Keter Malchut · Shlomo ibn Gabirol · Capítulo II

Os atributos de D'us

נִפְלָאִים מַעֲשֶׂיךָ וְנַפְשִׁי יוֹדַעַת מְאֹד
Shlomo ibn Gabirol (c. 1021–1058) · hebraico: "Tikkun Midot HaNefesh", Jerusalém, 1996 (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

Depois da invocação inicial, o poema entra na longa série de louvores aos atributos divinos — cada estrofe repete um epíteto ("Tu és...") e o desdobra em argumentos filosóficos sobre a natureza de D'us. A tradução segue o hebraico cláusula por cláusula, respeitando as pausas marcadas pelos dois-pontos do texto-fonte.

Nifla'im

1 "Maravilhosas são as Tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem."

2 Tua, ó Eterno, é a grandeza, e o poder, e a glória, e a eternidade, e a majestade.

3 Tua, ó Eterno, é a realeza, e a exaltação sobre todos como cabeça, e a riqueza, e a honra.

4 Teus são os seres criados de cima e de baixo, que testemunham que eles perecerão e Tu permanecerás.

5 Tua é a força, em cujo mistério se cansaram os nossos pensamentos por não conseguirem alcançá-la, porque Tu és por demais poderoso para nós.

6 Teu é o esconderijo do vigor, o segredo e o fundamento.

7 Teu é o nome oculto dos sábios, e a força que sustenta o mundo sobre o nada, e a capacidade de trazer à luz todo mistério oculto.

8 Tua é a bondade que prevalece sobre as Tuas criaturas, e o bem reservado para os que Te temem.

9 Teus são os segredos que nem o louvor nem o pensamento conseguem conter, e a vida sobre a qual a destruição não tem domínio, e o trono elevado acima de todo o supremo, e a morada oculta na altura do esconderijo.

10 Tua é a existência, da sombra de cuja luz veio a ser tudo o que existe, sobre a qual dissemos: "à sua sombra viveremos."

11 Teus são os dois mundos entre os quais puseste uma fronteira: o primeiro para as obras, e o segundo para a recompensa.

12 Tua é a recompensa que guardaste para os justos e ocultaste; e viste que ela era boa, e a escondeste.

נִפְלָאִים מַעֲשֶׂיךָ וְנַפְשִׁי יוֹדַעַת מְאֹד. לְךָ יְיָ הַגְּדֻלָּה וְהַגְּבוּרָה וְהַתִּפְאֶרֶת וְהַנֵּצַח וְהַהוֹד. לְךָ יְיָ הַמַּמְלָכָה וְהַמִּתְנַשֵּׂא לְכֹל לְרֹאשׁ. וְהָעֹשֶׁר וְהַכָּבוֹד: לְךָ בְּרוּאֵי מַעְלָה וּמַטָּה יָעִידוּ כִּי הֵמָּה יֹאבֵדוּ וְאַתָּה תַעֲמֹד: לְךָ הַגְּבוּרָה אֲשֶׁר בְּסוֹדָהּ נִלְאוּ רַעְיוֹנֵינוּ לַעֲמֹד. כִּי עָצַמְתָּ מִמֶּנּוּ מְאֹד: לְךָ חֶבְיוֹן הָעֹז הַסּוֹד וְהַיְסוֹד: לְךָ הַשֵּׁם הַנֶּעְלָם מִמְּתֵי חָכְמָה. וְהַכֹּחַ הַסּוֹבֵל הָעוֹלָם עַל בְּלִימָה. וְהַיְכֹלֶת לְהוֹצִיא לָאוֹר כָּל תַּעֲלוּמָה: לְךָ הַחֶסֶד אֲשֶׁר גָּבַר עַל בְּרוּאֶיךָ. וְהַטּוֹב הַצָּפוּן לִירֵאֶיךָ: לְךָ הַסּוֹדוֹת אֲשֶׁר לֹא יְכִילֵם שֶׁבַח וְרַעְיוֹן. וְהַחַיִּים אֲשֶׁר לֹא יִשְׁלַט עֲלֵיהֶם כִּלָּיוֹן. וְהַכִּסֵּא הַנַּעֲלֶה עַל כָּל עֶלְיוֹן. וְהַנָּוֶה הַנִּסְתָּר בְּרוּם חֶבְיוֹן: לְךָ הַמְּצִיאוּת אֲשֶׁר מִצֵּל מְאוֹרוֹ נִהְיָה כָּל הוֹיֶה. אֲשֶׁר אָמַרְנוּ בְּצִלּוֹ נִחְיֶה: לְךָ שְׁנֵי הָעוֹלָמִים אֲשֶׁר נָתַתָּ בֵּינֵיהֶם גְּבוּל. הָרִאשׁוֹן לְמַעֲשִׂים וְהַשֵּׁנִי לִגְמוּל: לְךָ הַגְּמוּל אֲשֶׁר גָּנַזְתָּ לַצַּדִּיקִים וַתַּעֲלִימֵהוּ. וַתֵּרֶא אוֹתוֹ כִּי טוֹב הוּא וַתִּצְפְּנֵהוּ:
Atah Echad

13 Atah Echad — Tu és Um: cabeça de toda numeração, e fundamento de toda construção.

14 Tu és Um, e no mistério da Tua unidade os sábios de coração se maravilham, porque não sabem o que ela é.

15 Tu és Um, e a Tua unidade não diminui nem aumenta, não falta nem excede.

16 Tu és Um, mas não como o um que se adquire e se conta, pois a Ti não Te alcançam a multiplicidade nem a mudança, nem a descrição nem o apelido.

17 Tu és Um, e pôr em Ti limite e fronteira excede o meu entendimento; por isso disse: "guardarei os meus caminhos, para não pecar com a minha língua."

18 Tu és Um: Te elevaste e Te exaltaste acima do abatimento e da queda, e são deles o abatimento e a queda daquele que fizesse de Ti um único que cai.

אַתָּה אֶחָד. רֹאשׁ כָּל מִנְיָן. וִיסוֹד כָּל בִּנְיָן: אַתָּה אֶחָד. וּבְסוֹד אַחְדוּתְךָ חַכְמֵי לֵב יִתְמָהוּ. כִּי לֹא יָדְעוּ מַה הוּא: אַתָּה אֶחָד. וְאַחְדוּתְךָ לֹא יִגְרַע וְלֹא יוֹסִיף. לֹא יֶחְסַר וְלֹא יַעְדִּיף: אַתָּה אֶחָד. וְלֹא כְּאֶחָד הַקָּנוּי וְהַמָּנוּי. כִּי לֹא יַשִּׂיגְךָ רִבּוּי וְשִׁנּוּי. לֹא תֹאַר וְלֹא כִנּוּי: אַתָּה אֶחָד. וְלָשׂוּם לְךָ חֹק וּגְבוּל נִלְאָה הֶגְיוֹנִי. עַל כֵּן אָמַרְתִּי אֶשְׁמְרָה דְרָכַי מֵחֲטוֹא בִּלְשׁוֹנִי: אַתָּה אֶחָד. גָבַהְתָּ וְנַעֲלֵיתָ מִשְּׁפוֹל וּמִנְּפוֹל. וְאִילוֹ הָאֶחָד שֶׁיִּפּוֹל:
Atah Nimtza

19 Atah Nimtza — Tu Existes, e não Te alcançam o ouvir do ouvido nem o ver do olho, e sobre Ti não têm domínio o como, o porquê e o onde.

20 Tu Existes, mas para Ti mesmo, e não há outro contigo.

21 Tu Existes, e antes que existisse todo o tempo, Tu já eras, e sem lugar Te assentaste.

22 Tu Existes, e o Teu mistério está oculto — quem o alcançará? Profundo, profundo — quem o encontrará?

אַתָּה נִמְצָא. וְלֹא יַשִּׂיגְךָ שֵׁמַע אֹזֶן וְלֹא רְאוֹת עַיִן. וְלֹא יִשְׁלַט בְּךָ אֵיךְ וְלָמָּה וְאַיִן: אַתָּה נִמְצָא. אֲבָל לְעַצְמְךָ וְאֵין לְאַחֵר עִמָּךְ: אַתָּה נִמְצָא. וּבְטֶרֶם הֱיוֹת כָּל זְמַן הָיִיתָ. וּבְלִי מָקוֹם חָנִיתָ: אַתָּה נִמְצָא. וְסוֹדְךָ נֶעְלָם וּמִי יַשִּׂיגֶנּוּ. עָמֹק עָמֹק מִי יִמְצָאֶנּוּ:
Atah Chai

23 Atah Chai — Tu és Vivo, e não a partir de um tempo determinado, nem a partir de uma época conhecida.

24 Tu és Vivo, e não por alma e sopro de vida, pois Tu és a alma da alma.

25 Tu és Vivo, e não como a vida do homem, que se assemelha ao sopro, e cujo fim é traça e verme.

26 Tu és Vivo, e aquele que alcançar o Teu mistério encontrará deleite eterno, e "comerá e viverá para sempre."

אַתָּה חַי. וְלֹא מִזְּמַן קָבוּע. וְלֹא מֵעֵת יָדוּעַ: אַתָּה חַי. וְלֹא בְנֶפֶשׁ וּנְשָׁמָה. כִּי אַתָּה נְשָׁמָה לִנְשָׁמָה: אַתָּה חַי. וְלֹא כְּחַיֵּי אָדָם לַהֶבֶל דָּמָה. וְסוֹפוֹ עָשׁ וְרִמָּה: אַתָּה חַי. וְהַמַּגִּיעַ לְסוֹדְךָ יִמְצָא תַּעֲנוּג עוֹלָם. וְאָכַל וָחַי לְעוֹלָם:
Atah Gadol

27 Atah Gadol — Tu és Grande, e diante da Tua grandeza toda grandeza se sujeita, e toda vantagem é deficiência.

28 Tu és Grande mais que todo pensamento, e mais formoso que toda carruagem.

29 Tu és Grande acima de toda grandeza, e exaltado acima de todo louvor.

אַתָּה גָדוֹל. וּמוּל גְּדֻלָּתְךָ כָּל גְּדֻלָּה נִכְנַעַת. וְכָל יִתְרוֹן מִגְרָעַת: אַתָּה גָדוֹל מִכָּל מַחֲשָׁבָה. וְנָאֶה מִכָּל מֶרְכָּבָה: אַתָּה גָדוֹל עַל כָּל גְּדֻלָּה. וּמְרוֹמָם עַל כָּל תְּהִלָּה:
Atah Gibor / Atah Or

30 Atah Gibor — Tu és Poderoso, e não há, em todas as Tuas formações e criaturas, quem faça como as Tuas obras e como os Teus feitos de poder.

31 Tu és Poderoso, e Teu é o poder pleno, que não tem mudança nem substituição.

32 Tu és Poderoso, e pela grandeza da Tua magnanimidade perdoarás no tempo do furor da Tua ira, e prolongarás a Tua indignação para com os que pecam.

33 Tu és Poderoso, e a Tua misericórdia está sobre todas as Tuas criaturas — elas são os poderosos que existem desde sempre.

34 Atah Or — Tu és Luz, e os olhos de toda alma pura Te verão, mas os olhos dos que têm iniquidades ocultarão de si mesmos a Ti.

35 Tu és Luz oculta neste mundo e revelada no mundo que se vê — "no monte do Eterno se verá."

אַתָּה גִבּוֹר. וְאֵין בְּכָל יְצִירוֹתֶיךָ וּבְרִיּוֹתֶיךָ. אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה כְּמַעֲשֶׂיךָ וּכִגְבוּרוֹתֶיךָ: אַתָּה גִּבּוֹר וּלְךָ הַגְּבוּרָה הַגְּמוּרָה. אֲשֶׁר אֵין לָהּ שִׁנּוּי וּתְמוּרָה: אַתָּה גִבּוֹר וּמֵרֹב גַּאֲוָתְךָ תִּמְחֹל בְּעֵת זַעַם אַפֶּךָ. וְתַאֲרִיךְ לְחַטָּאִים זַעְפֶּךָ: אַתָּה גִּבּוֹר. וְרַחֲמֶיךָ עַל כָּל בְּרוּאֶיךָ כֻלָּם. הֵמָּה הַגִּבּוֹרִים אֲשֶׁר מֵעוֹלָם: אַתָּה אוֹר. וְעֵינֵי כָל נֶפֶשׁ זַכָּה יִרְאוּךָ. וְעֵינֵי עֲוֹנִים מֵעֵינֶיהָ יַעְלִימוּךָ: אַתָּה אוֹר נֶעְלָם בָּעוֹלָם הַזֶּה וְנִגְלֶה בָּעוֹלָם הַנִּרְאֶה. בְּהַר יְיָ יֵרָאֶה:
Atah Elyon

36 Atah Elyon — Tu és Supremo, e o olho do intelecto anseia por Ti e se maravilha; apenas a sua extremidade verá, mas a Ti por inteiro não verá.

37 Tu és o D'us dos deuses, e todas as criaturas são Tuas testemunhas, e pela honra deste nome todo ser criado é obrigado a Te servir.

38 Tu és Deidade, e todos os seres formados são Teus servos e os que Te adoram, e a Tua honra não diminui por causa dos que adoram fora de Ti, pois a intenção de todos eles é alcançar a Ti.

39 Mas eles são como cegos: o rumo dos seus rostos é o caminho do Rei, mas erram do caminho — este afunda num poço profundo, e aquele cai numa cova.

40 E todos pensaram que haviam alcançado o seu desejo, mas em vão se cansaram.

41 Já os Teus servos são como videntes que caminham por rumo reto, sem desviar-se para a direita nem para a esquerda do caminho, até chegarem ao átrio da casa do Rei.

42 Tu és Deidade que sustenta os seres formados na Tua divindade, e ampara as criaturas na Tua unidade.

43 Tu és Deidade, e não há diferença entre a Tua deidade e a Tua unidade, e a Tua precedência e a Tua existência, porque tudo é um único mistério; e ainda que o nome de cada um se altere, tudo caminha para um único lugar.

אַתָּה עֶלְיוֹן. וְעֵין הַשֵּׂכֶל לְךָ תִּכְסֹף וְתִשְׁתָּאֶה. אֶפֶס קָצֵהוּ תִרְאֶה וְכֻלּוֹ לֹא תִרְאֶה: אַתָּה אֱלֹהֵי הָאֱלֹהִים. וְכָל הַבְּרוּאִים עֵדֶיךָ. וּבִכְבוֹד זֶה הַשֵּׁם נִתְחַיֵּב כָּל נִבְרָא לְעָבְדֶךָ: אַתָּה אֱלוֹהַּ. וְכָל הַיְצוּרִים עֲבָדֶיךָ וְעוֹבְדֶיךָ. וְלֹא יֶחְסַר כְּבוֹדֶךָ. בִּגְלַל עוֹבְדֵי בִלְעָדֶיךָ. כִּי כַּוָּנַת כֻּלָּם לְהַגִּיעַ עָדֶיךָ: אֲבָל הֵם כְּעִוְרִים. מְגַמַּת פְּנֵיהֶם דֶּרֶךְ הַמֶּלֶךְ. וְתָעוּ מִן הַדָּרֶךְ זֶה טָבַע בִּבְאֵר שַׁחַת. וְזֶה נָפַל אֶל פָּחַת: וְכֻלָּם חָשְׁבוּ כִּי לְחֶפְצָם נָגָעוּ. וְהֵם לָרִיק יָגָעוּ: אַךְ עֲבָדֶיךָ הֵם כְּפִקְחִים הַהוֹלְכִים דֶּרֶךְ נְכוֹחָה. לֹא סָרוּ יָמִין וּשְׂמֹאל מִן הַדֶּרֶךְ עַד בּוֹאָם לַחֲצַר בֵּית הַמֶּלֶךְ אַתָּה אֱלוֹהַּ סוֹמֵךְ הַיְצוּרִים בֵּאלָהוּתֶךָ. וְסוֹעֵד הַבְּרוּאִים בְּאַחְדוּתֶךָ: אַתָּה אֱלוֹהַּ. וְאֵין הַפְרֵשׁ בֵּין אֱלָהוּתְךָ וְאַחְדוּתְךָ. וְקַדְמוּתְךָ וּמְצִיאוּתְךָ. כִּי הַכֹּל סוֹד אֶחָד. וְאִם יִשְׁתַּנֶּה שֵׁם כָּל אֶחָד. הַכֹּל הוֹלֵךְ אֶל מָקוֹם אֶחָד:
Atah Chacham

44 Atah Chacham — Tu és Sábio, e a sabedoria é fonte de vida, e dela brota tudo o que existe; mas pela Tua sabedoria todo homem se torna necio de conhecimento.

45 Tu és Sábio, anterior a todo o que é anterior, e a sabedoria estava junto a Ti como aia fiel.

46 Tu és Sábio, e não aprendeste com ninguém fora de Ti, nem adquiriste sabedoria de outrem além de Ti.

47 Tu és Sábio, e da Tua sabedoria emanaste um desejo pronto, como um artesão e artífice, para atrair o fluxo do ser a partir do nada, como se atrai a luz que sai do olho, e para tirar da fonte da luz sem balde, e para operar tudo sem instrumento.

48 E lavrou, e gravou, e purificou, e refinou, e chamou o nada, e ele se fendeu, e chamou o ser, e ele se firmou, e chamou o mundo, e ele se estendeu.

49 E mediu os céus com o palmo, e a Sua mão une a tenda das esferas, e com as presilhas do poder ata as cortinas das criaturas, e o Seu poder alcança até a borda da cortina mais externa e mais extrema, na juntura.

אַתָּה חָכָם. וְהַחָכְמָה מְקוֹר חַיִּים וּמִמְּךָ נוֹבַעַת. וּבְחָכְמָתְךָ נִבְעַר כָּל אָדָם מִדַּעַת: אַתָּה חָכָם. קַדְמוֹן לְכָל קַדְמוֹן. וְהַחָכְמָה הָיְתָה אֶצְלְךָ אָמוֹן: אַתָּה חָכָם. וְלֹא לָמַדְתָּ מִבַּלְעָדֶיךָ. וְלֹא קָנִיתָ חָכְמָה מִזּוּלָתֶךָ: אַתָּה חָכָם. וּמֵחָכְמָתְךָ אָצַלְתָּ חֵפֶץ מְזֻמָּן. כְּפוֹעֵל וְאֻמָּן: לִמְשֹׁךְ מֶשֶׁךְ הַיֵּשׁ מִן הָאַיִן. כְּהִמָּשֵׁךְ הָאוֹר הַיּוֹצֵא מִן הָעַיִן. וְשׁוֹאֵב מִמְּקוֹר הָאוֹר מִבְּלִי דְלִי. וּפוֹעֵל הַכֹּל בְּלִי כֶלִי: וְחָצַב וְחָקַק. וְטִהֵר וְזִקַּק. וְקָרָא אֶל הָאַיִן וְנִבְקַע. וְאֶל הַיֵּשׁ וְנִתְקַע. וְאֶל הָעוֹלָם וְנִרְקַע. וְתִכֵּן שְׁחָקִים בַּזֶּרֶת. וְיָדוֹ אֹהֶל הַגַּלְגַּלִּים מְחַבֶּרֶת. וּבְלֻלְּאוֹת הַיְכֹלֶת יְרִיעוֹת הַבְּרִיאוֹת קוֹשָׁרֶת. וְכֹחָהּ נוֹגַעַת עַל שְׂפַת הַיְרִיעָה הַבְּרִיאָה הַחִיצוֹנָה הַקִּיצוֹנָה בְּמַחְבָּרֶת:
Mi Yemalel

50 Quem poderá enunciar os Teus feitos de poder? — ao fazeres o globo da terra dividir-se em dois: metade seco, e metade águas.

51 E cercaste sobre as águas a esfera do vento — o vento gira, gira, caminha, e sobre as suas voltas repousa.

52 E cercaste sobre o vento a esfera do fogo.

53 E estes quatro elementos têm um único fundamento e uma única origem; e a partir dele saem e se renovam, e dali se separam, e vieram a ser quatro princípios.

מִי יְמַלֵּל גְּבוּרוֹתֶיךָ. בַּעֲשׂוֹתְךָ כַּדּוּר הָאָרֶץ נֶחְלָק לִשְׁנַיִם. חֶצְיוֹ יַבָּשָׁה וְחֶצְיוֹ מָיִם: וְהִקַּפְתָּ עַל הַמַּיִם גַּלְגַּל הָרוּחַ. סוֹבֵב סוֹבֵב הוֹלֵךְ הָרוּחַ. וְעַל סְבִיבוֹתָיו יָנוּחַ. וְהִקַּפְתָּ עַל הָרוּחַ גַּלְגַּל הָאֵשׁ. וְהַיְסוֹדוֹת הָאֵלֶּה אַרְבָּעְתָּם. לָהֶם יְסוֹד אֶחָד וּמוֹצָאָם אֶחָד. וּמִמֶּנּוּ יוֹצְאִים וּמִתְחַדְּשִׁים. וּמִשָּׁם יִפָּרֵד וְהָיָה לְאַרְבָּעָה רָאשִׁים:

Sobre a tradução e as fontes · מְקוֹרוֹת

A doutrina neoplatônica dos atributos

Este capítulo é o núcleo teológico de Keter Malchut: uma sequência de louvores que, sob a forma litúrgica de epítetos repetidos ("Tu és Um", "Tu Existes", "Tu és Vivo"...), expõe a doutrina neoplatônica de ibn Gabirol sobre os atributos divinos. Cada estrofe segue o método da via negativa — afirma um atributo e imediatamente o esvazia de qualquer sentido criatural, para preservar a transcendência absoluta de D'us. "Tu és Um" não significa um entre muitos, mas a unidade que precede e funda todo número; "Tu Existes" não é a existência contingente das criaturas, mas a existência necessária, anterior ao próprio tempo e ao lugar.

A abertura: citação bíblica e o Divrei HaYamim

O capítulo abre citando diretamente Tehillim 139:14, "Nifla'im ma'assecha venafshi yodaat me'od" — "Maravilhosas são as Tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem." A enumeração que se segue ("Tua, ó Eterno, é a grandeza, e o poder, e a glória...") é um eco quase literal de I Divrei HaYamim 29:11, a oração de David antes de sua morte — "Lecha Hashem hagedulá vehagevurá vehatiferet vehanetzach vehahod..." — texto que a liturgia incorporou ao Pessukei deZimrá. Ibn Gabirol amplia essa lista bíblica com atributos adicionais (o esconderijo do vigor, o nome oculto, a força que sustenta o mundo "sobre o nada") já de sabor filosófico, preparando a transição para as estrofes seguintes.

Echad — a unidade além do número

A estrofe de Atah Echad nega que a unidade divina seja "como o um que se adquire e se conta" — isto é, a unidade aritmética, primeiro termo de uma série. A unidade de D'us não admite multiplicidade nem mudança, nem sequer descrição ou epíteto (embora o próprio poema seja, precisamente, uma sequência de epítetos — tensão que o autor reconhece ao citar Tehillim 39:2, "guardarei os meus caminhos, para não pecar com a minha língua", confessando os limites da linguagem diante do mistério).

Nimtza — a existência necessária

A estrofe de Atah Nimtza é o ápice da linguagem apofática do capítulo: D'us não é alcançado por nenhum sentido ("nem o ouvir do ouvido, nem o ver do olho"), nem está sujeito às categorias que regem os entes criados — "o como, o porquê e o onde" (causa, finalidade e lugar). Ele existe "para Si mesmo", sem alteridade, e precede o próprio tempo — formulação que aproxima ibn Gabirol da noção filosófica de existência necessária (necesse esse), anterior a toda existência contingente.

Chai — a vida além do tempo

"Tu és Vivo, e não a partir de um tempo determinado" recorda a bênção da Amidá "mechaiê metim" (que vivifica os mortos), mas aqui invertida: não se trata da vida que D'us concede, e sim da vida que D'us é, anterior à alma e ao sopro, pois "Tu és a alma da alma". A frase final, "comerá e viverá para sempre", ecoa Bereshit 3:22, a árvore da vida do Éden — agora reaplicada não a um fruto, mas ao próprio conhecimento do mistério divino.

Gadol, Gibor, Or — grandeza, poder e luz

As estrofes de Atah Gadol e Atah Gibor tratam a grandeza e o poder divinos como categorias que excedem toda medida e toda comparação — "mais formoso que toda carruagem" evoca a tradição mística da Merkavá (o carro celestial de Yechezkel). Dentro da estrofe de Gibor insere-se o louvor Atah Or — "Tu és Luz" — que emprega a mesma dialética de ocultação e revelação: luz "oculta neste mundo e revelada no mundo que se vê", citando Devarim 31:11 ("no monte do Eterno se verá"), imagem que a tradição associa à visão profética plena reservada ao mundo vindouro.

Elyon — o Supremo e a parábola dos caminhantes

A estrofe de Atah Elyon é a mais longa e contém a única parábola do capítulo: os que adoram outras divindades são comparados a cegos que, embora voltados para o caminho do Rei, extraviam-se e caem em poços e covas, ao passo que os servos de D'us são "como videntes" que não se desviam nem para a direita nem para a esquerda. A imagem serve à afirmação, notavelmente tolerante para o século XI, de que a intenção de todo adorador — mesmo o que erra o caminho — aponta, em última instância, para o único D'us verdadeiro. A estrofe fecha com a tese central do capítulo: deidade, unidade, precedência e existência não são atributos distintos, mas nomes diferentes para "um único mistério".

Chacham — a sabedoria como fonte da criação

A estrofe de Atah Chacham introduz a Sabedoria (Chochmá) como o instrumento pelo qual D'us cria — "como um artesão e artífice" que "atrai o fluxo do ser a partir do nada", metáfora central da cosmogonia neoplatônica de ibn Gabirol, também desenvolvida em sua obra filosófica Mekor Chaim (Fons Vitae). A criação é descrita não como um ato único, mas como um processo de emanação contínua — lavrar, gravar, purificar, refinar — que "mede os céus com o palmo" (ecoando Yeshayahu 40:12) e "une a tenda das esferas" com "presilhas", imagem tomada do Mishcan (Shemot 26:6), o Tabernáculo do deserto, agora aplicada à arquitetura cósmica inteira.

A transição para os quatro elementos

A última estrofe, iniciada por "Mi yemalel gevuroteicha" (Quem poderá enunciar os Teus feitos de poder — citação de Tehillim 106:2), marca a passagem do louvor abstrato dos atributos para a descrição concreta da criação física: a terra dividida em seco e água, cercada pela esfera do vento (ou ar), por sua vez cercada pela esfera do fogo. São os quatro elementos clássicos — terra, água, ar e fogo — que a cosmologia aristotélico-neoplatônica herdada por ibn Gabirol considerava a base material de todo o mundo sublunar. O verso final insiste que, apesar de "quatro princípios" distintos, os elementos "têm um único fundamento e uma única origem" — ecoando, em escala cósmica, a mesma doutrina da unidade subjacente à multiplicidade que já animou as estrofes anteriores. É esta arquitetura elementar que os capítulos seguintes do poema desdobrarão em detalhe, na ascensão cosmológica através das esferas celestes.