Começa aqui o primeiro dos dez tratados. Fiel ao método anunciado na Introdução — primeiro o que ensinam os profetas, depois a confirmação da razão —, Saadia apresenta quatro provas racionais de que o universo não é eterno: teve um começo. São argumentos do século X que, no seu núcleo lógico, ainda hoje impressionam.
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E, tendo eu esclarecido aquela Introdução, digo: o nosso D’us, bendito e exaltado, deu-nos a conhecer que todas as coisas são criadas (mechudash), e que Ele as criou do nada — não de algo preexistente —, como está dito: “No princípio, criou D’us os céus e a terra” (Bereshit 1:1); e ainda: “Eu sou o Eterno, que faço todas as coisas; sozinho estendi os céus” (Yeshayahu 44:24). E isto nos foi confirmado por sinais e prodígios, e o recebemos por tradição. E, depois, examinei a questão: confirmar-se-ia ela pelo exame racional, assim como se confirmou pela profecia? E encontrei que sim, por muitos caminhos — dos quais resumirei quatro provas.
וכאשר בארתי ההקדמה הזאת, אומר, כי אלהינו יתברך ויתעלה הודיענו כי כל הדברים מחודשים, והוא חדשם לא מדבר כמו שאמר (בראשית א' א') בראשית ברא אלהים וגו'. ואומר עוד (ישעיהו מ״ד:כ״ד כ"ד) אנכי י"י עושה כל נוטה שמים לבדי וגומ'. ואמת זה אצלנו באותות ובמופתים וקבלנוהו. ואחרי כן עיינתי בענין הזה, היתאמת בעיון כאשר התאמת בנבואה? ומצאתיו כן מפנים רבים, אקצר מכללם ארבע ראיות:
Nota — o método em ação, e a criação “do nada”. Observe a ordem que Saadia anunciara na Introdução: primeiro o que ensinam os profetas (a criação, em Bereshit 1:1 e Yeshayahu 44:24), depois a confirmação da razão. E note a doutrina central: o mundo é mechudash — teve um princípio — e foi criado do nada (creatio ex nihilo), não a partir de uma matéria eterna preexistente. Esta é uma das teses fundadoras do judaísmo, que o separa das cosmologias da Antiguidade (que supunham a matéria eterna). As quatro provas a seguir visam mostrar, só pela razão, que o universo não é eterno.
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A primeira vem dos limites da finitude. Os céus e a terra, uma vez que se mostrou terem um limite — estando a terra ao centro e girando os céus à sua volta —, disto se segue que a sua força também tenha um limite; pois é impossível que uma força sem limite resida num corpo com limite — e isso a razão rejeita. E, quando se exaurir a força que os sustenta, segue-se que tenham um começo e um fim. Revelada esta prova, não me apressei a decretá-la, mas examinei-a: e se a terra não tivesse limite em comprimento, largura e profundidade? Mas então o sol não a circundaria, completando o seu giro uma vez a cada dia e noite, tornando a nascer de onde nascera. E se as águas não tivessem limite? Mas elas se movem e giram em torno da terra. E se houvesse muitas terras e muitos céus — mundos sem fim? Vi que isso é impossível por natureza, pois não pode haver terra acima do fogo, nem ar abaixo da água: o fogo e o ar são leves, a terra e a água são pesados e outra terra, fora desta, atravessaria o ar e o fogo até cair sobre esta. E achei a verdade plena: não há céus senão estes, nem terra senão esta; estes céus têm limite, e esta terra tem limite; e, assim como os seus corpos têm fronteira, também a sua força tem fronteira, que chega a um termo e ali para — e os corpos não podem subsistir depois de exaurida aquela força, nem existiam antes dela. E a Escritura testemunhou o seu limite: “de uma extremidade da terra à outra, e de uma extremidade dos céus à outra” (Devarim 13:8); e que o sol circunda a terra e retorna a cada dia: “e nasce o sol, e põe-se o sol” (Kohelet 1:5).
הראשונה מהם, מן התכליות, והוא שהשמים והארץ כיון שהתברר שיש להם תכלית בהיות הארץ באמצע וסבוב השמים סביבותיה, התחייב שיהיה לכחם תכלית; כי אי אפשר שיהיה כח לאין תכלית בגשם בעל תכלית, ודוחה זה הידוע. וכאשר יכלה הכח השומר אותם התחייב שיהיה להם תחלה וסוף. ואחרי שנגלתה לי זאת הראיה, התישבתי בדקדוקם, ולא מהרתי לגזור אומר בה, עד שבררתיה, באמרו שמא הארץ אין לה תכלית בארך וברחב ובעמק? אחרי כן אמרתי אלו היתה כן, לא היתה השמש מקפת אותה עד שהיא משלמת סבובה בכל יום ולילה פעם אחת, ותשוב זורחת ממקום שזרחה ובאה למקום שבאה, וכן הירח ושאר הככבים. ואחר כן אמרתי שמא המים אין להם תכלית? ואמרתי ואיך יהיה זה והם מתנועעים כלם וסובבים סביב הארץ תמיד כי לא יתכן לחשוב כל הגלגל הקרוב אלינו הוא אשר יסוב, והשאר יותר גדול משיסוב, מפני שאין אנו משכילים כי אם זה הדבר אשר יסוב, ולא נשכיל אחריו דבר אחר, כל שכן שנאמין שהוא שמים ונאמר שהוא סובב. ואחרי כן חקרתי ואמרתי שמא יש ארצות רבות, ושמים רבים, יקיפו כל שמים מהם הארץ שלהם, ויהיו עולמים שיאן להם תכלית. וראיתי זה נמנע מצד הטבע, כי לא יתכן להיות עפר ממעל לאש בטבע ולא אויר תחת מים בטבע, כי האש והאויר קלים שניהם והעפר והמים כבדים שניהם. וידעתי כי אילו הי בנמצא גוש עפר חוץ לארץ הזאת היה בוקע כל אויר וכל אש עד אשר יגיע לעפר הארץ הזאת. וכן אם היה מקוה מים חוץ למים האלה היה בוקע האויר והאש עד שיגיע למים האלה. ומצאתי המציאה הגמורה כי אין שמים בלתי אלה ולא ארץ כי אם זאת, וכי השמים האלה יש להם תכלית, והארץ הזאת יש לה תכלית, וכאשר גשמיהם יש להם גבול, כן יש לכחם גבול מגיע אל קץ ויעמוד אצלו, ולא יתכן להם לעמוד אחר כלות הכח ההוא ולא ימצאו קודם היותו, ומצאתי הכתוב שהעיד עליהם בתכלית, באמרו (דברים י"ג ח') מקצה הארץ ועד קצה הארץ ולמקצה השמים ועד קצה השמים. והעיד כי השמש תסובב סבוב הארץ ותשוב בכל יום: וזרח השמש ובא השמש (קהלת א' ה'):
Nota — a primeira prova (a finitude) e a ciência do seu tempo. A cosmologia de Saadia é a do século X — geocêntrica, com a terra ao centro, esferas girando e quatro elementos (fogo e ar leves, terra e água pesados). Esse modelo físico está, hoje, superado. Mas não confunda o modelo com o argumento: o seu núcleo lógico é que um corpo finito só pode conter uma força finita, que um dia se exaure — logo, o universo teve um começo. É notável que a intuição central de Saadia (um cosmos finito, com um princípio) tenha sido, séculos depois, confirmada pela cosmologia moderna, que também aponta um começo do universo (cf. os ensaios sobre o Big Bang e a idade do universo). A roupagem é medieval; a ideia de fundo, surpreendentemente atual.
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A segunda vem da reunião das partes e da composição dos membros. Vi que os corpos são partes reunidas e segmentos compostos — e nisso se mostra a marca da obra de um Autor e da criação (chidush). Depois disse: e se essas composições só existissem nos corpos pequenos — os dos sentidos e os das plantas? Estendi o pensamento à terra, e eis que também ela é assim: é terra, pedra e areia, tudo reunido. E subi aos céus, e neles vi muitas ordens de esferas, umas dentro das outras, e nelas ordens de luzeiros — as estrelas —, grandes e pequenas, de muita ou pouca luz, compostas dentro daquelas esferas. E, esclarecidas a reunião e a composição — que são as marcas da criação — no corpo dos céus e no resto, cri, por esta prova, que os céus e tudo o que neles há são criados. E achei a Escritura a dizer que a junção das partes indica a sua criação: “as Tuas mãos me fizeram e me formaram” (Tehilim 119:73); e, da terra: “o que formou a terra e a fez, Ele a estabeleceu” (Yeshayahu 45:18); e, dos céus: “quando vejo os Teus céus, obra dos Teus dedos, a lua e as estrelas que firmaste” (Tehilim 8:4).
והראיה השנית מקבוץ החלקים והרכבת הפרקים, והוא, שראיתי הגשמים חלקים מחוברים, ופרקים מורכבים, והתבאר לי בהם סימן מעשה העושה והחדוש. אחר כן אמרתי שמא אלה הפרקים והחבורים אינם כי אם בגשמים הקטנים; רוצה לומר גשמי החוש והצמח. ופשטתי מחשבתי אל הארץ והנה היא כן, כי היא עפר ואבן וחול והדומה להם מקובצים. ועליתי בה אל השמים וראיתי בם כתות רבות מן הגלגלים קצתם בתוך קצם, יש בהם כתות מן המאורים הנקראים ככבים, נגזרו, גדול וקטן, רב אור ומעט אור, והורכבו בתוך הגלגלים ההם. וכאשר נתברר לי הקבוץ והחבור וההרכבה, אשר הם החדושים בגשם השמים וזולתם, האמנתי בעבור הראיה הזאת עוד, כי השמים וכל אשר בהם מחודשים, ומצאתי הכתוב אומר כי פירוד חלקי החיים וחבורם יורה על חדושם, והוא אמרו (תהלים קי"ט ע"ג) ידיך עשוני ויכוננוני, ואמר בארץ, (ישעיה מ"ה י"ח) יוצר הארץ ועושה הוא כוננה, ואמר בשמים, (תהלים ח' ד') כי אראה שמיך מעשה אצבעותיך ירח וככבים אשר כוננת:
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A terceira vem dos acidentes das mudanças. Achei que nenhum corpo escapa dos acidentes que lhe ocorrem — por si ou por outro —, como o ser vivo e a planta, que nascem, crescem até completar-se, e depois decaem e se decompõem. Depois disse: e se a terra escapasse desses acidentes? Examinei-a, e achei-a não isenta de planta e de vida, que são criadas; e sabe-se que o que não escapa do criado é, ele mesmo, como o criado. Depois disse: e se os céus escapassem de tais mudanças? Contemplei, e eis que não escapam: a sua essência é o movimento que neles adere e não repousa — antes, movimentos muitos e diversos, com lentidão e rapidez; e há entre eles a queda da luz de uns sobre os outros, e a luz que se renova na lua, e os que mostram, em certas estrelas, o vermelho, o branco e o esverdeado. E, achando que as mudanças os abrangem e não os precederam, cri que tudo o que não precede a mudança é, como ela, criado. E disse a Escritura, sobre as criações da terra e dos céus, que indicam o seu começo: “Eu fiz a terra e criei o homem sobre ela; Eu — as Minhas mãos — estendi os céus, e a todo o seu exército dei ordem” (Yeshayahu 45:12).
והשלישית מן הראיות, המקרים. והוא שמצאתי כל הגשמים לא ימלטו ממקרים שיקרו בכל אחד, אם מעצמו אם מזולת עצמו, כמו שיולד החי והצמח ויגדל עד אשר ישלם, ואחר כן יחסר ויתפרדו חלקיו. ואחר כן אמרתי שמא הארץ נמלטת מאלה המקרים? והשתדלתי בה ומצאתיה שאיננה נמלטת מצמח וחיים שהם מחודשים, וידוע כי מה שאיננו נמלט מן המחודש שהוא כמוהו. אחר כן אמרתי שמא השמים נמלטים מחדושים כאלה? והשתכלתי והנה אינם נמלטים מחדושים, ועקרם התנועה הדבקה בהם, לא תנוח, אבל תנועות רבות שונות, עד אם תערוך אחת מהנה אל האחרת; תדע כי יש להם אחור ומהירות, ומהם נפילת אור קצתם על קצתם, ויתחדש בהם האור כירח. ומהם שמראה קצת הככבים לקצת האודם והלובן והירקרק והירוק. וכאשר מצאתי החדושים שכללו אותם והם לא קדמו להם. האמנתי כל מה שלא קדם החדוש הוא כמוהו, בעבור שהוא נכנס בגדרו, ואמר הכתוב בחדושי הארץ והשמים שהם מורים על תחלתם (ישעיה מ"ה י"ב) אנכי עשיתי ארץ ואדם עליה בראתי אני ידי נטו שמים וכל צבאם צויתי:
Nota — composição e mudança: o que não é eterno. A segunda e a terceira provas apoiam-se em duas intuições poderosas: o que é composto de partes foi, em algum momento, posto junto — e toda composição aponta para um compositor; e o que está sujeito a mudança (nascer, crescer, decair) não pode ser eterno e necessário, pois o necessário não muda. Saadia aplica isso até aos céus, mostrando que também eles se movem e se alteram. São argumentos que prefiguram a distinção, central no Rambam, entre o que existe por contingência (e poderia não existir) e o Ser que existe por necessidade.
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A quarta vem do tempo. Soube que os tempos são três: o passado, o presente e o futuro. E, embora o presente seja o menor de todos, tomei-o como um ponto. E disse: se o homem se esforçar, com o pensamento, por subir desse ponto para trás rumo a um passado infinito, não o conseguirá — porque o tempo seria sem limite, e o que não tem limite o pensamento não consegue percorrer. E essa mesma infinitude impediria que o vir-a-ser (havayá) descesse pelo tempo e o atravessasse até chegar a nós; e, se o vir-a-ser não chegasse a nós, nós não existiríamos — e seria forçoso concluir que nós, a multidão dos seres, não existimos. Mas, achando-me a mim mesmo existente, soube que o vir-a-ser atravessou uma extensão de tempo até chegar a mim; e, se o tempo não tivesse limite, não o teria atravessado. E achei a Escritura a dizer algo assim do tempo remoto: “todo homem o contempla; o mortal o vê de longe” (Iyov 36:25). E chegou-me notícia de uma objeção a esta prova: poderia o homem percorrer a pé algo cujas partes são infinitas? — pois cada milha ou côvado que caminhe, posto no pensamento, divide-se em partes sem fim; e alguns foram levados a admitir o “átomo indivisível”. Mas, ao examinar a objeção, achei-a precipitada: a divisão de uma coisa ao infinito só ocorre no pensamento, e não pode ocorrer de fato. Se o tempo passado foi atravessado pelo vir-a-ser apenas no pensamento, a objeção é igualmente só mental; e, se o vir-a-ser atravessou o tempo de fato, até chegar a nós, então essa objeção não quebra o nosso argumento, por ser só do pensamento. E, além destas, tenho outras provas — algumas no comentário à porção de Bereshit, outras na explicação das leis da Criação (Sefer Yetzirá), e nas minhas respostas às objeções de um cético — e ainda outras nos meus demais escritos.
והראיה הרביעית מהזמן. והיא שידעתי כי הזמנים שלשה חולף ועומד ועתיד. ואף על פי שהעומד פחות מכל עתה, שמתי העתה כנקודה. ואמרתי אם יהיה האדם משתדל ממחשבתו לעלות מהנקודה הזאת למעלה, לא יתכן לו זה בעבור שהזמן אין לו תכלית, ומה שאין לו תכלית לא תעלה בו המחשבה למעלה ותעבור בו. העלה עצמה תמנע שתלך בו ההויה למטה ותעבור בו עד שתגיע אצלנו. ואם לא תגיע ההויה אלינו לא נהיה. ויהיה הדבר מחוייב שאנחנו המון ההוים אינם הוים והנמצאים אינם נמצאים. וכאשר מצאתי עצמי נמצא, ידעתי כי ההויה עברה על זמן עד שהגיעה אלי. ולולי שיש לזמן תכלית לא היתה ההויה עוברת בו, והיתה דעתי (בזמן) גם כן בזמן העתיד, כאשר היתה דעתי בחולף בלא עכוב. ומצאתי הכתוב אומר כמו זה בזמן הרחוק (איוב ל״ו:כ״ה כ"ה) כל אדם חזו בו אנוש יביט מרחוק; ואמר (שם ל"ו ג') אשא דעי למרחוק. והגיעני על אחד מהמכחשים, ממי שפגע זולתי מהמאמינים שטען על הראיה הזאת, ואמר היתכן שיעבוד האדם מה שאין לו תכלית לחלקיו בהליכה? כי כל מיל שילך אותו האדם או אמה, ויעל אותו על מחשבתו, נמצאהו מתחלק לחלקים שאין להם תכלית. ומקצת המאמינים הוצרך להודות בחלק שאינו מתחלק. וקצתם הודה בטפר"ה; פירוש הוא הדלוג מלמטה למעלה. וקצתם הודה בנפילת חלקים רבים על חלקים. והשתכלתי בטענה הזאת ומצאתיה נבהלה, מפני שחלוק הדבר לאין תכלית אינו נופל כי אם במחשבה, ולא יתכן שיפול בפועל, מפני שהוא דק מנפול הפעל עליו או החלוק. ואם הזמן החולף עברה אותו הויה במחשבה לא בפעל, הוא בעיני דומה הטענה הזאת, ואם ההויה עברה בזמן בפעל עד שהגיע אליו, תהיה זאת הטענה אינה שוברת טענותינו מפני שהיא במחשבה - ואחרי אלה הראיות יש לי ראיות אחרות, מהם מה שכתבתיו בפרשת בראשית, ומהם מה שכתבתיו בפירוש הלכות יצירה, וכתשובותי על חיוי הכלבי, חוץ מדברים אחרים תמצאם בשאר חבורי. ועם כל זה אומר כי התשובות אשר אשיב בהם במאמר הזה על מי שחולק על הדעת הזה, הם כלם מחזקות ומאמצות אותו, וצריך שיתבונן האדם בהם, ויחובר מהם אל הדעת הזה מה שהוא דומה לו:
Nota — a quarta prova (o tempo) e a resposta a uma objeção. Esta é a mais célebre: um passado infinito não poderia ser “percorrido” até o presente — pois nunca se termina de atravessar o infinito. Mas nós existimos, aqui e agora; logo, o passado é finito — houve um começo. À objeção de que também uma distância finita se divide em infinitas partes (o velho paradoxo de Zenão), Saadia responde com elegância: a divisão ao infinito existe só no pensamento, não de fato; a realidade não é infinitamente fragmentada. Este argumento — a impossibilidade de atravessar um infinito atual — atravessaria os séculos e reapareceria em toda a filosofia medieval. E o ponto maior é o da Introdução: a razão, sozinha, chega à mesma verdade que a profecia ensinara.
Sobre esta seção · עִיּוּן
Quatro caminhos para uma só verdade
Saadia reúne quatro provas independentes de que o mundo teve um começo: a finitude (um corpo finito só guarda força finita), a composição (o que é montado foi montado por alguém), a mudança (o que se altera não é eterno) e o tempo (um passado infinito não chegaria até nós). Que quatro vias diferentes levem ao mesmo ponto é, para ele, sinal da solidez da conclusão.
A ciência envelhece; o argumento permanece
É preciso ler com discernimento: o modelo astronômico de Saadia é o do seu tempo, e foi superado. Mas o leitor atento separa a casca da semente. A semente — um universo finito, que começou — não só sobreviveu como foi reforçada pela ciência moderna. A tradição racionalista nunca temeu que a ciência avance; teme apenas o raciocínio descuidado.
Razão e revelação, de novo juntas
Cada prova é selada com um versículo: a razão e a Escritura dizem o mesmo. Este é o programa de toda a obra em miniatura — não crer contra a razão, nem dispensar a revelação, mas vê-las convergir. A criação do mundo, primeira das grandes verdades, é também a primeira demonstração de que fé e razão podem caminhar de mãos dadas.
Sobre esta tradução
Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I (A criação do mundo), capítulo 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.
A cosmologia geocêntrica e a física dos quatro elementos são apresentadas como ciência do século X; as notas distinguem o modelo (superado) do argumento lógico (que perdura). Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.