Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte III

Contra as teorias rivais (I): a “matéria espiritual eterna”

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · ג׳
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Estabelecida a verdade — o mundo criado, do nada, por um Criador —, Saadia faz algo que marca o método racionalista: não se contenta em afirmar; passa em revista treze teorias rivais sobre a origem do mundo e refuta uma a uma. Esta parte abre a série, com a primeira delas: a de que o mundo teria sido feito de substâncias espirituais eternas.

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E, tendo eu chegado a confirmar estas três raízes pela via do exame — assim como se confirmaram nas palavras dos profetas e nos prodígios: que as coisas são criadas, que quem as criou é outro que elas, e que Ele as criou não de outra coisa —, e sendo esta a primeira opinião deste tratado (a verdadeira, fruto do exame dos princípios), convém que eu traga, em seguida, doze opiniões dos que de nós discordaram nesta crença — perfazendo treze ao todo. Em cada uma explicarei o que cada grupo alegou em favor da sua opinião, e o que a refuta; e, se houver verso da Escritura que lhe pareça apoiar, eu o esclarecerei, com a ajuda de D’us.
וכיון שהגעתי לאמת אלה השלשה שרשים בדרך העיון, כאשר התאמתו בדברי הנביאים והמופתים, ‏והוא שהדברים מחודשים ושמחדשם זולתם, ושהוא חדשם לא מדבר, והיה זה הדעת ‏הראשון מן המאמר הזה אשר הוא העיון להתחלות. ראוי שאביא אחריו שנים עשר דעות, למי ‏שחלק עלינו באמונה הזאת, ויהיה הכל שלש עשרה. ואבאר בו כל מה שטען בו כל עם לדעתם ומה ‏שסתר אותו. ואם יהיה לו דומה מן הכתוב אבארהו בגזרת השם:‏
Nota — o método de quem não teme o debate. Repare no gesto: Saadia não se contenta em afirmar a criação; ele se compromete a expor e refutar treze teorias rivais sobre a origem do mundo, uma a uma, apresentando cada uma com justiça antes de respondê-la. É a marca da confiança racionalista: a verdade não receia o confronto com as alternativas — ao contrário, esclarece-se ao enfrentá-las. As próximas partes percorrerão essas teorias (entre elas a eternidade do mundo, o dualismo e o acaso).
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A segunda opinião é a de quem disse que o Criador das coisas possui corpos espirituais eternos, dos quais teria feito estes corpos compostos. Alegaram isso porque supõem que uma coisa só vem de outra coisa. E, ao imaginarem como o Criador teria feito os corpos compostos a partir dos espirituais, disseram: parece-nos que Ele reuniu deles pontos minúsculos — as “partes indivisíveis” —, que imaginam mais finas do que o pó; fez deles uma linha reta, cortou-a em duas metades, juntou-as na diagonal, ... e foi assim moldando figuras geométricas (cônicas, de oito, de doze e de vinte faces) das quais teria criado a roda do fogo, a da terra, o giro do ar e todos os mares. Nisto basearam a sua crença, levados pelo princípio de não admitir o que “não está já na existência” recusando a criação do nada; e essas figuras eles se esforçaram por assemelhar às formas naturais que existem. Exporei agora o que há contra eles: há, contra estes argumentos, doze respostas — quatro que nos mostram que as coisas são criadas, e as demais, que o Criador as fez não de outra coisa; e, depois destas oito, encontro ainda quatro respostas que lhes cabem.
‏והדעת השני דעת מי שאמר שבורא הדברים יש לו גשמים רוחניים קדמוניים, מהם ברא ‏אלה הגשמים המורכבים. וטען על זה, מפני שלא יהיה דבר כי אם מדבר. וכאשר עלו במחשבתם ‏למעלה והתעסקו לדמות, איך ברא הבורא הדברים המורכבים מן הרוחניים, אמרו נדמה לנו שהוא ‏קבץ מהם נקודות קטנות, והם החלקים אשר לא יחלקו, והם מעלים אותם במחשבתם שהם דקים ‏עד מאד יותר דק מה שאפשר להיות מן האבק, ועשה מהם קו ישר, ואחר כן גזר הקו ההוא לשני ‏גזרים שוים. אחר כן הרכיב מן האחד מהם על השני הרכבה אלכסונית, עד שיהיו כצורת הסמך ‏היונית אשר היא כצורת אלף למד בערבי בלא תושבת כזה. ואחר כן סימר אותם במקום שנפגשו, ‏ואחר כן גזר אותם ממקום הסימור ועשה האחד מהם הגלגל העליון הגדול, ועשה מן האחרת ‏הגלגלים הקטנים. ואחר כן צייר מן החלקים ההם הרוחניים צורה אצטרובולית, וברא מהם עגלת ‏האש. ואחר כן צייר מהם צורה שמיניית וברא ממנה עגלת העפר, ואחר כן צייר מהם צורה שתים ‏עשרניי ושם עליה סבוב האויר, ואחר כן צייר ממנה צורה עשרימייה וברא ממנה כל הימים, וגזרו ‏בזה ושמו בזה אמונתם. והביאם אל המאמר הזה, שלא יודו במה שאינו בנמצא. ואלה הצורות אשר ‏טרחו בהבאתם לדמותם אל צורות הטבעים האלה הנמצאים. והנני מבאר מה שיש עליהם בשערים ‏האלה. ואומר, שיש עליהם במאמרים האלה שתים עשרה תשובות. מהם הארבעה הראשונות, אשר ‏הורו אותנו שהדברים מחודשים, ומהם האחרות אשר הורו אותנו שבורא הדברים בראם לא מדבר, ‏ואחר שיסבלו אלה השמונה תשובות, אני מוצא ארבעה תשובות אחרות שיתחייבו בם:‏
Nota — a primeira teoria: a “matéria espiritual eterna”. Esta visão tentava evitar a criação do nada supondo que o mundo fora moldado a partir de substâncias espirituais eternas — partículas finíssimas e indivisíveis, preexistentes —, mediante uma elaborada geometria de cortes e junções. É, no fundo, uma forma de adiar o problema: em vez de aceitar que D’us criou do nada, postula-se uma “matéria” intermediária, ela mesma sem origem. Saadia mostrará, em quatro passos, que essa solução não resolve nada — apenas troca um mistério por outro mais obscuro.
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A primeira: creram em algo que não tem semelhante no que é visível — os tais “espirituais”, que imaginam como um pó mais fino do que todo fino, e como “uma parte que não se divide” — coisa que o intelecto não consegue conceber.
תחלתם שהם האמינו, במה שאין כמוהו בנראה, והם הרוחניים, אשר הם מדמים במחשבתם כאבק ‏ושכדק מכל דק, וכחלק שאין מתחלק, וזה דבר שלא יושכל:‏
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A segunda: vejo que essas coisas que alegaram não podem ser quentes, nem frias, nem úmidas, nem secas — pois eles próprios dizem que delas foram criadas as quatro naturezas os elementos. E vejo, ainda, que não podem ter cor, sabor, cheiro, fronteira, medida, quantidade de muito ou pouco, lugar ou tempo — pois todas estas são atributos dos corpos, e essas coisas, para eles, existiriam antes dos corpos. Isto é mais um acréscimo ao inconcebível: fugiram de admitir “uma coisa não de outra coisa” e caíram em algo ainda mais remoto e obscuro.
והשנית אני רואה כי אלה הדברים אשר טענו, לא יתכן שיהיו חמים ולא קרים ולא לחים ‏ולא יבשים, מפני שה אומרים שאלה הד' טבעים מהם נבראו. ואני רואה עוד, שלא יתכן להיות להם ‏מראה, ולא טעם ולא ריח, ולא גבול ולא שיעור, ולא רוב ולא מיעוט, ולא במקום ולא בזמן, מפני ‏שאלה הדברים הם תארי הגשמים, והדברים ההם הם אצלם קודם הגשמים, וזה תוספת למה שלא ‏יושכל, וברחו מהיותו דבר לא מדבר, ונכנסו במה שהוא יותר רחוק ועמוק ממנו:‏
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A terceira: rejeito e tenho por falso que algo sem forma alguma se transforme até figurar-se na forma do fogo, da água, do ar e da terra; e que o que não tem comprimento, nem largura, nem profundidade passe a tê-los; e que o que não tem qualidade alguma venha a ter todas as qualidades que agora se veem. E, se respondem que todas essas inversões se deram porque o Criador é sábio e capaz de invertê-las e mudá-las — então a Sua sabedoria e o Seu poder bastariam para criar uma coisa do nada; e ficaríamos livres desses falsos “espirituais”.
והשלישית שאני מרחיק ואחשוב לשקר, התהפכות דבר לא מצוייר בצורה, עד שיצוייר ‏בצורת האש המים והאויר והעפר, והצטיירות מה שאינו ארוך ולא רחב ולא עמק, עד שהיה ממנו ‏הארוך הרחב העמוק, וכן השתנות מה שאין לו ענין, עד שיהיו לו כל הענינים הנראים עתה. ואם ‏אצלם שנתקנו כל ההפוכים והשנוים, מפני שהבורא חכם יכול להפכם ולשנותם, חכמתו אם כן ‏ויכלתו לברא דבר לא מדבר. וננוח מאלה הרוחניים השקרים:‏
Nota — o golpe decisivo: a teoria não resolve nada. Aqui está o argumento mais elegante de Saadia (terceira resposta). Os adversários precisam admitir que D’us, “sábio e capaz”, transforma uma “matéria” sem forma, sem dimensão e sem qualidade alguma em todas as formas do mundo. Ora — observa Saadia — um poder capaz disso já é, na prática, um poder de criar do nada! A “substância espiritual eterna” torna-se, então, uma complicação inteiramente supérflua: ela não poupa o milagre que se queria evitar; apenas o esconde atrás de um intermediário ininteligível. É a navalha da economia aplicada à metafísica: a hipótese mais simples (criação do nada) é também a mais sólida.
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A quarta: não se sustenta aquilo em que tanto se esforçaram — a história do cortar, juntar, compor, pregar e tornar a cortar —, pois não há prova alguma de nada disso: são apenas conjeturas. E há aí uma contradição: se, segundo eles, o Autor é capaz de transformar os “espirituais” em corpos, então pode fazê-lo num só instante, e caem por terra todos esses cortes graduais; e se só pode transformá-los aos poucos — coisa após coisa, como na obra das criaturas —, muito menos poderia transformá-los do espiritual ao corpóreo de todo. Suportaram, pois, todas essas falsidades — além de abandonarem os sinais e os prodígios — e não descansaram de apoiar-se no que não é percebido. E chegou-me notícia de que há pessoas do nosso povo que pensaram referir-se a esses “espirituais” o verso “o Eterno me adquiriu (kanani) no princípio do Seu caminho, antes das Suas obras, desde então” (Mishlei 8:22). Examinei a questão e achei que erraram na interpretação, por quinze razões — as doze já dadas pela via do intelecto e três pela via da língua hebraica: (1) a palavra kanani indica a criação da coisa (como em “Criador (koné) dos céus e da terra”, Bereshit 14:22; e “cheia está a terra das Tuas criaturas (kinyaneicha)”, Tehilim 104:24) — se insistissem que ela implica eternidade, teriam de ter por eternos também os céus e a terra; (2) “o princípio do Seu caminho” indica o começo da criação (como em Iyov 40:19, sobre o maior dos animais: “ele é o princípio dos caminhos de D’us” — isto é, o primeiro que Ele criou na sua espécie); (3) esse tema do capítulo ama a verdade e odeia a falsidade, e convida a buscá-lo (Mishlei 8:8, 8:32) — atributos que os “espirituais” sem forma não poderiam ter. E aos que viam os “espirituais” em “a sabedoria, onde se acha?” (Iyov 28:12), mostrei que erraram ainda mais; pois a própria Escritura esclarece que essa Sabedoria se encontra junto com os quatro elementos, e não antes deles (“D’us entendeu o seu caminho ..., ao dar peso ao vento e medida às águas”, Iyov 28:23-26). O sentido não é que a Sabedoria fosse um “instrumento” eterno com que Ele criou, mas que ela é a ordem sábia que Ele pôs na criação — aquela pela qual tudo está bem disposto.
‏והרביעית שלא תתקיים מה שטרחו בו, מהאמנת החתוך והדבוק וההרכבה והסימור ‏והחתוך השני, ושאר מה שנסמך אל המעשים האלה. מפני שאין ראיה מעמדת על דבר מהם, אבל ‏הם מחשבות וסברות. אבל אני רואה שיש במלאכה הזאת סתירה, והיא, שהעושה אצלם אם הוא ‏יכול להפוך את הרוחניים גשמים, הוא יכול להפכם ברגע אחד, ובטלו אלו החלוקים. ואם הוא אצלם ‏אינו יכול להפכם כי אם מעט, כמעשה הברואים דבר אחרי דבר, כל שכן שלא יוכל להפכם מן ‏הרוחניות אל הגשמיות. וסבלו אלה השקרים כלם, מלבד עזיבת האותות והמופתים, ומן ההוראה ‏בבלתי המוחש לא נחו. והגיעני כי יש אנשים מעמנו, חשבו, כי הענין שאמר בו הכתוב (משלי ח' ‏כ"ב) י"י קנני ראשית דרכו קדם מפעליו מאז ושאשר הפרה הוא ענין אלה הרוחניים. התבוננתי ‏בדבר, ומצאתיו שטעו בפירוש הענין הזה, מחמש עשרה פנים השנים עשר אשר בארתים מדרך ‏השכל, אך הג' אחרים, מדרך לשון העברים ודברי המקרא. תחלתם כי מלת קנני מורה על בריאת ‏הדבר, כמו שאמר (בראש' י"ד כ"ב) קונה שמים וארץ. וכמו שאמר עוד (תהל' ק"ד כ"ט) מלאה הארץ ‏קנינך. ואם הם מחזיקים שהמלה הזאת מחייבת קדמות, יחשבו גם כן כי השמים וכל אשר בהם ‏קדמונים, ויבטלו בריאתם מרוחניים אשר היתה כוונתה אליהם. ואם תהיה אצלם מלת הקנין ‏בשמים ובארץ מחייבם בריאתם, היא עצמה תחייב בריאת הרוחניים. והשניים שמלת ראשית דרכו ‏מורה על ענין תחלת הבריאה, כי כמוה נאמר בגדול שבבהמות (איוב מ' י"ט) הוא ראשית דרכי אל, ‏וכאשר ענינה שם שהוא תחלת מה שברא בבהמות יהיה גם כן ענינה הנה, כי זה הנזכר תחלת מה ‏שברא מהדברים. ואם אינם רוצים בפירוש הזה, יחייבו שהבהמה ההיא קדמונית. והשלישיים שזה ‏הענין הנזכר אוהב האמת ושונא השקר, כמו שאמר (משלי ח' ח') בצדק כל אמרי פי אין בהם נפתל ‏ועקש. ומי שאהבו אוהב את החיים, ומי ששנאו אוהב המות, כמו שאמר (שם שם ל"ה) כי מוצאי מצא ‏חיים וחוטאי חומס נפשו כל משנאי אהבו מות. והוא מצוה לבקשו ולהזהר בו. כמו שאמר (שם שם ‏ל"ב) ועתה בנים שמעו לי והקשיבו כל אמרי פי. ואם הם הרוחניים אין נמלטות המדות האלה שיהיו ‏להם, אם בענין פשיטותם או אחר הרכבתם, ואם נחשוב אותם להם בפשיטותם אין עמם בעת ההיא ‏צדק ולא טוב, ולא חיים ולא מות, ול אדם נמצא שיקשם ויגיע אליהם. ואם נחשוב שהם לחם אחרי ‏ההרכבה, החלק אשר יש לנו מהם אנחנו מגיעים אליו בהכרח, והחלק הנשאר אשר לא הורכב אי ‏אפשר להגיע אליו, כי המורכבות יבדילו בינינו וביניו כפי דבריהם. והגיעני שאחרים חשבו, כי פרשת ‏‏(איוב כ"ח י"ב) והחכמה מאין תמצא ואי זה מקום בינה, ושאר הענין שהוא תאר הרוחניים, מפני ‏שאמר באחרונה אלהים הבין דרכה והוא ידע את מקומה. ומצאתי אלה גם כן טעו בפי' יותר מטעות ‏הראשונים, מפני שהענין הראשון אין מפורש בו שהיא החכמה. אעפ"י שעל האמת שאין בו ספק הוא ‏על החכמה, אבל הענין השני היה זכרון החכמה בו מפורש, ואיך הטעו עצמם בכנוייו? וראיתי עוד ‏שהכתוב מבאר על החכמה הזאת כי נמצאת עם הארבעה יסודות לא קודם, כאשר נאמר אלהים ‏הבין דרכה והוא ידע את מקומה, כי הוא לקצות הארץ יביט תחת כל השמים יראה; זכר השמים ‏והארץ, ואחר כן לעשות לרוח משקל ומים תכן במדה; זכר האויר והמים, אחר כן ראה ויספרה ‏הכינה וגם חקרה, וכבר נגלה בטול סברת שני הענינים האלה ברוחניות, אם הם על החכמה; ואין ‏החפץ בה שהיא היתה לבורא ככלי שברא בה הדברים, אבל החפץ בה שהיא חדשה מבריאת ‏היסודות וסעפותם, ונתבארה חכמתו שבה הכל מתוקן:‏
Nota — a Sabedoria não é uma “matéria” eterna. Saadia corrige uma leitura equivocada de versos célebres (Mishlei 8:22, “o Eterno me adquiriu...”; Iyov 28, “a sabedoria, onde se acha?”). Mostra, pela própria língua, que kanani significa “criou” (não “possui desde sempre”), e que a Escritura situa a Sabedoria junto à criação dos elementos, não antes dela. A conclusão é importante e bela: a “Sabedoria” pela qual o mundo foi feito não é uma substância eterna ao lado de D’us, e sim a ordem inteligente que Ele imprimiu na criação — a racionalidade que torna o mundo compreensível.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Refutar, não apenas afirmar

O longo terceiro capítulo do Tratado I é um catálogo crítico das teorias sobre a origem do mundo — treze ao todo. O leitor moderno talvez estranhe o detalhe; mas o gesto é exemplar: Saadia trata o adversário com seriedade, expondo a sua posição antes de respondê-la. A fé racional, para ele, prova-se não por ignorar as alternativas, mas por atravessá-las.

O atalho que não atalha

A primeira teoria refutada — a da “matéria espiritual eterna” — é o protótipo de uma tentação filosófica perene: evitar o mistério da criação inventando uma matéria intermediária e sem origem. Saadia desmonta-a com economia: se essa matéria precisa ser transformada do informe ao formado por um poder ilimitado, então esse poder já basta para criar do nada — e o intermediário é inútil. O Radal e os comentadores apreciam aqui o rigor: a explicação mais simples vence.

A Sabedoria como ordem do mundo

O fecho corrige uma exegese: a “Sabedoria” de Mishlei e de Iyov não é uma entidade eterna ao lado do Criador, mas a ordem que Ele pôs na criação. É um ponto caro à tradição racionalista — o mundo é inteligível porque foi feito com sabedoria; e estudar essa ordem é, ele mesmo, um modo de conhecer o Criador.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I, capítulo 3 (segmentos 1-6), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

O capítulo 3, muito extenso (refuta treze teorias), é apresentado em partes sucessivas; esta cobre a introdução e a primeira teoria rival. A descrição geométrica (§2) e a longa exegese bíblica (§6) foram condensadas nos pontos repetitivos (marcados com “...”), preservando-se o argumento. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.