A questão filosófica central desta derasha: se D'us é perfeito e estabeleceu uma ordem natural perfeita, por que existem milagres? O Ran responde com uma distinção fundamental: a natureza não é um limite para D'us — é um instrumento. E essa distinção tem consequências profundas para a compreensão da profecia e da Torá.
Há quem pergunte: se D'us é absolutamente perfeito e Sua sabedoria infinita, por que criou um mundo que precisa de "consertos"? Se a criação foi perfeita na sua origem, por que seria necessário intervir nela com milagres que alteram seu curso? E se a criação é imperfeita e requer intervenções, em que sentido é "boa" como proclama a Torá — "e D'us viu que era muito bom" (Bereshit 1:31)?
A resposta começa numa distinção: há dois tipos de ação divina no mundo — a hanhagah (condução habitual) e o nes (ação extraordinária). A hanhagah é o conjunto de leis naturais que D'us implantou no mundo como instrumento permanente de governo. O nes é a ação direta de D'us além desse instrumento. Mas ambos emanam da mesma sabedoria divina.
O erro do argumento anterior é tratar a ordem natural como se fosse uma limitação imposta a D'us — como se, ao criar as leis da natureza, D'us tivesse "amarrado as próprias mãos". Mas isso é o oposto da verdade. A ordem natural é um instrumento que D'us criou e utiliza — da mesma forma que um rei governa seu reino através de ministros e leis, sem que isso signifique que o rei está "limitado" pelos seus próprios ministros. Quando a situação o exige, o rei age diretamente além das leis habituais. Isso não é uma contradição — é a liberdade do soberano.
Assim, os milagres não são "quebras" na criação — são manifestações da liberdade divina que transcende o instrumento que Ele próprio criou. A criação é "muito boa" precisamente porque inclui tanto a regularidade da natureza (que permite vida e conhecimento) quanto a possibilidade do milagre (que revela a soberania divina acima da natureza).
A Mishná em Avot 5:6 lista dez coisas que foram criadas na véspera do Shabat ao crepúsculo: a boca da terra (que engoliu Korach), a boca do poço (de Miriam), a boca da jumenta (de Bilam), o arco-íris, o maná, o cajado de Moisés, a shamir, a forma das letras, a escrita, e as tábuas. Esta lista, que parece uma coleção de curiosidades, é na verdade uma afirmação teológica: os milagres não são improvisações — foram planejados na criação. O Ran usa esta tradição para reforçar que os milagres fazem parte da sabedoria original do Criador.
O vínculo entre milagre e profecia torna-se aqui evidente. O profeta, como vimos na Derasha III, é alguém que recebe influxo divino diretamente do Intelecto Ativo. Quando D'us decide agir no mundo de forma extraordinária — além da hanhagah habitual — Ele comunica esse ato ao profeta. Por isso os profetas podem predizer milagres: não porque "adivinham" o futuro, mas porque D'us lhes comunica Sua intenção de agir diretamente.
O paradigma supremo é o Sinai. A revelação da Torá não foi um evento "natural" no sentido da hanhagah habitual — foi D'us agindo diretamente, face a face, com todo o povo de Israel. Por isso a Torá tem uma categoria única: ela não é o resultado de reflexão humana inspirada, nem de profecia ordinária — é o ato direto de D'us comunicando Sua vontade ao povo. Daí a imutabilidade da Torá: o que veio de um ato único e direto de D'us não pode ser "superado" por uma profecia posterior.
A tradição reconhece dois tipos de milagre. O primeiro é o nes nigleh — o milagre manifesto, em que a ordem natural é visivelmente suspensa: a divisão do Mar Vermelho, a parada do sol para Josué, a multiplicação do óleo de Elisha. O segundo é o nes nistar — o milagre oculto, em que D'us age dentro dos mecanismos naturais, mas de forma que transcende a probabilidade: as dez pragas do Egito foram uma cadeia de eventos "naturais" (insetos, doenças, climatológicos), mas sua sequência, intensidade e precisão cirúrgica revelavam a mão divina.
Ambos os tipos compartilham a mesma estrutura: D'us age diretamente na história, além da hanhagah automática da criação, para um propósito específico. A diferença é apenas na forma — não na substância teológica. Em ambos, o milagre é reconhecível não por suspender as causas, mas por servir ao propósito divino de maneira que a pura cadeia causal não poderia produzir.
O desafio filosófico mais sério à possibilidade dos milagres no pensamento medieval era o aristotelismo averroísta: se as leis da natureza são necessárias (emergindo da natureza das causas), então milagres são logicamente impossíveis — pois implicariam que D'us violaria as próprias leis que emanam de Sua natureza. O Ran responde indiretamente, rejeitando a premissa: as leis naturais não são necessárias no sentido averroísta; são escolhas divinas — instrumentos criados, não limitações ontológicas. Isso coloca o Ran numa posição próxima à do Rambam, que também defende que os milagres são compatíveis com a sabedoria divina (ver Moreh Nevuchim II:29).
A lista de dez coisas criadas na véspera do Shabat (Avot 5:6) tem sido interpretada de várias formas. A leitura do Ran — que os milagres foram "planejados" na criação original — transforma a lista numa afirmação sobre a relação entre milagre e ordem: os milagres não são improvisações tardias, mas estavam "embutidos" no design original do mundo. Isso resolve a tensão entre a bondade da criação e a necessidade subsequente de intervenções: D'us não "precisou" agir porque a criação foi imperfeita — agiu conforme o plano original que já incluía esses momentos extraordinários.
A derasha IV prepara o terreno para uma das posições mais importantes do Ran: a Torá não pode ser substituída por uma nova revelação. O argumento é que a revelação do Sinai foi um ato direto e único da ação de D'us — o nes máximo. Uma profecia posterior pode predizer o futuro ou comunicar vontade divina na hanhagah habitual — mas não pode ter a autoridade de um ato que D'us realizou diretamente com todo um povo. Esta posição, embora o Ran não a articule explicitamente em polémica com o Islã ou o Cristianismo, implica uma refutação das reivindicações de revelações posteriores que "completariam" ou "substituiriam" a Torá.