Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte I

As quatro provas de que o mundo foi criado

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · א׳
Saadia Gaon (882–942) · hebraico de Ibn Tibbon (domínio público) · tradução original · PT-BR

Começa aqui o primeiro dos dez tratados. Fiel ao método anunciado na Introdução — primeiro o que ensinam os profetas, depois a confirmação da razão —, Saadia apresenta quatro provas racionais de que o universo não é eterno: teve um começo. São argumentos do século X que, no seu núcleo lógico, ainda hoje impressionam.

1
E, tendo eu esclarecido aquela Introdução, digo: o nosso D’us, bendito e exaltado, deu-nos a conhecer que todas as coisas são criadas (mechudash), e que Ele as criou do nada — não de algo preexistente —, como está dito: “No princípio, criou D’us os céus e a terra” (Bereshit 1:1); e ainda: “Eu sou o Eterno, que faço todas as coisas; sozinho estendi os céus” (Yeshayahu 44:24). E isto nos foi confirmado por sinais e prodígios, e o recebemos por tradição. E, depois, examinei a questão: confirmar-se-ia ela pelo exame racional, assim como se confirmou pela profecia? E encontrei que sim, por muitos caminhos — dos quais resumirei quatro provas.
וכאשר בארתי ההקדמה הזאת, אומר, כי אלהינו יתברך ויתעלה הודיענו כי כל הדברים מחודשים, ‏והוא חדשם לא מדבר כמו שאמר (בראשית א' א') בראשית ברא אלהים וגו'. ואומר עוד (ישעיהו מ״ד:כ״ד ‏כ"ד) אנכי י"י עושה כל נוטה שמים לבדי וגומ'. ואמת זה אצלנו באותות ובמופתים וקבלנוהו. ואחרי ‏כן עיינתי בענין הזה, היתאמת בעיון כאשר התאמת בנבואה? ומצאתיו כן מפנים רבים, אקצר ‏מכללם ארבע ראיות:‏
Nota — o método em ação, e a criação “do nada”. Observe a ordem que Saadia anunciara na Introdução: primeiro o que ensinam os profetas (a criação, em Bereshit 1:1 e Yeshayahu 44:24), depois a confirmação da razão. E note a doutrina central: o mundo é mechudash — teve um princípio — e foi criado do nada (creatio ex nihilo), não a partir de uma matéria eterna preexistente. Esta é uma das teses fundadoras do judaísmo, que o separa das cosmologias da Antiguidade (que supunham a matéria eterna). As quatro provas a seguir visam mostrar, só pela razão, que o universo não é eterno.
2
A primeira vem dos limites da finitude. Os céus e a terra, uma vez que se mostrou terem um limite — estando a terra ao centro e girando os céus à sua volta —, disto se segue que a sua força também tenha um limite; pois é impossível que uma força sem limite resida num corpo com limite — e isso a razão rejeita. E, quando se exaurir a força que os sustenta, segue-se que tenham um começo e um fim. Revelada esta prova, não me apressei a decretá-la, mas examinei-a: e se a terra não tivesse limite em comprimento, largura e profundidade? Mas então o sol não a circundaria, completando o seu giro uma vez a cada dia e noite, tornando a nascer de onde nascera. E se as águas não tivessem limite? Mas elas se movem e giram em torno da terra. E se houvesse muitas terras e muitos céus — mundos sem fim? Vi que isso é impossível por natureza, pois não pode haver terra acima do fogo, nem ar abaixo da água: o fogo e o ar são leves, a terra e a água são pesados e outra terra, fora desta, atravessaria o ar e o fogo até cair sobre esta. E achei a verdade plena: não há céus senão estes, nem terra senão esta; estes céus têm limite, e esta terra tem limite; e, assim como os seus corpos têm fronteira, também a sua força tem fronteira, que chega a um termo e ali para — e os corpos não podem subsistir depois de exaurida aquela força, nem existiam antes dela. E a Escritura testemunhou o seu limite: “de uma extremidade da terra à outra, e de uma extremidade dos céus à outra” (Devarim 13:8); e que o sol circunda a terra e retorna a cada dia: “e nasce o sol, e põe-se o sol” (Kohelet 1:5).
הראשונה מהם, מן התכליות, והוא שהשמים והארץ כיון שהתברר שיש להם תכלית ‏בהיות הארץ באמצע וסבוב השמים סביבותיה, התחייב שיהיה לכחם תכלית; כי אי אפשר שיהיה ‏כח לאין תכלית בגשם בעל תכלית, ודוחה זה הידוע. וכאשר יכלה הכח השומר אותם התחייב ‏שיהיה להם תחלה וסוף. ואחרי שנגלתה לי זאת הראיה, התישבתי בדקדוקם, ולא מהרתי לגזור ‏אומר בה, עד שבררתיה, באמרו שמא הארץ אין לה תכלית בארך וברחב ובעמק? אחרי כן אמרתי ‏אלו היתה כן, לא היתה השמש מקפת אותה עד שהיא משלמת סבובה בכל יום ולילה פעם אחת, ‏ותשוב זורחת ממקום שזרחה ובאה למקום שבאה, וכן הירח ושאר הככבים. ואחר כן אמרתי שמא ‏המים אין להם תכלית? ואמרתי ואיך יהיה זה והם מתנועעים כלם וסובבים סביב הארץ תמיד כי ‏לא יתכן לחשוב כל הגלגל הקרוב אלינו הוא אשר יסוב, והשאר יותר גדול משיסוב, מפני שאין אנו ‏משכילים כי אם זה הדבר אשר יסוב, ולא נשכיל אחריו דבר אחר, כל שכן שנאמין שהוא שמים ‏ונאמר שהוא סובב. ואחרי כן חקרתי ואמרתי שמא יש ארצות רבות, ושמים רבים, יקיפו כל שמים ‏מהם הארץ שלהם, ויהיו עולמים שיאן להם תכלית. וראיתי זה נמנע מצד הטבע, כי לא יתכן להיות ‏עפר ממעל לאש בטבע ולא אויר תחת מים בטבע, כי האש והאויר קלים שניהם והעפר והמים ‏כבדים שניהם. וידעתי כי אילו הי בנמצא גוש עפר חוץ לארץ הזאת היה בוקע כל אויר וכל אש עד ‏אשר יגיע לעפר הארץ הזאת. וכן אם היה מקוה מים חוץ למים האלה היה בוקע האויר והאש עד ‏שיגיע למים האלה. ומצאתי המציאה הגמורה כי אין שמים בלתי אלה ולא ארץ כי אם זאת, וכי ‏השמים האלה יש להם תכלית, והארץ הזאת יש לה תכלית, וכאשר גשמיהם יש להם גבול, כן יש ‏לכחם גבול מגיע אל קץ ויעמוד אצלו, ולא יתכן להם לעמוד אחר כלות הכח ההוא ולא ימצאו קודם ‏היותו, ומצאתי הכתוב שהעיד עליהם בתכלית, באמרו (דברים י"ג ח') מקצה הארץ ועד קצה הארץ ‏ולמקצה השמים ועד קצה השמים. והעיד כי השמש תסובב סבוב הארץ ותשוב בכל יום: וזרח ‏השמש ובא השמש (קהלת א' ה'):‏
Nota — a primeira prova (a finitude) e a ciência do seu tempo. A cosmologia de Saadia é a do século X — geocêntrica, com a terra ao centro, esferas girando e quatro elementos (fogo e ar leves, terra e água pesados). Esse modelo físico está, hoje, superado. Mas não confunda o modelo com o argumento: o seu núcleo lógico é que um corpo finito só pode conter uma força finita, que um dia se exaure — logo, o universo teve um começo. É notável que a intuição central de Saadia (um cosmos finito, com um princípio) tenha sido, séculos depois, confirmada pela cosmologia moderna, que também aponta um começo do universo (cf. os ensaios sobre o Big Bang e a idade do universo). A roupagem é medieval; a ideia de fundo, surpreendentemente atual.
3
A segunda vem da reunião das partes e da composição dos membros. Vi que os corpos são partes reunidas e segmentos compostos — e nisso se mostra a marca da obra de um Autor e da criação (chidush). Depois disse: e se essas composições só existissem nos corpos pequenos — os dos sentidos e os das plantas? Estendi o pensamento à terra, e eis que também ela é assim: é terra, pedra e areia, tudo reunido. E subi aos céus, e neles vi muitas ordens de esferas, umas dentro das outras, e nelas ordens de luzeiros — as estrelas —, grandes e pequenas, de muita ou pouca luz, compostas dentro daquelas esferas. E, esclarecidas a reunião e a composição — que são as marcas da criação — no corpo dos céus e no resto, cri, por esta prova, que os céus e tudo o que neles há são criados. E achei a Escritura a dizer que a junção das partes indica a sua criação: “as Tuas mãos me fizeram e me formaram” (Tehilim 119:73); e, da terra: “o que formou a terra e a fez, Ele a estabeleceu” (Yeshayahu 45:18); e, dos céus: “quando vejo os Teus céus, obra dos Teus dedos, a lua e as estrelas que firmaste” (Tehilim 8:4).
והראיה השנית מקבוץ החלקים והרכבת הפרקים, והוא, שראיתי הגשמים חלקים ‏מחוברים, ופרקים מורכבים, והתבאר לי בהם סימן מעשה העושה והחדוש. אחר כן אמרתי שמא ‏אלה הפרקים והחבורים אינם כי אם בגשמים הקטנים; רוצה לומר גשמי החוש והצמח. ופשטתי ‏מחשבתי אל הארץ והנה היא כן, כי היא עפר ואבן וחול והדומה להם מקובצים. ועליתי בה אל ‏השמים וראיתי בם כתות רבות מן הגלגלים קצתם בתוך קצם, יש בהם כתות מן המאורים ‏הנקראים ככבים, נגזרו, גדול וקטן, רב אור ומעט אור, והורכבו בתוך הגלגלים ההם. וכאשר נתברר ‏לי הקבוץ והחבור וההרכבה, אשר הם החדושים בגשם השמים וזולתם, האמנתי בעבור הראיה ‏הזאת עוד, כי השמים וכל אשר בהם מחודשים, ומצאתי הכתוב אומר כי פירוד חלקי החיים וחבורם ‏יורה על חדושם, והוא אמרו (תהלים קי"ט ע"ג) ידיך עשוני ויכוננוני, ואמר בארץ, (ישעיה מ"ה י"ח) ‏יוצר הארץ ועושה הוא כוננה, ואמר בשמים, (תהלים ח' ד') כי אראה שמיך מעשה אצבעותיך ירח ‏וככבים אשר כוננת:‏
4
A terceira vem dos acidentes das mudanças. Achei que nenhum corpo escapa dos acidentes que lhe ocorrem — por si ou por outro —, como o ser vivo e a planta, que nascem, crescem até completar-se, e depois decaem e se decompõem. Depois disse: e se a terra escapasse desses acidentes? Examinei-a, e achei-a não isenta de planta e de vida, que são criadas; e sabe-se que o que não escapa do criado é, ele mesmo, como o criado. Depois disse: e se os céus escapassem de tais mudanças? Contemplei, e eis que não escapam: a sua essência é o movimento que neles adere e não repousa — antes, movimentos muitos e diversos, com lentidão e rapidez; e há entre eles a queda da luz de uns sobre os outros, e a luz que se renova na lua, e os que mostram, em certas estrelas, o vermelho, o branco e o esverdeado. E, achando que as mudanças os abrangem e não os precederam, cri que tudo o que não precede a mudança é, como ela, criado. E disse a Escritura, sobre as criações da terra e dos céus, que indicam o seu começo: “Eu fiz a terra e criei o homem sobre ela; Eu — as Minhas mãos — estendi os céus, e a todo o seu exército dei ordem” (Yeshayahu 45:12).
‏והשלישית מן הראיות, המקרים. והוא שמצאתי כל הגשמים לא ימלטו ממקרים שיקרו ‏בכל אחד, אם מעצמו אם מזולת עצמו, כמו שיולד החי והצמח ויגדל עד אשר ישלם, ואחר כן יחסר ‏ויתפרדו חלקיו. ואחר כן אמרתי שמא הארץ נמלטת מאלה המקרים? והשתדלתי בה ומצאתיה ‏שאיננה נמלטת מצמח וחיים שהם מחודשים, וידוע כי מה שאיננו נמלט מן המחודש שהוא כמוהו. ‏אחר כן אמרתי שמא השמים נמלטים מחדושים כאלה? והשתכלתי והנה אינם נמלטים מחדושים, ‏ועקרם התנועה הדבקה בהם, לא תנוח, אבל תנועות רבות שונות, עד אם תערוך אחת מהנה אל ‏האחרת; תדע כי יש להם אחור ומהירות, ומהם נפילת אור קצתם על קצתם, ויתחדש בהם האור ‏כירח. ומהם שמראה קצת הככבים לקצת האודם והלובן והירקרק והירוק. וכאשר מצאתי החדושים ‏שכללו אותם והם לא קדמו להם. האמנתי כל מה שלא קדם החדוש הוא כמוהו, בעבור שהוא נכנס ‏בגדרו, ואמר הכתוב בחדושי הארץ והשמים שהם מורים על תחלתם (ישעיה מ"ה י"ב) אנכי עשיתי ‏ארץ ואדם עליה בראתי אני ידי נטו שמים וכל צבאם צויתי:‏
Nota — composição e mudança: o que não é eterno. A segunda e a terceira provas apoiam-se em duas intuições poderosas: o que é composto de partes foi, em algum momento, posto junto — e toda composição aponta para um compositor; e o que está sujeito a mudança (nascer, crescer, decair) não pode ser eterno e necessário, pois o necessário não muda. Saadia aplica isso até aos céus, mostrando que também eles se movem e se alteram. São argumentos que prefiguram a distinção, central no Rambam, entre o que existe por contingência (e poderia não existir) e o Ser que existe por necessidade.
5
A quarta vem do tempo. Soube que os tempos são três: o passado, o presente e o futuro. E, embora o presente seja o menor de todos, tomei-o como um ponto. E disse: se o homem se esforçar, com o pensamento, por subir desse ponto para trás rumo a um passado infinito, não o conseguirá — porque o tempo seria sem limite, e o que não tem limite o pensamento não consegue percorrer. E essa mesma infinitude impediria que o vir-a-ser (havayá) descesse pelo tempo e o atravessasse até chegar a nós; e, se o vir-a-ser não chegasse a nós, nós não existiríamos — e seria forçoso concluir que nós, a multidão dos seres, não existimos. Mas, achando-me a mim mesmo existente, soube que o vir-a-ser atravessou uma extensão de tempo até chegar a mim; e, se o tempo não tivesse limite, não o teria atravessado. E achei a Escritura a dizer algo assim do tempo remoto: “todo homem o contempla; o mortal o vê de longe” (Iyov 36:25). E chegou-me notícia de uma objeção a esta prova: poderia o homem percorrer a pé algo cujas partes são infinitas? — pois cada milha ou côvado que caminhe, posto no pensamento, divide-se em partes sem fim; e alguns foram levados a admitir o “átomo indivisível”. Mas, ao examinar a objeção, achei-a precipitada: a divisão de uma coisa ao infinito só ocorre no pensamento, e não pode ocorrer de fato. Se o tempo passado foi atravessado pelo vir-a-ser apenas no pensamento, a objeção é igualmente só mental; e, se o vir-a-ser atravessou o tempo de fato, até chegar a nós, então essa objeção não quebra o nosso argumento, por ser só do pensamento. E, além destas, tenho outras provas — algumas no comentário à porção de Bereshit, outras na explicação das leis da Criação (Sefer Yetzirá), e nas minhas respostas às objeções de um cético — e ainda outras nos meus demais escritos.
והראיה הרביעית מהזמן. והיא שידעתי כי הזמנים שלשה חולף ועומד ועתיד. ואף על פי ‏שהעומד פחות מכל עתה, שמתי העתה כנקודה. ואמרתי אם יהיה האדם משתדל ממחשבתו ‏לעלות מהנקודה הזאת למעלה, לא יתכן לו זה בעבור שהזמן אין לו תכלית, ומה שאין לו תכלית לא ‏תעלה בו המחשבה למעלה ותעבור בו. העלה עצמה תמנע שתלך בו ההויה למטה ותעבור בו עד ‏שתגיע אצלנו. ואם לא תגיע ההויה אלינו לא נהיה. ויהיה הדבר מחוייב שאנחנו המון ההוים אינם ‏הוים והנמצאים אינם נמצאים. וכאשר מצאתי עצמי נמצא, ידעתי כי ההויה עברה על זמן עד ‏שהגיעה אלי. ולולי שיש לזמן תכלית לא היתה ההויה עוברת בו, והיתה דעתי (בזמן) גם כן בזמן ‏העתיד, כאשר היתה דעתי בחולף בלא עכוב. ומצאתי הכתוב אומר כמו זה בזמן הרחוק (איוב ל״ו:כ״ה ‏כ"ה) כל אדם חזו בו אנוש יביט מרחוק; ואמר (שם ל"ו ג') אשא דעי למרחוק. והגיעני על אחד ‏מהמכחשים, ממי שפגע זולתי מהמאמינים שטען על הראיה הזאת, ואמר היתכן שיעבוד האדם מה ‏שאין לו תכלית לחלקיו בהליכה? כי כל מיל שילך אותו האדם או אמה, ויעל אותו על מחשבתו, ‏נמצאהו מתחלק לחלקים שאין להם תכלית. ומקצת המאמינים הוצרך להודות בחלק שאינו מתחלק. ‏וקצתם הודה בטפר"ה; פירוש הוא הדלוג מלמטה למעלה. וקצתם הודה בנפילת חלקים רבים על ‏חלקים. והשתכלתי בטענה הזאת ומצאתיה נבהלה, מפני שחלוק הדבר לאין תכלית אינו נופל כי אם ‏במחשבה, ולא יתכן שיפול בפועל, מפני שהוא דק מנפול הפעל עליו או החלוק. ואם הזמן החולף ‏עברה אותו הויה במחשבה לא בפעל, הוא בעיני דומה הטענה הזאת, ואם ההויה עברה בזמן בפעל ‏עד שהגיע אליו, תהיה זאת הטענה אינה שוברת טענותינו מפני שהיא במחשבה - ואחרי אלה ‏הראיות יש לי ראיות אחרות, מהם מה שכתבתיו בפרשת בראשית, ומהם מה שכתבתיו בפירוש ‏הלכות יצירה, וכתשובותי על חיוי הכלבי, חוץ מדברים אחרים תמצאם בשאר חבורי. ועם כל זה ‏אומר כי התשובות אשר אשיב בהם במאמר הזה על מי שחולק על הדעת הזה, הם כלם מחזקות ‏ומאמצות אותו, וצריך שיתבונן האדם בהם, ויחובר מהם אל הדעת הזה מה שהוא דומה לו:‏
Nota — a quarta prova (o tempo) e a resposta a uma objeção. Esta é a mais célebre: um passado infinito não poderia ser “percorrido” até o presente — pois nunca se termina de atravessar o infinito. Mas nós existimos, aqui e agora; logo, o passado é finito — houve um começo. À objeção de que também uma distância finita se divide em infinitas partes (o velho paradoxo de Zenão), Saadia responde com elegância: a divisão ao infinito existe só no pensamento, não de fato; a realidade não é infinitamente fragmentada. Este argumento — a impossibilidade de atravessar um infinito atual — atravessaria os séculos e reapareceria em toda a filosofia medieval. E o ponto maior é o da Introdução: a razão, sozinha, chega à mesma verdade que a profecia ensinara.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Quatro caminhos para uma só verdade

Saadia reúne quatro provas independentes de que o mundo teve um começo: a finitude (um corpo finito só guarda força finita), a composição (o que é montado foi montado por alguém), a mudança (o que se altera não é eterno) e o tempo (um passado infinito não chegaria até nós). Que quatro vias diferentes levem ao mesmo ponto é, para ele, sinal da solidez da conclusão.

A ciência envelhece; o argumento permanece

É preciso ler com discernimento: o modelo astronômico de Saadia é o do seu tempo, e foi superado. Mas o leitor atento separa a casca da semente. A semente — um universo finito, que começou — não só sobreviveu como foi reforçada pela ciência moderna. A tradição racionalista nunca temeu que a ciência avance; teme apenas o raciocínio descuidado.

Razão e revelação, de novo juntas

Cada prova é selada com um versículo: a razão e a Escritura dizem o mesmo. Este é o programa de toda a obra em miniatura — não crer contra a razão, nem dispensar a revelação, mas vê-las convergir. A criação do mundo, primeira das grandes verdades, é também a primeira demonstração de que fé e razão podem caminhar de mãos dadas.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I (A criação do mundo), capítulo 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

A cosmologia geocêntrica e a física dos quatro elementos são apresentadas como ciência do século X; as notas distinguem o modelo (superado) do argumento lógico (que perdura). Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.