Depois da invocação inicial, o poema entra na longa série de louvores aos atributos divinos — cada estrofe repete um epíteto ("Tu és...") e o desdobra em argumentos filosóficos sobre a natureza de D'us. A tradução segue o hebraico cláusula por cláusula, respeitando as pausas marcadas pelos dois-pontos do texto-fonte.
1 "Maravilhosas são as Tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem."
2 Tua, ó Eterno, é a grandeza, e o poder, e a glória, e a eternidade, e a majestade.
3 Tua, ó Eterno, é a realeza, e a exaltação sobre todos como cabeça, e a riqueza, e a honra.
4 Teus são os seres criados de cima e de baixo, que testemunham que eles perecerão e Tu permanecerás.
5 Tua é a força, em cujo mistério se cansaram os nossos pensamentos por não conseguirem alcançá-la, porque Tu és por demais poderoso para nós.
6 Teu é o esconderijo do vigor, o segredo e o fundamento.
7 Teu é o nome oculto dos sábios, e a força que sustenta o mundo sobre o nada, e a capacidade de trazer à luz todo mistério oculto.
8 Tua é a bondade que prevalece sobre as Tuas criaturas, e o bem reservado para os que Te temem.
9 Teus são os segredos que nem o louvor nem o pensamento conseguem conter, e a vida sobre a qual a destruição não tem domínio, e o trono elevado acima de todo o supremo, e a morada oculta na altura do esconderijo.
10 Tua é a existência, da sombra de cuja luz veio a ser tudo o que existe, sobre a qual dissemos: "à sua sombra viveremos."
11 Teus são os dois mundos entre os quais puseste uma fronteira: o primeiro para as obras, e o segundo para a recompensa.
12 Tua é a recompensa que guardaste para os justos e ocultaste; e viste que ela era boa, e a escondeste.
13 Atah Echad — Tu és Um: cabeça de toda numeração, e fundamento de toda construção.
14 Tu és Um, e no mistério da Tua unidade os sábios de coração se maravilham, porque não sabem o que ela é.
15 Tu és Um, e a Tua unidade não diminui nem aumenta, não falta nem excede.
16 Tu és Um, mas não como o um que se adquire e se conta, pois a Ti não Te alcançam a multiplicidade nem a mudança, nem a descrição nem o apelido.
17 Tu és Um, e pôr em Ti limite e fronteira excede o meu entendimento; por isso disse: "guardarei os meus caminhos, para não pecar com a minha língua."
18 Tu és Um: Te elevaste e Te exaltaste acima do abatimento e da queda, e são deles o abatimento e a queda daquele que fizesse de Ti um único que cai.
19 Atah Nimtza — Tu Existes, e não Te alcançam o ouvir do ouvido nem o ver do olho, e sobre Ti não têm domínio o como, o porquê e o onde.
20 Tu Existes, mas para Ti mesmo, e não há outro contigo.
21 Tu Existes, e antes que existisse todo o tempo, Tu já eras, e sem lugar Te assentaste.
22 Tu Existes, e o Teu mistério está oculto — quem o alcançará? Profundo, profundo — quem o encontrará?
23 Atah Chai — Tu és Vivo, e não a partir de um tempo determinado, nem a partir de uma época conhecida.
24 Tu és Vivo, e não por alma e sopro de vida, pois Tu és a alma da alma.
25 Tu és Vivo, e não como a vida do homem, que se assemelha ao sopro, e cujo fim é traça e verme.
26 Tu és Vivo, e aquele que alcançar o Teu mistério encontrará deleite eterno, e "comerá e viverá para sempre."
27 Atah Gadol — Tu és Grande, e diante da Tua grandeza toda grandeza se sujeita, e toda vantagem é deficiência.
28 Tu és Grande mais que todo pensamento, e mais formoso que toda carruagem.
29 Tu és Grande acima de toda grandeza, e exaltado acima de todo louvor.
30 Atah Gibor — Tu és Poderoso, e não há, em todas as Tuas formações e criaturas, quem faça como as Tuas obras e como os Teus feitos de poder.
31 Tu és Poderoso, e Teu é o poder pleno, que não tem mudança nem substituição.
32 Tu és Poderoso, e pela grandeza da Tua magnanimidade perdoarás no tempo do furor da Tua ira, e prolongarás a Tua indignação para com os que pecam.
33 Tu és Poderoso, e a Tua misericórdia está sobre todas as Tuas criaturas — elas são os poderosos que existem desde sempre.
34 Atah Or — Tu és Luz, e os olhos de toda alma pura Te verão, mas os olhos dos que têm iniquidades ocultarão de si mesmos a Ti.
35 Tu és Luz oculta neste mundo e revelada no mundo que se vê — "no monte do Eterno se verá."
36 Atah Elyon — Tu és Supremo, e o olho do intelecto anseia por Ti e se maravilha; apenas a sua extremidade verá, mas a Ti por inteiro não verá.
37 Tu és o D'us dos deuses, e todas as criaturas são Tuas testemunhas, e pela honra deste nome todo ser criado é obrigado a Te servir.
38 Tu és Deidade, e todos os seres formados são Teus servos e os que Te adoram, e a Tua honra não diminui por causa dos que adoram fora de Ti, pois a intenção de todos eles é alcançar a Ti.
39 Mas eles são como cegos: o rumo dos seus rostos é o caminho do Rei, mas erram do caminho — este afunda num poço profundo, e aquele cai numa cova.
40 E todos pensaram que haviam alcançado o seu desejo, mas em vão se cansaram.
41 Já os Teus servos são como videntes que caminham por rumo reto, sem desviar-se para a direita nem para a esquerda do caminho, até chegarem ao átrio da casa do Rei.
42 Tu és Deidade que sustenta os seres formados na Tua divindade, e ampara as criaturas na Tua unidade.
43 Tu és Deidade, e não há diferença entre a Tua deidade e a Tua unidade, e a Tua precedência e a Tua existência, porque tudo é um único mistério; e ainda que o nome de cada um se altere, tudo caminha para um único lugar.
44 Atah Chacham — Tu és Sábio, e a sabedoria é fonte de vida, e dela brota tudo o que existe; mas pela Tua sabedoria todo homem se torna necio de conhecimento.
45 Tu és Sábio, anterior a todo o que é anterior, e a sabedoria estava junto a Ti como aia fiel.
46 Tu és Sábio, e não aprendeste com ninguém fora de Ti, nem adquiriste sabedoria de outrem além de Ti.
47 Tu és Sábio, e da Tua sabedoria emanaste um desejo pronto, como um artesão e artífice, para atrair o fluxo do ser a partir do nada, como se atrai a luz que sai do olho, e para tirar da fonte da luz sem balde, e para operar tudo sem instrumento.
48 E lavrou, e gravou, e purificou, e refinou, e chamou o nada, e ele se fendeu, e chamou o ser, e ele se firmou, e chamou o mundo, e ele se estendeu.
49 E mediu os céus com o palmo, e a Sua mão une a tenda das esferas, e com as presilhas do poder ata as cortinas das criaturas, e o Seu poder alcança até a borda da cortina mais externa e mais extrema, na juntura.
50 Quem poderá enunciar os Teus feitos de poder? — ao fazeres o globo da terra dividir-se em dois: metade seco, e metade águas.
51 E cercaste sobre as águas a esfera do vento — o vento gira, gira, caminha, e sobre as suas voltas repousa.
52 E cercaste sobre o vento a esfera do fogo.
53 E estes quatro elementos têm um único fundamento e uma única origem; e a partir dele saem e se renovam, e dali se separam, e vieram a ser quatro princípios.
Este capítulo é o núcleo teológico de Keter Malchut: uma sequência de louvores que, sob a forma litúrgica de epítetos repetidos ("Tu és Um", "Tu Existes", "Tu és Vivo"...), expõe a doutrina neoplatônica de ibn Gabirol sobre os atributos divinos. Cada estrofe segue o método da via negativa — afirma um atributo e imediatamente o esvazia de qualquer sentido criatural, para preservar a transcendência absoluta de D'us. "Tu és Um" não significa um entre muitos, mas a unidade que precede e funda todo número; "Tu Existes" não é a existência contingente das criaturas, mas a existência necessária, anterior ao próprio tempo e ao lugar.
O capítulo abre citando diretamente Tehillim 139:14, "Nifla'im ma'assecha venafshi yodaat me'od" — "Maravilhosas são as Tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem." A enumeração que se segue ("Tua, ó Eterno, é a grandeza, e o poder, e a glória...") é um eco quase literal de I Divrei HaYamim 29:11, a oração de David antes de sua morte — "Lecha Hashem hagedulá vehagevurá vehatiferet vehanetzach vehahod..." — texto que a liturgia incorporou ao Pessukei deZimrá. Ibn Gabirol amplia essa lista bíblica com atributos adicionais (o esconderijo do vigor, o nome oculto, a força que sustenta o mundo "sobre o nada") já de sabor filosófico, preparando a transição para as estrofes seguintes.
A estrofe de Atah Echad nega que a unidade divina seja "como o um que se adquire e se conta" — isto é, a unidade aritmética, primeiro termo de uma série. A unidade de D'us não admite multiplicidade nem mudança, nem sequer descrição ou epíteto (embora o próprio poema seja, precisamente, uma sequência de epítetos — tensão que o autor reconhece ao citar Tehillim 39:2, "guardarei os meus caminhos, para não pecar com a minha língua", confessando os limites da linguagem diante do mistério).
A estrofe de Atah Nimtza é o ápice da linguagem apofática do capítulo: D'us não é alcançado por nenhum sentido ("nem o ouvir do ouvido, nem o ver do olho"), nem está sujeito às categorias que regem os entes criados — "o como, o porquê e o onde" (causa, finalidade e lugar). Ele existe "para Si mesmo", sem alteridade, e precede o próprio tempo — formulação que aproxima ibn Gabirol da noção filosófica de existência necessária (necesse esse), anterior a toda existência contingente.
"Tu és Vivo, e não a partir de um tempo determinado" recorda a bênção da Amidá "mechaiê metim" (que vivifica os mortos), mas aqui invertida: não se trata da vida que D'us concede, e sim da vida que D'us é, anterior à alma e ao sopro, pois "Tu és a alma da alma". A frase final, "comerá e viverá para sempre", ecoa Bereshit 3:22, a árvore da vida do Éden — agora reaplicada não a um fruto, mas ao próprio conhecimento do mistério divino.
As estrofes de Atah Gadol e Atah Gibor tratam a grandeza e o poder divinos como categorias que excedem toda medida e toda comparação — "mais formoso que toda carruagem" evoca a tradição mística da Merkavá (o carro celestial de Yechezkel). Dentro da estrofe de Gibor insere-se o louvor Atah Or — "Tu és Luz" — que emprega a mesma dialética de ocultação e revelação: luz "oculta neste mundo e revelada no mundo que se vê", citando Devarim 31:11 ("no monte do Eterno se verá"), imagem que a tradição associa à visão profética plena reservada ao mundo vindouro.
A estrofe de Atah Elyon é a mais longa e contém a única parábola do capítulo: os que adoram outras divindades são comparados a cegos que, embora voltados para o caminho do Rei, extraviam-se e caem em poços e covas, ao passo que os servos de D'us são "como videntes" que não se desviam nem para a direita nem para a esquerda. A imagem serve à afirmação, notavelmente tolerante para o século XI, de que a intenção de todo adorador — mesmo o que erra o caminho — aponta, em última instância, para o único D'us verdadeiro. A estrofe fecha com a tese central do capítulo: deidade, unidade, precedência e existência não são atributos distintos, mas nomes diferentes para "um único mistério".
A estrofe de Atah Chacham introduz a Sabedoria (Chochmá) como o instrumento pelo qual D'us cria — "como um artesão e artífice" que "atrai o fluxo do ser a partir do nada", metáfora central da cosmogonia neoplatônica de ibn Gabirol, também desenvolvida em sua obra filosófica Mekor Chaim (Fons Vitae). A criação é descrita não como um ato único, mas como um processo de emanação contínua — lavrar, gravar, purificar, refinar — que "mede os céus com o palmo" (ecoando Yeshayahu 40:12) e "une a tenda das esferas" com "presilhas", imagem tomada do Mishcan (Shemot 26:6), o Tabernáculo do deserto, agora aplicada à arquitetura cósmica inteira.
A última estrofe, iniciada por "Mi yemalel gevuroteicha" (Quem poderá enunciar os Teus feitos de poder — citação de Tehillim 106:2), marca a passagem do louvor abstrato dos atributos para a descrição concreta da criação física: a terra dividida em seco e água, cercada pela esfera do vento (ou ar), por sua vez cercada pela esfera do fogo. São os quatro elementos clássicos — terra, água, ar e fogo — que a cosmologia aristotélico-neoplatônica herdada por ibn Gabirol considerava a base material de todo o mundo sublunar. O verso final insiste que, apesar de "quatro princípios" distintos, os elementos "têm um único fundamento e uma única origem" — ecoando, em escala cósmica, a mesma doutrina da unidade subjacente à multiplicidade que já animou as estrofes anteriores. É esta arquitetura elementar que os capítulos seguintes do poema desdobrarão em detalhe, na ascensão cosmológica através das esferas celestes.