O terceiro e último dos ikkarim fundamentais: o Gemul — a retribuição divina, o fato de que D'us recompensa o bem e pune o mal. Sem este fundamento, os outros dois ficam suspensos no vazio; com ele, a estrutura de uma religião divina completa-se.
Os dois primeiros fundamentos — a existência de D'us e a origem divina da Torá — são condições necessárias mas insuficientes para uma religião funcional. Se D'us existe e deu uma lei, mas não há nenhuma relação entre o cumprimento dessa lei e a condição do observador — se cumprir ou não cumprir é indiferente do ponto de vista divino — então a lei perde seu caráter normativo. Uma lei sem sanção não é uma lei — é uma sugestão.
O terceiro ikar, o gemul (literalmente: "recompensa/retribuição"), afirma que D'us não é indiferente à conduta humana. Ele conhece os atos das criaturas, e há uma relação causal entre a conduta e o destino do ser humano — tanto no nível individual quanto no nível histórico. Negar este fundamento é afirmar que D'us é um legislador arbitrário ou indiferente — o que contradiz tanto a ideia de um D'us perfeito quanto a ideia de uma Torá divina com sentido.
O gemul inclui — como shorashim necessários — um conjunto de afirmações derivadas. Primeiro, o conhecimento divino das ações humanas (yediat Hashem): D'us precisa saber o que o ser humano faz para poder retribuir proporcionalmente. Segundo, a liberdade de escolha (bechirah chofshit): a retribuição só faz sentido se o ser humano tem genuína escolha entre o bem e o mal — punir quem não pode escolher é arbitrariedade, não justiça. Terceiro, a imortalidade da alma (nitzchiyut haneshamah) e a vida após a morte (olam haba): a retribuição evidente neste mundo é frequentemente incompleta — os justos sofrem, os perversos prosperam. Para que o gemul seja real e justo, deve haver uma dimensão além desta vida onde a retribuição se complete.
Um dos debates mais ricos no Sefer HaIkkarim é precisamente a classificação da ressurreição dos mortos (techiyat hameitim). O Rambam a inclui entre os seus Treze Princípios como um princípio autônomo (princípio 13). Albo a classifica como um anaf — um ramo específico do judaísmo, não um ikar universal de toda religião divina. O argumento de Albo: a ressurreição é uma consequência da especificidade da revelação judaica (Torá min hashamayim), não uma exigência lógica do terceiro ikar em si. Outras religiões podem ter ikar do gemul sem afirmar techhiyat hameitim na forma específica que o judaísmo ensina. Esta distinção não diminui a importância da ressurreição para o judaísmo — apenas a posiciona com precisão na hierarquia de verdades.
Com o terceiro ikar completo, Albo pode formular a sua tese central do Maamar I: uma dat elohit — uma religião divina genuína — requer exatamente estes três fundamentos e nada mais como ikkarim. Tudo o resto que é essencial ao judaísmo — a unicidade de D'us, a incorporalidade divina, a eternidade da Torá, a profecia de Moisés, a ressurreição dos mortos, a chegada do Mashiach — são ou shorashim (necessariamente derivados dos três ikkarim para o judaísmo especificamente) ou anafim (ramos particulares da tradição judaica).
Esta sistematização tem uma consequência que os contemporâneos de Albo notaram imediatamente: ela é mais inclusiva que a de Rambam. Para Albo, quem afirma os três ikkarim tem uma "dat elohit" — mesmo que não seja judeu. Os treze princípios de Rambam, por contraste, definem o mínimo para um judeu ter porção no Olam haba. São sistemas com propósitos diferentes: Albo define o piso da religião divina universal; Rambam define o piso da fé judaica específica.
A questão "por que o justo sofre?" (tzaddik ve-ra lo, rasha ve-tov lo — o justo com sofrimento, o perverso com prosperidade) é um dos mais antigos problemas da filosofia religiosa. Albo, ao incluir o olam haba e a nitzchiyut haneshamah como shorashim necessários do gemul, integra a resposta clássica: a retribuição plena não ocorre neste mundo, mas num horizonte mais amplo. Não é uma esquiva — é uma afirmação sobre a estrutura temporal da justiça divina. O Iov bíblico, que recusa tanto a teodiceia fácil dos amigos quanto o silêncio desesperado, antecipa esta posição: a justiça existe, mas não cabe no horizonte imediato.
A crítica implícita de Albo ao Rambam é filosófica, não polêmica. O Rambam lista 13 princípios sem uma teoria sistemática do que os torna "princípios" — por que 13 e não 7 ou 20? Albo fornece a teoria: um ikar é o que define a categoria de "dat elohit"; um shoresh é o que decorre necessariamente desse ikar para uma religião específica; um anaf é o que essa religião ensina em particular. Aplicando esse critério, os 13 de Rambam revelam-se uma mistura de ikkarim, shorashim e anafim. O Sefer HaIkkarim é assim, em parte, um programa de clareza conceptual aplicado à teologia judaica medieval.