Quinze parágrafos sobre a parashá Pinchas, oitava do Sefer Bamidbar (Números): “Pecado pecou Yerushalayim”, a nidá e o sangue do parto; o zelo de Pinchas e a sua identidade com Eliyahu; as duas recompensas; o corpo que se purifica; o homem já morto; as filhas de Tzelofchad; o pedido de Moshe por um condutor que busque sempre o mérito de Israel; e a oferta queimada, elevada ao Eterno.
“Pinchas, filho de Elazar, filho de Aharon, o sacerdote, fez retroceder a minha ira” (Bamidbar 25:11). Antes, porém, explicaremos o verso “Pecado pecou Yerushalayim; por isso tornou-se objeto de impureza” (Eichá 1:8). O princípio é este: há quem, que o Eterno nos livre, cometa alguma transgressão por causa do desejo, e há quem, que o Eterno nos livre, transgrida para provocar, sem desejo algum. A respeito destes foi dito (Yechezkel 20:38) “os transgressores e rebeldes”, que não têm restauração alguma. Mas quem age por causa do desejo tem restauração, pois para ele é fácil fazer teshuvá (retorno ao Eterno). Eis a alusão: “Pecado pecou Yerushalayim” — Yerushalayim pecou por causa do desejo. E é isto o “tornou-se objeto de impureza”: pois a nidá (mulher em impureza menstrual) tem purificação no mikvê (banho ritual), o que não ocorre com todas as impurezas, a saber, o sheretz (animal rastejante) e as demais impurezas, cuja própria impureza não tem purificação no mikvê; mas a nidá, que é ela mesma a impureza, tem purificação no mikvê. Ora, há o sangue da nidá e o sangue do parto, que é puro, pois o princípio é que o Nome, bendito seja, derrama sempre bondade sobre Israel; e ainda que às vezes, no início, pareça não ser bondade, na verdade, no fim, quando aquilo se completa, é bom. O sangue da nidá é, no início, impuro, pois no início a coisa parece não ser boa; e o parto, isto é, quando a coisa se completa, então o sangue é puro, pois ao completar-se vê-se que é bom. Eis a alusão: “Pinchas, filho de Elazar, fez retroceder a minha ira”, isto é, mostrou que aquilo que no início parece ira, no fim é tudo bondade.
Ou explica-se: “Pinchas, filho de Elazar etc.” (abreviado no original). É preciso examinar a palavra “no meio deles”, que é supérflua. E é preciso examinar também que Pinchas fez apenas uma coisa, zelar o zelo do Eterno dos Exércitos, e o Santo, bendito seja, pagou-lhe duas recompensas: o pacto de paz e o pacto de sacerdócio eterno. Parece que nossos sábios, de memória abençoada, disseram: “Pinchas é Eliyahu”; e os Tosafot trazem, em nome do Tana devei Eliyahu (a coletânea do ensino da escola de Eliyahu), que discutiam de quem veio Eliyahu, se de Rachel ou de Lea, e Eliyahu veio e lhes disse: “Eu sou dos filhos dos filhos de Rachel.” E parece que “estas e estas são palavras do Deus vivo”, pois o princípio é este: se alguém vê, que o Eterno nos livre, pessoas transgredindo e imediatamente se irrita contra elas e zela o zelo do Eterno dos Exércitos, então, que o Eterno nos livre, desperta julgamentos sobre Israel. Mas Pinchas, embora tenha zelado o zelo do Eterno dos Exércitos, mesmo assim não despertava sobre eles julgamentos, que o Eterno nos livre, e sim grandes bondades, e expiava pelos filhos de Israel; ele era o advogado de Israel, como está na Guemará, que veio e os lançou ao chão e disse diante Dele: “Senhor do mundo, por estes cairão vinte e quatro mil de Israel?” Por causa disso o Santo, bendito seja, deu-lhe duas recompensas. O pacto de paz, por ter zelado o zelo do Eterno dos Exércitos; e o pacto de sacerdócio eterno, por ter estado no meio dos filhos de Israel, sem separar-se deles, despertando sobre eles bondades e expiando por eles, segundo a qualidade do sacerdote, que é bondade e expia pelos filhos de Israel.
E eis a alusão no verso: “Pinchas, filho de Elazar etc., fez retroceder a minha ira de sobre os filhos de Israel, ao zelar o meu zelo”, e mesmo assim estava no meio deles e despertava sobre eles bondades. Por isso: “Dize: Eis que lhe dou o meu pacto de paz”, por causa do zelo. “E será para ele e para a sua descendência depois dele o pacto de sacerdócio eterno, em recompensa por ter zelado pelo seu Deus e expiado pelos filhos de Israel”, pois, embora tenha zelado, expiou pelos filhos de Israel e despertava sobre eles bondades. Com isso entenderás que “estas e estas são palavras do Deus vivo”: na verdade Eliyahu é Pinchas, e resulta que ele vem dos filhos dos filhos de Lea. E quanto ao que está escrito no Tana devei Eliyahu, que ele disse ser dos filhos dos filhos de Rachel — pois esta é a expressão do Tana devei Eliyahu: “até que veio a eles e lhes disse: este, que eu sou Eliyahu, eu sou dos filhos dos filhos de Rachel” —, é que, na hora em que zelou o zelo do Eterno dos Exércitos, veio a ele uma alma de Rachel, pois de Rachel está escrito (Bereshit 30:1) “e Rachel teve ciúmes de sua irmã”, e esta é a sua qualidade. E é isto que está escrito ali, que lhes disse “este, que eu sou Eliyahu”: que tenho uma alma adicional, que sou chamado Eliyahu, que sou dos filhos dos filhos de Rachel; esta alma é de Rachel, da qual foi dito “e Rachel teve ciúmes”. E também Rachel é Malchut (soberania), que é a que vinga.
Pinchas é Eliyahu, e ele vive e permanece. E por quê? O princípio é este: o corpo que há no homem está distante do serviço ao Eterno, pois o corpo pensa em suas necessidades; somente a alma que há no homem pensa sempre no temor do Eterno, mas o corpo não é assim, e por isso vai ser sepultado. Na verdade, porém, se também o corpo servisse sempre ao Eterno, o homem não morreria. E assim era antes do pecado de Adam, o primeiro homem. Ora, Pinchas entregava-se à morte com essa ação, como disseram nossos sábios, de memória abençoada, e resulta que o corpo de Pinchas não pensava em necessidades corporais, mas servia verdadeiramente ao Eterno como a alma, pois o corpo, no momento em que fazia essa ação, era como se não existisse: entregou-se à morte nessa ação que fazia para cumprir a vontade do Eterno. Por isso o corpo de Pinchas se purificou, a ponto de viver e permanecer. É isto que está explicado no Midrash: “Pinchas, filho de Elazar etc.” — bedin hu (com razão é) que receba a sua recompensa; pois, como foi explicado, o corpo de Pinchas era, na hora da ação, como se não existisse, e o corpo estava oculto. Eis a alusão no Midrash: em bedin hu, a palavra hu (ele) é expressão de ocultamento, porque o corpo estava oculto, como foi dito; por isso era digno de receber a sua recompensa.
Ou explica-se bedin hu: o princípio é que o homem deve fazer todos os seus atos pela qualidade da chesed (bondade). Na verdade, porém, Pinchas, embora tenha agido pela qualidade do julgamento, tinha também por qualidade a bondade, pois impediu aquele perverso de realizar a sua perversidade; e esta é a bondade para com o perverso, quando o impedem de realizar a sua perversidade. Eis o bedin hu: embora Pinchas tenha executado o din (julgamento), mesmo assim era digno de receber a sua recompensa.
Sobre o que se diz na Guemará, “Pinchas é Eliyahu”, há uma dificuldade: por que não se disse o inverso, “Eliyahu é Pinchas”, já que o nome Eliyahu é posterior ao nome Pinchas? E parece que está escrito “Pinchas”: na hora em que zelou o zelo do Eterno dos Exércitos, a sua alma voou dele, e então, nesse instante, chegou ao nível que se chama pelo nome Eliyahu; e depois, quando voltou à sua essência, voltou a ser chamado Pinchas. Resulta que o nome Eliyahu é anterior ao nome Pinchas, na hora em que a sua alma voou.
“Uma palavra a seu tempo, quão boa”: para resolver a questão do Zohar, como Pinchas se tornou sacerdote, se o sacerdote que matou uma pessoa fica desqualificado do sacerdócio, porque a qualidade do sacerdote é a bondade, e não o julgamento. E também para resolver a expressão do verso “que foi ferido com a midianita”, que parece supérflua. Resolve-se tudo com um só golpe, pois o princípio é que o pensamento mau, que o Eterno nos livre, repele a neshamá (a alma sagrada), e as palavras não boas repelem o ruach (espírito) de santidade, e a ação não boa repele a nefesh (a alma vital) de santidade. É este o sentido do verso “E o nome do homem de Israel, o ferido, que foi ferido com a midianita” (Bamidbar 25:14): imediatamente, desde o início do pecado, antes que Pinchas o matasse, ele se tornou “ferido”, um profanado perverso que foi ferido com a midianita e morreu de fato pela partida da nefesh de santidade. Resulta que Pinchas gavra ketila katal (matou um homem já morto) e era apto ao sacerdócio.
“E Tzelofchad, filho de Chefer, não teve filhos, mas apenas filhas” (Bamidbar 26:33). Pois o essencial do serviço é dechilu urechimu (temor e amor), isto é, amor e temor; quando serve ao Eterno por amor, está na qualidade do deleite, mas quando serve por temor não é tanto assim, e sim apenas na qualidade de vergonha. Eis “e Tzelofchad”, que é tzel pachad (sombra de temor). “Filho de Chefer”, expressão de “e a lua se envergonhará” (Yeshayahu 24:23); não teve nada, mas apenas filhas. (O texto está incompleto no original.)
“E Moshe aproximou o julgamento delas diante do Eterno” (Bamidbar 27:5). O princípio: este é o deleite do pai quando faz herdar o seu filho; e foi nesta qualidade que Moshe despertou junto ao Eterno, a de sermos chamados filhos do Eterno; e Moshe despertou para que o Nome, bendito seja, nos faça herdar todos os bens. Eis “E Moshe aproximou o julgamento delas”, isto é, o julgamento da herança. “Diante do Eterno”: é esta a qualidade em que Moshe despertou junto ao Eterno.
“Que o Eterno, Deus dos espíritos de toda carne, nomeie etc.” (Bamidbar 27:15-17). O princípio: é preciso buscar mérito em favor de Israel pelo fato de não cumprirem a vontade do Criador continuamente, como os anjos, por estarem absorvidos pelo seu sustento. Assim, Avraham, nosso patriarca, era homem de bondade e buscava mérito; por isso deu de comer aos anjos, para mostrar-lhes a necessidade de carne e sangue, a fim de que não buscassem culpa contra Israel. E é isto que disse Moshe: “ao Deus dos espíritos de toda carne”, porque o homem, por ser de carne e sangue, tem a necessidade do seu sustento, e por isso às vezes não serve ao Eterno continuamente. Eis o que disse: “Que o Eterno, Deus dos espíritos de toda carne, nomeie”, isto é, um juiz e condutor que busque sempre mérito em favor de Israel: assim como Tu buscas mérito em favor do homem, que não Te serve continuamente, assim Moshe pediu que se levantasse um condutor de Israel que buscasse sempre mérito em favor de Israel. Eis: “Que o Eterno, Deus dos espíritos de toda carne”, assim como Tu és Deus dos espíritos de toda carne e buscas mérito em favor deles, assim “nomeie um homem sobre a congregação”, para que o condutor de Israel seja também quem busca mérito em favor de Israel.
Ou explica-se. O princípio: o Criador, bendito seja, derrama influxo sobre o mundo dos serafim (anjos de fogo) e sobre o mundo dos chayot hakodesh (as criaturas sagradas), e deles flui o influxo sobre Israel; e o Criador, bendito seja, derrama nos mundos superiores conforme também Israel possa receber esse influxo. Assim, o Criador, bendito seja, contrai esse influxo e o derrama conforme Israel possa receber esse influxo; resulta que toda a bondade que o Criador, bendito seja, derrama sobre os mundos superiores é na medida em que também os mundos inferiores possam receber. É isto que disse Moshe: “ao Deus dos espíritos de toda carne”. E é isto que Moshe pediu: “Que o Eterno, Deus dos espíritos”, isto é, Deus da espiritualidade que Tu derramas sobre todos os superiores; “de toda carne”, na medida em que o homem possa receber; assim “nomeie o Eterno um homem sobre a congregação”, para que o condutor da congregação conduza Israel como Tu conduzes a Ti mesmo com Israel. Eis: “E Moshe falou ao Eterno, dizendo” (Bamidbar 27:15): aqui o “dizendo” lemor parece supérfluo, pois a quem diria? Mas na verdade Moshe pediu que o Nome, bendito seja, estabelecesse um bom condutor sobre Israel, e não apenas sobre a sua geração: pediu por todas as gerações vindouras. Eis o “dizendo”: pediu assim para todas as gerações vindouras.
Ou explica-se: “ao Deus dos espíritos de toda carne”. O princípio: na alma do homem, o essencial do seu desejo é pelo serviço ao Eterno; somente o corpo tem desejo das coisas materiais. Na verdade, o corpo e a alma são ambos obra do Eterno, e assim como há força na alma, vinda do Eterno, para o Seu serviço, bendito seja, assim está nas mãos do Eterno a capacidade de fazer que também o corpo tenha por essencial o seu desejo pelo serviço ao Eterno. Resulta que temos um argumento diante do Santo, bendito seja, para que perdoe as nossas iniquidades, visto que está nas mãos do Santo, bendito seja, dar força ao corpo para sujeitá-lo ao Seu serviço. Ora, a nefesh que anseia pelo serviço ao Eterno chama-se ruach (espírito), como foi dito (Shemuel II 23:2) “o espírito do Eterno falou em mim”, e o corpo chama-se basar (carne). Eis: “ao Deus dos espíritos”, Tu, para os que anseiam pelo Teu serviço, assim seja “para toda carne”, isto é, o corpo, como foi dito.
“E oferecereis oferta queimada, holocausto ao Eterno” (Bamidbar 28:19). Se a nossa oferta é isha (oferta queimada), expressão de esh (fogo), o entusiasmo para coroá-Lo com temor e com o grande fogo, então “holocausto ao Eterno”: há uma elevação ao Nome Havayá, bendito Ele e bendito o Seu nome. Que o Eterno cumpra todos os teus pedidos — todas as nossas petições sejam para a grandeza do Seu nome, bendito seja, para que se engrandeça.
Ou diz-se: “E oferecereis isha”. Se quereis aproximar uma isha, o temor e o entusiasmo, “holocausto ao Eterno”: vê que haja para ela elevação até o Eterno, que não fique distante do Criador, bendito seja, sem separação e sem associação de outro temor e entusiasmo, que o Eterno nos livre, mas em união e apego, um só, todo ele incluído, e não com o fim de receber recompensa.
Ou explica-se: “E oferecereis isha”. A nossa isha não é senão no sentido de mulher, aquela que recebe, pois para isso nos criou: para que Ele derrame em nós; e depois, quando recebemos e servimos ao Criador, bendito seja, há então uma elevação ao Eterno, de modo que o Seu nome se engrandece em todos os mundos por meio dos santos de Israel, que O coroam mesmo na terra, quanto mais nos mundos superiores.