Dizemos que D'us é vivo, poderoso e sábio. Não seriam três coisas n'Ele, ferindo a sua unidade? Saadia responde: os três atributos brotam de um só fato — a criação —, o intelecto os capta num só instante, e a pluralidade está apenas na linguagem. Em D'us não há partes nem mudança.
E digo, em seguida, que encontrei pela via da razão aquilo que indica que Ele é vivo, poderoso e sábio: é o que se nos confirmou — que Ele criou as coisas. Pois, pela força do nosso intelecto, ficou claro que só o poderoso age; e só o vivo é poderoso; e a obra acabada e bem ordenada só pode vir de quem soube, antes de fazê-la, como ela havia de ser.
E estes três pontos o nosso intelecto encontrou, para o nosso Criador, de uma só vez, sem que um pensamento trouxesse um após o outro: pois, naquilo que Ele fez, confirmou-se-nos que Ele é vivo, poderoso e sábio. E não é possível que o intelecto chegue a um destes três antes do outro — antes, chega a todos num só instante: porque lhe é absurdo que Ele os tenha feito sem ser vivo, ou sem ser poderoso, ou que uma obra completa e bem ordenada venha de quem não soubesse como fazê-la — pois a obra de quem não sabe não sai ordenada nem intencional.
E, uma vez que estes três pontos se firmaram no nosso intelecto num só instante, não foi possível às nossas línguas exprimi-los num só instante, pois não achamos na língua uma única palavra que reunisse os três; e foi-nos preciso enunciá-los em três palavras, depois de termos esclarecido que o intelecto os viu de uma só vez.
E não pense ninguém que o Eterno, bendito seja, tenha em Si pontos distintos partes diversas: pois todos eles estão contidos no único ponto de que Ele é o que faz o Criador. É a nossa limitada expressão que nos levou a extrair esta única verdade em três palavras — porque, entre as coisas existentes, não achamos uma palavra que as reunisse; e não seria viável inventar-lhes uma, que ficaria desconhecida, precisaria de explicação, e nos faria voltar a muitas palavras no seu lugar.
E, se alguém pensar que estes pontos implicam mudança — isto é, que um seja outro que o outro —, mostrar-lhe-ei o erro do que pensou, pela investigação da verdade: a mudança e a alteração só ocorrem nos corpos e nos acidentes; mas o Criador dos corpos e dos acidentes está acima de toda mudança. E, para não me bastar com isto, acrescento: quando dizemos "o que faz" Criador, não acrescentamos nada à sua essência — apenas indicamos que há aqui algo feito por Ele. Do mesmo modo, quando dizemos "vivo, poderoso, sábio" — que são as explicações de "o que faz" —, não acrescentamos nada à sua essência, mas indicamos que há aqui algo feito; pois só é "o que faz" aquele que tem estes três pontos de uma só vez.
E, depois de ponderar isto e de o assentar, voltei aos livros sagrados e neles encontrei a negação de qualquer outro além d'Ele: "não há outro além d'Ele" (Devarim 4:35); "e que sussurro de palavra se ouve d'Ele!" (Iyov 26:14); e ainda: "o Senhor será Um, e o seu Nome, Um" (Zechariá 14:9).
O capítulo enfrenta um perigo real para o monoteísmo: ao atribuir a D'us qualidades — vida, poder, sabedoria —, não estaríamos a dividi-Lo em partes, como se fosse um composto? Saadia mostra que não. Os três atributos não são três descobertas separadas: o intelecto encontra-os de uma só vez, no mesmo lampejo em que reconhece D'us como Criador. São três palavras para uma verdade única — e a culpa da multiplicidade é da língua, não de D'us.
O argumento decisivo é sobre a linguagem. Faltam-nos palavras para dizer numa só a riqueza do que percebemos; por isso desdobramos em "vivo, poderoso, sábio" aquilo que o intelecto vê unido. Mas a fragmentação é do falante, não do nomeado. E, mais fundo ainda: dizer "Criador" não acrescenta nada a D'us — apenas afirma que existe algo criado. Assim também os atributos: não somam traços à sua essência; apontam, de fora, para aquilo que d'Ele procede. É o coração da teologia dos atributos que o Rambam desenvolveria.
Por fim, Saadia fecha a porta à objeção da mudança: variar e alterar-se são próprios dos corpos e dos acidentes, e D'us, que os criou, está acima deles. Um D'us sem corpo é um D'us sem partes; e um D'us sem partes é, necessariamente, imutável e um. A Escritura sela a conclusão: "o Senhor será Um, e o seu Nome, Um" — não só um na contagem, mas um na própria simplicidade do seu ser.
Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 4, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.
Este capítulo trata dos atributos divinos (vivo, poderoso, sábio) e da simplicidade de D'us. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Segue-se a continuação do tratado sobre a unidade. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.