Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 9

Os Filhos, a sua Criação e a Herança do Senhor

שַׁעַר הַבָּנִים — הָאַהֲבָה, הַגִּדּוּל וְנַחֲלַת יְיָ
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

A sexta disposição: o desejo de filhos. Saadiá expõe a sua bela defesa — alegria, continuidade do mundo, amparo na velhice, e o fato de que até os maiores profetas os imploraram — e depois acrescenta a nota educativa: ter filhos não basta sem meios e formação. Sem esquecer a face amarga (as dores do parto, o luto, os filhos desviados), conclui que o pai foi posto a amá-los e criá-los como herança do Senhor.

1

A sexta disposição: o capítulo dos filhos. Viram outros homens ser conveniente esforçar-se em buscar ter filhos, e disseram que há nisto alegria para a alma, e deleite para o olho, e regozijo e júbilo; e que, não fossem os filhos, não haveria seres humanos, nem subsistiria o mundo; e que eles são o tesouro do homem para o tempo da velhice, e os que o recordam para o bem depois da sua morte; e que a benevolência e a misericórdia não são senão para eles, e a honra e o apreço, também para eles. E basta como argumento que todo homem honrado dentre os profetas os pediu — como achas Abraão dizendo (Bereshit 15:3): “eis que a mim não me deste descendência”; e disse a Torá: “e Yitzchak suplicou ao Senhor em favor da sua mulher, pois ela era estéril” (ali 25:21); e disse Rachel: “dá-me filhos; e, se não, estou morta eu” (ali 30:1). E, por vezes, o pai lhes ensina a Torá de D'us, bendito e exaltado seja, e os Seus estatutos e os Seus mandamentos, e adquire por eles (por meio deles) recompensa, como disse (Yeshayahu 38:19): “o pai aos filhos dará a conhecer a tua verdade”.

הששי שער הבנים. ראו אנשים אחרים שישתדלו בקשת הבנים, ואמרו שיש בזה שמחה לנפש ומחמד לעין וששון וגילה, ולולי הבנים לא היו בני אדם, ולא יתקים העולם, והם הסגלה לאדם לעת הזקנה, והזוכרים אותו בטוב אחר מותו; ושהחנינה והרחמים אינם כי אם להם, והכבוד והיקר להם. ודי כי כל נכבד מן הנביאים שואל אותם, כאשר תמצא אברהם אומר (בראשית ט"ו ג') הן לי לא נתת זרע, ואמרה התורה ויעתר יצחק ליי' לנוכח אשתו כי עקרה היא (שם כ"ה כ"א), ואמרה רחל הבה לי בנים ואם אין מתה אנכי (שם ל' א'); ופעמים מלמדו האב תורת האלהים יתברך ויתעלה וחקיו ומצותיו, יקנה בם שכר, כאשר אמר (ישעי' ל"ח י"ט) אב לבנים יודיע אל אמתך.
Nota — a disposição dos filhos A sexta disposição é o desejo de ter filhos. Saadiá expõe-lhe a defesa, e ela é terna e poderosa: alegria da alma, deleite dos olhos, a continuidade da própria humanidade, o amparo na velhice e a boa memória após a morte. E o argumento de autoridade é forte: os maiores profetas imploraram por filhos — Abraão (“não me deste descendência”, Bereshit 15:3), Yitzchak e Rivká, e o grito de Rachel “dá-me filhos, ou morro” (30:1). Acrescente-se a recompensa de ensinar-lhes a Torá (Yeshayahu 38:19). Poucas paixões parecem tão santas — e por isso Saadiá precisa de cuidado ao medi-la.
2

E observei o que disseram, e vi que é correto quanto aos filhos que o Criador os agracia para O servir conforme a Sua vontade; e o ponto do erro destes que os exaltam como tudo é que impõem o propósito só deste capítulo, sem as demais coisas. E digo: que proveito há neles, se não tiverem alimento, e vestimenta, e abrigo? E que bem há em os criar, se não tiverem sabedoria e conhecimento? E que vale a benevolência para com eles e a compaixão por eles, na falta destas coisas? — não são senão acréscimo à dor dos pais. E onde está o seu apreço e a sua honra — o esperar-se deles alguma coisa —, quando não tiverem fundamentos (boa formação)?

והשתכלתי במה שאמרו, וראיתיו נכון בבנים שיחנם הבורא לעבדו כרצונו; ומקום טעות אלה, שמחייבים כונת זה השער לבדו, מבלי שאר הדברים. ואומר מה תועלת יש בהם אם לא יהיה להם מזון וכסות ומחסה, ומה טוב יש בגדולם אם לא יהיה להם חכמה ומדע? ומה היא חנינתם והחמלה עם העדר אלה הדברים? רק תוספת בצער האבות; ואנה הוא יקרם וכבודם, שיקוה מהם דבר, כשלא יהיה להם הקדמות?
Nota — ter filhos não basta; é preciso formá-los A ressalva de Saadiá é profundamente educativa. Ele concorda que os filhos são um bem — “quando o Criador os agracia para O servir”. O erro é fazer do mero ter filhos o fim de tudo, esquecendo o resto. Pois “que proveito há neles, se não tiverem alimento, vestimenta e abrigo? que bem há em criá-los, se não tiverem sabedoria e conhecimento?”. Filhos sem sustento e sem formação não são bênção, mas “acréscimo à dor dos pais”. O valor não está em gerar, e sim em criar bem — dar-lhes meios e, sobretudo, saber e caráter.
3

E onde ficam a dor da gravidez, e as dores (contrações) do parto, e o que ocorre da sua doença da parturiente? — como disse (Bereshit 3:16): “com dor darás à luz filhos”. E quiçá a mãe morra no tempo do seu parto, e a alegria se torne em luto, como disse (Bereshit 35:18): “e sucedeu, ao sair-lhe a alma, pois morreu” Rachel. E onde ficam a canseira do pai, e a sua fadiga, e o seu entrar em todo tipo de perigo, senão por causa do alimento dos seus filhos? — como disse (Iyov 39:30): “e os seus filhotes sorvem sangue”. E onde ficam a aflição de os criar, e o cuidar da sua doença, e o preparar dos remédios, e o guardar da água de cevada, e o aprontar das beberagens, senão com eles, na maior parte do tempo?

ואיה צער ההריון וחבלי הלידה ומה שיקרה מן חליה, וכמו שאמר (בראשית ג' ט"ו) בעצב תלדי בנים. ושמא תמות בעת לדתה ותשוב השמחה לאבל, כמו שאמר (בראשית ל"ה י"ח) ויהי בצאת נפשה כי מתה. ואיה יגיעת האב ועמלו והכנסתו בכל סכנה כי אם על מזון בניו, כמו שאמר (איוב ל"ט ל') ואפרוחיו יעלעו דם. ואיה צער הגדול והנהגת החלי ותקון הרפואות ושמירת מי השעורים והכנת המשקים, כי אם עמהם ברוב.
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Tanto mais grave é que o fim do assunto pode ser a morte e o luto perder um filho — e este é o “ai” e o “ai de mim” —, como disse (Hoshea 9:12): “pois, ainda que ali criem os seus filhos, eu os privarei deles, até não restar homem”. E, se os filhos viverem, o temor do que os varões dentre eles venham a fazer não o deixa dormir, como está escrito (Mishlei 19:26): “o que despoja o pai e faz fugir a mãe é um filho que envergonha e desonra”; e o temor do que possa suceder às fêmeas dentre eles é vergonha perpétua e afronta do rosto, como disseram os nossos mestres (Sanhedrin 100b): “do seu medo por ela, o pai não dorme de noite”. E, em suma, se forem rebeldes, perde-se a esperança — quanto mais se forem malvados; e sobre eles disse (ali 30:11): “há uma geração que amaldiçoa o seu pai e não bendiz a sua mãe”.

כל שכן שאחרית הענין למות ולשכול, והוא האוי והאבוי, כמו שאמר (הושע ט' י"ב) כי שם יגדלו את בניהם ושכלתים מאדם. ואם יחיו, הפחד ממה שיחדשוהו הזכרים מהם איננו מניח לו לישון, וכמ"ש (משלי י"ט כ"ו) משדד אב יבריח אם בן מביש ומחפיר; ופחד ממה שיתחדש על הנקבות מהם הוא כלימת עולם וחרפת פנים, כמו שאמרו רבותינו (סנהדרין ק' ב') מפחדה לא יישן בלילה. והכלל אם יהיו ממרים תאבד התוחלת, כל שכן אם יהיו מרעים, ועליהם אמר (שם ל' י"א) דור אביו יקלל ואת אמו לא יברך.
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Mas o pai foi posto a amar os filhos a fim de se apegar ao bem que o seu Criador o agraciou neles, e a fim de não se enfadar deles, como disse (Tehillim 127:3): “eis que herança do Senhor são os filhos, e recompensa é o fruto do ventre”.

אבל שם האב לאהוב את הבנים להחזיק במה שחננו בוראו בהם ולא יקוץ בהם, כמו שאמר (תהלים קכ"ז ג') הנה נחלת יי' בנים שכר פרי הבטן:
Nota — a herança do Senhor, e a coragem de amar Antes da regra final, Saadiá não poupa o leitor da face amarga da paternidade: as dores e os perigos do parto (que podem custar a vida da mãe — Rachel), o trabalho exaustivo de criar, o medo do luto, e a angústia que “não deixa o pai dormir” por um filho que envergonha ou por uma filha em risco (Sanhedrin 100b). Visto a frio, o cálculo assustaria. E, no entanto, a conclusão é de confiança serena: o pai “foi posto a amar os filhos” como dádiva do Criador, sem deles se enfadar — “eis que herança do Senhor são os filhos, e recompensa é o fruto do ventre” (Tehillim 127:3). Amar e criar filhos, com todos os seus riscos, é receber e guardar um bem confiado por D'us.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A mais santa das paixões

De todas as disposições, o desejo de filhos é a que vem com a defesa mais comovente — e mais autorizada: os patriarcas e Rachel imploraram por filhos. Saadiá não a contesta; reconhece nela alegria, continuidade e a oportunidade de transmitir a Torá. Mas, fiel ao método, mostra que mesmo a mais nobre inclinação, tornada o único fim, desequilibra a vida.

Gerar não é o bastante

A correção de Saadiá é sobretudo pedagógica: o bem não está em ter filhos, mas em criá-los bem. Filhos sem alimento, abrigo e — sobretudo — “sabedoria e conhecimento” não são bênção, mas “acréscimo à dor dos pais”. O valor da paternidade mede-se pela formação que oferece, não pelo número. É uma das passagens mais atuais do tratado: responsabilidade, não apenas fecundidade.

Amar apesar do risco

Saadiá olha de frente a face dura da paternidade — o perigo do parto, o trabalho sem fim, o medo do luto, a angústia que “não deixa o pai dormir” por filhos que podem envergonhar. O cálculo frio recuaria. E, no entanto, a conclusão é de confiança: amar e criar os filhos, com todos os seus riscos, é guardar um bem que o Criador confiou — “herança do Senhor são os filhos” (Tehillim 127:3). A coragem de amar é, aqui, a forma da fé.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 9, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Bereshit 15:3; 25:21; 30:1; 3:16; 35:18; Yeshayahu 38:19; Iyov 39:30; Hoshea 9:12; Mishlei 19:26; 30:11; Tehillim 127:3; cf. Sanhedrin 100b. Notas e seção de estudo são originais.