Muitos versículos parecem dizer que D'us "endurece", "engana" ou "faz errar" — como se coagisse o homem. Saadia fecha o Tratado IV mostrando que isso é efeito da amplitude da linguagem: oito modos de ler tais versos, todos em acordo com a razão e com a liberdade. Com eles cai toda dúvida sobre a coação — e o Tratado se encerra.
E depois disto, reúno a estas matérias todos os versículos em que há dúvidas e confusões quanto à coação a ideia de que D'us nos força. E, por serem muitos — devido à amplitude da linguagem, como mencionei no Tratado da Unidade (pois a língua, se não usasse de amplitude, conteria apenas a coisa nua) —, achei melhor indicar os tipos da sua interpretação, de modo que se acordem com o que está na razão; contarei quantos tipos são, mencionando de cada um alguns exemplos, e o estudioso deste livro juntará, pela sua razão, cada caso ao seu tipo. E digo que são oito tipos. O primeiro é o da advertência: pareceu às pessoas que impedir por advertência é como impedir fisicamente o ato — mas há entre os dois grande diferença. Como D'us disse a Avimélech "também eu te impedi de pecar contra mim" (Bereshit 20:6) — pensaram que fora um ato, mas Ele só o impediu por advertência e por avisá-lo de que ela era casada, com temor: "eis que estás morto por causa da mulher que tomaste", pois é casada (20:3), e "se não a restituíres, sabe que certamente morrerás" (20:7). E impedir Avimélech daquela mulher é como impedir o que se divorciou de voltar a desposar a ex-mulher depois de ela ter casado com outro (Devarim 24:4) — "o seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a tomá-la": pois ele pode pela escolha, mas não pode pela ordem. E como "não poderás sacrificar o Pessach numa só das tuas cidades" (Devarim 16:5), e o que se assemelha a isto.
O segundo é o impedimento dos bens e benefícios do mundo, que alguns tomaram por coação. É como "engorda o coração deste povo, torna pesados os seus ouvidos e fecha-lhe os olhos..." (Yeshayahu 6:10): o versículo quer dizer que se lhes renovará uma circunstância uma guerra ou um mal pela qual não atentarão nos seus assuntos mundanos, e ficarão perplexos na sua condução — como "andarás às apalpadelas ao meio-dia, como o cego apalpa nas trevas" (Devarim 28:29), "Ele apanha os sábios na sua astúcia... de dia encontram as trevas" (Iyov 5:13), "tira o entendimento dos chefes do povo... apalpam nas trevas e não na luz" (Iyov 12:24). E estes pensaram que o versículo era sobre a Torá; mas ele continua "e se converta e seja curado" — converter-se-ão de combater o seu inimigo e dele descansarão, como se diz da guerra "e ele não vos poderá curar..." (Hoshea 5:13).
O terceiro é o fortalecimento da alma: quando vem um golpe, uma desgraça ou uma má notícia, D'us fortalece a alma para que a pessoa não pereça de pavor. Leram-no nos livros e pensaram que era um endurecimento do coração para impedir o arrependimento; tanto mais que o versículo o atribui ao "coração", por nele estar a alma. É o caso de "e eu endurecerei o coração do Faraó" (Shemot 7:3), "e fortalecerei o coração do Faraó" (14:4), "pois eu tornei pesado o seu coração" (10:1), e, sobre Sichon, "pois o Senhor teu D'us endureceu o seu espírito e fortaleceu o seu coração" (Devarim 2:30). O Faraó precisava que a sua alma fosse fortalecida para que não perecesse naquelas pragas antes que se completassem sobre ele as restantes — como D'us lhe esclareceu: "pois já agora eu poderia ter estendido a mão e ferido a ti..., mas para isto te mantive de pé" (Shemot 9:15-16). E Sichon precisou que o coração lhe fosse fortalecido para não perecer do terror da fama de Israel — "os que ouvirem a tua fama tremerão e se angustiarão diante de ti" (Devarim 2:25); e assim os habitantes de Canaã, para que o terror das notícias não os matasse — "ouvimos, e derreteu-se o nosso coração" (Yehoshua 2:11); por isso se diz "pois do Senhor era fortalecer-lhes o coração para virem à guerra contra Israel" (Yehoshua 11:20).
O quarto é a atribuição de um grau ou estatuto: as pessoas viram a menção disto na Escritura e pensaram que era um fazer ativo. É como o perito num ofício, que verifica a verdade e anula a falsidade: dizemos que o juiz "justificou" Reuven e "condenou" Shimon, "declarou justo" Levi e "culpou" Yehuda — e não queremos dizer que ele fez um deles praticar algo, mas que o esclareceu, revelou e o pôs no seu devido grau, como diz a Torá "e justificarão o justo e condenarão o ímpio" (Devarim 25:1). E assim dizemos que o juiz "validou" tal documento e "falsificou" tal outro — não o falsificou de facto, mas em declaração. Quando o pensamento se habitua a esta transposição de sentido, assim se leem as expressões dos livros sobre o ato do Criador: "se trata com os escarnecedores, Ele escarnece; mas aos humildes dá graça" (Mishlei 3:34). E "e o profeta, se for enganado e disser uma palavra, eu, o Senhor, enganei aquele profeta" (Yechezkel 14:9) — quer dizer: eu revelei a seu respeito que ele é um enganado. E "certamente enganaste este povo e Jerusalém, dizendo: tereis paz" (Yirmiyahu 4:10) — D'us anulou as palavras dos falsos profetas, ao revelar a verdade. E o pedido "por que nos fazes errar, ó Senhor, dos teus caminhos..." (Yeshayahu 63:17) quer dizer: não nos consideres errantes, mas perdoa-nos e tem misericórdia. Quem não entende estes e os semelhantes, toma-os por coação.
O quinto é o da expiação: vemos que a pessoa diz "inclina-me para ti, e não me inclines para longe de ti" — "inclina o meu coração para os teus testemunhos, e não para a ganância" (Tehillim 119:36), "não inclines o meu coração para coisa má" (141:4) —, e alguém pensa que estes dois "inclinares" significam coação; mas o salmista quer dizer apenas expiação. Isto é: ao perdoares-me, já me inclinaste a não voltar a pecar contra ti; e, se não me perdoares, já lançaste em mim o desespero. É a expiação que o leva a inclinar-se para o teu serviço, como diz "ensinarei aos transgressores os teus caminhos e os pecadores se converterão a ti" (Tehillim 51:15).
O sexto é o relato de um ato que é, na verdade, a criação fundamental as faculdades que D'us pôs no homem desde a origem; pensam que é um colocar ou ensinar pontual. Como "do homem são os planos do coração, mas do Senhor é a resposta da língua" (Mishlei 16:1): refere-se à criação fundamental da própria capacidade, como "tudo fez o Senhor para o seu propósito" (16:4). O sétimo é a hipérbole na expressão: o ouvinte pensa tratar-se de algo especial sobrenatural, como "o coração do rei é como ribeiros de água na mão do Senhor; Ele o inclina para onde quer" (Mishlei 21:1) — pensa que os reis têm algo único que D'us lhes controla o coração de modo especial; mas isto é hipérbole: quer dizer que até o rei, no serviço do Criador, é como a água na própria mão d'Ele — quando o Criador quer, inclina-o e dele se serve.
O oitavo é a renovação de uma circunstância, que vem junto com a renovação da escolha do homem em algum ato; e dá-se em três casos. Primeiro, a salvação dos inimigos, até que, por causa dela, a pessoa se volte para algum ato; e diz-se que Aquele que o salvou lhe "causou" isto, por transposição: "e o D'us de Israel despertou o espírito de Pul, rei da Assíria" (I Divrei haYamim 5:26); "o Senhor despertou o espírito de Ciro, rei da Pérsia" (II Divrei haYamim 36:22); "o Senhor despertou contra Yehoram..." (II Divrei haYamim 21:16); "pois o Senhor os alegrou, e voltou para eles o coração do rei da Assíria" (Ezra 6:22); "e Amatsyahu não deu ouvidos, pois isto vinha de D'us..." (II Divrei haYamim 25:20); "e o rei não atendeu ao povo, pois esta volta vinha do Senhor" (I Melachim 12:15). Tudo isto é sobre a salvação do inimigo e do dano. Segundo, o dom do entendimento e a clareza do conselho, por um temperamento equilibrado, até que a pessoa compreenda as portas da religião e da sabedoria; e quem ouve isto pensa que é coação: "os teus caminhos, ó Senhor, faze-me conhecer; ensina-me as tuas veredas" (Tehillim 25:4), "ensina-me, Senhor, o teu caminho, e guia-me por vereda plana" (27:11), "desvia os meus olhos de verem a vaidade" (119:37), "também em Yehuda esteve a mão de D'us para lhes dar um só coração" (II Divrei haYamim 30:12). Terceiro, um sinal pleno que o Criador renova, e que se torna causa para que um grande povo creia; e o ouvinte pensa que o ato do povo crer é coação, como disse Eliyahu "responde-me, Senhor, responde-me, para que este povo saiba..." (I Melachim 18:37) — quer dizer que o fogo, ao descer e queimar a oferta, fará voltar com ele o coração do povo que está agora voltado para trás. E o mesmo no tempo da salvação: "e porei o meu espírito dentro de vós, e farei que andeis nos meus estatutos" (Yechezkel 36:26-27) não quer dizer coação, mas apenas a manifestação dos sinais e prodígios.
E, depois destes oito fundamentos, resta apenas aquilo em que o erro se deve ao modo de ler a sintaxe do versículo: "contra ti, só contra ti, pequei, e fiz o que é mau aos teus olhos, para que sejas justificado quando falares, puro quando julgares" (Tehillim 51:6) — o ouvinte pensa que este penitente diz ter pecado para que se cumprisse o que o seu D'us decretara a seu respeito. Mas o "para que sejas justificado" não se liga a "pequei"; liga-se, antes, ao que ele dissera acima, "e do meu pecado purifica-me" — ele diz: expia a minha iniquidade, para que se cumpra a tua palavra, aquela que disseste e decretaste, de que perdoas a quem volta para ti. E isto é usual na linguagem, como "clamaram, e o Senhor ouviu" (Tehillim 34:18) — que não se liga a "a face do Senhor está contra os que fazem o mal" 34:17, mas a "os olhos do Senhor estão sobre os justos" 34:16. E, com estas explicações, removem-se todas as dúvidas que imaginam a coação; e completa-se a justa exigência do nosso Criador sobre as suas criaturas, quanto ao seu serviço e à sua rebeldia: não têm elas argumento contra Ele, como diz o versículo "será o mortal mais justo que D'us? será o homem mais puro que o seu Criador?" (Iyov 4:17). E, uma vez estabelecidos os sinais plenos e a missão dos profetas — está completo o Tratado Quarto do livro.
O capítulo final do Tratado IV é um pequeno manual de hermenêutica. O seu princípio: a Torá fala "na linguagem dos homens" — ampla, figurada, enfática —, e por isso muitos versículos parecem dizer que D'us coage o homem. Saadia recusa-se a escolher entre a Escritura e a razão: mostra, em oito (na verdade, nove) tipos, como cada verso difícil se lê em acordo com a liberdade. É a convicção racionalista de que a revelação, bem entendida, nunca contradiz a razão — a mesma que o Rambam tornaria célebre.
A pedra de toque de toda a questão. "Endurecerei o coração do Faraó" parece o exemplo perfeito de coação divina. Saadia desfaz o nó: "endurecer" é fortalecer — dar ao Faraó a têmpera para suportar as pragas sem perecer de medo, de modo que pudesse seguir escolhendo livremente, e por isso responder pelos seus atos. D'us não lhe tirou a vontade; sustentou-lhe as forças. É uma leitura que salva, de uma só vez, a justiça de D'us e a liberdade do homem.
O quarto tipo é talvez o mais fecundo. Toda uma classe de versículos — "faz o ímpio", "engana o profeta", "faz errar" — se entende pela imagem do juiz: condenar é declarar a culpa, não criá-la. Quando a Escritura diz que D'us "enganou" um falso profeta, quer dizer que o revelou como tal. O ato permanece humano; D'us apenas o traz à luz. Com esta única distinção, dezenas de versos deixam de soar como determinismo.
O oitavo tipo reúne os versos em que D'us "desperta o espírito" de um rei ou "põe o seu espírito" no povo: o que D'us renova é a ocasião (uma salvação, uma mente sã, um milagre), dentro da qual o homem livremente decide. A Providência prepara o palco; a liberdade representa. Resolvido ainda um último caso de pura sintaxe, Saadia conclui: "removem-se todas as dúvidas que imaginam a coação". O homem é livre, D'us é justo, e "não será o homem mais puro que o seu Criador" (Iyov 4:17). Assim se encerra o Tratado IV — um dos cumes do racionalismo judaico sobre o livre-arbítrio.
Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IV (Obediência, rebeldia e livre-arbítrio), cap. 6 — capítulo final do Tratado —, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.
Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. O capítulo cita dezenas de versículos; entre eles, Bereshit 20; Shemot 7-14 (o coração do Faraó); Devarim 2, 24, 25, 28; Yeshayahu 6 e 63; Mishlei 3, 16 e 21; Yechezkel 14 e 36; e Tehillim 51, 34 e 119. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.