E o homem cujos méritos e faltas se equilibram? Saadia responde: a misericórdia divina inclina a balança, e ele é contado entre os justos — pois no fim há só dois grupos. Mas essa "misericórdia" não é emoção em D'us; é um nome de ação. E o tratado fecha com um princípio fino: o mesmo ato pesa diferente segundo quem o faz, onde e quando.
E, uma vez que completei a explicação daqueles dez graus cujos nomes apresentei antes, falo agora do homem equilibrado adam shaveh — aquele cujas iniquidades estão na mesma medida dos seus méritos. Esse homem, se encontra a misericórdia de D'us, é contado entre os justos.
E eis o ponto: a "misericórdia" rachamim atribuída ao Criador, bendito e exaltado — visto que é impossível que ela O afete ou nele entre, pois não há n'Ele acidente atributo acrescentado, como já premissámos — deve ser referida aos seres criados, e esses termos são dos nomes de ação shemot ha-poal. E obtemos deles três coisas: a primeira, a aceitação da teshuvá, como se diz: "e voltará ao Senhor, e Ele terá misericórdia dele" (Yeshayahu 55:7); a segunda, o ouvir a oração de quem está em aflição, como se diz: "na ira, lembra-te da misericórdia" (Chavakuk 3:2); e a terceira, o elevar o equilibrado ao nível dos justos, como se diz: "gracioso é o Senhor e justo, e o nosso D'us é misericordioso" (Tehillim 116:5).
E disseram os nossos mestres, sobre "e abundante em bondade": "inclina-se para a bondade" — que, se a balança estivesse equilibrada, Ele a faz pender para o lado do bem. Por isso, na hora da recompensa, os homens não serão senão dois grupos, sem um terceiro entre eles — apenas justos e ímpios, como se diz: "e voltareis e vereis a diferença entre o justo e o ímpio" (Malachi 3:18).
E vejo por bem colocar neste tratado as seguintes coisas, e digo: o serviço a D'us dos que são importantes é mais importante, como se diz: "exultai, ó justos, no Senhor" (Tehillim 33:1); e o pecado deles é maior, como se diz: "pois tanto o profeta como o sacerdote se corromperam" (Yirmiyahu 23:11). O serviço no lugar escolhido e singular o Templo é mais importante, como se diz: "pois no meu monte santo… ali me servirá toda a casa de Israel" (Yechezkel 20:40); e o pecar no lugar escolhido é maior, como se diz: "até na minha casa achei a sua maldade, diz o Senhor" (Yirmiyahu 23:11). A abstinência na juventude perishut é mais importante, como se diz: "e levantei dentre os vossos filhos profetas, e dentre os vossos jovens nazireus" (Amós 2:11); e a devassidão na velhice é mais vergonhosa, como se diz: "até cãs se espalham sobre ele, e ele não o sabe" (Hoshéa 7:9).
A honestidade na pobreza é maior, como se diz: "melhor é o pobre que anda na sua integridade" (Mishlei 19:1); e o roubo praticado pelo rico é maior, como se diz: "e tomou a cordeira do homem pobre…" (II Shmuel 12 — a parábola de Natan). Socorrer o inimigo é um bem maior, como se diz: "acaso, se um homem encontra o seu inimigo, o deixa ir por um bom caminho?" (I Shmuel 24:20); e prejudicar o amigo é mais grave, como se diz: "estendeu as mãos contra os que com ele estavam em paz, profanou a sua aliança" (Tehillim 55:21). A humildade vinda do grande é maior, como se diz: "e o homem Moshé era mui humilde, mais do que todo homem" (Bamidbar 12:3); e a arrogância vinda do baixo é mais grave, como se diz: "para devorar os pobres da terra e os necessitados dentre os homens" (Mishlei 30:14).
E prejudicar o sábio — e a quem é útil às pessoas — é mais grave, como se diz: "pois conheço as vossas muitas transgressões e os vossos grandes pecados, ó vós que afligis o justo, que tomais suborno" (Amós 5:12). E a multidão dos oprimidos agrava a falta, pois oprimir mil homens em mil zuz é mais grave do que a mesma soma tirada de quinhentos, como se diz: "pela multidão das opressões clamam, gritam por causa do braço dos poderosos" (Iyov 35:9). E o pecado no dia honrado o jejum sagrado é mais grave, como se diz: "eis que, no dia do vosso jejum, buscais o vosso prazer" (Yeshayahu 58:4). E a caridade vinda do pobre é mais importante, como se diz: "melhor é o pouco com o temor do Senhor" (Mishlei 15:16). E o jejum do homem habituado ao conforto é mais importante, como se diz: "saia o noivo da sua câmara, e a noiva do seu dossel" (Yoel 2:16). E tudo isto tal como nos ordenou consagrar as primícias e os primogênitos, e orar de manhã ao nascer do sol — pois estas são coisas preciosas para nós, como se diz: "e toda a escolha dos vossos votos que fizerdes ao Senhor" (Devarim 12:11).
Concluída a tipologia dos dez graus, Saadiá volta-se ao caso mais delicado: o adam shaveh, aquele cujos méritos e faltas se igualam. A solução não é a aritmética, mas a graça: "abundante em bondade — inclina-se para a bondade". Quando a balança fica no fio, D'us pende-a para o mérito, e o homem é contado entre os justos. Daí a conclusão: no juízo final não há uma terceira categoria de "indecisos" — só justos e ímpios. A misericórdia decide o que a justiça deixaria em suspenso.
O capítulo guarda uma das chaves da teologia racionalista. Chamar D'us de "misericordioso" não significa atribuir-Lhe uma emoção — pois n'Ele "não há acidentes", nada muda nem O comove de fora (Tratado II). Os termos de sentimento, ditos de D'us, são nomes de ação: descrevem o que Ele faz — aceita a teshuvá, ouve o aflito, eleva o homem na balança —, não um estado interior. É a mesma via negativa que o Rambam levaria ao seu ponto mais alto: conhecemos D'us pelos seus atos, nunca projetando n'Ele os nossos afetos.
A segunda metade é um pequeno tratado de justiça contextual. O mérito e o demérito de um mesmo ato variam conforme quem (o líder, o jovem, o velho, o rico, o pobre, o grande, o baixo), onde (o lugar santo), quando (o dia do jejum) e contra quem (o inimigo, o amigo, o sábio, a multidão). O pecado do importante é maior porque maior é a sua responsabilidade; a virtude do que tem menos é maior porque maior é o seu esforço. Longe de relativizar a moral, Saadiá afina-a: a balança divina pesa cada gesto no seu peso exato.
O fecho recolhe tudo numa palavra: precioso. Consagrar as primícias e os primogênitos, orar logo ao romper do dia — dar a D'us "a escolha dos votos" — é tratar o serviço divino como aquilo que de mais valioso temos. É o avesso do mínimo cumprido por obrigação: a vida do mérito, no fim, mede-se pela disposição de oferecer o melhor, no melhor momento, com o melhor de si.
Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado V (O mérito e o demérito), cap. 7, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.
Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Yeshayahu 55:7 e 58:4; Chavakuk 3:2; Tehillim 116:5, 33:1, 55:21; Malachi 3:18; Yirmiyahu 23:11; Yechezkel 20:40; Amós 2:11 e 5:12; Hoshéa 7:9; Mishlei 19:1, 30:14 e 15:16; II Shmuel 12; I Shmuel 24:20; Bamidbar 12:3; Iyov 35:9; Yoel 2:16; e Devarim 12:11; o dito "abundante em bondade inclina para a bondade" é de Rosh haShaná 17a (as referências de versículos foram normalizadas). As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.