Saadiá mostra o preço do desequilíbrio — loucura, doença, autodestruição —, define o homem como senhor das suas disposições (soltar ou conter cada uma na hora e na medida certas), e expõe a base psicológica da sua ética: a alma tem três potências — desejo, ira e discernimento —, devendo a razão reger as paixões. Esse autogoverno é a verdadeira “disciplina dos sábios”.
E preciso esclarecer que as consequências desta escolha de um só traço não são de pequena monta, mas são grandes, como eu as represento e digo: dentre as pessoas, há quem escolheu vagar pelos montes, e isso o levou à loucura; e há quem escolheu o muito comer, e isso o levou às hemorroidas; e há quem escolheu a vingança, e acabou por vingar-se de si mesmo; e coisas semelhantes a estes casos — do que hei de esclarecer no meio deste tratado, com a ajuda de D'us. Mas adianto aqui e digo que, por isso, os homens precisam da sabedoria na condução do homem e nos seus caminhos, sempre — como disse (Mishlei 6:22): “quando andares, ela te guiará”.
E a raiz neste capítulo é que o homem seja senhor das suas disposições, e domine aquilo que ama e o que odeia; pois cada uma das coisas que ama e odeia tem um lugar próprio em que é cabível usá-la. E, quando vir o lugar em que é cabível usar aquela disposição, há de enviá-la na medida exata que complete aquela ação; e, quando vir o lugar em que é cabível conter aquela disposição, há de contê-la até que passe de sobre ele aquele ímpeto. E tudo isto com serenidade e com a capacidade de soltar a disposição no momento que quiser, e de retê-la no momento que quiser, como está escrito (ali 16:32): “melhor é o longânimo do que o valente, e o que domina o seu espírito do que o que conquista uma cidade”.
E já antepus, antes disto, que a alma tem três potências: o desejo (taavá), a ira (káas) e o discernimento (hacará). E a potência do desejo é a que leva o homem a ansiar por comida, por bebida e pela relação sexual, e a que lhe tornem agradáveis aos olhos as visões formosas, o bom cheiro e os toques macios. E a potência da ira é a que leva o homem ao predomínio e ao mando, e ao socorro de outros, e à vingança, à soberba e à insolência, e ao que é semelhante a isto.
Mas a potência do discernimento é a que julga sobre as outras potências. E qualquer que seja a inclinação que o homem cogite seguir, ou qualquer ramo dos seus ramos, ele então emprega a potência do discernimento para refletir sobre elas e prová-las; e, se vir que o seu desfecho e o seu fim estão a salvo de dano, então aconselha segui-la — tanto mais se o seu desfecho for louvável; e, se vir, em algum dos seus aspectos, algum dano dentre os danos, aconselha o seu abandono.
E todo homem que cumprir a regra deste capítulo, e fizer o seu discernimento dominar sobre o seu desejo e a sua ira, estará na disciplina (musar) dos sábios, como está escrito (ali 15:33): “o temor do Senhor é a disciplina da sabedoria”. E todo homem que fizer o seu desejo e a sua ira dominarem o seu discernimento não será homem de disciplina; e, se o seu estado for chamado “disciplina” indevidamente, trata-se da disciplina dos tolos, como disse (ali 1:7): “mas os tolos desprezam a disciplina”; e disse ainda: “e como a um grilhão que conduz à disciplina do tolo” (ali 7:22).
Os exemplos de Saadiá são deliberadamente concretos — loucura, doença, dano a si mesmo. Levar uma só inclinação ao extremo não rende santidade, mas ruína. Por isso a sabedoria precisa acompanhar a conduta a cada passo, e o homem precisa ser “senhor das suas disposições”: capaz de soltar um impulso quando convém e de retê-lo quando convém, “com serenidade”, na medida exata. Dominar-se vale mais que “conquistar uma cidade” (Mishlei 16:32).
O capítulo oferece a psicologia que sustenta toda a treatise: três potências. O desejo busca os prazeres do corpo; a ira move ao domínio e à defesa (e aos seus excessos — vingança, soberba); o discernimento é a razão. As duas primeiras não são más em si — são energias que pedem direção. Saadiá não prega extinguir o desejo ou a ira, e sim ordená-los.
A virtude define-se pela hierarquia interior: quando o discernimento julga os impulsos — pesando o desfecho de cada um e aconselhando seguir o que é seguro e louvável, abandonar o que é nocivo —, o homem alcança a “disciplina dos sábios”. Quando o desejo e a ira mandam na razão, o que se tem é, quando muito, a “disciplina dos tolos”. A liberdade moral, em Saadiá, é exatamente este autogoverno racional.
Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 2, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.
Citações: Mishlei 6:22; 16:32; 15:33; 1:7; 7:22. Notas e seção de estudo são originais.