Sefer HaIkkarim · Maamar II · Capítulo 1

Como falar de D'us

כֵּיצַד נְדַבֵּר עַל הָאֵל
Rav Yosef Albo (1380–1444) · hebraico de domínio público · tradução original PT-BR

O primeiro shoresh da existência de D'us já implica um problema filosófico: se D'us é absolutamente simples e perfeito, como podemos dizer algo verdadeiro sobre Ele? O Maamar II começa com o problema dos atributos divinos — o que é possível, o que é necessário e o que é proibido dizer.

O problema: predicação e simplicidade

Quando dizemos "D'us é sábio", estamos fazendo uma afirmação verdadeira. Mas o que significa? A sabedoria humana é uma qualidade que um ser possui — ela pode ser maior ou menor, pode ser perdida ou adquirida, implica uma distinção entre o ser que possui a sabedoria e a qualidade de sabedoria que possui. D'us, porém, é absolutamente simples — sem partes, sem distinções internas, sem nada que possa ser "separado" do Seu ser. Dizer que "D'us tem sabedoria" como um atributo separável do Seu ser é introduzir complexidade naquilo que é absolutamente uno. Mas não dizer nada sobre D'us é também problemático — a Torá diz que D'us é misericordioso, sábio, justo. Como compatibilizar as duas exigências?

כְּשֶׁאָנוּ אוֹמְרִים "הָאֵל חָכָם", אָנוּ מַנִּיחִים טְעָנָה אֲמִתִּית. אֲבָל מַה פֵּירוּשׁ הַדָּבָר? הַחָכְמָה הָאֱנוֹשִׁית הִיא מִדָּה שֶׁיֵּשׁ לִיְּשׁוּת — הִיא יְכוֹלָה לִהְיוֹת גְּדוֹלָה אוֹ קְטַנָּה, יְכוֹלָה לְאַבֵּד אוֹ לִרְכּוֹשׁ, מַשְׁמָעָהּ הֵבְדֵּל בֵּין הַיֵּשׁ שֶׁמַּחְזִיק בַּחָכְמָה לְבֵין אֵיכוּת הַחָכְמָה שֶׁהוּא מַחְזִיק. אֲבָל הָאֵל הוּא פָּשׁוּט לְחַלּוּטִין — בְּלִי חֲלָקִים, בְּלִי הֶבְדֵּלִים פְּנִימִיִּים. אֵיךְ מִשַּׁלִּים אֶת שְׁתֵּי הַדָּרִישׁוֹת?
Três tipos de atributos: essencial, negativo, de ação

Albo, seguindo o Rambam e Ibn Rushd, propõe três categorias de atributos divinos. Os toa'rim atzmiim — atributos essenciais — são aqueles que identificam D'us como D'us: existência, unicidade, perfeição. Estes não descrevem qualidades separáveis — descrevem o que D'us é em Si mesmo. Os to'arim shleliim — atributos negativos — dizem o que D'us não é: não é ignorante, não é limitado, não é múltiplo. Dizer que "D'us é sábio" significa negar que Ele seja ignorante — a afirmação positiva serve para excluir sua negação, não para predicar uma qualidade separável. Os to'arim po'aliim — atributos de ação — descrevem os efeitos da ação divina no mundo: D'us age com misericórdia, age com justiça. Isso não afirma que D'us "tem" misericórdia como qualidade interna — afirma que os Seus atos têm o efeito que a misericórdia humana teria.

אַלְבּוֹ, בְּעִקְבוֹת הָרַמְבַּ"ם וְאִבְּן רֻשְׁד, מַצִּיעַ שָׁלֹשׁ קָטֶגוֹרִיּוֹת שֶׁל תּוֹאֲרִים אֱלֹהִיִּים. הַתּוֹאֲרִים הָעַצְמִיִּים מְזַהִים אֶת הָאֵל כָּאֵל: מְצִיאוּת, אַחְדוּת, שְׁלֵמוּת. הַתּוֹאֲרִים הַשְּׁלִילִיִּים אוֹמְרִים מַה הָאֵל אֵינוֹ: אֵינוֹ בּוּר, אֵינוֹ מֻגְבָּל, אֵינוֹ מְרֻבֶּה. הַתּוֹאֲרִים הַפּוֹעֲלִיִּים מְתָאֲרִים אֶת הַשְׁפָּעוֹת הַפְּעֻלָּה הָאֱלֹהִית בָּעוֹלָם: הָאֵל פּוֹעֵל בְּרַחֲמִים, פּוֹעֵל בְּצֶדֶק.
Nota — "Silêncio é teu louvor" (Tehilim 65:2; Megillah 18a)

O versículo "para Ti o silêncio é louvor, ó D'us, em Sião" (Tehilim 65:2) é interpretado pelo Talmud (Megillah 18a) como indicando que o melhor louvor a D'us é o silêncio: quanto mais atributos positivos acrescentamos, mais reduzimos D'us ao que somos capazes de compreender. O Talmud conta que quando um líder de oração acrescentou muitos atributos elogiosos a D'us — "o grande, poderoso, terrível, majestoso, forte, temido, firme" — Rabbi Chanina o interrompeu: "Acabaste os elogios ao teu Mestre? É como um rei humano que tem mil mil moedas de ouro, e o louvam por ter moedas de prata." O ideal teológico é a teologia negativa — saber o que D'us não é — porque qualquer afirmação positiva está sempre aquém do que D'us é.

O ponto onde Albo diverge do Rambam

Para o Rambam, os atributos positivos são sempre ou essenciais (e portanto idênticos ao ser de D'us, não distinções nele) ou negativos. Não há espaço para atributos de ação como descrição genuína de D'us — eles descrevem apenas os efeitos percebidos, não a realidade divina. Albo aceita a estrutura do Rambam mas faz uma concessão: os atributos de ação podem ser afirmados genuinamente, desde que entendamos que descrevem a percepção dos efeitos da ação divina, não qualidades internas. Esta concessão tem uma função prática: permite que a Torá use linguagem misericordiosa e justa sobre D'us de forma não puramente metafórica — estas afirmações captam algo real sobre como D'us age no mundo, mesmo que não captem a essência divina que permanece incompreensível.

לָרַמְבַּ"ם, הַתּוֹאֲרִים הַחִיּוּבִיִּים הֵם תָּמִיד אוֹ עַצְמִיִּים (וְאֶפּוֹ זְהֵה עִם הֱיוֹת הָאֵל, לֹא הֶבְדֵּלִים בּוֹ) אוֹ שְׁלִילִיִּים. אַלְבּוֹ מְקַבֵּל אֶת הַמִּבְנֶה שֶׁל הָרַמְבַּ"ם אֲבָל עוֹשֶׂה וִוּתּוּר: תּוֹאֲרֵי פְּעֻלָּה יְכוֹלִים לְהֵאָמֵר בֶּאֱמֶת, בְּתַנַּאי שֶׁנָּבִין שֶׁהֵם מְתָאֲרִים אֶת תְּפִישַּׂת הַשְׁפָּעוֹת הַפְּעֻלָּה הָאֱלֹהִית, לֹא מִדּוֹת פְּנִימִיּוֹת. הַוִּיתּוּר הַזֶּה יֵשׁ לוֹ תַּפְקִיד מַעֲשִׂי: הוּא מַאֲפִשֵׁר לַתּוֹרָה לְהִשְׁתַּמֵּשׁ בִּלְשׁוֹן רַחֲמִים וְצֶדֶק עַל הָאֵל בְּאֹפֶן שֶׁאֵינוֹ מֶטָאפוֹרָה גְּרֵידָא.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Teologia negativa e linguagem religiosa prática

O problema dos atributos divinos tem consequências práticas imediatas para a oração. Se D'us é absolutamente simples e os atributos positivos são apenas negações de negações, o que significa rezar para "D'us compassivo e misericordioso"? O Rambam responde: a oração usa linguagem adaptada à compreensão humana, não linguagem precisa. Albo vai mais longe: a oração expressa a experiência dos efeitos da ação divina — quando experienciei misericórdia divina, posso dizer autenticamente "D'us foi misericordioso comigo", mesmo que isso não descreva uma "qualidade interna" de D'us. A experiência religiosa é real; a linguagem que a descreve é aproximativa mas não vazia.

Ligação com a kabbala e o Ein Sof

A tradição cabalística desenvolve a teologia negativa numa direção distinta: o Ein Sof (o sem-limite, o infinito) é absolutamente além de qualquer predicação — inclusive a existência no sentido ordinário. As sefirot são os instrumentos através dos quais o Ein Sof age no mundo — são os "atributos de ação" do Rambam e Albo numa linguagem diferente. Albo não usa terminologia cabalística, mas o seu sistema de atributos de ação converge com a função das sefirot: tornar descritível o que no nível do Ein Sof é absolutamente inexprimível. O Sefer HaIkkarim é, neste aspecto, uma ponte entre a filosofia aristotélica e as intuições do pensamento cabalístico sem adotar a terminologia de nenhum deles.