A distinção entre três categorias de crença religiosa — o fundamento que, se negado, destrói a religião; o derivado necessário; e o ramo particular — e a prova de que os ikkarim são exatamente três.
Saibas que a palavra ikar — "fundamento" — tem nesta ciência um sentido preciso: é aquela crença tal que, se alguém a negar, toda a estrutura da religião divina (dat elohit) desmorona — não apenas uma de suas partes, mas o todo. É a analogia da raiz de uma árvore: se a raiz é cortada, a árvore inteira cai, tronco, galhos e folhas. Se cortas um galho, a árvore sobrevive. Por isso o critério do ikar é absoluto: não aquilo sem o qual a religião fica incompleta, mas aquilo sem o qual ela deixa de existir.
O shoresh — "tronco" ou "derivado" — é aquela crença que necessariamente decorre de um ikar, mas que não é em si mesma fundamento. Exemplos: da existência de D'us decorre necessariamente que Ele é uno (pois se houvesse dois seres necessários, cada um limitaria o outro, e nenhum seria verdadeiramente necessário). Da unicidade decorre a incorporeidade. Estes são shorashim — derivados. Quem os nega nega algo verdadeiro e importante; mas sua negação não destrói a estrutura básica da religião divina — apenas a distorce.
O anaf — "ramo" — é uma crença particular desta tradição religiosa específica, que não decorre necessariamente dos ikkarim gerais de toda religião divina, mas que foi revelada nesta tradição concreta. Para o Israel judaico, a ressurreição dos mortos é um anaf: é uma crença obrigatória para quem pertence ao judaísmo, e sua negação é grave heresia — mas não implica necessariamente a negação dos três ikkarim fundamentais. A religião divina como tal poderia existir sem a ressurreição; o judaísmo em particular não.
A classificação da ressurreição como anaf (e não ikar) foi controversa. O Rambam a incluiu em seus 13 princípios. Albo responde que isso não significa que a ressurreição seja menos obrigatória para um judeu — significa apenas que ela não é uma condição lógica de qualquer religião divina em geral; é uma revelação particular ao judaísmo. A diferença entre heresia grave (negar um anaf do judaísmo) e saída da categoria de "possuidor de religião divina" (negar um ikar) é real e tem consequências práticas no direito rabínico.
Os fundamentos são exatamente três — não dois, não quatro. Por quê? Porque os três são as condições necessárias e suficientes para que exista algo chamado "religião divina": primeiro, deve haver um Deus que existe — sem isso não há autor da religião; segundo, Ele deve ter dado à humanidade uma lei — sem isso não há religião divina como tal, apenas filosofia ou ética natural; terceiro, Ele deve retribuir segundo o mérito — sem isso a lei divina é um decreto sem sentido, pois qualquer ação produz resultado idêntico. Estes três formam o mínimo lógico de toda religião divina possível.
O argumento de Albo para exatamente três ikkarim é um argumento de necessidade lógica — não de tradição ou autoridade. Ele pergunta: quais são as condições sem as quais algo que chamamos de "religião divina" não pode existir? E responde com análise conceitual. Isso é filosofia da religião avant la lettre: o que torna uma religião divina e não meramente natural? O que a diferencia de um código de ética? O que a torna diferente de um contrato social? As respostas produzem os três ikkarim.
O sistema de Albo tem consequências jurídicas. Na halakhá, a questão de quem é um min (herege) e quem é um apikoros (epicurista/negador) afeta o direito de testemunhar em tribunal, a possibilidade de retorno (teshuvá), as leis de luto, etc. Ao distinguir entre negação de ikar (sair da religião divina), de shoresh (distorção grave), e de anaf (heresia dentro do judaísmo), Albo oferece uma gradação que outros sistemas — especialmente o de Rambam, com seus 13 princípios igualmente ponderados — não forneciam.
Albo nunca ataca o Rambam diretamente — a postura é de discípulo respeitoso. Mas a implicação de seu sistema é clara: os 13 princípios do Rambam misturem os três níveis. Afirmar que quem nega a ressurreição ou a vinda do Mashiach perde o Olam HaBa — como o Rambam faz na sua Mishná Sanhedrin — é afirmar demais sobre o que constitui um fundamento. Albo prefere um sistema mais rigoroso: poucos fundamentos, claramente definidos, com consequências precisas.