Derashot HaRan · Rav Nissim Gerondi · Derasha III

A profecia e seus graus

הַנְּבוּאָה וּמַדְרֵגוֹתֶיהָ
Rav Nissim ben Reuven Gerondi — Ran (1320–1376) · hebraico de domínio público · tradução original PT-BR

A terceira derasha examina a natureza da profecia: como ela difere do pensamento filosófico comum, quais condições a tornam possível, por que existe uma hierarquia de profetas — e por que Moisés ocupa uma categoria inteiramente própria.

A profecia — o que é

Saibas que a profecia é uma forma de conhecimento que não depende apenas do intelecto humano por si mesmo, mas de um influxo (shefa) que desce do Intelecto Ativo — que os filósofos chamam de Intelecto Separado — sobre o intelecto do ser humano. Quando este influxo é recebido pelo intelecto do profeta na forma de conceitos, o resultado é profecia intelectual pura; quando ele passa também pela faculdade imaginativa, o resultado é profecia que se expressa em imagens, parábolas e visões. Por isso os profetas descrevem suas experiências de maneiras tão distintas — cada um segundo a particularidade de sua imaginação e do seu intelecto.

דַּע שֶׁהַנְּבוּאָה הִיא צוּרַת יְדִיעָה שֶׁאֵינָהּ תְּלוּיָה בְּשֵׂכֶל הָאָדָם לְבַדּוֹ, אֶלָּא בְּשֶׁפַע הַיּוֹרֵד מִן הַשֵּׂכֶל הַפּוֹעֵל — שֶׁהַפִּילוֹסוֹפִים קוֹרִאִים לוֹ הַשֵּׂכֶל הַנִּפְרָד — עַל שֵׂכֶל הָאָדָם. כְּשֶׁשֶּׁפַע זֶה מִתְקַבֵּל בְּשֵׂכֶל הַנָּבִיא בְּדֶרֶךְ מֻשְׂכָּלוֹת, הַתּוֹצָאָה הִיא נְבוּאָה שִׂכְלִית טְהוֹרָה; כְּשֶׁהוּא עוֹבֵר גַּם דֶּרֶךְ כֹּחַ הַדִּמְיוֹן, הַתּוֹצָאָה הִיא נְבוּאָה הַמִּתְבַּטֶּאֶת בִּדְמוּיוֹת, מְשָׁלִים וְחֶזְיוֹנוֹת.
As condições para profecia

Para que um ser humano seja apto para receber a profecia, duas condições são necessárias: perfeição intelectual e perfeição moral. A perfeição intelectual é necessária porque o influxo profético opera por meio do intelecto — um intelecto fraco ou mal desenvolvido não pode recebê-lo adequadamente. A perfeição moral é necessária porque as paixões e os maus hábitos criam "ruído" que obscurece a recepção do influxo. O profeta não é um instrumento passivo — ele é um ser humano que trabalhou para tornar-se um recipiente adequado. A profecia é o cume do desenvolvimento humano, não um acidente ou um dom arbitrário.

כְּדֵי שֶׁאָדָם יִהְיֶה מוּכָן לְקַבֵּל נְבוּאָה, שְׁנֵי תְּנָאִים נְחוּצִים: שְׁלֵמוּת שִׂכְלִית וּשְׁלֵמוּת מוּסָרִית. הַשְּׁלֵמוּת הַשִּׂכְלִית נְחוּצָה כִּי הַשֶּׁפַע הַנְּבוּאִי פּוֹעֵל דֶּרֶךְ הַשֵּׂכֶל — שֵׂכֶל חַלָּשׁ אֵינוֹ יָכוֹל לְקַלְּטוֹ כַּהֹגֶן. הַשְּׁלֵמוּת הַמּוּסָרִית נְחוּצָה כִּי תְּשׁוּקוֹת וְהַרְגֵּלִים רָעִים יוֹצְרִים "רַעַשׁ" הַמְּטַשְׁטֵשׁ אֶת קְלִיטַת הַשֶּׁפַע. הַנָּבִיא אֵינוֹ כְּלִי פַּסִּיבִי — הוּא אָדָם שֶׁעָבַד לְהַפְכָּה לְקֵלִי מַתְאִים.
A hierarquia dos profetas

Há uma hierarquia entre os profetas porque há gradações na perfeição intelectual e moral, e porque a faculdade imaginativa de cada um tem qualidades diferentes. O profeta que recebe o influxo por via intelectual pura, sem imagens, está num nível superior àquele que o recebe via imaginação. Os profetas que viram "através de um espelho nítido" (aspaklarya me'ira) perceberam a realidade divina com menos distorção; os que viram "através de um espelho nebuloso" (aspaklarya she'einah me'ira) perceberam-na mediada por mais camadas de imagem. Isso não é falha moral — é a natureza da sua percepção espiritual.

קַיֶּמֶת הִיֶרַרְכִּיָּה בֵּין הַנְּבִיאִים כִּי קַיְּמוֹת דַּרְגּוֹת בַּשְּׁלֵמוּת הַשִּׂכְלִית וְהַמּוּסָרִית, וּמִפְּנֵי שֶׁלְּכֹחַ הַדִּמְיוֹן שֶׁל כָּל אֶחָד יֵשׁ אֵיכֻיּוֹת שׁוֹנוֹת. הַנָּבִיא הַמְּקַבֵּל אֶת הַשֶּׁפַע בְּדֶרֶךְ שִׂכְלִית טְהוֹרָה, בְּלֹא דְּמוּיוֹת, נִמְצָא בְּדַרְגָּה גְּבוֹהָה מִזֶּה שֶׁמְּקַבֵּל דַּרְכְּ כֹּחַ הַדִּמְיוֹן. נְבִיאִים שֶׁרָאוּ "בְּאַסְפַּקְלַרְיָה הַמְּאִירָה" קָלְטוּ אֶת הַמְּצִיאוּת הָאֱלֹהִית בְּפָחוֹת עִיוּוּת; אֵלֶּה שֶׁרָאוּ "בְּאַסְפַּקְלַרְיָה שֶׁאֵינָהּ מְאִירָה" קָלְטוּהָ בְּיוֹתֵר שְׁכָבוֹת שֶׁל דִּמּוּי.
Nota — "Aspaklarya me'ira" (espelho nítido)

A distinção entre "espelho nítido" e "espelho nebuloso" vem do Talmud (Yevamot 49b): "Todos os profetas viram por meio de um espelho nebuloso (aspaklarya she'einah me'ira); Moisés nosso mestre viu por meio de um espelho nítido (aspaklarya me'ira)." O Rambam, no Moreh Nevuchim (II:45), elabora esta distinção em termos aristotélicos: a diferença é entre percepção intelectual direta e percepção mediada pela imaginação.

A profecia de Moisés — uma categoria própria

Moisés nosso mestre não está numa gradação mais elevada da mesma hierarquia dos outros profetas — ele é uma categoria diferente. Os demais profetas recebem a profecia durante um transe (tardema) ou em sonho ou visão; Moisés recebeu-a em estado de vigília e clareza plena. Os demais recebiam-na como se por intermédio de um anjo; Moisés falou com D'us "boca a boca" (pe el pe) e "face a face" (panim el panim). Os demais saíam da profecia perturbados; Moisés saía de suas conversas com D'us sem abalos observáveis. O que isso significa filosoficamente é que o intelecto de Moisés atingiu tal perfeição que a mediação imaginativa foi completamente eliminada de seu modo profético — ele recebia o influxo divino de uma forma que outros seres humanos não podem.

מֹשֶׁה רַבֵּנוּ אֵינוֹ בְּדַרְגָּה גְּבוֹהָה יוֹתֵר בְּאוֹתָהּ הִיֶרַרְכִּיָּה שֶׁל שְׁאָר הַנְּבִיאִים — הוּא קָטֶגוֹרְיָה אַחֶרֶת. שְׁאָר הַנְּבִיאִים מְקַבְּלִים אֶת הַנְּבוּאָה בְּמַהֲלַךְ תַּרְדֵּמָה אוֹ חֲלוֹם אוֹ חָזוֹן; מֹשֶׁה קִבְּלָהּ בְּמַצָּב עֵרוּת וּבְהִירוּת מְלֵאָה. שְׁאָר הַנְּבִיאִים קִבְּלוּהָ כְּאִילּוּ דֶּרֶךְ מַלְאָךְ; מֹשֶׁה דִּבֶּר עִם הַשֵּׁם "פֶּה אֶל פֶּה" וְ"פָּנִים אֶל פָּנִים". שְׁאָר הַנְּבִיאִים יָצְאוּ מֵהַנְּבוּאָה מֻטָּרְדִים; מֹשֶׁה יָצָא מִשִּׂיחוֹתָיו עִם הַשֵּׁם בְּלֹא זְעָזוּעִים נִרְאִים.

Sobre esta derasha · עִיּוּן

O modelo do Rambam e o Ran

A teoria da profecia do Ran é fortemente maimonidiana: o Intelecto Ativo, o influxo (shefa), a função da faculdade imaginativa, os graus de profecia segundo a clareza da percepção — tudo isso está desenvolvido em detalhe no Moreh Nevuchim II:32–48. Onde o Ran se distancia do Rambam é na questão da profecia como decorrência necessária da perfeição humana: o Rambam, em sua leitura aristotélica mais rigorosa, implica que um ser humano suficientemente perfeito profetizará necessariamente. O Ran, como Yehudá HaLevi antes dele, insiste que a profecia é também um dom divino que excede o que a perfeição natural por si produz.

Por que Moisés é uma categoria própria

A exclusividade da profecia de Moisés tem implicações dogmáticas diretas: se Moisés é uma categoria diferente, sua Torá é uma revelação de tipo diferente — e portanto não pode ser "superada" ou "completada" por nenhum profeta posterior. Esta é a base para o princípio maimonidiano (oitavo dos Treze Princípios) de que a Torá é imutável. O Ran constrói este argumento não de autoridade, mas de análise filosófica: a unicidade da profecia de Moisés implica a unicidade de sua Torá, que implica sua permanência.

A profecia como cume da existência humana

Ao conectar a teoria da profecia ao argumento da Derasha I sobre o ser humano como o ser mais elevado da criação sublunar, o Ran estabelece uma cadeia: a criação produziu a substância primordial → da qual emergiram os elementos → dos quais emergiu o corpo humano → ao qual foi unida a alma intelectual → cujo cume de atualização é o intelecto adquirido → cujo pináculo é a profecia. A profecia não é uma interrupção do curso natural — é o ponto mais alto que o curso natural pode atingir quando um ser humano realiza plenamente o seu potencial.