno, em visão a ele me farei conhecer, em sonho falarei com ele. Não assim o Meu servo Moshé: em toda a Minha casa ele é fiel. Boca a boca falo com ele, em visão e não em enigmas, e a imagem do Eterno ele contempla.” (Bamidbar 12:6-8). É preciso entender a diferença entre “em visão a ele me farei conhecer” e “em visão e não em enigmas”. O sentido é o que consta na Guemará (Yomá 26a): disse Rava: lo mashkachat tzurva mi-rabanan de-morei ela de-atei mi-shevet Levi o mi-shevet Yissachar aramaico: “não encontrarás um jovem sábio que decide a halachá senão aquele que vem da tribo de Levi ou da tribo de Yissachar” etc. E pergunta a Guemará: e diga-se Yehudá também, pois está escrito (Tehilim 60:9): “Yehudá é o meu legislador”? E responde: asuki shemata aliba de-hilchata ka-amina aramaico: “é para concluir a questão conforme a halachá que digo”. Mas é inadmissível dizer da tribo de Yehudá, da qual sairá o Rei Messias, que ele iluminará e completará a vontade do Nome e é morach ve-dayin aramaico: “fareja e julga”, Sanhedrin 93b, que ele não possa, o céu o livre, concluir a questão conforme a halachá. E, de fato, encontramos na Guemará (Bava Kama 52a) que Moshé Rabenu rezou por ele: “e que seja uma ajuda contra os seus adversários” (Devarim 33:7), para que pudesse concluir a questão conforme a halachá. O ponto é o que foi explicado no primeiro volume — nos Likutei HaShas, tratado Yomá —: o que se chama, em todas as tribos, “conforme a halachá”, ainda não se chama assim em Yehudá. Pois quem nega tudo é isento, por causa da chazakat mamon “presunção sobre o dinheiro”: quem detém o bem é tido como dono e da presunção de que ninguém é descarado diante do seu credor; mas em Yehudá ainda não está esclarecido diante dele que o outro é isento, pois pode ser que, em verdade, lhe deva. Por isso o Rei Messias, que virá da tribo de Yehudá e que completará a vontade do Nome na criação do mundo, será morach ve-dayin “fareja e julga”, como está escrito (Yeshayahu 11:3): “E o seu faro será no temor do Eterno” — “harichó”, da mesma raiz de “reach”, cheiro —, isto é, ele farejará até a profundidade da verdade. E é isto que o Nome elogia em Moshé Rabenu: “Se houver entre vós um profeta do Eterno, em visão a ele me farei conhecer”, isto é, todos os profetas são almas particulares, e o Nome só ilumina para eles segundo o aspecto da sua alma; isso se chama “em visão a ele”, conforme a raiz do aspecto da sua alma. E mesmo essa iluminação não está explícita diante dele com clareza, mas “em sonho falarei com ele”. Já em Moshé Rabenu, “boca a boca falo com ele”, isto é, no momento da revelação ele vê a palavra explícita saindo da boca do Nome be-atvan gelifin aramaico: “em letras gravadas”; e “em visão e não em enigmas” se refere a que ele é a totalidade de todas as almas de Israel, e por isso o Nome lhe mostra todas as diferenças de opinião que há em Israel; e isto se chama “e não em enigmas”, isto é, não uma única opinião, mas todas as opiniões, pois Moshé Rabenu era a totalidade das seiscentas mil almas de Israel. E é isto que está escrito (Shemot 22:14): “Se é assalariado, veio por seu salário”, e não se explicitou o seu julgamento, e os tanaim divergiram sobre se o seu estatuto é o de guardião gratuito ou o de guardião pago; e isto se chama “veio por seu salário”, isto é, que se sabe bem que há nisso divergência de tanaim. “E a imagem do Eterno ele contempla” significa que conhece a profundidade da verdade e reconhece a vontade do Nome em cada detalhe; por isso pode concluir a questão conforme a halachá, segundo a profundidade da verdade. E com isso se gloriou o rei Shlomo, a paz sobre ele (Mishlei 30:1): “Palavra do homem: para Itiel, para Itiel, e Ucal”. “Palavra do homem” corresponde a “boca a boca falo com ele”, pois viu a palavra em letras gravadas; “para Itiel, para Itiel” corresponde a “em visão e não em enigmas”, pois viu todas as divergências do Talmud entre todos os decisores, e por isso “para Itiel” está escrito duas vezes; “e Ucal” corresponde a “e a imagem do Eterno ele contempla”, pois conhece a profundidade da vontade do Nome para acertar a halachá, verdadeira em sua verdade, segundo a vontade do Nome — pois também o rei Shlomo, a paz sobre ele, era a totalidade de todas as almas de Israel. E assim também o Rei Messias será morach ve-dayin, como foi explicado no primeiro volume — na parashá Shoftim e nos Likutei HaShas ali — a respeito do caso da cana de Rava (Nedarim 25a): o outro jurava corretamente shapir mishtava aramaico: “jura bem”, mas Rava farejou a profundidade da vontade do Nome e sentiu que a sentença era uma sentença de verdade, porém não verdadeira em sua verdade mais profunda — formalmente correta, mas distante da verdade de fundo —, e não sabia como esclarecer. Numa ocupação assim, o homem precisa clamar ao Nome: “Salva, Eterno”; e assim fez Rava, e o Nome completou por ele, e ficou claro que a cana se quebrou, e ele concluiu a questão conforme a profundidade da verdade.

אִם יִהְיֶה נְבִיאֲכֶם ה' בַּמַּרְאָה אֵלָיו אֶתְוַדָּע בַּחֲלוֹם אֲדַבֵּר בּוֹ, לֹא כֵן עַבְדִּי מֹשֶׁה בְּכָל בֵּיתִי נֶאֱמָן הוּא פֶּה אֶל פֶּה אֲדַבֵּר בּוֹ וּמַרְאֶה וְלֹא בְחִידֹת וּתְמֻנַת ה' יַבִּיט. לְהָבִין הַחִילּוּק בֵּין "בַּמַּרְאָה אֵלָיו אֶתְוַדָּע" בֵּין "וּמַרְאֶה וְלֹא בְחִידֹת", אָכֵן הָעִנְיָן בָּזֶה כִּדְאִיתָא בַּגְּמָרָא (יומא כ"ו.) לֹא מַשְׁכַּחַתְּ צוּרְבָא מֵרַבָּנָן דְּמוֹרֵי אֶלָּא דְּאָתֵי מִשֵּׁבֶט לֵוִי אוֹ מִשֵּׁבֶט יִשָּׂשׂכָר וְכוּ' וְאֵימָא יְהוּדָה נַמִּי דִּכְתִיב (תהילים ס׳:ט׳) "יְהוּדָה מְחֹקְקִי" אַסּוּקֵי שְׁמַעְתָּא אַלִּיבָּא דְּהִלְכְתָא קָאָמֵינָא, וְחָלִילָה לוֹמַר עַל שֵׁבֶט יְהוּדָה אֲשֶׁר מֶלֶךְ הַמָּשִׁיחַ יֵצֵא מִשִּׁבְטוֹ שֶׁהוּא יָאִיר וְיַשְׁלִים רְצוֹן הַשי"ת וְהוּא מוֹרַח וְדָאִין, שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל חָלִילָה לְאַסּוּקֵי שְׁמַעְתְּתָא אַלִּיבָּא דְּהִלְכְתָא, וּבֶאֱמֶת הֲלֹא מָצִינוּ בַּגְּמָרָא (ב"ק נ"ב.) שֶׁמֹּשֶׁה רַבֵּינוּ הִתְפַּלֵּל עָלָיו "וְעֵזֶר מִצָּרָיו תִּהְיֶה" שֶׁיִּהְיֶה יָכוֹל לְאַסּוּקֵי שְׁמַעְתָּא אַלִּיבָּא דְּהִלְכְתָא, אָכֵן הָעִנְיָן בָּזֶה כְּמוֹ שֶׁנִּתְבָּאֵר בְּחֵלֶק רִאשׁוֹן (ליקוטי הש"ס יומא) שֶׁמַּה שֶּׁנִּקְרָא בְּכָל הַשְּׁבָטִים אַלִּיבָּא דְּהִלְכְתָא אֵינוֹ נִקְרָא עֲדַיִן אֵצֶל יְהוּדָה אַלִּיבָּא דְּהִלְכְתָא, כִּי כּוֹפֵר הַכֹּל הוּא פָּטוּר מִטַּעַם חֲזָקַת מָמוֹן וַחֲזָקָה אֵין אָדָם מֵעִיז פָּנָיו בִּפְנֵי בַּעַל חוֹבוֹ, אֲבָל אֵצֶל יְהוּדָה אֵינוֹ מְבֹרָר עוֹד לְפָנָיו שֶׁהוּא פָּטוּר כִּי יָכוֹל לִהְיוֹת שֶׁבֶּאֱמֶת חַיָּב לוֹ, וְלָכֵן מֶלֶךְ הַמָּשִׁיחַ שֶׁיָּבוֹא מִשֵּׁבֶט יְהוּדָה שֶׁהוּא יַשְׁלִים רְצוֹן הַשי"ת בִּבְרִיאַת עוֹלָם יִהְיֶה מוֹרַח וְדָאִין כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב (ישעיה י"א,ג') "וַהֲרִיחוֹ בְּיִרְאַת ה'" שֶׁיָּרִיחַ לְעוֹמֶק הָאֱמֶת, וְזֶה שֶׁמְּשַׁבֵּחַ הַשי"ת אֶת מֹשֶׁה רַבֵּינוּ אִם יִהְיֶה נְבִיאֲכֶם ה' בַּמַּרְאָה אֵלָיו אֶתְוַדָּע, הַיְינוּ שֶׁכָּל הַנְּבִיאִים הֵמָּה פְּרָטֵי נְפָשׁוֹת וְאֵין הַשי"ת מֵאִיר לָהֶם רַק כְּפִי בְּחִינַת נַפְשָׁם וְזֶה נִקְרָא בַּמַּרְאָה אֵלָיו כְּפִי שֹׁרֶשׁ בְּחִינַת נַפְשׁוֹ, וְגַם זֶה הַהֶאָרָה אֵינוֹ מְפֹרָשׁ לְפָנָיו הֵיטֵב רַק "בַּחֲלוֹם אֲדַבֶּר בּוֹ", אֲבָל בְּמֹשֶׁה רַבֵּינוּ "פֶּה אֶל פֶּה אֲדַבֶּר בּוֹ", הַיְינוּ שֶׁבִּשְׁעַת הִתְגַּלּוּת הוּא רוֹאֶה הַדִּבּוּר מְפֹרָשׁ יוֹצֵא מִפִּי הַשי"ת בְּאַתְוָון גְּלִיפִין, "וּמַרְאֶה וְלֹא בְחִידֹת" שֶׁהוּא כְּלַל כָּל נַפְשׁוֹת יִשְׂרָאֵל, לָכֵן מַרְאֶה לוֹ הַשי"ת כָּל חִילּוּקֵי דֵעוֹת שֶׁנִּמְצָא בְּיִשְׂרָאֵל, וְזֶה נִקְרָא "וְלֹא בְחִידֹת", הַיְינוּ לֹא דֵּעָה אַחַת לְבַד רַק כָּל הַדֵּעוֹת, כִּי מֹשֶׁה רַבֵּינוּ הָיָה כְּלָל כָּל הַשִּׁשִּׁים רִבּוֹא נְשָׁמוֹת מִיִּשְׂרָאֵל, וְזֶה שֶׁכָּתוּב (שמות כ"ב,י"ד) "אִם שָׂכִיר הוּא בָּא בִּשְׂכָרוֹ", וְלֹא נִתְפָּרֵשׁ דִּינוֹ וְנֶחְלְקוּ בָּזֶה הַתַּנָּאִים אִם דִּינוֹ כְּשׁוֹמֵר חִנָּם אוֹ כְּשׁוֹמֵר שָׂכָר וְזֶה נִקְרָא "בָּא בִּשְׂכָרוֹ", הַיְינוּ שֶׁאֲנִי יוֹדֵעַ הֵיטֵיב שֶׁיֵּשׁ בָּזֶה מַחְלוֹקֶת הַתַּנָּאִים, "וּתְמֻנַת ה' יַבִּיט" שֶׁיּוֹדֵעַ עוֹמֶק הָאֱמֶת וּמַכִּיר רְצוֹן הַשי"ת בְּכָל פְּרָט לָכֵן יָכוֹל לְאַסּוּקֵי שְׁמַעְתָּא אַלִּיבָּא דְּהִלְכְתָא כְּעוֹמֶק הָאֱמֶת. וּבָזֶה הִתְפָּאֵר עַצְמוֹ שְׁלֹמֹה הַמֶּלֶךְ עָלָיו הַשָּׁלוֹם (משלי ל',א') "נְאֻם הַגֶּבֶר לְאִיתִיאֵל לְאִיתִיאֵל וְאֻכָל", "נְאֻם הַגֶּבֶר" הוּא כְּמוֹ "פֶּה אֶל פֶּה אֲדַבֶּר בּוֹ" שֶׁרָאָה הַדִּבּוּר בְּאַתְוָון גְּלִיפָן, "לְאִיתִיאֵל לְאִיתִיאֵל" הוּא כְּמוֹ "וּמַרְאֶה וְלֹא בְחִידֹת" שֶׁרָאָה כָּל הַפְּלוּגְתּוֹת שֶׁבַּשַּׁ"ס בֵּין כָּל הַפּוֹסְקִים, וְלָכֵן כְּתִיב שְׁנֵי פְּעָמִים "לְאִיתִיאֵל", "וְאֻכָל" הוּא כְּמוֹ "וּתְמֻנַת ה' יַבִּיט" שֶׁיּוֹדֵעַ עוֹמֶק רְצוֹן הַשי"ת לְכַוֵּן הַהֲלָכָה אֱמֶת לַאֲמִתּוֹ כִּרְצוֹן הַשי"ת, כִּי שְׁלֹמֹה הַמֶּלֶךְ עָלָיו הַשָּׁלוֹם הָיָה גַּם כֵּן כְּלַל כָּל נְפָשׁוֹת מִיִּשְׂרָאֵל. וְכֵן מֶלֶךְ הַמָּשִׁיחַ יִהְיֶה מוֹרַח וְדָאִין, וּכְמוֹ שֶׁנִּתְבָּאֵר בְּחֵלֶק רִאשׁוֹן (בפרשת שופטים ובליקוטי הש"ס שם) עַל עִנְיַן קַנְיָא דְרָבָא (נדרים כ"ה.) שֶׁהוּא הָיָה שַׁפִּיר מִשְׁתְּבַע אַךְ רָבָא הֵרִיחַ לְעוֹמֶק רְצוֹן הַשי"ת וְהִרְגִּישׁ שֶׁהַדִּין דִּין אֱמֶת אֲבָל לֹא לַאֲמִתּוֹ וְלֹא הָיָה יוֹדֵעַ הֵיאַךְ לְבָרֵר, וּבְעֵסֶק כָּזֶה צָרִיךְ הָאָדָם לִצְעֹק לְהַשי"ת "הוֹשִׁיעָה ה'" וְכֵן עָשָׂה רָבָא, וְהַשי"ת גָּמַר בַּעֲדוֹ וְנִתְבָּרֵר שֶׁנִּשְׁבַּר הַקַּנְיָא וְאַסִּיק לֵיהּ הַשְּׁמַעְתָּא לְעוֹמֶק הָאֱמֶת.
Parágrafo 20

No Sêfer Bamidbar está aludido que “nenhum vivente é justo diante Dele” (Tehilim 143:2), de modo que mesmo as almas preciosas — “não há homem justo na terra que faça o bem e não peque” (Kohelet 7:20) — não escapam. Nesta parashá está escrito “e devorou na extremidade do acampamento” (Bamidbar 11:1), nos ketzinim chefes, oficiais do acampamento. Na parashá Shelach está escrito o pecado dos espiões, “todos eles homens, chefes dos filhos de Israel” (Bamidbar 13:3), que eram errantes de coração e não conheciam os caminhos do Eterno (Tehilim 95:10); e assim também a parashá do apanhador de lenha; e na parashá Korach, que era perspicaz e o seu olho o enganou; e na parashá Chukat estão escritas as águas de Merivá, sobre Moshé e Aharon; e na parashá Balak, a respeito de Zimri ben Salu, que era príncipe. Isto alude ao que foi dito (Devarim 9:7): “Lembra-te, não esqueças, como provocaste à ira o Eterno, teu Deus, no deserto”. Pois deserto indica a destruição e a desolação em cada particular, como eram os almin de-itcharivu aramaico: “mundos que foram destruídos” antes do mundo da construção. E isto alude à força do homem sobre as forças rebeldes e selvagens dentro dele, que querem fazê-lo pecar com pecados da juventude; por isso também em todos os assuntos elevados se encontra algo da força do deserto. Pois deserto indica a totalidade do mundo: antes da criação da forma do homem, o mundo inteiro era um deserto, que só se povoa por filhos de homens; e toda coisa, antes de completar-se plenamente a forma do homem, chama-se deserto.

בְּסֵפֶר בְּמִדְבָּר נִרְמָז כִּי לֹא יִצְדַּק לְפָנָיו כָּל חַי שֶׁאֲפִילּוּ נְפָשׁוֹת יְקָרוֹת אֵין צַדִּיק בָּאָרֶץ אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה טּוֹב וְלֹא יֶחֱטָא, שֶׁבְּפָרָשָׁה זוֹ כְּתִיב "וַתֹּאכַל בִּקְצֵה הַמַּחֲנֶה" בִּקְצִינִים שֶׁבַּמַּחֲנֶה, וּבְפָרָשַׁת שְׁלַח כְּתִיב חֵטְא מְרַגְּלִים "כֻּלָּם אֲנָשִׁים רָאשֵׁי בְּנֵי יִשְׂרָאֵל" שֶׁהָיוּ תּוֹעֵי לֵבָב וְלֹא יָדְעוּ דַּרְכֵי ה', וְכֵן פָּרָשַׁת מְקוֹשֵׁשׁ, וּבְפָרָשַׁת קֹרַח שֶׁפִּקֵּחַ הָיָה וְעֵינוֹ הִטְעַתּוּ, וּבְפָרָשַׁת חֻקַּת כְּתִיב מֵי מְרִיבָה עַל מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן, וּבְפָרָשַׁת בָּלָק עַל זִמְרִי בֶּן סָלוּא שֶׁהָיָה נָשִׂיא, זֶה רוֹמֵז מַה שֶּׁנֶּאֱמַר (דברים ט',ז') "זְכֹר אַל תִּשְׁכַּח אֵת אֲשֶׁר הִקְצַפְתָּ אֶת ה' אֱלֹהֶיךָ בַּמִּדְבָּר", כִּי מִדְבָּר מוֹרֶה עַל הַחֻרְבָּן וְהַשִּׁמָּמוֹן שֶׁבְּכָל פְּרָט, וּכְמוֹ שֶׁהָיָה עָלְמִין דְּאִתְחֲרִיבוּ קוֹדֶם עוֹלָם הַבִּנְיָן, וְזֶה רוֹמֵז בְּכֹחַ אָדָם עַל כֹּחוֹת הַשּׁוֹבָבִים וְהַפְּרָאִים שֶׁבּוֹ שֶׁרוֹצִים לְהַחְטִיאוֹ בְּחַטֹּאת נְעוּרִים, וְלָכֵן גַּם בְּכָל עִנְיָנִים גְּבוֹהִים נִמְצָא מִכֹּחַ הַמִּדְבָּר, כִּי מִדְבָּר מוֹרֶה עַל כְּלַל הָעוֹלָם, שֶׁקּוֹדֶם בְּרִיאַת צוּרַת הָאָדָם הָיָה כָּל הָעוֹלָם כֻּלּוֹ מִדְבָּר שֶׁיִּשּׁוּב הוּא רַק מִבְּנֵי אָדָם וְכָל דָּבָר טֶרֶם שֶׁנִּגְמַר צוּרַת הָאָדָם בִּשְׁלֵימוּת נִקְרָא מִדְבָּר.