Sefer HaIkkarim · Maamar II · Capítulo 3

A incorporeidade de D'us

שְׁלִילַת הַגּוּף מֵהָאֵל
Rav Yosef Albo (1380–1444) · hebraico de domínio público · tradução original PT-BR

Se D'us existe necessariamente e é absolutamente uno, então D'us não pode ter corpo. A incorporeidade (beli guf) não é uma opção de crença — é uma consequência lógica necessária do que já estabelecemos. Mas a Torá fala das mãos de D'us, dos Seus olhos, do Seu rosto. Como interpretar esses textos?

Por que D'us não pode ter corpo

Albo apresenta a prova filosófica da incorporeidade: qualquer corpo está sujeito a limitações. Um corpo ocupa um espaço específico — portanto não pode estar em outro espaço. Um corpo tem partes — portanto não é absolutamente simples. Um corpo pode ser dividido, movimentado, destruído — portanto não é necessariamente existente. Um corpo está sujeito ao tempo e à mudança — portanto não é eterno e imutável. Todas essas características são incompatíveis com o que estabelecemos nos capítulos anteriores: D'us existe necessariamente, é absolutamente uno, é eterno, é independente do tempo. A incorporeidade (shilat haguf, literalmente "negação do corpo") é portanto um shoresh — um derivado necessário — do primeiro ikar, não uma crença adicional.

אַלְבּוֹ מַצִּיג אֶת הָרְאָיָה הַפִּילוֹסוֹפִית לְשְׁלִילַת הַגּוּף: כָּל גּוּף כָּפוּף לְמִגְבָּלוֹת. גּוּף תּוֹפֵס מָקוֹם מְסֻיָּם — לָכֵן אֵינוֹ יָכוֹל לִהְיוֹת בְּמָקוֹם אַחֵר. גּוּף יֵשׁ לוֹ חֲלָקִים — לָכֵן אֵינוֹ פָּשׁוּט לְחַלּוּטִין. גּוּף יָכוֹל לְהֵחָלֵק, לְהִתְנַּגֵּד, לְהִשָּׁמֵד — לָכֵן אֵינוֹ בַּעַל מְצִיאוּת הַכְרָחִית. כָּל הַמִּאֲפְיָנִים הַלָּלוּ אֵינָם תַּאֲמִים עִם מַה שֶּׁקָּבַעְנוּ: הָאֵל קַיָּם בְּהֶכְרֵחַ, אֶחָד לְחַלּוּטִין, נִצְחִי, עַצְמָאִי מֵהַזְּמַן. שְׁלִילַת הַגּוּף הִיא אֶפּוֹ שֹׁרֶשׁ — נֶנְגָּזֶרֶת הֶכְרָחִית — מֵהָאִיקָּר הָרִאשׁוֹן.
Nota — Rambam, Mishneh Torah, Hilchot Yesodei HaTorah 1:8–9

"D'us não tem forma nem corpo e não há semelhança entre Ele e qualquer de Suas criaturas em nenhuma coisa." (1:8). E mais: "כָּל הָאוֹמֵר שֶׁהַשֵּׁם גּוּף בַּעַל שִׁיעוּר, הֲרֵי זֶה כּוֹפֵר בָּעִיקָּר" — "Quem afirmar que D'us tem corpo com medida é como aquele que nega o fundamento" (1:9 na formulação posterior). O Rambam codificou a incorporeidade como o quinto dos Treze Princípios da Fé (Ikkarim): "Eu creio com fé perfeita que o Criador, bendito seja Seu nome, não é corpo, e não podem ser atribuídas a Ele nenhuma das propriedades da matéria, e nenhuma forma alguma O assemelha." Albo, que às vezes discorda do Rambam sobre o que é ikar e o que é shoresh, aqui segue-o completamente.

Os antropomorfismos bíblicos

Se D'us não tem corpo, por que a Torá fala tão frequentemente em termos físicos? "A mão do Eterno" (Yad Hashem), "os olhos do Eterno" (einei Hashem), "o rosto de D'us" (panim), "D'us veio descer" (Bereshit 11:5), "D'us se arrependeu" (Bereshit 6:6). Albo, seguindo uma longa tradição que começa em Onkelos e passa pelo Rambam, defende que todos esses textos são dibrah Torah bilshon benei adam — "a Torá fala na linguagem dos seres humanos." Não porque os autores da Torá tivessem uma teologia ingênua, mas porque a Torá foi dada para seres humanos que necessariamente pensam em termos físicos e que precisam de linguagem concreta para ter uma relação com D'us. A linguagem física da Torá não é uma afirmação metafísica sobre a natureza de D'us — é uma concessão pedagógica à capacidade humana de compreender.

אִם הָאֵל אֵין לוֹ גּוּף, מַדּוּעַ הַתּוֹרָה מְדַבֶּרֶת כָּל כָּךְ לְעִתִּים קְרוֹבוֹת בְּמוּנָחִים פִּיזִיִּים? "יַד יְיָ", "עֵינֵי יְיָ", "פְּנֵי הָאֵל", "וַיֵּרֶד יְיָ", "וַיִּנָּחֶם יְיָ." אַלְבּוֹ, בְּעִקְבוֹת מָסֹרֶת עֲשִׁירָה שֶׁמַּתְחִילָה בְּאוֹנְקְלוֹס וְעוֹבֶרֶת דֶּרֶךְ הָרַמְבַּ"ם, טוֹעֵן שֶׁכָּל הַטֶּקְסְטִים הַלָּלוּ הֵם "דִּבְּרָה תּוֹרָה בִּלְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם" — הַתּוֹרָה מְדַבֶּרֶת בִּלְשׁוֹן בְּנֵי הָאָדָם. לֹא מִפְּנֵי שֶׁמְּחַבְּרֵי הַתּוֹרָה הָיְתָה לָהֶם תֵּאוֹלוֹגְיָה תְּמִימָה, אֶלָּא מִפְּנֵי שֶׁהַתּוֹרָה נִתְּנָה לִבְנֵי אָדָם שֶׁצְּרִיכִים לְשׁוֹן קוֹנְקְרֵטִית.
O problema do "como se" — Tzelem Elohim revisitado

Surge uma dificuldade elegante: Bereshit 1:26 diz que o ser humano foi criado betzelem Elohim — à imagem de D'us. Se D'us não tem corpo, o que é esse "tzelem"? Albo responde: o tzelem não se refere à forma física — refere-se à forma intelectual. O ser humano tem uma tzurah — uma forma intelectual — que é a imagem de D'us num sentido analógico. Assim como D'us é o Intelecto absoluto, o ser humano tem capacidade intelectual. Assim como D'us age com liberdade, o ser humano tem livre-arbítrio. Assim como D'us cria, o ser humano tem criatividade. O "tzelem" é uma correspondência funcional, não formal. Esta interpretação tem consequências práticas: o que viola a "imagem de D'us" no ser humano não é a deformação física — é a degradação intelectual e moral.

עוֹלָה קֹשִׁי אֶלֶגַנְטִי: בְּרֵאשִׁית א:כו אוֹמֵר שֶׁהָאָדָם נִבְרָא "בְּצֶלֶם אֱלֹהִים." אִם לָאֵל אֵין גּוּף, מַה הוּא הַ"צֶּלֶם" הַזֶּה? אַלְבּוֹ עוֹנֶה: הַ"צֶּלֶם" אֵינוֹ מַתְאִים לַצּוּרָה הַפִּיזִית — הוּא מַתְאִים לַצּוּרָה הַשִּׂכְלִית. לָאָדָם יֵשׁ "צוּרָה" — צוּרָה שִׂכְלִית — שֶׁהִיא צֶלֶם הָאֵל בְּמוֹבָן אֲנָלוֹגִי. כְּמוֹ שֶׁהָאֵל הוּא הַשֵּׂכֶל הַמֻּחְלָט, לָאָדָם יֵשׁ יְכֹלֶת שִׂכְלִית. הַ"צֶּלֶם" הוּא הַתְאָמָה תַּפְקוּדִית, לֹא פוֹרְמָלִית.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A polêmica com a Incarnação cristã

O capítulo da incorporeidade tem, no contexto do Sefer HaIkkarim, uma dimensão polemicamente clara: a doutrina cristã da Encarnação afirma que D'us assumiu corpo humano na pessoa de Jesus. Para Albo (e para toda a tradição filosófica judaica), isso é filosoficamente impossível: um ser que assume corpo deixa de ser o Deus do monoteísmo filosófico — torna-se limitado, localizado, sujeito à mudança e à destruição. Albo não precisa atacar diretamente a Encarnação (seria imprudente no contexto da Disputa de Tortosa) — basta estabelecer que a incorporeidade é necessária, e a consequência para o ouvinte inteligente é óbvia. Esta é a estratégia retórica de todo o Sefer HaIkkarim: construir um sistema de princípios que exclua logicamente as doutrinas adversárias sem nomeá-las.

Dibrah Torah bilshon benei adam — a linguagem como concessão pedagógica

O princípio hermenêutico dibrah Torah bilshon benei adam ("a Torá falou na linguagem dos seres humanos") aparece no Talmud em contextos halakhicos (principalmente Bava Metzia 31b) mas foi elevado por Onkelos e pelo Rambam ao nível de princípio teológico central. O Targum de Onkelos (séc. II E.C.) sistematicamente "corrige" os antropomorfismos bíblicos: onde o hebraico diz "D'us falou", o aramaico diz "a palavra de D'us"; onde o hebraico diz "o rosto de D'us", Onkelos omite ou parafraseia. Esta sensibilidade — que a linguagem da revelação é acomodada à capacidade humana sem ser a expressão literal da realidade divina — é um dos pressupostos fundamentais de toda a exegese filosófica judaica medieval, e Albo o herda e transmite.