Saadia prossegue na refutação das teorias sobre a origem do mundo. Aqui enfrenta a terceira: a de que o universo teria sido feito da própria essência de D’us — uma forma de panteísmo. A sua resposta é uma poderosa defesa da transcendência divina, e conduz à conclusão de que criar do nada é a opção mais racional de todas.
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A terceira opinião é a de quem disse que o Criador dos corpos os fez de Si mesmo da Sua própria essência. Encontrei essa gente incapaz de negar um Autor; e, contudo, o seu intelecto não aceitava — segundo o seu modo de pensar — que houvesse “uma coisa não de outra coisa”; e, já que nada existe senão o Criador, creram que Ele criou as coisas a partir de Si próprio. Estes — que D’us se compadeça! — são mais insensatos do que os primeiros. Exporei a sua tolice por treze vias: as quatro respostas que valem contra os adeptos dos “espirituais”, as quatro provas da criação e as quatro provas de “uma coisa do nada”. Mas as respostas dirigidas a quem afirmava a eternidade dos “espirituais” não se lhes aplicam; em lugar delas, ficam sujeitos a cinco objeções, cada uma das quais os refuta:
והדעה השלישית דעת מי שאמר, שבורא הגשמים בראם מעצמו. מצאתי אלה האנשים לא נתכן להם לכחש בעושה, ועם זה לא קבל שכלם כפי מחשבתם היות דבר לא מדבר, וכיון שאין דבר כי אם הבורא, האמינו כי ברא הדברים מן עצמו. ואלה, ירחמך האל! יותר כסילים מן הראשונים. וראיתי לגלות אולתם בשלש עשרה פנים; מהם הארבעה אשר על בעלי הרוחניים, וארבעה ראיות החדוש, וארבעה ראיות היות דבר לא מדבר. אך אופני התשובה אשר על מי שאמר בקדמות הרוחניים, אינם חייבים בהם, אך הם חייבים כמותם חמש ענינים כל אחד מהם הרחיק אותו:
Nota — a terceira teoria: o mundo “feito de D’us” (emanação/panteísmo). Esta visão tenta um caminho do meio: recusa tanto a matéria eterna quanto a criação do nada e, como “nada existe além do Criador”, conclui que o mundo deve ser feito da própria substância de D’us — uma forma de panteísmo ou emanação. O motivo é compreensível; mas, como Saadia mostrará, a solução é a pior de todas: para evitar que o mundo venha do nada, faz D’us descer ao mundo.
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A primeira: a mudança da essência eterna — que não tem forma, nem qualidade, nem medida, nem lugar, nem tempo — até tornar-se, em parte, um corpo com forma, medida, fronteira, lugar, tempo e tudo o mais que cabe aos seres. Isto não se pode sequer admitir, senão como o mais remoto dos absurdos.
הראשון השתנות הענין הקדמון אשר אין לו צורה, ולא תכונה ולא שיעור ולא מקום ולא זמן, עד ששב קצת גוף שיש לו צורה ושיעור וגבול ומקום וזמן ושאר מה שנכללו עליו הנמצאות, ואין להעלות זה על הלב בי אם מרחוק שברחוקים:
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A segunda: a vontade livre de D’us — que não sofre mudança, sobre quem nenhum agente atua, a quem nada afeta — poria parte de Si como um corpo, até ser afetada pelos agentes, tornar-se ignorante depois da sabedoria, inquieta depois do repouso, com fome, sede, angústia e fadiga, e sujeita a todos os outros males — Ele, que estava longe de tudo isso e não precisa tirar deles proveito algum? Estas não passam de fantasias vãs.
והשני, בחירת האדם אשר לא ישיגהו שנוי, ולא יפעל בו פועל, ולא ישיגהו משיג, שישים קצתו גוף, עד שישיגיהו המשיגים, ועד שיפעלו בו הפועלים, ועד שיסכל אחר החכמה, ויאנש אחר המנוחה, וירעב ויצמא וידאג וייגע, וישיגוהו שאר הרעות, והוא היה רחוק מכל אלה, ואין לו צורך לקנות מהם תועלת, אין אלה הדברים כי אם מעניני ההבל:
Nota essencial — por que o mundo não pode ser “parte de D’us”. Aqui está o cerne, e é uma poderosa afirmação da transcendência divina. D’us é perfeito, imutável, incorpóreo e não carece de nada; o mundo, ao contrário, muda, tem corpo, sofre, padece fome e fadiga, ignora e morre. Dizer que o mundo é “parte de D’us” obrigaria a admitir que o próprio D’us se divide, muda, sofre e se degrada — o que é absurdo. A criação, justamente, mantém a distância salvadora entre o Criador e a criatura: o mundo vem d’Ele, mas não é Ele (cf. os ensaios “D’us é incorpóreo” e “D’us é imutável”). É a recusa racionalista do panteísmo.
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A terceira: o Justo, que não comete injustiça, como decretaria sobre parte de Si lançá-la nesses males? Ao tentar entender isto, não encontro como escapar de duas hipóteses: ou esses males lhe vieram por juízo, merecidamente — o que só se daria por um mal que essa parte fez, ou por pecados que cometeu (e uma parte de D’us pecando?) —, ou vieram sem tal merecimento, e então seria uma violência e uma injustiça que Ele cometeria contra Si mesmo. Em qualquer das duas, achei a coisa falsa e corrompida.
והשלישי, הצדיק אשר לא יעול, איך גזר על קצת חלקיו להפילם ברעות האלה? וכאשר אשתדל לדעת זאת, לא אמצאהו שיעבור אחד משני ענינים, אם שבא עליו ה בדין והתחייב בו, לא יהיה כי אם בעבור רעה שעשה או בחטאים שחטא, או שיהיה בלא חיוב, ויהיה זה חמס שחמסו ועול שעול עליו. ועל אי זה משני הענינים שבא הדבר, מצאתיו מופסד ושקר:
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A quarta: como aceitou aquela “parte” a ordem das demais partes, a ponto de se moldar, dispor-se e submeter-se ao sofrimento? Se foi por medo ou por esperança — seria esse o caminho de todas as partes, ou só de algumas? Se de todas, de que teriam medo, ou o que esperariam, não havendo nada além delas? E se só de algumas, por que causa umas esperam e temem, e as outras não? E, se a “parte” aceitou a ordem da maioria sem esperança, medo ou temor, é pior ainda, pois não teria causa conhecida. Tudo isto é falso.
והרביעי, איך קבל החלק ההוא מצות שאר החלקים עד שהטבע ונתקן ונצטייר וכנס תחת הצער? אם היה זה בעבור פחד שפחד או תקוה שקוה, ואלו היה זה על אי זה משני הענינים, לא ימלט שיהיה דרך הכל שיפחד ושיקוה, או שיהיה זה דרך הקצת לבד? ואם הוא זה דרך הכל, מאי זה דבר יירא, ולמה יקוה ואין דבר זולתו. ואם יהיה זה דרך הקצת, לאי זו עלה שב הקצת מקוה ומפחד והשאר לא יקוה ולא יפחד? ואם הקצת קבל מצות הרוב לא לתקוה ולא לפחד ולא ליראה, זו רעה, מפני שאין לו עלה ידועה, וכל זה כזב ושקר:
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A quinta: Aquele que pode retirar as Suas partes dos sofrimentos, sendo sábio, certamente as retiraria. E, se supusermos que o faça, então as criaturas cessariam; mas, se o mundo não pode prescindir delas no fim — como não pôde no princípio —, então essas “partes”, que ora são corpos, cada uma se molda por um tempo e depois se desprende, entrando outra em seu lugar... e os seus tempos não poderiam ser finitos, pois o todo de que provêm seria infinito — o que a razão rejeita e o pensamento claro recusa. E só tenho esses insensatos — que, ao fugir de “uma coisa não de outra coisa”, creram em todas estas tolices — como quem foge do calor para dentro do fogo, e da chuva para debaixo das calhas; além de tudo o que rejeitaram dos sinais e dos prodígios.
והחמישי מי שיוכל להשיב חלקיו מן הצערים, והוא חכם, לא יתכן שלא ישיבם. ואם נעביר על דעתנו שהוא יעשה כן, יבטלו הברואים, ואם אי אפשר בלעדיהם בסוף, כאשר לא היה אפשר בלעדיהם בתחלה, יהיו אלה החלקים שהם גופים לעתים, וכל חלק מהם יצטייר ויתכן מדה מהזמן, ואחרי כן ימלט ויסתלק ויכנס תחתיו חלק בהפעלות. ועם כל זה לא יתכן שיהיה תכלית לעתים האל, מפני שהכלל אשר הם ממנו אין לו תכלית, וזה מה שידחנו השכל ותמאנה אותו המחשבות הברורות. ואינני חושב הפתאים בברחם מהיות דבר לא מדבר, עד שהאמינו באלה האולתות כלם, אלא כמי שבורח מן החום אל האש ומן המטר אל תחת, המרזבים חוץ ממה שדחו מדבר האותות והמופתים:
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A quarta opinião é a de quem combinou as duas anteriores, pensando que o Criador fez os seres de Si mesmo e de coisas eternas. Estes ficam sujeitos a dezessete objeções: as doze contra os adeptos dos “espirituais” e as cinco contra quem pensou que o Criador fez as coisas de Si próprio — sendo mais insensatos do que os dois grupos anteriores. E, se a todas essas fantasias se inclinaram por causa do poder do Criador — supondo que Ele tudo pode —, respondo que é falso atribuir-Lhe a mudança de Si mesmo e o que a isso se liga. E vejo que atribuir-Lhe o poder de fazer uma coisa do nada é mais leve para a alma, mais próximo da razão e mais condizente com os sinais e os prodígios.
והדעת הרביעית דעת מי שחבר בין אלה השנים, וחשב כי הבורא ברא הנמצאות מעצמו ומדברים קדמונים. ויתחייבו באלה י"ז תשובות. הי"ב הראשונות אשר על בעלי הרוחניים, ואלה החמש אשר על מי שחשב כי הבורא ברא הדברים מעצמו, והיה זה יותר סכל משתי הכתות הקודמות. ואם אלה ההבלים כלם נטו אליהם, בעבור יכולת הבורא, וחשבו עליו שהוא יכול על כל, שקר משנוי עצמו ומה שיתחבר אל זה. ואני רואה שיכלתו על היות דבר לא מדבר יותר קל על הנפש, ויותר קרוב אל השכל, ויותר נאות לאותות ולמופתים:
Nota — a conclusão: criar do nada é o mais racional. Encerrada a refutação das teorias que tentam evitar a criação do nada (a matéria eterna, a emanação, e a combinação das duas), Saadia recolhe o resultado numa frase decisiva: atribuir a D’us o poder de fazer uma coisa do nada é “mais leve para a alma, mais próximo da razão e mais condizente” com a revelação. As alternativas, ao tentar poupar esse “milagre”, acabaram em absurdos maiores — fazer D’us mudar, dividir-se ou sofrer. A criação ex nihilo é a única que preserva, ao mesmo tempo, a perfeição de D’us e a realidade do mundo. É a opção mais simples — e, por isso, a mais sólida.
Sobre esta seção · עִיּוּן
O perigo de aproximar demais
A teoria refutada aqui nasce de um impulso quase religioso — não querer pôr nada “fora” de D’us. Mas, levado ao extremo, esse impulso acaba por rebaixar D’us, fazendo-O sofrer, mudar e dividir-se com o mundo. Os comentadores notam o paradoxo: querendo honrar a unidade divina, a teoria a destrói, pois a perfeição de D’us está justamente em não estar sujeito a nada do que aflige as criaturas.
A criação como distância salvadora
É a doutrina da criação que resolve a tensão. O mundo vem de D’us — depende inteiramente d’Ele —, mas não é D’us. Essa distância protege as duas verdades: a transcendência do Criador, que permanece perfeito e imutável, e a realidade da criatura, que muda, sofre e é livre. O panteísmo dissolve uma na outra; a criação as mantém, cada uma no seu lugar.
O triunfo da explicação mais simples
Ao fim de três teorias refutadas, Saadia recolhe a lição: a criação do nada, longe de ser a hipótese mais difícil, é a mais racional e econômica. As outras, para evitar um único “milagre”, multiplicaram absurdos. É um princípio caro a toda a tradição racionalista — a verdade costuma ser também a explicação mais limpa.
Sobre esta tradução
Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I, capítulo 3 (segmentos 7-13), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.
Esta parte cobre a terceira teoria (o mundo feito da essência de D’us) e a quarta (a combinação das anteriores). Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. O capítulo 3 prossegue em partes seguintes (dualismo, os elementos, o acaso, a eternidade do mundo, o ceticismo). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.