Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 5

A certeza do profeta — e por que a magia não é milagre

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · ה
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Como o próprio profeta sabia que ouvia D'us, e não a sua imaginação? Por um sinal — a nuvem, o fogo, a luz — que às vezes o povo também via. E como distinguir um milagre de um truque de mágico? Saadia responde com dois critérios: o milagre é aberto e vasto demais para ser manipulado. Ao fim, o enigma de Yonah: por que um profeta fugiria de D'us?

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Verifiquei também como os próprios profetas se certificavam de que aquilo que ouviam vinha do Criador, antes mesmo de o transmitir ao povo. É que lhes aparecia um sinal, que começava com o início da fala e se completava com o seu fim: uma coluna de nuvem, uma coluna de fogo, ou uma luz clara, distinta das luzes habituais. E, quando o profeta via isso, ficava-lhe claro, sem dúvida, que a fala vinha do Criador.

ועמדתי על שהנביאים היה מתאמת אצלם, שהדבר שהיו שומעים, היה מאת הבורא קודם שייחסהו הבורא אצל עמו, והוא, שהיה נראה לו אות מתחלת עם התחלת הדבור, ותשלם עם השלמתו, והיא אם עמוד ענן, או עמוד אש, או אור בהיר, מבלעדי האורים הרגילם, וכאשר רואה הנביא זה, יתברר לו בלי ספק, כי הדבור מאת הבורא.
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E é possível que também o povo o visse — como acontecia com Moshé: quando ele se separava deles para ir ao lugar da profecia, ficavam de pé, olhando o ar, que estava límpido, sem nuvem, e os olhos fixos em Moshé. Ao chegar ele ao lugar da profecia, descia a nuvem em coluna e permanecia até D'us falar com ele; depois subia, e ele voltava para eles — como está dito: "e sucedia que, ao sair Moshé para a tenda, todo o povo se levantava, e cada um ficava de pé à entrada da sua tenda" (Shemot 33:8). E, quando ele voltava e transmitia a sua missão, diziam: "É verdade — nós vimos a limpidez do ar antes da tua chegada, e a descida da coluna de nuvem ao chegares, e a sua permanência durou o tempo em que ouviste as palavras que nos disseste."

ואפשר שיראוהו גם כן העם, כמו שהיו עם משה כשהיה נפרד מהם ללכת אל מקום הנבואה, היו עומדים ומביטים באויר, והוא צח בלי ענן, ועיניהם אל משה. וכאשר היה מגיע למקום הנבואה, היה יורד הענן בעמוד, ויעמוד עד אשר ידבר עמו, ויעלה וישוב אליהם, כמו שאמר (שמות ל"ג ח') והיה כצאת משה אל האהל יקומו כל העם ונצבו איש פתח אהלו. וכאשר ישוב אליהם ויגיע שליחותו, היו אומרים: אמת, אנו ראינו נקיות האויר קודם הגיעך, וירידת עמוד הענן בהגיעך, והיה עכובו כשיעור שמעך הדברים אשר אמרת אלינו.
Nota — o sinal que o profeta via. Antes de saber se devemos crer no profeta, é o próprio profeta que precisa saber que ouve D'us, e não a sua imaginação. Saadia responde: a profecia vinha acompanhada de um sinal visível — a coluna de nuvem, de fogo, ou uma luz clara — que começava e terminava com a fala. E, no caso de Moshé, até o povo o testemunhava de fora, cronometrando a nuvem pela duração da mensagem. A revelação não é, para Saadia, um estado subjetivo incontrolável: tem uma marca objetiva.
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E mais: encontrei alguns profetas em cujo relato não se explicita que D'us lhes falava por uma coluna de nuvem — mas esclarece-se, noutro livro, que a sua profecia era assim. Pois Shmuel é mencionado junto com Moshé e Aharon, e a Escritura diz a respeito de todos: "numa coluna de nuvem lhes falava" (Tehillim 99:7). E, achando isto quanto a Shmuel, não há dúvida de que muitos profetas eram como ele.

ועוד, כי מצאתי קצת נביאים אשר לא פורש בענינו שהיה מדבר אליו בעמוד ענן, התבאר מענינו בספר אחר שהיתה נבואתו כן. כי שמואל הובא עם משה ואהרן, ואמר על הכל (תהלים צ"ט ז') בעמוד ענן ידבר אליהם, וכאשר מצאתי כזה בשמואל, אין ספק, כי רבים מהנביאים כמוהו.
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E, se alguém perguntar: como os magos do Egito se opuseram a Moshé e aos seus sinais? — respondemos: dos dez sinais que Moshé fez (a vara que virou serpente e os outros nove), a Torá só menciona que os magos fizeram três contra ele; e mesmo esses três, a Torá não os mencionou para igualá-los a ele, mas para mostrar a diferença entre o que ele fez e o que eles fizeram. Pois esclareceu que Moshé fez algo aberto, como o Senhor ordenou, enquanto eles fizeram algo oculto e dissimulado — por manobra, em que se vê o truque —, como disse a respeito dos três: "e os magos fizeram o mesmo com os seus encantamentos secretos (be-lateihem)" (Shemot 7:11). E essa palavra, na língua, aplica-se ao que é oculto e velado: como em "eis que está envolta (lutá) num manto, atrás do efod" (I Shmuel 21:10), "o véu (ha-lot) que cobre todos os povos" (Yeshayahu 25:7), "cobriu (va-yalet) o rosto com o manto" (I Melachim 19:13), "o rei cobriu (la'at) o rosto" (II Shmuel 19:5), e semelhantes. E, ao a Torá especificar "com os seus encantamentos", tornou claro que isso era para desmerecer o ato deles, não para confirmar a sua veracidade — assim como, ao dizeres "Reuven disse palavras retas, e Shimon, palavras tortas", não pretendes igualar os dois, mas distingui-los.

ואם ישאל שואל איך עמדו החרטומים כנגד משה ואותותיו? נאמר: כי האותות אשר עשה משה עשרה, הפיכת המטה והתשעה האחרים, לא זכרה התורה שעשו נגדו, כי אם השלשה, והשלשה גם כן לא זכרה התורה להשוות בינם ובינו, אבל זכרה זה לשנות מעשהו ומעשיהם. והוא שבארה שמשה עשה דבר נראה, כאשר צוה י"י, ושאלה עשו דבר נסתר ונעלם, כאשר חוקרים עליו ומגלים אותו, ותראה התחבולה בו, כמו שאמרה בשלשה (שמות ז' י"א) ויעשו החרטומים בלטיהם, וזאת המלה בלשון נופלת על הדבר הנסתר והנעלם, כמו שאמר (ש"א כ"א י') הנה היא לוטה בשמלה אחרי האפוד. וכמו (ישעי' כ"ה ז') פני הלוט הלוט על כל העמים. (מ"א י"ט י"ג) וילט פניו באדרתו. (ש"ב י"ט ה') והמלך לאט את פניו. (ש"א י"ח כ"ב) דברו אל דור בלט, והדומה להם. וכאשר פרשה התורה באמרה בלהטיהם, או בלטיהם, התבאר כי זה לגנות פעלם לא לאמתו. וזה שאמרך: אמר ראובן דברים ישרים, ואמר שמעון דברים מעוותים, או תאמר עשה לוי מעשה טוב, ועשה שמעון מעשה רע, כי אינך מכוין כי אם להבדיל בין שני המאמרים ושני המעשים, לא להשוות ביניהם
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E, posto este princípio, não preciso mostrar como lhes era possível fazer um truque com pequenas porções de água, mudando-lhes a cor, ou como lançavam algo em certos charcos para deles afugentar as rãs. Pois tais artifícios não são possíveis em grandes massas: o que Moshé fez foi mudar toda a água do Nilo — cuja extensão é uma jornada de quatrocentas parsa'ot, de Assuão ao Delta — e do mesmo modo fez subir as rãs de todo ele. Isso é impossível por truque ou astúcia: é a obra do Poderoso, Sábio e Capaz, como está dito: "Àquele que sozinho faz grandes maravilhas" (Tehillim 136:4).

וכיון ששמתי זה השרש, איננו צריך בו להראות, איך היה אפשר בו שיעשו תחבולה בחלקים מעטים מן המים, ומשנים אותם בצבעים, ואיך היו משליכים בקצת אגמי המים, לבריח מהם הצפרדעים, אלא שאלו החלקים לא יתכן כמוהם בגרמים הגדולים, אבל אשר עשה משה ששנה מי היאור כלם, ושעורו מהלך ארבע מאות פרסה מעלא"ק עד מריו"ט. וכן העלה הצפרדעים מכלו, מה שאי אפשר בו תחבולה ולא ערמה, אבל הוא מעשה העזוז החכם היכול, כמו שאמר (תהלים קל"ו ד') לעושה נפלאות גדלות לבדו.
Nota — magia não é milagre. Eis um dos argumentos mais racionalistas de toda a obra, e ecoa o que a tradição sempre disse contra a magia. Como distinguir o sinal de Moshé do "feito" dos magos? Por dois critérios. Primeiro, a própria palavra da Torá: be-lateihem ("encantamentos") deriva da raiz do oculto, do dissimulado — Saadia prova-o alinhando versos onde a mesma raiz significa "encobrir" —; ou seja, a Escritura já marca o ato deles como truque, não como verdade. Segundo, a escala: um ilusionista altera um pouco de água num charco, mas não transforma todo o Nilo, por 400 parsa'ot. O milagre verdadeiro é aberto e vasto demais para ser manipulado.
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E, se alguém perguntar: como Yonah foi escolhido para a sua missão e dela fugiu — sendo que o Sábio não escolhe quem O desobedeça? — digo: examinei o caso de Yonah e não encontrei escrito que ele tenha deixado de cumprir a primeira missão; e, embora não o tenha encontrado dito, também afirmo que ele a cumpriu — pois sou obrigado a crer nisso, como de todos os profetas: que o Sábio não escolheu para a sua missão quem não a cumprisse. E, de fato, a Escritura diz, em vários lugares, "e o Senhor falou a Moshé, dizendo: fala aos filhos de Israel" — sem que se explicite "e assim falou Moshé aos filhos de Israel", a não ser nalguns casos.

ואם ישאל שואל איך נבחר יונה לשליחותו וברח ממנה, והחכם איננו בוחר, מי שימרהו? אומר: כבר הסתכלתי בדבר יונה ולא מצאתי כתוב שאומר, כי הוא לא הגיע השליחות הראשונה, אף על פי שלא מצאתיו, גם כן אומר שהגיע אותה, אך חויבתי להאמין בזה כדרך כל הנביאים. ושהחכם לא בחר לשליחותו מי שלא יגיענה, וכבר מצאתי הכתוב אומר (בכמה מקומות) וידבר י"י אל משה לאמר, דבר אל בני ישראל לאמר, ואיננו מפורש וידבר משה כן אל בני ישראל כי אם בקצתם.
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Mas Yonah fugiu por dois motivos — temendo que D'us o enviasse uma segunda vez na sua missão. Pois ocorreu-lhe que a primeira fora um aviso, e a segunda seria para ameaçar com o castigo; e Yonah temeu que D'us os advertisse de algo, e eles se arrependessem, de modo que a ameaça fosse retirada não cumprida e o atribuíssem à falsidade. Por isso saiu da terra em que o Criador designara que houvesse profecia. E isto está explícito no fim das suas palavras: "ah, Senhor! não foi isto o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso me adiantei a fugir para Tarshish" (Yonah 4:2). E nisto não houve pecado da sua parte, porque o seu D'us ainda não lhe dissera "eis que te envio uma segunda vez"; foi algo que lhe veio ao coração, e ele quis evitar o que poderia, ou não, acontecer. E o nosso D'us fê-lo voltar, por necessidade, à terra designada, até profetizar por ele e enviá-lo — e a sua sabedoria se cumpriu.

אבל ברח יונה משני דברים, שישלחהו פעם שנית בשליחותו, כי עלה בלבו כי הראשונה התראה, והשנית לאיים ולהפחיד בעונש, ופחד יונה שייעדם בדבר וישובו, ויסתלק הוועד ההוא, וייחסו אותו אל הכזב, ויצא מן הארץ אשר יעדם הבורא שתהיה בו הנבואה. וזה מפורש באחרית מאמרו (יונה ד' ב') אנא י"י הלא זה דברי עד היותי על אדמתי על כן קדמתי לברוח תרשישה. ולא היה עליו בזה חטא, מפני שלא אמר לו אלהיו הנני שולח אותך שנית, אבל היה זה דבר שעל על לבו ודחה מה שאפשר להיות או שלא להיות, והשיבו אלהינו אל הארץ המיוחדת בהכרח, עד שנבא אותו ושלחו, ונשלמה חכמתו:
Nota — por que Yonah fugiu. O enigma é antigo: se D'us não escolhe quem O desobedeça, como Yonah fugiu? Saadia desfaz o nó com finura. Yonah cumpriu a sua primeira missão; o que ele temia era um segundo envio — e o motivo da fuga não foi rebeldia, mas o medo de ser tomado por falso profeta: se ele anunciasse a ruína de Nínive e o povo se arrependesse, o decreto seria suspenso, e ele pareceria mentiroso. É uma janela sobre a natureza da profecia de advertência: um aviso que dá certo "falha" como previsão — e essa é justamente a sua glória, não a sua falha (cf. Rambam, sobre a profecia condicional).

Sobre esta seção · עִיּוּן

Como o profeta sabia que era D'us

Antes de o povo ter de crer no profeta, é o profeta que precisa de certeza. Saadia recusa a ideia de uma revelação puramente subjetiva: a profecia vinha com um sinal objetivo — a coluna de nuvem, de fogo, ou uma luz clara — que durava exatamente o tempo da fala. No caso de Moshé, até o povo o via de fora, e media a nuvem pela duração da mensagem. E onde a Escritura não o diz explicitamente (como em Shmuel), outro versículo o esclarece. A certeza do profeta não é um sentimento; é uma experiência marcada.

Magia não é milagre

O coração racionalista do capítulo é a distinção entre o sinal divino e o truque do mágico — a mesma que a Torá faz com os magos do Egito. Saadia oferece dois critérios. O filológico: a palavra be-lateihem ("encantamentos") vem da raiz do oculto, do dissimulado — a própria Escritura classifica o ato deles como manobra escondida, não como verdade. E o da escala: a ilusão funciona no pequeno (um pouco de água, um charco), mas não no imenso — ninguém transforma todo o Nilo. O milagre verdadeiro é público e vasto demais para caber numa fraude.

Por que Yonah fugiu

Saadia fecha resolvendo uma dificuldade célebre. Se D'us não escolhe quem O desobedeça, como Yonah pôde fugir? A resposta: Yonah não desobedeceu à sua primeira missão; o que temia era um segundo envio — e o seu medo não era a tarefa, mas a reputação: anunciar a destruição, ver o povo arrepender-se, e ser tido por mentiroso quando o castigo fosse suspenso. É a chave da profecia de advertência: ela existe para ser revogada pelo arrependimento. Um aviso que "não se cumpre" porque comoveu o coração não é um fracasso — é o seu maior êxito.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 5, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público (a versão moderna é protegida por direitos autorais), de modo que se trabalhou diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Shemot 33:8 e 7:11, Tehillim 99:7 e 136:4, e Yonah 4:2, além das provas filológicas (I Shmuel 21:10; Yeshayahu 25:7; I Melachim 19:13; II Shmuel 19:5). As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.