O capítulo IV prossegue a ascensão cosmológica do poema pelas esferas planetárias superiores — Tzedek e Shabtai —, atravessa a esfera das doze constelações do zodíaco, sobe à décima esfera, a "esfera do intelecto", contempla as hostes angélicas que a cercam e culmina, no limiar do capítulo seguinte, à vista do Trono de Glória.
1 Quem proclamará as Tuas coisas temíveis, ao Te cercares sobre a esfera de Maadim — a sexta esfera, esfera e órbita poderosa e grande, na qual repousa Tzedek:
2 E o seu corpo é maior que o corpo da terra setenta e cinco vezes na medida de sua largura.
3 E a esfera gira em doze anos, e ela é a estrela da vontade e do amor.
4 E desperta o temor do Nome, a retidão e o arrependimento, e todo bom atributo.
5 E multiplica toda produção e todo fruto, e cessa as guerras, a inimizade e a contenda:
6 E o seu ofício é fortalecer com retidão toda brecha, e ela julgará o mundo com justiça.
7 Quem discorrerá sobre a Tua grandeza, ao Te cercares sobre a esfera de Tzedek — a sétima esfera, e nela Shabtai em sua revolução:
8 E o seu corpo é maior que o corpo da terra noventa e uma vezes na sua medida.
9 E a esfera gira em trinta anos no seu curso.
10 E desperta guerras, saque, cativeiro e fome, pois tal é o seu ofício.
11 E destrói terras e desarraiga reinos, pela vontade d'Aquele que a encarregou —
12 para exercer o seu trabalho: estranho é o seu trabalho.
13 Quem chegará à Tua exaltação, ao Te cercares sobre a esfera de Shabtai — a oitava esfera em sua órbita:
14 E ela sustenta as doze constelações sobre a linha tecida de seu manto.
15 E todas as estrelas superiores do firmamento estão fundidas em sua fundição.
16 E cada uma das estrelas circunda a esfera em trinta e seis mil anos, tal a extensão de sua altura.
17 E o corpo de cada uma dessas estrelas é cento e sete vezes o corpo da terra — e este é o limite de sua grandeza:
18 E da força daquelas constelações emana a força de todos os seres criados abaixo, cada um segundo a sua espécie, pela vontade d'Aquele que os criou e os encarregou sobre eles:
19 E cada um deles, conforme a sua constituição, o criou, e por nome o chamou — cada um em sua tarefa e em seu encargo.
20 Quem conhecerá os Teus caminhos, ao fazeres dos sete astros errantes palácios, dentro das doze constelações:
21 E sobre Áries e Touro emanaste a Tua força, quando se uniram.
22 E o terceiro, Gêmeos, como dois irmãos unidos entre si, e a semelhança de seus rostos é rosto de homem.
23 E ao quarto — que é Câncer — e também a Leão, deste do Teu esplendor;
24 e à sua irmã, Virgem, próxima a ele;
25 e assim a Libra e a Escorpião, que a seu lado foi posto.
26 E o nono, criado com a figura de um valente cuja força não se esgota, e era um poderoso arqueiro.
27 E assim foram criados Capricórnio e Aquário, pela Tua grande força.
28 E, sozinho, o último signo — o Eterno preparou um grande peixe:
29 E estas são as constelações elevadas e exaltadas em seus graus, doze para as suas nações.
30 Eterno, quem sondará os Teus mistérios, ao Te emanares sobre a esfera das constelações — a nona esfera em sua ordem:
31 Aquela que circunda todas as esferas e as suas criaturas, e elas estão encerradas dentro dela.
32 Aquela que conduz todas as estrelas do céu e as suas esferas, do oriente ao ocidente, com a força de seu curso.
33 Aquela que se prostra uma vez a cada dia para o lado do ocidente, diante de seu Rei, que a fez rainha.
34 E todas as criaturas do mundo dentro dela são como um grão de mostarda no grande mar, diante da força de sua grandeza e de seu valor.
35 E ela e a sua grandeza são reputadas como nada e como coisa nenhuma, diante da grandeza do seu Criador e Rei:
36 E todos os seus graus e a sua grandeza — do nada e do vazio lhe são reputados.
37 Quem compreenderá os segredos das Tuas coisas temíveis, ao Te elevares sobre a nona esfera — a esfera do intelecto, ela é o palácio diante de Mim, a décima, que será santidade ao Eterno:
38 E ela é a esfera exaltada acima de toda altura, à qual pensamento algum alcança.
39 E ali está o oculto que é, para a Tua glória, um dossel:
40 Da prata da verdade a fundiste, e do ouro do intelecto fizeste o seu estrado.
41 E sobre pilares de retidão puseste a sua base.
42 E da Tua força vem a sua existência, e de Ti e para Ti é a sua direção, e a Ti é a sua ânsia.
43 Eterno, quem aprofundará os Teus pensamentos, ao fazeres, do esplendor da Shechiná, o fulgor das almas —
44 e os espíritos elevados: eles são os anjos da Tua vontade, os que servem à Tua face:
45 Eles são poderosos em força e valentes do reino; em sua mão está a chama da espada que se revolve —
46 e executam o trabalho, para onde quer que o espírito os mande ir:
47 Todos eles são talhados como pérolas, e criaturas elevadas, exteriores e interiores, que contemplam os Teus caminhos:
48 De um lugar santo eles caminham, e de uma fonte de luz eles são atraídos:
49 Divididos em turmas, e em suas bandeiras há sinais, gravados pela pena de um escriba veloz; entre eles há princesas, e entre eles há servas:
50 Entre eles há hostes que correm e vêm, não se cansam nem se fatigam, veem e não são vistas:
51 Entre eles há os talhados de labaredas, e entre eles há ventos que sopram:
52 Entre eles há os que de fogo e de água são compostos: entre eles há serafins, e entre eles há centelhas: entre eles há relâmpagos, e entre eles há faíscas:
53 E toda turma dentre eles se prostra ao Cavaleiro dos Céus, e nas alturas do mundo estão firmes por milhares e por miríades:
54 Divididos em vigílias, de dia e de noite, para os chefes das guardas noturnas, para ordenar louvores e cânticos Àquele que Se cinge de valentias:
55 Todos eles, em pavor e em tremor, se ajoelham e se prostram diante de Ti, e dizem: "Agradecemos a Ti,
56 pois Tu és o nosso D'us, Tu nos fizeste, e não nós, e obra das Tuas mãos somos todos nós:
57 e que Tu és o nosso Senhor e nós somos os Teus servos, e Tu és o nosso Criador e nós somos as Tuas testemunhas."
58 Eterno, quem chegará até à Tua estrutura, ao Te elevares acima da esfera do intelecto — o Trono de Glória, onde está a morada do oculto e do esplendor:
59 E ali está o segredo e o fundamento, e até ele chega o intelecto, e ali permanece:
60 E de acima Te elevaste e subiste sobre o trono da Tua força, e ninguém sobe contigo.
Na astrologia medieval que ibn Gabirol herda — em larga medida via Ptolomeu e suas mediações árabes — cada planeta tem um caráter fixo. Tzedek (Júpiter) é o planeta benéfico por excelência: gera fartura, cessa guerras, desperta retidão e arrependimento. O poema explora deliberadamente o duplo sentido do nome hebraico — tzedek significa tanto "Júpiter" quanto "justiça" — de modo que a própria esfera, ao ser nomeada, já anuncia a sua função moral: "ela julgará o mundo com justiça". Shabtai (Saturno), ao contrário, é o planeta maléfico clássico: associado ao frio, à distância, à velhice, ele "desperta guerras, saque, cativeiro e fome". O verso final da sua estrofe — "estranho é o seu trabalho" — ecoa Yeshayahu 28:21 ("estranha é a sua obra"), onde o profeta descreve a ação punitiva de D'us como algo alheio à Sua natureza essencialmente benevolente; o poeta aplica a mesma tensão a Saturno, cujo ofício destruidor é executado apenas "pela vontade d'Aquele que a encarregou".
A oitava esfera é descrita como o manto que sustenta as doze constelações fixas, cada estrela imensamente maior e mais distante que os planetas errantes. A nona esfera — galgal hamazalot, "a esfera das constelações" em seu arranjo pleno — é o limite do cosmos visível: encerra todas as esferas inferiores e gira o firmamento inteiro de leste a oeste. A imagem do "grão de mostarda no grande mar" para descrever a vastidão do universo material diante de seu Criador segue um recurso retórico já talmúdico de comparação por ínfima proporção, aqui aplicado em cascata — o próprio universo torna-se minúsculo diante de D'us, assim como a terra era minúscula diante das estrelas fixas.
Na descrição dos doze signos (Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes), o poeta emprega imagens tradicionais da iconografia zodiacal — os gêmeos com "rosto de homem", Virgem como "irmã" de Leão, o arqueiro poderoso de Sagitário — sem comentário alegórico: é uma catalogação cosmográfica, não uma leitura astrológica de destinos individuais.
A décima esfera, galgal haSechel ("a esfera do intelecto"), não pertence ao esquema astronômico ptolomaico padrão de sete planetas mais o firmamento das estrelas fixas. Sua inclusão aqui é a marca distintamente neoplatônica do pensamento de ibn Gabirol: ela representa a transição do cosmos material observável para uma ordem puramente inteligível, "à qual pensamento algum alcança". A linguagem do tabernáculo — prata, ouro, pilares — recorda os materiais do Mishkan (Shemot 25-27), mas aplicada agora a uma estrutura metafísica: o intelecto como "dossel" da glória divina. Esse mesmo compromisso com uma hierarquia de emanações intelectuais é o tema central da obra filosófica de ibn Gabirol, o Mekor Chaim (latim: Fons Vitae), onde a Vontade divina atua através de graus sucessivos de matéria e forma — aqui versificado como uma ascensão de esferas.
A longa estrofe angelológica retoma vocabulário das duas grandes visões proféticas do trono divino. As "criaturas elevadas" que "correm e vêm" e a "espada que se revolve" recordam as chayot e os ofanim de Yechezkel 1, enquanto os "serafins" citados nominalmente remetem a Yeshayahu 6:2-3. A fórmula final de louvor angélico — "Tu nos fizeste, e não nós" — é citação quase literal de Tehillim 100:3, "הוּא עָשָׂנוּ וְלוֹ אֲנַחְנוּ" ("Ele nos fez, e a Ele pertencemos"), aqui redirecionada para a boca dos próprios anjos, que se autodescrevem como "obra das Tuas mãos" e "testemunhas" do seu Criador. O epíteto "Rochev Aravot" ("Cavaleiro dos Céus" ou "o Que cavalga sobre as nuvens") vem diretamente de Tehillim 68:5, um dos nomes divinos mais solenes do saltério, reservado a contextos de majestade cósmica.
O capítulo se encerra no limiar do Kisei HaKavod, o Trono de Glória, situado acima até da esfera do intelecto — o ponto em que "o intelecto chega e ali permanece", incapaz de prosseguir. A expressão "morada do oculto e do esplendor" ecoa a linguagem de Yirmiyahu 17:12 ("Trono de glória, elevado desde o princípio, é o lugar do nosso santuário") e a visão da "semelhança de um trono" em Yechezkel 1:26. Este é, propositalmente, um final aberto: o poema declara que "ninguém sobe" com D'us até esse ponto, preparando a transição para o capítulo seguinte, que aprofundará a natureza das almas e dos espíritos que cercam essa fronteira entre o criado e o incriado.