Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 8

O mais sutil é o mais forte

מַאֲמָר שֵׁנִי · ח׳
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Como pode o que é mais sutil ser também o mais forte? Saadia mostra-o numa escada da própria natureza — a alma governa o corpo, a sabedoria governa a alma, o fogo move tudo —, até D'us, "mais sutil que tudo e mais forte que tudo". E dá a regra de ouro para falar de D'us: medir cada atributo pela raiz já firmada.

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E a isto acrescento o que talvez alguém pergunte: como pode aquilo que é mais sutil que tudo ser, ao mesmo tempo, mais forte que tudo? Respondo: o Sábio pôs, para esta questão, sinais no mundo existente. A alma é mais sutil do que o corpo e, no entanto, é mais forte do que ele — pois é por ela que o homem governa a si mesmo; e por isso os antepassados juravam: "pela vida do Senhor, que nos fez esta alma" (Yirmiahu 38:16). Do mesmo modo, a sabedoria é mais sutil do que a alma e, contudo, mais forte do que ela — pois é por ela que a alma se conduz; e por isso só a ela se encontra atribuída ao Criador: "o Senhor, pela sabedoria, fundou a terra" (Mishlei 3:19).

E, nos quatro elementos, vemos que a água é mais sutil do que a terra, e mais forte do que ela — pois a penetra e a desagrega. O ar é mais sutil do que a água, e mais forte do que ela — pois a move e, às vezes, a arremessa. E o fogo é mais forte do que tudo, pois a esfera do fogo gira em torno de tudo; e da sua moção contínua repousa a terra, com tudo o que há nela, no centro. E à moção suprema, que faz girar a grande esfera, o homem não conhece causa motriz alguma — senão a ordem do seu Criador, bendito seja, que é mais sutil que tudo e mais forte que tudo. Ficou, pois, claro que toda coisa é mais forte na exata medida em que é mais sutil. E, posto isto, vejo por bem escrever a maioria dos atributos e das questões que se levantam neste tema — o que sobe ao coração, o que se encontra na Escritura e o que se ouve da boca dos crentes; e antes deles ponho uma regra geral.

ואסמיך לזה מה שאולי יאמר אומר: איך יהיה מה שהיא יותר דק מכל דק בענין חזק מכל חזק? ‏אומר: כי החכם שם לשער הזה סימנים בנמצא, והוא, שהנפש יותר דקה מהגוף והיא חזקה ממנו ‏ובה מנהיג את עצמו, ועל כן היו האבות נשבעים (ירמיה ל"ח ט"ז) חי י"י אשר עשה לנו את הנפש ‏הזאת. וכן החכמה יותר דקה מן הנפש והיא חזקה ממנה ובה תתנהג, ובעבור זאת תמצאנה לבדה ‏מיוחסת אל הבורא, (משלי ג' י"ט) י"י בחכמה יסד ארץ. וכן בארבע יסודות אנו רואים המים שהם ‏יותר דקים מן העפר, והם יותר חזקים ממנו, מפני שהם שוקעים בו ועוקרים אותו. והרוח יותר דק ‏מן המים והוא חזק מהם, כי הוא מניע אותם ופעמים ישליכם. והאש יותר חזקה מן הכל, כי עגלת ‏האש סובבת הכל, ומתנועתה המתמדת תנוח הארץ וכל אשר עליה במרכז, והתנועה העליונה ‏המזרחית אשר מסבבת הגלגל הגדל לא ידע לה אדם סבה מניעה, כי אם מצות יוצרה ית', אשר ‏הוא דק מן הכל וחזק מן הכל. וכבר התבאר כי כל דבר הוא יותר דק בענין הוא חזק ממנו. וכיון ‏שהקדמתי הענינים האלה, אני רואה לכתוב רוב התארים והדברים ששואלים עליהם בענין הזה, ‏ממה שעולה על הלב, ונמצא בכתוב, ונשמע מדברי מאמין. ואקדים לזה מאמר כולל:‏
Nota — quanto mais sutil, mais forte. Saadia responde a um enigma deixado na Introdução: como pode o que é mais sutil (D'us, "mais fino que todo fino") ser também o mais poderoso? A resposta está numa escada visível na própria natureza: a alma, mais sutil que o corpo, governa-o; a sabedoria, mais sutil que a alma, conduz a alma; entre os elementos, a água vence a terra, o ar vence a água, o fogo move tudo — cada um mais sutil e mais forte que o anterior. No topo: o Criador, "mais sutil que tudo e mais forte que tudo". O imaterial governa o material — e o que há de mais real e poderoso é o que tem menos matéria.
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E digo: tudo aquilo a que se alude, neste tema, como substância (etzem) ou acidente (mikreh) — ou como atributo de uma substância ou de um acidente —, não convém aplicar ao Autor, nem muito, nem pouco. Pois deste Autor, bendito e exaltado, ficou estabelecido que Ele é o autor de tudo; e não resta substância, nem acidente, nem coisa descritível, que não seja já reconhecida, delimitada e firmada como feita por este Autor — e é, portanto, impossível dizer d'Ele qualquer coisa daquilo que Ele mesmo fez. E tudo o que se encontra nos livros dos profetas, de atributos de substância e de acidente, há de ter, na língua, sentidos outros que não a corporificação — de modo a concordar com o que a razão exige. E tudo o que nós, a comunidade dos crentes, dizemos dos seus atributos, no que se assemelha à corporificação, é, da nossa parte, aproximação e símile, e não no sentido corpóreo em que dizemos coisas semelhantes a respeito dos seres humanos.

E, esclarecidos estes três pontos, que não te enganem nem te lancem em dúvidas as objeções de quem investiga nos livros — quando dizes "Ele é vivo", ou "Ele quer", ou "Ele deseja", "Se ira" e coisas assim; nem o que há nos próprios livros sagrados. Pois estas "qualidades" só as dizemos depois de firmada a raiz a unidade e a incorporeidade, como antes expusemos — para que a ela retornem e sobre ela se apoiem; pois o edifício só se constrói do alicerce para cima, e não de cima para baixo. Por isso, não te perturbes por causa de um atributo que vejas nos livros, ou que nos encontres a admitir, e voltes a cair em dúvida; antes, mede-o pela raiz que já se tornou clara e firme, em verdade.

ואומר: כי כל מה שרומזים אליו בענין הזה מעצם ומקרה, או תאר לעצם ומקרה, לא יכשר ממנו לא ‏רב ולא מעט בענין העושה. כי זה העושה יתברך ויתעלה התקיים לו שהוא עושה הכל, ולא נשאר ‏עצם ולא מקרה ולא מה שיתואר בו, אלא שכבר נכר ונגבל ונכלל והתקיים שזה העושה עשהו, וכבר ‏נמנע ונשתקר שיאמר עליו מאומה ממה שהוא עשהו. וכל מה שימצא בספרי הנביאים מתארי העצם ‏והמקרה, אי אפשר שלא ימצא להם בלשון ענינים זולת ההגשמה, עד שיסכים למה שמחייב אותו ‏העיון. וכל מה שנאמרהו אנחנו המון המאמינים מתאריו ממה שידמה להגשמה, הוא ממנו הקרבה ‏והמשלה, ואינו בגשמות הדברים אשר נאמר כמוהם על בני אדם. וכיון שבארתי אלה השלשה ‏ענינים, אל יטעוך המעיין בספר ויכניסו עליך הספקות, מאמרך חיה, ומאמרך חפץ, ומאמרך רצה ‏וכעס והדומה לזה. וכן ממה שיש בספרים, כי אלה המעלות לא נאמר אותם אלא אחר קיום השרש, ‏כאשר הקדמנו אליו שישובו אליו וינשאו עליו, כי הבנין איננו נבנה כי אם המיסוד ולמעלה, ואיננו ‏נבנה ממעלה למטה. על כן אל תהי נבוך בעבור תאר שתראה אותו בספרים או שתמצא אותנו ‏מסכימים עליו, ותשוב בספק. אבל הקש אותו על השרש באשר כבר התברר והתקיים באמת:‏
Nota essencial — a regra de ouro para falar de D'us. Três pontos compõem a regra: (1) D'us, sendo o Autor de tudo, não pode ser descrito por nenhuma substância nem acidente — pois tudo isso é obra sua, e não se descreve o autor pela sua obra; (2) toda linguagem corpórea da Escritura ("a mão", "a ira" de D'us) tem de ter sentido figurado, conforme a razão exige; (3) o que nós mesmos dizemos ("Ele é vivo, quer, deseja") é aproximação e símile, não no sentido em que o diríamos de um homem. E a imagem decisiva: "o edifício constrói-se do alicerce para cima, não de cima para baixo" — primeiro firma-se a raiz (D'us é um e incorpóreo), e só então os atributos são afirmados sobre ela e medidos por ela. Nenhuma palavra antropomórfica pode abalar o que a razão já estabeleceu.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Quanto mais sutil, mais forte

O capítulo abre com uma das intuições mais belas de Saadia, e responde a uma dificuldade que a Introdução havia deixado: se D'us é o mais "sutil" de todos os existentes, como pode ser o mais poderoso? A resposta lê a própria criação como uma escada: o invisível comanda o visível. A alma, que ninguém vê, move o corpo; a sabedoria, mais fina que a alma, dirige-a; o fogo, o mais leve dos elementos, gira o cosmo. Subindo, chega-se Àquele que, justamente por ser o mais sutil, é o mais forte. A força, no fundo, não está na matéria — está no que a transcende.

Falar de D'us por aproximação

A segunda parte dá a chave de toda a teologia da obra. Como D'us é o Autor de tudo, nada do que Ele criou — nenhuma substância, nenhum acidente — pode descrevê-Lo: seria descrever o pintor pela tinta. Por isso a linguagem que a Escritura usa (e que nós usamos) ao falar da sua "mão", da sua "ira" ou do seu "querer" é sempre aproximação e símile — um modo humano de apontar para o que excede toda palavra, jamais uma descrição literal.

Construir de baixo para cima

E a regra prática, numa imagem inesquecível: "o edifício constrói-se do alicerce para cima, e não de cima para baixo". Primeiro estabelece-se a raiz — D'us é um, incorpóreo, o Criador de tudo —; só depois se afirmam os atributos, e sempre medidos por essa raiz. Assim, nenhum verso de aparência corpórea, nenhuma expressão de fé, pode lançar o crente em dúvida: cada atributo se lê à luz do fundamento já provado. É a disciplina que protege a pureza da ideia de D'us — e que o Rambam herdaria e sistematizaria.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 8, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo apresenta o princípio "quanto mais sutil, mais forte" e a regra geral sobre os atributos divinos. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Seguem-se os capítulos que aplicam esta regra aos atributos. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.