A introdução ao Maamar I estabelece o problema central de toda a obra: o que distingue um fundamento (ikar) de uma crença derivada (shoresh) ou de um ramo (anaf)? E quais são os três fundamentos sem os quais não há religião divina?
Disse Yosef Albo: Vi que muitos dos homens de nossa geração perguntam sobre os fundamentos necessários à religião divina e não encontram resposta satisfatória. Pois há quem conte treze princípios, como o Rambam; e há quem conte seis, como o Mestre Hasdai Crescas; e há quem os multiplique ainda mais. E quando peguntas: qual deles é o fundamento verdadeiro? — não há acordo. Por isso me propus a investigar essa questão com rigor, para estabelecer o que é um ikar verdadeiro e o que não é — pois nem tudo que se crê é um fundamento, e não conhecer essa distinção leva a consequências graves.
Um fundamento (ikar) é aquele princípio tal que, se negado, toda a estrutura da religião colapsa — não apenas uma parte dela. A analogia é a de um edifício: a fundação não é qualquer pedra útil do edifício, mas aquela sem a qual o edifício inteiro desmorona. Assim, se alguém nega um ikar, não está simplesmente em erro sobre um detalhe — ele saiu da categoria de quem possui a religião divina. Por isso é preciso ser preciso: afirmar demais como fundamento é tão problemático quanto afirmar de menos.
Após investigação, digo que os fundamentos de toda religião divina são três e apenas três: a existência de D'us, a origem divina da Torá, e a retribuição divina. Estes três são os pilares sem os quais nenhuma religião divina pode existir — pois sem a existência de D'us não há legislador; sem a origem divina não há obrigação; e sem a retribuição não há razão para obedecer além da conveniência social, que nada tem de religião. Tudo o mais — a unidade, a incorporeidade, a profecia, a ressurreição — são ou derivados desses três, ou ramos que deles crescem.
O debate sobre os fundamentos da fé judaica é um dos mais fecundos da filosofia medieval. O Rambam definiu 13 princípios (Mishná, Sanhedrin cap. 10). Rav Hasdai Crescas (Or Adonai) os reduziu a 6 fundamentos e 8 crenças obrigatórias. Shimeon ben Tzemach Duran (Magen Avot) propôs 3. Albo conhecia todas essas propostas — e critica implicitamente tanto a extensão do Rambam quanto a estrutura de Crescas, seu próprio mestre.
Além dos fundamentos, há o que chamamos de shorashim — derivados: crenças que necessariamente decorrem dos fundamentos. Por exemplo: da existência de D'us decorre necessariamente a Sua unicidade e Sua incorporeidade; da origem divina da Torá decorre a profecia de Moisés. Quem nega um derivado não nega um fundamento — mas comete erro grave quanto à religião. E há ainda os anafim — ramos: crenças particulares desta religião específica (como a ressurreição dos mortos para o judaísmo) cuja negação constitui heresia, mas não a saída da categoria de "possuidor de religião divina".
Rav Yosef Albo era discípulo direto de Rav Hasdai Crescas, filósofo que havia desafiado o aristotelismo maimonidiano com suas próprias armas. Albo compôs o Sefer HaIkkarim provavelmente após a Disputa de Tortosa (1413–1414), o maior debate forçado entre judeus e cristãos da Espanha medieval. O contexto é crucial: em Tortosa, os judeus foram pressionados a defender sua fé diante de polemistas cristãos e de conversos que atacavam os próprios fundamentos da teologia judaica. O livro é, em parte, uma resposta pedagógica a essa crise.
A redução dos 13 princípios do Rambam a 3 não é um esvaziamento — é uma clareza diferente. O Rambam listou os 13 como catecismo popular (seu contexto é o comentário à Mishná, destinado a todo Israel). Albo pensa como teólogo sistemático: quer identificar o mínimo necessário, não o máximo desejável. Isso tem uma consequência prática importante: pela lógica do Rambam, quem nega qualquer dos 13 é herege (apikoros). Pela lógica de Albo, a heresia se reserva para quem nega os 3 fundamentos — os demais erros, por mais graves, são outra categoria.
A metáfora da árvore (ikar = raiz, shoresh = tronco, anaf = ramo) é mais do que pedagógica — é uma teoria da estrutura do conhecimento religioso. As crenças não têm todas o mesmo peso lógico. Algumas são condição de possibilidade das demais (ikkarim); outras dependem dessas como o tronco depende da raiz (shorashim); outras ainda são expressões particulares desta tradição e não de toda religião divina (anafim). Esta análise hierárquica, em si, é uma aplicação do método filosófico medieval à teologia judaica.
Rav Yichya Qafih, nas Milchamot Hashem, cita Albo como parte da cadeia do racionalismo judaico — junto com Saadia Gaon, Bachyá ibn Pakuda, Yehudá HaLevi e o Rambam. O interesse de Qafih em Albo é específico: a definição clara de fundamentos permite distinguir o que é crença legítima do que é desvio, e esta distinção é o nervo da crítica do Dor Deah à Cabala luriânica. Um movimento que nega a unicidade radical de D'us não erra num ramo — erra na raiz.