Keter Malchut · Shlomo ibn Gabirol · Capítulo IV

O sol, os planetas e o zodíaco

מִי יַבִּיעַ נוֹרְאוֹתֶיךָ בְּהַקִּיפְךָ עַל גַּלְגַּל מַאֲדִים
Shlomo ibn Gabirol (c. 1021–1058) · hebraico: Tikkun Midot HaNefesh, Jerusalém 1996 (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

O capítulo IV prossegue a ascensão cosmológica do poema pelas esferas planetárias superiores — Tzedek e Shabtai —, atravessa a esfera das doze constelações do zodíaco, sobe à décima esfera, a "esfera do intelecto", contempla as hostes angélicas que a cercam e culmina, no limiar do capítulo seguinte, à vista do Trono de Glória.

Tzedek — Júpiter

1 Quem proclamará as Tuas coisas temíveis, ao Te cercares sobre a esfera de Maadim — a sexta esfera, esfera e órbita poderosa e grande, na qual repousa Tzedek:

2 E o seu corpo é maior que o corpo da terra setenta e cinco vezes na medida de sua largura.

3 E a esfera gira em doze anos, e ela é a estrela da vontade e do amor.

4 E desperta o temor do Nome, a retidão e o arrependimento, e todo bom atributo.

5 E multiplica toda produção e todo fruto, e cessa as guerras, a inimizade e a contenda:

6 E o seu ofício é fortalecer com retidão toda brecha, e ela julgará o mundo com justiça.

מִי יַבִּיעַ נוֹרְאוֹתֶיךָ בְּהַקִּיפְךָ עַל גַּלְגַּל מַאֲדִים גַּלְגַּל שִׁשִּׁי גַּלְגַּל וּמְסִבָּה. עֲצוּמָה וְרַבָּה. צֶדֶק יָלִין בָּהּ: וְגוּפוֹ גָדוֹל מִגּוּף הָאָרֶץ חֲמִשָּׁה וְשִׁבְעִים פַּעַם בְּמִדַּת רָחְבָּהּ. וְסוֹבֵב הַגַּלְגַּל בִּשְׁתֵּים עֶשְׂרֵה שָׁנָה וְהוּא כּוֹכַב רָצוֹן וְהָאַהֲבָה. וּמְעוֹרֵר יִרְאַת הַשֵּׁם וְיֹשֶׁר וּתְשׁוּבָה. וְכָל מִדָּה טוֹבָה. וּמַרְבֶּה כָּל תְּבוּאָה וּתְנוּבָה. וּמַשְׁבִּית מִלְחָמוֹת וְאֵיבָה וּמְרִיבָה: וְדָתוֹ לְחַזֵּק בְּיָשְׁרוֹ כָּל בֶּדֶק. וְהוּא יִשְׁפּוֹט תֵּבֵל בְּצֶדֶק:
Shabtai — Saturno

7 Quem discorrerá sobre a Tua grandeza, ao Te cercares sobre a esfera de Tzedek — a sétima esfera, e nela Shabtai em sua revolução:

8 E o seu corpo é maior que o corpo da terra noventa e uma vezes na sua medida.

9 E a esfera gira em trinta anos no seu curso.

10 E desperta guerras, saque, cativeiro e fome, pois tal é o seu ofício.

11 E destrói terras e desarraiga reinos, pela vontade d'Aquele que a encarregou —

12 para exercer o seu trabalho: estranho é o seu trabalho.

מִי יְשׂוֹחֵחַ גְּדֻלָּתֶךָ בְּהַקִּיפְךָ עַל גַּלְגַּל צֶדֶק גַּלְגַּל שְׁבִיעִי וּבוֹ שַׁבְּתַי בִּתְקוּפָתוֹ. וְגוּפוֹ גָדוֹל מִגּוּף הָאָרֶץ אֶחָד וְתִשְׁעִים פַּעַם בְּמִדָּתוֹ. וְסוֹבֵב הַגַּלְגַּל בִּשְׁלֹשִׁים שָׁנָה בִּמְרוּצָתוֹ. וּמְעוֹרֵר מִלְחָמוֹת וּבִזָּה וּשְׁבִי וְרָעָב כִּי כֵן דָּתוֹ. וּמַחֲרִיב אֲרָצוֹת וְעוֹקֵר מַלְכֻיּוֹת בִּרְצוֹן הַמַּפְקִיד אוֹתוֹ. לַעֲבוֹד עֲבוֹדָתוֹ נָכְרִיָּה עֲבוֹדָתוֹ:
A esfera das constelações (I)

13 Quem chegará à Tua exaltação, ao Te cercares sobre a esfera de Shabtai — a oitava esfera em sua órbita:

14 E ela sustenta as doze constelações sobre a linha tecida de seu manto.

15 E todas as estrelas superiores do firmamento estão fundidas em sua fundição.

16 E cada uma das estrelas circunda a esfera em trinta e seis mil anos, tal a extensão de sua altura.

17 E o corpo de cada uma dessas estrelas é cento e sete vezes o corpo da terra — e este é o limite de sua grandeza:

18 E da força daquelas constelações emana a força de todos os seres criados abaixo, cada um segundo a sua espécie, pela vontade d'Aquele que os criou e os encarregou sobre eles:

19 E cada um deles, conforme a sua constituição, o criou, e por nome o chamou — cada um em sua tarefa e em seu encargo.

מִי יַגִּיעַ לְרוֹמְמוּתֶךָ בְּהַקִּיפְךָ עַל גַּלְגַּל שַׁבְּתַי גַּלְגַּל שְׁמִינִי בִּמְסִבָּתוֹ. וְהוּא סוֹבֵל שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה מַזָּלוֹת עַל קַו חֵשֶׁב אֲפֻדָּתוֹ. וְכָל כּוֹכְבֵי שַׁחַק הָעֶלְיוֹנִים יְצוּקִים בִּיצוּקָתוֹ. וְכָל כּוֹכָב מֵהֶם יַקִּיף הַגַּלְגַּל בְּשִׁשָּׁה וּשְׁלֹשִׁים אֶלֶף שָׁנִים מֵרֹב גַּבְהוּתוֹ. וְגוּף כָּל כּוֹכָב מֵהֶם מֵאָה וְשֶׁבַע פְּעָמִים כְּגוּף הָאָרֶץ וְזֹאת תַּכְלִית גְּדֻלָּתוֹ: וּמִכֹּחַ הַמַּזָּלוֹת הָהֵם. נֶאֱצַל כֹּחַ כָּל בְּרוּאֵי מַטָּה לְמִינֵיהֶם. בִּרְצוֹן בּוֹרְאָם וּמַפְקִידָם עֲלֵיהֶם: וְכָל אֶחָד מֵהֶם עַל מַתְכֻּנְתּוֹ בָּרְאוֹ. וּבְשֵׁם קְרָאוֹ. אִישׁ אִישׁ עַל עֲבוֹדָתוֹ וְעַל מַשָּׂאוֹ:
Os signos do zodíaco

20 Quem conhecerá os Teus caminhos, ao fazeres dos sete astros errantes palácios, dentro das doze constelações:

21 E sobre Áries e Touro emanaste a Tua força, quando se uniram.

22 E o terceiro, Gêmeos, como dois irmãos unidos entre si, e a semelhança de seus rostos é rosto de homem.

23 E ao quarto — que é Câncer — e também a Leão, deste do Teu esplendor;

24 e à sua irmã, Virgem, próxima a ele;

25 e assim a Libra e a Escorpião, que a seu lado foi posto.

26 E o nono, criado com a figura de um valente cuja força não se esgota, e era um poderoso arqueiro.

27 E assim foram criados Capricórnio e Aquário, pela Tua grande força.

28 E, sozinho, o último signo — o Eterno preparou um grande peixe:

29 E estas são as constelações elevadas e exaltadas em seus graus, doze para as suas nações.

מִי יֵדַע הֲלִיכוֹתֶךָ בַּעֲשׂוֹתְךָ לְשִׁבְעָה כּוֹכְבֵי לֶכֶת הֵיכָלוֹת. בִּשְׁתֵּים עֶשְׂרֵה מַזָּלוֹת: וְעַל טָלֶה וָשׁוֹר אָצַלְתָּ כֹּחֲךָ בְּהִתְיַחֲדָם. וְהַשְּׁלִישִׁי תְּאוֹמִים כִּשְׁנֵי אַחִים בְּהִתְאַחֲדָם. וּדְמוּת פְּנֵיהֶם פְּנֵי אָדָם. וְלָרְבִיעִי וְהוּא סַרְטָן גַּם לָאַרְיֵה נָתַתָּ מֵהוֹדְךָ עָלָיו. וְלַאֲחוֹתוֹ הַבְּתוּלָה הַקְּרוֹבָה אֵלָיו. וְכֵן לַמֹּאזְנַיִם וְלָעַקְרָב אֲשֶׁר בְּצִדּוֹ הוּשַׁת. וְהַתְּשִׁיעִי הַנִּבְרָא כְּצוּרַת גִּבּוֹר כֹחוֹ וְלֹא נָשָׁת. וַיְהִי רֹבֶה קַשָּׁת. וְכֵן נִבְרָא גְּדִי וּדְלִי בְּכֹחֲךָ הַגָּדוֹל. וּלְבַדּוֹ הַמַּזָּל הָאַחֲרוֹן וַיְמַן יְיָ דָּג גָּדוֹל: וְאֵלֶּה הַמַּזָּלוֹת הַגְּבוֹהִים וְנִשָּׂאִים בְּמַעֲלוֹתָם. שְׁנֵי עָשָׂר לְאֻמּוֹתָם:
A esfera das constelações (II)

30 Eterno, quem sondará os Teus mistérios, ao Te emanares sobre a esfera das constelações — a nona esfera em sua ordem:

31 Aquela que circunda todas as esferas e as suas criaturas, e elas estão encerradas dentro dela.

32 Aquela que conduz todas as estrelas do céu e as suas esferas, do oriente ao ocidente, com a força de seu curso.

33 Aquela que se prostra uma vez a cada dia para o lado do ocidente, diante de seu Rei, que a fez rainha.

34 E todas as criaturas do mundo dentro dela são como um grão de mostarda no grande mar, diante da força de sua grandeza e de seu valor.

35 E ela e a sua grandeza são reputadas como nada e como coisa nenhuma, diante da grandeza do seu Criador e Rei:

36 E todos os seus graus e a sua grandeza — do nada e do vazio lhe são reputados.

יְיָ מִי יַחֲקוֹר תַּעֲלוּמוֹתֶיךָ בְּהַאֲצִילְךָ עַל גַּלְגַּל הַמַּזָּלוֹת גַּלְגַּל תְּשִׁיעִי בְּמַעֲרָכוֹ. הַמַּקִּיף עַל כָּל הַגַּלְגַּלִּים וּבְרוּאֵיהֶם וְהֵם סְגוּרִים בְּתוֹכוֹ. הַמַּנְהִיג כָּל כּוֹכְבֵי שָׁמַיִם וְגַלְגַּלֵּיהֶם מִמִּזְרָח לְמַעֲרָב לְתֹקֶף מַהֲלָכוֹ. הַמִּשְׁתַּחֲוֶה פַּעַם בְּכָל יוֹם לִפְאַת מַעֲרָב לְמַלְכּוֹ וּמַמְלִיכוֹ. וְכָל בְּרוּאֵי עוֹלָם בְּתוֹכוֹ. כְּגַרְגִּיר חַרְדָּל בַּיָּם הַגָּדוֹל לְתֹקֶף גָּדְלוֹ וְעֶרְכּוֹ. וְהוּא וּגְדֻלָּתוֹ נֶחְשַׁב כְּאַיִן וּכְאֶפֶס לִגְדֻלַּת בּוֹרְאוֹ וּמַלְכּוֹ: וְכָל מַעֲלוֹתָיו וְגָדְלוֹ. מֵאֶפֶס וָתֹהוּ נֶחְשְׁבוּ לוֹ:
A esfera do intelecto

37 Quem compreenderá os segredos das Tuas coisas temíveis, ao Te elevares sobre a nona esfera — a esfera do intelecto, ela é o palácio diante de Mim, a décima, que será santidade ao Eterno:

38 E ela é a esfera exaltada acima de toda altura, à qual pensamento algum alcança.

39 E ali está o oculto que é, para a Tua glória, um dossel:

40 Da prata da verdade a fundiste, e do ouro do intelecto fizeste o seu estrado.

41 E sobre pilares de retidão puseste a sua base.

42 E da Tua força vem a sua existência, e de Ti e para Ti é a sua direção, e a Ti é a sua ânsia.

מִי יָבִין סוֹדוֹת נוֹרְאוֹתֶיךָ בַּהֲרִימְךָ עַל גַּלְגַּל הַתְּשִׁיעִי גַּלְגַּל הַשֵּׂכֶל הוּא הַהֵיכָל לִפְנָי. הָעֲשִׂירִי יִהְיֶה קֹדֶשׁ לַיָי: וְהוּא הַגַּלְגַּל הַנַּעֲלֶה עַל כָּל עֶלְיוֹן. אֲשֶׁר לֹא יַשִּׂיגֵהוּ רַעְיוֹן. וְשָׁם הַחֶבְיוֹן אֲשֶׁר הוּא לִכְבוֹדְךָ לְאַפִּרְיוֹן. מִכֶּסֶף הָאֱמֶת יָצַקְתָּ אוֹתוֹ. וּמִזְּהַב הַשֵּׂכֶל עָשִׂיתָ רְפִידָתוֹ. וְעַל עַמּוּדֵי צֶדֶק שַׂמְתָּ מְסִבָּתוֹ. וּמִכֹּחֲךָ מְצִיאוּתוֹ. וּמִמְּךָ וְעָדֶיךָ מְגַמָּתוֹ. וְאֵלֶיךָ תְּשׁוּקָתוֹ:
Os anjos (I)

43 Eterno, quem aprofundará os Teus pensamentos, ao fazeres, do esplendor da Shechiná, o fulgor das almas —

44 e os espíritos elevados: eles são os anjos da Tua vontade, os que servem à Tua face:

45 Eles são poderosos em força e valentes do reino; em sua mão está a chama da espada que se revolve —

46 e executam o trabalho, para onde quer que o espírito os mande ir:

47 Todos eles são talhados como pérolas, e criaturas elevadas, exteriores e interiores, que contemplam os Teus caminhos:

48 De um lugar santo eles caminham, e de uma fonte de luz eles são atraídos:

49 Divididos em turmas, e em suas bandeiras há sinais, gravados pela pena de um escriba veloz; entre eles há princesas, e entre eles há servas:

יְיָ מִי יַעֲמִיק לְמַחְשְׁבוֹתֶיךָ בַּעֲשׂוֹתְךָ מִזִּיו הַשְּׁכִינָה זֹהַר הַנְּשָׁמוֹת. וְהַנְּפָשׁוֹת הָרָמוֹת. הֵם מַלְאֲכֵי רְצוֹנֶךָ. מְשָׁרְתֵי פָנֶיךָ: הֵם אַדִּירֵי כֹחַ וְגִבּוֹרֵי מַמְלֶכֶת. בְּיָדָם לַהַט הַחֶרֶב הַמִּתְהַפֶּכֶת. וְעוֹשֵׂי מְלֶאכֶת. אֶל אֲשֶׁר יִהְיֶה שָׁמָּה הָרוּחַ לָלֶכֶת: כֻּלָּם גִּזְרוֹת פְּנִינִיּוֹת וְחַיּוֹת עִלִּיּוֹת. חִיצוֹנִיּוֹת וּפְנִימִיּוֹת. הֲלִיכוֹתֶךָ צוֹפִיּוֹת: מִמָּקוֹם קָדוֹשׁ יְהַלֵּכוּ. וּמִמְּקוֹר הָאוֹר יִמָּשֵׁכוּ: נֶחֱלָקִים לְכִתּוֹת. וְעַל דִּגְלָם אוֹתוֹת. בְּעֵט סוֹפֵר מָהִיר חֲרוּתוֹת. מֵהֶם נְסִיכוֹת וּמֵהֶם מְשָׁרְתוֹת:
Os anjos (II)

50 Entre eles há hostes que correm e vêm, não se cansam nem se fatigam, veem e não são vistas:

51 Entre eles há os talhados de labaredas, e entre eles há ventos que sopram:

52 Entre eles há os que de fogo e de água são compostos: entre eles há serafins, e entre eles há centelhas: entre eles há relâmpagos, e entre eles há faíscas:

53 E toda turma dentre eles se prostra ao Cavaleiro dos Céus, e nas alturas do mundo estão firmes por milhares e por miríades:

54 Divididos em vigílias, de dia e de noite, para os chefes das guardas noturnas, para ordenar louvores e cânticos Àquele que Se cinge de valentias:

55 Todos eles, em pavor e em tremor, se ajoelham e se prostram diante de Ti, e dizem: "Agradecemos a Ti,

56 pois Tu és o nosso D'us, Tu nos fizeste, e não nós, e obra das Tuas mãos somos todos nós:

57 e que Tu és o nosso Senhor e nós somos os Teus servos, e Tu és o nosso Criador e nós somos as Tuas testemunhas."

מֵהֶם צְבָאוֹת. רָצוֹת וּבָאוֹת. לֹא עֲיֵפוֹת וְלֹא נִלְאוֹת. רוֹאוֹת וְלֹא נִרְאוֹת: מֵהֶם חֲצוּבֵי לֶהָבוֹת. וּמֵהֶם רוּחוֹת נוֹשְׁבוֹת: מֵהֶם מֵאֵשׁ וּמִמַּיִם מֻרְכָּבוֹת: מֵהֶם שְׂרָפִים. וּמֵהֶם רְשָׁפִים: מֵהֶם בְּרָקִים. וּמֵהֶם זִיקִים: וְכָל כַּת מֵהֶם מִשְׁתַּחֲוָה לְרוֹכֵב עֲרָבוֹת. וּבְרוּם עוֹלָם נִצָּבִים לַאֲלָפִים וְלִרְבָבוֹת: נֶחֱלָקִים לְמִשְׁמָרוֹת. בַּיּוֹם וּבַלַּיְלָה לְרֹאשׁ אַשְׁמוּרוֹת. לַעֲרוֹךְ תְּהִלּוֹת וְשִׁירוֹת. לַנֶּאְזָר בִּגְבוּרוֹת: כֻּלָּם בַּחֲרָדָה וּרְעָדָה כּוֹרְעִים וּמִשְׁתַּחֲוִים לָךְ. וְאוֹמְרִים מוֹדִים אֲנַחְנוּ לָךְ: שֶׁאַתָּה אֱלֹהֵינוּ. אַתָּה עֲשִׂיתָנוּ. וְלֹא אֲנַחְנוּ. וּמַעֲשֵׂה יָדְךָ כֻּלָּנוּ: וְכִי אַתָּה אֲדוֹנֵינוּ וַאֲנַחְנוּ עֲבָדֶיךָ. וְאַתָּה בוֹרְאֵנוּ וַאֲנַחְנוּ עֵדֶיךָ:
O Trono de Glória

58 Eterno, quem chegará até à Tua estrutura, ao Te elevares acima da esfera do intelecto — o Trono de Glória, onde está a morada do oculto e do esplendor:

59 E ali está o segredo e o fundamento, e até ele chega o intelecto, e ali permanece:

60 E de acima Te elevaste e subiste sobre o trono da Tua força, e ninguém sobe contigo.

יְיָ מִי יָבֹא עַד תְּכוּנָתֶךָ. בְּהַגְבִּיהֲךָ לְמַעְלָה מִגַּלְגַּל הַשֵּׂכֶל כִּסֵּא הַכָּבוֹד אֲשֶׁר שָׁם נְוֵה הַחֶבְיוֹן וְהַהוֹד. וְשָׁם הַסּוֹד וְהַיְסוֹד. וְעָדָיו יַגִּיעַ הַשֵּׂכֶל וְשָׁם יַעֲמֹד: וּמִלְמַעְלָה גָאִיתָ וְעָלִיתָ עַל כֵּס תַּעֲצוּמָךְ. וְאִישׁ לֹא יַעֲלֶה עִמָּךְ:

Sobre a tradução e as fontes · מְקוֹרוֹת

Tzedek e Shabtai: o benéfico e o maléfico

Na astrologia medieval que ibn Gabirol herda — em larga medida via Ptolomeu e suas mediações árabes — cada planeta tem um caráter fixo. Tzedek (Júpiter) é o planeta benéfico por excelência: gera fartura, cessa guerras, desperta retidão e arrependimento. O poema explora deliberadamente o duplo sentido do nome hebraico — tzedek significa tanto "Júpiter" quanto "justiça" — de modo que a própria esfera, ao ser nomeada, já anuncia a sua função moral: "ela julgará o mundo com justiça". Shabtai (Saturno), ao contrário, é o planeta maléfico clássico: associado ao frio, à distância, à velhice, ele "desperta guerras, saque, cativeiro e fome". O verso final da sua estrofe — "estranho é o seu trabalho" — ecoa Yeshayahu 28:21 ("estranha é a sua obra"), onde o profeta descreve a ação punitiva de D'us como algo alheio à Sua natureza essencialmente benevolente; o poeta aplica a mesma tensão a Saturno, cujo ofício destruidor é executado apenas "pela vontade d'Aquele que a encarregou".

A esfera das constelações e o zodíaco

A oitava esfera é descrita como o manto que sustenta as doze constelações fixas, cada estrela imensamente maior e mais distante que os planetas errantes. A nona esfera — galgal hamazalot, "a esfera das constelações" em seu arranjo pleno — é o limite do cosmos visível: encerra todas as esferas inferiores e gira o firmamento inteiro de leste a oeste. A imagem do "grão de mostarda no grande mar" para descrever a vastidão do universo material diante de seu Criador segue um recurso retórico já talmúdico de comparação por ínfima proporção, aqui aplicado em cascata — o próprio universo torna-se minúsculo diante de D'us, assim como a terra era minúscula diante das estrelas fixas.

Na descrição dos doze signos (Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes), o poeta emprega imagens tradicionais da iconografia zodiacal — os gêmeos com "rosto de homem", Virgem como "irmã" de Leão, o arqueiro poderoso de Sagitário — sem comentário alegórico: é uma catalogação cosmográfica, não uma leitura astrológica de destinos individuais.

A esfera do intelecto: além dos sete céus clássicos

A décima esfera, galgal haSechel ("a esfera do intelecto"), não pertence ao esquema astronômico ptolomaico padrão de sete planetas mais o firmamento das estrelas fixas. Sua inclusão aqui é a marca distintamente neoplatônica do pensamento de ibn Gabirol: ela representa a transição do cosmos material observável para uma ordem puramente inteligível, "à qual pensamento algum alcança". A linguagem do tabernáculo — prata, ouro, pilares — recorda os materiais do Mishkan (Shemot 25-27), mas aplicada agora a uma estrutura metafísica: o intelecto como "dossel" da glória divina. Esse mesmo compromisso com uma hierarquia de emanações intelectuais é o tema central da obra filosófica de ibn Gabirol, o Mekor Chaim (latim: Fons Vitae), onde a Vontade divina atua através de graus sucessivos de matéria e forma — aqui versificado como uma ascensão de esferas.

Os anjos: ecos de Yechezkel e Yeshayahu

A longa estrofe angelológica retoma vocabulário das duas grandes visões proféticas do trono divino. As "criaturas elevadas" que "correm e vêm" e a "espada que se revolve" recordam as chayot e os ofanim de Yechezkel 1, enquanto os "serafins" citados nominalmente remetem a Yeshayahu 6:2-3. A fórmula final de louvor angélico — "Tu nos fizeste, e não nós" — é citação quase literal de Tehillim 100:3, "הוּא עָשָׂנוּ וְלוֹ אֲנַחְנוּ" ("Ele nos fez, e a Ele pertencemos"), aqui redirecionada para a boca dos próprios anjos, que se autodescrevem como "obra das Tuas mãos" e "testemunhas" do seu Criador. O epíteto "Rochev Aravot" ("Cavaleiro dos Céus" ou "o Que cavalga sobre as nuvens") vem diretamente de Tehillim 68:5, um dos nomes divinos mais solenes do saltério, reservado a contextos de majestade cósmica.

O Trono de Glória

O capítulo se encerra no limiar do Kisei HaKavod, o Trono de Glória, situado acima até da esfera do intelecto — o ponto em que "o intelecto chega e ali permanece", incapaz de prosseguir. A expressão "morada do oculto e do esplendor" ecoa a linguagem de Yirmiyahu 17:12 ("Trono de glória, elevado desde o princípio, é o lugar do nosso santuário") e a visão da "semelhança de um trono" em Yechezkel 1:26. Este é, propositalmente, um final aberto: o poema declara que "ninguém sobe" com D'us até esse ponto, preparando a transição para o capítulo seguinte, que aprofundará a natureza das almas e dos espíritos que cercam essa fronteira entre o criado e o incriado.