Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 1

O Mundo Vindouro — as Provas Racionais

הָעוֹלָם הַבָּא — רְאָיוֹת הַשֵּׂכֶל לְקִיּוּמוֹ
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Abre-se o Tratado IX, sobre a recompensa e o mundo vindouro (olam haba). Saadiá demonstrará a sua necessidade pelas três vias — razão, Escritura e tradição — e dedica este capítulo às provas racionais: o bem deste mundo é sempre misturado de mal; a alma nunca repousa nele; o sofrimento da virtude pede galardão; e a justiça de D'us exige uma morada de contas exatas.

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Tratado IX — Sobre a recompensa e o castigo. Disse Yehudá ben Shaul (o tradutor): disse o autor. Deu-nos a conhecer o nosso D'us, bendito e exaltado seja, que já fixou um tempo para recompensar os justos, e nele os distinguirá deles e dos descrentes, como disse (Malachi 3:17-18): “e eles serão para mim, disse o Senhor dos Exércitos, no dia em que eu fizer o meu tesouro especial” etc.; “e tornareis a ver a diferença entre o justo e o ímpio, entre o que serve a D'us e o que não o serve” etc. E os profetas estabeleceram para nós os sinais e os prodígios, e nós o recebemos. E é preciso que comecemos por mencionar o que torna necessário este tempo chamado “o mundo vindouro”, a partir das provas racionais, escriturísticas e tradicionais.

E digo, primeiramente, que — conforme se confirmou no terceiro, no quarto e no sexto tratados — os céus e a terra e o que há entre eles não foram criados senão por causa do homem; e por isso D'us o pôs no meio, com todas as coisas o circundando; e por isso deu à alma a vantagem da preeminência em entendimento e em sabedoria; e por isso a obrigou em mandamentos e advertências, e preparou-a por meio deles para a vida perdurável; e confirmou-se que esta vida virá quando se completarem os indivíduos dos seres dotados de fala que a Sua sabedoria determinou criar — e então D'us a fará habitar noutro mundo e nele a recompensará. E aduzi, sobre estes assuntos, das provas racionais, escriturísticas e tradicionais ali nos tratados anteriores, aquilo que serve de introdução e preâmbulo a este tratado — o que já é suficiente. E achei por bem juntar-lhe o que o reforce e lhe acrescente esclarecimento, a partir das três vias de conhecimento mencionadas.

בגמול ועונש: אמר יהודה בן שאול. אמר המחבר, הודיענו אלהינו יתברך ויתעלה, כי כבר קבע זמן לגמול הצדיקים, ובו יבדיל ביניהם ובין הכופרים, כמו שאמר (מלכי ג' י"ז י"ח) והיו לי אמר יי' צבאות ליום אשר אני עושה סגלה וגו'. ושבתם וראיתם בין צדיק לרשע בין עובד אלהים וגו'. והעמידו לנו הנביאים האותות והמופתים וקבלנוהו, וצריך שנקדים שנזכור מחייבות הזמן הזה הנקרא העולם הבא, מן הראיות המושכלות, והכתובות, והמקובלות. ואומר תחלה, כי כאשר התאמת במאמר השלישי והרביעי והששי, כי השמים והארץ ומה שיש ביניהם, לא נבראו כלם כי אם בעבור האדם, ועל כן שמהו באמצע וכל הדברים מקיפים, ועל כן נתן לנפש יתרון מעלה בשכל ובחכמה, ועל כן חייבה במצות ובאזהרות, הכינה בם לחיים התמידים, ושהחיים האלה, כאשר ישלמו אישי המדברים אשר חייבה חכמתו לברו' אותם, וישכיננה עולם אחר ויגמלנה בו.והבאתי על הענינים האלה, מן הראיות המושכלות, והכתובות והמקובלות שם, מה שהוא הקדמה והצעה למאמר הזה מה שיש בו די. וראיתי לחבר אליו מה שיעזרהו ויוסיף לו באור מהג' משכים הנזכרים:
Nota — abre o Tratado IX: as três vias para o mundo vindouro Começa o nono tratado, sobre a recompensa e o mundo vindouro (olam haba). Saadiá anuncia o seu método de sempre: demonstrar a sua necessidade pelas três vias do conhecimento — a razão, a Escritura e a tradição. Este primeiro capítulo é quase todo racional, e apoia-se no que já se estabeleceu antes: que o mundo foi criado por causa do homem, que a alma tem preeminência e foi obrigada em mandamentos, e que isto tudo a prepara “para a vida perdurável”. O mundo vindouro não é um acréscimo à doutrina — é o seu destino lógico.
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E digo, dentre o que o intelecto ainda torna necessário: que o Criador, exaltado seja — segundo o que de Si nos aparece, da Sua sabedoria, do Seu poder e do Seu bem-fazer às Suas criaturas —, não é possível que a medida do bem que Ele destinou a esta alma seja apenas o que ela encontra neste mundo dos Seus bens e dos Seus prazeres. Pois todo bem que há no mundo tem consigo um mal, e junto a todo êxito há fadiga, e a todo prazer há dor, e a toda alegria há luto; e todas as suas partes se equivalem — e o peso até pende para os assuntos que entristecem mais do que para os que alegram. E, sendo isto claro e sem dúvida, seria vão que o Sábio (D'us) pusesse, como fim do proveito desta alma, estes assuntos transitórios e contraditórios. Antes, convém que Ele lhe tenha preparado uma morada em que haja a vida plena e o êxito singular que lhe sejam proporcionados.

ואומר ממה שמחייב אותו השכל עוד, שהבורא ית' כפי מה שנראה לנו מחכמתו ויכלתו והטבתו אל ברואיו, לא יתכן להיות שיעור הטובה אשר כיון בה לנפש הזאת, הוא מה שהיא מוצאה בעולם הזה מטובותיו והנאותיו. שכל טובה שיש בעולם יש עמה רעה, ועם כל הצלחה עמל, ועם כל הנאה צער, ועם כל שמחה אבל. וכל חלקיו שוים, וההכרעה לענינים המעציבים על המשמחים. וכיון שזה מבואר ואין בו ספק, מן השוא שיהיה החכם משים תכלית תועלת הנפש הזאת, הענינים האלה הנהפכים. אבל ראוי שיהיה מזמן לה מדור שיש בו החיים הגמורים וההצלחה המיוחדת ימציאוה אותה.
Nota — o bem deste mundo é sempre uma mistura A primeira prova racional é uma das mais belas do livro. O bem terreno nunca é puro: “a todo êxito há fadiga, a todo prazer há dor, a toda alegria há luto” — e, pesados os dois pratos, o que entristece supera o que alegra. Ora, seria absurdo que o Sábio destinasse a alma a um fim tão alloiado e instável. Logo, deve existir “uma morada de vida plena” onde o bem não venha misturado. É o argumento eudemonista clássico: a aspiração humana à felicidade completa só faz sentido se houver onde ela se realize.
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E ainda: que eu acho que todas as almas que conheci não estão em repouso neste mundo, nem se sentem seguras — ainda que tenham chegado ao maior dos reinos e ao mais alto dos seus graus. E isto não provém da sua natureza, mas sim do seu saber interior de que há uma morada mais nobre do que todos os bens desta morada — e a alma anseia por ela, e os seus olhos estão voltados para ela; e, se não fosse isto, a alma estaria em repouso e sossegada.

ועוד כי אני מוצא כל הנפשות אשר ידעתים, אינן נחות בעולם הזה ולא בוטחות, אפי' אם הגיעו אל הגדול שבמלכיות, ואל העליונה שבמעלותם. ואין זה בטבעה, כי אם בעבור ידיעתה, כי יש מדור יותר נכבד מכל טובות המדור, והיא נכספת לו ועיניה צופיות אליו, ולולי זה היתה נחה ושוקטת.
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E outra prova disto: que D'us tornou repugnante ao entendimento do homem coisas que a sua natureza deseja — como a fornicação, o furto, a insolência, a vingança e o semelhante a isto. E, quando o homem se guarda disto, sobrevêm-lhe tristeza, dor e inquietação, e ele sofre e o seu coração dói; e D'us não lhe faria passar tudo isto, se não fosse para o recompensar com bem por causa disso. E, do mesmo modo, D'us aformoseou ao seu entendimento a justiça e a retidão, e o ordenar o bem e o guardar-se do mal; e quando o homem cumpre tudo isto, alcança-o o ódio dos homens — quando faz justiça punindo a alguns deles, e quando os comanda e os adverte a separar-se entre eles e o seu desejo; e é possível que o injuriem e o espanquem, e é possível que o matem. E D'us não o conduziria a tudo isto por meio daquilo que aformoseou ao seu entendimento, se não fosse porque está destinado a recompensá-lo, por isso, com grande recompensa.

ומזה שהוא גנה לשכל האדם דברים שטבעו מתאוה להם, מהזנות והגנבה, והעזות והנקמה, והדומה לזה. וכאשר ישמר מזה, ימצאנו עצב וצער ודאגה, ויצטער ויכאב לבו, ולא היה עושה בו כל זה, לולי שהוא גומל אותו עליו טובה. וכן שייפה לשכלו הצדק והיושר, ולצוות בטוב ולהזהר מן הרע, וקיים את כל אלה, ותשיגהו שנאת בני אדם כשיפרע לקצתם, וכאשר יצוום ויזהירם להבדיל בינם ובין תאותם, ואפשר שיגדפוהו ויכוהו, ואפשר שימיתוהו. ולא היה מביא אותו אל כל אלה במה שייפה לשכלו, לולא שהוא עתיד לגמלו עליו גמול גדול.
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E ainda disto: o que vemos da violência que alguns homens praticam contra outros — ficando o opressor e o oprimido em estado de bem ou de mal —, e depois morrem; e, sendo Ele, exaltado seja, chamado Juiz justo, é de boa justiça que Ele lhes prepare uma segunda morada, na qual julgue entre ambos com retidão, e restitua a este o oprimido a sua recompensa, conforme o sofrimento da opressão que o atingiu, e traga sobre aquele o opressor do castigo, conforme o prazer que ele achou na sua violência e na sua extorsão. E ainda disto: que nós vemos descrentes vivendo em delícias neste mundo, e crentes vivendo em sofrimento nele; e não é possível que não haja, para uns e para outros, um outro mundo, no qual a justiça e o juízo os recompensem.

ומזה עוד מה שאנו רואים מחמוס קצת בני אדם את קצתם, ויהיה החומס והחמוס בטוב או ברע, ואחר כן ימותו, וכיון שהוא ית' שמו שופט צדק, מן הדין שיהיה מכין להם מדור שני, ידין בו בין שניהם בצדק, וישיב לזה גמולו כפי מה שהגיע אליו מצער החומס, ויביא על זה מן הענש, כפי מה שמצא מן הערבות בחמסו ועשקו. ומזה עוד, כי אנחנו רואים כופרים בנעימים בעולם הזה, ומאמינים בצער בו, ואי אפשר שאין לאלו ולאלו עולם אחר, שגומלים אותן בו הצדק והמשפט.
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E ainda disto: que encontramos que quem matou uma só pessoa e quem matou dez pessoas igualmente são mortos; e, do mesmo modo, quem adulterou uma só vez e quem adulterou vinte vezes igualmente são mortos; e assim com todo aquele que segue esta conduta — a pena terrena não distingue os graus. E, se disser alguém: “mas não seria devido que o Criador houvesse criado este homem já no outro mundo desde o início, e removesse de sobre ele todos estes sofrimentos?” — responder-lhe-emos com algo semelhante ao que já expusemos no terceiro tratado.

ומזה עוד, שאנחנו מוצאים מי הרג נפש אחת, ומי שהרג עשרה נפשות יומת, וכן מי שנאף פעם אחת, ומי שנאף עשרים פעם יומת, וכן כל מי שנוהג המנהג הזה. ואם יאמר אומר והלא היה חוב שיברא הבורא את האדם הזה בעולם האחר מתחלה, ויסיר מעליו כל אלה הצערים? נשיב אותו בכמו מה שהקדמנו ביאורו במאמר השלישי:
Nota — a exigência da justiça: um lugar de contas exatas O bloco final reúne as provas morais, e são as mais incisivas. Vemos opressores e oprimidos morrerem sem acerto; descrentes na fartura e crentes no sofrimento; e a pena terrena que iguala quem matou um e quem matou dez. Se D'us é “Juiz justo”, nada disto pode ser a palavra final: tem de haver “uma segunda morada” onde se julgue com exatidão, grau por grau. À objeção óbvia — por que não criar o homem já nesse mundo perfeito? — Saadiá remete ao terceiro tratado: porque a recompensa merecida pelo esforço vale mais do que o bem dado de graça.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O destino lógico da alma

Tendo tratado, no oitavo tratado, da redenção histórica de Israel, Saadiá volta-se agora para o destino último da alma. O mundo vindouro não entra como dogma isolado: é deduzido do que já se estabeleceu — o mundo criado por causa do homem, a alma dotada de razão e responsabilidade. Se tudo isso é verdade, há de haver onde a alma colha o que mereceu.

Felicidade plena e justiça plena

Duas grandes intuições sustentam o capítulo. A primeira é eudemonista: como todo bem terreno vem misturado de dor, a felicidade completa que a alma anseia — e que, inquieta, nunca acha aqui — só pode realizar-se noutra morada. A segunda é moral: as contas deste mundo não fecham (o ímpio próspero, o justo aflito, penas que igualam crimes desiguais), e um Juiz justo não pode deixá-las assim. O olam haba é, ao mesmo tempo, a pátria da felicidade e o tribunal da justiça.

Por que não começar pelo paraíso?

Saadiá antecipa a objeção mais natural: se o outro mundo é melhor, por que não criar o homem já nele? A resposta, remetida ao terceiro tratado, é um princípio caro a toda a obra: o bem conquistado pelo esforço e pela escolha livre é superior ao bem recebido sem mérito. A travessia deste mundo — com a sua mistura e as suas provas — é o que dá valor ao que vem depois.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Malachi 3:17-18; cf. Tratados III, IV e VI. Notas e seção de estudo são originais.