Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · Introdução

Introdução ao Tratado da Conduta — o Um e os Muitos

פְּתִיחַת מַאֲמַר הַמִּדּוֹת — הַבּוֹרֵא אֶחָד וּמַעֲשָׂיו רַבִּים
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Abre-se o décimo e último tratado, sobre a conduta moral. Saadiá começa por um princípio: porque o Criador é Um, as suas obras são muitas — e tudo o que parece “um”, sob exame, revela-se múltiplo. A diversidade é a assinatura da sabedoria divina; e é também o alicerce da ética que virá — a do equilíbrio entre as muitas forças da alma.

1

Disse Yehudá ben Shaul (o tradutor): disse o autor. Como introdução a este tratado — assunto sobre o qual muitos homens falaram, e foram poucos os que nele chegaram ao conselho louvável —, digo, na abertura das minhas palavras, que o Criador de tudo, exaltado seja, por ser Ele Um na Sua essência, fez com que necessariamente os criados fossem muitos, conforme expliquei antes.

אמר יהודה בן שאול. אמר המחבר, הקדמת המאמר הזה אשר דברו בו אנשים רבים, ומעט מי שהגיע בו אל העצה המשובחת, אומר בפתח דברי כי בורא הכל ית', מפני שהיה אחד בעצמו, התחייב שיהיו הברואי' רבים כאשר בארתי.
Nota — abre o Tratado X: a conduta moral, e o princípio do Um e dos muitos Começa o décimo e último tratado, sobre a conduta moral — assunto, observa Saadiá, sobre o qual “muitos falaram, mas poucos chegaram ao conselho louvável”. A sua abertura é, à primeira vista, metafísica: porque o Criador é Um na essência, a criação é necessariamente múltipla. Não é digressão: é o alicerce da ética que virá. Assim como o mundo é feito de muitas forças que se equilibram, também a alma humana reúne muitas inclinações — e a vida boa, defenderá Saadiá, não está em exaltar uma só, mas em harmonizá-las (a doutrina do justo meio).
2

E digo aqui que o “um” que se vê — qualquer “um” que seja — não é um senão por via do número; mas, quando o examinador o examina por via da análise rigorosa, acha-o composto de muitos elementos. E algo ainda mais simples (evidente) do que esta regra: é que, em todos os existentes, quando se examina cada corpo dentre eles, acha-se nele calor, frio, umidade e secura; e, quando se examina o corpo da árvore, acham-se nele, com isto, ramos, folhas, fruto e o que se associa a isto; e, quando se examina o corpo do homem, acham-se nele, com tudo isto, carne, ossos, tendões, veias, ligamentos e o que se associa a isto. E isto é coisa cujo conhecimento está fora de dúvida, e que não se pode rejeitar na sua existência.

ואומר הנה כי האחד הנראה, אי זה אחד שיהיה, איננו אחד כי אם בדרך המספר, אבל כאשר יבחנהו הבוחן על דרך הדקדוק, ימצאנו ענינים רבים. ויותר פשוט מהכלל הזה, שהנמצאות כלן כשיבחן כל גוף מהם, ימצא בו חום וקור ולחות ויובש, וכאשר יבחן גוף האילן, ימצא בו עם זה סעיפים ועלים ופרי ומה שנלוה אל זה, וכאשר יבחן גוף האדם, ימצא בו עמהם בשר ועצמו' וגידים ועורקים ומיתרים ומה שנלו' אל זה; וזה מה שאין ספק בידיעתו, ולא נדחה במציאתו.
3

E, já que está nas leis da criação que o Criador é um e as suas obras são muitas — e como disseram os livros (Tehillim 104:24): “quão numerosas são as tuas obras, ó Senhor; todas as fizeste com sabedoria” etc. —, até os céus têm neles partes diferentes umas das outras, e medidas, e formas, e cores, e movimentos tantos que não os poderíamos enumerar. E assim são eles, como disse (Iyov 9:9): “Aquele que faz a Ursa, Órion, as Plêiades e as câmaras do sul”.

אבל אם היה בחקי הבריא' כי הבורא אחד ומעשיו רבים, וכמו שאמרו הספרים מה רבו מעשיך יי' כלם בחכמה עשית וגו' (תהלים ק"ד כ"ד), אפי' השמם יש בהם מן החלקים השונים זה מזה, והשיעורים והצורות והמראים והתנועות מה של נוכל לספור. וכן הם כמו שאמר (איוב ט' ט') עושה עש כסיל וכימה וחדרי תימן:
Nota — a multiplicidade como assinatura da sabedoria O que parece “um” é, sob exame, muitos: todo corpo tem calor, frio, umidade e secura; a árvore tem ramos, folhas e fruto; o homem, carne, ossos, tendões e veias. E até os céus encerram partes, medidas, formas e movimentos “que não poderíamos enumerar” (Tehillim 104:24; Iyov 9:9). Para Saadiá, essa diversidade não é defeito, mas a marca da sabedoria do Criador Um. Daí a lição moral implícita em toda a treatise: a riqueza do humano está nas suas muitas tendências — e a virtude consiste em compô-las com medida, não em suprimir todas menos uma.

Sobre esta introdução · עִיּוּן

Por que começar pela metafísica

O tema do tratado é prático — como viver bem —, mas Saadiá ancora-o num princípio cosmológico: a unidade de D'us implica a multiplicidade do criado. Não é rodeio erudito. Se cada existente é, na verdade, um feixe de qualidades (calor e frio, ramos e folhas, ossos e veias), então também a alma humana é um feixe de inclinações. A ética não poderá, portanto, consistir em obedecer a um único impulso, mas em ordenar os muitos.

A diversidade como sabedoria

“Quão numerosas são as tuas obras… todas com sabedoria as fizeste” (Tehillim 104:24). Para Saadiá, a pluralidade do mundo — partes, medidas, cores e movimentos “que não poderíamos enumerar” — não é desordem, mas a própria marca do Criador sábio. Daí a tese que o tratado desenvolverá: o erro moral é tomar uma tendência (o prazer, a riqueza, o amor, a ascese…) como o todo da vida; o acerto é a medida que harmoniza todas. Esta breve introdução planta a semente do “justo meio” de Saadiá.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), Introdução, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Tehillim 104:24; Iyov 9:9. Notas e seção de estudo são originais.