As últimas categorias: a ação de D'us (que não O muda — Ele quer, e a coisa é) e o ser visto (que não Lhe cabe). E o enigma que confundiu tantos: Moshé pediu "mostra-me a tua glória", e ouviu "verás as minhas costas". O que, então, ele viu? A Luz criada — nunca a essência.
E digo, quanto à ação: ainda que chamemos o Criador, bendito seja, de "o que faz" e "o que age", não há nisto nada de corpóreo. Pois o agente corpóreo não consegue agir sobre outro sem antes agir sobre si mesmo — mover-se primeiro e só então mover o outro; mas Ele quer, e a coisa vem a ser — e este é o modo perfeito do seu agir. Além disso, todo agente corpóreo precisa de uma matéria sobre que trabalhe, de um lugar e de um tempo, e de um instrumento — e tudo isto é excelso demais para Ele. O que se acha nos livros, mencionando certas "ações" e os seus opostos, tudo se remete a isto: quando Ele quer originar algo, fá-lo existir sem que o atinja nele obra ou contato algum.
Na criação: "e D'us fez" (vaya'as) e "e cessou" (vayishbot). Assim como "fez" não foi por movimento nem por esforço — pois Ele apenas fez existir a coisa nova —, também "cessou" não foi por movimento nem por cansaço, mas é o deixar de fazer existir a coisa nova; e, embora se diga "e descansou", não é nada além do cessar da criação. Na profecia: "e o Senhor falou" — o "falar" significa que Ele criou uma fala que chegou, pelo ar, ao ouvido do profeta ou do povo; e o seu oposto, "por muito tempo me calei, fiquei em silêncio" (Yeshayahu 42:14), significa espera e demora. E o resgatar as criaturas da aflição chamam de "lembrar" ("e D'us lembrou-se de Noach", Bereshit 8:1; "lembrou-se de Rachel", 30:22); e o seu oposto, o "esquecer", é o deixar de resgatar.
E o bem e a misericórdia dizem-se d'Ele com o nome "D'us misericordioso e clemente"; a punição, com o nome "D'us zeloso e vingador" — e também estes se referem à sua ação sobre as criaturas ("o Senhor vinga-se dos seus adversários", Nachum 1:2; "guarda a aliança e a bondade aos que o amam... por mil gerações", Devarim 7:9). Todos esses nomes remetem, no seu sentido, às criaturas. E esta é a diferença entre os nomes da essência e os nomes da ação.
E, quanto a ser afetado o passivo: não se deve pensar que recaia sobre o Criador afecção alguma — exceto, ao que parece, o ser visto. Mas devo explicar que nem mesmo o ser-visto recai sobre Ele. Pois as coisas só são vistas pelas aparências das suas superfícies, ligadas aos quatro elementos, que se combinam com as forças da visão do olho, por meio do ar. Ora, é falso pensar que haja no Criador qualquer um desses acidentes; a visão não tem poder algum sobre o alcançá-Lo. Vês: se nem ao pensamento é possível assemelhá-Lo ou representá-Lo, como haveria caminho para a vista chegar a Ele? E já confundiu a mente de alguns o episódio de Moshé, nosso mestre — como ele pediu "mostra-me, peço-te, a tua glória" (Shemot 33:18) —, e ainda mais a resposta: "não poderás ver a minha face, pois não me verá o homem e continuará a viver"; e "verás as minhas costas, mas a minha face não se verá".
E digo, revelando e esclarecendo tudo isto: o Criador tem uma luz que Ele criou, e a mostrou aos profetas para que lhes fosse uma prova de que todas as palavras de profecia que eles transmitem vêm do Criador. Quando um deles a vê, diz "vi a Glória do Senhor"; e há quem diga "vi o Senhor", por via de elipse. Já sabes que de Moshé, Aharon, Nadav, Avihu e setenta dos anciãos de Israel se disse primeiro "e viram o D'us de Israel" (Shemot 24:10), e depois se explicou "e a aparência da Glória do Senhor era como um fogo consumidor no cume do monte" (24:17). Mas, ao verem aquela luz, não conseguem fixá-la, de tão grande o seu poder e brilho; e quem tenta fixá-la na plena força, desfaz-se a sua composição e o seu espírito se evola — como se disse "para que não irrompam até o Senhor, a fim de ver, e caiam muitos deles" (19:21).
E Moshé pediu que o Criador o fortalecesse para fixar aquela luz; e Ele respondeu que o princípio daquela luz é poderoso demais — não poderia vê-lo sem morrer —, mas que o protegeria com uma nuvem, ou algo semelhante, até que o princípio da luz passasse (pois toda coisa luminosa é mais forte no seu início), como se disse "e cobrir-te-ei com a minha palma até que eu passe" (33:22). E, passado o princípio da luz, removeu de Moshé o que o cobria, de modo que ele fixou a sua parte final (acharit) — "e tirarei a minha palma, e verás as minhas costas" (33:23). Mas ao Criador em si é impossível que algum deles O veja, pois isso é o caminho da falsidade.
O verbo é o último refúgio do antropomorfismo: mesmo quem aceita que D'us não tem mão pode imaginá-Lo "fazendo", "descansando", "falando" como nós. Saadia fecha também essa porta. A ação de D'us não exige nada do que a ação humana exige — nem músculo, nem ferramenta, nem cansaço: Ele quer, e a coisa é. E os nomes que parecem descrever os seus "estados" (misericordioso, vingador, que lembra, que esquece) descrevem, na verdade, os seus efeitos sobre nós. São nomes da ação, não da essência.
Ver é receber a imagem da superfície de um corpo. D'us, sem corpo e sem superfície, não é objeto possível da visão — e, se nem o pensamento O alcança, muito menos o olho. Esta conclusão poderia parecer fria, não fosse o que vem depois: ela não nega a experiência dos profetas; apenas a entende corretamente.
O capítulo culmina no episódio mais íntimo da Torá — o pedido de Moshé, "mostra-me a tua glória". A resposta de Saadia é de uma delicadeza notável: o que Moshé viu foi a Luz criada, a Glória que D'us forma para falar com os seus profetas; e mesmo dela só pôde ver o rastro — "as minhas costas" —, porque o seu auge é insuportável. A "face", a essência, permanece para sempre invisível. Com isto, o Tratado II chega ao seu fim: o Senhor é Um, incorpóreo, indizível e invisível — e, no entanto, faz-se conhecer, pela sua obra e pela sua Glória, a quem O busca.
Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 12, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.
Este capítulo trata da ação e do "ser visto" de D'us, e da visão de Moshé. O primeiro segmento, longo, foi dividido em duas partes para a leitura, preservando-se o hebraico verbatim. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Segue-se o último capítulo do Tratado II. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.