Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 18 · apêndice

A Harmonia dos Sentidos e os Oito Modos Musicais

מִזּוּג הַמּוּחָשִׁים — מַרְאוֹת, שְׁמוֹנֶה נְגִינוֹת וְרֵיחוֹת
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Um apêndice fascinante encerra o tratado: como os sentidos afetam a alma. Saadiá analisa as cores (ligadas aos quatro humores), os oito modos musicais — uma das primeiras teorias da música no judaísmo — e os aromas, mostrando que a harmonia nasce sempre da mistura proporcional, nunca de um único elemento puro. E conclui, com elegância: se isso vale para os sentidos, quanto mais para o equilíbrio das disposições da alma.

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E achei por bem oferecer como acréscimo, ao fim deste tratado, a menção das misturas dos objetos sensíveis uns com os outros, para que seja um acréscimo, em ordem e em exame, ao que antepusemos acerca da mistura das disposições. E digo: é sabido que os objetos sensíveis são cinco — os que se saboreiam o paladar, e os que se veem, e os que se ouvem, e os que se cheiram, e os que se tocam. E ponho de lado dois deles: os que se tocam o tato, pois não trazem ao deleite senão por um único modo — a saber, o macio; e, em seguida, os do paladar, pois a sua composição já é conhecida — como o eletuário composto, feito do extrato, e do açúcar, e do açafrão e de outros, e assim também todos os pratos saborosos, dentre os alimentos e os cozidos. E dirigirei as minhas palavras aos outros três objetos sensíveis.

וראיתי להתנדב בסוף המאמר הזה בזכר מזגי המוחשים קצתם עם קצתם, להיותו תוספת בסדר ובבחינה למה שהקדמנו ממזג המדות. ואומר, הידוע כי המוחשים חמשה, נטעמים, ונראים ונשמעים, ומורחים, וממוששים. ואניח השנים מהם, והם הממוששים, כי אינם מביאים לידי ערבות כי אם בדרך אחד והוא הרך, ואחר כן הטעמים, כי הרכבתם ידועה, כמו ההרובה הפאלודג מהנשא והסוכר והכרכום וזולתם, וכן כל המטעמים מן המזונות והתבשילים. ואכוין בדברי אל שלשת המוחשים האחרים,
Nota — um apêndice científico: a harmonia dos sentidos Saadiá conclui o tratado com um acréscimo notável: uma análise de como os sentidos afetam a alma — não para mudar a doutrina, mas para confirmá-la “em ordem e em exame”. Põe de lado o tato (de um só prazer) e o paladar (cuja arte já é conhecida) e concentra-se em três: visão, audição e olfato. O quadro de fundo é a teoria humoral antiga (os quatro humores: sangue, bílis vermelha, fleuma branca, bílis negra), que liga estados do corpo a estados da alma. A tese é que uma só sensação intensa cansa ou desequilibra; a mistura proporcional é que deleita e harmoniza — exatamente como nas disposições morais.
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E digo que a cor isolada — seja de branco, ou vermelho, ou verde, ou negro — costuma enfraquecer o sentido quando se olha para ela: como a vista se embaça ao olhar para a neve, e como o vermelho prejudica o olho, e a força da vista se debilita ao olhar para o negrume, e o semelhante a isto; e ela a cor isolada, com isto, não traz a deleite algum nem a grande alegria. Mas, quando se misturam umas com as outras, renovam-se delas modos de deleite e um grande estímulo às potências da alma. E digo que o vermelho misturado com o verde move a bílis vermelha a cólera e as suas disposições, e se mostra da alma a força do vigor; e o verde misturado com o negro move a potência da fleuma branca, e se mostra da alma a força da baixeza humildade; mas, se se reunirem o negrume, e o branco, e o verde, e o vermelho, movem a potência do sangue, e se mostra da alma a força da realeza e do domínio; e, quando se conjugar o verde com o esverdeado, movem a potência da bílis negra, e se mostra da alma a força da timidez e do luto; e, do mesmo modo, se se aumentar ou diminuir nela a mistura das cores, renova-se para a alma, das suas potências, conforme as proporções.

ואומר, כי המראה הנפרד מלובן או אודם או ירוק או שחור, מנהגו להחליש החוש כשיביט אליו, כאשר יכהה הראות מן ההבטה אל השלג, וכאשר יזיק האודם לעין, ויחלש כח הראות מן השחרות, והדומה לזה, והוא עם זה אינם מביאים לידי ערבות ושמחה רבה, אבל כשימזגו קצתם עם קצתם, יתחדש מהם אפני הערבות ותנועה רבה לכחות הנפש. ואומר, כי האודם המתערב עם הירוק, יניע המרה האדומה ומדותיה, ויראה מהנפש חוזק העוז; והירוק המתערב עם השחור, יניע כח הלחה הלבנה, ותראה הנפש כח השפלות; אך אם יתקבץ השחרות והלובן והירוק והאודם, יניעו כח הדם, ויראה מן הנפש כח המלכות והממשלה; וכאשר יתחבר הירוק עם הירקרק, יניעו כח המרה השחורה, ויראה מן הנפש כח המורך והאבל; וכן אם יוסיף או יחסר בה מזג המראים, יתחדש לנפש מכחותם כפיהם.
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E, do mesmo modo, o som isolado, e a nota isolada, e a melodia simples não movem das disposições da alma senão uma só coisa, e por vezes a prejudicam; mas a sua mistura equilibra o que se mostra das suas disposições e potências — e convém-te conhecer os seus efeitos isolados, até que se dê conforme as proporções. E dizemos que as melodias os modos são oito, tendo cada uma delas a sua medida de notas. O primeiro deles, cuja medida é três notas — duas contíguas e uma móvel; e o segundo, três notas — uma em repouso e uma móvel; e estes dois modos movem a potência do vigor do homem e a potência da realeza e do domínio.

וכן הקול הנפרד והנעימה הנפרדת והנגינה, לא יניעו ממדות הנפש כי אם דבר אחד בלבד, ופעמים יזיקוה, אבל המזגם ישוה מה שיראה ממדותיה וכחותיה, וראוי לך לדעת מעשיהם נפרדים עד שיהיה כפיהם. ונאמר, כי הנגינות שמנה, לכל אחת מהם שיעור מהנעימות. הראשון מהם שעוד השלש נעימות, שתים סמוכות, ואחת נעה; והשניה שלש נעימות, אחת נחה ואחת נעה, ואלה השתי נגינות, מניעים כח האדם וכח המלכות והממשלה;
Nota — os oito modos musicais: uma das primeiras teorias da música no judaísmo Esta é uma das passagens mais preciosas do livro para a história da cultura: Saadiá descreve oito “melodias” (nigunot) — modos ou ritmos definidos por padrões de notas (contíguas, móveis, em repouso) e por intervalos de tempo —, e atribui a cada um um efeito sobre a alma e os humores: uns despertam o vigor e o senso de realeza, outros a coragem, outros a humildade e a timidez, outros a bílis negra (ora alegria, ora tristeza). É um ethos da música, aparentado à teoria grega e árabe dos modos, e um dos mais antigos tratamentos do tema na literatura judaica. O ponto moral: “é costume dos reis misturar os modos até que se equilibrem”, para que a música conduza a alma à justa medida — nem ao excesso de compaixão ou crueldade, nem de coragem ou timidez.
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E o terceiro, cuja medida é duas notas contíguas — não havendo entre elas um tempo de uma nota — e uma em repouso, e entre cada grave, e o agudo, e o grave há um tempo de uma nota; e este modo, sozinho, desperta a bílis vermelha, e a coragem, e a força do coração, e o que é semelhante a eles; e o quarto, cuja medida é três notas contíguas — não havendo entre elas um tempo de uma nota —, e assim também, a cada três e três, um tempo de uma nota; e este, sozinho, move a fleuma branca, e se mostra da alma a força da baixeza, e da submissão, e da timidez, e o semelhante a isto.

והשלישית שעורה שתי נעימות סמוכות אין ביניהם זמן נעימה, ואחת נחה, ובין כל השפל והגבה והשפל זמן נעימה, וזאת לבדה מעירה המרה האדומה והגבורה וחוזק הלב ומה שדומה להם; והרביעית שעורה שלשה נעימות סמוכות, לא יהיה ביניהם זמן נעימה, וכן כל שלש ושלש זמן נעימה, וזאת לבדה מניעה הלחה הלבנה, ותראה מהנפש כח השפלות והכניעה והמורך והדומה לזה;
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E o quinto, cuja medida é uma nota isolada, e duas diferentes uma da outra — não havendo entre elas um tempo de uma nota —, e entre o agudo e o grave um tempo de uma nota; e o sexto, cuja medida é três notas em movimento; e o sétimo, cuja medida é duas notas contíguas — não havendo entre elas um tempo de uma nota —, e, entre cada duas e duas, um tempo de uma nota; e o oitavo, cuja medida é duas notas contíguas — não havendo entre elas um tempo de uma nota —, e, entre cada duas e duas, um tempo de duas notas. E estes quatro, todos, movem a bílis negra, e mostram da alma disposições divididas — umas vezes para a alegria, e outras vezes para a inquietação. E é costume dos reis misturar os modos uns com os outros, até que se equilibrem; e que o que as melodias movam das disposições de quem as ouve seja conforme o que mais aprouver às suas almas, para a condução do reino — e que não as conduza ao excesso, nem na compaixão nem na crueldade, nem na coragem nem na timidez, nem no acréscimo nem na falta da alegria.

והחמישים שעורה נעימה נפרדת, ושתים שונות זו מזו אין ביניהם זמן נעימה, ובין הגבה והשפל זמן נעימה; והששית שעורה שלש נעימות מתנועעות; והשביעית שעורה שתי נעימות סמוכות, אין ביניהם זמן נעימה, ובין כל שתים ושתים זמן נעימה; והשמינית שעורה שתי נעימות סמוכות, אין ביניהם זמן נעימה, ובין כל שתים ושתים זמן שתי נעימות; ואלה הארבע כלם, מניעים המרה השחורה, ומראות מן הנפש מדות נחלקות, פעם אל השמחה, ופעם אל הדאגה. וממנהג המלכים, למזוג קצתם עם קצתם, עד שתשתוינה, ויהיה מה שתניענה ממדות שמעה אותם, כפי מה שייטיב נפשותם להנהגת המלכות, ולא יוציאם אל הרבוי ברחמים או באכזריות, ולא בגבורה ולא במרך, ולא בתוספת ובחסרון בשמחה.
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E sobre este mesmo princípio se dá o assunto do cheiro isolado: cada um dos aromas que se cheiram tem a sua potência; e, quando se misturam uns com os outros, a mistura adquire um efeito conforme a maior ou menor proporção da combinação. E disto: que a mirra é quente e seca, e a cânfora é fria e sutil, e o açafrão é quente e seco, e o aloés é frio e úmido, e o âmbar é quente e mediano, e a água de rosas é fria e sutil. E, quando se mistura cada um deles com um outro, se combinam as suas potências e se ajustam para os proveitos dos homens. E, já que a equalização o equilíbrio em todos os objetos sensíveis é mais proveitosa para o homem, quanto mais será a equalização das suas disposições e dos seus amores — que lhe será ainda mais proveitosa!

ועל זה יהיה ענין הריח הנפרד, לכל מריח מהם כח, וכאשר ימזגו קצתם בקצתם, יקנה ענין כפי רוב המזג ומעוטו. ומזה שהמר דרור הם יבש, והכפור קר דק, והזעפרן חם יבש, והאהלות קרים ולחים, והענבר חם ממוצע, ומימי הורדים קרים ודקים. וכאשר יעורב כל א' מהם באחר, ימזגו כחותיו ויתקנו לתועלות בני אדם. וכיון שההשויה בכל המוחשים יותר מועילה לאדם, כ"ש השוית מדותיו ואהבותיו שתהיה מועילה לו יותר:
Nota — do equilíbrio dos sentidos ao equilíbrio da alma O fecho do apêndice — e do tratado — é um argumento a fortiori de rara elegância. Tendo mostrado que, em tudo o que percebemos (cores, sons, aromas), a saúde e o prazer vêm da mistura proporcional, e nunca de um único elemento puro, Saadiá conclui: se o equilíbrio é assim benéfico até nos sentidos, quanto mais o será na composição das disposições e amores da alma! A harmonia, que se vê na física dos perfumes e na arte da música, é a mesma lei que rege a vida moral. Assim a ética do justo meio recebe a sua confirmação na própria ordem sensível do mundo — e o décimo tratado culmina onde a introdução começara: na sabedoria do Um que se exprime na justa medida dos muitos.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A ética confirmada pela “física” da harmonia

Saadiá fecha o décimo tratado com um acréscimo de naturalista: examina os sentidos para confirmar, no plano sensível, a lei do equilíbrio. Cores, sons e aromas — todos seguem o mesmo princípio: isolados e intensos, cansam ou desequilibram; combinados em proporção, deleitam e movem a alma harmoniosamente. O pano de fundo é a teoria dos quatro humores, que enlaça corpo e alma — uma psicofisiologia medieval posta a serviço da moral.

Oito melodias para a alma

A jóia do capítulo é a descrição dos oito modos musicais, definidos por padrões de notas e tempos, cada um movendo um humor e uma disposição: vigor e realeza, coragem, humildade, ou a bílis negra (alegria e tristeza). É um dos mais antigos tratados de ethos musical na tradição judaica, irmão das teorias grega e árabe. E o seu sentido é prático: “os reis misturam os modos até que se equilibrem”, para que a música conduza a alma à medida certa, sem excesso de paixão nem de frieza.

Do perfume à virtude

O argumento final é um a fortiori perfeito: se a saúde e o prazer dos sentidos — até no perfume composto — vêm da dosagem proporcional, quanto mais a felicidade da alma virá da justa medida das suas inclinações. A ética do meio-termo não é regra arbitrária: é a mesma harmonia que rege as cores, os sons e os aromas. Assim o tratado termina onde a sua introdução começara — na sabedoria do D'us Uno que se manifesta na proporção dos muitos.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 18 (apêndice), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais. Os termos técnicos da música e da teoria humoral são vertidos com aproximação, dada a sua antiguidade.