Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · Introdução

Por que D'us ordena: o bem conquistado vale o dobro

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · בְּצִוּוּי וּבְאַזְהָרָה · הַקְדָּמָה
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Por que D'us, podendo simplesmente nos dar o bem, preferiu ordenar mandamentos? A introdução ao Tratado III responde com um princípio luminoso: o bem que se conquista pelo esforço vale o dobro do bem que se recebe de graça — e o intelecto não os iguala. Os mandamentos não são um fardo: são o presente da dignidade de merecer.

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Disse Yehudá ben Shaul Ibn Tibbon, o tradutor; disse o autor Saadia: o que convém pôr como início deste tratado é isto. Já ficou esclarecido que o Criador, bendito seja, é eterno, e que nada existia junto d'Ele; logo, o seu criar as coisas foi puro bem e bondade da sua parte.

אמר יהודה בן שאול. אמר המחבר: אשר ראוי לקדם אותו התחלה למאמר הזה, כי הבורא יתברך כיון שהתברר שהוא קדמון לא היה עמו דבר, היתה בריאתו לדברים טובה וחסד ממנו.
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E — como recordamos no fim do Tratado I, ao tratar da razão de ser da criação — e como se acha nas Escrituras, Ele é "bom e faz o bem", conforme está dito: "Bom é o Senhor para com todos, e a sua misericórdia está sobre todas as suas obras" (Tehillim 145:9). E o primeiro dos seus benefícios às criaturas foi conceder-lhes o existir — quero dizer: fazê-las existir depois de não terem sido —, como disse a respeito das criaturas dignas: "todo o que é chamado pelo meu nome, para a minha glória o criei" (Yeshayahu 43:7).

וכאשר זכרנו בסוף המאמר הראשון, בעלת בריאת הדברים, וממה שימצא בספרים שהוא טוב ומטיב, כמו שאמר (תהלים קמ"ה ט') טוב י"י לכל ורחמיו על כל מעשיו. ותחלת הטבתו לברואים שחננם ההויה, רצוני לומר: המציאו אותם אחר שלא היו. וכמו שאמר לחשובים (ישעי' מ"ג ז') כל הנקרא בשמי ולכבודי בראתיו וגומר.
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E, depois, concedeu-lhes um meio pelo qual chegam à felicidade completa e ao bem perfeito, como está dito: "far-me-ás conhecer a vereda da vida; fartura de alegrias há na tua presença" (Tehillim 16:11). E esse meio é justamente aquilo que Ele lhes ordenou e do que os advertiu — os mandamentos e as proibições.

ואחר כן חננם סבה שמגיעים בה אל ההצלחה הגמורה והטובה השלמה, כמו שאמר (תהלים ט"ז י"א) תודיעני ארח חיים שבע שמחות את פניך וגומר. והוא מה שצום והזהירם ממנו.
Nota — as duas dádivas. Saadia organiza tudo em dois dons. O primeiro é o próprio existir: fomos chamados do nada à vida, e isso já é puro bem, sem que tivéssemos feito nada para merecê-lo. O segundo é um meio para alcançar a felicidade plena — e esse meio são os mandamentos. A Torá, nesta leitura, não é um peso imposto a criaturas prontas: é o caminho oferecido para que cheguem ao bem mais alto que existe.
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Ora, eis o primeiro pensamento que o intelecto abarca e sobre o qual reflete, dizendo: não poderia Ele ter-lhes feito o bem completo, e dado a felicidade perene, sem ordenar-lhes nem adverti-los? Poder-se-ia supor que essa bondade — a do bem sem esforço — lhes fosse melhor, por poupar-lhes o trabalho. Mas eu afirmo, esclarecendo a questão: fazer com que o meio de chegarem ao bem perene seja o esforço naquilo que Ele ordenou é, na verdade, melhor para eles.

וזה המאמר תחלת מה שיקיף השכל ויחשוב בו, ויאמר: הוא היה יכול שייטיב להם ההטבה הגמורה, ויצליחם ההצלחה המתמדת מבלתי שיצום ויזהירם? אבל יראה שטובתו בדרך ההיא טוב להם, בעבור מה שיסתלק מעליהם מעניני הטרח. ואומר בבירור הענין הזה, כי שומו סבת הגעתם אל הטובה המתמדת בהטריחם במה שצוה בו, הוא יותר טוב.
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Pois o intelecto julga que aquele que alcança um bem por uma obra que ele mesmo realizou tem o dobro do bem de quem nada fez e apenas o recebeu por benevolência; e o intelecto não vê como igualar os dois. Sendo assim, o nosso Criador inclinou-nos para a parte melhor: que o nosso proveito venha pela recompensa — o dobro do proveito que viria sem obra alguma —, como está dito: "eis que o Senhor D'us virá com poder, e o seu braço dominará por Ele; eis que o seu galardão vem com Ele, e a sua recompensa, diante d'Ele" (Yeshayahu 40:10).

והוא, שהשכל דן שיהיה מי שמגיע לטובה על מעשה שהעבד בו, יש לו כפל מה שיגעהו מן הטוב מי שלא עשה דבר, אבל הוא מתחסד עמו. ואין השכל רואה להשוות ביניהם. וכאשר הדבר כן נטה בנו בוראנו אל החלק היותר להיות תועלתנו על הגמול, כפל תועלתנו אשר תהיה על לא מעשה, וכמו שאמר (ישעיהו מ׳:י׳ י') הנה י"י אלהים בחזק יבוא וזרועו מושלה לו הנה שכרו אתו ופעולתו לפניו:
Nota — o "pão da vergonha". Aqui está o argumento racional do capítulo, e ele é um pilar do pensamento judaico: o bem conquistado vale o dobro do bem recebido de graça. Quem ganha um prêmio pelo próprio esforço o desfruta sem o constrangimento de quem vive de esmola — o que os sábios chamarão depois de nahamá dikhsufá, o "pão da vergonha". Por amor a nós, e não por nos querer onerar, D'us preferiu dar-nos a dignidade de merecer: por isso há mandamentos, e por isso há recompensa.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Por que mandamentos, e não apenas dádivas?

Saadia abre o tratado sobre a revelação enfrentando a pergunta mais natural de todas: se D'us é puro bem e quer a nossa felicidade, por que não no-la deu logo, pronta, sem a fadiga de obrigações? A resposta desloca o eixo da questão. O problema não é se D'us pode dar o bem de graça — claro que pode —, mas se isso seria o melhor para nós. E não seria.

O pão da vergonha

O argumento é estritamente racional, e não precisa de fé para ser sentido: todos sabemos que há uma alegria no que conquistamos que falta no que ganhamos sem mérito. Quem é sustentado por caridade come, mas come o "pão da vergonha"; quem come do próprio trabalho come em paz. D'us, diz Saadia, "inclinou-nos para a parte melhor" — deu-nos mandamentos para que o bem eterno fosse nosso, fruto da nossa obra, e não esmola. A mitsvá é, nesta luz, um ato de respeito do Criador pela dignidade da criatura.

A porta de todo o tratado

Esta introdução é a dobradiça que liga os dois primeiros tratados ao terceiro. Provada a criação (Tratado I) e a unidade do Criador (Tratado II), pergunta-se agora: o que esse D'us quer de nós? A resposta — que Ele nos deu mandamentos como meio para a felicidade — abre todas as questões do Tratado III: por que foi preciso que os profetas os trouxessem, como se verifica a verdade de um profeta, e por que a Torá não se anula. Tudo começa aqui: na ideia de que obedecer não é servidão, mas o caminho oferecido para o bem mais alto.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), Introdução, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se a introdução inteira do Tratado III a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público disponível (a versão moderna é protegida por direitos autorais), de modo que se trabalhou diretamente sobre o hebraico. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.