O primeiro ikar examinado em detalhe: a existência de D'us. O que significa afirmar a existência de D'us, o que implica esta afirmação, e por que negar este fundamento — diferentemente de negar outros — retira o indivíduo da categoria de "possuidor de religião divina".
O primeiro e mais fundamental dentre os três ikkarim é a existência de D'us. Sem este fundamento toda a estrutura colapsa — porque D'us é o autor da lei divina, e sem autor não há lei, sem lei não há religião divina, sem religião divina nenhum dos demais fundamentos tem onde apoiar-se. A existência de D'us é portanto a condição de possibilidade de tudo o mais. Não é simplesmente o primeiro princípio em ordem de apresentação — é o primeiro em ordem de fundação: todos os demais dependem dele.
Dizer que D'us existe não é dizer que Ele existe como os seres que vemos — que têm começo, que dependem de causas, que poderiam não existir. A existência de D'us é existência necessária (mechuyav hametziut): Ele não poderia não existir, porque Sua não-existência é uma contradição — se não existisse, nada poderia existir. Por isso o filósofo que afirma a existência de matéria eterna e independente de D'us — ou o filósofo que afirma que o mundo sempre existiu sem causa — está negando o primeiro ikar, mesmo que não negue a existência de algum tipo de poder superior. O que o ikar requer é a existência de um Ser necessário que é a causa de tudo o que existe.
Do fundamento da existência de D'us decorrem necessariamente os shorashim que são: a unicidade (pois se houvesse dois seres necessários, cada um limitaria o outro, e nenhum seria verdadeiramente necessário e ilimitado); a incorporeidade (pois um ser corpóreo ocupa espaço, é limitado e divisível — tudo incompatível com a existência necessária); a anterioridade ao tempo (pois o ser necessário não pode ter tido começo, já que começar significa ser causado); e o conhecimento divino (pois o ser necessário que criou seres intelectuais deve possuir intelecto em grau ainda mais eminente). Todos estes são derivados — derivam logicamente da existência necessária de D'us.
A distinção entre ser necessário (mechuyav hametziut) e ser contingente (efshar hametziut) é de origem aristotélica, desenvolvida pelos filósofos árabes (especialmente Ibn Sina / Avicenna) e adotada pelo Rambam no Moreh Nevuchim II:1. Albo a usa para precisar o que o primeiro ikar requer: não qualquer afirmação de uma divindade ou poder superior, mas especificamente a afirmação de um Ser cuja existência é necessária — que é a causa de toda existência contingente.
Quem nega a existência de D'us sai completamente da categoria de "possuidor de religião divina" — não apenas da categoria de judeu, mas de toda e qualquer religião que reconheça um legislador divino. Ele pode ser filósofo, pode ter ética, pode ter uma visão de mundo sofisticada — mas não tem religião divina no sentido técnico que Albo define. Isso é diferente de quem nega um derivado (como a incorporeidade) ou um ramo (como a ressurreição): esses erram dentro do quadro da religião divina; quem nega a existência de D'us não erra dentro do quadro — sai do quadro.
A teoria da existência necessária (mechuyav hametziut) que Albo usa vem da tradição filosófica árabe-judaica: Ibn Sina a desenvolveu, e o Rambam a adotou no Moreh Nevuchim. Mas Albo a usa de uma maneira que Ibn Sina não teria aprovado: ele a torna o conteúdo do primeiro ikar da religião — não apenas uma proposição filosófica demonstrável, mas um fundamento que qualquer crente, mesmo não-filósofo, deve afirmar (ainda que sem entender o argumento formal). A questão é: pode alguém afirmar a existência necessária de D'us sem ter estudado filosofia? Albo responde implicitamente que sim — a crença num D'us criador e legislador já inclui a afirmação da existência necessária, mesmo sem o vocabulário técnico.
A definição de Albo tem uma implicação notável: toda religião que afirme os três ikkarim (existência de D'us, lei divina, retribuição) é uma religião divina válida — não necessariamente a mais correta, mas uma que possui a estrutura mínima. Isso não é indiferentismo religioso — Albo claramente acredita que o judaísmo é superior. Mas é um reconhecimento de que a categoria "religião divina" é mais ampla que "judaísmo". O islamismo, por exemplo, teria os três ikkarim. O que distingue o judaísmo das outras religiões divinas são seus anafim específicos — não a estrutura fundamental.