O primeiro shoresh do primeiro ikar — a existência de D'us — exige imediatamente um segundo: a unidade. Mas que tipo de unidade? Não apenas a unidade numérica de "um contra dois", mas a unidade absoluta que exclui qualquer composição, qualquer limite, qualquer dependência. Albo constrói os argumentos e delimita o que a unidade de D'us implica — e o que ela não é.
A linguagem hebraica da unidade divina é Echad — o mesmo numeral usado para "um cavalo", "uma pedra", "um homem". Mas Albo insiste que a unidade de D'us é categoricamente diferente: não é a unidade de um indivíduo dentro de uma espécie (echad bakind), como "este cavalo específico, não aquele"; nem a unidade de espécie num gênero (echad bammin), como "cavalo, não asno". É a unidade absoluta (echad she-ein bo richuk) — unidade que exclui qualquer pluralidade interna, qualquer composição de partes, qualquer distinção entre o que algo é e o fato de que existe. Esta última distinção é fundamental: em qualquer ser criado, há uma diferença entre a essência (o que é) e a existência (que existe). Em D'us, essa distinção não existe — essência e existência são idênticas. Por isso, se D'us existe necessariamente (o primeiro ikar), Ele é necessariamente uno da forma mais radical possível.
Albo apresenta o argumento clássico contra o dualismo: se houvesse dois poderes divinos independentes, o mundo não poderia funcionar. Para que dois poderes coordenem a criação e sustentação do mundo, precisariam compartilhar um objetivo comum — mas então seriam instrumentos de algo superior, não D'us. Alternativamente, se os dois poderes tivessem objetivos distintos, o mundo seria o campo de conflito perpétuo entre eles — e o que observamos é um mundo com ordem, não com caos. A unidade do cosmos (de que tratamos indiretamente no Maamar I ao discutir a providência) é evidência da unidade do seu Criador. Este argumento ecoa o Kalam islâmico (Mu'tazilita) e a sua versão judaica no Emunot ve-De'ot de Rav Saadia Gaon — o Ran cita Saadia, Albo o pressupõe.
A proclamação da unidade de D'us no Shema ("Hashem é nosso D'us, Hashem é Um") é o centro da fé judaica — repetida duas vezes por dia, recitada no leito de morte. O Rambam no Mishneh Torah (Hilchot Yesodei HaTorah 1:7) codifica: "D'us é Um — não um como um de um par, nem um como uma espécie que inclui muitos indivíduos, nem um como o corpo que se divide em partes e medidas — mas uma unidade à qual não há semelhante." Esta formulação talmúdica é a base de Albo neste capítulo. O Shema não afirma apenas "há um D'us e não dois" — afirma uma unicidade que transcende qualquer categoria numérica humana. Recitar o Shema com kavanah (intenção) é, para o Rambam, a forma mais elevada de amar a D'us — porque é o reconhecimento da Sua natureza mais profunda.
Albo escreve na sombra da Disputa de Tortosa (1413–1414), onde foi chamado a defender o judaísmo diante de convertidos e teólogos cristãos. O conceito cristão da Trindade — três pessoas numa única substância divina — era o tema principal de controvérsia. Albo não nomeia o problema diretamente neste capítulo (era prudente evitar), mas a sua elaboração da achdut é construída para excluir qualquer pluralidade interna em D'us, incluindo a pluralidade de "pessoas" (hipostáticas) dentro de uma substância. Para Albo, "três que são um" não é um paradoxo profundo — é uma contradição lógica: ou são três e então não são absolutamente um, ou são absolutamente um e então "três" não acrescenta nada. A achdut absoluta que Albo defende é incompatível com qualquer forma de pluralidade interna, mesmo as mais refinadas formulações teológicas.
A kabbala lida com o mesmo problema da unidade de uma forma diferente: o Ein Sof é absolutamente uno e incognoscível; as sefirot são os instrumentos da ação divina no mundo, que parecem "pluralidade" mas são, na tradição cabalística, instrumentos e não partes. Albo não usa terminologia cabalística, mas o seu sistema converge: os "atributos de ação" (do cap. 1 deste Maamar) têm a função das sefirot — tornar o incognoscível operável no mundo humano — sem comprometer a achdut absoluta do Ein Sof/Echad. A distinção entre "D'us em Si mesmo" (ein sof) e "D'us em ação no mundo" (sefirot/atributos de ação) preserva a unidade no nível ontológico enquanto permite a multiplicidade no nível da experiência religiosa.
Para Albo, a achdut não é apenas especulação metafísica — tem implicações éticas. Se D'us é absolutamente uno e simples, então a orientação para D'us (a "unificação" ou yichud) é um ato de concentração e simplificação da vida interior do ser humano. O Shema é recitado duas vezes por dia não apenas como declaração de crença mas como prática de unificação — o ser humano que proclama "Hashem Echad" está, no ideal, reunindo todas as suas potências dispersas em orientação para o Único. A fragmentação interior (estar dividido por desejos conflitantes, lealdades múltiplas, objetivos contraditórios) é o oposto da achdut — é a prática de shiabud del-haShem (servidão a múltiplos senhores). A unidade de D'us, contemplada com seriedade, convida à unidade interior do adorador.