Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 10 (conclusão)

Doze últimas dúvidas — e o fecho do Tratado III

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · י
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Para fechar o tratado, Saadia reúne doze últimas dúvidas — de discrepâncias entre versículos a perguntas sobre os sacrifícios, a circuncisão, a novilha vermelha e "Azazel" — e mostra que cada uma se desfaz à luz da razão. Entre elas, duas joias racionalistas: o Templo não é necessidade de D'us, e "Azazel" não é um demônio, mas um lugar.

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Depois de tratar da ab-rogação, e de mencionar as confusões que sobem ao coração — por causa da morte dos profetas, do seu comer e beber, do casar-se e da violência que sobre eles recai —, e de tratar dos relatos que parecem aplicar-se ao Criador (a recusa da corporificação, a questão da sabedoria, do poder e dos atributos), vejo que devo acrescentar doze pontos. Penso que, se não falar de cada um, os corações se confundirão e a fé se arruinará; e, ao esclarecê-los, cai o domínio das dúvidas, e os corações purificam-se, como se purificaram dos primeiros. O primeiro: talvez alguns hesitem em apoiar-se neste livro, por nele não estarem explicados os pormenores dos mandamentos. Digo: este não é o único canal da nossa Torá; temos, além dele, outros dois — um ao seu lado, o manancial da razão; e outro depois dele, a fonte da tradição. O que não acharmos aqui, completam-no os mandamentos, na sua quantidade e na sua qualidade, por esses canais.

ואחרי אשר דברתי בעניני הבטול במה שזכרתיו, וזכרתי הערבובים העולים על הלבבות; בעבור מות הנביאים ואכילתם ושתיתם ומשגלם והחמס העובר עליהם, להבר את הלבבות אשר כמעט שיפסדו בעבורם. וזכרתי עוד מהספורים הנופלים על הבורא, בהרחקת הדמות, ושער החכמה והיכולת והתארים, אשר אם הייתי סובלם, הייתי ירא שיכפרו בני אדם. אני רואה שאחבר אליהם שנים עשר ענינים, אני חושב; שאם לא אדבר על א' מהם, יתבלבלו לבות בני האדם, ותפסד אמונתם. וכאשר נבארם, יסוד שלטון ספקותם, ויברו הלבבות מהם, כאשר התבררו מן הראשונים. ואומר: אולי קצת בני אדם מקצרים להחזיק בספר הזה, בעבור שאין פרושי המצות מבוארים בו. ואומר: כי איננו לבדו המשך לתורתינו, אך יש לנו זולתו שני משכים אחרים. אחד מהם לנפיו, והוא מבוע השכל. והשני אחריו, מוצא הקבלה. ומה שלא מצאנוהו בהם והשלימו בה המצות בכמותם ואיכותם בזה.
Nota — este livro é filosofia, não um código. Saadia abre o fecho com uma definição preciosa do seu próprio projeto: Emunot veDeot não substitui a Lei prática. A Torá chega-nos por três canais — este livro (os fundamentos, pela razão), e ainda o "manancial da razão" e a "fonte da tradição", que juntos dão os pormenores dos mandamentos (a halachá). Filosofia e halachá não competem: são canais distintos de uma só Torá.
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O segundo: talvez alguém hesite por julgar haver uma contradição — como quando em Shmuel se diz que "Israel era de oitocentos mil homens" (II Shmuel 24:9), e em Crônicas "todo o Israel era de um milhão e cem mil" (I Crônicas 21:5). Digo: cerca de trezentos mil estavam inscritos no registo do rei — vinte e quatro mil por mês (I Crônicas 27:1) —, e o autor de Shmuel omitiu de uma contagem os já inscritos no exército, que foram contados na outra. O terceiro: talvez o leve a duvidar o pensar que há ali uma afirmação falsa — que o filho seria dois anos mais velho que o pai: Yehoram ben Yehoshafat morreu aos quarenta, e Achazyahu, seu filho, o sucedeu; e em Reis (II Reis 8:26) está escrito que tinha vinte e dois anos, e em Crônicas (II Crônicas 22:2), quarenta e dois. Digo: os vinte e dois contam a sua vida, e os quarenta e dois, a vida da casa de sua mãe — mencionada porque foi por causa dela que Achazyahu morreu. E, se alguém objetar "como atribuir o filho a uma contagem anterior à sua existência?", investiguei o caso: um de Israel pedia um filho e fazia um voto anos antes de lhe ser concedido, e, ao recebê-lo, chamava-o "filho do meu voto" (bar nedarai) — como em "que direi, meu filho? e que, filho do meu ventre? e que, filho dos meus votos?" (Mishlei 31:2). Assim os que buscam a verdade aprofundam-se, até que o caminho se lhes aclare.

והשני אולי אחד מקצר מהחזיק בו, בעבור שחושב שיש בו סתירה, כאמרו בשמואל (ש"ב כ"ד ט') ויהי ישראל שמונה מאות אלף איש ובדברי הימים (א' כ"א ה') ויהי כל ישראל אלף אלפים ומאה אלף איש. ואומר כי קרוב לשלש מאות אלף היו כתובים בספר המלך ארבעה ועשרים אלף לכל חדש, כמו שאמר (שם כ"ז א') לכל חדשי השנה המחלוקת האחת ארבעה ועשרים אלף, והפילו מן הנבואה האחת הכתובים, ונכתבו באחרת. השלישי אולי יביאהו לזה מחשבו שיש בו הגדה שהיא שקר, שיהיה הבן גדול מן האב שנתים, כי יהורם בן יהושפט מת והיו לו ארבעים שנה, ועמד אחזיה בנו תחתיו, ונכתב במלכים (ב' ח' כ"ו) שהיו לו שנים ועשרים שנה, ובדברי הימים (ב' כ"ב ב') שנים וארבעים שנה. ואומר כי מנין שנים ועשרים שנה לחייו, ומנין השנים וארבעים שנה לחיי אמו, והיתה העלה בזה כי בעבורה מת. ואם יתבענו תובע: איך ייחסו הבן אל מנין שהיה קודם הויתו? והנה חקרתי על ענין זה, ומצאתיו שיהיה אחד מבני ישראל מבקש הבן ונודר נדר קודם שיוחן אותו בשנים, וכאשר יוחן אותו יקראהו בן נדרי, כמו שאמר (משלי ל"א ב') מה ברי ומה בר בטני ומה בר נדרי. וכן מעמיקים מבקשי האמת על הענינים עד שיתברר להם הדרך.
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O quarto: talvez alguém se apresse a objetar sobre os sacrifícios — quer pelo abate dos animais, quer pela queima do sangue e da gordura. Digo: o Criador decretou a morte sobre todo ser vivo, fixou a cada homem os seus dias e fixou a medida da vida dos animais até o momento do abate — pondo o abate em lugar da morte natural. E, se há no abate uma dor maior do que a da morte, Ele o sabe, e seria então justo dar ao animal compensação por essa dor — e isto dizemos se a dor adicional se estabelecer pela razão, não por mera alegação de profecia. Quanto à queima do sangue e da gordura, a Torá já explicou que isto foi posto para que o homem contemple: pois a nossa alma habita no sangue, como está dito "porque a alma da carne está no sangue" (Vayikrá 17:11). E, ao vermos isto, voltamos à nossa alma e dizemos: não continuemos a pecar, para que não se derrame o nosso sangue nem se queime a nossa gordura — como vemos acontecer ao animal.

והרביעי אולי ימהר ממהר בעבור מצות הקרבנות, אם לשחוט הבהמות או להקטרת הדם והחלב. ואקרב הענין הזה ואומר: כי הבורא גזר על כל בעלי חיים במות, ושם לכל אדם ימי חייו, ושם מדת חיי הבהמות לעת שחיטתה, ושם השחיטה במקום המות. ואם יש בשחיטה צער יותר על צער המות, הוא היודע זה, וראוי אז לתת להם שעור תמורת הצער ההוא. ונאמר זה, אם תתברר התוספת בשכל לא בנבואה. אבל הקטרת הדם והחלב כבר בארה התורה שהושם זה, שיתבונן האדם בו, כי נפשותינו משכנם הדם, וכמו שאמר (ויקרא י"א) כי נפש הבשר בדם הוא. וכאשר נראה זה נשוב אל נפשנו לאמר: לא נוסיף לחטא, שלא ישפכו דמנו וישרפו חלבנו, כאשר אנחנו רואים.
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O quinto: talvez alguém pense: como pôs o Criador a sua luz entre os homens, e deixou os anjos puros sem ela? Dizemos: e quem te disse que Ele os deixou sem luz? É possível que entre eles tenha posto o dobro da que pôs entre os homens — tanto mais que a Escritura diz "D'us é grandemente temido no conselho dos santos, e terrível acima de todos os que o cercam" (Tehillim 89:8). O sexto: talvez alguém se admire da obra do Tabernáculo e diga: que tem o Criador com uma tenda e um véu, lâmpadas acesas, uma voz em canto, pão assado, um bom aroma, oferta de farinha, vinho, óleo e frutos? Digo, e em D'us me amparo: tudo isto é dos modos do serviço (avodá), não da Sua necessidade — pois a razão já decidiu que Ele de nada precisa, e que toda necessidade vem a Ele. Antes, Ele quis que os seus servos O servissem com o bem que têm; e o bem que têm é a carne, o vinho, a farinha, o incenso, o óleo, as coisas agradáveis; e trazem deles um pouco, conforme a sua capacidade, e Ele os retribui com muito, conforme a Sua — "honra o Senhor com os teus bens... e os teus celeiros se encherão de fartura" (Mishlei 3:9-10). E livra-os de males de que nenhum outro os livraria, por causa desse serviço — "oferece a D'us ação de graças... e invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei" (Tehillim 50:14-15). E os servos honram o lugar daquela luz, chamada Shechiná, com os seus bens, e Ele os retribui mostrando-lhes a profecia a partir daquele Tabernáculo — "e ali me encontrarei com os filhos de Israel, e o lugar será santificado pela minha glória" (Shemot 29:43); e ele torna-se também onde se ouve a oração da nação em toda angústia, como Salomão relatou ao construir o Templo, e o Criador lhe disse "ouvi a tua oração e a tua súplica" (I Reis 9:3).

והחמישי אולי חושב יחשוב: איך השכין הבורא אורו בין בני אדם והניח המלאכים הטהורים. ונאמר ומי הודיעך שהניח המלאכים הטהורים בלא אור? כי אפשר, שכבר השכין הבורא ביניהם מאורו כפלים ממה ששמו בין בני אדם, כל שכן שהכתוב אמר (תהל' פ"ט ח') אל נערץ סוד קדושים רבה ונראה על כל סביביו, רוצה לומר: מי שהוא סביב האור ההוא. והששי אולי יתמה ממעשה המשכן ויאמר: מה לבורא לאהל ולמסך, ולנרות מודלקות, ולקול נשמע לנגון, וללחם אפוי, ולריח טוב, ולמנחת סולת ויין ושמן ופירות, והדומה לזה? ואומר ובאלהים אעזר, כי אלה כלם מדרכי העבודה, לא מדרך הצורך. כי כבר דן לו השכל שאיננו צריך אל דבר, אבל צורך הכל אליו. אך כוון שיעבדוהו עבדיו מן הטוב שיש להם; והטוב מה שיש להם, הבשר והיין והסלת והקטרת והשמן והדברים הערבים, ויביאו מהם דבר מועט, כפי יכלתם, ויגמלם הוא בדבר רב כפי יכלתו, כמו שאמר (משלי ג' ט') כבד את י"י מהונך וגו' וימלאו אסמיך שבע וגומר. ויצילם מרעות שלא יצילם אחר מהם זולתו, בעבור העבודות ההם, כמו שאמר (תהלים נ' י"א) זבח לאלהים תודה ושלם לעליון נדריך וקראני ביום צרה אחלצך וגו'. ויכבדו משכן האור ההוא, שנקרא שכינה, מממונם בזהב וכסף ובאבנים היקרים ושאר הדברים הנכבדים, ויגמלם על זה, שיראה להם הנבואה מן המשכן ההוא, כמו שאמר על המשכן (שמות כ״ט:מ״ג מ"ג) ונועדתי שמה לבני ישראל ונקדש בכבודי. וכן ישוב מקום לשמוע תפלת האומה וכל צרה שתמצאם, כאשר ספר שלמה בבנותו הבית משערי שמיעת התפלות, ואמר לו הבורא (מ"א ט' ג') שמעתי תפלתך ואת תחנתך אשר התחננת לפני.
Nota — o Templo não é necessidade de D'us. Eis um princípio racionalista central, e Saadia o crava: D'us de nada precisa — "toda necessidade vem a Ele". O Tabernáculo, com as suas lâmpadas, pães e aromas, não supre uma carência divina; é um modo de relação. O homem oferece um pouco do seu bem; D'us retribui com muito — com a Sua proteção, a Sua Presença, a profecia e a oração ouvida. O culto não alimenta D'us; eleva quem o presta.
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O sétimo: alguém pensa, sobre certos mandamentos: como é que o homem, com o corpo na sua criação completa, não é íntegro, e, ao cortar-se dele algo conhecido, torna-se íntegro? Refiro-me à circuncisão (milá). Esclareço: "íntegro" é aquilo em que não há nem acréscimo nem falta; o Criador criou este membro como um acréscimo no homem — e, ao cortá-lo, o acréscimo é removido, e ele permanece íntegro. O oitavo: alguém pensa, sobre a novilha vermelha (pará adumá): como é que o seu mandamento purifica os impuros e ao mesmo tempo torna impuros os puros que dela se ocupam? Dizemos: não é estranho que uma só coisa produza dois efeitos opostos, conforme o corpo que toca. Pois vemos o fogo derreter o chumbo e coalhar o leite; a água umedecer uma madeira e secar outra; o bom alimento aproveitar ao faminto e prejudicar o saciado; o remédio precioso curar o doente e prejudicar o são. Não é, pois, estranho que algo purifique o impuro e torne impuro o puro.

והשביעי שיחשוב בחלקי המצות: איך יהיה האדם בעוד גופו בבריאתו השלמה איננו תמים, וכאשר יכרות ממנו דבר ידוע, יהיה תמים; רצוני בזה: המילה? ואבאר כי הדבר השלם הוא, אשר אין בו לא תוספת ולא חסרון, וברא הבורא זה האבר תוספת באיש, וכאשר יכרתנו תסור התוספת, וישאר שלם. והשמיני שיחשב בענין פרה אדומה: איך היתה מצותה שתטהר הטמאים ותטמא הטהורים? ונאמר איננו דבר זר שיפעל דבר אחד שני פעלים זה הפך זה, בערך על הגוף הפוגע בו. כי אנחנו רואים, האש מתכת העופרת, ומקפיאה החלב, ונראה המים מרטיב עץ הארז ומנגב העץ הנקרא אלגמי"ז ונמצא המאכל הטוב מועיל הרעב, ומזיק השבע. ונמצא הרפואה החשובה תועיל לחולה, ותזיק לבריא. ואיננו זר שיהיה דבר מטהר הטמא, ומטמא הטהור.
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O nono: o sacrifício que ofereciam a Azazel no Dia da Expiação — pois alguns imaginaram que Azazel fosse o nome de um demônio (shed). Digo: Azazel é o nome de um monte, como se vê noutro lugar — "Amatzyahu feriu Edom no Vale do Sal... e tomou o rochedo (Sela) em combate, e chamou-lhe Yokte'el até hoje" (II Reis 14:7); e do mesmo modo Yavne'el e Yirpe'el — todos são nomes de lugares. E, dos dois bodes, um ofereciam-no pelos sacerdotes, no Templo; e o outro, pela multidão, fora do Templo, por via de distinção. Quanto ao lançar das sortes — que parece o mais estranho —, esclareço: não é por haver um destinatário diferente um outro "deus"!; ambos são oferta a um só D'us. O lançar das sortes é apenas pela diferença daqueles em favor de quem se oferece — os sacerdotes e o restante de Israel; e convém lançá-las primeiro, para que, tendo cada um o seu, o ofereça então em favor da sua própria alma, com a clareza de que é a sua porção.

והתשיעי הקרבן אשר היו מקריבים לעזאזל ביום הכיפורים, כי כבר נדמה לבני אדם שהוא שם שד. ואומר: כי עזאזל שם הר, כמו שאמר במקום אחר (מ"ב י"ד ז') הוא הכה את אדום בגיא מלח עשרה אלפים ותפש את הסלע במלחמה ויקרא שמה יקתאל עד היום. וכן יבנאל וירפאל הכל מקומות. והיה אחד משני השעירים מקריבים אותו על הכהנים במקדש, והאחר מקריבים אותו על ההמון חוץ למקדש, על דרך היתרון. אבל ענין הפלת הגורלות אשר הוא יותר זר ממה שיש בענין. אבאר: כי אין זה לשנוי המוקרב לו, אך הם שניהם קרבן לאלוה אחד. אך הפלת הגורלות בעבור שנוי המוקרב בעדם, והם כהנים וישראל. וראוי שיפילו גורלות תחלה, וכאשר יהיה לכל אחד שלו, אז יקריב אותו בעד נפשו בבירור שהוא קנין לו.
Nota — "Azazel" não é um demônio. Contra a imaginação popular, Saadia é categórico: Azazel é um topônimo (um monte/rochedo), como Yokte'el ou Yavne'el — não o nome de um "demônio". E o ponto decisivo: os dois bodes são oferta a um só D'us; o sorteio não destina um deles a "outro poder", mas apenas reparte em favor de quem cada um é oferecido. É a mesma recusa rigorosa de qualquer "segundo poder" que percorre todo o tratado da unidade divina.
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O décimo: objeta-se sobre a novilha de pescoço quebrado (eglá arufá): como se expia ao povo um pecado que não cometeu? — pois o trecho começa "se for achado um morto... e não se souber quem o feriu" (Devarim 21:1). Digo: assim como é justo castigar o homem por fazer o que não devia, é justo castigá-lo por deixar de fazer o que devia. Estes habitantes, se tivessem posto guardas e rondas na cidade, saber-se-ia quem o feriu; e, por não o terem feito, incorreram numa pena — não só no valor daquele animal, mas também na proibição de semear em parte dos seus campos. O décimo primeiro: alguém que vê a nação que se apega a esta Torá pobre e desprezada. Dizemos: se D'us tivesse dado ao povo da Torá uma soberania permanente, os que negam diriam que ele serve o seu D'us apenas para preservar os próprios interesses — como sabes que disseram a respeito de Iyov Jó. E o próprio povo diria que não O serviu por Ele, visto que Ele o humilhou e não lhe deu reino. Mas o Criador exaltou aqueles outros povos, e estes não creram — e a acusação contra eles permanece; e humilhou estes Israel, e não O negaram — e o juízo favorável é deles, como está dito: "não voltou atrás o nosso coração, nem se desviaram os nossos passos do teu caminho" (Tehillim 44:18-19).

והעשירי אומר על עגלה ערופה איך יכופר בה לעם עון שלא עשוהו, כי כבר הקדים בתחלת הענין (דברים כ"א א') כי ימצא חלל לא נודע מי הכהו? ואומר: כמו שראוי ליסר האדם על שותו, מה שאין ראוי לעשותו, כן ראוי ליסרו על עזבו לעשות, מה שראוי לעשותו. ואלה הנזכרים, אילו היו מעמידים שומרים וסובבים בעיר, היה נודע מי הכהו, וכאשר לא עשו כן, התחייבו בעונש, ולא בשיעור דמי הבהמה ההיא בלבד, אך במניעותם מן הזריעה בקצת שדותם. והאחד עשר שהוא רואה האומה המחזקת בתורה הזאת דלה ונקלה? ונאמר: אלו שם לאנשי התורה המלכות התמידה, היו אומרים עליהם הכופרים, כי אינם עובדים אלהיהם כי עם לשמירת תאותם, וכאשר ידעת שאמרו על איוב. והיו עוד אומרים על נפשם, כי לא עבדו בעבור שהשפילם והזילם, ולא נתן להם מלכות, והגדיל הבורא אלה ולא האמינו, ונתקיימה עליהם הטענה, והשפיל אלה ולא כפרו בו, והתחייב הדין להם, וכמו שאמרו (תהל' מ"ב י"ט) ולא נסוג אחור לבנו ותט אשורנו מני ארחך.
Nota — a pobreza como prova da fé. A objeção é a de sempre: se esta é a verdadeira Torá, por que o seu povo é "pobre e desprezado"? Saadia inverte-a com elegância. Se Israel prosperasse sempre, dir-se-ia que serve a D'us pelo lucro — a mesma acusação que o adversário lançou contra Iyov. É justamente por servir na humilhação, sem recompensa visível, que a sua fé se prova desinteressada: "não voltou atrás o nosso coração".
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O décimo segundo: alguém que não achou na Torá recompensa nem castigo no mundo vindouro, mas só a recompensa terrena. Digo: já dediquei a este assunto um tratado à parte — o Tratado IX —, no qual esclarecerei tudo o que é preciso sobre esta questão, com a ajuda do Criador, bendito seja. Conclui-se aqui o Tratado III — "O mandamento e a revelação".

והשנים עשר כי לא מצא בתורה גמול ולא עונש בעולם הבא, אבל מצא בה הגמול העולמי בלבד? ואומר כבר יחדתי לזה הענין מאמר בפני עצמו הוא המאמר התשיעי, אבאר בו כל מה שצריך אליו בענין הזה, בעזרת הבורא יתברך:

Sobre esta seção · עִיּוּן

Um livro de filosofia, não um código

Saadia começa o fecho situando a sua própria obra: Emunot veDeot trata dos fundamentos, não dos pormenores práticos. Quem procurar nele as regras da halachá não as encontrará — e nem deve: a Torá chega por três canais, este livro (a razão) ao lado da tradição, e juntos completam o todo. É uma divisão de trabalho, não uma lacuna.

Por que há sacrifícios — e por que "Azazel" não é demônio

Duas das doze respostas brilham pela sua sobriedade racionalista. Sobre o Templo: D'us de nada precisa — a tenda, os pães e os aromas não suprem uma carência divina, mas são um modo de relação, em que damos um pouco do nosso bem e Ele retribui com a Sua Presença. E sobre Azazel: não é um "demônio", mas um topônimo; os dois bodes do Yom Kippur são oferta a um D'us, e o sorteio apenas reparte em favor de quem cada um é trazido. A mesma firmeza contra qualquer "segundo poder" que rege todo o livro.

A pobreza de Israel, e o fecho do Tratado III

A penúltima dúvida toca a ferida do exílio — por que o povo da Torá é humilhado? E a resposta é uma teodiceia da fé desinteressada: servir a D'us sem recompensa visível é o que prova que não se O serve por interesse (como insinuara o adversário de Iyov). A última dúvida — a do mundo vindouro — Saadia remete ao Tratado IX. Com isso encerra-se o Tratado III, "O mandamento e a revelação": dos dois tipos de mitsvá à necessidade dos profetas, da verdade da tradição à eternidade da Torá, e às dúvidas que, uma a uma, se dissolvem diante da razão.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 10 — o capítulo que encerra o Tratado III —, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a II Shmuel 24:9; I Divrei haYamim 21:5 e 27:1; II Melachim 8:26 e 14:7; II Divrei haYamim 22:2; Mishlei 31:2 e 3:9-10; Vayikrá 17:11; Tehillim 89:8, 50:14-15 e 44:18-19; Shemot 29:43; I Melachim 9:3; e Devarim 21:1. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.