Keter Malchut · Shlomo ibn Gabirol · Capítulo I

Introdução do poeta

כֶּתֶר מַלְכוּת
Rabi Shlomo ibn Gabirol (c. 1021–1058) · hebraico de domínio público (Sefaria, Tikkun Midot HaNefesh, Jerusalém 1996) · tradução fiel PT-BR

Keter Malchut abre com o título, a atribuição ao autor, e uma nota sobre como e quando a comunidade recita o poema. Em seguida vem o prefácio do próprio Shlomo ibn Gabirol — quatro versos breves em que ele explica a finalidade da obra e revela o nome que lhe deu.

Título, autoria e uso litúrgico

1 Keter Malchut — A Coroa Real.

2 De Rabi Shlomo ibn Gabirol, de abençoada memória.

3 E ela é louvor, confissão e oração, que os temerosos de D'us e os homens de boas obras costumam usar para derramar sua súplica diante do Eterno na noite de Yom Kipur, depois de Col Nidrei, e em Yom Kipur, depois da oração de Mussaf.

כֶּתֶר מַלְכוּת: לְרִבִּי שְׁלֹמֹה ן' גְּבִירוֹל ז"ל: וְהִיא תְּהִלָּה וְוִדּוּי וּתְפִלָּה אֲשֶׁר נָהֲגוּ הַיְרֵאִים וְאַנְשֵׁי מַעֲשֵׂה לִשְׁפֹּךְ בָּהּ שִׂיחָם לִפְנֵי ה' בְּלֵיל יוֹם הַכִּפּוּרִים אַחַר כָּל נִדְרֵי וּבְיוֹם הַכִּפּוּרִים אַחַר תְּפִלַּת מוּסָף:
Prefácio do poeta

4 Com minha oração, que o homem se beneficie, pois nela aprenderá retidão e mérito.

5 Nela narrei as maravilhas de D'us vivo, em brevidade, mas não em extensão.

6 Coloquei-a à cabeça dos meus louvores, e chamei-a Keter Malchut, a Coroa Real.

בִּתְפִלָּתִי יִסְכָּן גָּבֶר. כִּי בָהּ יִלְמַד יֹשֶׁר וּזְכוּת: סִפַּרְתִּי בָהּ פִּלְאֵי אֵל חַי בִּקְצָרָה אַךְ לֹא בַאֲרִיכוּת: שַׂמְתִּיהָ עַל רֹאשׁ מַהֲלָלַי. וּקְרָאתִיהָ כֶּתֶר מַלְכוּת:

Sobre a tradução e as fontes · מְקוֹרוֹת

Quem foi Shlomo ibn Gabirol

Shlomo ibn Gabirol (c. 1021–1058) nasceu em Málaga e viveu principalmente em Zaragoza, na Espanha muçulmana. Órfão ainda jovem, tornou-se um dos maiores poetas hebraicos medievais — autor de milhares de versos litúrgicos e seculares — e também filósofo neoplatônico, conhecido no mundo latino como "Avicebron", autor da Fons Vitae (Mekor Chaim), obra filosófica que circulou séculos na Europa cristã sem que se soubesse que seu autor era judeu. Morreu jovem, por volta dos 37 anos, deixando uma obra poética de rara densidade filosófica.

O que é Keter Malchut

Keter Malchut é um poema filosófico-litúrgico composto no século XI, uma das obras-primas da poesia hebraica medieval. É recitado nas comunidades sefaraditas na noite de Yom Kipur, logo após Col Nidrei, e novamente durante a oração de Mussaf de Yom Kipur. Sua estrutura é uma ascensão: começa louvando os atributos e a grandeza de D'us, percorre depois a arquitetura do cosmos — os elementos, os planetas, as esferas celestes — e termina em confissão (Vidui), quando o poeta, tendo contemplado toda a criação, volta-se para dentro e reconhece sua própria pequenez e culpa diante do Criador.

O prefácio: ecos bíblicos e o nome da obra

A nota litúrgica (v.3) situa o poema no coração da liturgia de Yom Kipur — a noite de Col Nidrei e o Mussaf, os dois momentos mais solenes do calendário judaico. No prefácio (vv.4–6), o próprio ibn Gabirol explica sua intenção dupla: que a oração seja útil (yiskan gaver, "que o homem se beneficie", ecoando Iyov 22:21, "familiariza-te com Ele e tem paz") e que ensine "retidão e mérito" — não é apenas louvor, mas também instrução ética. Ele diz ter narrado "as maravilhas de D'us vivo" com brevidade, consciente de que o tema é inesgotável. O nome que escolhe, Keter Malchut, alude ao livro de Ester, onde "keter malchut" designa literalmente a coroa real colocada na cabeça da rainha (Ester 1:11; 2:17) — o poeta coloca sua composição, metaforicamente, "à cabeça" (v.6) de todos os seus outros louvores, como uma coroa.