A décima pergunta da série: os habitantes do galardão e os do castigo encontram-se? Saadiá responde que se veem “pela visão apenas” — os justos rendem graças por terem escapado, os ímpios gemem pela recompensa perdida (a imagem do banquete e da fome). E, dentro de cada grupo, o encontro depende da proximidade de grau.
Mas a pergunta (a décima): reúnem-se uns aos outros (encontram-se)? Digo, conforme observei e achei, que os justos e os ímpios veem uns aos outros, mas pela mera visão apenas — como a Escritura disse acerca dos justos (Yeshayahu, ali 66:24): “e sairão e virão a ver os cadáveres dos homens que se rebelaram contra mim”. E, à medida que se lhes torna claro o tormento dos ímpios, dirão: “louvado seja Aquele que nos livrou destes tormentos”, e se alegrarão e se regozijarão na sua própria condição. E como a Escritura disse acerca dos ímpios (ali 33:14): “temeram em Tzión os pecadores, um tremor se apoderou dos hipócritas” — eles se assombram com os justos, de como passam pelo fogo ardente e este não os prejudica, e gemem por aquilo que perderam da recompensa.
E a Escritura comparou-os ali a duas categorias de pessoas: umas que foram chamadas a comer num banquete, e outras que foram destinadas aos tormentos — e estas veem aquelas e gemem; é o seu dizer (ali 65:13): “portanto, assim disse o Senhor: eis que os meus servos comerão, mas vós tereis fome” etc.
Mas os justos entre si: aquele cujo grau é próximo do grau de outro há de encontrá-lo; e, se o grau for distante, não o encontrará. E subiu ao meu pensamento a ideia de que os castigados — quaisquer dois deles cujos graus sejam próximos um do outro — também não se encontram, porque os tormentos se interpõem entre eles, e a sua preocupação com eles os impede.
Encerrando as dez perguntas, Saadiá trata do “encontro” entre os dois destinos. Não há convívio — há visão, e essa visão tem peso moral. Os justos, ao verem o tormento de que se livraram, agradecem e a sua alegria cresce; os ímpios, ao verem os justos passarem ilesos pelo fogo, assombram-se e lamentam o que perderam. A imagem do banquete e da fome (Yeshayahu 65:13) condensa tudo: “os meus servos comerão, mas vós tereis fome”. O contraste é pedagógico, não cruel — cada lado enxerga, afinal, o sentido do que escolheu.
Dentro de cada grupo vale uma “geometria” dos graus: justos de níveis próximos convivem; muito distantes, não — a contrapartida social da escala de sete degraus. Quanto aos punidos, Saadiá apenas conjetura que nem os próximos se encontram, isolados pelo próprio sofrimento. Vale notar a honestidade da fórmula “subiu ao meu pensamento”: mesmo ao descrever o mundo vindouro, o autor separa o que demonstra do que lhe parece apenas plausível — fiel, até o fim, ao seu método.
Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 9, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.
Citações: Yeshayahu 66:24; 33:14; 65:13. Notas e seção de estudo são originais.