Entre tantas criaturas, qual é o alvo da criação? Saadia abre o Tratado IV com uma resposta elegante: o precioso fica sempre protegido no centro — a semente nas folhas, a gema no ovo, o coração no peito —, e, na criação inteira, esse centro é o ser humano. Posto isto, o tratado poderá perguntar: e o que se espera dele?
Disse Yehudá ben Shaul Ibn Tibbon, o tradutor; disse o autor Saadia: abro este tratado com uma introdução, dizendo que, embora vejamos que as criaturas são muitas, não devemos ficar perplexos quanto a qual delas é o alvo da criação — quero dizer: quem é. Pois há uma porta natural pela qual nos ficará claro quem é o alvo de todas as criaturas. E, ao investigarmos essa porta, achamos que o alvo é o ser humano.
Eis a porta: o costume e a arte da construção colocam toda coisa preciosa no meio das coisas que não são tão preciosas quanto ela. Comecemos pelo menor dos exemplos, e digamos: a semente está no meio de todas as folhas — pois a semente é mais preciosa do que elas, já que o brotar da planta e a sua forma vêm dela.
E o mesmo se dá nas árvores que delas crescem: se o que há de precioso é o fruto comestível, ele estará dentro, como na amêndoa; e, se o precioso está no caroço, o caroço estará no meio do fruto — e as pessoas nem se voltam para a polpa, deixando-a por fora, para com ela proteger a semente.
E assim a gema está no meio do ovo, pois dela vem o pinto. E assim o coração do homem está no meio do peito, por ser a morada da alma e do calor natural. E assim a pupila está no meio do olho, pois nela está a visão. E, ao vermos que isto se dá na maioria das coisas —
— e ao ver eu a Terra no meio dos céus, com as esferas a rodeá-la por todos os lados, ficou estabelecido para nós que o alvo da criação está na Terra. Depois, olhámos para todas as suas partes: vimos a poeira e a água, ambas inanimadas; achámos os animais, sem fala; e não restou senão o ser humano. E tornou-se claro para nós que ele é, sem dúvida, o alvo da criação.
E investigámos os livros, e neles achámos a palavra do Criador: "eu fiz a terra, e criei o homem sobre ela" (Yeshayahu 45:12). E vê-se que, desde o início, a Torá relatou todas as criaturas e, ao completá-las, disse: "agora, façamos o homem" (Bereshit 1:26) — como quem constrói um palácio, o dispõe e o prepara, e só depois traz para dentro o seu dono.
Saadia abre o tratado sobre a liberdade e a responsabilidade com uma pergunta de fundo: entre a imensidão das criaturas, qual é o alvo de tudo? A sua resposta nasce de um princípio observado na natureza — o que é mais precioso costuma ficar guardado no meio (a semente, a gema, o coração, a pupila). Aplicando-o à criação inteira, conclui que o ser humano é o ponto a que tudo se ordena: o único dotado de fala, de razão e de escolha.
O argumento usa a astronomia do seu tempo — a Terra no centro, rodeada pelas esferas. É justo reconhecer que a cosmologia mudou. Mas a tese de Saadia não depende da geografia do cosmos: ela é sobre valor, não sobre posição. Dizer que o homem é o "alvo" da criação é dizer que ele é o portador da vida moral e do conhecimento — aquilo para o qual o resto serve de cenário. É a mesma sobriedade do racionalismo judaico, que sabe distinguir a ciência de uma época da verdade que a Torá ensina.
A Escritura sela o argumento com uma imagem inesquecível: o homem é criado por último, como o dono que entra num palácio já pronto e mobiliado. Não é o detalhe final — é aquele para quem tudo foi feito. E aqui está a "porta" de todo o Tratado IV: estabelecido que o ser humano é o propósito da criação, a pergunta seguinte impõe-se — que se espera dele? É a questão da obediência e da rebeldia, da liberdade e da necessidade: se o homem é o alvo, então ele é também responsável.
Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IV (Obediência, rebeldia e livre-arbítrio), Introdução, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.
Traduziu-se a introdução inteira do Tratado IV a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Yeshayahu 45:12 e Bereshit 1:26. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.