Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte V

O dualismo refutado: a treva como ausência de luz

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · ג׳ (המשך)
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Como explicar o bem e o mal no mundo? Alguns imaginaram dois poderes eternos em luta — um todo bom, outro todo mau. Saadia refuta esse dualismo em defesa da unidade de D’us, e chega a uma das ideias mais luminosas da filosofia: a treva não é o oposto da luz, mas a sua ausência — e o mal não é um princípio, e sim a privação do bem.

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A quinta opinião é a de quem afirmou dois fazedores eternos. Estes — que D’us te guie! — são mais insensatos do que todos os anteriores. Recusam que dois efeitos opostos venham de um só agente, dizendo nunca terem visto tal coisa; e, vendo que todas as coisas têm bem e mal, dano e proveito, concluíram que o bem provém de uma raiz toda boa, e o mal de uma raiz toda má. Imaginaram cada “raiz” infinita em cinco direções e limitada na sexta, onde toca a outra; e que ambas, antes separadas, se misturaram, e dessa mistura surgiram os corpos — supondo que, ao fim, o bem prevalecerá e o mal cessará. Eis o que há contra eles: ficam sujeitos, primeiro, às quatro provas de que o mundo é criado e às cinco contra quem disse que D’us o fez de Si mesmo — treze ao todo —; e, além dessas, a quinze objeções próprias deste tratado. Primeiro, refuto a suposição de que não há, no visível, dois efeitos opostos vindos de um só agente. Achei que isso é, sim, possível: o homem se ira e depois se aplaca e perdoa, dizendo “já me irei e já perdoei” — logo, o mesmo agente produziu a ira e o perdão. E vemos o homem roubar e, ao ser levado a confessar, confessa o que fez — logo, o mesmo agente fez o roubo e a confissão (que é boa). E, se a “força que se ira” não fosse a “força que deseja perdoar”, quem perdoa não se lembraria, ao perdoar, do que fizera ao irar-se — mas a experiência mostra o contrário. Depois examinei o que eles admitem — um efeito vindo de dois agentes — e achei-o falso: se cada um faz o todo, nada resta ao outro; e, se cada um faz uma parte, então cada parte teve na verdade um só autor, sem sócio.
והדעת החמישית, דעת מי שאמר בשני עושים קדמונים. ואלה, יישירך האלהים. יותר ‏סכלים במה שנטו אליו מכל מי שקדם זכרו. והוא שהם מדחיקים שיהיו שני פועלים מפועל אחד, ‏ואומרים כי לא ראו כזה, והסכימו על זה ואמרו; הנה אנחנו רואים הדברים כלם שיש בהם טוב ורע ‏נזק ותועלת, וכבר התחייב שיהיה הטוב אשר שט, משרש כלו טוב, ויהיה הרע אשר בם משרש כלו ‏רע. והביאם זה לומר כי מוצא הטוב אין לו תכלית מחמשה צדדים, והם המעלה ומזרח ומערב ‏ודרום וצפון, ויש לו תכלית מלמטה ממקום שהוא ממשש מוצא הרע; וכן מוצא הרע אין לו תכלית ‏מחמשה צדדים, והוא מטה ומזרח ומערב ודרום וצפון, ויש לו תכלית מלמעלה ממקום שהוא ‏ממשש מוצא הטוב. ואמרו עוד שאלה השני שרשים, לא סרו נבדלים זה מזה, ואחר כן נמזגו ‏והתחדשו אלו הגשמים מהמזגם. ונחלקו בסבת המזגם, שקצתם חשבו כי הטוב היתה סבתו ‏שירפא הצד הפוגש אותו מן הרע; ומקצתם חשבו, כי הרע היתה סבת המזגו לתקותו בטוב שיהנה ‏במה שבו מן הערבות. והסכימו כי זה המזוג לו עד זמן כשיהיה כלה, תהיה התגבורת לטוב ויחלש ‏לרע ויפסק מעשהו. והנני כותב מה שיש על אלה מן התשובות בכל שער ממה שטעו בו. ואומר כי ‏יש עליהם תחלה ארבעה פנים אשר הביאונום ראיה על היותם לא מדבר; ואחריהם החמש פנים ‏אשר על מי שחשב שהבורא יתברך בראם מעצמו, ואלה י"ג פנים, ועליהם אחריהם מה שהוא מיוחד ‏בהם ט"ו מינים מן התשובות במאמר הזה, חוץ ממה שיש עליהם במאמר השני. והוא שלקחתי ‏קטבי דבריהם, וסבבתי עליהם אופן העיון, ונתקו בו עד שלא נשאר מהם דבר. והשיבותי אל לבי ‏ראשון (ראשון), מה שחשבו כי אין בנראה שני פעלים זה הפך זה מעושה אחד. ומצאתי שהיות שני ‏פעלים מפועל אחד נכון מכמה פנים; אחד מהם שהאדם יקצוף ויכעס, ואחר כן ירצה וימחול, ויאמר ‏כבר רציתי וכבר מחלתי. ואם הטוב הוא המוחל הוא ג"כ היה הקוצף, ואם הרע הוא המוחל, כבר ‏היטיב כאשר מחל; ועל שתי הפנים יחדיו כבר היו שני המעשים לא'. ועוד כי אנו רואים האדם רוצח ‏וגונב, וכאשר יביאוהו להודות יודה במה שחטא ובמה שעשה; ואם הרע הוא שהודה כבר צדק, ‏והצדק הוא טוב. ואם הטוב הוא אשר הודה, הוא גם כן אשר רצח וגנב, ועל שני הענינים יחד כבר ‏התקיימו לאחד השני מעשים. ועוד שאם יהיה הכח הכועס איננו הכח הרוצה, וכן הכח הגונב, איננו ‏הכח המודה, ראוי א"כ שלא יזכור רוצה בעת רצותו מה שהיה ממנו בעת קצפו, ולא יזכור המודה ‏בעת הודאתו מה שהיה ממנו בעת חטאו, ואנחנו מוצאים המוחש בהפך זה כלו. ואחר כן השתכלתי ‏מה שהכשירוהו מהיות פועל א' לשנים, והנה הוא מופסד משני פנים. אחד מהם שאם נעלה בדעתנו ‏ששנים שיעשו עשוי אחד ונחשוב שאחד מהם עושה את כלו, והשני גם א עושה את כלו, יהיה כל זה ‏הבל, כי העושה את כלו לא נשאר לשני מה יעשה. ואם נחשוב כי א' מהם עושה את קצתו והאחר ‏עושה קצתו, כל העשוי א"כ כבר היה לעושה אחר ואין לו שותף בו:‏
Nota — o dualismo, e a unidade de D’us. Esta quinta teoria é o dualismo: dois poderes eternos em luta, um todo bom e outro todo mau (uma visão que ecoa religiões antigas, como o zoroastrismo e o maniqueísmo). O seu motivo é compreensível — explicar a coexistência do bem e do mal no mundo. Mas Saadia mostra, contra ela, que um único agente pode, sim, produzir efeitos opostos (a mesma pessoa que se irou também perdoa). Não são precisos dois deuses para explicar o bem e o mal: a unidade de D’us permanece intacta (cf. o ensaio “A unicidade de D’us”).
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O segundo aspecto: quem supõe que dois agentes façam um só efeito não pode deixar de pensar que cada um deles, assim como pode fazer aquilo, também pode deixar de fazê-lo. E, ao supormos duas escolhas opostas sobre um mesmo efeito — um escolhendo fazê-lo e o outro escolhendo deixá-lo —, vê-lo-íamos, na razão, feito e não-feito ao mesmo tempo: um absurdo evidente. Eis que recusam o que se confirma pelo testemunho do visível e admitem o que o anula.
והפנים השניים, כי המעלה על דעת שני דברים יעשו מעושה אחד, א"א לו שלא יחשוב לכל אחד ‏מהם שכמו שיכול שיעשה הדבר ההוא, כן הוא יכול שיעזוב עשותו. וכאשר נעלה על דעתנו שתי ‏בחירות זו הפך זו במעשה אחד, בחר אחד מהפועלים עשוהו, ובחר האחד שיעזוב עשותו, נראה ‏אותו בשכלנו עשוי, עזוב, בעת אחד, וזה הפך מבואר. והנה אתה רואה אותם, שהרחיקו מה ‏שהתקיים בעדות הנראה, והודו במה שבטלו הנראה:‏
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São, ao todo, cinco respostas: três contra a sua recusa de dois efeitos de um só agente, e duas contra a sua afirmação de um efeito por dois. E digo: fugiram de aceitar “uma coisa não de outra coisa” por nunca terem visto tal coisa — e caíram num abismo de coisas que tampouco se veem. Pois admitiram que cada “raiz” é infinita em cinco direções (que nunca viram) e limitada só na sexta (a única que de fato observaram), julgando ao contrário do que viam; admitiram partes não-misturadas, quando tudo o que captaram estava misturado; e supuseram que a mistura teve um começo e terá um fim, sem que nada lho mostre. Em quatro objeções, mostro que toda a teoria contraria a própria experiência que dizem seguir. Depois examinei as duas causas que dão à “mistura”, e achei ambas falsas. E vi que o sensível rejeita a própria mistura: o fogo afasta-se da água, o ar foge de misturar-se à terra; se as suas partes pequenas assim se repelem, muito mais as grandes — e a mistura jamais se completaria. E, se invocam a profecia, um “deus misturado” não poderia ter profetas fidedignos nem fazer prodígios contra a natureza — que eles próprios negam. Isto completa as quinze objeções. E não sossego aqui sem esclarecer que aquilo a que esse povo se apega — a treva — não é o oposto da luz, mas a sua ausência. E, se perguntarem por que o digo, trago três provas. Primeira: o homem não pode criar uma substância; e, no entanto, ao pôr-se ao sol e juntar as palmas das mãos em abóbada, o que há entre elas escurece — ora, ele não criou “a treva”, apenas impediu a luz de chegar ali, e o lugar escureceu por falta de luz. Segunda: quem está diante de uma só vela tem sombra; cercado de muitas velas, não tem sombra alguma — e o homem não tem poder de aniquilar uma substância; apenas se acrescentou luz onde ela faltava. Terceira: nunca vi dois corpos opostos em que um se transformasse no outro restaurando-o por inteiro (a água não vira fogo, nem o fogo, água); mas vi o ar escuro tornar-se luminoso — e disso soube que a treva não é o oposto da luz, mas a sua ausência. E o mesmo vale para os demais sentidos: o ar recebe o som e no-lo transmite; faltando o som, nada ouvimos — e a esse silêncio não chamamos “o oposto do som”, mas a ausência do som; assim também o cheiro e a própria luz. E sei que D’us disse de Si mesmo: “Eu sou o que forma a luz e cria a treva” (Yeshayahu 45:7) — entenda-se conforme este dado dos sentidos: Ele criou o ar que recebe a luz e a treva, uma por presença e a outra por ausência. E o versículo segue: “o que faz a paz e cria o mal” (Yeshayahu 45:7) — e todos nós concordamos que o Criador não criou o mal como um princípio; antes, criou as coisas de tal modo que o homem, pela sua escolha, tenha nelas o bem-estar (“paz”) ou o mal: se comer e beber na medida da necessidade, isso lhe é bem; se delas tomar o que o corpo não suporta, isso lhe é mal — como explicarei no quarto tratado o da justiça e do livre-arbítrio. O versículo atribui a luz e a treva à criação de D’us justamente para refutar o mau pensamento de quem creu em dois poderes; e ainda nos deu a conhecer que a luz e a treva têm um limite: “traçou um círculo sobre a face das águas, até o confim da luz com a treva” (Iyov 26:10).
ואלה חמשה תשובות, שלשה על הרחקתם שני מעשים מעושה אחד, ושתים על קיומם מעשה א' ‏לשנים. ואחר כן אומר, ברחו מהיות דבר לא מדבר, מפני שלא ראו כמוהו, והפילו עצמם בגומך לא ‏נראה כמוהו. ותחלת זה, שהם הודו כי כל אחד מהשנים אין לו תכלית מחמשה צדדים, אשר לא ‏ראו, והיה יותר טוב להם שישימם שיש להם תכלית, הקשה על הששית אשר ראו איתה, ודנו בהפך ‏זה. ועוד שהם במה שחשבו, כי הרב מכל אחד מהשנים נפרד בלתי נמזג; והם כל דבר שהשיגו ‏מהם לא השיגוהו כי אם נמזג, ועזבו להאמין כי הכל נמזג, הקשה על הקצת, ויחשבוהו בהפך זה. ‏ועוד כמה שחשבו, שהמזג חדש בלתי קדמון לא היה לפניו מזג, ומה הודיעם? ואולי שני הענינים לא ‏סרו נמזגים, ונפרדים עד אין מספר. ועוד במה שחשבום, שהם עתידים להפרד אחר זמן, ומה ‏הודיעם שזה יהיה? ואולי לא יהיו נפרדים לעולם, הקשה על הנראה לו, שמא יפרדו וימזגו בעתיד ‏לאין תכלית? ראה! איך ברחו מהיות דבר לא מדבר, מפני שלא ראו כמוהו בנמצא; והסכימו על ‏חלקים בלתי נמזגים, ושהם אין להם תכלית, ובמזג לא היה מזג לפניו, ובהפרד לא יהיה אחריו ‏מזג, ולא ראו דבר מזה לנמצאות, אך ראו הנמצאות בהפך זה. ואלה ארבעה תשובות אחרות. ואחר ‏כן עיינתי בשתי עלות המזג אצלם, ומצאתים נפסדות שתיהן, והוא כי הפועל אם היה כשאר אמרו ‏קצתם בכוון הטוב, כבר שב רע בהתערבו עם הרע בכוונו בקשת הרע, ואם הוא בכוון הרע כבר ‏נהפך המכוון מעצמותו; וזה מה שממאנים להודות בו. ועוד אם הוא המזג מפועל הטוב לא הגיע אל ‏מה שכוון (מהרעות) הצד הממשש אותתו. אבל אנחנו רואים צערו בהכנס הרע יותר גדול מהמשוש ‏וזה תאר עצל פתי. ואם הוא הפועל לרע כבר הגיע אל בקשתו, והנה אנחנו רואים אותו שיערב לו ‏הטוב ויאכלהו וישתהו וירוה אותו ויקרב אליו, ועל שני העיינים כבר נפל היאוש מגבור הטוב על ‏הרע. ואחרי כן התבוננתי אפני המזג אחר שהיו נפרדים, וראיתי המוחש דוחה את זה, כי אנחנו ‏רואים האש מתרחק מהתחבר אל המים, ונראה האויר בורח מהתערב בעפר, וכאשר יהיו חלקיהם ‏המעטים על זה ההמנע, כל שכן שימנעו חלקיהם הרבים ולא ישלם המזג לעולם וזה מבואר. ועוד ‏אם העם נתלים בהקשה יש לנו עליה אלה השלשה תשובות אחרונות; ואם מצד ההגדה אומרים ‏המאמרים האלה, ההגדה הברורה לא תהיה כי אם מדרך הנבואה, וכל נביא איננו כי אם אחרי ‏המזג, ובזה שלש טענות. הראשונים שאחרי הפרדו ממוצא הגמור אינו יודע מה יהיה מהמוצא ‏ההוא. והשנית כי בהתערבו עם הרע כבר נשתנה צדקו ולא יהיו הנפשות בוטחות בו. והשלישית כי ‏הנביא אין מתקיימת לו הנבואה כי אם באותות המלאות, והאותות המלאות לא תהיינה כי אם ‏בחדוש מה שאין בטבע ולא כמנהג, והם מכחישים מה שהוא הפך הטבע והמנהג, והם מביאים ‏ראיה תמיד במה שהם סוברים בטבע ובחק. וזה ממה שמרחיק אותם מטעות הנבואה, כי לא יתכן ‏אצלם להביא מופתים עליה, וזה השלמת החמשה עשר פנים. ואני עתיד לזכור אחריהם פנים ‏אחרים במאמר השני מאמר היחוד בעזרת האלהים ואמצתו. ולא תנוח דעתי אחר כן במקום הזה ‏על כל מה שזכרתי, עד שאבאר כי זה הדבר אשר החזיקו בו העם הזה, ר"ל: החשך, אינו הפך ‏האור, אבל הוא העדר האור. ואם יאמרו מאי זה טעם אתה אומר כי אין החשך הפך האור? אביא ‏בזה ג' ראיות. אחת מהן כי האדם אינו יכול לברא שרש, והנה אנחנו רואים אותו כשהוא עומד ‏לשמש וישים כפו האחת על השנית כמו קובה, יהיה מה שיש ביניהם חשך, והאדם אינו בורא שרש ‏החשך, אך סך בעד האור מהגיע אל האויר אשר בין כפיו, וחשך מפני שחסר האור. והשנית כי אני ‏רואה את האדם יש לו צל כשהוא עומד לפני נר א', ואם נקיפהו בנרות רבים לא יהיה לו צל, ואין ‏בכח האדם לכלות שרש מהשרשים, אבל המציא האור אשר היה נעדר בקצת האויר המקיף את ‏האדם. והשלישית כי לא ראיתי שני גופים זה הפך זה שיהפך אחד מהם וישוב האחר על השלמות, ‏כאשר לא יהפכו המים אש ולא האש מים. וכאשר ראיתי האויר החשוך ישוב מאיר, ידעתי כי החושך ‏איננו הפך האור אבל הוא העדרו. ואחר כן מצאתי שאר המוחשים על הדרך הזה, והוא שהאויר ‏מקבל הקול מן המדבר ומגיעו אלינו, ואם לא יקרעהו קול לא נשמע דבר, ולא נאמר באויר ההוא ‏איננו משמיע הפך הקול, אבל הוא העדר הקול. וכן המאמר בריח, כי האויר מקבלו באי זה מקום ‏שיהיה ומגיעו אלינו, ואם לא יהיה לא נריח דבר, ואין זה הפך הריח, אבל הוא העדרו. וכן האויר ‏מקבל האור ומגיעו אל עינינו, אם לא יהיה אור לא נראה דבר, אין זה הפך האור, אבל הוא העדר ‏האור. וכאשר ראיתי הגופים העבים מונעים האור ונדמה לבני אדם כי הצל יולד מהם, אמרתי אולי ‏יטענו כי החשך יולד מן העפר. והתבאר לי כי אם היינו לוקחים גוש עפר ועמדנו במקום השמש ‏וזרינו את עפרו באויר, לא היינו רואים לחשך מקום כלל. ונאמר עוד, אולי הם טוענים באדם אשר ‏הקיפוהו הנרות כי צלו שב אל גופו, וידעתי שאם היה זה כן היה משחיר הנראה מגופו. ואלה דברים ‏נראים מוחשים, דוחים התחדשות השבושים אשר נאמרו כי החשך באור, ואני יודע כי האלהים ספר ‏על עצמו (ישעיה מ"ה ז') שהוא יוצר אור ובורא חושך. ואומר במה שהוא נאות למוחש הזה, כי הוא ‏ברא האויר המקבל האור והחשך במציאות והעדר, כאמרו אחריו (שם שם) עושה שלום ובורא רע. ‏ואנחנו מסכימים כלנו כי הבורא לא ברא רע, אך ברא לדברים אשר הם סובלים שיהיה לאדם בהם ‏שלום ורע בבחירתו, שאם יאכל המאכל כפי צרכו וישתה המים כפי צרכו יהיה זה שלום, ואם יקח ‏מהם מה שאינו סובל יהיה זה רע, וכאשר אני עתיד לבאר במאמר הרביעי בשאר הצדק, אבל יחס ‏האור והחשך לבריאתו, בעבור רוע מחשבת מי שהאמין בשנים, ועל כן אמר יוצר אור ובורא חשך, ‏והודיענו עוד כי יש לאור ולחשך תכלית, וכאשר השיבונו אל העם הזה באמרו (איוב כ"ו י') חק חג ‏על פני מים עד תכלית אור עם חשך:‏
Nota essencial — a treva é ausência, e o mal não é um princípio. Aqui está uma das ideias mais luminosas de toda a filosofia, e a chave para responder ao dualismo: a treva não é o oposto da luz — é a sua ausência (privação). Saadia prova-o de três modos simples (as mãos que bloqueiam o sol; as muitas velas que dissolvem a sombra; o ar escuro que volta a iluminar-se). E daí tira a consequência decisiva: o mal também não é uma “coisa” criada, um poder à parte — é a privação ou a corrupção do bem. Por isso o versículo “Eu crio a treva… e crio o mal” (Yeshayahu 45:7) não é dualismo: D’us cria o mundo e a liberdade; o “mal” surge quando o ser humano usa mal o bem (comer além da conta, etc.) — tema do quarto tratado. É a mesma tese que o Rambam desenvolveria (o mal como ausência de bem), e que este site explora em “D’us cria o mal?” e “O livre-arbítrio”. Não há dois deuses; há um só D’us, e uma só luz — sendo a treva apenas onde ela ainda não chegou.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Por que não são precisos dois deuses

O dualismo parece resolver elegantemente o problema do mal: um deus bom para o bem, um deus mau para o mal. Saadia desfaz a aparente elegância de dois modos. Primeiro, mostrando que um só agente já produz efeitos opostos — não é preciso multiplicar princípios. Segundo, expondo que a teoria, para fugir da criação do nada, acaba por afirmar uma porção de coisas que nunca se viram (raízes infinitas, partes que não se misturam). A unidade de D’us sai confirmada.

A grande intuição: a privação

O coração desta seção é a tese de que a treva é mera ausência de luz, e não um poder rival. Com três experiências simples, Saadia desmonta o dualismo na raiz: se a treva não é uma “coisa”, então não precisa de um “deus da treva”. E o mesmo se aplica ao mal — ele não é uma substância criada, mas a falta ou o desvio do bem. É a resposta clássica, que o Rambam herdaria, tanto ao dualismo quanto ao problema do mal.

“Crio a luz e crio a treva”

O versículo de Yeshayahu (45:7) foi, ele mesmo, dirigido contra o dualismo persa. Saadia lê-o com precisão: D’us cria o meio (o "ar") que recebe a luz como presença e a treva como ausência; e cria um mundo no qual o bem e o mal estão ao alcance da escolha humana. Um só Criador, uma só luz — e a liberdade do homem como a verdadeira origem do mal moral.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I, capítulo 3 (segmentos 14-16), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

O extenso §16 foi condensado nos pormenores técnicos (marcados com “...”), preservando-se as objeções principais e, na íntegra, a tese da treva como ausência de luz e do mal como privação. Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. O capítulo 3 prossegue (os quatro elementos, o acaso, a eternidade do mundo, o ceticismo). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.