Sefer HaIkkarim · Maamar II · Capítulo 4

D'us e o tempo

הָאֵל וְהַזְּמַן — הָאֵין-זְמַנִּיּוּת הָאֱלֹהִית
Rav Yosef Albo (1380–1444) · hebraico de domínio público · tradução original PT-BR

O terceiro shoresh do primeiro ikar: D'us é independente do tempo. Ele não existe dentro do tempo — o tempo existe dentro da Sua criação. Esta independência do tempo não é apenas uma propriedade abstrata: ela é a chave para entender o conhecimento divino, a providência e o paradoxo do livre-arbítrio que o Ran examinou nas Derashot.

O que significa "eterno"

Quando dizemos que D'us é eterno, podemos entender de dois modos distintos. O primeiro modo — a eternidade como duração infinita: D'us sempre existiu no passado e sempre existirá no futuro. Esta concepção ainda coloca D'us dentro do tempo — apenas com extensão temporal infinita. O segundo modo — a atemporalidade: D'us não existe no tempo em absoluto; o tempo é uma propriedade das criaturas, e D'us está além dele. Albo defende o segundo modo como o único filosoficamente coerente. Se D'us fosse eterno apenas no sentido de duração infinita, estaria sujeito ao tempo — e o tempo seria, portanto, algo que existe independentemente de D'us e no qual D'us existe. Mas D'us é a causa de tudo; não pode existir algo que D'us não causou no qual D'us existe. Logo, D'us não pode estar "dentro" do tempo — o tempo é uma criatura de D'us, não um recipiente que O contém.

כְּשֶׁאָנוּ אוֹמְרִים שֶׁהָאֵל הוּא נִצְחִי, יֵשׁ שְׁנֵי מוֹבָנִים. הָרִאשׁוֹן — הַנִּצְחִיּוּת כְּמֶשֶׁךְ אֵין-סוֹף: הָאֵל תָּמִיד הָיָה בֶּעָבָר וְתָּמִיד יִהְיֶה בֶּעָתִיד. תְּפִיסָה זֹאת עֲדַיִין מַכְנִיסָה אֶת הָאֵל לְתוֹךְ הַזְּמַן — רַק עִם הַרְחָבָה זְמַנִּית אֵין-סוֹפִית. הַשֵּׁנִי — אֵין-זְמַנִּיּוּת: הָאֵל אֵינוֹ קַיָּם בַּזְּמַן בְּכָלָל; הַזְּמַן הוּא תְּכוּנָה שֶׁל הַנִּבְרָאִים, וְהָאֵל מֵעֵבֶר לוֹ. אַלְבּוֹ מַגֵּן עַל הַמּוֹבָן הַשֵּׁנִי. הַזְּמַן הוּא יְצִירַת הָאֵל, לֹא כְּלִי שֶׁמְּכִיל אוֹתוֹ.
Atemporalidade e onisciência — a solução do paradoxo

A atemporalidade de D'us resolve o paradoxo do livre-arbítrio e do conhecimento divino que o Ran examinou nas Derashot (IX). Para D'us, que está fora do tempo, passado e futuro são igualmente presentes — não como memória do passado e antecipação do futuro, mas como um presente atemporal eterno. Quando dizemos que D'us "sabe" o que farei amanhã, usamos linguagem temporal inadequada para descrever uma relação atemporal: D'us vê minha escolha de amanhã da mesma forma que "vê" minha escolha de ontem — não porque preveja o futuro, mas porque para Ele não há distinção entre passado, presente e futuro. E minha escolha de amanhã é genuinamente livre — assim como minha escolha de ontem foi genuinamente livre — mesmo que D'us a "veja". A visão atemporal não causa a escolha mais do que olhar para uma escolha passada retroativamente causa essa escolha passada.

הָאֵין-זְמַנִּיּוּת שֶׁל הָאֵל פּוֹתֶרֶת אֶת הַפָּרָדוֹקְסָה שֶׁל הַבְּחִירָה הַחָפְשִׁית וְהַיְּדִיעָה הָאֱלֹהִית. לָאֵל, הַנִּמְצָא מִחוּץ לַזְּמַן, עָבָר וְעָתִיד נְכוּחִים בְּשָׁוֶה — לֹא כְּזִכָּרוֹן שֶׁל עָבָר וְצִפִּיָּה לְעָתִיד, אֶלָּא כְּהוֹוֶה נִצְחִי אֵין-זְמַנִּי. כְּשֶׁאָנוּ אוֹמְרִים שֶׁהָאֵל "יוֹדֵעַ" מַה שֶּׁאֶעֱשֶׂה מָחָר, אָנוּ מִשְׁתַּמְּשִׁים בִּלְשׁוֹן זְמַנִּית בִּלְתִּי-הוֹלֶמֶת לְתֵאוּר יַחַס אֵין-זְמַנִּי.
O Nome divino e a atemporalidade: Hayah, Hoveh, Yihyeh

Albo recorre à hermenêutica do Nome divino YHVH para ilustrar a atemporalidade. A tradição interpreta o Tetragrama como contendo os três tempos do verbo "ser" em hebraico: hayah (foi), hoveh (é), yihyeh (será). Isso não significa que D'us existe em três tempos diferentes — significa que D'us transcende a distinção entre os três tempos; para Ele, os três são simultaneamente verdadeiros porque estão além da sequência temporal. Outro Nome divino, Ehyeh Asher Ehyeh — "Serei o que Serei" (Shemot 3:14) — também aponta para a atemporalidade: D'us não é definido pelo que foi ou pelo que será, mas pelo Seu ser contínuo e atemporal. É o único ser que pode dizer "Sou" sem limitação temporal — todos os outros seres só podem dizer "fui" (no passado) ou "serei" (no futuro), mas nunca um "Sou" que abrange tudo.

אַלְבּוֹ פּוֹנֶה לְהֶרְמֶנוּיְטִיקָה שֶׁל הַשֵּׁם הָאֱלֹהִי יהו"ה לְהַמְחִישׁ אֶת הָאֵין-זְמַנִּיּוּת. הַמָּסֹרֶת מְפָרֶשֶׁת אֶת הַטֶּטְרַגְרַמָּטוֹן כְּמְכִיל אֶת שְׁלֹשֶׁת הַזְּמַנִּים שֶׁל פֹּעַל "הֱיוֹת" בְּעִבְרִית: הָיָה, הוֶה, יִהְיֶה. זֶה אֵינוֹ אוֹמֵר שֶׁהָאֵל קַיָּם בִּשְׁלוֹשָׁה זְמַנִּים שׁוֹנִים — אֶלָּא שֶׁהוּא מִתְעַלֶּה מֵהַהֶבְחֵן בֵּין הַשְּׁלֹשָׁה. הוּא הַיֵּשׁ הַיָּחִיד שֶׁיָּכוֹל לוֹמַר "אֶהְיֶה" בְּלִי הַגְבָּלָה זְמַנִּית.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Tempo como criatura — implicações cosmológicas

Se o tempo é uma criatura de D'us — não um container no qual D'us e o mundo existem — então a pergunta "o que havia antes da criação?" é mal formulada. "Antes" pressupõe o tempo, e o tempo não havia ainda. O Rambam no Moreh Nevuchim (II:13) trata desta questão: o mundo foi criado com o tempo, não no tempo. A pergunta "o que fazia D'us antes de criar o mundo?" pressupõe um "antes" que não existia. Agostinho de Hipona, no seu livro XI das Confissões, chegou à mesma conclusão independentemente pela via neoplatônica — o que mostra que o problema é genuinamente filosófico, não exclusivamente judaico. Para Albo, isso reforça o primeiro ikar: a existência de D'us é radicalmente diferente da existência de qualquer criatura, e uma das formas mais profundas dessa diferença é a relação com o tempo.

A liturgia e o tempo: Kedushah como proclamação de atemporalidade

A Kedushah — a proclamação do "Kadosh, Kadosh, Kadosh" (Yeshayahu 6:3) — tem uma estrutura temporal tripartite: hayah, hoveh, veyavo — "o que foi, o que é, e o que virá." Esta formulação litúrgica (que aparece na Kedushah de Shacharit) é exatamente a hermenêutica do Nome que Albo examina. Recitar a Kedushah com kavana plena é, para o adorador que entende o seu significado filosófico, proclamar a atemporalidade de D'us — afirmar que o Ser que proclamamos como santo transcende a distinção entre passado, presente e futuro. A liturgia judaica não é apenas expressão emocional — é prática filosófica incorporada.