O primeiro shoresh da existência de D'us já implica um problema filosófico: se D'us é absolutamente simples e perfeito, como podemos dizer algo verdadeiro sobre Ele? O Maamar II começa com o problema dos atributos divinos — o que é possível, o que é necessário e o que é proibido dizer.
Quando dizemos "D'us é sábio", estamos fazendo uma afirmação verdadeira. Mas o que significa? A sabedoria humana é uma qualidade que um ser possui — ela pode ser maior ou menor, pode ser perdida ou adquirida, implica uma distinção entre o ser que possui a sabedoria e a qualidade de sabedoria que possui. D'us, porém, é absolutamente simples — sem partes, sem distinções internas, sem nada que possa ser "separado" do Seu ser. Dizer que "D'us tem sabedoria" como um atributo separável do Seu ser é introduzir complexidade naquilo que é absolutamente uno. Mas não dizer nada sobre D'us é também problemático — a Torá diz que D'us é misericordioso, sábio, justo. Como compatibilizar as duas exigências?
Albo, seguindo o Rambam e Ibn Rushd, propõe três categorias de atributos divinos. Os toa'rim atzmiim — atributos essenciais — são aqueles que identificam D'us como D'us: existência, unicidade, perfeição. Estes não descrevem qualidades separáveis — descrevem o que D'us é em Si mesmo. Os to'arim shleliim — atributos negativos — dizem o que D'us não é: não é ignorante, não é limitado, não é múltiplo. Dizer que "D'us é sábio" significa negar que Ele seja ignorante — a afirmação positiva serve para excluir sua negação, não para predicar uma qualidade separável. Os to'arim po'aliim — atributos de ação — descrevem os efeitos da ação divina no mundo: D'us age com misericórdia, age com justiça. Isso não afirma que D'us "tem" misericórdia como qualidade interna — afirma que os Seus atos têm o efeito que a misericórdia humana teria.
O versículo "para Ti o silêncio é louvor, ó D'us, em Sião" (Tehilim 65:2) é interpretado pelo Talmud (Megillah 18a) como indicando que o melhor louvor a D'us é o silêncio: quanto mais atributos positivos acrescentamos, mais reduzimos D'us ao que somos capazes de compreender. O Talmud conta que quando um líder de oração acrescentou muitos atributos elogiosos a D'us — "o grande, poderoso, terrível, majestoso, forte, temido, firme" — Rabbi Chanina o interrompeu: "Acabaste os elogios ao teu Mestre? É como um rei humano que tem mil mil moedas de ouro, e o louvam por ter moedas de prata." O ideal teológico é a teologia negativa — saber o que D'us não é — porque qualquer afirmação positiva está sempre aquém do que D'us é.
Para o Rambam, os atributos positivos são sempre ou essenciais (e portanto idênticos ao ser de D'us, não distinções nele) ou negativos. Não há espaço para atributos de ação como descrição genuína de D'us — eles descrevem apenas os efeitos percebidos, não a realidade divina. Albo aceita a estrutura do Rambam mas faz uma concessão: os atributos de ação podem ser afirmados genuinamente, desde que entendamos que descrevem a percepção dos efeitos da ação divina, não qualidades internas. Esta concessão tem uma função prática: permite que a Torá use linguagem misericordiosa e justa sobre D'us de forma não puramente metafórica — estas afirmações captam algo real sobre como D'us age no mundo, mesmo que não captem a essência divina que permanece incompreensível.
O problema dos atributos divinos tem consequências práticas imediatas para a oração. Se D'us é absolutamente simples e os atributos positivos são apenas negações de negações, o que significa rezar para "D'us compassivo e misericordioso"? O Rambam responde: a oração usa linguagem adaptada à compreensão humana, não linguagem precisa. Albo vai mais longe: a oração expressa a experiência dos efeitos da ação divina — quando experienciei misericórdia divina, posso dizer autenticamente "D'us foi misericordioso comigo", mesmo que isso não descreva uma "qualidade interna" de D'us. A experiência religiosa é real; a linguagem que a descreve é aproximativa mas não vazia.
A tradição cabalística desenvolve a teologia negativa numa direção distinta: o Ein Sof (o sem-limite, o infinito) é absolutamente além de qualquer predicação — inclusive a existência no sentido ordinário. As sefirot são os instrumentos através dos quais o Ein Sof age no mundo — são os "atributos de ação" do Rambam e Albo numa linguagem diferente. Albo não usa terminologia cabalística, mas o seu sistema de atributos de ação converge com a função das sefirot: tornar descritível o que no nível do Ein Sof é absolutamente inexprimível. O Sefer HaIkkarim é, neste aspecto, uma ponte entre a filosofia aristotélica e as intuições do pensamento cabalístico sem adotar a terminologia de nenhum deles.