A terceira derasha examina a natureza da profecia: como ela difere do pensamento filosófico comum, quais condições a tornam possível, por que existe uma hierarquia de profetas — e por que Moisés ocupa uma categoria inteiramente própria.
Saibas que a profecia é uma forma de conhecimento que não depende apenas do intelecto humano por si mesmo, mas de um influxo (shefa) que desce do Intelecto Ativo — que os filósofos chamam de Intelecto Separado — sobre o intelecto do ser humano. Quando este influxo é recebido pelo intelecto do profeta na forma de conceitos, o resultado é profecia intelectual pura; quando ele passa também pela faculdade imaginativa, o resultado é profecia que se expressa em imagens, parábolas e visões. Por isso os profetas descrevem suas experiências de maneiras tão distintas — cada um segundo a particularidade de sua imaginação e do seu intelecto.
Para que um ser humano seja apto para receber a profecia, duas condições são necessárias: perfeição intelectual e perfeição moral. A perfeição intelectual é necessária porque o influxo profético opera por meio do intelecto — um intelecto fraco ou mal desenvolvido não pode recebê-lo adequadamente. A perfeição moral é necessária porque as paixões e os maus hábitos criam "ruído" que obscurece a recepção do influxo. O profeta não é um instrumento passivo — ele é um ser humano que trabalhou para tornar-se um recipiente adequado. A profecia é o cume do desenvolvimento humano, não um acidente ou um dom arbitrário.
Há uma hierarquia entre os profetas porque há gradações na perfeição intelectual e moral, e porque a faculdade imaginativa de cada um tem qualidades diferentes. O profeta que recebe o influxo por via intelectual pura, sem imagens, está num nível superior àquele que o recebe via imaginação. Os profetas que viram "através de um espelho nítido" (aspaklarya me'ira) perceberam a realidade divina com menos distorção; os que viram "através de um espelho nebuloso" (aspaklarya she'einah me'ira) perceberam-na mediada por mais camadas de imagem. Isso não é falha moral — é a natureza da sua percepção espiritual.
A distinção entre "espelho nítido" e "espelho nebuloso" vem do Talmud (Yevamot 49b): "Todos os profetas viram por meio de um espelho nebuloso (aspaklarya she'einah me'ira); Moisés nosso mestre viu por meio de um espelho nítido (aspaklarya me'ira)." O Rambam, no Moreh Nevuchim (II:45), elabora esta distinção em termos aristotélicos: a diferença é entre percepção intelectual direta e percepção mediada pela imaginação.
Moisés nosso mestre não está numa gradação mais elevada da mesma hierarquia dos outros profetas — ele é uma categoria diferente. Os demais profetas recebem a profecia durante um transe (tardema) ou em sonho ou visão; Moisés recebeu-a em estado de vigília e clareza plena. Os demais recebiam-na como se por intermédio de um anjo; Moisés falou com D'us "boca a boca" (pe el pe) e "face a face" (panim el panim). Os demais saíam da profecia perturbados; Moisés saía de suas conversas com D'us sem abalos observáveis. O que isso significa filosoficamente é que o intelecto de Moisés atingiu tal perfeição que a mediação imaginativa foi completamente eliminada de seu modo profético — ele recebia o influxo divino de uma forma que outros seres humanos não podem.
A teoria da profecia do Ran é fortemente maimonidiana: o Intelecto Ativo, o influxo (shefa), a função da faculdade imaginativa, os graus de profecia segundo a clareza da percepção — tudo isso está desenvolvido em detalhe no Moreh Nevuchim II:32–48. Onde o Ran se distancia do Rambam é na questão da profecia como decorrência necessária da perfeição humana: o Rambam, em sua leitura aristotélica mais rigorosa, implica que um ser humano suficientemente perfeito profetizará necessariamente. O Ran, como Yehudá HaLevi antes dele, insiste que a profecia é também um dom divino que excede o que a perfeição natural por si produz.
A exclusividade da profecia de Moisés tem implicações dogmáticas diretas: se Moisés é uma categoria diferente, sua Torá é uma revelação de tipo diferente — e portanto não pode ser "superada" ou "completada" por nenhum profeta posterior. Esta é a base para o princípio maimonidiano (oitavo dos Treze Princípios) de que a Torá é imutável. O Ran constrói este argumento não de autoridade, mas de análise filosófica: a unicidade da profecia de Moisés implica a unicidade de sua Torá, que implica sua permanência.
Ao conectar a teoria da profecia ao argumento da Derasha I sobre o ser humano como o ser mais elevado da criação sublunar, o Ran estabelece uma cadeia: a criação produziu a substância primordial → da qual emergiram os elementos → dos quais emergiu o corpo humano → ao qual foi unida a alma intelectual → cujo cume de atualização é o intelecto adquirido → cujo pináculo é a profecia. A profecia não é uma interrupção do curso natural — é o ponto mais alto que o curso natural pode atingir quando um ser humano realiza plenamente o seu potencial.