Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte IV

Contra as teorias rivais (II): o mundo “feito de D’us”

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · ג׳ (המשך)
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Saadia prossegue na refutação das teorias sobre a origem do mundo. Aqui enfrenta a terceira: a de que o universo teria sido feito da própria essência de D’us — uma forma de panteísmo. A sua resposta é uma poderosa defesa da transcendência divina, e conduz à conclusão de que criar do nada é a opção mais racional de todas.

1
A terceira opinião é a de quem disse que o Criador dos corpos os fez de Si mesmo da Sua própria essência. Encontrei essa gente incapaz de negar um Autor; e, contudo, o seu intelecto não aceitava — segundo o seu modo de pensar — que houvesse “uma coisa não de outra coisa”; e, já que nada existe senão o Criador, creram que Ele criou as coisas a partir de Si próprio. Estes — que D’us se compadeça! — são mais insensatos do que os primeiros. Exporei a sua tolice por treze vias: as quatro respostas que valem contra os adeptos dos “espirituais”, as quatro provas da criação e as quatro provas de “uma coisa do nada”. Mas as respostas dirigidas a quem afirmava a eternidade dos “espirituais” não se lhes aplicam; em lugar delas, ficam sujeitos a cinco objeções, cada uma das quais os refuta:
‏והדעה השלישית דעת מי שאמר, שבורא הגשמים בראם מעצמו. מצאתי אלה האנשים ‏לא נתכן להם לכחש בעושה, ועם זה לא קבל שכלם כפי מחשבתם היות דבר לא מדבר, וכיון שאין ‏דבר כי אם הבורא, האמינו כי ברא הדברים מן עצמו. ואלה, ירחמך האל! יותר כסילים מן ‏הראשונים. וראיתי לגלות אולתם בשלש עשרה פנים; מהם הארבעה אשר על בעלי הרוחניים, ‏וארבעה ראיות החדוש, וארבעה ראיות היות דבר לא מדבר. אך אופני התשובה אשר על מי שאמר ‏בקדמות הרוחניים, אינם חייבים בהם, אך הם חייבים כמותם חמש ענינים כל אחד מהם הרחיק ‏אותו:‏
Nota — a terceira teoria: o mundo “feito de D’us” (emanação/panteísmo). Esta visão tenta um caminho do meio: recusa tanto a matéria eterna quanto a criação do nada e, como “nada existe além do Criador”, conclui que o mundo deve ser feito da própria substância de D’us — uma forma de panteísmo ou emanação. O motivo é compreensível; mas, como Saadia mostrará, a solução é a pior de todas: para evitar que o mundo venha do nada, faz D’us descer ao mundo.
2
A primeira: a mudança da essência eterna — que não tem forma, nem qualidade, nem medida, nem lugar, nem tempo — até tornar-se, em parte, um corpo com forma, medida, fronteira, lugar, tempo e tudo o mais que cabe aos seres. Isto não se pode sequer admitir, senão como o mais remoto dos absurdos.
הראשון השתנות הענין הקדמון אשר אין לו צורה, ולא תכונה ולא שיעור ולא מקום ולא ‏זמן, עד ששב קצת גוף שיש לו צורה ושיעור וגבול ומקום וזמן ושאר מה שנכללו עליו הנמצאות, ואין ‏להעלות זה על הלב בי אם מרחוק שברחוקים:‏
3
A segunda: a vontade livre de D’us — que não sofre mudança, sobre quem nenhum agente atua, a quem nada afeta — poria parte de Si como um corpo, até ser afetada pelos agentes, tornar-se ignorante depois da sabedoria, inquieta depois do repouso, com fome, sede, angústia e fadiga, e sujeita a todos os outros males — Ele, que estava longe de tudo isso e não precisa tirar deles proveito algum? Estas não passam de fantasias vãs.
והשני, בחירת האדם אשר לא ישיגהו שנוי, ולא יפעל בו פועל, ולא ישיגהו משיג, שישים ‏קצתו גוף, עד שישיגיהו המשיגים, ועד שיפעלו בו הפועלים, ועד שיסכל אחר החכמה, ויאנש אחר ‏המנוחה, וירעב ויצמא וידאג וייגע, וישיגוהו שאר הרעות, והוא היה רחוק מכל אלה, ואין לו צורך ‏לקנות מהם תועלת, אין אלה הדברים כי אם מעניני ההבל:‏
Nota essencial — por que o mundo não pode ser “parte de D’us”. Aqui está o cerne, e é uma poderosa afirmação da transcendência divina. D’us é perfeito, imutável, incorpóreo e não carece de nada; o mundo, ao contrário, muda, tem corpo, sofre, padece fome e fadiga, ignora e morre. Dizer que o mundo é “parte de D’us” obrigaria a admitir que o próprio D’us se divide, muda, sofre e se degrada — o que é absurdo. A criação, justamente, mantém a distância salvadora entre o Criador e a criatura: o mundo vem d’Ele, mas não é Ele (cf. os ensaios “D’us é incorpóreo” e “D’us é imutável”). É a recusa racionalista do panteísmo.
4
A terceira: o Justo, que não comete injustiça, como decretaria sobre parte de Si lançá-la nesses males? Ao tentar entender isto, não encontro como escapar de duas hipóteses: ou esses males lhe vieram por juízo, merecidamente — o que só se daria por um mal que essa parte fez, ou por pecados que cometeu (e uma parte de D’us pecando?) —, ou vieram sem tal merecimento, e então seria uma violência e uma injustiça que Ele cometeria contra Si mesmo. Em qualquer das duas, achei a coisa falsa e corrompida.
והשלישי, הצדיק אשר לא יעול, איך גזר על קצת חלקיו להפילם ברעות האלה? וכאשר ‏אשתדל לדעת זאת, לא אמצאהו שיעבור אחד משני ענינים, אם שבא עליו ה בדין והתחייב בו, לא ‏יהיה כי אם בעבור רעה שעשה או בחטאים שחטא, או שיהיה בלא חיוב, ויהיה זה חמס שחמסו ‏ועול שעול עליו. ועל אי זה משני הענינים שבא הדבר, מצאתיו מופסד ושקר:‏
5
A quarta: como aceitou aquela “parte” a ordem das demais partes, a ponto de se moldar, dispor-se e submeter-se ao sofrimento? Se foi por medo ou por esperança — seria esse o caminho de todas as partes, ou só de algumas? Se de todas, de que teriam medo, ou o que esperariam, não havendo nada além delas? E se só de algumas, por que causa umas esperam e temem, e as outras não? E, se a “parte” aceitou a ordem da maioria sem esperança, medo ou temor, é pior ainda, pois não teria causa conhecida. Tudo isto é falso.
והרביעי, איך קבל החלק ההוא מצות שאר החלקים עד שהטבע ונתקן ונצטייר וכנס תחת ‏הצער? אם היה זה בעבור פחד שפחד או תקוה שקוה, ואלו היה זה על אי זה משני הענינים, לא ‏ימלט שיהיה דרך הכל שיפחד ושיקוה, או שיהיה זה דרך הקצת לבד? ואם הוא זה דרך הכל, מאי ‏זה דבר יירא, ולמה יקוה ואין דבר זולתו. ואם יהיה זה דרך הקצת, לאי זו עלה שב הקצת מקוה ‏ומפחד והשאר לא יקוה ולא יפחד? ואם הקצת קבל מצות הרוב לא לתקוה ולא לפחד ולא ליראה, זו ‏רעה, מפני שאין לו עלה ידועה, וכל זה כזב ושקר:‏
6
A quinta: Aquele que pode retirar as Suas partes dos sofrimentos, sendo sábio, certamente as retiraria. E, se supusermos que o faça, então as criaturas cessariam; mas, se o mundo não pode prescindir delas no fim — como não pôde no princípio —, então essas “partes”, que ora são corpos, cada uma se molda por um tempo e depois se desprende, entrando outra em seu lugar... e os seus tempos não poderiam ser finitos, pois o todo de que provêm seria infinito — o que a razão rejeita e o pensamento claro recusa. E só tenho esses insensatos — que, ao fugir de “uma coisa não de outra coisa”, creram em todas estas tolices — como quem foge do calor para dentro do fogo, e da chuva para debaixo das calhas; além de tudo o que rejeitaram dos sinais e dos prodígios.
‏והחמישי מי שיוכל להשיב חלקיו מן הצערים, והוא חכם, לא יתכן שלא ישיבם. ואם נעביר ‏על דעתנו שהוא יעשה כן, יבטלו הברואים, ואם אי אפשר בלעדיהם בסוף, כאשר לא היה אפשר ‏בלעדיהם בתחלה, יהיו אלה החלקים שהם גופים לעתים, וכל חלק מהם יצטייר ויתכן מדה מהזמן, ‏ואחרי כן ימלט ויסתלק ויכנס תחתיו חלק בהפעלות. ועם כל זה לא יתכן שיהיה תכלית לעתים ‏האל, מפני שהכלל אשר הם ממנו אין לו תכלית, וזה מה שידחנו השכל ותמאנה אותו המחשבות ‏הברורות. ואינני חושב הפתאים בברחם מהיות דבר לא מדבר, עד שהאמינו באלה האולתות כלם, ‏אלא כמי שבורח מן החום אל האש ומן המטר אל תחת, המרזבים חוץ ממה שדחו מדבר האותות ‏והמופתים:‏
7
A quarta opinião é a de quem combinou as duas anteriores, pensando que o Criador fez os seres de Si mesmo e de coisas eternas. Estes ficam sujeitos a dezessete objeções: as doze contra os adeptos dos “espirituais” e as cinco contra quem pensou que o Criador fez as coisas de Si próprio — sendo mais insensatos do que os dois grupos anteriores. E, se a todas essas fantasias se inclinaram por causa do poder do Criador — supondo que Ele tudo pode —, respondo que é falso atribuir-Lhe a mudança de Si mesmo e o que a isso se liga. E vejo que atribuir-Lhe o poder de fazer uma coisa do nada é mais leve para a alma, mais próximo da razão e mais condizente com os sinais e os prodígios.
והדעת הרביעית דעת מי שחבר בין אלה השנים, וחשב כי הבורא ברא הנמצאות מעצמו ‏ומדברים קדמונים. ויתחייבו באלה י"ז תשובות. הי"ב הראשונות אשר על בעלי הרוחניים, ואלה ‏החמש אשר על מי שחשב כי הבורא ברא הדברים מעצמו, והיה זה יותר סכל משתי הכתות ‏הקודמות. ואם אלה ההבלים כלם נטו אליהם, בעבור יכולת הבורא, וחשבו עליו שהוא יכול על כל, ‏שקר משנוי עצמו ומה שיתחבר אל זה. ואני רואה שיכלתו על היות דבר לא מדבר יותר קל על ‏הנפש, ויותר קרוב אל השכל, ויותר נאות לאותות ולמופתים:‏
Nota — a conclusão: criar do nada é o mais racional. Encerrada a refutação das teorias que tentam evitar a criação do nada (a matéria eterna, a emanação, e a combinação das duas), Saadia recolhe o resultado numa frase decisiva: atribuir a D’us o poder de fazer uma coisa do nada é “mais leve para a alma, mais próximo da razão e mais condizente” com a revelação. As alternativas, ao tentar poupar esse “milagre”, acabaram em absurdos maiores — fazer D’us mudar, dividir-se ou sofrer. A criação ex nihilo é a única que preserva, ao mesmo tempo, a perfeição de D’us e a realidade do mundo. É a opção mais simples — e, por isso, a mais sólida.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O perigo de aproximar demais

A teoria refutada aqui nasce de um impulso quase religioso — não querer pôr nada “fora” de D’us. Mas, levado ao extremo, esse impulso acaba por rebaixar D’us, fazendo-O sofrer, mudar e dividir-se com o mundo. Os comentadores notam o paradoxo: querendo honrar a unidade divina, a teoria a destrói, pois a perfeição de D’us está justamente em não estar sujeito a nada do que aflige as criaturas.

A criação como distância salvadora

É a doutrina da criação que resolve a tensão. O mundo vem de D’us — depende inteiramente d’Ele —, mas não é D’us. Essa distância protege as duas verdades: a transcendência do Criador, que permanece perfeito e imutável, e a realidade da criatura, que muda, sofre e é livre. O panteísmo dissolve uma na outra; a criação as mantém, cada uma no seu lugar.

O triunfo da explicação mais simples

Ao fim de três teorias refutadas, Saadia recolhe a lição: a criação do nada, longe de ser a hipótese mais difícil, é a mais racional e econômica. As outras, para evitar um único “milagre”, multiplicaram absurdos. É um princípio caro a toda a tradição racionalista — a verdade costuma ser também a explicação mais limpa.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I, capítulo 3 (segmentos 7-13), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Esta parte cobre a terceira teoria (o mundo feito da essência de D’us) e a quarta (a combinação das anteriores). Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. O capítulo 3 prossegue em partes seguintes (dualismo, os elementos, o acaso, a eternidade do mundo, o ceticismo). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.