Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 7

A Eternidade da Recompensa e do Castigo

נֶצַח הַגְּמוּל וְהָעֹנֶשׁ — וְהַהֶבְדֵּל בֵּין בּוֹרֵא לְנִבְרָא
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Por que o galardão e a pena são eternos? Saadiá responde pela razão: só uma recompensa infinita tira todo pretexto ao que se recusa a servir, e só um temor infinito dissuade ao máximo. Enfrenta de frente a objeção de que o castigo sem fim seria cruel, traz as provas escriturísticas da perpetuidade, e distingue a eternidade futura (possível) da passada (impossível) — marcando a diferença essencial entre Criador e criatura.

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Quanto às duas perguntas, a quinta e a sexta — que são sobre o multiplicar da menção da recompensa dos justos e do castigo dos ímpios —, falarei sobre isto pela via da razão. E digo que, quando o Criador obrigou o homem ao Seu serviço, era cabível despertar-lhe o desejo dele do serviço pela maior das coisas que despertam o desejo; pois, se Ele atraísse o seu desejo por coisas pequenas, e o homem não O servisse, poderia o objetor dizer: “talvez, se Ele lhe houvesse prometido mais, o homem o serviria”. Mas, quando Ele lhe promete tudo, não lhe resta mais alegação. E o esclarecimento disto: se o tempo da recompensa dos justos fosse posto em mil anos, seria possível dizer que alguns homens não a desejaram por causa da escassez dos anos; e assim com dois mil e três mil, e com tudo o que é limitado, achar-se-á na razão sempre outra medida acima dele. Mas, quando Ele põe a sua recompensa sem fim e sem cessação, e os seus bens não fenecem, não resta lugar para que o objetor alegue.

אבל השתי שאלות החמישית והששית, אשר המה הרבות זכר גמול הצדיקים וענש הרשעים, אדבר בזה מדרך המושכל. ואומר כי כאשר חייב הבורא את האדם בעבודתו, היה ראוי לעורר חפצו עליה בגדול שבדברים המעוררים את החפץ, כי אם היה מושך חפצו בדברים מעטים, ולא היה עובד אותי, היה יכול האומר לומר, אולי אם היה מיחלו ביותר שיחל היה עובדו; וכאשר יחל אותו בכל, לא תשאר לו טענה. ובאור זה, אם הושם זמן גמול הצדיקים אלף שנה, היה אפשר לומר, כי לא חפצו בה קצת בני אדם, בעבור מעוט השנים, וכן שני אלפים ושלשת אלפים, וכל מה שהוא קצוב, ימצא בשכל שיעור אחר למעלה ממנו; וכאשר ישים גמולם בלי תכלית ובלי הפסק, וטובותם לא תמוטנה, לא נשאר מקום לטוען לטעון.
Nota — por que a recompensa é infinita: tirar todo pretexto Por que a Escritura insiste tanto, e por que o galardão é sem fim? Saadiá responde com um argumento de incentivo: para obrigar o homem ao serviço, D'us deve oferecer o maior motivo possível. Qualquer recompensa finita deixaria sempre uma brecha — “se fossem mil anos talvez eu não me esforçasse; e se dois mil? e três mil?” —, pois a razão sempre concebe uma medida maior. Só o infinito fecha toda objeção: oferecido “tudo”, ninguém pode alegar que serviria por mais. A eternidade do prêmio não é exagero retórico, mas exigência lógica da justiça do convite.
2

E talvez diga alguém que este assunto, tratando-se da recompensa, é mais aceitável, pois ela é bem, êxito e graça; mas, quanto aos tormentos e à perduração no fogo, vejo que isto é abandono da misericórdia e crueldade, e algo que não se assemelha aos atributos dEle, bendito seja. E digo, sobre isto, ainda outra coisa pertinente: que, assim como foi forçoso prometer-lhes aos justos uma esperança tal que não há maior do que ela, também foi forçoso atemorizá-los aos ímpios com o temor tal que não há maior do que ele. Pois, se Ele os atemorizasse com tormentos de mil anos, poderia o objetor dizer: “se Ele os pusesse em dois mil, eles temeriam mais”; e, se os pusesse em dois mil, poderia dizer: “se os pusesse em uma miríade, temeriam mais”. Por isso pôs os tormentos sem fim, para atemorizar com o maior dos temores, de modo que não reste com Ele pretexto para homem algum.

ואלי יאמר אומר כי הענין הזה בגמול יותר נכון, כי היא טובה והצלחה וחסד, אבל ביסורים וההתמדה באש, רואה אני שזה עזיבת הרחמים ואכזריות, ומה שאיננו דומה למדותיו יתברך; ואומר בזה עוד דבר מגיע, כי כאשר התחייב ליחל אותם יחול שאין גדול ממנו, כן התחייב להפחידם הפחד שאין גדול ממנו; כי אם היה מפחידם ביסורי אלף שנה, היה יכול האומר לומר, אלו היה משים אותם אלפים היו מפחדים יותר, ואם היה משים אותם אלפים היה יכול לומר, אלו היה משים אותם רבבה היו מפחדים יותר, על כן שם היסורין באין תכלית, שיהיה מפחיד בגדול שבהפחד, שלא תשאר עמו תואנה לשום אדם.
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E, quando Ele os atemoriza com o temor completo e eles não obedecem, não seria correto trocar aquilo com que os atemorizou e assim desmentir a Sua palavra; antes, para confirmar a Sua palavra e o Seu dito, é cabível que continue sobre eles os tormentos — e a sua violência recai sobre a sua própria alma, pois rebelaram-se e negaram; e d'Ele ainda é a graça, em Ele ter magnificado sobre eles o temor dos tormentos, para corrigi-los para o serviço d'Ele. E este assunto é semelhante às demais coisas que Ele criou com sabedoria, e que se tornam danosas, sendo atribuídas ao pecado do homem — como aquele que sai de noite e cai num poço, e como aquele que come o alimento fora do seu tempo, e como aquele que se cura com aquilo que lhe faz mal, e o semelhante a isto.

וכאשר ייראם ביראה הגמורה ולא ישמעו, לא היה נכון להמיר מה שהפחדים ויכזיב מאמרו, אך בעבור הצדיק מאמרו ודברו, ראוי שיתמיד עליהם היסורין, וחמסם על נפשם, כי מרו וכחשו, ולו החסד בשהגדיל עליהם בפחד היסורין לתקנם לעבודה. וזה הענין דומה לשאר הדברים אשר בראם הוא בחכמה, והם שבים לשער בחטא האדם, כמי שיצא בלילה וירד לבור, ויאכל המאכל בלא עתו, ושיתרפא במה שמזיק והדומה לזה. ואח"כ
Nota — o castigo eterno: a resposta racional de Saadiá Aqui Saadiá enfrenta de frente a objeção mais difícil: tormento sem fim não seria crueldade, contrária à misericórdia divina? A sua resposta tem três peças. (1) Simetria: assim como a esperança devia ser a maior possível, o temor também — qualquer pena finita permitiria dizer “se fosse maior, eu temeria mais”; só a infinita dissuade ao máximo. (2) Veracidade: tendo D'us advertido, retratar-se desmentiria a Sua palavra; quem não ouviu “traz a violência sobre a própria alma”. (3) A própria ameaça é graça, pois visa “corrigi-los para o serviço”. É a teodiceia racionalista de Saadiá — e vale registar que pensadores judeus posteriores divergiram, muitos defendendo que a punição é temporária ou purificadora, não eterna.
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E depois digo, no capítulo das provas da Escritura de que o galardão perdura para sempre. Primeiro: “estes para a vida eterna, e estes para o opróbrio, para o desprezo eterno” (Daniel 12:2); e diz ainda (Tehillim 16:11): “delícias há à tua mão direita para sempre”; e disse ainda (ali 49:20): “até a eternidade não verão a luz”. E, logo depois de ter dito (ali 102:28): “mas tu és o mesmo, e os teus anos não terão fim”, disse a seguir (ali 102:29): “os filhos dos teus servos habitarão, e a sua semente será estabelecida diante de ti”. E a Escritura determinou, com esta frase, que — assim como Ele, bendito seja, é permanente para sempre, sem cessação — assim também a permanência dos justos é perdurável, sem cessação.

אומר בשער מן הכתוב שהוא מתמיד לעד. תחלה אלה לחיי עולם ואלה לחרפות לדראון עולם (דניאל י"ב ב'), ואומר עוד (תהלים ט"ז י"א) נעימות בימינך נצח, ואמר עוד (שם מ"ט כ') עד נצח לא יראו אור. וכאשר אמר (שם ק"ב כ"ח) ואתה הוא ושנותיך לא יתמו, אמר אחריו (שם כ"ט בני עבדיך ישכונו וזרעם לפניך יכון. וחייב במאמר הזה, שכמו שהוא ית' קיים לעד לבלי הפסק, כן עמידת הצדיקים מתמדת בלי הפסק.
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E, se objetar alguém e disser: “uma vez que admitiste a permanência dos criados com Ele no fim do tempo, sem fim futuro, admite-se igualmente que os criados tenham estado com Ele no início do tempo, sem fim (desde sempre)?” — eu esclareço a diferença que há entre as duas coisas. E digo que é absurdo que o criado tivesse estado perpetuamente com o seu Criador, sem começo, pois todo aquele que faz algo necessariamente existe antes da sua obra. Mas, uma vez que Ele o precede e o faz, então, em cada dia em que vemos, pelo nosso intelecto, que Ele pode mantê-lo na existência, vemo-Lo igualmente capaz de mantê-lo noutro dia; e, quando lhe promete fazê-lo, assim Ele o concede a esse criado a cada dia, e a cada momento — e o intelecto não rejeita disto coisa alguma, antes o admite como cabível.

ואם יטעון טוען ויאמר, כאשר הכשרת עמידת הברואים עמו באחרית הזמן באין תכלית, יכשר גם כן שיהיו הברואים עמו בתחלת הזמן באין תכלית? אני מבאר ההפרש אשר יש בין שני הדברים. ואומר, כי היא מן השוא שיהיה הנברא לא סר עם בוראו בלא תכלית, כי כל עושה בהכרח הדברים קודם למעשהו; אבל כשהוא מקדים ועושה אותו, בכל יום שאנחנו רואים אותו בשכלנו יכול לקיימו בו, נראה אותו גם כן יכול לקימו יום אחר; וכאשר יבטיחהו שיעשה לו, כן הוא מגיע לו כל יום ביום וכל עת בעת, לא ירחיק השכל מזה מאומה אבל מכשיר אותו.
Nota — eterno para a frente, não para trás Uma objeção filosófica fina: se a alma pode durar sem fim no futuro, por que não admitir que existisse sem começo no passado (eternidade do mundo)? Saadiá distingue com precisão. Um começo eterno é impossível: todo agente precede necessariamente a sua obra, logo o criado não pode ser tão antigo quanto o Criador. Mas um futuro sem fim é coerente: a cada instante D'us sustenta o que criou, e nada na razão impede que continue a fazê-lo para sempre. A imortalidade da alma não é, portanto, uma propriedade intrínseca dela — é uma dádiva renovada momento a momento. E aí está a diferença insuperável entre Criador e criatura: um basta-se a si; o outro “tem os olhos e a alma pendentes” do que Ele lhe renova.
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E, se disser alguém: “que vantagem haverá, naquele tempo, para o Criador sobre o criado se ambos são eternos?” — diremos que esta afirmação não precisa de resposta. E como se poderia assemelhar o corpo e o espírito — que precisam de tempo e de lugar; que são o que goza, o que é comandado e o que é advertido; e que precisa de uma sustentação que o sustenha — Àquele que se elevou acima de todos estes assuntos e de tudo o que lhes é semelhante? Antes, o criado está diante d'Ele como quem tem os seus olhos e a sua alma pendentes daquilo que Ele lhe renova a cada instante, como se disse (ali 102:29): “e a sua semente será estabelecida diante de ti”.

ואם יאמר מה יתרון בעת ההיא לבורא על הנברא? נאמר, זה המאמר אין צריך תשובה. ואיך ידמה הגוף והרוח הצריך אל זמן ואל מקום, הנהנה, המצווה, והמוזהר, הצריך אל עמידה שיעמידהו, למי שהתעלה מכל הענינים האלה והדומה להם. אבל הוא לפניו כמי שעיניו ונפשו תלויות למה שיחדשהו לו, כמו שנאמר (שם) וזרעם לפניך יכון:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O infinito como necessidade lógica

A quinta e a sexta perguntas — por que a Escritura insiste tanto, e por que o destino é eterno — recebem uma resposta de incentivo. Qualquer prêmio ou pena finitos deixariam sempre uma brecha: “se fosse mais, eu me esforçaria/temeria mais”. A razão concebe sempre uma medida maior. Só o infinito encerra toda objeção. A eternidade não é, aqui, ênfase poética, mas exigência da justiça do convite divino: oferecido tudo, ninguém pode dizer que faltou estímulo.

O nó do castigo sem fim

Saadiá não foge da objeção mais grave — pena eterna não seria crueldade? Responde com simetria (o temor há de ser o maior possível), veracidade (D'us não pode desdizer a Sua advertência) e até graça (a ameaça visa corrigir). E compara o tormento às coisas boas que se tornam danosas pelo mau uso — quem cai no poço por sair de noite. É a sua teodiceia racionalista; convém notar, com honestidade histórica, que parte da tradição judaica posterior preferiu ver a punição como limitada ou purificadora, não perpétua.

Imortalidade como dádiva, não posse

O fecho é filosoficamente belo. Por que a alma pode ser eterna para a frente, mas não para trás? Porque todo agente precede a sua obra — logo nenhum criado é tão antigo quanto o Criador —, mas nada impede que D'us o sustente para sempre. A imortalidade não é propriedade da alma: é dádiva renovada a cada instante. E nisso está a diferença que jamais se apaga entre o Criador e o imortal que Ele sustenta — um basta-se a si, o outro tem “os olhos e a alma pendentes” d'Ele.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 7, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Daniel 12:2; Tehillim 16:11; 49:20; 102:28-29. Notas e seção de estudo são originais.