Se a razão já descobre que devemos agradecer a D'us, não cometer libertinagem, respeitar a propriedade e reparar os danos — para que servem os profetas? Saadia responde: a razão dá o princípio, mas não a medida. Sem uma revelação que fixe a forma exata, jamais concordaríamos — e nada se cumpriria.
Tendo enunciado este princípio sobre as duas espécies de mandamento — os da razão e os da revelação —, convém explicar que necessidade houve de mensageiros e profetas. Pois ouvi que há quem diga que os homens não precisam de profetas, e que os seus intelectos lhes bastam para guiá-los no que há de bom e de mau. Voltei-me, então, à pedra de toque da verdade, e nela vi: se a coisa fosse como dizem, o Criador — que o sabe melhor do que eles — não teria enviado mensageiros, pois Ele nada faz sem propósito.
Depois, examinei melhor a questão, e achei que a necessidade que as criaturas têm dos mensageiros é uma grande necessidade — e não só por causa dos mandamentos da revelação, para dá-los a conhecer, mas também por causa dos mandamentos da razão: pois a sua prática não se completa senão por mensageiros, que firmam os homens sobre eles.
Vejamos: a razão julga que se deve agradecer a D'us pela sua bondade — mas não fixou limite a esse agradecimento: nem a fórmula, nem o tempo, nem a forma; e por isso foram precisos mensageiros. Eles deram-lhe um limite, e chamaram-no oração; e fixaram-lhe horas, fórmulas próprias, uma forma própria e uma direção própria.
A razão afastou a libertinagem — mas sem fixar como a mulher se une a um homem, até tornar-se sua esposa. Seria por palavra apenas? Por dinheiro apenas? Pela vontade do pai apenas? Pelo testemunho de dois, ou de dez? Pela reunião dos habitantes da cidade? Por um sinal que se marque sobre ela? Vieram os profetas e disseram: por mohar (a aliança matrimonial), por documento e por testemunhas.
A razão afasta o furto — mas nela não há como saber como um bem passa a ser propriedade de alguém: se o adquire pelo trabalho, pelo comércio, pela herança, ou tomando o que não tem dono (como a caça do campo e do mar); e se a compra se confirma ao pagar o dinheiro, ou ao tomar posse da mercadoria, ou só pela palavra — e as demais dúvidas que caem nesta categoria, que é longa e larga. E os profetas vieram dar, em todo o resto, uma decisão definitiva.
Do mesmo modo, a avaliação dos danos: a razão entende que se deve medir o dano, mas não fixou limite à sua medida — se bastaria uma repreensão apenas, ou com uma censura junto, ou também com açoites; e, se com açoites, qual a sua medida; e o mesmo quanto à censura; ou se só bastaria punir tirando-lhe a vida; e se a pena de todo aquele que causa dano é igual, ou se uns casos não se assemelham aos outros. Os profetas fixaram, para cada caso, um pagamento conhecido; combinaram uns com outros em certas matérias, e estabeleceram para alguns uma indenização em dinheiro.
Por causa destas coisas que relatamos, e de outras semelhantes, precisamos da missão dos profetas. Pois, se fôssemos deixados ao nosso próprio juízo, divergiríamos nas nossas opiniões e não concordaríamos em coisa alguma — e ainda precisamos deles por causa dos mandamentos da revelação, como expliquei.
Saadia enfrenta uma objeção que soa muito moderna: "se a razão já distingue o bem do mal, para que profetas?". A sua primeira resposta é elegante e quase irônica — se a razão bastasse, D'us, que o saberia melhor do que nós, não teria enviado mensageiros, pois "nada faz sem propósito". O próprio facto da revelação é um indício de que algo, na razão sozinha, ficava por completar.
O argumento central é uma distinção precisa: a razão fornece o dever, mas não a sua forma determinada. Sei que devo agradecer ao Criador — mas quando, com que palavras, voltado para onde? Sei que o roubo é mau — mas como, exatamente, algo passa a ser meu? Sei que o dano deve ser reparado — mas com que pena? A razão cala-se nos detalhes. E é precisamente aí que entram os profetas: a oração, o casamento (com mohar, contrato e testemunhas), as leis de aquisição, as indenizações. O princípio é da razão; a medida é da Torá.
O fecho guarda o argumento mais profundo: "se fôssemos deixados ao nosso próprio juízo, divergiríamos e não concordaríamos em coisa alguma". A razão individual, sozinha, produz tantas opiniões quantas as cabeças — e uma sociedade não pode viver de princípios sem forma partilhada. A revelação não substitui a razão: dá-lhe um corpo comum, uma Lei em que todos possam convergir. É o fundamento de por que existe uma halachá, e não apenas boas intenções.
Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 3, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.
Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público (a versão moderna é protegida por direitos autorais), de modo que se trabalhou diretamente sobre o hebraico. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.