O terceiro shoresh do primeiro ikar: D'us é independente do tempo. Ele não existe dentro do tempo — o tempo existe dentro da Sua criação. Esta independência do tempo não é apenas uma propriedade abstrata: ela é a chave para entender o conhecimento divino, a providência e o paradoxo do livre-arbítrio que o Ran examinou nas Derashot.
Quando dizemos que D'us é eterno, podemos entender de dois modos distintos. O primeiro modo — a eternidade como duração infinita: D'us sempre existiu no passado e sempre existirá no futuro. Esta concepção ainda coloca D'us dentro do tempo — apenas com extensão temporal infinita. O segundo modo — a atemporalidade: D'us não existe no tempo em absoluto; o tempo é uma propriedade das criaturas, e D'us está além dele. Albo defende o segundo modo como o único filosoficamente coerente. Se D'us fosse eterno apenas no sentido de duração infinita, estaria sujeito ao tempo — e o tempo seria, portanto, algo que existe independentemente de D'us e no qual D'us existe. Mas D'us é a causa de tudo; não pode existir algo que D'us não causou no qual D'us existe. Logo, D'us não pode estar "dentro" do tempo — o tempo é uma criatura de D'us, não um recipiente que O contém.
A atemporalidade de D'us resolve o paradoxo do livre-arbítrio e do conhecimento divino que o Ran examinou nas Derashot (IX). Para D'us, que está fora do tempo, passado e futuro são igualmente presentes — não como memória do passado e antecipação do futuro, mas como um presente atemporal eterno. Quando dizemos que D'us "sabe" o que farei amanhã, usamos linguagem temporal inadequada para descrever uma relação atemporal: D'us vê minha escolha de amanhã da mesma forma que "vê" minha escolha de ontem — não porque preveja o futuro, mas porque para Ele não há distinção entre passado, presente e futuro. E minha escolha de amanhã é genuinamente livre — assim como minha escolha de ontem foi genuinamente livre — mesmo que D'us a "veja". A visão atemporal não causa a escolha mais do que olhar para uma escolha passada retroativamente causa essa escolha passada.
Albo recorre à hermenêutica do Nome divino YHVH para ilustrar a atemporalidade. A tradição interpreta o Tetragrama como contendo os três tempos do verbo "ser" em hebraico: hayah (foi), hoveh (é), yihyeh (será). Isso não significa que D'us existe em três tempos diferentes — significa que D'us transcende a distinção entre os três tempos; para Ele, os três são simultaneamente verdadeiros porque estão além da sequência temporal. Outro Nome divino, Ehyeh Asher Ehyeh — "Serei o que Serei" (Shemot 3:14) — também aponta para a atemporalidade: D'us não é definido pelo que foi ou pelo que será, mas pelo Seu ser contínuo e atemporal. É o único ser que pode dizer "Sou" sem limitação temporal — todos os outros seres só podem dizer "fui" (no passado) ou "serei" (no futuro), mas nunca um "Sou" que abrange tudo.
Se o tempo é uma criatura de D'us — não um container no qual D'us e o mundo existem — então a pergunta "o que havia antes da criação?" é mal formulada. "Antes" pressupõe o tempo, e o tempo não havia ainda. O Rambam no Moreh Nevuchim (II:13) trata desta questão: o mundo foi criado com o tempo, não no tempo. A pergunta "o que fazia D'us antes de criar o mundo?" pressupõe um "antes" que não existia. Agostinho de Hipona, no seu livro XI das Confissões, chegou à mesma conclusão independentemente pela via neoplatônica — o que mostra que o problema é genuinamente filosófico, não exclusivamente judaico. Para Albo, isso reforça o primeiro ikar: a existência de D'us é radicalmente diferente da existência de qualquer criatura, e uma das formas mais profundas dessa diferença é a relação com o tempo.
A Kedushah — a proclamação do "Kadosh, Kadosh, Kadosh" (Yeshayahu 6:3) — tem uma estrutura temporal tripartite: hayah, hoveh, veyavo — "o que foi, o que é, e o que virá." Esta formulação litúrgica (que aparece na Kedushah de Shacharit) é exatamente a hermenêutica do Nome que Albo examina. Recitar a Kedushah com kavana plena é, para o adorador que entende o seu significado filosófico, proclamar a atemporalidade de D'us — afirmar que o Ser que proclamamos como santo transcende a distinção entre passado, presente e futuro. A liturgia judaica não é apenas expressão emocional — é prática filosófica incorporada.