מִלְחָמוֹת הַשֵּׁם
Milchamot Hashem
Guerras de Hashem — tradução bilíngue do hebraico
Dvar Torah Israel · dvartorahisrael.com
Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Introdução

Introdução: o propósito do livro

הַקְדָּמָה
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

A abertura da obra anuncia todo o seu programa: provar a unidade pura de D'us segundo a Torá e a tradição racionalista, e advertir, com gravidade, contra adorar qualquer coisa criada.

Tese

O Livro Milchamot Hashem "As Guerras de D'us", que dá a conhecer o caminho da verdade da unidade d'Ele, bendito seja — segundo a Torá e os seus intérpretes, os nossos Sábios de abençoada memória, na Mishná e no Talmud (Babilônico e de Jerusalém) e nos Midrashim dos Sábios; e segundo a opinião dos Gueonim: Rav Saadiá Gaon, e Rabbeinu Bachyá em Chovot haLevavot Os Deveres do Coração, e Rabi Yehudá haLevi nos seus poemas e no Kuzari, e o Rambam, e o Semag, e o autor do Ikarim Rabi Yossef Albo, de abençoada memória — e como é aceito por todo homem de Israel. E nele há uma grave advertência: não servir adorar criatura alguma, conforme a tradição de todos os nossos profetas e de todos os nossos sábios — os Tanaím, os Amoraím, os Gueonim e os primeiros decisores —, da boca de Moshé, de Aharon e dos anciãos: não se desviar deles, nem acrescentar sobre eles.

ספר מלחמת ה' המודיע דרך אמתות יחודו יתברך עפ"י התורה ומפרשיה רז"ל במשנה ובתלמוד בבלי וירושלמי ומדרשי רז"ל וכדעת הגאונים רס"ג ורבינו בחיי בחובת הלבבות ור' יהודה הלוי בשיריו ובכוזרי הרמב"ם וסמ"ג ובעל העיקרים ז"ל וכמקובל אצל כל איש ישראל ובו אזהרה חמורה שלא לעבוד שום נברא כפי קבלת כל נביאינו וכל חכמינו התנאים והאמוראים והגאונים והפוסקים הראשונים מפי משה ואהרן וזקנים לא לזוז מהם ולא להוסיף עליהם.
Ao leitor

E sabe, leitor honrado, que não alcançarás a intenção deste livro senão depois de o leres e estudares por inteiro; pois o seu autor fez das noites dias, e labutou, e examinou minuciosamente muitos livros, e tirou de mares e de rios provas firmes como espelho fundido — e não foi da sua própria opinião que as palavras saíram. Por isso te peço, leitor honrado, que não venhas com "as mãos de Esav", em escárnio, mas com "a voz de Yaakov", e que reflitas nas palavras; e quem não tiver forças para isso, que se cale e se aquiete. E que o Todo-Poderoso vos conceda misericórdia, e que o mérito do autor nos proteja, a nós e a todo o seu povo, Israel. — O editor.

ודע לך קורא נכבד כי לא תשיג כונת הספר הזה אלא אחרי שתקרא ותשנה את כלו כי מחברו עשה לילות כימים ויגע ודקדק בכמה ספרים ודלה מימים ונהרים ראיות כראי מוצק חזקים ולא מדעתו יצאו הדברים ולכן אבקשך קורא נכבד שלא תבוא באגרונו של עשו בהתולים אלא בקולו של יעקב ולהתבונן בדברים, ומי שהוא חסר אונים יאלם מדברים וידום ואל שדי יתן לכם רחמים וזכות המחבר תגן עלינו וע"כ עמו ישראל. המו"ל.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O programa do livro

Esta breve abertura (escrita pelo editor) enuncia, de uma vez, todo o programa da obra: provar "a verdade da unidade de D'us" segundo a Torá e a cadeia clássica dos seus intérpretes — a Mishná, o Talmud, os Midrashim, e a linhagem dos racionalistas: Saadiá Gaon, Bachyá ibn Pakuda, Yehudá haLevi, o Rambam, o Semag e o Sefer haIkarim. Dessa unidade decorre a tese central, repetida ao longo do livro: a proibição absoluta de "servir adorar criatura alguma". Para Qafih, este é o eixo de toda a fé — e a vara pela qual ele medirá tudo o mais.

A voz de Yaakov, não as mãos de Esav

O pedido ao leitor é, ele mesmo, uma lição de método racionalista: não julgar a obra "com as mãos de Esav, em escárnio", mas "com a voz de Yaakov" — isto é, com reflexão, lendo-a inteira antes de opinar (a imagem vem de Bereshit 27:22). Quem não estiver disposto a esse trabalho, diz o editor, que "se cale". É um convite à honestidade intelectual: enfrentar os argumentos, não a reputação. E há humildade na nota de que "não foi da sua própria opinião que as palavras saíram" — o autor apresenta-se como quem apenas reúne e ordena as provas da tradição.

Uma obra do racionalismo iemenita

O Rav Yichya Qafih foi a maior figura do Dor Deah ("a geração do conhecimento"), o movimento que, no Iêmen do início do século XX, procurou devolver ao judaísmo a clareza filosófica de Maimônides. Milchamot Hashem é o seu manifesto. Lê-lo é entrar num dos grandes debates internos do pensamento judaico — e ouvir, com seriedade, a voz que insiste que o coração de tudo é, e sempre foi, a adoração do Único.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo I

A Pergunta que Abre o Livro: a quem dirigimos a oração?

לְמִי הָעֲבוֹדָה
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

A obra começa com uma correspondência, em torno da pergunta mais prática da religião: a oração que oferecemos — a quem se dirige? Ao Ein Sof, o Infinito, ou ao "Ze'ir Anpin" emanado? O questionador mostra que a resposta cabalística citada choca-se com a doutrina da unidade absoluta de D'us.

A pergunta

Um dos discípulos perguntou, nestes termos: "Ensine-nos o nosso mestre: o serviço e a oração que oferecemos — a quem se dirigem? À Causa das Causas, bendita seja, ou ao ser emanado que dela procedeu (o Ze'ir Anpin)?" — pois assim nos explicou o mestre Sálem ben David, que partiu daqui para a Terra Santa segundo "a fé verdadeira", como se expõe nos livros Matzref haEmuná e Al haTorá: que quem serve ao Ein Sof o Infinito serve a quem "não é o D'us verdadeiro nem o D'us do juízo" — de modo que saibamos a quem devemos servir. Responde-nos depressa, meu senhor.

שאול שאל אחד מן התלמידים וז"ל יודיענו מ"ו העבודה והתפלה שאנו מתפללים למי שייכא. לעילת העילות ב"ו או לנאצל אשר נאצל ממנו (ז"א) כאשר פירש לנו באוזניכם מ"ו סאלם ן' דוד שנסע מכאן לארץ הקדש ע"פ האמונה האמתית כמפורש בס' מצרף האמונה ובס' עה"ת שהעובד לאין סוף עובד ללא אלהי אמת וללא אלהי משפט כדי שנדע את מי נעבוד ותשובתך מהרה אדוני ע"כ.
Nota — o vocabulário da cabala. Para acompanhar o debate: na cabala luriânica, o Ein Sof ("Sem-Fim", o Infinito) é a divindade em si, inacessível; dela "emanam" dez sefirot e cinco partzufim (configurações: Arich Anpin, Abba, Imma, Ze'ir Anpin e a Nukva), no "mundo da Emanação" (Atzilut). A pergunta do discípulo é fulcral para Qafih: se a oração deve ir ao Ze'ir Anpin (uma configuração "inferior"), e não ao Ein Sof, então — argumentará ele — estar-se-ia a dirigir o culto a algo que não é o próprio D'us Uno.
A resposta

Resposta do primeiro respondente: "A tua resposta está exposta no livro Kisé Eliyahu, da página 13 à 18 — 'ouça o sábio e aumentará o saber'. E o que temos por tradição é que o serviço se dirige a um só D'us-Senhor, para d'Ele fazer descer a abundância às dez sefirot, como escreveu o Léchem Shlomó." — Fim das palavras do respondente.

תשובה. תשובתך מבוארת בספר כסא אליהו מדף י"ג עד דף י"ח ישמע חכם ויוסף לקח. והמקובל בידינו שהעבודה לאל אדון אחד להמשיך השפע ממנו אל עשר ספירות כמו שכתב לחם שלמה. עכ"ל המשיב.
A réplica

Tornou o que perguntara e respondeu: a tua resposta, meu amigo, veio fechada e selada, e não passa de uma indicação de lugar — "ver no Kisé Eliyahu, da página 13 à 18...". E não compreendi a tua opinião nem a tua intenção: se essa "tradição" que tens concorda com o Kisé Eliyahu ou o contradiz. Pois, quando examinei o Kisé Eliyahu no lugar que me indicaste, não achei o que buscava; pelo contrário, ali (p. 3) ele compara a unidade do Criador às demais espécies de unidade: escreveu que "assim como esta casa, no seu todo, se chama 'uma casa' — e, se entrares nela, acharás vários aposentos, grandes e pequenos, e a cada um se dá o nome de 'um'... e a parede sagrada foi construída de partes (cada pedra, cada torrão de terra, a cal, à parte), e depois que o construtor juntou todas essas partes com a sua arte, umas nas outras e umas ao lado das outras, fez-se uma só parede, e então tudo é uma só peça; e assim é a questão entre nós".

חזר השואל והשיב. תשובתך ידידי באה סתומה וחתומה ואין בה אלא מורה מקום, "לעיין בכסא אליהו מדף י"ג עד דף י"ח ישמע חכם ויוסף לקח והמקובל בידינו שהעבודה לאל אדון אחד" וכו'. ולא הבנתי דעתך וכוונתך בזה, אם זה המקובל בידך הוא כדברי כסא אליהו או היפך דבריו. כי כאשר עיינתי בכסא אליהו מקום שרשמת לי, לא מצאתי מבוקשי, אדרבא שם בדף ג' מדמה אחדות הבורא לשאר מיני האחדים, ששם כתב: כמו שזה הבית בכללותו נקרא בשם בית אחד. ואם תכנס בו תמצא כמה וכמה חדרים גדולים וקטנים וכמה מקומות זולתם. וכל א' ואחד מתארים לו תואר שם אחד. גם הבנין של עצים שיש בתוכו כמה תארים יש בו. גם תמצא עוד שזה הכותל קדש שנבנה היה חלקים כל אבן ואבן היא חלוקה מצרורות העפר לעצמו והסיד לעצמו כו'. ואחר שבא הבנאי וחבר כל חלקים אלו בחכמתו זה בתוך זה וזה אצל זה ונעשו כותל אחד וכו', נמצא אז הכל חתיכה אחת וחלק אחד. וכן הענין אצלנו וכו'.
Nota — as "comparações" da unidade. O cerne da objeção: o questionador acusa a fonte cabalística de comparar a unidade de D'us a coisas compostas — uma casa de muitos aposentos, uma parede de muitas pedras, um corpo de muitos membros. Para o racionalista, isso é inadmissível: a unidade divina não é a soma de partes. (Os cabalistas respondem — e o texto o dirá adiante — que tais imagens não descrevem o Ein Sof, mas "luzes" emanadas, "sem forma nem apreensão"; é precisamente o ponto em disputa.)
A doutrina citada

E ali (pp. 25, 29) ele O compara ao corpo humano, composto de ossos, tendões, carne, cabeça, olho, ouvido, nariz, boca, mãos e pés — e a tudo se chama "um homem", "Reuven" ou "Shimon". E nas pp. 25–27 escreveu: "O princípio que daqui resulta é que a Causa Primeira, que todos os cabalistas chamam Ein Sof, é a que emanou, criou, formou e fez; e Ela se oculta dentro do Ze'ir Anpin — e então é o Ze'ir Anpin que governa todas as criaturas, conduzindo-as, nutrindo-as e sustentando-as pela força do Ein Sof que há nele. Por isso ele é o nosso D'us e nós somos o seu povo... e a ele servimos. Quanto ao Ein Sof, com os demais partzufim configurações acima do Ze'ir e da sua Nukva — se dirigirem a oração a eles em particular, sem orarem ao Ze'ir Anpin, ainda que tencionem a alma neles oculta, estarão clamando e não serão atendidos; e, mais ainda, serão punidos, pois esta é a vontade da Causa Primeira: que seja Ele o Ze'ir quem faz descer a abundância aos mundos inferiores, e não há outro além d'Ele" — assim diz ele.

ושם בדף כ"ה וכ"ט מדמה אותו לגוף האדם המחובר מעצמות וגידים ובשר וראש ועין ואזן וחוטם ופה וידים ורגלים והכל נקרא בשם אדם ראובן או שמעון. ובדף כ"ה וכ"ו וכ"ז כתב: הכלל העולה כי הסבה הראשונה הנקרא בפי כל המקובלים אין סוף, הוא אשר האציל וברא ויצר ועשה והוא מסתתר תוך זעיר אנפין ואזי זעיר אנפין הוא השולט על כל הברואים ומנהיגם וזנם ומפרנסם בכח אין סוף שבו. ולכן הוא אלהינו ואנחנו עמו כי נשמותינו הם חלקו ואותו נעבוד והוא אלהי אבותינו שבידו הנהגת העולמות בשכר ועונש אבל האין סוף עם שאר הפרצופים שלמעלה מזעיר ונוקביה אם יסדרו בני אדם תפלתם להם בפרטות מבלי שיתפללו לזעיר אנפין גם אם יכוונו לנשמה המסתתרת בהם יהיו צועקים ואינם נענים. ואדרבה יהיו המתפללים אליהם נענשים כי זהו רצון הסבה הראשונה שיהיה הוא המוציא והמביא שפעו לתחתונים ואין עוד מלבדו ע"ש היטב.
Nota — o ponto que alarma Qafih. Aqui está o que, para o Rav Qafih, ultrapassa a linha: a afirmação de que orar ao Ein Sof "não será atendido", e que se deve orar ao Ze'ir Anpin. Lida ao pé da letra, ela parece dirigir o culto a uma entidade emanada, e não ao próprio Infinito — o que ele equipara a servir "a um não-D'us". É a sua razão para escrever o livro. (Vale lembrar: os mestres da cabala entendem os partzufim como modos do mesmo Ein Sof, e não como deuses distintos.)
A objeção

Ora, estas palavras do Kisé Eliyahu erguem-se contra as do Rambam (no Comentário à Mishná, no Mishné Torá e no Guia dos Perplexos), contra as do piedoso autor do Chovot haLevavot (no "Portão da Unidade"), contra o Rav Saadiá Gaon no Emunot veDeot, e contra o Rokeach — os quais escreveram que a unidade d'Ele, bendito seja, não é como a de um par, nem como a de uma espécie, nem como a de um indivíduo que se divide em muitos, nem como a de um corpo simples que admite divisão sem fim; mas o Santo, bendito seja, é Um, numa unidade que não tem semelhante.

ודברי הר' כסא אליהו עומדים נגד דברי הרמב"ם ז"ל בפי' המשנה ובחבור ובמורה נבוכים ונגד דברי החסיד בעל חובת הלבבות בשער היחוד והרס"ג בס' האמונות והדעות והרוקח שכתבו שאחדותו ית' איננו כאחד הזוג ולא כאחד המין ולא כאיש האחד שנחלק לאחדים רבים. ולא אחד כמו הגוף הפשוט וכו' שמקבל החלוק לאין סוף. אבל השי"ת הוא אחד באחדות שאין כמותה.
Nota — a régua racionalista. O capítulo fecha enunciando a régua pela qual Qafih medirá tudo: a unidade de D'us, segundo o Rambam, o Chovot haLevavot, o Rav Saadiá Gaon (no próprio Emunot veDeot, também traduzido neste site) e o Rokeach, não se assemelha a nenhuma unidade composta — "uma unidade que não tem semelhante". É o princípio maimonidiano da unidade absoluta e simples; toda a polêmica do livro decorre dele.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A pergunta que move o livro

Todo o Milchamot Hashem nasce desta única pergunta de um discípulo: a quem dirigimos a oração? Não é uma questão acadêmica — é a mais prática das questões religiosas. Se a resposta cabalística citada estiver certa (orar ao Ze'ir Anpin, e não ao Ein Sof), então, argumenta o questionador, o culto estaria voltado para algo que não é o próprio D'us Uno. Qafih usa esta correspondência real como porta de entrada: a partir dela, examinará as fontes e oporá a elas a tradição racionalista.

Unidade simples × unidade composta

O coração filosófico do capítulo é o choque entre duas ideias de "unidade". A fonte citada compara a unidade de D'us à de uma casa, de uma parede, de um corpo — unidades feitas de partes reunidas. Contra isso, o questionador invoca a linha do Rambam, de Saadiá Gaon e de Bachyá: a unidade divina não é a soma de nada, não admite divisão nem composição — "uma unidade que não tem semelhante". É a mesma tese que o Rav Saadiá demonstra no Emunot veDeot (Tratado II), também traduzido neste site.

Um debate vivo, não um veredicto

É importante lê-lo como o que é: a abertura de um debate, apresentada pelo lado racionalista. A própria obra traz, em seguida, a réplica que defende a cabala — sustentando que as "comparações" se referem a luzes sem forma e que invocar o Ze'ir Anpin é invocar o Ein Sof que nele habita. O leitor honesto, como pede o próprio editor na Introdução, deve "ler a obra inteira" antes de julgar. Apresentamo-la na íntegra justamente para que essa voz seja ouvida com seriedade — sem desmerecer os que encontram na cabala um caminho de verdade.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo II

A Defesa da Cabala: a réplica do mestre

תְּשׁוּבָה שְׁנִיָּה
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O Rav Qafih dá a palavra ao outro lado: transcreve a réplica do defensor da Cabala, que responde, ponto por ponto, à objeção do capítulo anterior. As "comparações" são luzes, não o Infinito; invocar o Ze'ir é invocar o todo; e — diz ele — não há permissão para ponderar a ordem dos mundos divinos.

O reproche

Réplica segunda do defensor da cabala: vi tudo o que está registado na carta do nobre questionador — árvore de ramos numerosos, alta como os cedros. Após pedir perdão pela demora (pois a azáfama do tempo é grande, e "toda demora é para o bem"): ao examinar a carta, eis que abriste a tua boca ao falar da Divindade, julgando que a tua crítica é contra nós. E nós, que somos, para que te queixes de nós? A tua afronta não chega a nós, mas aos sábios de Israel — em quem todo o Israel se apoia, e por cujo mérito o mundo subsiste. Ai de ti, por teres proferido contra eles palavras que não são conforme a lei, com aparência de inocência e astúcia por baixo. Mas o teu julgamento já está claro na boca de todos os sábios.

תשובה שנית ראיתי את כל הרשום בכתב האלוף, אילן שענפיו מרובים, רומו כגובה ארזים, אחר המחילה על השהייה כי טרדת הזמן נטויה, וכל עכבה לטובה. בהשקיפי על המכתב והנה פערת פיך בהזכירך אלוהות בחשבך שהוא כנגדינו. ונחנו מה כי תלינו עלינו ובזיונך אינו מגיע אלינו כי אם אל חכמי ישראל אשר בטנם עבה ממתניך וכל ישראל נחים אליהם ובזכותם העולם עומד. אי עליך כי הוצאת עליהם דברים אשר לא כדת, בתומה ותחתיה ערמה. אבל כבר נתבאר דינך בפי כל בעלי חכמה.
As 'comparações'

E quanto ao que escreveste sobre o Kisé Eliyahu — que na p. 3 ele compara a unidade d'Ele às demais unidades —, já andas nas trevas: pois o início das suas palavras (p. 20) diz que todas essas comparações se referem a luzes santas, que não têm apreensão, nem forma, nem imagem — nem no intelecto nem no conhecimento, de modo algum —, mas foram dadas apenas para que o intelecto as possa receber, sendo-nos permitido comparar só nesse sentido. E na p. 4b escreveu que todos os apelativos e atributos são por via de comparação, aplicados às sefirot e às luzes santas emanadas; mas n'Ele, bendito seja, não há comparação alguma, nem forma, nem apreensão no pensamento, de modo nenhum.

ומה שכתבת על כסא אליהו כי בדף ג' מדמה אחדותו ית' לשאר אחדים. כבר אתה הולך חשכים, הלא תחילת דבריו דף עשרים שכל דמיונות אלו על אורות קדושים אשר אין להם תפיסה וצורה ודמיון, לא בשכל ולא בדעת כלל ועיקר, אלא כדי שיוכל השכל לקבל אותם הורשינו לדמות. ובדף ד' ע"ב כתב שכל הכנויים והתארים הם בדרך דמיון בספירות ואודות קדושים הנאצלים, אבל בו ית' אין בו שום דמיון וצורה ותפישה במחשבה כלל ועיקר.
Nota — "são luzes, não o Infinito". Eis a defesa central da Cabala contra a acusação de comprometer a unidade de D'us. As imagens "compostas" (casa, corpo) — diz o defensor — não descrevem o Ein Sof, que é absolutamente além de forma e apreensão; descrevem apenas as luzes emanadas (as sefirot), e mesmo essas só "para que o intelecto as possa receber". Em D'us mesmo "não há comparação alguma". Para o cabalista, portanto, o monoteísmo permanece intacto. (É exatamente este ponto que Qafih disputará: se é legítimo dirigir o culto a essas luzes.)
Invocar o Ze'ir

E quanto ao que escreveste — como deixamos os demais partzufim e adoramos o Ze'ir Anpin, com a força do Ein Sof que nele há —, o Rav do Kisé Eliyahu já explicou (p. 25b) que, ao chamarmos o Ze'ir Anpin, estamos a chamar todos os partzufim como um só, junto com a alma neles oculta. E quanto ao que escreveste — por que deixar os partzufim mais próximos do Ein Sof e chamar o Ze'ir —, é porque se sabe que as middot medidas interiores, umas são de din rigor e outras de rachamim misericórdia, e este o Ze'ir é composto de todas; por isso quis o Emanador realizar as suas ações por meio deste vaso.

ומה שכתבת איך נניח שאר הפרצופים ונעבוד לזעיר אנפין עם כח שבו א"ס ב"ה. כבר ביאר הר' כס"א בדף כ"ה ע"ב שבקראינו לז"א אנחנו קורין לכל הפרצופים כאחד עם נשמה המסתתרת בהם. ומה שכתבת למה נניח הפרצופים הקרובים לא"ס ונקרא לז"א. לפי שידוע שהמידות הפנימיות יש מהם דין ויש מהם רחמים, וזה כלול מכולם, ולזה רצה המאציל לפעול פעולותיו על ידי כלי זה.
Nota — invocar a parte é invocar o todo. Quanto a orar ao Ze'ir Anpin e não ao Ein Sof, o defensor responde: chamar o Ze'ir é chamar todos os partzufim como um, com a alma divina oculta neles — o sistema é uno, animado pelo único Ein Sof. E por que este "vaso"? Porque o Ze'ir reúne em si as middot de rigor e de misericórdia, e por ele o Emanador escolheu agir no mundo. A unidade, insiste o cabalista, não se perde — toda a estrutura é uma só.
Sem permissão para ponderar

E, antes de objetares às comparações das luzes supremas — sobre as quais não tens sequer permissão para ponderar, quanto mais para escarnecer —, objeta primeiro à tua própria mão corporal, que faz todos os trabalhos, enquanto a cabeça, que está acima, com as mãos nada faz! E também: o poder da fala, que é a tua glória sobre todo ser vivo — por que não foi posto acima dos teus olhos? Mas assim decretou a sua sabedoria, bendito seja. E, se tens um conselho melhor, "vai ter com o teu Criador e aconselha-O".

ועד שאתה מקשה על דמיונות אודות עליונים שאין לך רשות להרהר בהן במכל שכן ללגלג, תקשה על ידך הגופנית שהיא עושה כל המלאכות, והראש שלמעלה אינו עושה כלום. ג"כ כח הדבור שהוא פארך על כל בעל חי למה לא ניתן למעלה מעיניך. אלא כך גזרה חכמתו ית'. ואם יש לך עצה הוגנת תלך אצל בוראך ותיעצנו.
Nota — o choque de método. Aqui aflora a divisão mais funda, e a mais reveladora. O defensor diz: não tens "permissão para ponderar" a ordem dos mundos divinos, quanto mais para escarnecer — tão vão quanto perguntar por que a mão trabalha e a cabeça não. É um argumento de autoridade e mistério. Mas é justamente contra isso que se ergue Qafih, o racionalista: para ele, a razão deve examinar os fundamentos da fé. Não é só uma disputa sobre a Cabala — é uma disputa sobre o que é, afinal, conhecer a D'us.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A outra voz

Depois de expor a objeção (cap. anterior), o Rav Qafih faz algo notável: transcreve, na íntegra, a defesa da Cabala. Ele a cita para refutá-la — mas, ao fazê-lo, deixa que a outra parte fale com a sua melhor argumentação. É a honestidade que a própria Introdução pedia: "ler a obra toda" antes de julgar. Por isso este capítulo é, todo ele, a voz do defensor — e merece ser ouvido com a mesma seriedade que a do crítico.

As "comparações" são luzes, não o Infinito

O coração da defesa: as imagens que parecem comprometer a unidade de D'us (a casa de muitos aposentos, o corpo de muitos membros) não se referem ao Ein Sof — que é, para o próprio cabalista, absolutamente inapreensível e sem forma —, mas às luzes emanadas, e mesmo essas "só para que o intelecto as possa receber". Em D'us mesmo, "não há comparação alguma". Se isto procede, a acusação de Cap. I cai: o monoteísmo estaria preservado.

Invocar o Ze'ir é invocar o Todo

E quanto a dirigir a oração ao Ze'ir Anpin? O defensor responde que invocá-lo é invocar todos os partzufim como um, com a alma divina que os habita — o sistema é uno, vivificado pelo único Ein Sof; o Ze'ir é apenas o "vaso" que reúne rigor e misericórdia e por onde o Emanador age. A oração, diz ele, nunca se dirige a "outro" — sempre ao Um, através do canal que Ele escolheu.

O choque de método

Mas é no fim que se vê o verdadeiro abismo. O defensor encerra com um argumento de mistério e autoridade: não temos "permissão para ponderar" a ordem dos mundos divinos — tão pouco quanto faz sentido perguntar por que a mão trabalha e a cabeça não. Ora, é exatamente contra esse princípio que toda a obra de Qafih se levanta: para o racionalista, na linha do Rambam e de Saadiá, a razão tem de examinar os fundamentos da fé — não há zona vedada ao pensamento honesto. A disputa sobre a Cabala é, no fundo, uma disputa sobre como se conhece a D'us. Os capítulos seguintes trarão a resposta de Qafih.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo III

A Réplica do Questionador: "não fui eu que os chamei divindades"

תְּשׁוּבָה מֵהַשּׁוֹאֵל
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O defensor encerra a sua carta com um último golpe: vira o próprio Rambam contra o crítico — também ele fala da Shechiná e da Glória como "luz criada". Agora responde o questionador. O seu argumento é duplo: questionar os sábios não é menosprezá-los — é o método do próprio Talmud; e quem chamou "divindades" aos partzufim não foi ele, mas os próprios cabalistas. E a pergunta central volta, intacta.

A acusação devolvida

E quanto ao que escreveste — que as palavras do Kisé Eliyahu contradizem o Rambam etc., pois ele o Rambam escreveu que D'us não é força num corpo, ao passo que, segundo o Kisé Eliyahu, Ele seria força num corpo: ora, todos os cabalistas respondem a uma só voz que todo aquele que corporifica as sefirot, como tu o fazes, é herege e não tem parte no D'us de Israel. E o terem-nas chamado luzes finas não é senão para abrandar o ouvido!

ומה שכתבת שדברי כס"א נגד הרמב"ם וכו' שכתבו שאינו כח בגוף, ולפי דברי כס"א הוא כח בגוף. הלא כל המקובלים פה אחד עונים ואומרים שכל המגשים בספירות כמוך הרי זה כופר ואין לו חלק באלהי ישראל. ומה שכינו אותם אורות דקים אינו אלא לשכך את האזן!
O Rambam contra ti

E mais: temos nós que perguntar acerca do que escreveu o Rambam: "dirija o seu coração para a Shechiná e ore"; e no Guia Moré Nevuchim escreveu que a Shechiná é uma luz criada. E mais do que isto: o que escreveu sobre o Kevod Hashem a Glória de D'us, que é criado. Sendo assim, como saíam os israelitas à entrada das suas tendas e se prostravam diante de um ser criado? E ainda mais: o que escreveu — que toda forma que os profetas viam, e com a qual falavam, é luz criada. Sendo assim, não temos profecia alguma por meio do Criador, mas todas vindas do lado dos seres criados. E se dissermos que o ser criado estava unido ao Criador — então, segundo o teu próprio raciocínio, também Ele é "força num corpo"! E que a tua resposta brote depressa; como diz o verso: "recusaram-se a conhecer-me, diz o Senhor".

יש לנו לשאול על מה שכתב הרמב"ם: יכוין לבו כנגד השכינה ויתפלל. ובמורה כ' שהשכינה אור נברא. ויותר מזה מה שכתב על כבוד ה' שהוא נברא. אם כן כיצד היו ישראל יוצאים פתח אהליהם ומשתחווים לנברא. ויותר על זה מה שכתב שכל צורה שהיו רואים הנביאים ומדברים עמה היא אור נברא. א"כ אין לנו שום נבואה ע"י הבורא, אלא כולם מצד הנבראים. ואם נאמר שהיה הנברא דבק בבורא, א"כ לדעתך הוא כח בגוף! ותשובתך מהרה תצמח, ס' מאנו דעת אותי נאם ה'.
Nota — o contra-ataque do defensor. Aqui o defensor faz a jogada mais hábil de toda a carta: vira o próprio Rambam contra o crítico. O Rambam manda "dirigir o coração para a Shechiná" ao orar (Mishné Torá, Hilchot Tefilá), e no Guia dos Perplexos ensina que a Shechiná, o Kavod (a Glória) e as formas vistas pelos profetas são, muitas vezes, uma luz criada. Logo — argumenta o defensor — se orar "em direção" a algo criado é idolatria, então o próprio Rambam estaria comprometido. É um golpe real, fundado em passagens autênticas. A resposta direta de Qafih a esta objeção (a distinção entre orientar a mente e adorar o intermediário) virá nos capítulos seguintes; aqui o questionador responde primeiro ao tom e ao método.
Resposta do questionador

Resposta do questionador. Anelava a minha alma escutar palavras depuradas como espelho fundido, ardentes vindas dos altos céus — pois eu, de toda sabedoria, sou pobre, abrigado à sombra do ricínio. Mas, em vez de a tua humildade me erguer, deste-me a beber, de águas abundantes, o mais amargo dos amargores; fizeste de mim "como uma choça num pepinal", e a minha alma adoeceu com louvores enganosos (à maneira da "bênção" do ímpio Bilam), cheios de ameaças. E com palavras de rabugento encerraste a carta, comparando-me a um homem desvairado e a uma ursa desfilhada. Mas, em verdade, não é este o caminho da Torá: a nossa santa Torá, "os seus caminhos são caminhos de suavidade". "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." "O que te é odioso, não o faças ao teu companheiro" — assim disse Hillel, o Nasi de Israel!

תשובה מהשואל. איותה נפשי לשמוע אמרות מוזקקות כראי מוצקות, משמי מרום בוערות. כי אני מכל דעה אביון, שושף לצל הקיקיון. ותחת אשר ענותך תרבני וממים רבים כמר מר לי תשקני. עשיתני כמלונה במקשה, ונפשי אנושה בתהלות מרמה (כברכת בלעם הרשע) דחלות. ובדברי נרגן סיימת ולאיש פרוע מוסר ודוב שכול דמית. ובאמת לא זוהי דרכה של תורה. תורתנו הקדושה דרכיה דרכי נועם. ואהבת לרעך כמוך. מה דעלך סני לחברך לא תעביד. כן אמר הלל נשיא ישראל!
É permitido perguntar

Para começo de conversa: quanto a dizeres que abri a minha boca para menosprezar os sábios de Israel e proferi contra eles palavras impróprias — longe de mim menosprezar quem quer que seja, ainda que um gentio, quanto mais um israelita! E não encontro, nas minhas palavras, lugar para esse desprezo que alegas. E se o que faço é levantar dificuldades contra eles a partir das palavras dos nossos sábios e apontar onde há contradição — nisso não há proibição alguma. Também no Talmud se objeta até a mestres maiores do que eles, e se traz prova para refutar as suas palavras, dizendo: "refutação de Rabi Fulano" teyuvta; "isto de Rabi Fulano é um engano" baduta — na versão do Aruch, baruta. E em Sanhedrin e em Berachot dizemos: "quem vê o arco-íris deve curvar-se, pois está escrito ''como a aparência do arco que está na nuvem… eu vi e caí sobre o meu rosto''" — mas, no Ocidente a Terra de Israel, amaldiçoavam quem o fizesse, e Rabi Abahu zombava disso, etc.

ריש מלין אמר, מה שאני פערתי פי לבזות חכמי ישראל והוצאתי עליהם מלין אשר לא כדת. חלילה לי לבזות שום אדם אפילו גוי, כל שכן ישראל. ולא ידעתי מקום בדברי לזה שאתה טוען שיש בהם בזיון. ואם להקשות עליהם מדברי רז"ל ולגלות מקום הסתירה, אין בזה שום איסור. וגם בתלמוד מקשים אפילו על גדולים מהם ומביאים ראיה לסתור דבריהם ואומרים תיובתא דר' פלוני. הא דר' פלוני בדותא היא (גירסת הערוך ברותא) ובסנהדרין ובברכות אמרינן: הרואה את הקשת צריך לכרוע דכתיב כמראה הקשת אשר יהיה בענן וכו' ואראה ואפול על פני. לייטי עלה במערבא וכו' מגדף בה ר' אבהו וכו'.
Nota — questionar não é desprezar. Eis o coração da defesa do método racionalista. Acusado de "menosprezar os sábios" por levantar objeções, o questionador responde com o próprio Talmud: lá se refuta abertamente até os maiores mestres ("teyuvta de-Rabi Fulano", "isto é um engano"), e se discute se quem vê o arco-íris deve curvar-se — alguns dizem que sim, mas em Eretz Yisrael amaldiçoavam quem o fizesse, com receio de que parecesse culto ao arco. Conclusão: apontar contradições e examinar práticas é a própria via da Torá, não uma ofensa a ela. É a tese de fundo de toda a obra — a mesma de Saadiá e do Rambam: a razão pode e deve sondar os fundamentos da fé.
Quem os chamou deuses?

E eis que, nesta tua carta, queixume encontrei; resposta, não encontrei. Pois acaso fui eu quem chamou "divindades" a esses partzufim? Foram os próprios cabalistas que assim disseram! Vai e aprende da intenção kavaná das bênçãos e da oração: quem é "o nosso D'us" e quem é "o D'us dos nossos pais". E no Zohar pergunta-se: "quem é Elohim? — é isto e aquilo".

והנה במכתבך זה תרעומת מצאתי, תשובה לא מצאתי. וכי אני הוא שקראתים לאלו הפרצופים אלוהות? הלא המקובלים הם עצמם שאמרו כן. וצא למד מכוונת הברכות והתפלה מי הוא אלהינו ומי הוא אלהי אבותינו. ובזהר שואל מאן אלהים דא כך וכך.
A cosmologia deles

Mais ainda: os próprios cabalistas explicaram que muitíssimos mundos — milhares de milhares e miríades de miríades — foram emanados, criados, formados e feitos os quatro mundos: Atzilut, Beriá, Yetzirá, Assiá, só que não puseram a mão a explicá-los, por serem em grande parte ocultos, pois são "luzes finíssimas". E cada mundo é composto de dez sefirot; e cada sefira, por sua vez, de dez sub-detalhes, como dissemos a respeito do Mundo da Emanação Atzilut. E todas existem no modo de círculos iggulim, um dentro do outro, um mais interior que o outro; e também no modo das sefirot da retidão yosher, que estão na figura de um homem de estatura ereta, com 248 membros, etc. Cada um desses mundos inclui os dois modos — círculos e retidão — em geral e em particular. E todas as palavras dos cabalistas, e as suas explicações, versam apenas sobre o Mundo da Emanação, que já "se condensou e se revelou" mais que os superiores; e nele explicaram todos os assuntos dos partzufim abrangentes, que são cinco: Arich Anpin, Abba e Imma, e Ze'ir e a sua Nukva.

ועוד שהרי המקובלים ביארו שכמה עולמות אלפי אלפים ורבי רבבות נאצלו ונבראו ונוצרו ונעשו, רק שלא שלחו בהם יד לבארם לרוב העלמם. כי הם אורות דקים ביותר. וכל עולם ועולם כלול מעשר ספירות. וכל ספירה וספירה כלולה כל אחת מעשר פרטי פרטות כמו שאמרנו בעולם דאצילות. וכולן בבחינת עיגולים, זה בתוך זה וזה לפנים מזה. וכן בבחינת ספירות דיושר שהם בציור אדם בעל קומה זקופה ברמ"ח איברים וכו' כל אלו העולמות כל א' מהם כולל שתי בחינות עיגולים ויושר בכלל ובפרט. וכל דברי המקובלים וביאוריהם, אינם רק בעולם דאצילות שכבר נתעבה ונתגלה יותר, ובו ביארו כל ענייני הפרצופים הכוללים שהם חמשה: אריך אנפין, ואבא ואימא, וזעיר ונוקביה.
Nota — os termos da Cabala. O questionador expõe, sem distorcer, a própria cosmologia cabalística: os quatro mundos (Atzilut/Emanação, Beriá/Criação, Yetzirá/Formação, Assiá/Ação); as dez sefirot em cada mundo, cada uma subdividida em dez; o modo dos iggulim (círculos concêntricos) e o do yosher (a "retidão", as sefirot dispostas na figura de um corpo humano com 248 membros); e os cinco partzufim ("configurações"): Arich Anpin ("o de longa face"), Abba ("pai"), Imma ("mãe"), Ze'ir Anpin ("o de pequena face") e a sua Nukva ("a feminina"). A estratégia é clara: descrever o sistema com exatidão para mostrar, em seguida, que a linguagem "corpórea" não foi inventada pelo crítico — está nos próprios livros.
A queixa recai sobre eles

E uma vez que já te ficou claro, pelas suas próprias palavras — eles, que dizem das sefirot que "se condensaram e se revelaram" —, que são eles que chamam aos referidos partzufim "divindades", ao dizerem "nosso D'us" e "D'us dos nossos pais" na oração e nas bênçãos, dirigindo a intenção a uma sefira determinada em cada palavra: já não recai sobre mim a tua queixa, nem na alegação de corporeidade, nem na de tratá-los como divindades — mas sobre eles, pois foram eles que o disseram, eles e mais eles. E a dificuldade volta ao seu lugar: como havemos de deixar o Ein Sof, com todas as sefirot dos mundos superiores, com Arich Anpin e Abba e Imma, e adorar o Ze'ir Anpin, dizendo que ele é "o nosso D'us", e "nós somos o seu povo e os seus servos, Ele nos fez e a Ele pertencemos"?

ואחר שכבר נתברר לך מדבריהם שאומרים שנתעבו ונתגלו שהם קורים את הפרצופים הנז' אלוהות באמרם אלהינו ואלהי אבותינו, בתפלה ובברכות, ומכוונים למדה ידועה בכל תיבה. לא נשאר עלי תלונתך לא בטענת גשמות ולא טענת אלוהות, כי אם עליהם, כי הם אמרו והם אמרו. וקושיא חזרה למקומה, איך נניח האין סוף עם כל הספירות אשר בעולמות העליונים עם אריך אנפין ואבא ואימא, ונעבוד לז"א ונאמר שהוא אלהינו ואנחנו עמו ועבדיו הוא עשנו ולו אנחנו.
Já o admitiste

E nesta tua carta (em que disseste: "porque se sabe que as middot interiores, umas são de din rigor e outras de rachamim misericórdia, etc.") já confessaste, com confissão cabal, que tal é, de facto, a vossa posição: que nenhum culto nem oração se dirige à Causa de todas as causas, mas tão-só ao Ze'ir Anpin — como escreveram o Rav do Mikdash Melech, e o Kisé Eliyahu, e o Mahari Lopis no Sha'ar ha-Emuná ha-Amitit. Por isso precisamos de ti que nos resolvas e expliques: como conciliar esta posição dos cabalistas — que todo o nosso culto e as nossas orações são dirigidos ao Ze'ir Anpin e à sua alma — com a nossa santa Torá, a escrita e a oral?

ובמכתבך זה (שאמרת לפי שידוע שהמידות הפנימיות מהם דין ומהם רחמים וכו') כבר הודית הודאה גמורה שכן היא דעתכם שאין שום עבודה ולא תפילה שייכא בעלת על כל העלות, כי אם לז"א, וכמו שכ' הרב מקדש מלך וכס"א ומהר"י לופיס בשער האמונה האמתית. ולכן צריכים אנחנו ממך ליישב ולתרץ לנו איך תסכים דעת המקובלים הלזו שכל עבודתינו ותפלותינו לז"א ונשמתו, עם תורתינו הקדושה שבכתב ושבעל פה.
Eu só citei os livros

E quanto a teres-te irado contra mim, dizendo que eu "corporifico as sefirot" — também para isso não encontro lugar nas minhas palavras, pois nada disse que não tenha achado nos seus próprios livros. Foram eles que disseram que o Mundo da Emanação tem "corpo, alma e vestimenta". E não te é oculto que a luz, o ar e o fogo são, eles mesmos, corpos finos e leves. Demais: foram os próprios cabalistas que explicaram as suas palavras, dizendo que dos mundos superiores e dos partzufim acima de Arich Anpin não falaram, mas só de Arich Anpin para baixo, que já "se condensaram e se revelaram" mais. Eis aí, expressamente, das suas próprias palavras: que as sefirot de que falam "se condensaram" e se revelaram mais do que as que lhes são superiores — e eles mesmos admitem que as sefirot de que falam "se condensaram".

ואשר חרה אפך עלי ואמרת שאני מגשים בספירות, גם זה לא ידעתי לו מקום בדברי, לפי שלא אמרתי דבר שלא מצאתי בספריהם. והם אמרו שעולם האצילות יש בו גוף ונשמה ומלבוש. ולא נעלם ממך כי האור והאויר והאש גופים דקים הם וקלים. ועוד שהרי ביארו דבריהם הם עצמם ואמרו כי העולמות העליונים והפרצופים שלמעלה מאריך אנפין לא דברו בהם, רק מא"א ולמטה שכבר נתעבו ונתגלו יותר. הרי לך בהדיא מדבריהם שהספירות שמדברים בהם נתעבו ונתגלו יותר משל מעלה מהם ומודים הם בעצמם שהספירות שמדברים בהם נתעבו.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O último golpe do defensor

O defensor encerra a sua carta com uma jogada engenhosa: em vez de apenas defender a Cabala, ataca a posição do próprio crítico, invocando — com precisão — passagens reais do Rambam. De facto, o Rambam manda "dirigir o coração para a Shechiná" ao orar, e ensina, no Guia dos Perplexos, que a Shechiná, o Kavod (a Glória) e as formas vistas pelos profetas são, em vários lugares, uma luz criada. Daí o desafio: se orar "em direção" a algo criado fosse idolatria, então o próprio Rambam — o herói do racionalismo — estaria comprometido. É uma objeção séria, e o questionador não a varre para debaixo do tapete: deixa-a registada e promete que a resposta virá (a distinção decisiva entre orientar a mente para algo e adorar esse algo será desenvolvida nos capítulos seguintes).

Questionar os sábios é a via do Talmud

A primeira resposta do questionador é sobre o método, e é decisiva para toda a obra. Acusado de "menosprezar os sábios", ele recusa a acusação no seu fundamento: longe de desprezar quem quer que seja, apenas levanta dificuldades e aponta contradições — e isso, mostra ele, é o que o próprio Talmud faz a todo o momento, refutando abertamente até os maiores mestres ("teyuvta", "isto é um engano"), e debatendo práticas (curvar-se ou não ao ver o arco-íris). Examinar não é ofender. É exatamente a tese de Saadiá Gaon e do Rambam: a razão tem o direito — e o dever — de sondar os fundamentos da fé.

"Não fui eu que os chamei divindades"

Vem então o golpe central, e é de pura lógica: a linguagem que parece "corporificar" ou "deificar" as sefirot não é invenção do crítico — está nos livros dos cabalistas. São eles que descrevem os partzufim com "corpo, alma e vestimenta", que falam de mundos "condensados", que dirigem cada palavra da oração a uma sefira determinada, que perguntam no Zohar "quem é Elohim?" e respondem com uma configuração específica. Logo, conclui o questionador, "a queixa não recai sobre mim, mas sobre eles, pois foram eles que o disseram". O crítico apenas leu — e citou.

A pergunta que não se vai

Despojada a discussão das acusações de tom, o que sobra é a pergunta intacta, "de volta ao seu lugar": se a Causa de todas as causas — o Ein Sof — está acima de tudo, por que dirigir o culto e a oração ao Ze'ir Anpin? E o questionador faz notar que o próprio defensor já o admitiu por escrito. O ónus inverte-se: cabe agora ao defensor mostrar como essa posição se concilia com a Torá escrita e oral, que ordena adorar somente o Único. É essa a "guerra de D'us" que dá nome ao livro — travada, do início ao fim, em nome de uma única afirmação: há um só D'us, e a Ele somente se serve.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo IV

Um só Senhor, em Cima e Embaixo

אֵין אֱלוֹהַּ מִבַּלְעָדַי
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Agora o questionador constrói a sua resposta. A pergunta é simples e cortante: se o Ein Sof rege os mundos de cima e o Ze'ir Anpin os de baixo, então há "duas potências". Contra isso, ele convoca os Sábios, o Midrash e o Rambam: não há D'us senão o Único — em cima e embaixo —, e tudo foi criado do nada, não emanado por natureza. Logo, só ao Único se dirige o culto.

Duas potências?

Rogo-te, meu senhor, informa-me também: quem governa todos os mundos ocultos de que os cabalistas não falaram, e quem os alimenta e sustenta? Se é este Ze'ir Anpin, que está na Emanação Atzilut, quem os alimenta e sustenta — e é a ele que adoram e se prostram —; ou se o Ein Sof é o D'us deles, e só a Ele adoram, enquanto nós adoramos o Ze'ir Anpin, pois é ele que nos alimenta e é o nosso D'us, como disseram os cabalistas? Segue-se, então, que o Ein Sof é o D'us dos seres superiores, e o Ze'ir Anpin o D'us dos inferiores — e eis aqui duas potências shtei reshuyot, D'us nos livre! E explicitamente disseram alguns deles: "toda a grande obra do Senhor" — do que se infere que há também uma "pequena".

אחלי אדוני הודיעני ג"כ, מי מנהיג כל העולמות הנעלמים אשר לא דברו בהם המקובלים ומי זנם ומפרנסם. אם זעיר אנפין זה באצילות הוא הזנם ומפרנסם, ולו הם עובדים ומשתחוים, או האין סוף הוא אלהיהם ולו לבדו עובדים, ואנחנו לז"א עובדים, כי הוא הזן אותנו והוא אלהינו כמו שאמרו המקובלים. ונמצא לפי זה, כי אין סוף הוא אלהי העליונים, וז"א אלהי התחתונים, והרי כאן שתי רשויות ח"ו. ובהדיא אמרו מקצתן: את כל מעשה ה' הגדול מכלל דאיכא קטן.
Nota — o cerne da objeção: "duas potências". Esta é a acusação mais grave de toda a obra, e a mais precisa. Se o culto se dirige ao Ze'ir Anpin (o "D'us dos mundos inferiores"), e não ao Ein Sof (o "D'us dos superiores"), então — argumenta o questionador — instituem-se, de facto, dois poderes divinos: exatamente a shtei reshuyot que o judaísmo sempre rejeitou (é a fórmula com que o Talmud descreve o erro dualista). Até o jogo de palavras o denuncia: dizer "a obra grande do Senhor" (Devarim 11:7) sugeriria, por contraste, uma obra "pequena" — eco do próprio nome "Ze'ir Anpin", a "pequena face". É contra essa fenda na unidade que todo o capítulo se ergue.
Os verdadeiros Sábios

Mas os nossos verdadeiros Rabinos disseram — trazido na Menorat ha-Maor (§143) — que, na hora da entrega da Torá, D'us rasgou para eles os sete firmamentos e abriu as sete terras, e disse a Israel: "Discerni nos mundos de cima e discerni nos de baixo, e sabei que não há Deus além de mim — nem em cima, nem embaixo: Eu sou o Senhor teu D'us."

ורבותינו האמתיים אמרו הובא במנורת המאור פ' קמ"ג שבשעת מתן תורה קרע להם שבעה רקיעים ופתח ז' ארצות ואמר להם לישראל: בינו בעליונים ובינו בתחתונים ודעו שאין אלוה מבלעדי לא בעליונים ולא בתחתונים, אנכי ה' אלהיך.
A parábola de R. Abahu

E no Midrash Rabá, parashá Yitró, disseram, sobre "Eu sou o Senhor teu D'us": disse Rabi Abahu — uma parábola de um rei de carne e sangue que reina: ele tem pai, ou irmão, ou filho. Disse o Santo, bendito seja: Eu não sou assim — "Eu sou o primeiro e Eu sou o último, e além de mim não há D'us". Eu sou o primeiro, pois não tenho pai; e Eu sou o último, pois não tenho filho; e além de mim não há D'us, pois não tenho irmão. (Fim da citação do Midrash, etc.)

ובמדרש רבה פרשת יתרו אמרו: אנכי ה' אלהיך. אמר ר' אבהו משל למלך בשר ודם מולך, יש לו אב או אח או בן. אמר הקב"ה: אני איני כן, ראשון ואני אחרון ומבלעדי אין אלהים. אני ראשון שאין לי אב. ואני אחרון שאין לי בן. ומבלעדי אין אלהים שאין לי אח. עכ"ל המדרש וכו'
Nem pai, nem irmão, nem filho

O Rav Etz Yosef, de abençoada memória, explica: a realeza de um rei de carne e sangue não é completa, porque ele tem pai — a quem deve honrar e com quem partilha o reino —, ou tem irmão, que tem parte na honra da realeza, ou tem filho, que exerce poder com ele e, depois dele, é o herdeiro. E o sentido de "não tem pai" é que Ele é a Causa Primeira; "não tem irmão", pois Ele é Um e não há segundo a Ele; "não tem filho", pois os seres causados não emanaram d'Ele por natureza, como o filho provém do pai — como pensaram alguns (esta é a posição dos cabalistas, que disseram que o Ze'ir Anpin é filho de Abba e Imma, e é pai dos causados que vêm depois dele, etc., e tem uma irmã, ou irmãs — a sua nukva) —, pois, segundo essa posição, não estaria em Seu poder mudar coisa alguma, e a Sua realeza não seria completa. Mas o Santo, bendito seja, disse "Eu sou o Senhor teu D'us": pois foi este o Seu poder — tirá-los da terra do Egito — visto que a Sua realeza é completa e "não há quem detenha a Sua mão". (Fim da citação.)

הר' עץ יוסף ז"ל ר"ל שמלך ב"ו אין מלכותו שלימה לפי שיש לו אב וצריך לנהוג בו כבוד ומשתתף עמו במלכות. או יש לו אח שיש לו חלק בכבוד מלכות. או יש לו בן שנוהג שררה עמו, ואחריו יורש עצר. ופי' אין לו אב שהוא הסבה הראשונה. ואין לו אח כי הוא אחד ואין שני לו. ואין לו בן שלא נמשכו העלולים ממנו בטבע כבן מן האב, כמו שחשבו קצת (היא דעת המקובלים שאמרו שז"א בן לאו"א והוא אב לעלולים שאחריו וכו' ויש לו אחות או אחיות נוקבין דיליה) כי לפי הדעת ההיא אין היכולת בידו לשנות שום דבר מן הדברים ואין מלכותו שלימה. אבל הקב"ה אמר: אנכי ה' אלהיך, כי זה כחו להוציאם מארץ מצרים לפי שמלכותו שלימה ולית דימחי בידיה עכ"ל:
Nota — criar livremente, não "gerar" por natureza. O passo decisivo do argumento. Se os seres "emanam de D'us por natureza", como o filho do pai, então a criação seria necessária — fluiria d'Ele sem escolha —, e nesse caso, observa o Etz Yosef, "não estaria em Seu poder mudar coisa alguma": um D'us que apenas transborda por natureza não é livre para fazer milagres nem para tirar Israel do Egito. Mas o D'us da Torá diz "Eu te tirei do Egito" — ato de vontade soberana. Daí "não tem filho": não há genealogia divina, não há cadeia que emane d'Ele por necessidade. A realeza completa é a do Criador livre.
"Não está escrito 'filho', mas 'anjo'"

E no Talmud Yerushalmi (Shabat, cap. Bameh Ishá) disseram os nossos Sábios: "e a aparência do quarto era semelhante a um filho dos deuses" Daniel 3:25. Disse Rabi Reuven: naquela hora desceu um anjo e esbofeteou aquele ímpio Nabucodonosor na boca, dizendo-lhe: "Corrige as tuas palavras! Acaso Ele tem filho?" Nabucodonosor retratou-se e disse: "Bendito seja o D'us de Shadrach, Meshach e Abed-Nego, que enviou o Seu anjo e livrou os Seus servos" Daniel 3:28 — não está escrito aqui "o Seu filho", mas "o Seu anjo". (Fim.)

ובירושלמי שבת פ' במה אשה אמרו חז"ל וריויה די רביעאה דמי לבר אלהין. אמר ר' ראובן: באותה שעה ירד מלאך וסטרו לההוא רשיעא על פיו ואמר ליה תקין מילך ובר אית ליה? חזר ואמר ברוך אלההון די שדרך מישך ועביד נגו די שלה מלאכיה ושיזיב לעבדוהי, בריה אין כתיב כאן אלא מלאכיה, ע"כ.
Do nada, não da Sua essência

Ou seja: o ímpio Nabucodonosor pensou que os anjos são seres causados, que emanam d'Ele por natureza — como o filho vem do pai —, conforme as palavras dos cabalistas a respeito das sefirot de todos os mundos, e assim também a respeito das almas; e por isso o anjo o esbofeteou. E ele retratou-se, dizendo "que enviou o Seu anjo", etc. Eis que sai, explícito, das palavras do Midrash Rabá e do Yerushalmi, o oposto das palavras dos cabalistas: que todos os existentes, o Santo (bendito seja) os trouxe à existência pela Sua bondade, do nada yesh me-ayin — desde a primeira forma até o menor mosquito — e não que eles se prolonguem da Sua essência, como o filho se forma da força do sêmen que provém do seu pai.

ור"ל שנבוכדנאצר הרשע חשב שהמלאכים הם עלולים ומשתלשלים ממנו בטבע כבן מן האב כדברי המקובלים בספירות של כל העולמות, וכן הנשמות, ולזה סטרו המלאך. וחזר ואמר די שלח מלאכיה וכו'. הרי לך מפורש יוצא מדברי מדרש רבה והירושלמי היפך דברי המקובלים. ושכל הנמצאים המציאם הקב"ה בחסדו יש מאין מהצורה ראשונה עד יתוש קטן. ולא שהם נמשכים מעצמותו כמו שהבן מתהוה מכח הזרע הנמשך מאביו.
Nota — "yesh me-ayin": do nada. Eis a tese metafísica que sustenta tudo: o mundo foi criado do nada yesh me-ayin, por um ato livre de bondade — "da primeira forma até o menor mosquito" — e não "se prolonga da essência" de D'us como um filho do pai. É a mesma doutrina que Saadiá Gaon defende no Emunot veDeot e que o Rambam codifica: o Criador é radicalmente distinto da criação, não a sua fonte genealógica. Para o questionador, a linguagem de "emanação por natureza" (pai-filho entre as sefirot) erra justamente aqui — confunde o criar com o gerar.
A quem se dirige o culto

O que se extrai de tudo isto é que não se deve adorar nenhum partzuf nem forma dentre todos os seres criados — existentes no mundo superior e no inferior — que o Santíssimo (bendito seja) trouxe à existência pela Sua bondade. Pois só a Ele é digno adorar e orar; e sobre isto veio o mandamento e a advertência no Sinai: "Eu sou o Senhor teu D'us; não terás outros deuses" — como escreveu o Rambam, de abençoada memória, no capítulo segundo das Hilchot Avodá Zará As Leis da Idolatria.

המורם מכל זה שאין לעבוד שום פרצוף וצורה מכל הנבראים הנמצאים בעולם העליון והשפל שהמציאם השי"ת בחסדו. כי לו לבדו ראוי לעבוד ולהתפלל, ועל זה באה המצוה והאזהרה בסיני: אנכי ה' אלהיך לא יהיה לך אלהים אחרים, כמו שכ' הרמב"ם ז"ל בפ' שני מה"ל ע"ז.

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O problema das "duas potências"

O capítulo abre com a objeção que dá nome a toda a obra. Se o culto da Cabala se dirige ao Ze'ir Anpin — "o nosso D'us", "aquele que nos alimenta" — e não ao Ein Sof, então, na prática, há um D'us para os mundos de cima e outro para os de baixo. É a shtei reshuyot, a fórmula com que a tradição sempre nomeou o erro dualista. O questionador não inventa a acusação: extrai-a, diz ele, das próprias formulações cabalísticas. Toda a sequência de provas que se segue existe para fechar essa fenda e restaurar a unidade simples.

Nem pai, nem irmão, nem filho

O coração do argumento é a parábola de Rabi Abahu, lida pelo Etz Yosef: a realeza de D'us é "completa" justamente porque Ele não tem pai (é a Causa Primeira), nem irmão (é Um, sem segundo), nem filho. E "não ter filho" significa, aqui, algo preciso: os seres não emanam d'Ele por natureza, como um filho do pai. Se emanassem, a criação seria necessária e D'us não seria livre "para mudar coisa alguma" — não poderia fazer milagres nem tirar Israel do Egito. A liberdade do Criador é inseparável da Sua unidade.

Criar não é gerar

Daí a distinção decisiva, reforçada pelo episódio de Nabucodonosor (que é repreendido por dizer "filho de D'us" e corrigido para "Seu anjo"): tudo o que existe foi criado do nada yesh me-ayin, por bondade e vontade — "da primeira forma até o menor mosquito" — e não "se prolonga da essência" divina. É a doutrina que Saadiá Gaon estabelece no Emunot veDeot e que o Rambam codifica: o Criador é outro que a criação, não a sua raiz genealógica. Para o questionador, falar de sefirot que "nascem" umas das outras como pais e filhos é trocar o criar pelo gerar — e é aí que a unidade se arrisca.

A quem se dirige o culto

A conclusão é sóbria e direta: se nada do que foi criado — nenhum partzuf, nenhuma "forma", em mundo nenhum — é o Criador, então a nenhum deles se dirige o culto. "Só a Ele é digno adorar e orar." E é precisamente isto, lembra o questionador, o conteúdo do primeiro mandamento do Sinai, tal como o Rambam o fixa nas Hilchot Avodá Zará. Note-se o que não está em disputa: ninguém aqui nega a santidade dos mestres nem o valor do estudo mais profundo. A "guerra" é por um único ponto — que toda oração suba ao Único, e a mais nenhum.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo V

"A Minha Glória a Outro Não Darei"

וּכְבוֹדִי לְאַחֵר לֹא אֶתֵּן
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

A seção mais incisiva da obra. Lendo o Rambam sobre os fundamentos da fé, o questionador apresenta a sua acusação mais grave — e, sobretudo, o seu argumento positivo: D'us age por inúmeros mensageiros (o sol, o fogo, os anjos), mas a nenhum deles se dirige o culto. "Eu sou o Senhor; a minha glória a outro não darei."

As cinco formas do erro

E no cap. 3 das Hilchot Teshuvá As Leis do Arrependimento o Rambam escreveu, eis as suas palavras: "E estes são os que não têm parte no Mundo Vindouro, mas são cortados e perecem pela grandeza da sua maldade e do seu pecado, para todo o sempre: os minim e os apikorsim, etc." E na halachá seguinte escreveu: cinco são os que se chamam minim: aquele que diz que não há D'us e o mundo não tem quem o conduza; aquele que diz que há quem o conduza, mas que são dois ou mais; aquele que diz que há um só Senhor, mas que Ele é corpo e tem forma; aquele que diz que não é Ele somente o Primeiro e a Rocha de tudo; e, do mesmo modo, aquele que adora outro para que este seja um mediador entre ele e o Senhor dos mundos. Cada um destes é um min.

ובפ' ג' מה"ל תשובה כתב וז"ל: ואלו שאין להם חלק לעולם הבא אלא נכרתין ואובדין על גודל רשעם וחטאתם לעולם ולעולמי עולמים: המינין והאפיקורסין וכו'. ובדין שאחריו כ': חמשה הן הנקראין מינים. האומר שאין שם אלוה ואין לעולם מנהיג, והאומר שיש שם מנהיג אבל הם שנים או יותר, והאומר שיש שם רבון אחד אלא שהוא גוף ובעל תמונה, והאומר שאינו לבדו הראשון וצור לכל. וכן העובד לזולתו כדי להיות מליץ בינו ובין רבון העולמים. כל אחד מחשמה אלו מין ע"כ.
Nota — o que é um "min". No vocabulário do Rambam, min não é um insulto genérico: é uma categoria técnica precisa, do homem que erra num dos fundamentos da crença em D'us. São cinco os erros: (1) o ateísmo (não há D'us, nem quem conduza o mundo); (2) a dualidade ou multiplicidade (há "dois ou mais"); (3) a corporeidade (D'us é "corpo e tem forma"); (4) negar que Ele seja o único Primeiro e Criador de tudo; (5) servir um intermediário "para mediar" entre nós e D'us. É contra esta grade — e não por animosidade — que o questionador vai medir o esquema que discute.
Criar não é "achar matéria"

E o Rav Lechem Mishné escreveu, sobre a quarta divisão de Rabbeinu ("aquele que diz que não é Ele somente o Primeiro etc."): o Ra'avad escreveu — "como aquele que disse: o vosso Deus é um grande artífice, só que encontrou para si grandes materiais — tohu va-vohu, e treva, e água, e vento — e com eles fez o que fez." Fim das palavras do Ra'avad. E o Rav Lechem Mishné explicou que a sua intenção é acrescentar às palavras de Rabbeinu: que, ainda que alguém admita que nenhuma causa precedeu o nosso D'us, causa pela qual Ele teria vindo a ser, mas diga que D'us criou o mundo yesh me-yesh de algo pré-existente — eis que este também é um min.

וכתב הרב לחם משנה על חלוקה ד' שכתב רבינו והאומר שאינו לבדו הראשון וכו', כ' הראב"ד, כאותו שאמר אלהיכם צייר גדול הוא אלא שמצא לו סמנים גדולים תהו ובהו וחשך ומים ורוח ובהם עשה מה שעשה, עכ"ל הראב"ד. ופי' הרב לח"מ שכוונתו להוסיף על דברי רבי' שאעפ"י שמודה שלא קדמה שום סבה לאלהינו שבשבילה נהיה, אלא שאומר שברא העולם יש מיש, הרי זה מין ע"ש.
A aplicação ao caso (I)

E no nosso caso — a crença da nova Cabala, conforme está explicado nos seus livros, segundo o nosso entendimento e o de muitos grandes sábios de coração dentre os nossos mestres que dela se afastaram, antigos e recentes (como o Rivash e o Chavot Yair, trazidos no Pitchei Teshuvá, e outros Acharonim) — reuniram-se nela três e quatro daquelas coisas a respeito das quais os Sábios disseram que quem nelas crê não tem parte no Mundo Vindouro. Primeira: a multiplicidade de divindades — Ein Sof, e Adam Kadmaá, e Adam Kadmon, e Atik, e Arich Anpin, e Abba e Imma, e Ze'ir e a sua Nukva! Segunda: que esses partzufim são portadores de um corpo sutil — isto é, luz — e o Ein Sof seria a alma desses corpos.

ובנדון דידן אמונת הקבלה החדשה כפי המבואר בספריהם לפי הבנתינו והבנת רבים וגדולים חכמי לב מרבותינו הפורשים ממנה ראשונים ואחרונים כהריב"ש וחו"י המובא בפתחי תשובה ושאר אחרונים נקבצו באו בה תלת וארבע מלי מהני דאמור רבנן, דהמאמין כן אין לו חלק לעה"ב. חדא רבוי האלוהות, א"ס ואדם קדמאה ואדם קדמון ועתיק ואריך אנפין ואבא ואימא וזעיר ונוקביה! שנית, שהם בעלי גוף דק, דהיינו אור, והא"ס נשמה לגופות הללו.
A aplicação ao caso (II)

Terceira: que o culto não é à Causa Primeira (que entre eles se chama Ein Sof), mas ao Ze'ir Anpin, que seria uma causa última dentre essas causas. Quarta: que ele o Ze'ir é um intermediário que faz descer o fluxo shefa daquelas middot superiores — Atik, Arich Anpin, Abba e Imma —, e o chamam "filho" de Abba-Imma, sendo ele também "pai" do Keter da esfera de Beriá, conforme o encadeamento dos mundos segundo a sua visão — que o Misericordioso nos guarde.

שלישית, שהעבודה אינה לסבה הראשונה שהוא נקרא אצלם א"ס, רק לז"א שהוא סבה אחרונה שבאלו הסבות. רביעית, שהוא אמצעי הממשיך השפע מאלו המדות העליונות שהם עתיק ואריך אנפין ואבא ואימא, וקורין אותו בן לאו"א, והוא ג"כ אב לכתר דבריאה כפי השתלשלות העולמות לפי דעתם רחמנא ליצלן.
Nota — a acusação, e a voz do outro lado. Aqui o questionador faz o seu lance mais grave: encaixa quatro traços do esquema cabalístico (como ele o lê) nas categorias do Rambam — a multiplicidade de "divindades" (→ o erro nº 2), o "corpo sutil" de luz (→ a corporeidade, nº 3), e o culto dirigido a um intermediário e não à Causa Primeira (→ os erros nº 4-5). É a parte que mais exige cautela ao leitor. Pois os cabalistas negam cada um desses passos: para eles não há "muitas divindades", mas faces de um só Ein Sof; a "luz" é metáfora, não corpo; e a oração nunca se dirige a "outro", mas ao Um, pelo canal que Ele escolheu (foi exatamente o que respondeu o defensor no cap. II). Toda a disputa gira em torno de uma única pergunta: essa defesa se sustenta, ou desliza para a multiplicidade? O questionador acha que desliza; o cabalista, que não.
A analogia da mão

E isto vi na tua resposta. Exporei estas coisas de peso milei de-mirapsan igra: pois respondeste às minhas palavras — quando te disse "como havemos de deixar o Ein Sof e os demais partzufim próximos do Ein Sof, e adorar o Ze'ir Anpin?". E a tua resposta foi: porque as demais middot, umas são de rigor din e outras de misericórdia rachamim, e este o Ze'ir é composto de todas; e por isso o Emanador quis realizar as suas ações por meio deste "vaso", etc. E trouxeste-me uma analogia da mão corporal, que faz todos os trabalhos, enquanto a cabeça, que está acima, nada faz; e também do poder da fala, que é a nossa glória, etc. — todas estas tuas palavras não são senão palavras de espanto!

ואת זה חזיתי בתשובתך. ואספרה הני מילי דמרפסן איגרא כי השבת על דברי שאמרתי לך איך נניח הא"ס ושאר הפרצופים הקרובים אל הא"ס ונעבוד לז"א? והיתה תשובתך, לפי ששאר המידות מהם דין ומהם רחמים וזה כלול מכולם. ולזה רצה המאציל לפעול פעולותיו ע"י כלי זה וכו'. והבאת לי דמיון מן היד הגופנית שהיא עושה כל המלאכות, והראש שהוא למעלה אינו עושה כלום. גם כח הדבור שהוא פאר וכו', כל דבריך אלה אינן אלא דברי תימה!
Adoramos tudo o que nos serve?

Eu perguntei-te sobre o que eles dizem — que o Ze'ir é o nosso D'us e que a ele adoramos —, e tu respondes-me a partir das coisas que agem sobre nós pela vontade de quem as fez. Ora, acaso adoramos tudo o que age sobre nós pela vontade de quem o fez, e dizemos que são o nosso D'us? Eis que o sol realiza para nós tantas ações boas — iluminar-nos, aquecer o ar e a terra, fazer brotar as ervas, amadurecer os frutos. Acaso o adoramos? A lua e as estrelas também agem sobre os seres inferiores pela vontade do Criador, como se diz: "e pelo precioso fruto do sol, e pelo precioso produto das luas" Devarim 33:14. Adorá-los-emos? A terra, a água e o fogo também agem, para fazer crescer a erva e as árvores; e com o fogo fazemos tudo o que desejamos — assar e cozer o nosso alimento, e na maioria dos ofícios se sopra o fogo sobre o carvão e dele se tira o utensílio para a sua obra. Adoraremos a um deles?

אני שאלתיך על אמרם שז"א הוא אלהינו ואותו נעבוד, ואתה משיבני מן הפועלים בנו ברצון פועלם. וכי כל הפועלים בנו ברצון פועלם אותם נעבוד? ונאמר שהם אלהינו? הלא השמש פועלת לנו כמה פעולות טובות להאיר לנו לחמם האויר והארץ ולהצמיח דשאים ולבשל הפירות. האם אותה נעבוד? הירח והכוכבים גם המה פועלים בתחתונים ברצון הבורא ית' שנאמר: וממגד תבואות שמש וממגד גרש ירחים. הנעבוד אותם? הארץ והמים והאש גם הם פועלים להצמיח דשא ואילנות ולגדלם. ובאש אנו עושים כל חפצינו לאפות ולבשל כל מאכלינו. וברוב המלאכות נופח באש פחם ומוציא כלי למעשיהו. הנעבוד את אחד מהם?
Nota — agir sobre nós não é ser digno de culto. Este é o argumento mais forte do capítulo, e é de pura lógica. O defensor justificara o culto ao Ze'ir dizendo que é por ele que o Emanador age no mundo (o "vaso", a "mão" que trabalha). O questionador responde: então teríamos de adorar o sol, a lua, o fogo, a terra — pois todos eles agem sobre nós, e com enorme benefício, "pela vontade de quem os fez". Ser um canal da ação divina não confere direito ao culto. O critério da adoração não é "o que me beneficia", mas "quem é o Criador" — e a Ele só.
Ele age por mensageiros, mas só a Ele se serve

E a Sua vontade, bendito seja, de realizar as Suas ações por meio de mensageiros intermediários é coisa simples e explícita nas Escrituras: "que as águas fervilhem", "que a terra produza alma vivente", "que a terra faça brotar erva"; e diz-se: "faz dos ventos os Seus mensageiros, e do fogo abrasador os Seus ministros" Tehillim 104:4 — e em tudo Ele cumpre a Sua missão por agentes. E, com tudo isso, o Santíssimo ordenou-nos adorá-Lo somente, e advertiu-nos a não adorar nenhum outro além d'Ele. E na assembleia escolhida, ao revelar-Se sobre o Monte Sinai, deu a Sua voz diante da Sua hoste: "Eu sou o Senhor teu D'us; não terás outros deuses diante de mim." E diz-se: "Eu sou o Senhor, este é o meu nome; e a minha glória a outro não darei!" Yeshayahu 42:8. E eu e tu estivemos diante do Artífice que nos fez, e Ele não quis que adorássemos a outro — um "de face pequena" ketzar apayim — além d'Ele, ainda que esse seja Seu mensageiro para realizar alguma ação. E por que não havemos de ouvir a Sua voz, para servi-Lo, em vez de irmos adorar o Ze'ir, que Ele não nos ordenou?

ורצונו ית' לפעול פעולותיו על ידי שלוחים אמצעיים פשוט ומבואר בכתובים. ישרצו המים, תוצא הארץ נפש חיה, תדשא הארץ דשא, ונאמר עושה מלאכיו רוחות, משרתיו אש לוהט, ועוד ועוד, בכל עושה שליחותו. ועם כל זה ציוונו השי"ת לעבדו לבדו, והזהיר אותנו שלא נעבוד אחד מבלעדיו. ובמעמד הנבחר בהגלותו על הר סיני נתן קולו לפני חילו, אנכי ה' אלהיך, לא יהיה לך אלהים אחרים על פני. ונאמר: אני ה' הוא שמי וכבודי לאחר לא אתן! ואני ואתה עמדנו לפני אומן שעשאנו ולא רצה הוא שנעבוד אל אחר קצר אפים (ז"א) מבלעדיו אעפ"י ששלוחו הוא לפעול איזה פעולה. ולמה לא נשמע בקולו לעבדו, ונלך ונעבוד לז"א אשר לא ציוונו?
Nota — "a minha glória a outro não darei". O fecho reúne tudo num só princípio bíblico. A Escritura mostra D'us agindo o tempo todo por intermediários — as águas "fervilham", a terra "produz", os ventos e o fogo são "Seus mensageiros". E, no entanto, no Sinai Ele ordena que se sirva somente a Ele. Logo, a existência de intermediários jamais autoriza o culto a eles: "a minha glória a outro não darei" (Yeshayahu 42:8). A expressão "de face pequena" ketzar apayim é uma leitura propositada do nome Ze'ir Anpin ("pequena face") — afiada, no calor da polêmica. O ponto, porém, é sereno e é o de toda a obra: ouvir a voz que se ouviu no Sinai, e servir só a Quem a proferiu.

Sobre esta seção · עִיּוּן

As cinco formas do erro, segundo o Rambam

O capítulo parte da grade do Rambam (Hilchot Teshuvá 3) sobre o que constitui um min — não um xingamento, mas uma classificação rigorosa do erro nos fundamentos: o ateísmo, a dualidade/multiplicidade, a corporeidade, a negação de D'us como único Primeiro, e o culto a um intermediário. O Lechem Mishné, citando o Ra'avad, acrescenta um caso fino: mesmo quem afirma que nada precede a D'us, mas diz que Ele criou o mundo de uma matéria pré-existente (yesh me-yesh), erra no fundamento. É o pano de fundo de toda a medição que vem a seguir.

A acusação — e a réplica que ela já recebeu

Sobre essa grade, o questionador encaixa quatro traços do esquema cabalístico (tal como o lê): a multiplicidade de "divindades", o "corpo sutil" de luz, e o culto a uma "causa última" intermediária em vez da Causa Primeira. É a passagem mais severa do livro — e a que mais pede que se ouça também o outro lado. Pois os cabalistas recusam cada passo: para eles não há muitos deuses, mas faces de um só Ein Sof; a "luz" é imagem, não corpo; e a oração é sempre ao Um. Essa resposta já foi dada, no livro, pela voz do defensor (cap. II). O leitor honesto guarda as duas vozes: a disputa é se a unidade se preserva ou se fragmenta.

Agir sobre nós não é ser digno de culto

O argumento mais luminoso do capítulo é também o mais simples. Contra a defesa de que se adora o Ze'ir por ser o "vaso" da ação divina, o questionador aponta o sol, a lua, o fogo, a terra: todos agem sobre nós, com imenso benefício, "pela vontade de quem os fez" — e a nenhum deles se presta culto. Ser canal da ação de D'us não dá direito à adoração. O critério não é a utilidade, mas a origem: só o Criador é servido.

A glória que a outro não se dá

O fecho é puro Tanach. D'us age por mensageiros sem fim — as águas, a terra, os ventos, o fogo —, e ainda assim, no Sinai, ordena servir só a Ele: "a minha glória a outro não darei" (Yeshayahu 42:8). É o coração de toda a "guerra" que dá nome ao livro — travada por uma única frase, que une todos os lados do debate, místicos e racionalistas: há um só D'us, e só a Ele se serve. Sobre como compreender essa unidade, Israel discutirá; sobre a unidade mesma, nunca.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo VI

Os Três Sentidos da Shechiná

שֵׁם שְׁכִינָה נֶאֱמָר עַל ג' דְּבָרִים
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Agora o questionador responde ao golpe que o defensor lhe desferira (cap. III): "o próprio Rambam chama a Shechiná de 'luz criada' — logo, também ele estaria comprometido". A resposta é de pura precisão: a palavra "Shechiná" tem três sentidos, e "Kavod", dois. Distinguidos os sentidos, a contradição desaparece — e fica claro que Israel se prostrava a D'us, não à luz.

A objeção, e a resposta

E quanto às tuas perguntas, em que escreveste haver razão para questionar o que o Rambam escreveu — "dirija o seu coração para a Shechiná e ore" (e, no Guia dos Perplexos, escreveu que a Shechiná é uma luz criada, etc.) —, eis que, na tua pergunta, revelaste que és "sábio aos teus próprios olhos" e não aprendeste mussar boas maneiras. Pois acaso é maneira de quem é interrogado interrogar quem o interroga? Seja como for, não pouparei a minha pena de responder, ainda que tenhas agido de modo impróprio! E digo que é coisa simples, e sabida de todo homem culto e versado nos livros de Israel, que o termo "Shechiná" se diz de TRÊS coisas:

ועל שאלותיך שכתבת שיש לשאול על מה שכתב הרמב"ם ז"ל: יכווין לבו כנגד השכינה ויתפלל, ובמורה נבוכים כתב שהשכינה אור נברא וכו' הן בשאלתך גילית שאתה חכם בעיניך ולא למדת מוסר. וכי דרך הנשאל לשאול את שואלו? מכל מקום לא אחשוך קולמוסי מלהשיב אעפ"י שעשית לא כהוגן! ואומר כי פשוט הוא וידוע לכל משכיל בקי בספרי ישראל ששם שכינה נאמר על ג' דברים:
(1) O próprio D'us

Ou refere-se ao Santíssimo a D'us mesmo — como escreveu Rabbeinu nas Hilchot Teshuvá (cap. 7): "Grande é a teshuvá, pois aproxima o homem da Shechiná, como se diz ''Volta, ó Israel, até o Senhor teu D'us''…; e diz ''e não voltastes a mim, diz o Senhor''; e diz ''se voltares, ó Israel, a mim voltarás'' — isto é, se retornares em teshuvá, a mim te apegarás". E ainda ali, sobre a excelência da teshuvá: "ontem este estava separado do Senhor, D'us de Israel…; e hoje está apegado à Shechiná, como se diz ''e vós que vos apegais ao Senhor vosso D'us''; clama e é respondido de imediato, como se diz ''e será que, antes que clamem, eu responderei''". E assim é o sentido das suas palavras nas Hilchot Tefilá: que, se alguém estivesse num lugar onde não pode determinar as direções para onde se voltar, dirija o coração à Shechiná. E assim transmitiram os nossos antigos — no original do Rambam, em judaico-árabe: "e se está num lugar e não consegue distinguir as direções, dirija o seu coração para o seu Criador e ore".

או אל השי"ת, כמו שכתב רבינו בהל' תשובה פ"ז: גדולה תשובה שמקרבת האדם לשכינה שנאמר: שובה ישראל עד ה' אלהיך וכו', ונאמר: ולא שבתם עדי נאם ה', ונאמר: אם תשוב ישראל אלי תשוב. כלומר, אם תחזור בתשובה, בי תדבק וכו'. עוד שם על מעלת התשובה: אמש היה זה מובדל מה' אלהי ישראל וכו', והיום הוא מודבק בשכינה, שנאמר: ואתם הדבקים בה' אלהיכם, צועק ונענה מיד, שנאמר: והיה טרם יקראו ואני אענה. וכן ענין דבריו בהל' תפלה, שאם היה במקום שאינו יכול לכוון את הרוחות וכו'. וכן העתיקו קדמונינו, ואן כאן פי בוצע ולא יחסן יערף אלגהת יהי"י קלבה אלי כאלקה ויצלי.
Nota — "dirige o coração à Shechiná" = a D'us. A primeira acepção já desfaz metade da objeção. Quando o Rambam manda "dirigir o coração para a Shechiná" ao orar (Hilchot Tefilá / Hilchot Teshuvá), "Shechiná" significa simplesmente D'us — aproximar-se d'Ele, apegar-se a Ele. O próprio Qafih cita o original judaico-árabe do Rambam (a língua em que ele escreveu, aqui em letras hebraicas), que diz sem rodeios: "dirija o seu coração para o seu Criador e ore". Não há, portanto, intermediário nenhum: orar "em direção à Shechiná" é orar a D'us.
(2) Uma luz criada

E o segundo sentido: onde se menciona "revelação da Shechiná" gilui Shechiná — como no caso de Avraham, nosso pai, quando foi atar Yitzchak, de quem se diz "e viu o lugar de longe" (Bereshit 22:4); e disseram os Sábios que ele viu uma luz de longe sobre o Monte Moriá, como disse o paytan poeta litúrgico: "e viu uma forma de glória, majestade e preciosidade, e perguntou ainda aos seus servos: vistes uma luz despontando no alto do monte da mirra?". Esta é a "luz criada" de que falou Rabbeinu. E assim na sarça: "e viu, e eis que a sarça ardia em fogo", sendo dito explicitamente ali "e apareceu-lhe um anjo do Senhor numa chama de fogo do meio da sarça" (Shemot 3:2) — e isto é uma luz criada. E assim, todo lugar em que se menciona "revelação da Shechiná" refere-se a uma luz criada.

והשני במקום שנזכר שם "גילוי שכינה", כגון גבי אברהם אבינו כשהלך לעקוד את יצחק שנאמר בו וירא את המקום מרחוק. ואמרו רז"ל שראה אור מרחוק בהר המוריה, וכמו שאמר הפיטן: וירא דמות כבוד והוד ויקר, ושאל עוד את נעריו, אור הראיתם צץ בראש הר המור וכו'. זהו אור נברא שכתב רבינו. וכן בסנה, וירא והנה הסנה בוער באש, ובהדיא נאמר שם וירא מלאך ה' אליו בלבת אש מתוך הסנה, וזהו אור נברא. וכן כל מקום שנזכר שם "גילוי שכינה" הוא אור נברא.
(3) A providência divina

E o terceiro: a providência hashgachá do Santíssimo sobre nós também se chama "Shechiná", como disseram os Sábios: "foram exilados para a Babilônia — a Shechiná está com eles" — isto é, a Sua providência apega-se a nós, como nos prometeu na Torá: "e, mesmo assim, estando eles na terra dos seus inimigos, não os rejeitei nem os abominei a ponto de destruí-los, de quebrar a minha aliança com eles, pois eu sou o Senhor seu D'us" (Vayikra 26:44). E assim todos os casos semelhantes. Cada lugar entende-se conforme o seu contexto, num destes três sentidos mencionados.

והשלישי, השגחת השי"ת עלינו נקרא ג"כ שכינה, כמו שאמרו רז"ל: גלו לבבל שכינה עמהם. כלומר, השגחתו ית' דבקה בנו כמו שהבטיחנו בתורה: "ואף גם זאת בהיותם בארץ אויביהם לא מאסתים ולא געלתים לכלותם להפר בריתי אתם כי אני ה' אלהיהם". וכן כל כיוצא בזה. כל מקום יובן לפי עניינו באחד משלשה פנים הללו הנז'.
Nota — uma palavra, três sentidos. Aqui está o método racionalista por inteiro. "Shechiná" é um termo equívoco (shem meshutaf): vale ora por D'us mesmo (apegar-se à Shechiná = a Ele), ora por uma luz criada visível (a "revelação da Shechiná" em Moriá, na sarça), ora pela providência que acompanha Israel até no exílio. A aparente contradição no Rambam — "dirige o coração à Shechiná" × "a Shechiná é luz criada" — desaparece no instante em que se reconhece que as duas frases usam a palavra em sentidos diferentes. É exatamente a lexicografia que o Rambam pratica na Primeira Parte do Guia: cada texto se lê "conforme o seu contexto".
O Kavod: a quem Israel se prostrava

E quanto ao que escreveste: "e mais do que isto, o que o Rambam escreveu sobre o Kevod Hashem a Glória ser luz criada — se assim é, como saíam os israelitas à entrada das suas tendas e se prostravam diante de um ser criado?" — não era à glória visível que se prostravam, mas Àquele que ali fez repousar a sua glória. E a glória visível era para eles um sinal e um indício de que o Santíssimo desejara a Tenda do Encontro como morada sua — assim como nós nos prostramos e oramos a D'us voltados para o Templo e Jerusalém, pois "o Senhor escolheu Sião, desejou-a para sua morada" (Tehillim 132:13). E o Rambam já explicou (no cap. 64 da Primeira Parte do Guia) que "Kevod Hashem", por vezes, designa a luz criada que o Santíssimo faz repousar num lugar — como "e a glória do Senhor repousou sobre o Monte Sinai e o cobriu" (Shemot 24:16) —, e, por vezes, designa a sua própria essência e verdade — como "mostra-me, por favor, a tua glória" (Shemot 33:18), ao que veio a resposta "pois não me verá o homem, e viverá", indicando que a "glória" aí dita é Ele mesmo; e Moshé disse "a tua glória" para a engrandecer, etc.

ומה שכתבת: ויותר מזה מה שכ' על כבוד ה' שהוא אור נברא אם כן כיצד היו ישראל יוצאים פתח אהליהם ומשתחוים לנברא? לא לכבוד הנראה משתחוים, רק למי שהשרה כבודו שם. והכבוד הנראה שם לאות וסימן להם, כי השי"ת איווה לאוהל מועד למושב לו, כמו שאנחנו משתחוים ומתפללים לשי"ת נכח המקדש וירושלם, כי בחר ה' בציון אוה למושב לו. וכבר ביאר הרמב"ם בפ' ס"ד מראשון, כי כבוד ה', פעמים רוצים בו האור הנברא אשר ישכינהו הק' במקום, כמו: וישכון כבוד ה' על הר סיני ויכסהו וכו', ופעמים רוצים בו עצמותו ית' ואמתתו, כמו "הראיני נא את כבודך", ובא המענה: "כי לא יראני האדם וחי", מורה כי הכבוד הנאמר פה עצמו ית', ואמר "כבודך" להגדיל וכו'.
Nota — prostrar-se diante do sinal, servir ao Único. A objeção do defensor era esperta: se a "Glória" diante da Tenda era luz criada, então Israel ter-se-ia prostrado a um ser criado. A resposta de Qafih devolve o golpe com clareza: ninguém se prostrava à luz, mas a D'us, que ali fizera repousar a sua Glória — tal como hoje oramos voltados para Jerusalém sem adorar pedras. A luz é um sinal da Presença, não o seu objeto. E "Kavod", como "Shechiná", é equívoco: ora a luz criada (Sinai), ora a própria essência divina ("mostra-me a tua glória", Moré I:64). Orientar-se por um sinal não é idolatria; adorar o sinal, sim — e o Rambam jamais fez isso.
Nomes partilhados

E semelhantemente achamos, nas palavras dos Sábios, que o nome "Elohim" é partilhado — aplicado a juízes, a anjos e a D'us; e também o nome "Shechiná" é partilhado, conforme o que mencionei acima.

וכיוצא בזה מצינו בדברי רז"ל ששם אלהים משותף לדיינים ולמלאכים ולשי"ת, גם שם שכינה משותף למה שהזכרתי למעלה.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Uma palavra, três sentidos

O capítulo é uma pequena aula de leitura. A objeção do cap. III supunha que "Shechiná" significasse sempre a mesma coisa; o questionador mostra que é um termo equívoco, com três acepções: o próprio D'us, uma luz criada (na "revelação da Shechiná") e a providência divina. Distinguir os sentidos de uma palavra antes de julgar uma frase é o coração do método maimonidiano — toda a Primeira Parte do Guia é, em boa medida, esse trabalho. Lida assim, a "contradição" do Rambam evapora-se.

Por que o Rambam fala de "luz criada"

Quando o Rambam chama a Shechiná (ou o Kavod) de "luz criada", refere-se apenas à manifestação visível — a luz que Avraham viu de longe sobre o Moriá, o fogo da sarça —, nunca a D'us. E quando manda "dirigir o coração à Shechiná", refere-se a D'us. Duas frases, dois sentidos, nenhuma contradição. Mais: o próprio original judaico-árabe do Rambam, citado por Qafih, diz "dirija o coração ao seu Criador" — encerrando a questão.

Prostrar-se diante do sinal, servir ao Único

O ponto mais fino responde à acusação de "prostrar-se a um ser criado". Israel não adorava a Glória visível; prostrava-se a D'us, que ali fizera repousar a sua Presença — como nós, ao orar, nos voltamos para Jerusalém sem por isso adorar um lugar. O sinal aponta para Aquele que o pôs; confundir o sinal com o objeto do culto é que seria erro. E "Kavod", como "Shechiná", ora diz a luz criada, ora a essência divina — tudo conforme o contexto.

A defesa do Rambam

Visto no conjunto, o capítulo devolve o golpe que o defensor dera no cap. III. Longe de estar comprometido, o Rambam é exonerado precisamente pela ferramenta racionalista da distinção de sentidos. E o princípio de toda a obra sai reforçado: o que se serve é sempre o Único; orientar a mente por um sinal — a Glória, o Templo, Sião — é parte do serviço a Ele, não um desvio dele.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo VII

Honra, Não Idolatria: prostrar-se a um homem

אֲבָל אַתָּה מִשְׁתַּחֲוֶה לְאָדָם כְּמוֹתְךָ
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Para fechar o argumento, o questionador estabelece uma distinção halácvica precisa: prostrar-se a um homem — por honra ou gratidão — não é idolatria. O que torna um ato idólatra não é o gesto externo, mas a intenção de aceitar algo como deus. Avraham, Yehoshua e David prostraram-se a criaturas; e a Guemará define a fronteira com exatidão.

Prostrar-se por honra é permitido

E vi por bem alertar-te aqui que não há proibição em prostrar-se diante de um homem, desde que a intenção não seja aceitá-lo como D'us, e desde que ele não seja tratado como objeto de culto — mas apenas que a pessoa se submeta a ele e se humilhe diante dele, ou por modo de agradecimento por um bem que aquele lhe fez. Pois Avraham, nosso pai, prostrou-se diante dos filhos de Chet pela bondade que lhe fizeram, ao dar-lhe uma propriedade de sepultura. E assim traduziu Rav Saadia Gaon Bereshit 23:7: "e prostrou-se ao povo da terra, aos filhos de Chet" — no seu árabe: "e curvou-se ao povo do país". E Yehoshua prostrou-se diante do anjo. E o profeta Natan e Bat-Sheva prostraram-se diante de David. E muitas vezes achamos nas Escrituras que se prostraram diante de um ser criado.

וראיתי להעירך פה שאין איסור להשתחוות לאדם כל שאין דעתו לקבלו באלוה וגם אינו נעבד, רק נכנע לו ומשפיל עצמו לפניו, או דרך ההודאה על טובה שעשה לו. שהרי אברהם אבינו השתחוה לבני חת על החסד שעשו עמו ליתן לו אחזת קבר. וכן תרגם רבי סעדיה גאון: וישתחו לעם הארץ לבני חת, וסגד לאהל אלבלד שברא. ויהושוע השתחווה למלאך. ונתן הנביא ובת שבע השתחוו לדוד. והרבה מצינו בכתובים שהשתחוו לנברא.
Nota — a vênia da honra na Torá. O ponto de partida é factual: a Escritura está cheia de prostrações a seres humanos. Avraham curva-se aos filhos de Chet em gratidão (e Rav Saadia Gaon, na sua tradução árabe da Torá, verte o gesto sem qualquer reserva); Yehoshua prostra-se ao anjo; o profeta Natan e Bat-Sheva prostram-se ao rei David. Nenhum desses gestos é idolatria, porque nenhum visa aceitar o outro como D'us. Prostrar-se é um ato cuja natureza depende da intenção — honra e gratidão de um lado, culto divino do outro.
A Guemará: por amor ou por medo (I)

E aprendemos em Sanhedrin, cap. "Arba Mitot" (61b): foi dito — aquele que serve idolatria por amor ou por medo: Abaye diz que é culpável, pois de fato a serviu; Rava diz que é isento — se a aceitou sobre si como D'us, sim; se não, não. E disse Abaye: de onde o digo? Como ensinámos na mishná: "aquele que serve idolatria — seja o que a serve, o que lhe sacrifica, o que lhe queima incenso, o que lhe derrama libação, o que lhe se prostra, o que a aceita sobre si como D'us, ou o que lhe diz ''tu és o meu deus''" é culpável. Não estaria aí incluído "o que serve por amor ou por medo"? E Rava diz-te: não — antes, como resolve Rabi Yirmiyá (explicou Rashi: "o que serve" refere-se a toda forma de culto que é o modo próprio dela; "o que sacrifica" etc., mesmo não pelo modo próprio; e sempre o início e o fim da lista são "para fins de divindade"). De novo disse Abaye: de onde o digo? Como se ensinou: "não te prostrarás a eles" — a eles aos ídolos não te prostras, mas prostras-te a um homem como tu. Poderia pensar-se que se possa prostrar mesmo a um tirano como Haman? O verso ensina "e não os servirás". Mas Haman era servido por medo! E Rava? — como Haman e não como Haman: como Haman, naquilo em que ele mesmo se fez idolatria; e não como Haman, pois Haman era servido por medo, e aqui não é por medo.

וגרסינן בסנהדרין פ' ארבע מיתות (ס"א ע"ב), אתמר: העובד ע"ז מאהבה ומיראה, אביי אמר חייב, דהא פלחה. רבא אמר פטור, אי קבליה עליה באלוה אין, אי לא לא. ואמר אביי מנא אמינא לה, דתנן העובד ע"ז אחד העובד ואחד המזבח ואחד המקטיר ואחד המנסך ואחד המשתחוה ואחד המקבלו עליו באלוה והאומר לו אלי אתה. מאי לאו אחד העובד מאהבה או מיראה? ורבא אמר לך, לא, אלא כדמתרץ ר' ירמיה (פירש רש"י: אחד העובד כל עבודה שהיא דרכה בכך, ואחד המזבח וכו' שלא כדרכה, ולעולם רישא וסיפא לשם אלהות). אמר אביי: מנא אמינא לה? דתניא: לא תשתחוה להם, להם אי אתה משתחוה, אבל אתה משתחוה לאדם כמותך. יכול אפי' לעבד כהמן? ת"ל ולא תעבדם. והא המן מיראה הוא נעבד! ורבא? כהמן ולא כהמן. כהמן, דאיהו גופיה ע"ז; ולא כהמן, דאלו המן מיראה, והכא לאו מיראה.
Nota — a intenção é que decide. O coração da sugyá: quem "serve" um ídolo por amor da sua beleza ou por medo dele, mas sem aceitá-lo como divindade — é culpado? Rava fixa a regra que governa todo o capítulo: "se o aceitou sobre si como D'us, sim; se não, não". Não é o gesto que constitui a idolatria, mas a aceitação interior de algo como deus. Daí a baraita: "a eles aos ídolos não te prostras, mas prostras-te a um homem como tu" — a prostração honorífica a um ser humano é lícita. O caso de Haman é a exceção que confirma a regra: ele "fez de si mesmo idolatria".
A Guemará: o caso do sacerdote e a estátua (II)

E ainda disse Abaye: de onde o digo? Como se ensinou: "um sacerdote ungido kohen mashiach em caso de idolatria — Rabi diz a sua oferta é no caso de erro do ato, e os Sábios dizem no caso de esquecimento do princípio; e concordam que traz uma cabra como um indivíduo, e concordam que não traz oferta de culpa suspensa". Como é esse "erro do ato"? Se pensou tratar-se de uma sinagoga e se prostrou a ela — eis que o seu coração estava voltado ao Céu e não há pecado. Antes, o caso é que viu uma estátua andarta e se prostrou a ela (explicação: que viu a imagem do rei — era costume fazer-se uma à semelhança do rei, e quem a vê prostra-se a ela em honra do rei; e por vezes a adoram; e este viu uma estátua que era adorada e prostrou-se a ela): se a aceitou sobre si como D'us, é pecador intencional; e se não a aceitou como D'us, não é nada (explicou Rashi: mas se se prostrou a ela só em honra do rei, não é nada, pois não teve intenção de idolatria). Então o caso não é justamente o de quem peca "por amor ou por medo"? E Rava diz-te: não, mas no caso de quem "diz que é permitido". "Quem diz que é permitido" — não é o mesmo que "esquecimento do princípio"? Não: "quem diz que é permitido" tem-no por totalmente permitido; "esquecimento do princípio" é manter parte e anular parte. — Fim das palavras da Guemará, com um pouco do comentário de Rashi.

ואמר אביי: מנא אמינא לה? דתניא: כהן משיח בע"ז. ר' אומר בשגגת מעשה, וחכמים אומרים בהעלם דבר, ושווין דבשעירה כיחיד, ושווין שאין מביא אשם תלוי. האי שגגת מעשה היכי דמי? אי קסבר ביהכנ"ס והשתחוה לו, הרי לבו לשמים. אלא דחזא אנדרטא והשתחוה לו (פירוש, שראה דמות המלך שהיו רגילים לעשות כדמות המלך והרואה אותו משתחוה לו לכבוד המלך, ופעמים שעובדין אותו, וזה ראה אחד שנעבד והשתחוה לו), אי קבליה עליה באלוה מזיד הוא, ואי לא קבליה עליה באלוה לאו כלום הוא (פירש רש"י: אלא לכבוד המלך השתחוה לו, לאו כלום הוא דהא לא איכוון לע"ז). אלא לאו מאהבה ומיראה? ורבא אמר לך: באומר מותר. אומר מותר היינו העלם דבר? באומר מותר לגמרי, העלם דבר קיום מקצת וביטול מקצת, עכ"ל הגמ' עם קצת פי' רש"י.
A regra extraída

E eis o que se aprende: que a todo ser criado é proibido prostrar-se, exceto ao homem — e isso desde que ele não seja adorado como Haman, que se fez a si mesmo idolatria, conforme dissemos em Meguilá (19); pois, de outro modo, Mordechai não se teria abstido de se prostrar a ele, como se ensina na baraita: "não te prostrarás a eles — a eles não te prostras, mas prostras-te a um homem como tu", contanto que ele não seja adorado como Haman, que se fez a si mesmo D'us — mas que se prostre a ele apenas como sinal de honra, e não por divindade. E por isso Yehoshua prostrou-se diante do anjo, visto que este se lhe revelou em forma de homem, como se diz "e eis um homem de pé diante dele" (Yehoshua 5:13) — e por isso se prostrou a ele como sinal de honra, e não para o servir.

ודבר נלמד, דלכל נברא אסור להשתחוות, זולת האדם, והוא שלא נעבד כהמן שעשה עצמו ע"ז, כדאמירן במגלה (יט), דאי לאו הכי לא היה מרדכי נמנע מלהשתחות לו, כדקתני בבריתא: לא תשתחוה להם, להם אי אתה משתחוה, אבל אתה משתחוה לאדם כמותך, והוא שלא יהא נעבד כהמן שעשה עצמו אלוה, רק משתחוה לו לאות הכבוד ולא לאלהות, ולכך השתחוה יהושע למלאך הואיל ונגלה לו בדמות אדם, כמ"ש: והנה איש עומד לנגדו, ולכן השתחוה לו לאות הכבוד ולא לעבדו.
Curvar-se ao sinal é honrar a D'us

E vê no Sefer ha-Ikkarim (Tratado II, cap. 28), que se estendeu a explicar os versos que chamam a glória vista pelos profetas pelo Nome do Senhor, e chamam assim também a Arca, como se diz: "e era, quando a Arca partia… ''Levanta-te, Senhor''; e quando repousava, dizia: ''Volta, Senhor''" (Bamidbar 10:35-36); e Yehoshua chamou a Arca "Senhor de toda a terra" (Yehoshua 3:13). E, na sua opinião, o facto de Yehoshua se ter prostrado diante do anjo explica-se porque aquela prostração foi para a honra de D'us — sendo este o Seu mensageiro, etc.

ועיין בס' העיקרים מאמר ב' פ' כ"ח שהאריך בביאור הכתובים שקורין לכבוד הנראה לנביאים בשם הוי"ה, וגם לארון, כמו שגאמר: "ויהי בנסע הארון וכו' קומה ה', ובנחה יאמר שובה ה'", ויהושע קרא לארון "אדון כל הארץ" ע"ש. ולדעתו שמה שהשתחוה יהושע למלאך, לפי שההשתחויה ההיא היתה לכבוד השי"ת, ולהיות זה שלוחו וכו' ע"ש.
Nota — honrar o sinal, servir a D'us. Este passo liga o capítulo ao anterior (os três sentidos da Shechiná). O Sefer ha-Ikkarim mostra que a Escritura chega a chamar pelo Nome de D'us a "glória" vista pelos profetas, e até a Arca ("Senhor de toda a terra") — porque elas são sinais da Sua presença, e a honra que se lhes presta sobe a Ele. Assim, quando Yehoshua se prostra ao anjo, prostra-se "para a honra de D'us", de quem o anjo é mensageiro. Honrar o sinal não é adorá-lo; é honrar Aquele a quem o sinal aponta — exatamente o oposto de aceitar o sinal "como deus".
O costume: honrar o grande

E os Sábios disseram: "à raposa na sua hora, prostra-te a ela" — quer dizer: a um homem baixo e desprezível como uma raposa, se a hora lhe favorece com algum ofício na mão, prostra-te a ele. E assim é costume entre nós e entre os árabes prostrar-se e beijar a mão de um homem de alta posição; e não há nisso proibição alguma, pois não o aceita como D'us — apenas como sinal de honra se prostra a ele e lhe beija os pés.

ורז"ל אמרו תעלא בעידניה סגיד ליה, ר"ל: אדם פחות ובזוי כשועל, והשעה עומדת לו באיזה משרה שבידו, סגיד ליה. וכן הוא נהוג אצלנו ואצל הערביים להשתחוות ולנשק אדם גדול המעלה, ואין בזה שום איסור, שאינו מקבלו עליו באלוה, רק לאות כבוד הוא משתחוה לו ומנשק את רגליו.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Honra não é culto

O capítulo estabelece uma distinção que parece óbvia mas é decisiva: prostrar-se diante de um ser humano — em respeito ou gratidão — não é idolatria. A Escritura prova-o à farta: Avraham curva-se aos filhos de Chet, Yehoshua ao anjo, Natan e Bat-Sheva ao rei. O gesto é o mesmo; o que muda é a intenção. Há uma vênia que honra e uma vênia que adora — e só esta última é proibida.

A intenção é que decide

A sugyá de Sanhedrin 61b dá a essa distinção a sua forma jurídica. Para Rava — cuja posição o autor adota — quem serve um ídolo "por amor ou por medo", mas sem o aceitar como D'us, não é culpado de idolatria: "se o aceitou como deus, sim; se não, não". O caso da estátua do rei é exemplar: prostrar-se a ela em honra do soberano "não é nada"; aceitá-la como deus é pecado. A linha que separa o lícito do idólatra passa pelo coração, não pelo joelho.

Curvar-se ao sinal, honrar a D'us

O Sefer ha-Ikkarim leva o ponto mais fundo: a Torá chama pelo Nome de D'us a glória vista pelos profetas e até a Arca, porque são sinais da Sua presença. Prostrar-se diante deles — ou diante do anjo, "mensageiro de D'us" — é honrar Aquele a quem apontam, não adorar a coisa. É o exato reverso da idolatria, que toma o sinal pelo próprio D'us.

Por que isto importa à "guerra de D'us"

Esta clarificação halácvica não é um desvio: é a chave de toda a obra. Se o que constitui a idolatria é aceitar algo como D'us, então a pergunta que percorre o livro — a quem se dirige, no fundo do coração, o nosso culto? — torna-se a pergunta decisiva. Honrar, orientar-se, reverenciar um sinal: nada disso é proibido. Aceitar como D'us o que não é o Único Criador: nisso está toda a fronteira. E é por essa fronteira que o livro inteiro se bate.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo VIII

Reverência ao Sefer Torá: a defesa de Menasseh ben Israel

בֹּאוּ נִשְׁתַּחֲוֶה וְנִכְרָעָה, לִפְנֵי ד' עֹשֵׂנוּ
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Fecha-se o argumento sobre honra e idolatria — com o seu caso mais difícil (o abate diante de um rei) e com uma página célebre: a defesa de Menasseh ben Israel, que respondeu, em sete pontos, à acusação de que os judeus seriam idólatras por honrarem o rolo da Torá. E o questionador conclui: a regra dos Sábios já basta — prostramo-nos a Quem escolheu a Torá, não à madeira.

O abate diante do rei

E mais grave do que isto a prostração é o que também fazem: abater diante de um rei ou de um oficial ovelhas e gado. Esse abate está entre as transgressões "de dentro" os cultos próprios do Templo, pois quem faz a um dos tipos de idolatria um dos quatro cultos — ainda que não seja o modo habitual de culto dela — é culpável, como ensinámos em Sanhedrin ("Quatro Mortes"): "aquele que serve idolatria — o que serve, o que sacrifica, o que queima incenso, o que derrama libação, o que se prostra…"; e dissemos na Guemará: "que é ''o que serve''? Disse Rabi Yirmiyá: ''o que serve'' no seu modo próprio; e ''o que sacrifica'', ''queima incenso'', ''derrama libação'', ''se prostra'' — mesmo não no modo próprio". E assim decidiram todos os posekim: pelas quatro avodot é culpável mesmo fora do modo próprio. E isto é praticado até hoje entre os nossos irmãos das aldeias e cidades: se um deles tem um inimigo que lhe busca o mal, traz um cordeiro e abate-o diante do seu oficial, para que este o salve. E o verso também diz: "oferece-o, pois, ao teu governador" (Malachi 1:8). E os nossos antepassados tinham também esta regra: ao vir o rei à província, abatiam diante dele um boi, tomando o seu preço da arca pública. E ninguém pôs nisso reparo por idolatria — pois não há intenção de servi-lo nem de aceitá-lo como D'us, apenas se lhe faz um sinal de honra.

וגדולה מזו שעושים גם כן לזבוח לפני מלך או שר צאן ובקר והיא מעבירות שבפנים שהשעושה לאחד ממיני ע"ז אף שאין עבודתה בכך חייב כדתנן בסנהדרין פ' ד' מיתות העובד ע"ז אחד העובד, ואחז המזבח, ואחד המקטר ואחד המנסך, ואחד המשתחוה וכו' ואמרינן בגמ' עלה מאי אחד העובד? אמר ר' ירמיה הכי קאמר אחד העובד כדרכה, ואחד המזבח ואחד המקטר ואחד המנסך ואחד המשתחוה, ואפי' שלא כדרכה. וכן פסקו כל הפוסקים דארבע עבודות חייב עליהן אפי' שלא כדרכה. ודבר זה נהוג עד היום אצל אחינו בני הכפרים והעירות שאם היה לאחד מהם אויב שהוא מבקש רעתו הוא מביא כבש ושוחטו לפני השר שלו להושיעו מאויבו. וקרא נמי כתיב: הקריבהו נא לפחתך וכו'. קדמונינו היה עליהם ג"כ החק הזה בבוא המלך אל המדינה לזבוח לפניו שור ונוטלים את דמי השור מקופה של צבור. ולא שמעו שום מפקפק בזה משום ע"ז, לפי שאין מכוין לעבדו בזה ולקבלו עליו באלוה, רק אות כבוד הוא עושה לו.
Nota — o teste mais duro do princípio. O capítulo abre com o caso extremo. O abate (zevach) é uma das quatro avodot cardeais do Templo — e a halachá é severa: quem o oferece a um ídolo é culpado mesmo que não seja o modo habitual de culto daquele ídolo. E, no entanto, o costume de abater um animal "diante" de um rei ou oficial, em sinal de honra ou súplica, persiste e nunca foi tachado de idolatria. Por quê? Porque "não há intenção de servi-lo nem de aceitá-lo como D'us". Se nem o ato mais grave se torna idolatria sem a intenção idólatra, fica selado o princípio de toda esta parte: a fronteira passa pelo coração.
Yaakov, Shaul e os votos

E Yaakov, nosso pai, disse aos seus filhos: "tomai do melhor fruto da terra nas vossas vasilhas, e levai ao homem Yossef um presente mincha"; e está dito: "e trouxeram-lhe o presente que tinham na mão, à casa, e prostraram-se a ele por terra". E sobre Shaul, o escolhido do Senhor, está dito: "e os filhos de Belial disseram: ''como nos salvará este?'' — e não lhe trouxeram presente". E em Nedarim aprendemos: "quem fez voto por um korban sacrifício, e depois disse: ''não fiz voto senão pelos sacrifícios dos reis''" — sinal de que se chamava "sacrifício" à oferta aos reis. Donde se vê que a prostração, o abate, a oferta de um presente e todas as quatro avodot são permitidas a um homem que não seja adorado como Haman — pois, se for adorado como Haman, é proibido; tanto que Mordechai se absteve de se prostrar a Haman, porque este se fizera a si mesmo idolatria.

ויעקב אבינו ע"ה אמר לבניו: קחו מזמרת הארץ בכליכם והורידו לאיש מנחה, ונאמ': ויביאו לו את המנחה אשר בידם הביתה וישתחו לו אפים וכו'. ובשאול בחיר ה' נאמר: ובני בליעל אמרו מה יושיענו זה ולא הביאו לו מנחה. ובנדרים שנינו: נדר בקרבן ואמר לא נדרתי אלא בקרבנות מלכים. אלמא שהשתחויה וזיבוח והגשת מנחה וכל ארבע עבודות פנים מותר לעשותן לאדם שאינו נעבד כהמן, שאם הוא נעבד כהמן אסור, שכן נמנע מרדכי להשתחות להמן מפני שעשה עצמו ע"ז. ובס'
Menasseh ben Israel: a acusação

Teshuat Israel, de Rabi Menasseh ben Israel, escreve, eis as suas palavras: "Fui solicitado a dar a conhecer os costumes de honra e reverência com que os judeus honram o Sefer Torá — pois os nossos adversários, que não sabem o que isto é, irritam-nos dizendo que somos idólatras, e que nos prostramos a uma arca de madeira e às folhas de couro que há dentro dela. Por isso disporei a minha resposta em ordem conveniente, conforme a boa mão de D'us sobre mim. Eis: todo homem de Israel se vê obrigado a levantar-se e ficar de pé quando se tira o Sefer Torá da arca sagrada, até que seja posto sobre a mesa para o mostrar a todo o povo e nele ler. E achamos que assim fizeram nos dias de Nechemiá, como está escrito: ''e, ao abri-lo, todo o povo se pôs de pé'' (Nechemiá 8:5). E isto fazem pelo temor e pela honra com que honram as palavras do D'us vivo nele escritas; e por esse mesmo motivo inclinam a cabeça ao carregá-lo da arca até a mesa — e por nenhum outro motivo dos que adiante mencionaremos."

תשועת ישראל לר' מנשה בן ישראל כ' וז"ל: נדרשתי להודיע מנהגי הכבוד והכניעות אשר יכבדו בם היהודים את ספר התורה, כי צרינו אשר אינם יודעים מה זאת מכעיסים אותנו לאמר כי עובדי אלילים אנחנו, וכי נשתחוה לארון עץ וליריעות עור אשר בתוכה, לכן אערוך תשובתי בסדר הניאות כיד ה' הטובה עלי והוא כל איש ישראל יראה את עצמו מחוייב לקום ולעמוד בהוצאת ספר תורה מארון הקודש עדי תונח על התיבה להראותה לכל העם ולקרות בה. ומצינו כי כן עשו בימי נחמיה ככתוב וכפתחו עמדו כל העם. וזאת יעשו מפני היראה והכבוד אשר יכבדו דברי אלהים חיים הכתובים בה, ומאותו טעם יכופו ראשם בנשאם אותה מהארון עד התיבה, ולא משום דבר אחר מן הטעמים אשר נזכיר.
Os quatro primeiros argumentos

"Primeiro: há grande diferença entre quem serve e ora a algo e quem apenas honra algo. Orar e prestar culto a algo é-nos proibido — seja homem ou anjo, corpóreo ou espiritual; mas render honra — como o jovem honra o ancião, o servo o seu senhor, o humilde o nobre — é permitido. Assim achamos em Avraham, que creu no Senhor e despedaçou as estelas dos ídolos: prostrou-se por terra diante de três anjos, ainda que se lhe afigurassem homens. E assim Yehoshua em Jericó, ao ver um homem de pé diante de si e tomá-lo por anjo, caiu por terra diante dele. E, se homens de tal estatura — em cujos caminhos andamos — fizeram isto, e não lhes foi imputado pecado de idolatria, é claro que honrar o Sefer Torá não é culto de ídolos. Segundo: os judeus são tão cuidadosos quanto à idolatria que até parecer que a honram lhes é proibido — como disseram no Talmud e no Rambam: se a alguém, ao passar junto a uma casa de idolatria, entra um espinho no pé, não se senta nem se curva para tirá-lo ali, para não parecer, aos que passam, que se prostra à idolatria. Ora, se a prostração diante da arca fosse culto, os judeus não manteriam tal cuidado; e, visto que o mantêm desde os pais, é sinal verdadeiro de que a reverência ao rolo não é desvirtuada. Terceiro: um dos costumes com que outrora honravam a idolatria era o beijo — como na Escritura: ''deixarei em Israel sete mil — todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que não o beijou'' (I Reis 19:18); e ''os que sacrificam homens beijam bezerros'' (Hoshéa 13:2). Seriam, então, idólatras todos os que beijam o Sefer Torá? Não — pois isto é só honra à sua Torá, e não culto; e por isso a prostração diante da arca é, também, só honra. Quarto: a experiência ensina que em todas as línguas dos povos há costumes de honra com que as pessoas se saúdam, inclinando a cabeça uma diante da outra — sinal, também, de que a reverência ao rolo é costume de honra, não culto de ídolos."

האחד הפרש גדול בין העובד ומתפלל לאיזה דבר, ובין המכבד איזה דבר לבד. להתפלל ולעבוד עבודה לאיזה דבר אסור לנו, יהיה אדם או מלאך, גשם או רוחני אבל לחלוק כבוד כמו שיכבד הנער את הזקן, העבד את אדוניו, והנקלה לנכבד מותר. וכן מצאנו באברהם אבינו אשר האמין בה' רצץ ושבר מצבות אלילים וכיחש בם, השתחווה ארצה לפני שלשה מלאכים הנצבים עליו אף כי נדמו לו לאנשים. וכן עשה יהושע ביריחו בראותו איש עומד לנגדו ויחשבהו למלאך נפל לפניו ארצה ואם אנשי לבב כמוהם אשר בדרכיהם נלך וממצות שפתותיהם לא נבוש עשו זאת ולא נחשב להם לעון ע"ז ברור הוא כי לכבד ספר תורה אינה עבודת גילולים. שנית היהודים נזהרים מאד בענייני עבודה אחרת, ואף להראות כמכבדה אסור להם. כמו שאמרו בתלמוד וברמב"ם אם לפת איש ארחות דרכו אצל בית ע"ז וישב לו קוץ ברגלו לא ישב אף לא יכרע וישתחוה להוציאו שם למען לא יתראה בעיני העוברים כמשתחוה ומכבד לע"ז, ואם היתה ההשתחויה לפני הארון בעבודה אחרת לא היו היהודים מחזיקים במנהג זה, וכיון שהחזיקו בו מימי אבותיהם אות אמת הוא כי אינה משובשת. שלישית אחד ממנהגי הכבוד אשר כבדו לפנים את הע"ז היה הנשיקה וכן מצינו במקרא והשארתי בישראל שבעת אלפים כל הברכים אשר לא כרעו לבעל וכל הפה אשר לא נשק לו, ונאמר זובחי אדם עגלים ישקון. ואם כן הוא יהיו כל המנשקים את ספר התורה עובדי ע"ז? אבל לא כן הדבר, כי אין זה רק כבוד שיכבדו את תורתם ולא עבודה, ולכן ההשתחויה מול הארון הוא ג"כ רק כבוד ולא עבודה. רביעית הנסיון הורה אותנו כי בכל לשונות הגוים נמצאו מנהגי הכבוד יכבדו בם איש את רעהו בהיפגשם וכן יכופו ראשיהם זה לעומת זה, והיה גם זה לנו לאות שאינה עבודת גלולים כי אם מנהגי כבוד.
Os três últimos, e os fundamentos da fé

"Quinto: o povo que habita na Ásia, se lhe chega uma carta de ordem do rei, toma-a nas mãos, beija-a e põe-na sobre a cabeça — quanto mais havemos nós de honrar as palavras do D'us vivo, Rei de toda a terra. Sexto: quando os setenta e dois anciãos trouxeram a Torá a Ptolomeu, rei do Egito, ele levantou-se do trono e prostrou-se sete vezes ao recebê-la; e, se um idólatra que não pôs o pescoço sob o jugo da nossa Torá a honrou tanto, quanto mais nós, que entrámos na sua aliança e a quem ela foi dada por herança. Sétimo: os fundamentos da nossa religião são a existência de um Criador único, singular, eterno, que não é corpo nem força num corpo, que dá a Torá ao seu povo Israel por meio do legislador fiel, Moshé, senhor de todos os profetas; Ele, bendito seja, que vela sobre os mundos que criou, cujos olhos percorrem tudo, que prova os corações dos homens e julga com justiça os passos de cada um; só d'Ele buscamos socorro na angústia; e Ele fará brotar um rebento do tronco de Yishai, que reunirá os dispersos de Israel dos quatro cantos da terra, e na ressurreição os ossos secos dos seus mortos reviverão. Eis os princípios e as raízes da nossa religião. E que sombra de idolatria há neles? — mesmo segundo aqueles cujas crenças diferem das nossas." Fim das palavras de Menasseh ben Israel.

חמישית העם היושבים באזיא אם יבוא אליהם מכתב פקודה מהמלך בכפם יתפשוהו, בפיהם ישקוהו, ועל ראשם יניחוהו, אף כי אנו נכבד את דברי אלהים חיים מלך על כל הארץ. ששית כשהביאו שבעים ושנים זקנים את התורה לתלמי מלך מצרים, קם מכסאו והשתחוה ז' פעמים לקראתה, ואם עובד אלילים אשר לא הביא צוארו בעול תורתינו כבדה כל כך, אף כי אנחנו הבאים בבריתה ואשר ניתנה לנו למורשה. שביעית יסודי ועיקרי דתינו הם מציאות בורא אחד יחיד קדמון אשר איננו גשם ולא כח בגשם, נותן התורה לעמו ישראל על ידי המחוקק הנאמן משה עבד ה' אדון כל הנביאים. הוא יתברך המציץ ומשגיח בעולמות שברא. ועיניו משוטטות בכל, וחוקר ובוחן לבות בני אדם ושופט בצדק על עלילות מצעדי גבר. ממנו לבד נבקש עזרה בצר לנו, והוא יפרה נצר מגזע ישי אשר יקבץ נדחי ישראל מארבע כנפות הארץ, ומכל קצוצי פאה אשר זרו אותם שמה, עצמות מתיהם היבשות תחינה ונבלתם יקומון. הן כל אלה עקרי ושרשי דתינו. ומה שמץ ע"ז נמצא בם? אף לדעת אותם אשר דעותיהם ואמונותיהם נבדלו מדעותינו ומאמונתנו עכ"ל.
Nota — quem foi Menasseh ben Israel. Rabi Menasseh ben Israel (Amsterdã, 1604–1657) foi um dos maiores divulgadores e defensores do judaísmo na Europa — fundador da primeira tipografia hebraica de Amsterdã e o homem que negociou com Oliver Cromwell o reingresso dos judeus na Inglaterra. Escreveu para um público também cristão, e aqui responde a uma acusação concreta: que reverenciar o rolo da Torá seria idolatria. Os seus sete argumentos são um pequeno tratado sobre a diferença entre honra e culto — e fecham na afirmação dos próprios fundamentos da fé (um Criador único e incorpóreo), onde "que sombra de idolatria há?". Qafih convoca-o porque é a mesma tese de toda a sua obra, dita por uma das vozes mais respeitadas da diáspora.
A regra dos Sábios basta

E, segundo o nosso caminho — o caminho dos Sábios na baraita já mencionada —, não há sequer necessidade de tudo isto: pois a nossa intenção, ao prostrar-nos diante do Sefer Torá, não é ao rolo, mas a Quem escolheu a Torá; e expressamente dizemos: "vinde, prostremo-nos e inclinemo-nos, ajoelhemos diante do Senhor que nos fez" (Tehillim 95:6). E quanto à prostração de Avraham e de Yehoshua diante dos anjos: ou se diga — visto que se lhes afiguraram homens, aplica-se-lhes o que disseram os Sábios na baraita, "não te prostrarás a eles aos ídolos; a eles não te prostras, mas prostras-te a um homem como tu", pois se lhes revelaram em forma de homens; ou se diga — que a intenção de Avraham e de Yehoshua foi prostrar-se a Quem os enviou, como escreveu o autor do Sefer ha-Ikkarim.

ולפי דרכינו דרך רז"ל בבריתא הנז"ל אין צורך לכל זה שאין כוונתנו שאנו משתחוים מול הס"ת אלא למי שבחר בתורה, ובהדיא אנו אומרים בואו נשתחוה ונכרעה נברכה לפני ה' עושנו. והשתחוית אברהם אבינו למלאכים וכן יהושע, איבעית אימא כיוון שנדמו להם כאנשים קרינא בהו מאי דאמור רבנן בבריתא לא תשתחוה להם, להם אי אתה משתחוה אבל אתה משתחוה לאדם שכמותך כיון שנגלו להם בדמות אנשים ואיבעית אימא שכוונת אברהם ויהושע להשתחות למי ששלחם וכמו שכ' בעל העיקרים.
A pergunta sobre a profecia, e o desafio

E quanto à tua pergunta sobre a profecia — ainda que não pertença ao nosso assunto, e só a tenhas feito para nos enganar e desviar para outra coisa —, eis que isto está explicado: os graus da profecia, no Rambam (Hilchot Yesodei haTorá), na Segunda Parte do Guia, e no Sefer haEmunot vehaDeot de Rav Saadia Gaon. E, visto que te achei "sábio aos teus próprios olhos", volto a pedir-te que me dês uma resposta vitoriosa a partir das palavras dos Sábios no Talmud — pois só a ti (na tua opinião) se revelaram todos os mistérios, e a ti foi dado um entendimento a mais e um espírito novo. Ensina-nos, a mim e ao meu companheiro, como as coisas se conciliam, plenas e boas; pois a nossa alma deseja ouvir os teus ensinamentos e deleitar-se na tua Torá íntegra — e a ti será contado por mérito, e grande honra herdarás de nós.

ושאלתך מענין הנבואה אעפ"י שאינו שייך לעניינינו ולא שאלת רק להטעותנו ולהשיאנו לדבר אחר, הנה זה מבואר מדרגות הנבואה ברמב"ם הל' יסודי התורה, ובחלק שני מספר המורה, ובספר האמונות והדעות להרס"ג. ולפי שמצאתיך חכם בעיניך אחזור לבקש ממך להשיב לי תשובה ניצחת מדברי רז"ל בתלמוד, כי רק אתה לבדך (לפי דעתך) לך נגלו כל תעלומות, ובינה יתירה ורוח חדש ניתן בקרבך. הורינו אני וחבירי איך הדברים יעלו בקנה אחד מלאות וטובות. כי נפשינו חשקה לשמוע לימודיך, ולהשתעשע בתורתך התמימה, ולך תהיה צדקה, וגם כבוד גדול תנחל מאיתנו.
Nota — a ironia que abre a próxima rodada. O questionador (a voz de Qafih) fecha de dois modos. Primeiro, dispensa até a defesa de Menasseh: para quem segue "o caminho dos Sábios", a prostração diante do rolo é, sem rodeios, dirigida "a Quem escolheu a Torá" — "diante do Senhor que nos fez". Depois, afasta a pergunta sobre profecia como um desvio (e remete-a ao Rambam e a Saadiá) e devolve o desafio com fina ironia: "já que te achas tão sábio, dá-me então a resposta vitoriosa". É a deixa para a longa réplica do defensor — que virá no próximo capítulo.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O caso extremo, e o princípio firmado

O capítulo começa pelo teste mais difícil: o abate, que é uma das quatro avodot cardeais, pelas quais se é culpado de idolatria mesmo fora do modo habitual. E, ainda assim, abater "diante" de um rei em sinal de honra nunca foi idolatria — porque falta a intenção de aceitá-lo como D'us. Se nem o gesto mais grave se torna culto sem a intenção idólatra, então está provado, de modo definitivo, o que a obra inteira defende: a idolatria mora no coração, não no joelho.

A defesa de Menasseh ben Israel

O coração do capítulo é a página de Menasseh ben Israel, escrita para responder à acusação de que honrar o Sefer Torá seria adorar "madeira e couro". Os seus sete argumentos percorrem toda a lógica da distinção honra/culto: os exemplos bíblicos (Avraham, Yehoshua), o escrúpulo judaico de evitar até a aparência de idolatria, o beijo que outrora era culto e hoje é só reverência, os costumes universais de honra, e — por fim — os próprios fundamentos da fé (um Criador único e incorpóreo), em que "que sombra de idolatria há?". É a tese de Qafih dita pela voz serena de um grande apologista.

Prostramo-nos a Quem escolheu a Torá

Mas o questionador acrescenta um toque rationalista: para quem segue "o caminho dos Sábios", não é preciso sequer toda essa apologética. A prostração diante do rolo dirige-se, declaradamente, a D'us — "diante do Senhor que nos fez" —, não à coisa. O sinal sobe para Aquele a quem aponta. É o eco exato do capítulo anterior (a Shechiná e o Kavod como sinais): honrar o que porta a santidade é servir a Quem a pôs ali.

E a guerra continua

O fecho não conclui o livro — reabre o debate. Afastada a tangente sobre profecia (remetida ao Rambam e a Saadiá), o questionador devolve, irônico, o desafio ao defensor: "já que te tens por tão sábio, responde-me". A próxima rodada trará a longa e veemente réplica do defensor da Cabala — e a "guerra de D'us" prossegue, sempre em torno da mesma e única questão: a quem, no fundo do coração, se dirige o culto.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo IX

A Réplica do Defensor: toda oração sobe ao Ein Sof

כָּל תְּפִלּוֹתֵינוּ הֵן לְאֵין סוֹף
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

É a vez do defensor da Cabala dar a sua grande resposta. Indignado por alguém ousar julgar os Geonim, ele expõe a sua tese central: os atributos das sefirot são ditos "para abrandar o ouvido"; as sefirot não são partes do Ein Sof, mas criação; e toda oração sobe ao Ein Sof — através das sefirot, nunca a uma sefira como deus. E vira contra o questionador as próprias testemunhas que este invocara.

O espanto: quem te deu licença?

Resposta. "Ao homem pertencem as disposições do coração, mas do Senhor vem a resposta da língua" (Mishlei 16:1). Ao ver a tua carta, fiquei perplexo e atônito: como te encheu o coração de investigar e esquadrinhar toda uma corrente de Geonim — fiéis na Torá, grandes de linhagem como a semente dos poderosos —, e tantos posekim e darshanim, primeiros e últimos, sábios do Ocidente, da Alemanha, da Espanha e do Iêmen, e das demais comunidades da semente santa? Acaso virá um tropeço da mão de justos fiéis, tementes a D'us, que pela sua sabedoria derrubaram tantos adversários? Acaso a sua kabbalah tradição recebida seria "temperada" de erro e desvario — eles, honrados na boca de príncipes e reis? Andariam por um caminho não bom, pais e filhos, há tantas centenas de anos? Longe disso! Isto não se crê — a não ser no coração dos tolos, que tudo creem e só no seu próprio intelecto se apoiam. A rigor, não me caberia responder-te — pois quem sou eu para entrar "no mais íntimo", no que não me foi permitido sequer ponderar, quanto mais responder? Mas, por "é tempo de agir pelo Senhor" (Tehillim 119:126), respondo-te com o que achei escrito nas palavras dos nossos Sábios; e que o mérito deles me ampare.

תשובה לאדם מערכי לב ומה' מענה לשון. ויהי בראותי את מכתבך ישבתי משתומם ומתבהל. איך מלאך לבך לדרוש ולחקור אחר חבל גאונים, אשר הם בתורה נאמנים גדולי היחס כזרע האיתנים, ואחר כמה פסקנים וגם דרשנים ראשונים עם אחרונים חכמי מערב ואשכנז וספרד ותימנים. ושאר קהלות זרע קדש בני אמונים, זאת היא חמדתם מפז ורב פנינים. וכי תבוא תקלה מיד צדיקים נאמנים יודעי מדע חכמים ונבונים יראי אלהים וסרים מרע באונים. בחכמתם הפילו כמה צרים ומונים העומדים עליהם בכל זמנים. וכי קבלתם מרוקחת בחבל ושגיונים אשר לרוב חכמתם אושרו בפי שרים ורוזנים התיצבו לפני מלכים ושלטונים וכי ילכו בדרך לא טוב אבות ובנים? זה כמה מאות שנים? וכמה הם מופלגים בכל חכמה וספרנים מקובלים עם פילוסופיא והגיונים, רפואה ותשבורת ותוכנים. הוגים יומם ולילה שקטים ושאננים, אוכלים פרי מעשיהם הטוב דשנים ורעננים. חלילה! זה לא יאמן ולא יעלה על לב כי אם לפתיים, לכל דבר מאמינים, אשר על שכלם נשענים. ומן הראוי אין עלי להשיבך. כי מה אני להכנס לפני ולפנים מה שלא הורשתי להרהר כל שכן להשיב שואלים. אבל משום עת לעשות לה' אני משיבך ממה שמצאתי כתוב בדברי חז"ל. וזכותם יעמד לי שלא יארע שום תקלה על ידי.
Nota — o choque de método. A réplica abre não com um argumento, mas com indignação: como ousa o questionador investigar uma cadeia de Geonim e cabalistas santos, honrados por séculos? Para o defensor, há um saber recebido (kabbalah = "o que se recebeu") que não está sujeito à sondagem da razão individual — "no que não me foi permitido ponderar". É o avesso exato do programa de Qafih, o racionalista, para quem a razão deve examinar os fundamentos. Toda a obra gira, no fundo, em torno desta divergência: o que tem mais autoridade — a tradição recebida ou a razão que investiga?

Tu desprezas os Sábios

Eis: quanto ao que escreveste — que não desprezas os sábios de Israel —, já há contra ti vários testemunhos do contrário, que não poderás negar. E o que te levou a atribuir-lhes erro e minut heresia foi apenas porque eles são desprezíveis aos teus olhos. Mas que o homem se acautele, não vá queimar-se nas suas brasas — pois "maiores são os justos na sua morte do que na sua vida", como disseram no Talmud.

הנה מה שכתבת שאינך מבזה חכמי ישראל כבר יש עליך כמה עדים, לא תוכל להכחיש. ומה שהביא אותך לידי כך שאתה מיחס להם טעות ומינות. אלא מפני שהם בזויים בעיניך. אבל האדם יחוש לעצמו פן יכוה בגחלתן כי גדולים צדיקים במיתתן יותר מבחייהן כמו שאמרו בתלמוד.
Quem te deu licença de investigar?

E quanto ao que escreveste — que se permite revelar o lugar da contradição, e que também o Talmud traz prova para refutar mestres maiores que eles —: o caso não é semelhante. Pois onde achamos que se traga prova para refutar uma halachá transmitida a Moshé no Sinai? E os sábios da Cabala dizem que assim a receberam da boca de Moshé — e quem é, e onde está, aquele que te deu licença de investigar e esquadrinhar as suas palavras?

ומה שכתבת שאם לגלות מקום הסתירה וגם התלמוד מביאים ראיה לסתור דברי גדולים מהם, אין הנדון דומה לראיה, דהיכן מצינו שמביאים ראיה לסתור הלכה למשה מסיני? וחכמי הקבלה אומרים כך קיבלו מפי משה, ומי הוא זה ואיפה הוא שנתן לך רשות לחקור ולדרוש אחר דבריהם?
Os atributos: para abrandar o ouvido

E quanto ao que escreveste — que eles chamam "divindades" aos partzufim: D'us nos livre, não é isso que dizem. E "vai aprender da intenção das bênçãos": já explicaram que a Causa de todas as causas é designada, em tal sefira, por tal nome, e noutra por tal outro — os nomes apontam à Causa Una, manifesta em cada sefira. E quanto aos "milhares de milhares de mundos": ainda que fossem milhões de milhões, visto que dizem que o seu Criador é Um e que Ele dá vida a todos, que perda há nisso? E quanto à "figura de um homem de grande estatura": já disseram "grande é a força dos profetas, que comparam a forma da Glória do alto à figura de um homem". E quanto aos "248 membros": já explicaram que os "membros" são as 216 letras do Nome de 72 e os 32 caminhos da sabedoria, que aludem a forças divinas.

ומה שכתבת שהם קורים לפרצופים אלוהות ח"ו שהם אומרים כך. ומה שכתבת צא ולמד מכוונת הברכות והתפלות. כבר ביארו שעילת כל העלות נתכנה בספירה פלונית בשם כן. ובספירה פלונית בשם כך. ומה שכתבת שביארו המקובלים שכמה עולמות יש אלפי אלפים וכו' אפילו יהיו מליוני מליונים כיון שהם אומ' שבוראם אחד והוא מחיה את כולם מה יש הפסד מזה? ומה שכתבת שהם בציור אדם בעל קומה, כבר אמרו גדול כחן של נביאים שמדמין דמות גבורה של מעלה לצורת אדם. ומה שכתבת ברמ"ח איברים כבר ביארו מה הן האיברים. כי הם רי"ו אותיות של שם בן ע"ב ול"ב נתיבות שהם רומזים לכוחות אלהיים.
Toda oração sobe ao Ein Sof

E quanto ao que escreveste — que eu admiti ser minha opinião que nenhuma oração se dirige à Causa de todas as causas —: falsamente o dizes. Pois, desde o início da tua pergunta sobre as palavras do autor do ha-Massref, eu te respondi: "vê no Kisé Eliyahu". A nossa kabbalah é que a oração se dirige ao Ein Sof, e serve para fazer fluir a abundância às dez sefirot, como escreveu o Lechem Shlomo. E remeti-te ao Kisé Eliyahu para que soubesses que as palavras do ha-Massref são, de fato, palavras de kefirá heresia, dignas de extirpação — e D'us nos livre que se ache em livro algum autorizado coisa como as dele. Pois, segundo o Kisé Eliyahu, o Ze'ir Anpin não é senão um vaso para a ação do Criador. E o que ele escreveu (p. 25), "que ao chamarmos o Ze'ir Anpin chamamos todos os partzufim, com a alma neles oculta, que é o Ein Sof" — não quer dizer que a oração não seja ao Ein Sof, D'us nos livre, mas que a subida da oração ao Ein Sof se dá por meio desta middá. E a prova está no que escreveu (p. 17b): "e o que está nas kavanot da oração — dirigir, em cada bênção, uma intenção própria a uma sefira própria — não é, D'us nos livre, à essência da sefira, pois isso seria ''cortar as plantas'' kitzutz; e longe de nós dirigir a oração a alguma força particular — mas tudo se dirige à essência do Único, Ein Sof, que inclui todas as forças". E ainda (p. 25a): "todas as nossas orações são ao Ein Sof; só que, como não podemos designá-Lo por nenhum nome, oramos por meio das sefirot — pois ali se aplicam todos os nomes; e todos os nomes são nomes da Sua essência que se difunde nas sefirot". E (p. 26): "e se não fizerem assim, e dirigirem a oração apenas ao Ze'ir Anpin como deus, não serão atendidos". E todos os cabalistas firmam esta regra: "o que achares em algum livro como oração a uma sefira — D'us nos livre que seja assim; mas a intenção é elevá-las ao Ein Sof por meio daquela sefira". E me estendi em tudo isto para te assentar as palavras do Kisé Eliyahu; mas, quanto à minha tradição recebida, já a mencionei acima.

ומה שכתבת שכבר הודיתי שדעתי שאין שום תפלה שייכא בעילת כל העילות שקר אתה דובר. והלא מתחלת שאלתך אותי על דברי המשרף הישבתיך עיין בכס"א. אבל קבלתינו שהתפלה לא"ס ולהשפיע אל עשר ספירות כמו שכ' לחם שלמה. ומה שאמרתי לך לעיין בכסא אליהו כדי שתדע שדברי המשרף דברי כפירה באמת וראוי לבערו. וח"ו שנמצא בשום ספר כדבריו, אבל דברי כס"א אינם כדבריו ח"ו. כי דברי כסא אליהו אין הזעיר אנפין כי אם כלי לפעולת הבורא. ומה שכ' בדף כ"ה שבקראינו לז"א אנחנו קורין אל כל הפרצופים עם נשמה המסתתרת בהם שהוא אין סוף ב"ה. אין רוצה לומר שאין התפילה לא"ס חלילה, אלא רוצה לומר שעליית התפלה אל הא"ס ב"ה דרך זאת המדה. והראיה על זה מה שכ' בדף י"ז ע"ב וז"ל ומה שכתוב בכוונות התפלה והברכות לכוון בכל ברכה כוונה מיוחדת לספי' מיוחדת לא ח"ו לעצמות הספירה. כי הוא קיצוץ ח"ו, וחלילה לכוון לשום כח פרטי וספירה מיוחדת. אלא הכל לעצמות יחיד א"ס ב"ה כלל כל הכחות כולם. ועוד כ' בדף כ"ה ע"א וכל תפלותינו הם לאין סוף ית'. אך שאין אנחנו יכולים לכנותו בשום כנוי ושם. לזה אנחנו מתפללים על ידי הספירות. כי שם שייכות כל כל הכינוים והשמות. כי כל הכנויים והשמות הם שמות עצמותו המתפשט בספירות. וג"כ כ' בדף כ"ו ואם לא יעשו כן ולא ייחדו תפלתם אלא לז"א לא יהיו נענים. וכל המקובלים כיילי כללא דא וז"ל ומה שתמצא באיזה ספר מהם התפלה לשום ספירה חלילה שיהיה כן. אלא הכוונה שיכוין להעלותם אל הא"ס דרך אותה ספירה. והארכתי כל זה לישב לך דברי כס"א, אבל קבלתי כבר זכרתיה למעלה.
Nota — o coração da defesa. Aqui está a resposta mais importante do livro inteiro, do lado da Cabala. À acusação de que a oração é dirigida ao Ze'ir Anpin (um "deus inferior"), o defensor responde com citações do Kisé Eliyahu: toda oração sobe ao Ein Sof; a sefira é apenas o canal da intenção, nunca o seu destino. E vai além: dirigir a oração à essência de uma sefira seria, para os próprios cabalistas, a heresia do kitzutz ("cortar as plantas" — o erro de Acher, que viu duas potências). Se esta leitura procede, a Cabala é tão monoteísta quanto a posição do Rambam. A pergunta que resta — e que Qafih retomará — é se a prática e a linguagem cabalísticas sustentam de fato essa intenção pura, ou se escorregam para a multiplicidade.
"Não sou cabalista", e o "corpo de luz"

E há prova de que o que me perguntas não é por amor da verdade, como disseste, mas para buscar algum pretexto. E que sou eu, para que me tenhas por cabalista? Pois sou bruto e nada sei; e as minhas orações nem chegam a ser como o pipilar dos pássaros — pois os pássaros alimentam-se sem aflição, sem jugo de reino nem de sustento, e talvez pipilem com alguma intenção; mas a mim, quanto jugo do tempo e azáfama do sustento me confundem o juízo! E, além disso, não recebi de um sábio cabalista, de boca a boca. Quem dera me desse o Senhor descanso, e me preparasse um rav cabalista que me pusesse nas veredas da retidão. E quanto ao que escreveste — que não "corporificas" as sefirot —: ora, tu mesmo escreveste "se assim, haverá força num corpo", e agora dizes que "a luz é um corpo sutil". Já te disse que tê-las chamado "luz" não é senão para abrandar o ouvido; mas tu ora corporificas, ora te desculpas. E por que sobem na tua mente todas essas dúvidas? Apenas porque és tu que corporificas.

ויש הוכחה מכאן, שמה שאתה שואלני אינו מטעם בקשתך האמת כמו שאמרת, כי אם לבקש איזה עלילה. ומה אני שאתה מחזיק אותי למקובל, כי אני בער ולא אדע. וכל תפלותי אפי' כצפצוף העופות אינם, כי העופות ניזונים שלא בצער ואין עליהם לא עול מלכות ולא עול דרך ארץ, ואפשר צפצוף בכוונה אבל אני כמה עול הזמן וטרדת המזונות מבלבלים דעתי ומחשבותי. ועוד שלא קבלתי מחכם מקובל מפה אל פה. ומי יתן ויניח לי ה' מטרדות הזמן והמזונות ויזמין לי רב מקובל יניחני במעגלי יושר, ואזכה להיות מבני עליה. ומה שהשבתי לך פעם שניה הוא דברי כס"א שהעלמת עין מהם, ומה שכתבת שאינך מגשים בספירות, והלא כתבת א"כ יהיה כח בגוף. ובפעם הזאת אתה אומר כי האור גוף דק. וכבר כתבתי לך כי מה שכינו אותן בשם אור אינו אלא כדי לשבר את האזן פעם תגשים ופעם תתנצל ולמה עולים בדעתך כל אלו הספקות אלא מפני שאתה מגשים.
Quem governa; e Metatron

E quanto a "quem governa todos esses mundos ocultos": Aquele que os traz à existência é Quem os faz viver. E quanto a "o Ze'ir Anpin como deus dos inferiores": já te escrevi que não é senão um vaso para as ações do Criador. E quanto a "alguns disseram ''toda a grande obra do Senhor'', donde haveria um pequeno": os que assim dizem já explicaram que se referem a Metatron, "cujo nome é como o do seu Senhor" — como disseram no Talmud: "''e a Moshé disse: sobe ao Senhor'' — ''a mim'' devia dizer! Antes, este é Metatron, cujo nome é como o do seu Senhor"; e assim está no Yalkut.

ומה שכתבת מי הוא המנהיג כל אלו העולמות הנעלמים, הממציאם הוא מחיה אותם. ומה שכתבת שנמצא הז"א אלהי התחתונים. הלא כתבתי לך שאינו אלא כלי לפעולות הבורא. ומה שכתבת שמקצתם אמרו את כל מעשה ה' הגדול מכלל דאיכא קטן? האומרים כן כבר ביארו הם שכוונתם על מטטרון ששמו כשם רבו, כמו שאמרו בתלמוד ואל משה אמר עלה אל ה', אלי מבעי ליה אלא זה מטטרון ששמו כשם רבו וכ"ה בילקוט.
"Nem pai, nem filho": tudo nas sefirot

E quanto ao que escreveste — que os nossos verdadeiros Rabinos disseram (na Menorat ha-Maor) que, na entrega da Torá, o Santo rasgou os sete firmamentos, etc.; e no Midrash Rabbá, sobre "Eu sou o Senhor teu D'us": "eu sou o primeiro — pois não tenho pai; o último — pois não tenho filho; e além de mim não há D'us — pois não tenho irmão" —: quem diz que D'us tem pai, filho ou irmão?! És tu que lanças calúnia sobre os sábios, como se eles o dissessem. Eles já explicaram as suas palavras: que todos os apelativos e atributos são ditos nas sefirot, para abrandar o ouvido. Vai e vê o que escreveu o Mahar"i Gikatilla na introdução do Sha'arei Orá, e o divino R. Menachem Recanati, e R. Yossef Chayim: "em suma, todo lugar em que vires coisas que não é cabível dizer do Criador — como ''medida de estatura'' e semelhantes —, tudo é dito sobre as sefirot; e quando vires que falam por modo de louvor e gratidão, tudo é dito sobre o Criador, que está dentro delas e fora delas, pois nada O delimita; e por isso não se diz no Criador nem direita nem esquerda, nem face nem dorso", etc.

ומה שכתבת שרבותינו האמתיים אמרו, הובא במנורת המאור, שבשעת מתן תורה קרע הקב"ה ז' רקיעים וכו'. ובמדרש רבה אמרו אנכי ה' אלהיך, אני ראשון ואני אחרון. אני ראשון שאין לי אב ואני אחרון שאין לי בן ומבלעדי אין אלהים שאין לי אח. מי הוא האומר שיש לו אב או בם או אח? אלא אתה מוציא דבה על החכמים שהם אומרים כן, והם כבר ביארו דבריהם ז"ל, שכל הכנויים והתארים הם בספירות לשבר את האזן. לך נא וראה מה שכתב מהר"י גיקטליא בהקדמת שערי אורה, והאלהי ר"מ ריקנטי, ור"י חיים וז"ל, סוף דבר כל מקום שתראה דברים שאין ראוי לאמרם בבורא ית' כגון שיעור קומה והדומים להם הכל נאמר על הספירות וכשתראה שידברו דרך שבח והודיה, הכל נאמר על הבורא ית' שבתוכן ובחוצה להן כי אין דבר שיגבילהו ועל כן אין לומר בבורא ית' לא ימין ולא שמאל לא פנים ולא אחור וכו' עי"ש.
Nota — "para abrandar o ouvido". Esta é a chave hermenêutica do defensor, e ela espelha (curiosamente) o princípio racionalista do "a Torá fala na língua dos homens": a linguagem antropomórfica da Cabala — "estatura", "membros", "pai e filho" — é metáfora "para abrandar o ouvido" (le-shaber et ha-ozen), nunca descrição literal. E há um segundo ponto, decisivo: as sefirot não são partes do Ein Sof nem emanam d'Ele "por natureza" (isso, dizem os cabalistas, seria "pecado criminoso") — são criação, um chidush gamur. Com isso o defensor afasta de si tanto a acusação de corporeidade quanto a de multiplicidade. A questão que fica para Qafih é se a leitura "metafórica" basta para neutralizar a força de uma linguagem tão concreta.
As sefirot são criação; e os cinco minim

E quanto ao que escreveste — que a opinião dos cabalistas é que as sefirot se encadeiam por natureza, como o filho vem do pai —: D'us nos livre que o tenham dito! Pelo contrário, disseram: "longe de nós crer que as sefirot sejam parte do Ein Sof, que tenham saído d'Ele e se encadeado de causa em efeito — pois isso é pecado criminoso; porque o Ein Sof não se divide em partes, nem recebe acréscimo nem diminuição, mas a Sua existência subsiste sempre, sem mudança alguma" — e Ele os inovou, uma inovação completa chidush gamur, criação. E quanto a "o Ze'ir é filho de Abba e Imma, e pai dos efeitos, e tem uma irmã, a Nukva": tudo é parábola e apelativo nas sefirot. E quanto a "não se deve adorar nenhum partzuf": isto é sabido entre todos os cabalistas, e não precisam da tua advertência. E quanto aos cinco minim do Rambam: quem diz que não há D'us, ou que são dois, ou que Ele é corpo, ou que não é o único Primeiro, ou que serve outro como mediador, ou que criou o mundo de algo pré-existente? Antes, já subiu mágoa no teu coração, e tu tomas as coisas dos livros sagrados no sentido literal, apoiando-te no teu próprio entendimento — e esqueceste o que disse o mais sábio dos sábios: "e no teu próprio entendimento não te apoies" (Mishlei 3:5).

ומה שכתבת שדעת המקובלים שהספירות משתלשלים בטבע כבן מן האב, חלילה שהם אמרו כן, אדרבה אמרו חלילה להאמין ולהעלות על לב שהספירות הם חלק מהאין סוף שיצאו ממנו ונשתלשל מעילה לעלול כי הוא עון פלילי. שהאין סוף אינו מתחלק לחלקים ח"ו, ואינו מקבל תוספת ולא מגרעת אלא מציאותו קיים תמיד בלי שום שינוי כלל, והוא חידשם חידוש גמור. ומה שכתבת שז"א בן לאבא לאמא והוא אב לעלולים שאחריו, ויש לו אחות נוקבא דיליה, הכל משל וכינוי בספירות. ומה שכתבת שאין לעבוד שום פרצוף, זה ידוע בפי כל המקובלים, ואין צריכים לאזהרתך. ומה שכתבת בשם הרמב"ם חמשה הן הנקראים מינים וכו' מי הוא האומר שאין שם אלוה, או שהם שנים, או שהוא בעל גוף, או שאינו לבדו האחד או שעובד זולתו כדי להיות מליץ, או האומר שמצא סמנים או האומר שנברא העולם יש מיש ח"ו. אלא שכבר עלתה טינא בלבך, ואתה מעיין הספרים הקדושים ולוקח לך הדברים כפשטן וסומך על הבנתך. ושכחת מה שאמר חכם החכמים, ואל בינתך אל תשען. ומפני שכבר הודעת לי שאתה מבין תתיר לי ספקותי אשר שלחתי אליך ואשר אני עתיד לשלוח.
As tuas próprias testemunhas: o Rivash

E quanto ao que escreveste — que muitos grandes sábios se afastaram dela da Cabala —: D'us nos livre que haja sábio que dela se afaste; e, se há, ele mesmo admite que é por falta de conhecimento dela. E quanto a "como escreveram o Rivash e o Chavot Yair": falsamente falas sobre eles — e eles são duas testemunhas idôneas para testemunhar contra ti. Eis as palavras do Rivash, em resumo: que R. Peretz haKohen não dava importância àquelas sefirot; e que R. Shimshon de Chinon dizia "eu oro à intenção da'at desta criança" — para tirar do coração a ideia dos que oram ora a uma sefira, ora a outra; e que isso é coisa muito estranha a quem não é cabalista, que julga ser "crença na dualidade". E conta que um filósofo difamava os cabalistas, dizendo: "os cristãos creem na Trindade, e os cabalistas nas Dezenas as dez sefirot"; e perguntou ao sábio ancião Dom Yossef ibn Shoshan — sábio no Talmud, versado em filosofia, cabalista e piedoso —: "como dirigis numa bênção a intenção a uma sefira, e noutra a outra? E haverá divindade nas sefirot, para que se ore a elas?". E responderam-lhe: "D'us nos livre que a oração seja senão ao Santíssimo, Causa das causas; apenas se dirige o pensamento a fazer fluir a abundância àquela sefira que corresponde ao que se pede — como, na bênção ''sobre os justos'', à sefira chamada chesed, que é a medida da misericórdia". Respondeu o filósofo: "eis que é muito bom". E o Rivash conclui: "eu não me embrenho naquela sabedoria, por não a ter recebido da boca de um sábio cabalista… por isso digo que, em coisas assim, só se deve apoiar no recebido da boca de um sábio cabalista". Vês, pois, que o Rivash não se embrenhou nela só por não a ter recebido de boca a boca — não por qualquer reserva, como tu o dizes.

ומה שכתבת והבנת רבים וגדולים חכמי לב הפורשים ממנה ראשונים ואחרונים, ח"ו שיש שום חכם פורש ממנה. ואם יש פורש ממנה הוא עצמו מודה בפה מלא שהוא מחסרון ידיעה בה. ומה שכתבת כמו שכ' הריב"ש וחו"י, שקר אתה דובר עליהם. והם שני עדים כשרים להעיד עליך שאתה דובר שקרים. וז"ל הריב"ש בקיצור כי ר' פרץ הכהן לא היה מדבר ולא מחשיב באותן הספירות. גם שמע מפיו שר' שמשון מקינון היה אומר אני מתפלל לדעת זה התינוק כלומר להוציא מלב המקובלים שהם מתפללים פעם לספירה אחת ופעם לספירה אחרת. גם בתפלת י"ח יש להם בכל אחת ואחת כוונה לספירה ידועה. וכל זה הוא דבר זר מאוד בעיני מי שאינו מקובל כמותם. וחושבים שזה אמונת שניות. וששמע אחד מן המתפלספים מספר בגנות המקובלים והיה אומר הנצרים מאמיני השלוש והמקובלים מאמיני העשיריות. ושאל להחכם הישיש דון יוסף ן' שושן והוא היה חכם בתלמוד. וראה פילוסופיא והיה מקובל וחסיד וגדול ומדקדק במצות. ואמר לו איך אתם המקובלים מכוונים בברכה אחת לספירה ידועה ובברכה אחת לספירה אחרת. ועוד הכי יש אלוהות לספירות? שיתפלל אדם להם? וענו לו חלילה שתהיה התפלה כי אם לשי"ת עילת העילות אלא שמכוין המחשבה להמשיך השפע לאותה ספירה המתיחסת לאותו דבר שהוא מבקש עליו כמו שתאמר שבברכת על הצדיקים יכוין לספירה הנקראת חסד שהיא מדת רחמים וכו'. והביא לו משל על זה. ענה ואמר והנה טוב מאד. ואמר איני תוקע עצמי באותה חכמה אחר שלא קיבלתיה מפי חכם מקובל. ואם ראיתי באורים על סודות הרמב"ן. הם מגלים טפח ומכסים טפחים. ואמר שחכם אחד פירש הקבלה שלא כד' הרמב"ן. ולכן אמר שדברי החכם ההוא יהיו לו לבדו. וחתם דבריו ולזה אני אומר שאין לסמוך בדברים כאלו אלא מפי חכם מקובל. הראית לדעת מה שלא נתקע הריב"ש בה הוא מחמת שלא קבלה מפה אל פה, לא מחמת שום נדנוד כמו שאתה האומר.
Nota — virando as testemunhas. O questionador citara o Rivash (R. Yitzchak bar Sheshet) e o Chavot Yair como autoridades que "se afastaram" da Cabala. O defensor responde com uma jogada hábil: lê o próprio Rivash e mostra que ele não tinha reservas doutrinárias — apenas não se aprofundava na Cabala por não a ter "recebido de um mestre, de boca a boca". E o episódio de Dom Yossef ibn Shoshan repete, de outra voz, o ponto central: contra a acusação de que os cabalistas creriam "nas dez sefirot" como os cristãos na Trindade, a resposta é "D'us nos livre — a oração é só à Causa das causas". Para o defensor, as testemunhas de acusação são, na verdade, testemunhas de defesa.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Ouvir o outro lado por inteiro

Fiel à promessa da Introdução — "ler a obra toda" antes de julgar —, o livro dá agora a palavra, por extenso, ao defensor da Cabala. É a sua réplica mais completa, e merece ser ouvida com a mesma seriedade que a do crítico. Ela tem duas faces: uma indignação de método (não cabe à razão individual investigar uma tradição recebida dos Geonim) e uma defesa doutrinária minuciosa, ponto por ponto.

Os atributos como metáfora

O eixo da defesa é a leitura figurada: tudo o que soa corpóreo ou múltiplo nas sefirot é dito "para abrandar o ouvido" — exatamente como o racionalismo lê os antropomorfismos da própria Torá. E mais: as sefirot não são partes do Ein Sof, nem emanam "por natureza"; são criação (chidush gamur). Com isso, o defensor reivindica para a Cabala o mesmo monoteísmo estrito que o Rambam exige.

Toda oração ao Ein Sof

O ponto decisivo é a oração. Contra a acusação central do livro — que se reza ao Ze'ir Anpin —, o defensor cita o Kisé Eliyahu: toda oração se dirige ao Ein Sof; a sefira é só o canal da intenção; e dirigir a oração à essência de uma sefira seria a própria heresia do kitzutz. Se isto vale, a distância entre os dois lados encolhe muito: ambos querem que o culto suba ao Único. A divergência passa a ser sobre se a linguagem e a prática cabalísticas preservam, de fato, essa pureza — que é o que Qafih disputará.

A divergência de fundo

Por baixo de tudo, reaparece o choque que move o livro: o defensor apela à autoridade da tradição recebida ("quem te deu licença de investigar?"; "no teu entendimento não te apoies"); Qafih, o racionalista, sustenta o dever de examinar os fundamentos da fé. Não é uma briga sobre quem cita melhor — é sobre o que, no fim, tem a última palavra: a transmissão ou a razão. A resposta de Qafih virá nos próximos capítulos.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo X

O Segundo Testemunho: aprender só da boca de um mestre

מִפִּי חָכָם מְקֻבָּל לְאֹזֶן מְקַבֵּל
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O defensor encerra a sua grande réplica chamando a segunda testemunha — o Gaon autor do Chavot Yair. Por ela, e pelas autoridades que cita (o Ramban, o Etz Chaim, a Menorat haMaor), sustenta a sua tese de fundo: a Cabala recebe-se de um mestre, "de boca a ouvido"; nunca se investiga nem se inova pelo intelecto humano. E vira contra o crítico as próprias testemunhas que este invocara.

A segunda testemunha: a pergunta e a resposta

E eis para ti a linguagem da segunda testemunha, o Gaon autor do Chavot Yair, de abençoada memória — em grande resumo: que lhe perguntou um sábio que passara os seus dias no Talmud e nos posekim, e eis que um espírito subiu nele e o despertou a estudar a Cabala, pela excelência das suas virtudes — pois ela é a alma da Torá. E vira ele vários dichos do Zohar a dizer que é impossível "entrar diante do Rei santo" sem ela; e que os sábios do Talmud não a ordenaram, apenas advertiram que dela não se expusesse — "no que te é oculto, não inquiras" etc. E pediu ao Rav que o tirasse da perplexidade. E o Rav respondeu e lhe disse: "Ai de mim, se te aconselhar a abstenção, e causar afrouxamento das mãos e impedimento desta sabedoria — que, sem dúvida, é a alma da Torá e a raiz da fé, como sabedoria, conhecimento e entendimento; e, sem dúvida, quem a merece é dos filhos da ascensão — feliz dele, quão boa é a sua parte, e quão agradável a sua grandeza, amado no alto", etc.

והא לך לשון העד השני הגאון בעל חוות יאיר ז"ל בקיצור גדול מאד ששאלו חכם אחד שבילה ימיו בגמרא ופוסקים, והנה רוח עלתה בקרבו ועוררה אותו ללמוד הקבלה להפלגת מעלותיה שהיא נשמת התורה, וראה כמה מאמרים מהזהר דאי אפשר ליעול קמי מלכא קדישא זולתה, וחכמי התלמוד לא צוו עליה רק הזהירו שלא לדרוש בה, במופלא ממך אל תדרוש וכו' ויבקש מהר' להוציאו ממבוכה, ויען ויאמר לו, אוי לי אם איעצך על הפרישה ולגרום רפיון ידים ומניעה מחכמה זו שהיא בלי ספק נשמת התורה ושורש האמונה כחכמה ודעת ותבונה, ובלי ספק דזכי לה הוא מבני עלייה, אשרי לו, מה טוב חלקו, ומה נעים גודלו, אהוב למעלה וכו'.
Quem não recebeu de um mestre

O Chavot Yair trouxe as palavras do sábio YShR de Cândia, que se estendeu muito e ajuntou, "como feixes na eira", a maioria das opiniões que o precederam — para aproximar, não para afastar da Cabala —, contra o livro Bechinat haDat, que buscou desviar a muitos! E disse que achou "uma estaca fincada em coluna de ferro, em lugar firme em que se apoiar", para concordar com a ideia de receber recompensa pela abstenção mais do que pela livre investigação — no livro Shemen la-Maor, do pai do Rav. (E eis as palavras, em resumo: "e isto que ele escreveu, em nome de R. M. Gabbai — que todo aquele que não recebeu os segredos da Torá do seu mestre e pensa pesá-los com a sua própria razão transgride o ''não farás para ti imagem de escultura'' —, disse comigo no coração que devo alertar para os caminhos das pessoas na nossa geração: vi 'meninos que não viram a luz' dizerem ''eu vi a luz''; dentro deles jaz escondido o orgulho como o fermento, como pintainhos cujos olhos ainda não se abriram"

העלה דברי יש"ר מקנדי"א שהאריך מאד וקבץ כעמיר גורנה רוב דעות שקדמוהו לקרב ולא לרחק, נגד ספר בחינת הדת שבקש להדיח רבים! ואמר שמצא יתד תקוע בעמוד ברזל במקום נאמן ליתלות בו להסכים לקבל שכר על הפרישה יותר מעל הדרישה בס' שמן למאור לאביו של הרב (וז"ל בקיצור והאי מלתא שכתב, בשם ר"מ גבאי דכל מי שלא קבל סתרי תורה מרבו וחושב לשקלן בדעתו עובר על לא תעשה לך פסל, אמרתי עם לבי לעורר על דרכי בני אדם בדורינו, ראיתי עוללים לא ראו אור יאמרו חמותי ראיתי אור, בקרבם טמון כשאור אפרוחי שלא נתפתהו
O Ramban: só da boca de um cabalista

os seus olhos', etc. E mesmo os grandes da terra — quem é agudo e arguto, perito nos aposentos da Torá —, não há força no seu intelecto para alcançar os ''aposentos da luz'', senão da boca de um ancião e mestre.) E eis as palavras do Ramban, na sua introdução ao comentário da Torá: "e eis que eu vos trago numa aliança fiel — e é ela que dá conselho digno a todo o que olhar neste livro — que não conjecture conjetura, nem pense pensamentos, em coisa alguma dos enigmas que escrevo nos segredos da Torá; pois eu anuncio fielmente que as minhas palavras não serão alcançadas por nenhum intelecto nem entendimento, senão da boca de um sábio cabalista a um ouvido receptor e atento; e a conjetura nelas é tolice de muitos danos, que impede o proveito", etc. E, se disseres que isso vale só para o comentário do Ramban — cujas palavras vêm em resumo, por alusão, ao contrário dos demais livros de Cabala, que explicaram as suas palavras —: eis que vês no Sha'arei Orá que ele escreveu em cada página a expressão "eis que apenas aludo"; e assim no livro do Bachya, que abreviou muito, e era costume na sua boca dizer "e o sábio entenderá"; quanto mais o livro do Zohar, que é fechado e selado. E eis as palavras do Etz Chaim, na sua introdução: "ainda que, sem dúvida, nas últimas gerações muitos se sustentem desta obra, não há dúvida de que as águas da sabedoria não se revelarão a todo homem por força da especulação, conforme o seu intelecto humano, mas só por uma influência divina derramada sobre ele". E, se o último dos cabalistas exagerou a ponto de dizer que as suas palavras não seriam alcançadas, como subirá à mente de algum intelecto humano — em especial nos homens desta nossa geração — entender e compreender as palavras do D'us vivo, as palavras do Rashbi, cuja voz é de labaredas de fogo, e que estão seladas com mil selos? Por isso, ó homens de coração, ouvi-me, e não vos arrojeis a olhar nos livros posteriores, construídos sobre

עיניהם וכו'. ואפי' הגדולים אשר בארץ מי שהוא חריף וחרוץ בקי בחדרי תורה. אין כח בשכלו להשיג בחדרי אורה, כי אם מפי זקן ומורה. וז"ל הרמב"ן בהקדמתו לפי' התורה ואני הנני מביא בברית נאמנת והיא הנותנת עצה הוגנת לכל מסתכל בספר הזה, לבל יסבור סברא, ולא יחשוב מחשבות בדבר מכל הרמזים אשר אני כותב בסתרי התורה כי אני מודיע נאמנה שלא יושגו דברי בשום שכל ובינה, זולתי מפי חכם מקובל לאזן מקבל מבין. והסברא בהם איוולת רבת הנזקים, מונעת התועלת וכו' ואם תאמר שאני פי' הרמב"ן, שכל דבריו בקיצור ברמיזה, משא"כ שאר ספרי קבלה שביארו דבריהם. הלא תראה בשערי אורה כתב בכל דף לשון הנני רומז. וכן בס' בחיי קיצר מאד ורגיל על לשונו לומר והמשכיל יבין כ"ש ספר הזהר שהוא סגור ומסוגר, וז"ל עץ חיים בהקדמתו: עם היות שבודאי בדורות האחרונים מתפרנסין מהאי חיבורא. אין ספק כי מי החכמה לא יתגלו לכל אדם בכח עיון כפי שכלם האנושי אלא ע"י שפע אלהי המושפע עליו. ואם האחרון שבמקובלים הפליג לומר שלא יושגו דבריו איך יעלה בדעת שכל אנושי בפרט באנשי דורנו זה להבין ולהשכיל דברי אלהים חיים הרשב"י אשר קול דברותיו מלהבי אש, והם חתומים באלף עזקן וכו'. לכן אנשי לבב שמעו לי ואל תהרסון לראות ספרים אחרונים הבנויים על
Nota — a chave de toda a defesa. O coração do segundo testemunho é a citação do Ramban: os segredos da Torá "não serão alcançados por nenhum intelecto, senão da boca de um sábio cabalista a um ouvido que recebe". Para o defensor, a Cabala é um saber transmitido (de mestre a discípulo, em cadeia desde o Sinai), não um saber investigado. Por isso ele empilha autoridades — o Etz Chaim, o Shemen la-Maor, o Bachya — que dizem todas o mesmo: a especulação independente nestas matérias é "tolice de muitos danos". É exatamente o ponto que o racionalista Qafih recusa: para ele, a razão tem o dever de examinar os fundamentos da fé. Toda a obra é, no fundo, este duelo de métodos.
Melhor abster-se sem um guia

o seu intelecto humano. E, a meu ver, quando o homem peca pelo pensamento da mente no mundo de Atzilut, grande é o seu pecado, demais para suportar. E, ainda que muitos — e até varões íntegros — dentre os cabalistas posteriores tenham despertado fortemente os corações das pessoas para o estudo da Cabala, e escrito que quem se retrai de estudá-la é "repelido da sua morada e perde o seu mundo" —, parece-me que não há divergência entre eles: pois, sem dúvida, quem pode aprender da boca de um cabalista divino, que lhe explique os assuntos — como fez o AR"I aos seus discípulos —, feliz a sua parte. E ainda que os posteriores tenham permitido aprender dos livros e entender por conta própria, vale que "melhor a unha dos primeiros" etc., e "sentar-se e não fazer é preferível", pois "mais grave é o perigo da alma do que o do corpo". E não nos cabe investigar os assuntos ocultos, senão ouvir e ater-nos ao estudo dos sentidos simples das Escrituras e à exortação moral, para nos conduzirmos nos caminhos retos — pois o nosso conhecimento é curto. Até aqui a linguagem do Shemen la-Maor, de que se tira a prova para concordar com a abstenção, etc.

פי שכלם האנושי ע"ש ולדעתי כי כשאדם חוטא בהרהור המחשבה בעולם האצילות גדול עונו מנשוא. אע"פ שרבים וכן שלמים ממקובלים אחרונים עוררו לבות בני אדם מאד על לימוד הקבלה וכתבו שהחושך עצמו מללמוד קבלה הוא נדחה ממחיצתו ומפסיד עולמו. נראה לי שלא פליגי ובודאי מי שיכול ללמוד מפי מקובל אלהי אשר יסביר לו העניינים כאשר עשה האר"י לתלמידיו אשרי חלקו. ואע"ג דהאחרונים התירו ללמוד מן הספרים ולהבין מדעתו. טוב ציפורנם של ראשונים וכו' ושב ואל תעשה עדיף דחמירא סכנתא דגופא וכ"ש דנפש וכו' ואין לנו לחקור בנסתרות כי אם לשמוע בלימודי פשטי המקראות ותוכחת מוסר להתנהג בדרכי ישרים כי ידיעתינו קצרה ע"כ לשון שמן המאור אשר הראיה ממנו להסכים על הפרישה וכו'.
A parábola da Terra de Israel

"E, com tudo isto, revelei-te a minha opinião; mas não te apoies em mim — nem tu nem outro —, pois não sou digno de decidir. E eis que eu comparo o estudo deste 'santo dos santos' a uma viagem à Terra Santa: pois conhecida é a sua excelência, como disseram no Talmud — que quem está fora dela é como quem 'não tem D'us', e como um adorador de idolatria; e quem caminha quatro côvados na Terra de Israel é 'filho do mundo vindouro'; e quantos louvores mais! E, mesmo assim, escreveram os Tossafot, em nome de R. Chayim, que hoje não é mandamento morar na Terra — pois há vários mandamentos dependentes da Terra que não conseguimos cumprir; e ainda, por causa do perigo dos caminhos, e por causa da pobreza ali, que o levaria a transgredir contra o seu juízo e o juízo do seu Criador."

ועם כל זה גליתי לך דעתי ולא תסמוך עלי לא אתה ולא אחר כי איני כדאי להכריע והנה אני מדמה לימוד קדש קדשים הזה לנסיעה לארץ הקדש כי ידוע מעלתה כמו שאמרו בתלמוד שהרי בזולתה דומה כמי שאין לו אלוה ובעובד ע"ז והמהלך ד' אמות בא"י הוא בן העה"ב וכמה שבחים. ואפילו הכי כתבו התוס' בשם רבי חיים דעכשיו אינו מצוה לדור בארץ. כי יש כמה מצות התלוים בארץ שאין אנו יכולים לעמוד עליהם. ועוד מפני סכנת דרכים, ומפני העוני שם יעבירנו על דעתו ועל דעת קונו שם.
Nota — a parábola da Terra de Israel. A imagem é elegante e reveladora. A excelência da Terra de Israel é suprema (quem caminha quatro côvados nela é "filho do mundo vindouro"), e ainda assim houve quem aconselhasse, em certas épocas, cautela antes de migrar — pelos perigos do caminho e pela pobreza que poderiam fazer o viajante tropeçar. Assim também a Cabala: a sua excelência é "alta, sem medida", mas, sem um mestre que guie e proteja, é melhor abster-se. Note-se o quanto isto inverte o instinto racionalista: aqui a cautela diante do estudo é virtude, e a iniciativa do intelecto solitário é o perigo. Para Qafih será o oposto — examinar é dever, e a abstenção da razão é que arrisca o erro.
Quem deu licença ao intelecto?

"E, se não há diante dele um perito e guarda excelente contra todos os danos, bom é abster-se disto! Ora, quem poderia negar a excelência desta sabedoria — alta, sem medida —, com a condição de que quem a merecer a aprenda da boca de um cabalista, que a recebeu também ele do seu mestre? E, na verdade, eu me espanto com livros compostos por posteriores, que trouxeram dichos do Zohar e neles dificultam e explicam conforme o seu juízo: quem deu licença ao intelecto humano de inventar, do seu juízo, coisas na realidade das 'três primeiras' e das 'três puríssimas' sefirot? — pois está explicado no Zohar que 'há lugar que não se sujeita à pergunta' etc. E não há prova a tirar de um dicho do Zohar, ou do Sefer Yetzirá, ou de R. M. — que os receberam da boca 'do ancião dos anciãos', e de Eliyahu, e dos santos do alto; e de todas aquelas 'crianças' que no Zohar falaram porque o espírito do Senhor falava nelas e a Sua palavra estava na sua língua; e também o AR"I e os seus 'leõezinhos', que receberam dele de boca a boca — da boca dos seres superiores saíram as palavras. Mas nós, no nosso estudo daquelas coisas, nada nos sobe à mente além da mera leitura das palavras — ao contrário desses posteriores, que explicam tudo do seu juízo. E eis, meu amado como meu irmão, que o 'governo da Terra de Israel' é o que se compara na parábola: pois o longo caminho do Rav ao 'lugar do Nome', no alcance do segredo, tem por obstáculos a limitação de quem alcança, a profundidade do alcançado e a multidão de pressupostos — causas que impedem todo alcance de sabedoria, e em especial da Cabala; e, sobre tudo, o pecado, que se interpõe e separa entre o intelecto e o inteligível, etc. E eis que, ainda que o autor do Pardes Rimonim, pela grandeza da sua santidade, se acautelou muito, em vários lugares, e adverte fortemente contra o pensamento estranho de separação, limite e 'governo como potências' etc. — também nós diremos: 'quem dera que se derramasse sobre nós um espírito

ובאם אין לפניו בקי ושמירה מעולה מכל נזקים טוב למנוע מזה! הלא נמי מי יכחיש מעלת חכמה זו הגבה למעלה בלי ערך. בתנאי לדזכי לה ללמדה מפי מקובל שקבלה ג"כ מרבו. והן אמת שאני תמיה על ספרים שחוברו מאחרונים שהביאו מאמרים מהזהר. והמה מקשים בהם ומבארים כפי שיקול דעתם. מי נתן רשות לשכל אנושי להמציא משיקול דעתו במציאות שלש ראשונות ושלש צחצחות, כי מבואר בזהר דאית מקום דלא קימא לשאלה וכו' ואין ראיה ממאמר הזהר וס' יצירה ור"מ שקבילו מפי סבא דסבין ואליהו ומקדישין עילאין וכל הנך ינוקי דבזהר רוח ה' דבר בם ומלתו על לשונם, וגם האר"י וגוריו שקיבלו ממנו פה אל פה מפי עליונים יצאו הדברים ואנן בלמודינו באותן לא יעלה בדעתינו זולת קריאת המלות, מה שאין כן אלו האחרונים והמבארים משיקול הדעת. והנה אהובי כאחי ז"ל ממשל ארץ ישראל הנמשל, כי המהלך הרב אל מקום השם בהסגת הסוד הוא קוצר המשיג ועומק המושג, ורבוי ההצעות שהם סבות מונעות בכל השגת חכמה, ובפרט בחכמת הקבלה מכמה פנים, ועל כולם החטא שהוא מוסך ומבדיל בין השכל והמושכל וכו' והנה אף כי בעל פרדס רמונים לגודל קדושתו וחסידותו נזהר מאד בכמה מקומות ומזהיר מאד על מחשבה זרה שלפירוד וגבול וממשל משלים וכו' ואף אנו נאמר מי יתן ויערה עלינו רוח
Receber em fé, não inovar

do alto, para que compreendamos e entendamos as coisas sem desvio da verdade e das raízes da religião', etc. E nestas coisas, toma na mão esta regra: que todas as coisas proibidas nos livros dos cabalistas, que eles mencionaram sem disputa e sem convite a investigação — entende-as no seu sentido simples, e a conexão das coisas ata-a 'na tábua do teu coração', e sejam por filactérios entre os teus olhos. E ainda que se leiam diante de ti coisas que parecem espantosas — por si mesmas, ou porque parecem (D'us nos livre) conter separação, número, corporeidade ou mudança —, recebe-as com a fé do íntegro emunat omen, e diz no teu coração que é a tua razão que é curta na profundidade do entendimento — sem que duvides (D'us nos livre) de uma sequer das raízes da religião enunciadas no hino Yigdal e em vários lugares; pois também aqueles princípios fundamentais é impossível descer à sua raiz pelo intelecto humano, etc. E, a partir de agora, vai e aprende que é proibido inovar e entender uma coisa a partir do que está escrito num livro — não vá a interpretação não acertar a verdade. Porém, explicar versículos conforme o que disseram os cabalistas, tomado como premissa aceita — apenas que, sobre isso, se explique o versículo, ou se diga que nele se aludiu, segundo a guematria, ou as letras iniciais e finais das palavras —, isto é bom e belo; contanto que se diga só por modo de possibilidade, e não se decida a coisa, etc.; e que não se consuma o seu tempo nelas. E aquilo que o Senhor pôs no seu coração, e que é saboroso e correto, sem forçar — não o lance para trás das costas, mas escreva-o por memória, e seja a seus olhos 'como quem acha grande despojo' — pois é sinal para a sua alma, 'parte de D'us do alto', de que tem sucção e entrada em lugar elevado, e 'santo' lhe será chamado. E agora, eis que te revelei os segredos do meu coração; e tu — o 'rei', na tua reflexão e no teu conhecimento santo e amplo — anuncia-me, por favor, os teus caminhos, e eu anularei a minha opinião diante da tua." — Yair Chayim Bacharach.

ממרום שנשכיל ונבין הדברים בלי נטייה מן האמת ומשרשי הדת וכו'. ובאלו נקוט האיי כללא בידך שכל דברים האסורים בספרי המקובלים שזכרו בלי מחלוקת בדבר ובלי חקירה, ויובנו פשטן של דברים וחיבור הדברים קשרם על לוח לבן ויהיו לטטפות בין עיניך. ואף כי יקרא לפניך דברים הנראים תמוהים מצד עצמן או מצד שנראה חלילה שיש פירוד ומספר וגשמות ושינוי, תקבלם באמונת אומן, ותאמר בלבבך כי קצרה דעתך וידיעתך בעומק הבנה מבלי שתסתפק ח"ו באחד משרשי הדת האמורים ביגדל ובכמה דוכתי, שהרי גם אותם העיקרי אי אפשר לירד לשרשם מצד שכל אנושי וכו'. ומעתה צא ולמד שאסור לחדש ולהבין דבר מתוך הנכתב בספר פן לא יכוין אל האמת, אמנם לבאר פסוקים על פי מה שאמרו המקובלים שהקדמה מוסכמת רק שעל זה מבאר הפ' או אומר שנרמז בו על פי הגימטריא או ראשי וסופי תיבות. טוב ויפה הוא שרק יאמרנו בדרך אפשר לא להחליט הדבר וכו' רק לא יכלה זמנו בהם, ואשר נתן ה' בלבבו והוא מוטעם נכון בלי דוחק אל ישליך אחרי גיוו רק יכתבנו לזכרון ויהיה בעיניו במוצא שלל רב, כי הוא סימן לנשמתו חלק אלוה ממעל שיש לו יניקה ומבוא במקום גבוה, וקדוש יאמר לו, ועתה הנה גליתי לך מצפוני לבי. ואתה המלך בעיונך ודעתך הקדושה והרחבה הודיעני נא
Nota — "a fé do íntegro". Aqui está o princípio que o racionalista mais contestará. Diante de uma passagem cabalística que pareça implicar "separação, número, corporeidade ou mudança" em D'us, a regra do defensor é: aceita-a em emunat omen (fé pura), atribuindo a estranheza à curteza da tua própria mente, sem deixar que ela abale as raízes da fé (a unidade e a incorporeidade de D'us, enunciadas no Yigdal). É uma defesa coerente — a mesma confiança que se deve aos princípios fundamentais, que também "não se alcançam à raiz pelo intelecto". Mas é o exato avesso do método de Qafih, para quem uma formulação que soa a corporeidade ou multiplicidade deve ser examinada e corrigida, não recebida em silêncio.
As tuas testemunhas depõem contra ti

Eis que viste as palavras do Gaon Chavot Yair — quão temeroso e trêmulo ele é de decidir pela abstenção, apoiando-se nas palavras do Gaon autor do Shemen la-Maor (trazidas acima) —, e como ainda assim teme dizer explicitamente que se abstenha, não vá causar afrouxamento das mãos no trato desta sabedoria santa; e quanto ele louva esta sabedoria, para quem merece aprendê-la da boca de um cabalista; e admite que todo aquele que se retrai de estudá-la depois de a ter recebido é "repelido da sua morada"; e como ele mesmo permite ocupar-se das coisas da Cabala — e, se vir diante de si coisas espantosas, que as receba com a fé do íntegro, e as atribua à curteza da sua razão. Sendo assim, as tuas duas testemunhas — o Rivash e o Chavot Yair — testemunham e declaram contra ti que és tu que forjas coisas do teu coração! E onde está a "abstenção" com que ele se absteve, como disseste? Ora, ele mesmo disse: "quem dera que se derramasse sobre nós um espírito do alto" etc.

את דרכיך, ואבטל דעתי מפני דעתך. יאיר חיים בכרך. הראית לדעת דברי הגאון חוות יאיר כמה הוא ירא וחרד מלהורות על הפרישה ומסתייע בדברי הגאון בעל שמן למאור הובאו דבריו למעלה, ועדין הוא ירא לאמר בהדיא פן יגרום רפיון ידים מעסק החכמה הקדושה הזאת, וכמה הוא משבח החכמה הזאת לדזכי לה ללמדה מפי מקובל, ומודה שכל החושך עצמו מללמוד בה אחר שקיבלה הוא נדחה ממחיצתו, וגם כן הוא מתיר לעסוק בדברי קבלה ואם יראה לפניו דברים תמוהים שיקבלם באמונת אומן, ויתלה בקצר דעתו. א"כ שני עדיך הריב"ש וחוות יאיר יעידון ויגידון בך שאתה בודה דברים מלבך, והיכן היא פרישתו שפירש כמו שאמרת? והלא הוא עצמו אמר מי יתן ויערה עלינו רוח ממרום וכו'.
Nota — virando a segunda testemunha. Como fez com o Rivash no capítulo anterior, o defensor lê o próprio Chavot Yair e mostra que ele, longe de "abandonar" a Cabala, a louva como "a alma da Torá" e só hesita em recomendá-la sem mestre — receio pedagógico, não dúvida doutrinária. Logo as duas testemunhas que o crítico invocara (Rivash e Chavot Yair) depõem, na leitura do defensor, a favor da Cabala. A seguir, ele reforça o argumento provando que o próprio Chavot Yair praticava a Cabala — e que outros gigantes (a Menorat haMaor) eram cabalistas.
Prova: o Chavot Yair era cabalista

E ainda te trago prova de que ele mereceu a sabedoria da Cabala — pois no siman 172 escreveu (eis as suas palavras): que é possível haver ainda coisas de segredo e mistério em dois versículos — "mil a vinha de Bat-Shua" e "três mil" —, pois, pelo pecado de Adam haRishon, corromperam-se três alefin: de emet verdade, de adnut senhorio e de adam homem, e restou "mat-din-dam" morte-juízo-sangue, correspondente à idolatria, à imoralidade e ao derramamento de sangue. E o rei David reparou o alef de emet — por isso "não provou sono à noite" —, mas não chegou a reparar o din nem o dam, como lhe disse o Santo: "não construirás a Casa, pois muito sangue derramaste; mas sim o teu filho Shlomo, pois é homem de paz" etc. E Shlomo reparou dois alefin, e, com o alef do seu pai, repararam-se três alefin; e o assunto de "Bat" é sabido aos "conhecedores do oculto", pois ali está a essência da falha; e ainda se estendeu no segredo do assunto. E no siman 176, a respeito "do que alimenta um cego de um dos olhos" — e, com tudo isso, levantei brado, pois "há uma luz para mim" a indicar que em ambos há o que ressalvar; ao menos, onde haja outro digno e cabível como ele — pois sabido é que os 248 membros do corpo são trono e semelhança para 248 luzes supernas e para os 248 membros da alma; e, se assim, em caso como este, o "trono" fica falho, pois, segundo o oculto, há "montes e montes" de segredos ocultos nos membros do corpo, e há falta de influência no "cálice da bênção". E também, no fecho do livro, escreveu que fez 635 responsa e reuniu delas 232, pelo número da expressão "yehi or" haja luz — e 232 é, em guematria, os quatro "preenchimentos" do Nome Havayá: ע"ב, ס"ג, מ"ה, בן, que estão em Abba, Imma, Ze'ir e na sua Nukva. E ainda: "yehi or" equivale a "Yah yair" Y-ah ilumina, que são as fontes de Tiferet e Malchut que estão na Biná — que é a luz emanada no primeiro dia. E ainda se estendeu muito em coisas de segredo. Também o seu pai, autor do Shemen la-Maor, era um cabalista divino — pois os seus poemas se imprimiram no fim do livro, e são segundo o Nome de 42 letras, as 12 combinações de Havayá, as 24 combinações de Adnut, e o Nome de 22.

ואני מביא לך ראיה שזכה לחכמת הקבלה, שהרי בסי' קע"ב כתב וז"ל שאפשר שיש עוד דברי סוד וסתר בשני פסוקים דאלפים בת יכיל וג' אלפים בת' כי בחטא אדם הראשון נתקלקלו שלשה אלפין מאמת ומאדנות ומאדם, ונשאר מת-דין-דם נגד ע"ז, גילוי עריות ושפיכות דמים. ודוד המלך תיקן אמת, לכן לא טעם שינה בלילה, ולא הספיק לתקן דין גם דם, כמו שאמר הקב"ה לא תבנה הבית כי דמים רבים שפכת, רק בנך שלמה כי שלום וכו'. ותקן שלמה שני אלפין ועם האלף דאביו נתקנו ג' אלפין, וענין בת ידוע לי"ח כי עיקר הפגם שם, ועוד האריך בסוד הענין שם. וסי' קע"ו לענין הזן סומא באחת מעיניו, ועם כל זה קראתי תיגר כי נר לי דבתרווייהו איכא למיחד מיהו, היכא דאיכא אחר הגון וראוי כיוצא בו כי ידוע שרמ"ח איברים הם כסא ודמות לרמ"ח אורות עליונים ורמ"ח איברים של נשמה. ואם כן כל כי האי גונא הכסא פגום, כי על פי הנסתר יש תלי תלים סודות נסתרים באיברי הגוף, ויש חסרון שפע בכוס של ברכה. העליון ג"כ בחתימת הספר כ' שעשה תרל"ה תשובות וליקט מהן רל"ב מספר יהי אור והוא בגימטריא ד' מילוי הויה ע"ב ס"ג מ"ה בן שבאבא ואימא וזעיר ונוקביה. ועוד יהי אור יה יאיר. שהם מקורי תפארת ומלכות שבבינה שהוא אור הנאצל ביום ראשון ועוד האריך בדברי סוד וסתר הרבה. ג"כ אביו בעל שמן למאור היה מקובל אלהי שהרי נדפסו חרוזיו בסוף הספר. והן על פי שם בן מ"ב וי"ב צירופי הוי'ה וכ"ד צירופי אדנות ושם בן כ"ב,
Também a Menorat haMaor

Também o sábio verdadeiro, autor da Menorat haMaor, era um cabalista divino — pois escreveu, no capítulo 93, sobre o "Baruch she-Amar", sendo o seu modo explicá-lo pelo número "o dez, o dez" etc.; e no capítulo 95 escreveu que "não se diz Kaddish com menos de dez", e a razão é que "no dez se completa a santidade, que está acima das dez sefirot"; e no capítulo 133 escreveu que, quando Yaakov descia ao Egito, viu que o exílio começava nele e na sua descendência, e se atemorizou; e ofereceu sacrifícios "ao Pavor do seu pai Yitzchak", para que a medida do juízo não se estendesse contra ele — e fez isto em Be'er Sheva, que era "casa de oração" para os seus pais; e ofereceu shelamim ofertas de paz para "completar" nele todas as medidas, como expuseram: "shelamim — que lançam paz", para nele completar a medida da Guevurá. E no capítulo 147 escreveu: "acha-se que a perfeição da santidade está no dez, que alude às dez Havayot, que são as dez 'ma'amarot' enunciados com que o mundo foi criado". E no capítulo 153 escreveu: "e, pelo caminho da verdade — 'pois em seis dias fez o Senhor' etc., e no sétimo dia é Shabat, e este não tem 'par'; e a Knesset Yisrael é o seu 'par', como está dito 'e a terra' — e eis que é Shemini Atzeret, pois ali 'tudo se retém'; e isto é o que disseram, 'o oitavo é festa por si mesma', e é o complemento do primeiro, pois é a emanação dos primeiros, e não está na unidade deles; e quem entender nas Havayot, compreenderá e achará a verdade". E, no fecho do livro, escreveu: "e o quinto tema, deixei de fora as coisas graves, que são ocultas e elevadas, e que não há quem as alcance senão um único na geração" — eis que ele queria escrever coisas de segredo na sua obra, e não o fez apenas porque não são próprias para todo homem.

גם החכם האמתי בעל מנורת המאור היה מקובל אלהי שהרי כתב בפ' צ"ג על ברוך שאמר דרכו בה מספר העשרה העשרה וכו'. ובפ' צ"ה כ' אין אומרים קדיש בפחות מעשרה, והטעם לפי שבעשרה נשלמה הקדושה שהיא למעלה מעשר ספירות, ובפ' קל"ג כתב וכשהיה יעקב יורד למצרים ראה כי הגלות התחיל בו ובזרעו ופחד ממנו וזבח זבחים לפחד אביו יצחק שלא תהא מדת הדין מתוחה כנגדו, ועשה זה בבאר שבע שהיא בית תפלה לאבותיו, והקריב שלמים להשלים אליו כל המדות כמו שדרשו שלמים שמטילים שלום להשלים אליו מדת הגבורה, ובפ' קמ"ז כתב נמצא כי שלמות הקדושה היא בעשר הרומזים לעשר הויות והם עשרה מאמרות שבהם נברא העולם. ובפ' קנ"ג כתב ועל דרך האמת כי ששת ימים עשה ה' וכו' וביום השביעי הוא שבת ואין לו בן זוג, וכנסת ישראל היא בת זוגו שנ' ואת הארץ והנה הוא שמיני עצרת, כי שם נעצר הכל. וזהו מאמרם שמיני רגל בפני עצמו ותשלומי ראשון הוא כי הוא אצילות הראשונים ואינו באחדות שלהם, ומי שיבין בהויות ישכיל וימצא האמת, ובחתימת הספר כתב והחמישי עזבתי הדברים החמורים שהם נסתרים וגבוהים ואין מי שישיג אותם אלא יחיד בדור, הרי שהיה רוצה לכתוב דברי סתר בחבורו. אלא מפני שאינן ראוים לכל אדם.
Ninguém disputa a Cabala

Viste, pois, para saber que não há quem dispute a Cabala — nem os primeiros nem os posteriores, nem os "muitos" nem os "indivíduos", nem os grandes nem os pequenos. Ao contrário: todos concordam em que, para quem merece a Cabala "de boca a ouvido", não há virtude melhor do que ela; e que é proibido expô-la e investigá-la — mas, se quiser, que a receba com fé íntegra, e não a interprete pelo seu intelecto humano; pois há de atribuir o que lhe pareceu difícil à curteza da sua razão, e não há de arrojar-se a pensar coisa alguma contra a alma. — E com isto se completaram todas as palavras do mais ínfimo dos ínfimos.

הראית לדעת שאין מי שיחלוק על הקבלה. לא הראשונים ולא מאחרונים לא רבין ולא יחידים, לא גדולים ולא קטנים. אדרבה הכל מסכימים שמי שיזכה לקבלה מפה לאזן אין לך מדה טובה ממנה. ושאסור לדרוש ולחקור עליה, אלא אם ירצה יקבלה באמונה שלימה ולא יפרשה בשכלו האנושי. כי יתלה מה שהקשה עליו בקוצר דעתו ולא יהרוס לחשוב שום הנשמה. ובזה נשלמו כל דברי שפל השפלים.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A conclusão da defesa

Com este capítulo fecha-se a longa réplica do defensor da Cabala, iniciada no capítulo anterior. Tendo apresentado o Rivash como primeira testemunha, ele chama agora a segunda — o Chavot Yair (R. Yair Chayim Bacharach) — e, através dela, todo um coro de autoridades: o Ramban, o Etz Chaim, o Shemen la-Maor, a Menorat haMaor. O objetivo é único: mostrar que nenhum grande sábio rejeitou a Cabala.

Receber, não investigar

O fio que une todas as citações é metodológico. A Cabala é um saber transmitido — "da boca de um sábio cabalista a um ouvido que recebe" (Ramban) — e não um saber a que a razão chegue por conta própria. Daí a parábola da Terra de Israel: excelsa, mas perigosa sem um guia; e daí a regra da fé do íntegro — aceitar até as passagens que pareçam corpóreas, atribuindo a estranheza à curteza da própria mente. É a inversão exata do programa de Qafih.

Virando as testemunhas

O lance retórico mais forte é a leitura das testemunhas. O crítico citara o Rivash e o Chavot Yair como sábios que "se afastaram" da Cabala; o defensor mostra que ambos a louvam e que o Chavot Yair, longe de duvidar, praticava-a (as provas dos simanim 172 e 176, o número "yehi or"). A hesitação deles, conclui, era pedagógica — não recomendá-la sem mestre —, não doutrinária.

O que fica para a resposta

A defesa é coerente e poderosa; apresentamo-la inteira. Mas ela deixa intacta a pergunta que Qafih fará a seguir: se um sistema só pode ser recebido e nunca examinado, como distinguir uma tradição autêntica de um acréscimo tardio? E uma linguagem que se manda aceitar "em fé", mesmo quando soa a multiplicidade, basta para garantir que o culto suba de fato ao Único? A réplica do racionalista abre o próximo capítulo.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XI

A Resposta de Qafih: seguir Chazal, conhecer a D'us

אֵין מַשְׁגִּיחִין בְּבַת קוֹל
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Depois de ouvir, por dois capítulos, toda a defesa da Cabala, é a vez do próprio Qafih responder. Ele abre com uma prece e firma o seu princípio: a autoridade está na tradição recebida do Talmud — não em livros tardios, sinais, ou uma voz dos céus; conhecer a D'us é dever, não ousadia; e até a Grande Corte pode errar. E defende o seu círculo contra a acusação de "desprezar os sábios" — relatando a perseguição que sofreram.

A prece, e o caminho dos verdadeiros mestres

Seção: "E tu voltarás, e ouvirás a voz do Senhor" Devarim 30:8. Resposta. Peço ao meu D'us que me guie nas veredas da retidão e me livre do lábio mentiroso, da língua enganadora. "Ensina-me, Senhor, os teus caminhos; andarei na tua verdade; unifica o meu coração para temer o teu Nome"; "e envia a tua luz e a tua verdade — elas me guiarão", para eu devolver palavra bem assentada nos seus eixos. "Tira de sobre mim opróbrio e desprezo, pois guardei os teus testemunhos. Até quando príncipes se assentaram e falaram contra mim, o teu servo meditava nos teus estatutos". Então não me envergonharei — enquanto não me desviar do caminho que nos ensinaram os nossos Sábios de abençoada memória, os mestres da Mishná, do Talmud, dos Midrashim verdadeiros e dos posekim que andam nas suas pegadas, sobre os quais se apoia toda a casa de Israel. Pois eles é que são os verdadeiros recebedores da tradição, que receberam de Moshé, nosso mestre — a paz sobre ele —, as generalidades e os detalhes da Torá, sobre os quais ele permaneceu no Sinai quarenta dias e quarenta noites, e os transmitiu a Yehoshua, e Yehoshua aos anciãos etc., como consta no tratado de Avot.

סדר ואתה תשוב ושמעת בקול ה'. תשובה אשאלה מאלהי ינחני במעגלי יושר ויצילנו משפת שקר, מלשון רמיה. הוריני ה' דרכיך אהלך באמתך. יחד לבבי ליראה שמך ושלח אורך ואמתך המה ינחוני להשיב דבר דבור על אפניו. גל מעלי חרפה ובוז כי עדותיך נצרתי. גם כי ישבו שרים בי נדברו, עבדך ישיח בחוקיך. אז לא אבוש כאשר לא אסור מן הדרך אשר למדונו רז"ל בעלי המשנה והתלמוד והמדרשים האמתיים והפוסקים ההולכים בעקבותיהם. אשר כל בית ישראל נשענים עליהם. כי המה בעלי הקבלה האמתית אשר קבלו ממרע"ה כללותיה ופרטותיה של תורה אשר עליהם עמד בסיני ארבעים יום וארבעים לילה ומסרן ליהושע ויהושע לזקנים וכו' כדאיתא במס' אבות.
Nem por sinais, nem por uma voz dos céus

(1) E um dever sagrado recai sobre nós: andar nas suas pegadas em toda matéria da qual decorra consequência para a halachá — em todos os assuntos de proibido e permitido, impuro e puro, inválido e válido. E quanto mais nos assuntos da unidade do Santo, bendito seja — que é o grande princípio, e após ele vem a aceitação de todos os mandamentos e o como cumpri-los, conforme disse o Tana, a paz sobre ele: "por que precedeu a passagem do 'Shemá' à do 'Ve-hayá im shamoa'?" etc. E todo autor de livro que venha a acrescentar ou diminuir das suas palavras — e quanto mais a desviar-nos da fé da nossa santa Torá, conforme a tradição dos nossos mestres da Mishná e do Talmud — não lhe daremos ouvidos. E ainda que faça sinais e prodígios no céu e na terra, não nos desviaremos de após o Senhor, nosso D'us, agarrados à tradição dos nossos Sábios, mestres da Mishná e do Talmud e dos posekim que vêm depois deles nas suas pegadas. E ainda que do céu se anuncie uma bat kol dizendo "ouvi-o", para desviar -nos da sua tradição — não lhe damos atenção, conforme o dito de R. Yehoshua: "não se dá atenção a uma bat kol", pois "não está nos céus".

א) וחוב קדוש מוטל עלינו ללכת בעקבותיהם בכל מידי דנפקא מינה לדינא בכל ענייני איסור והתר וטמא וטהור ופסול וכשר. וכ"ש בענייני יחוד השי"ת שהוא העיקר הגדול ואחריו קבלת כל המצות וכיצד עשייתן כמאמר התנא ע"ה למה קדמה פרשת שמע לוהיה אם שמוע וכו'! וכל מחבר ספר אשר יבוא להוסיף או לגרוע מדבריהם וכ"ש להטותינו מאמונת תוה"ק כפי קבלת רבותינו בעלי המשנה והתלמוד. לא נשמע לו. ואף אם יעש אותות ומופתים בשמים ובארץ לא נסור מאחרי ה' אלהינו על פי קבלת רז"ל בעלי המשנה והתלמוד והפוסקים הבאים אחריהם ההולכים בעקבותיהם, וגם אם מן השמים תקרא בת קול שמעו אליו לבור מקבלתם לא משגחינן בה כמאמר ר' יהושע אין משגיחין בבת קול כי לא בשמים היא.
Nota — "não se atenta a uma voz dos céus". Qafih invoca a célebre disputa do "forno de Achnai" (Bava Metzia 59b): mesmo uma bat kol (voz celeste) confirmando R. Eliezer não pôde sobrepor-se à decisão da maioria dos Sábios, pois a Torá "não está nos céus" (Devarim 30:12) — foi dada e está confiada à tradição transmitida. É o seu princípio de autoridade: o que governa a fé e a lei é a cadeia recebida desde o Sinai (Mishná, Talmud, posekim), e nada — nem um livro posterior, nem sinais e prodígios, nem uma revelação alegada — pode desviá-la. É a resposta exata ao apelo do defensor a fontes "recebidas de Eliyahu e dos santos do alto".
Quem alega que Eliyahu lhe apareceu

(2) E quanto mais que não acreditaremos nele ao dizer que se lhe revelou Eliyahu, ou o "ancião dos anciãos" — que seria o Atika Kadisha, chamado Keter Elyon —: pois, sem dúvida, um tal é profeta falso, e a sua morte é por estrangulamento, como está explicado nas palavras do Rambam, no comentário da Mishná, na sua introdução à Ordem de Zera'im. E na guemará de Pessachim (34) lê-se: a respeito do "desvio da atenção" num sacrifício, R. Yochanan disse que é "invalidez de impureza" — tal que, se viesse Eliyahu e a purificasse, dizendo que a impureza não os tocou, dar-se-lhe-ia ouvidos; e Resh Lakish disse que é "invalidez do próprio corpo" — tal que, se viesse Eliyahu e a purificasse, não se lhe daria ouvidos. E explicou Rashi, de abençoada memória: "invalidez do corpo" é uma condição intrínseca nas oferendas, pelo que se invalidam por isso; e tal invalidez é por si mesma — e, mesmo que venha Eliyahu e diga que não se tornaram impuras em todos aqueles dias em que se desviou a atenção delas, não se lhe dá ouvidos. Donde se aprende que todo o que venha a mudar a lei e a permitir o proibido — ainda que proibição rabínica — não se lhe dá ouvidos.

ב) וכ"ש שלא נאמין לו באמרו שנגלה אליו אליהו או סבא דסבין, שהוא עתיקא קדישא הנקרא כתר עליון, דודאי נביא שקר הוא ובמיתתו בחנק. כמבואה בדברי הרמב"ם בפי' המשנה בהקדמתו לסדר זרעים. ובגמ' פסחים (לד) גרס' אמתר הסח הדעת ר' יוחנן אמר פסול טומאה, שאם יבוא אליהו ויטהרנה ויאמר שלא נגעה טומאה בהן שומעין לו, ור"ל אמר פסול הגוף הוי, שאם יבוא אליהו ויטהרנה אין שומעין לו עכ"ל, ופי' רשי ז"ל פיסול הגוף מעלה היא בקדשים היא שנפסלין בכך, ושם פיסול הוא לעצמו, ואפי' אם יבוא אליהו ויאמר שלא נטמאו כל רותן הימים שהסיח דעתו מהן אין שומעין לו ע"כ, אלמלא כל הבא לשנות ולהתיר את האסור, אפי' איסור דרבנן אין שומעין לו.
Conhecer a D'us é dever, não ousadia

(3) E, na verdade, o começo das palavras da tua boca é tolice e mau desvario: que disseste "como me encheu o coração de investigar e esquadrinhar" etc. E por que não?! Ao contrário — o oposto é que é razoável: pois, já que dizem que se deve servir o Ze'ir Anpin, que é um criado (Yosher Levav, p. 3b), é dever absoluto sobre nós, e sobre cada um de Israel, conhecer o Senhor — que é Criador e não criado — e servi-Lo, como está escrito "e saberás hoje, e farás voltar ao teu coração ... que o Senhor é D'us" etc., e diz "conhece o D'us de teu pai e serve-O" I Crônicas 28:9. E permitiram os Sábios, para afastar alguém de uma transgressão, falar até numa latrina e numa casa de banhos — onde normalmente é proibido cogitar em palavras de Torá; mas, para afastar de uma transgressão, é permitido. E quanto ao teu espanto, "como poderiam errar?" — não há nisso maravilha alguma; e não são superiores os da seita dos cabalistas posteriores — que andaram na sua simplicidade atrás da ordem do "filósofo" autor do Zohar (que o pendurou em Rashbi e em R. Elazar, seu filho, e seus companheiros) — aos membros da Grande Corte Sanhedrin que se assentam na "Câmara de Pedra Lavrada", sobre os quais disse a Escritura: "quando te for difícil uma coisa para julgar" etc., "e te levantarás

ג) ובאמת שהחלת דברי פיך סכלות והוללות רעה שאמרת איך מלאני לבי לדרוש ולחקור וכו' ולמה לא? אדרבא איפכא מסתברא (כיון שאומרים לעבוד לז"א שהוא נברא יושר לבב דף ג' ע"ב ועוז לאלוהים). חוב גמור עלינו ועל כל אחד ואחד בישראל לדעת את ה' שהוא בורא ולא נברא ולעבדו ככתוב וידעת היום והשבות אל לבבך. וידעת כי ה' אלהיך הוא האלהים וכו' ואומר דע את אלהי אביך ועבדהו. והתירו חכמים לאפרושי מאיסורא אפי' בבית הכסא ובבית המרחץ שאסור להרהר בהם בדברי תורה. ולאפרושי מאיסורא שרי. ועל תמיהתך איך יטעו? אין זה פלא. ולא עדיפי כת המקובלים האחרונים אשר הלכו לתומם אחרי צו של הפילוסוף מחבר הזהר שתלאו ברשב"י ור' אלעזר בנו וחביריו מסנהדרי גדולה היושבים בלשכת הגזית שעליהם אמר הכתוב כי יפלא ממך דבר למשפט וכו' וקמת
Nota — a inversão da pergunta. O defensor perguntara, indignado: "quem te deu licença de investigar?". Qafih devolve: por que não? — pelo contrário, conhecer a D'us como Criador (e não criatura) é um dever da Torá ("e saberás hoje", Devarim 4:39). E demole o argumento de autoridade: se até a Grande Sanhedrin — a corte suprema da Câmara de Pedra Lavrada — podia errar em decisão (a ponto de a Torá prever um sacrifício pelo erro coletivo, Vayikrá 4 / Bamidbar 15), então a alegação de que os mestres da Cabala "não podem ter errado" não se sustenta. Uma tradição que se diz infalível e imune a exame é, para ele, precisamente o que a própria Torá não admite.
Até a Grande Corte pode errar

e subirás ao lugar que o Senhor teu D'us escolher" etc., "e farás conforme a palavra que te disserem" etc. Devarim 17:8-10. E, com tudo isto, disse a Torá que, se a Grande Corte errou numa decisão e o povo agiu conforme ela, trazem um sacrifício pelo seu erro: se erraram e decidiram em matéria de idolatria, e assim ensinaram, trazem "um novilho por holocausto e um bode por oferta pelo pecado" de cada tribo — e isto é o dito na parashá de Shelach, "e se dos olhos da congregação se fez por erro" etc.; e se erraram e ensinaram em matéria de outras transgressões puníveis com karet, traz cada tribo um novilho por oferta pelo pecado — e isto é o dito na parashá de Vayikrá. (4) E não há de ser a força dos nossos mestres, os da Cabala nova, maior do que a força da Grande Corte que se assenta na Câmara de Pedra Lavrada, nem o seu alcance maior que o alcance da Grande Sanhedrin! E, com tudo isto, disse a Torá que, se erraram e ensinaram a permitir o proibido, ou erraram em matéria de idolatria etc. — aprendemos da Torá, e dos nossos mestres no tratado Horayot, que é possível que a Grande Corte erre e ensine permissão nalgum detalhe de idolatria. Pois o homem é "pinçado do barro" Iyov 33:6, seja grande ou pequeno, e está sujeito a errar; e por isso ordenou a Torá "quando te for difícil uma coisa para julgar" etc., "e te levantarás e subirás ao lugar que o Senhor teu D'us escolher" — para diminuir o erro. Mas como não é impossível que errem mesmo a Grande Corte? — pois se diz na Torá "e se ocultou a coisa dos olhos da congregação", "e se dos olhos da congregação se fez por erro". E, conforme a curteza do nosso conhecimento, ao vermos o grande abismo que há entre os nossos primeiros mestres — e como era a sua fé no tocante à Divindade e à unidade do Santo, conforme a santa Torá, como está explicado em R. Bachya, autor do Chovot haLevavot, e em R. Yehudá haLevi no livro ha-Kuzari e nas suas orações piyutim, e em R. Saadia Gaon no livro ha-Emunot ve-ha-De'ot, e no Rambam, na sua obra magna, no comentário da Mishná e no livro Moré ha-Nevuchim; e no Rokeach, na "Porta

ועלית אל המקום אשר יבחר ה' אלוהיך וכו' ועשית על פי הדבר אשר יגידו לך וכו'. ועם כל זה אמרה תורה שאם שגגו ב"ד הגדול בהוראה ועשו העם על פיהם מביאים קרבן על שגגם. אם בע"ז שגגו והורו מביאים פר לעולה ושעיר לחטאת מכל שבט ושבט. והוא האמור בפרשת שלח והיה אם מעיני העדה נעשתה לשגגה, ואם בשאר כריתות שגגו והורו מביא כל שבט ושבט פר לחטאת והוא האמור בפרשת ויקרא. ואם כל עדת ישראל ישגו ונעלם דבר מעיני הקהל. ד) ולא יהא כח רבותינו בעלי הקבלה החדשה גדול מכח ב"ד הגדול היושבים בלשכת הגזית ולא השגתם יתירה מהשגת סנהדרי גדולה! ועם כל זה אמרה תורה שאם טעו והורו להתיר את האסור, או שגגו בע"ז וכו'. למדנו מן התורה ומרבותינו במסכת הוריות, שאפשר לב"ד הגדול לטעות ולהורות התר באיזה פרט בע"ז. כי האדם קורץ מחומר בין גדול בין קטן, ועלול הוא לטעות, ולכן צותה תורה כי יפלא ממך דבר למשפט וכו' וקמת ועלית אל המקום אשר יבחר ה' אלהיך כדי למעט הטעות. איך אינו נמנע שלא יטעו אפי' ב"ד הגדול. שהרי נאמר בתורה ונעלם דבר מעיני הקהל. והיה אם מעיני העדה נעשתה לשגגה. ולפי קוצר דעתינו בראותינו ההפרק הגדול שיש בין רבותינו הראשונים ואיך היתה אמונתם בענין האלוהות ויחוד השי"ת על פי תוה"ק כמבואר בר' בחיי בעל חובת הלבבות ור' יהודה הלוי בספר הכוזרי ובתפלותיו ור' סעדיה גאון בס' האמונות והדעות והרמב"ם בחיבורו ובפי' המשנה ובס' מורה הנבוכים. והרוקח בשער
A "crença nova" e a separação

da Unidade"; e no Sefer Mitzvot haGadol Semag, e em R. Yossef Albo no livro ha-Ikkarim, e em R. Meir Aldabi no livro Shvilei Emuná — e além deles, muitos, e varões íntegros. E como é a coisa agora, nos livros dos nossos mestres posteriores, segundo a Cabala nova — que se estende desde o início do sexto milênio com "cordas de vaidade", até tornar-se, no nosso tempo, "como cordas de carro" Yeshayahu 5:18 —, e que creram em muitos deuses; e que o principal dentre eles, ao qual se dirige todo o nosso culto e as nossas bênçãos, seria o último partzuf da Emanação, chamado (ketzer apayim) Ze'ir Anpin. (5) E esta crença nova está muito distante do caminho da nossa santa Torá, escrita e oral. E por isso nos separamos dela, e nos apegamos às palavras dos nossos mestres de abençoada memória, mestres da Mishná e do Talmud — Bavli e Yerushalmi — e dos posekim e dos Midrashim dos nossos mestres consagrados: o Midrash Rabbá, o Tanchumá, o Yalkut Shimoni, o Midrash haGadol (existente no Iêmen, em manuscrito), o Nur al-Zalám e semelhantes. E também o restante das obras dos nossos antigos, os sábios do Iêmen, achamos e vimos que estão apegados às palavras dos grandes sábios mencionados acima e às suas opiniões. E, ao verdes que nos separamos da Cabala nova, irou-se contra nós a vossa fúria, e com altivez de espírito lançastes sobre nós a calúnia dos arrogantes. E nós vos pedimos que nos ensinásseis o caminho — como se conciliam as palavras dos nossos mestres cabalistas novos com as palavras dos nossos primeiros mestres mencionados acima, e com as palavras dos Tanaím e dos Amoraím. E a vossa resposta para conosco foi por modo de engano e provocação. E, na terceira vez, a vossa resposta foi como a pergunta de um dos quatro filhos: "que é este culto para vós" — "para vós", e não para ele o filho ímpio —, como se não nos tivesse sido ordenado na Torá "e saberás hoje, e farás voltar ao teu coração que o Senhor é D'us" etc.; e como se não tivessem vindo na Torá, nos Profetas e nos Escritos vários versículos sobre isto, e quanto mais nas palavras dos nossos Sábios! Também voltaste a ser da seita dos que falam língua maligna lashon hará e dos que a recebem, ao dizeres que "já há contra nós várias testemunhas de que desprezamos os sábios, e não o poderemos mais negar" etc. Ora, sabido e notório é que não se recebe testemunho senão na presença da parte acusada.

הייחוד, וס' מצות הגדול ורבי יוסף אלבו בספר העיקרים, ור' מאיר אלדבי בספר שבילי אמונה. וזולתם רבים וכן שלימים. ואיך הוא עתה בספרי רבותינו האחרונים ע"פ הקבלה החדשה הנמשכת מתחלת אלף השישי בחבלי השוא עד שנעשית בזמנינו כעבות העגלה והאמינו באלהים רבים. ושהעיקר בהם אשר אליו כל עבודתינו וברכותינו הוא הפרצוף האחרון שבאצילות הנקרא (קצר אפים) זעיר אנפין. ה) ואמונה זו החדשה רחוקה מאד מדרך תורתינו הק' שבכתב ושבעל פה. ולכן פירשנו עצמינו ממנה ודבקנו בדברי רבותינו ז"ל בעלי המשנה והתלמוד בבלי וירושלמי והפוסקים ומדרשי רבותינו המפורסמים, מדרש רבה ותנחומא וילקוט שמעוני ומדרש הגדול המצוי בתימן בכת"י, ונור אלצלאם וכיוצא בהם. גם שארית חבורי קדמונינו חכמי תימן מצינו וראינו שהם אדוקים בדברי הגדולים הנזכרים לעיל ובדעותיהם. וכראותכם שפירשנו מן הקבלה החדשה חרה אפכם בנו, וברמות רוחא טפלתם עלינו שקר זדים. ושאלנו אתכם להורותינו הדרך איך יסכימו דברי רבותינו המקובלים החדשים עם דברי רבותינו הראשונים הנזכרים לעיל, ועם דברי התנאים והאמוראים. והיתה תשובתכם אלינו בדרך הטעאה וקינטורים. ובפעם השלישית היתה תשובתכם כשאלת אחד מארבעה בנים מה העבודה הזאת לכם, לכם ולא לו, כאילו לא נצטוינו בתורה וידעת היום והשבות אל לבבך כי ה' הוא האלהים וכו' וכמה מקראות באו בתורה ובנביאים ובכתובים על זה וכל שכן בדברי רז"ל. גם חזרת להיות מכת מספרי לשון הרע וממקבליו באמרך שכבר יש עלינו כמה עדים שאנחנו מבזים את החכמים ולא נוכל להכחיש עוד וכו'. והן ידוע ומפורסם שאין מקבלין עדות אלא בפני בעל דין.
Nota — o pano de fundo histórico. "Separamo-nos dela; e, ao verdes isso, irou-se a vossa fúria" — aqui aflora a controvérsia do Dor Deah ("a geração do conhecimento"), o movimento liderado por Qafih no Iêmen para devolver ao judaísmo o racionalismo de Maimônides. A disputa com a corrente cabalística majoritária foi amarga e desembocou em perseguição mútua (denúncias às autoridades otomanas, prisões, cherem). As expressões mais duras de Qafih — "crença em muitos deuses", o Zohar como livro tardio — são a sua leitura polêmica da Cabala luriânica (os partzufim, o Ze'ir Anpin); não são como os cabalistas se descrevem, e a réplica deles já foi exposta nos capítulos IX–X. Lemos isto como testemunho de um conflito real, não como veredito sobre a Cabala.
Como aceitaste a calúnia?

E é da Torá que tanto os casos monetários quanto os casos capitais se decidem com inquirição e investigação, como escreveu o Rambam, de abençoada memória, no capítulo 3 das Hilchot Edut; mas disseram os Sábios — para que não se "tranque a porta diante dos que pedem empréstimo" — que as testemunhas em casos monetários não precisam de inquirição e investigação etc. Em que caso se disse isto? Em casos de confissões e empréstimos, doações e vendas; mas em casos de multas precisa-se de inquirição e investigação, e nem é preciso dizer que sim em casos de açoites e exílio; e num juízo em que há suspeita de fraude, mesmo em casos monetários, precisa-se de inquirição e investigação. (6) E, no nosso caso, todos estes critérios mais rigorosos se aplicam — e ainda os ignoraste! E como te encheu o coração de aceitar língua maligna de homens tolos — que andam descalços como os excomungados ante o Céu — e tê-la por testemunho cabal, a ponto de reputar o teu próximo, fiel na Torá e nos mandamentos da Torá e dos Sábios, como sendo dos apikorsim e minim? E sabido e notório é que esta geração é uma geração de vaidade e mentira, e que ela está mesmo entre os líderes de Israel; e cada um se honra com a vergonha do seu próximo. E contra os que se levantam de madrugada buscando a luz — "isto é a Torá" —, e os que fazem das noites como dias e servem à Torá, para que ela não se esqueça de Israel, conforme as suas forças, derramastes desprezo; e pusestes os que estudam a Torá e a sustentam como desprezíveis e vis, "como objeto que não se deseja". E todo o que faz o mal é bom aos vossos olhos, e mais honrado que eles; e, por meio de calúnias mentirosas, pusestes os que estudam a Torá em opróbrio aos olhos de todos os que os veem — até que chegaram a um grau muito baixo, em que os amei ha-aretz os ignorantes se gabam, dizendo: "felizes nós, quão boa é a nossa parte, e doce o nosso sono até o nascer do sol; e mais honra herdaremos do que esses que se levantam na casa do Senhor pelas noites" — cumprindo o que se disse "e se desprezardes os meus estatutos" Vayikrá 26:15: "se desprezardes os que ensinam os meus estatutos", como escreveu o Rambam, de abençoada memória, nas Hilchot Talmud Torá.

ומן התורה אחד דיני ממונות ואחד דיני נפשות בדרישה וחקירה כמו שכ' הרמב"ם ז"ל בפרק ג' מהלכות עדות אבל אמרו חכמים כדי שלא תנעול דלת בפני לוין אין עדי ממון צריכים דרישה וחקירה וכו'. במה דברים אמורים בהודאות והלואות, מתנות ומכירות, אבל בדיני קנסות צריכים דרישה וחקירה, ואין צריך לומר במלקיות ובגלות, ובדין מרומה אף בדיני ממונות צריך דרישה וחקירה. ו) ובנדון דידן כולהו איתינהו ביה, ואיך מלאך לבך לקבל לשון הרע מאנשים סכלים ההולכים יחפים כמנודים לשמים, ולחשוב אותה לעדות גמורה, להחזיק את עמיתך בתורה ובמצות דאוריתא ודרבנן לאפיקורסים ומינים שהם מכלל אותם שמורידין ולא מעלין? וידוע הוא ומפורסם, כי זה הדור, דור שוא ושקר, והיא בנשיאי ישראל, וכל אחד מתכבד בקלון חברו ורבו אשר העמידו בקרו אורה זו תורה. ובמשימי לילות כימים ועבדי לתורה שלא תשתכח מישראל כפי יכולתם שפכתם בוז, ותשימו את לומדי התורה ומחזיקים בה נבזים ושפלים ככלי אין חפץ בו. וכל עושי רע טוב בעיניכם, ומכובד יותר מהם, ועל ידי דבות שקר שמתם לומדי תורה לשמצה בעיני כל רואיהם עד שבאו למדרגה פחותה מאד, שעמי הארץ משתבחים בעצמם לומר אשרינו מה טוב חלקנו וערבה שנתינו עד עלות השמש וכבוד ננחל יותר מאלה העומדים בבית ה' בלילות, לקיים מה שנאמר ואם בחקותי תמאסו, אם במלמדי חקותי תמאסו, כמו שכ הרמב"ם ז"ל בהל' תלמוד תורה.
Investigar as testemunhas — diz o próprio cabalista

(7) E eis as palavras do cabalista, autor do Heichal haBerachá: "mandamento positivo sobre a Corte é inquirir e investigar as testemunhas com sete inquirições" etc.; "ainda há exames, que são perguntas de detalhe: que vestes trajava? a terra sobre que o réu estava era negra, ou areia, ou argila? — e, se se contradisseram um ao outro, anula-se o testemunho". "Das raízes deste mandamento: a noiva enfeitada, 'donzela formosa que não tem olhos' imagem do Zohar — a condução deste mundo, para que haja livre-arbítrio; 'os seus olhos são como pombas'; há engano para os filhos dos homens; e os seus olhos estão no 'palácio do mérito', 'os olhos da congregação', que julgam com conhecimento, segundo duas testemunhas — 'duas coroas'; e o 'conhecimento' da'at é o segredo dos 'olhos', como se sabe; e esta luz se difunde em sete aspectos" etc. — vê ali. E sobre o mandamento "não andarás como mexeriqueiro" escreveu (eis as suas palavras): "não relatar ao seu próximo que aquele que está em frente falou mal dele, conforme se disse 'não andarás como mexeriqueiro'. E dos preceitos deste mandamento — ainda que se fale a verdade —, e que há grande iniquidade nisto. E também está incluído neste preceito negativo que não se fale da vergonha do seu próximo, ainda que seja verdade; e é como se tal pessoa negasse o Princípio" etc. E ele estendeu-se ainda na pena do que fala língua maligna e na recompensa do que dela se guarda — vê ali.

ז) וז"ל המקובל בעל היכל הברכה, מצות עשה על הב"ד לדרוש ולחקור את העדים בשבע חקירות וכו' עוד יש בדיקות שהוא שאלות מה היה לבוש, עפר הארץ שהיה עומד עליה שחור או חול, או חמר, ואם כחשו זה לזה בטל העדות. משרשי המצוה הזאת הכלה הכלולה עולימתא שפירתא דלית בה עינין, הנהגת העולם הזה שיהא בחירה חפשית עיניו כיונים אונאה לבני נשא. ועינין דילה בהיכל זכות, עיני העדה, שדנין בידיעה על פי שנים עדים, תרין עטרין, והדעת הוא סוד עינים כנודע, ואור זה מתפשט בשבע בחינות וכ' ע"ש. ובמצות לא תלך רכיל כתב וז"ל, שלא להגיד לחברו, שכנגדו דבר עליו רע, שנאמר, לא תלך רכיל. ומדיני המצוה אף שמדבר אמת, ויש עון גדול בזה. וגם בכלל לאו זה שלא ידבר כגנות חברו אף אמת והוא כאילו כפר בעיקר וכו'. והאריך עוד בעונש המספר לשון הרע ובשכר הנשמר ממנו, יעו"ש.
Nota — virando as fontes do adversário. O lance é refinado: Qafih cita um cabalista — R. Yitzchak Eizik Safrin de Komarno, autor do Heichal haBerachá — sobre as leis de investigar testemunhas e de não falar mal do próximo (mesmo verdade), "como se negasse o Princípio". Ou seja: mesmo pelas próprias fontes do campo cabalístico, quem aceitou a calúnia contra ele e o seu círculo, sem investigação e à revelia, transgrediu gravemente. Ao mesmo tempo, o gesto mostra que a sua disputa é com doutrinas (os partzufim, o Ze'ir Anpin), não com o valor moral de cada autor cabalista — de quem ele aqui se serve com respeito.
Não te calarás diante da injúria

(8) E sobre a advertência "não te porás parado sobre o sangue do teu próximo" Vayikrá 19:16, escreveu o mesmo cabalista: "mesmo um 'ficar parado' qualquer — não vejas a aflição do teu próximo quando um outro o envergonha e tu te calas, 'eles ficaram parados e não responderam com ajuda'; antes, sê dos que protestam, com toda a tua força, contra quem despreza o teu próximo, ou fala dele mexerico e língua maligna. Tu não serás dos que 'ouvem e se calam'; antes, dir-lhe-ás: 'ímpio, perturbador de Israel — por que falas afronta contra a semelhança do nosso Criador, e contra a Presença Shechiná da nossa fortaleza, que é o ''yud'' que está no ''teu povo'' amechá, e que se retira por causa desta transgressão?'. E por isso se justapôs este preceito àquele, 'não andarás como mexeriqueiro'. E, se disseres 'visto que não sou eu que falo, ouvirei e me calarei, e me deleitarei no fato de o meu próximo ser ímpio a falar' — também este que ouve é ímpio cabal, e transgride o 'não te porás sobre o sangue do teu próximo', e não tem parte no D'us de Israel, por, quando ouve um ímpio a falar afronta contra um justo, ou um sussurrador a sussurrar mentiras contra o seu próximo,

ח) ובאזהרת לא תעמוד על דם רעך, כ' אפי' עמידה כל דהו. לא תראה בצערו של חברך שאחד מלבין פניו ואתה שותק, עמדו ולא ענו עזר, אלא תהיה מוחה בכל יכלתך במי שמבזה חברך, או מדבר עליו רכילות ולשון הרע, אתה לא תהיה שמוע ושותק, אלא תאמר לו רשע עוכר ישראל, למה תדבר סרה על דמות יוצרנו ועל שכינת עוזינו שהיא היו"ד שבעמיך, ומסתלקת בעון זה. ולכך נסמכה זה לזה, לא תלך רכיל ותאמר כיון שאיני מדבר אשמע ואשתוק ונהנה במה שחברו רשע מדבר, גם זה השומע רשע גמור. ועובר על לא תעמוד על דם רעך. ואין לו חלק באלהי ישראל כששומע רשע מדבר סרה על צדיק, או לוחש מלחש בשקרים על חברו
E tu, amigo, creste nas mentiras

antes, imediatamente o repelirás, e lhe dirás 'ímpio, sai de sobre mim, não te ouço' — pois, se ouve e se cala, e quanto mais se se deleita, o seu fim é ser julgado em 'fogo não assoprado', e não merecerá estar no recinto dos justos; pois o que ouve é como o que responde, como o que fala — todos serão tirados do mundo, neste mundo e no vindouro". (9) E tu, nosso amigo, não te bastou não teres feito uma sequer de todas estas coisas, mas ainda acreditaste nas suas palavras, e recebeste as suas mentiras — por uma só testemunha e um só juiz, e não na presença da parte acusada, e sem investigação, e sem inquirição, e sem exame; e te deleitaste nas suas palavras, e até ajudaste a reforçar as suas mentiras, e isso se gravou no teu juízo como "verdade verdadeira", a ponto de escreveres que "não o posso mais negar" etc. E não puseste no teu coração que não se recebe testemunho senão na presença da parte acusada, e que estás obrigado a inquiri-los e investigá-los com sete inquirições, e exames, como te é ordenado — quanto mais que eles fizeram "no escuro as suas obras", e "alisaram a sua língua" para contigo no segredo das suas palavras, a fim de "achar iniquidade para odiar"; e tu estavas obrigado a silenciá-los com repreensão. Não é isto senão maldade de coração — pois tu te deleitas e te enlevas no seu mexerico e na sua delação. O Misericordioso nos livre de tal mentalidade!

רק תכף תדחה אותו ותאמר לו רשע לך מעלי, איני שומע לך, כי אם הוא שומע ושותק, וכל שכן אם נהנה, סופו נידון באש לא נופח, ולא יזכה לעמוד במחיצת הצדיקים, כשומע, כעונה, כמדבר, כולם יספו מן העולם בזה ובבא עכ"ל. ט) ואתה ידידנו לא דייך שלא עשית אחת מכל אלה, אלא שהאמנת לדבריהם וקבלת שקריהם, בעד אחד ודיין אחד, ושלא בפני בעל דין, ובלא חקירה ובלא דרישה, ובלא בדיקה, ונהנית בדבריהם, וגם סייעת לחזק שקריהם ונרשם בדעתך כאמת לאמתו, עד שכתבת שאיני יכול להכחיש עוד וכו'. ולא שמת אל לבך שאין מקבלין עדות אלא בפני בעל דין, ושאתה מחויב לדרוש ולחקור אותם בשבע חקירות ובדרישות ובדיקות כמצווה עליך. כל שכן שעשו במחשך מעשיהם, והחליקו לשונם אליך בסתר דבריהם, למצוא עון לשנוא והית מחויב לשתקם בנזיפה. אין זה כי אם רוע לב שאתה נהנה ומשתוקק ברכילותם ומלשינותם. רחמנא ליצלן מהאי דעתא!
Pior que Yeravam ben Nevat

E é possível que também tu acrescentes do teu próprio delação mentirosa, para te honrares com a vergonha dos teus companheiros. E no capítulo "Arvei Pessachim" (115) lemos: disse Rav Sheshet, em nome de Rabi Elazar ben Azaria: todo o que fala língua maligna, e o que testemunha falso testemunho contra o seu próximo, é digno de ser lançado aos cães, conforme se disse "ao cão o lançareis" Shemot 22:30 — e logo está escrito "não levantarás tissá um falso boato", e lê-se também "não farás levantar tassi" etc.; e ainda achamos várias exposições dos nossos Sábios sobre a pena do que fala língua maligna. E no Machzor Vitry, no tratado de Avot, sobre o que se ensinou "não julgues o teu próximo até chegares ao seu lugar", escreveu: "até que venha à tua mão aquela mesma transgressão, e te livres e te esquives dela" — como achamos em Yeravam ben Nevat: que, na hora em que Shlomo desposou a filha do Faraó, ela lhe introduziu todo tipo de música do mundo, e lhe disse "assim se faz a tal idolatria". Certa vez, Shlomo foi dormir, e o dia entardeceu; ela foi e chamou os artífices da madeira e os construtores, os que fazem obra de entalhe e arte, e fizeram sobre o seu leito como que um firmamento, e nele sol, lua, estrelas e constelações; e de manhã Shlomo despertou do sono para abrir as portas do Heichal Templo — pois as chaves do Heichal estavam debaixo da sua cabeceira —, e viu que o "firmamento" estava luminoso de estrelas e a sua hoste; supôs que ainda não passara a noite, e voltou a dormir; e dormiu mais quatro horas, até que entendeu e reconheceu, por si, que a noite não era tão longa. E sobre aquela hora ensinamos um testemunho a respeito do tamid da manhã, que se ofereceu só às quatro horas, na Corte Eleita. E, antes de Shlomo despertar, foi Yeravam ben Nevat à porta da sua casa, e fez passar um clamor: "ímpio! até quando dormirás e anularás o tamid da manhã? Que tens, ó adormecido? Levanta-te, clama ao teu D'us!". Mas saiu uma bat kol e lhe disse: "ímpio, filho de ímpio! tu mesmo hás de anular de Israel quantos e quantos sacrifícios, de propósito; e ainda o acusas, a Shlomo, do involuntário como se fosse proposital, e do forçado como se fosse voluntário!" — e isto é o que está escrito "quando Efraim falava, houve tremor; ele se exaltou em Israel, mas tornou-se culpado por causa do Baal e morreu" Hoshéa 13:1: "quando falou Efraim" — foi quando Yeravam, que era da tribo de Efraim, proferiu "tremor", acusação contra Shlomo; "ele se exaltou em Israel" — era Yeravam, líder em Israel e rei; e a bat kol lhe respondeu que "tornar-se-ia culpado por causa do Baal e morreria". E tu agigantaste e acrescentaste a fazer o mal mais do que Yeravam ben Nevat: pois, depois de nos terdes levado à casa do cárcere com delação mentirosa junto ao nosso exaltado governo, convocaste todo o povo a sair ao cemitério, e ordenaste-lhes pôr pó sobre as suas cabeças — por nada! Não por um mandamento leve que teríamos anulado, nem por um grave (D'us nos livre), mas apenas porque andamos conforme os costumes dos nossos antigos, e fixamos o nosso estudo na Mishná, no Talmud, no Rambam e no Shulchan Aruch — para aprender e ensinar, guardar e fazer —, e porque não estudamos, ademais, no livro forjado, o livro do Zohar, conforme o vosso costume.

ואפשר שגם אתה מוסיף משלך מלשינות שקר כדי להתכבד בקלון חבריך. ובפרק ערבי פסחים (קי"ה) גרסינן אמר רב ששת משום ראב"ע כל המספר לשון הרע, והמעיד עדות שקר בחברו ראוי להשליכו לכלבים שנאמר לכלב תשליכון אותו, וכתיב בהדיא לא תשא שמע שוא וקרי ביה לא תשיא, ועוד כמה דרשות מצינו לרז"ל בעונש המספר לשון הרע. ובמחזור ויטרי מסכת אבות על הא דתנן על תדון את חבירך עד שתגיע חמקומו כ' עש שתבא לידך אותה עבירה ותנצל ותשמט ממנה כמו שמצינו בירבעם בן נבט, שבשעה שנשא שלמה את בת פרעה הכניסה לו כל מיני זמר שבעולם ואמרה לו כך עושין לע"ז פלונית פעם אחת הלך לישן והעריב היום הלכה וקראה לחרשי העץ ולבונים, העושים במלאכת חרש וחושב, ועשו על מטתו כעין רקיע ובו חמה ולבנה וכוכבים ומזלות. ובבקר העיר משנתו לפתוח דלתות ההיכל, שהיו מפתחות ההיכל תחת מראשותיו ראה שהרקיע בהיר בכוכבים וצבא, כסבור עדיין לא פנה לילה, חזר לישן. וישן עוד ארבע שעות, עד שהבין והכיר מעצמו שאין הלילה ארוך כל כך. ועל אותה שעה שנינו עדות על תמיד של שחר שקרב בארבע שעות, בבחירתא. ובטרם הקיץ משנתו הלך ירבעם בן נבט על פתח ביתו, ויעבר קול, רשע, עד מתי תישן ותבטל תמיד של שחר, מה לך נרדם, קום קרא אל אלהיך! יצתה בת קול ואמרה לו רשע בן רשע עתיד אתה לבטל מישראל כמה וכמה קרבנות במזיד. ואתה מחייבו על השוגג כמזיד. ועל האונס כרצון! והיינו דכתיב "כדבר אפרים רתת, נשא הוא בישראל, ויאשם בבעל וימות" בדבר ירבעם שהוא משבט אפרים, רתת קטיגורין על שלמה, הוא ירבעם נשיא בישראל ומלך, ובת קול השיבתו שיאשם בבעל וימות עכ"ל. ואתה הגדלת והוספת לעשות רע יותר מירבעם בן נבט. כי אחרי אשר הבאתם אותנו אל בית הכלא במלשינות שקר אצל ממשלתינו הרוממה! הזעקת את כל העם לצאת אל בית עלמין, וצוית להם לעפר בעפר על ראשיהם על לא דבר. לא על מצוה קלה שבטלנו ולא על מצוה חמורה ח"ו כי אם על אשר הלכנו כמנהגי קדמונינו וקבענו למודינו במשנה ובתלמוד ורמב"ם וש"ע ללמוד וללמד, לשמור ולעשות. ולא למדנו עוד בספר מזויף ספר הזהר כמנהג שלכם.
Nota — a dor por trás da polêmica. Aqui o tom deixa de ser teológico e torna-se um grito pessoal. O episódio é real: Qafih e o círculo do Dor Deah foram denunciados às autoridades e presos, e houve contra eles uma cerimônia pública de luto e maldição (sair ao cemitério, lançar pó sobre a cabeça — ritos de cherem). A acusação que mais o fere é a de que tudo isso se deu não por terem violado a Torá, mas por terem estudado somente a Mishná, o Talmud, o Rambam e o Shulchan Aruch. A expressão "livro forjado" para o Zohar é a sua tese de combate (o Zohar como obra tardia, não do Rashbi) — apresentada aqui em toda a sua crueza; lembre-se de que, para a maior parte de Israel, o Zohar é texto sagrado.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A vez do racionalista

Depois de dois capítulos cedendo a palavra ao defensor da Cabala, o livro devolve a voz a Qafih. Ele começa com uma prece — pedindo ser guardado da língua mentirosa — e firma, logo de saída, o seu princípio de autoridade: o que governa a fé e a lei é a tradição recebida dos mestres do Talmud, desde Moshé. Estes, e não as escolas posteriores, são para ele "os verdadeiros recebedores".

O dever de saber

Ao "quem te deu licença de investigar?" do defensor, Qafih responde com a inversão exata: conhecer a D'us — como Criador, e não criatura — é mandamento ("e saberás hoje"). E desarma o argumento de autoridade lembrando que até a Grande Sanhedrin podia errar (a Torá previu um sacrifício pelo erro). Uma tradição que se proclame imune a exame contradiz, para ele, a própria Torá.

Voltando as armas do adversário

O capítulo tem um lado polêmico agudo, mas também um lance hábil e respeitoso: para mostrar que foi vítima de calúnia aceita sem processo, Qafih cita um cabalista — o Heichal haBerachá — sobre as leis de investigar testemunhas e de não falar mal do próximo. A sua disputa, deixa ver, é com doutrinas, não com o caráter dos sábios de quem discorda.

Um documento de uma ferida

As últimas linhas saem da teologia e entram na história: a prisão por denúncia, o luto público decretado contra o seu círculo. Lemos isto como testemunho de uma controvérsia real e dolorosa — a do Dor Deah —, em que ambos os lados sofreram e usaram palavras duras. Apresentamos a voz de Qafih inteira, sem suavizá-la e sem endossá-la; a resposta da Cabala já foi ouvida nos capítulos anteriores, e o núcleo que une os dois lados — servir somente o Único — permanece.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XII

"A Cabala não é uma tradição do Sinai"

דִּבְרֵי קַבָּלָה אֵין בָּהֶם מַחֲלֹקֶת
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih retoma a pergunta que ficara sem resposta — a quem se dirige o culto? — e monta a sua tese mais ousada: a Cabala luriânica não é uma "tradição recebida de Moshé no Sinai". Reúne para isso a regra dos posekim (seguir a halachá, não a Cabala), o fenômeno de livros atribuídos falsamente a grandes sábios, e o princípio de que uma tradição genuína não comporta disputas.

A pergunta sem resposta: quem alimenta os mundos?

E agora, com a ajuda do Senhor, voltamos à essência da nossa pergunta, que te pedimos que nos informasses — segundo o sistema dos cabalistas: a quem dirigimos as nossas orações, e abençoamos todas as nossas bênçãos, e fazemos o nosso culto, e de quem pedimos perdão e expiação? E a tua resposta foi com "palavras de rabugento, como os que ferem" — "alegou trigo, e ele lhe admitiu cevada" resposta que não bate com a pergunta — e negaste o que é sabido e notório nos seus livros para todos, como quem jura que o homem é mulher, que a mulher é homem, que uma coluna de mármore é ouro. E a tua fúria ardeu contra o livro Matzref ha-Emuná "o Refinador da Fé", e o escarneceste, e o desprezaste, e o chamaste "ha-Mesaref" etc. — e nisto revelaste a todos que tu é que és o que despreza os sábios. E quanto à nossa pergunta: já que o Ze'ir Anpin, segundo as suas palavras, é o nosso deus, e é o que nos alimenta e sustenta, e a ele servimos — se assim, todos os mundos que estão acima do mundo de Atzilut, quem os alimenta e sustenta? Acaso ele o Ze'ir lança a abundância e o sustento deles de baixo para cima, e eles os mundos superiores o servem e a ele se prostram? Ou, talvez, o deus deles os alimente e sustente — a saber, a Causa Primeira —, e a ela servem eles, enquanto nós servimos o Ze'ir Anpin que nos alimenta? E, se assim, o deus dos mundos superiores não é o deus dos mundos inferiores, D'us nos livre?! E este é o ponto de contradição que te pedimos que nos informasses; e a isto veio a tua resposta — que "o caso não é semelhante à prova", e "acaso se traz prova para contradizer uma halacha le-Moshe mi-Sinai?", e que "os sábios da Cabala dizem que assim receberam de Moshé".

ומעתה בעזר השי"ת נשוב לעיקר שאילתנו ששאלנו לך להודיענו על פי שיטת המקובלים, למי אנו קורין בתפלותנו ומברכים כל ברכותנו ועבודתנו וממי אנו מבקשים סליחה וכפרה. והיתה תשובתך בדברי נרגן כמתלהמים טענו חטים והודה לו בשעורים והכחשת את הידוע ומפורסם בספריהם לכל, כנשבע על האיש שהוא אשה, ועל האשה שהיא איש, ועל עמוד של שיש שהוא זהב. וחרה אפך על ספר מצרף האמונה, והלעגת עליו ובזית אותו, וקראת אותו ספר המשרף וכו' ובזה גלית לכל שאתה הוא המבזה את החכמים, ועל שאלותינו כיון שזעיר אנפין לפי דבריהם הוא אלוהינו, והוא הזן אותנו ומפרנסינו, ואותו נעבוד, אם כן כל העולמות שלמעלה מעולם האצילות, מי זן אותם ומפרנסם? אם זורק הוא שפעם ופרנסתם מלמטה למעלה, והם עובדים ומשתחוים לו, או שמא אלהיהם הזנם ומפרנסם, הוא עלה הראשונה, ולו הם עובדים, ואנחנו עובדים לזעיר אנפין הזנינו ומפרנסינו? ואם כן אלהי העליונים אינו אלהי התחתונים ח"ו? וזהו מקום הסתירה אשר בקשנו ממך להודיענו ולהורותנו, ועל זה באה תשובתך שאין הנדון דומה לראיה וכי מביאין ראיה לסתור הלכה למשה מסיני? ושחכמי הקבלה אומרים כך קיבלו ממשה.
Seria "tradição de Moshé" crer em muitos deuses?

(11) Muito nos espantamos e maravilhamos com as tuas palavras e com esta tua resposta: acaso é uma halacha le-Moshe mi-Sinai crer em muitos deuses? E servir outros deuses além do Senhor, nosso D'us, o Primeiro e Rocha de tudo? — e Ele é a Causa de todas as causas. E com engano vens, nestas tuas respostas, a homens de coração ousado, perante os quais te vangloriaste e lhes mostraste estas tuas palavras, dizendo: "vede que refutei as palavras deles, e rechacei as suas provas como palha"; e o teu opúsculo circula por toda a roda dos sentados. E, depois que te elogiaram e louvaram como agudo e arguto, trouxeste-o a nós. E eis que é tudo enganos, como se não soubesses sobre o que gira a nossa pergunta. E a este teu erro falso voltaremos ainda — pois sabido e notório é, nas regras dos posekim (Knesset haGedolá, Radbaz, Sha'arei Zion), que todo lugar em que a Cabala diverge da decisão haláchica, segue-se a decisão; e esta regra é notória em Israel. E, se valem as tuas palavras — de que esta Cabala é halacha le-Moshe mi-Sinai —, acaso se rechaça uma halacha de Moshé por causa da conjetura de algum Tana ou Amora, e quanto mais de um posek posterior? E cabe a ti trazer prova e informar-nos onde achamos isto — que algum Tana ou Amora ousasse divergir e decidir o contrário de uma halacha recebida de Moshé, nosso mestre. Não seria chamado tolo, ou ímpio e grosseiro?! E em vários lugares do Talmud era costume na boca dos Sábios dizer: "se for uma halacha recebida, aceitamos; mas, se for raciocínio de juízo, há resposta a dar".

יא) מאד אנו תמהים ומתפלאים על דבריך ועל תשובתך זאת, וכי הלכה למשה מסיני להאמין באלוהות רבים? ולעבוד אלהים אחרים מבלעדי ה' אלהינו הראשון וצור לכל? והוא סבת כל הסבות כולם, ובמרמה את בא בתשובותיך אלה לאנשים עזי לב אשר התפארת עליהם והראית להם דבריך אלה לאמר. ראו כי סתרתי את דבריהם, ודחיתי את ראיותיהם בקש, וחוזר קונדריסך על כל המסובין, ואחר אשר קילסוך ושבחוך שאתה חריף ושנון הבאת אותה לנו. והנה כולה הטעאות כאלו לא ידעת על מה תסוב שאלתינו, ועל טעותך הכוזבת הלזו נשוב עוד, כי ידוע ומפורסם בכללי הפוסקים (כנה"ג ודרב"ז ושה"ז) שכל מקום שהקבלה חולקת על הפסק הלך אחרי הפסק, והכלל הזה מפורסם בישראל. ואם דבריך שהקבלה הלזו היא הלכה למשה מסיני, וכי תדחה הלכה למשה מפני סברת איזה תנא או אמורא, וכ"ש פוסק אחרון (עיין לקמן סי' ט"ו) ועליך להביא ראיה ולהודיענו היכן מצינו זה ששום תנא או אמורא יעיז פניו לחלוק ולהורות היפך הלכה המקובלת ממשה רבי' ע"ה. הלא שוטה או רשע וגס רוח יקרא? ובכמה מקומות בתלמוד מרגלא בפומיהו דרבנן לומר אם הלכה נקבל, ואם לדין יש תשובה.
"Por engano recusam conhecer-Me"

(12) Assim, sem dúvida, todas as tuas palavras são exageros e ameaças, para atemorizar os tolos e os insensatos, amantes das maravilhas e dos impossíveis; e não é com conhecimento que falas, e todas as tuas palavras são sem discernimento. E com engano recusas conhecer o Senhor, conforme o dito do profeta Yirmiyahu, em nome do Senhor: "a tua habitação está no meio do engano; por engano recusaram conhecer-Me, diz o Senhor" Yirmiyahu 9:5. E já disse um dos enganadores dentre vós: "sabemos que a verdade está convosco; mas que tendes a ganhar em revelar isto e publicá-lo a alguns dos discípulos? Melhor seria deixá-los no seu erro" — exatamente como as palavras do ímpio dentre os quatro filhos, que diz "que é este culto para vós" etc. E a prova de que "rebocas com argamassa solta" Yechezkel 13:10: pois publicaste, nesta tua carta, que o Rav autor do Matzref ha-Emuná é (D'us nos livre) um min e herege, e chamaste

יב) הנה כי כן בודאי שכל דבריך הפלגות וגיזומים להבהיל את השוטים והמשוגעים אוהבי הנפלאות והנמנעות ולא בדעת תדבר. וכל דבריך לא בהשכל. ובמרמה אתה ממאן לדעת את ה' כמאמר הנביא ירמיה ע"ה בשם ה' שבתך בתוך מרמה במרמה מאנו דעת אותי נאם ה'. וכבר אמר אחד מן הרמאים שבכם ידענו שהאמת אתכם. אך מה לכם לגלות דבר זה ולפרסם לקצת התלמידים. טוב לכם להניחם בטעותם ממש כדברי הרשע שבארבעה בנים האומר מה העבודה הזאת לכם וכו'. והראיה שאתה טח תפל שהרי פרסמת במכתבך זה שהרב בעל מצרף האמונה הוא ח"ו מין וכופר. וקראת
Primeira prova: livros são atribuídos falsamente

o seu livro "Mesaref ha-Emuná". E ele anda na sua inocência, não se desviou das palavras do Zohar, do Mikdash Melech, do Kisé Eliyahu, do Rashash, do Yosher Levav, do Sefer haBrit, do AR"I e do Maharchu R. Chaim Vital no Etz Chaim, do Nachalat Yosef — e dos demais, à direita e à esquerda. E, como se explicará adiante, primeiro te trarei algumas provas de que esta Cabala não é uma halacha le-Moshe mi-Sinai: pois disseram os Sábios em Eruvin que toda baraita que não foi ensinada na casa de R. Oshaya não é uma baraita fidedigna, e dela não se levanta objeção, pois é corrompida. Eis que toda baraita que não entrou na casa de estudo de R. Chiya ou de R. Oshaya — não só não é halacha le-Moshe mi-Sinai, mas dela nem se levanta objeção contra um Amora. E no Yerushalmi de Eruvin (cap. 1): "disse-lhe Acha, assim disse R. Shimon ben Lakish: toda mishná que não entrou na ''reunião'' autorizada, não se apoia nela". E num antigo opúsculo, das obras dos nossos antigos, achei escrito em nome de R. Saadia Gaon (em judeu-árabe; tradução do próprio autor Qafih): "o livro Shiur Komá — não temos sobre ele tradição alguma dos sábios da nossa fé, visto que não está nem na Mishná nem no Talmud; e tampouco há prova de que se possa aprender dele se R. Yishmael o disse em verdade, ou se foram outros, fora dele, que o disseram e atribuíram a R. Yishmael — como se atribuem muitos dos livros a alguns dos sábios famosos".

את ספרו משרף האמונה. והוא בתומו הולך לא סר מדברי הזהר ומקדש מלך, וכס"א, והרש"ב, ויושר לבב, וספר הברית ור' האר"י ומהרח"ו בס' עץ חיים ונחלת יוסף וסולתם ימין ושמאל. וכמו שיתבאר לקמן, ותחלה אביא לך כמה ראיות. שאין הקבלה הזאת הלכה למשה מסיני שהרי אמרו רז"ל בעירובין דכל מתניתא דלא מיתניא בי רבי אושעיא לאו מתניתא היא ולא תתיבון מינה, דמשבשתא היא. הרי דכל מתניתא שלא נכנסה לבית מדרשו של רבי חייא או של ר' אושעיא לא מיבעיא דלא הויא הלכה למשה מסיני. אלא דאפילו לאותובי מינה על אמורא לא מותבינן. ובירושלמי עירובין פרק קמא בפסקא דלחיים. וז"ל אמר ליה אחא כן אמר ר' שמעון בן לקיש כל משנה שלא נכנסה לחבורה אין סומכין עליה ע"כ, ועיין לקמן סי' מ"ב. ובקונדריס קדום מחבורי קדמונינו מצאתי כתוב משם ר' סעדיה גאון וז"ל כתאב שיעור קומה לם יקע עליה נקל אמנתא אר לים הוא פי אל משנה ולא פי אל תלמוד, ולא דליל נסתדל בה הל קאלה רבי ישצעאל עלי' אלחקיקה או גירה קאלה פנסבה אליה כמא תנסב כתיר מן אלכתב אלמפתעלה אלי' בעץ אלעלמא אלמשהורין, עכ"ל. (תרגום מאת הרב המחבר: "ספר שיעור קומה אין בידינו קבלה עליו מחכמי אמונתנו, לפי שאינו לא במשנה ולא בתלמוד, וגם אין ראיה ללמוד ממנה אם אמרו ר' ישמעאל באמת או אחרים זולתו אמרו וייחסו לר' ישמעאל כמו שמייחסים הרבה מן הספרים העשויים לקצת מן החכמים המפורסמים").
"Suficiente nos é a Tora oral"

(13) Aprendemos das palavras do Gaon Saadia que há muitos livros que se atribuem em nome dos grandes sábios de Israel (falsamente), por algum proveito que lhes advém; e aprendemos também que tudo o que não está explícito na Mishná e na Guemará, e que vemos ser contrário ao sentido do Talmud, não é tradição, e não nos apoiamos nele. E por esta razão não se decide a partir dos midrashim onde divergem do Talmud; e mesmo o Talmud Yerushalmi não se considera onde diverge do Bavli — sobre o qual a casa de Israel se apoia, tanto para aliviar quanto para agravar —, como está explicado nas palavras dos nossos mestres posekim, em vários lugares. Vai e aprende do que escreveu R. Tam ibn Yachya (trazido no livro Revid haZahav, nas Hilchot Pesach): "e no nosso tempo cessou o conhecimento, e os segredos da Torá se ocultaram dos olhos de todo vivente; o homem não conhece a ordem desta sabedoria, e a todo o que dela se apega advém — do esforço e do perigo — uma grande porção quer dizer: o perigo da heresia, [de não ter parte no D'us de Israel]. E sobre coisa como esta nos advertiram os Sábios: 'no que te é maravilhoso, não inquiras; e no que te é encoberto, não esquadrinhes'. E basta-nos com o que nos ensinaram os sábios da Cabala verdadeira e universalmente aceita, na explicação da Torá e dos seus mandamentos, segundo a tradição de homem a homem até os dias de Moshé — e ela é a chamada Torá oral, por cuja causa subiu Moshé ao alto e ali permaneceu quarenta dias, para aprender as suas generalidades e os seus detalhes pelas regras transmitidas a ele da boca da Onipotência. E nessas coisas estamos obrigados a ocupar-nos, pois elas são a nossa vida e a longura dos nossos dias, e uma sequer delas não mudaremos. 'O seu decreto é um, para dar a morte ao que desobedece à sua boca', e todo o que transgride as palavras dos Sábios é culpado de morte.

יג) למדנו מדברי הגאון כי הרבה ספרים יש שמיחסין אותם על שם גדולי חכמי ישראל (בשקר) בשביל איזה תועלת המגיע להם, ולמדנו ג"כ שכל שאינו מפורש במשנה ובגמרא וראינו שהוא היפך משמעות התלמוד לאו קבלה הוא, הלא סמכינן עליה. ומטעם זה אין פוסקים מן המדרשות במקום שהם חולקים על התלמוד, ואפי' תלמוד ירושלמי אין חוששין לו במקום שהוא חולק על הבבלי אשר על בית ישראל נשענים עליו בין להקל בין להחמיר כמבואר כל זה בדברי רבותינו הפוסקים בכמה מקומות ועיין לקמן (סימן מ"ב). מה שכתבתי שם בשם הרא"ש, צא ולמד ממה שכתב ר"ת ן' יחיא הובא בס' רביד הזהב בהל' פסח וז"ל ובזמנינו זה אפס המדע וסתרי תורה נעלמו מעיני כל חי, לא ידע אנוש סדר החכמה הזאת, וכל המחזיק זה יקרה לו מהחזק והסכנה חלק רב ( ר"ל חזק וסכנת מינות שאין לו חלק באלהי ישראל). ועל כיוצא בזה הזהירנו רז"ל במופלא ממך אל תדרוש ובמכוסה ממך אל תחקור. ודי לנו במה שהורונו חכמי הקבלה האמתית והמוסכמת מכל צד בפי' התורה ומצותיה. ע"פ המסורה איש מפי איש עד ימות משה והיא הנקראת תורה שבע"פ אשר בגללה עלה משה למרום ועמד שם ארבעים יום ללמוד כללותיה ופרטיה במדות הנמסרות לו מפי הגבורה. ובדברים אלו אנו מחוייבים להתעסק בהם כי הם חיינו ואורך ימינו וא' מהם לא נשנה. אחת דתו להמית אשר ימרה את פיהם וכל העובר על דברי חכמים חייב מיתה.
"Apenas isto não nos foi ordenado"

Mas os demais enigmas, nos quais os sábios da Cabala não consumiram os seus dias — embora sejam dos segredos da Torá e das matérias dos inteligíveis —, não nos foram ordenados. Pois estes ficaram para que neles se ocupassem apenas indivíduos seletos yechidei segulá, em tempos que houve antes de nós etc. E nem todo o que quer tomar o Nome pode tomá-lo, pois são coisas que ficam 'no seu forno oculto para sempre'. E no nosso tempo cessou o mérito dos pais, e não há quem se apegue à retidão desta sabedoria; ao contrário, há os que derrubam os pilares da Torá, e as suas colunas estremecem ao som dos 'cortadores' cegos, atravessadores, que 'não conhecem o caminho onde habita a luz', que tateiam como cegos e se cansam para achar a porta. E onde pensaram lucrar, súbito se quebram, e não há cura. E muitos dos ignorantes se ensoberbecem, dizendo: 'o segredo do Senhor é nosso, herança nossa são as águas superiores — não vossa, ó mestres do Talmud que andais na treva'. Mas o seu coração não está com eles, estão tapados de ver os seus olhos, e a coisa não está neles; 'sábios para fazer o mal' às suas almas, pois se apegaram àquilo de que a mão do seu intelecto ficou aquém, e querem subir por degraus em que não têm certeza na mão de chegar ao alvo; e levantam 'cacos de barro' na mão, para neles se coçar, e estes se lhes tornam um laço etc. — pois sairá deles um tropeço, a romper a cerca da Torá e a derrubar os seus muros. Tal homem se vangloria no que não entende, e erra nos princípios da Torá e nas suas raízes, e vem à heresia, e se distancia do seu porto desejado — que é a proximidade de D'us. Melhor lhe fora não ter sido criado — quanto mais quando se chega a mudar um midrash e a anular uma halachá."

אך יתר הרמזים אשר בהם לא כלו ימיהם חכמי הקבלה עם היותם מסתרי תורה ומעניני המושכלות לא נצטוינו עליהם. כי אלו נשארו להתעסק בהם יחידי סגולה בזמנים אשר היו לפנינו וכו'. ולא כל הרוצה ליטול את השם יטול. כי דברים שהם כבשונו שלעולם הם. ובזמנינו זה תמה זכות אבות, ואין מחזיק בצדק זאת החכמה: אדרבה שהם הורסים פינות התורה ועמודיה יתפלצון מקול מחצצים העברים העורים לא ידעו דרך ישכן אור, ימששו כעורים, וילאו למצוא הפתה. ובמקום שחשבו להרויח פתע ישברו ואין מרפא. ורבים מעמי הארץ מתיהרים באמרם סוד ה' לנו, מורשה לנו המים העליונים, לא לכם בעלי התלמוד ההולכים בחשך. ולבם בל עמם, טח מראות עיניהם, והדבר אין בהם, חכמים להרע לנפשם. כי החזיקו במה שקצרה יד שכלם. ורוצים לעלות במעלות אין ספק בידם להגיע אל התכלית. ויעלו חרס בידם להתגרד בו. ויהיו להם למוקש וכו' כי תצא מהם תקלה לפרוץ גדר התורה ולהרוס חומותיה. יתפאר במה שלא יבין. ויטעה בהתחלות התורה ושרשיה ויבוא לידי מינות. ויתרחק ממחוז חפצו והיא קרבת אלהים, נוח לו שלא נברא, כל שכן לשנות מדרש ולבטל הלכה עכ"ל.
A crítica: o Zohar seria obra tardia

(14) Vê e entende, nosso amigo, leitor oculto, como o honrado R. Tam mencionado clamou como uma ave contra os que se ocupam da Cabala nova — pois romperam as cercas da Torá, e "puseram a nu, a nu" os seus fundamentos e raízes na unidade do Senhor (como se explicará adiante); e, em vez de se aproximarem do Senhor, desviaram-se do caminho, e vieram a crer em muitos outros deuses e a servi-los! E como as palavras de R. Tam ibn Yachya, escreveu também o Mahar"i Albo no Sefer ha-Ikarim, capítulo 28 da segunda parte. E o autor do Revid haZahav se estendeu ainda, e trouxe também as palavras do grande Rav Maharshal, nas suas responsa e na obra Yam shel Shlomo, contra os que se ensoberbecem com os "novos achados" que estudam na Cabala; e escreveu que, depois de selado o Talmud, não nos cabe agravar contra a Guemará, e tal é como heresia, como está explicado no Chok Yaakov (siman 489), por extenso. E tudo isto vale conforme a suposição e a atribuição de que atribuíram o Zohar ao Rashbi, o Tana; mas, após a crítica que examinaram e investigaram os de coração sábio — de cujo ventre saíram as palavras nele mencionadas, e quando saiu a obra mencionada, e da mão de quem —, explicou-se claramente que ela é uma obra de um dos sábios posteriores, e que aqueles conceitos não saíram, de modo algum, do Rashbi, o Tana; pois acham-se nele vários itens, nos princípios da fé da nossa santa Torá, contrários às palavras do Rashbi no Talmud e nos famosos midrashim dos nossos Sábios em Israel. Certamente não se deve apoiar nele em coisa alguma que toque aos costumes de Israel que os nossos antigos praticaram. E não fizeram bem os sábios da Idade Média, que mudaram para nós várias coisas nos ordenamentos das orações conforme o Zohar e os cabalistas — pois algumas daquelas mudanças trazem pessoas à heresia, a crer em muitas potências e a servir outros deuses, como se explicará adiante.

יד) ראה והבן ידידנו קורא נעלם איך כמה"ר תם הנז"ל צוח ככרוכיא על העוסקים בקבלה החדשה, כי פרצו גדריה של תורה, וערו ערו יסודותיה ושרשיה ביחוד השי"ת כמו שיתבאר להלן, ותחת אשר חשבו להתקרב לשי"ת תעו מן הדרך ובאו והאמין באלהים רבים אחרים ולעבדם! וכדברי ר' תם ן' יחיא כ' גם כן מהר"י אלבו בס' העיקרים פרק כ"ח משני. ועוד האריך בספר רביד הזהב והביא ג"כ דברי הר' הגדול מהרש"ל בתשובותיו ובחבור ים של שלמה על המתיהרים בחידושים שלומדים בקבלה, וכתב דמאחר שנחתם התלמוד אין לנו להחמיר נגד הגמרא והוי כמו מינות כמבואר בחק יעקב סי' תפ"ט ס"ק י"א באורך. וכל זה הוא לפי ההנחה והיחוס שייחסו הזהר לרשב"י התנא, אך אחרי הבקורת שבקרו וחקרו חכמי לב אחריו מבטן מי יצאו הדברים הנזכרים בו ואימתי יצא החבור הנזכר ומיד מי יצא. ונתבאר באר היטב כי הוא חיבור אחד האחרונים ולא יצאו אותן הרעיונים מרשב"י התנא ע"ה כלל, כי נמצא בו כמה דברים בעיקרי אמונת תורתינו הקדושה היפך דברי רשב"י בתלמוד ובמדרשי רז"ל המפורסמים בישראל, ודאי שאין לסמוך עליו בשום דבר הנוגע למנהגי ישראל שנהגו בהם קדמונינו. ולא יפה עשו חכמי ימי הבינים ששינו עלינו כמה דברים בסידורי התפלות על פי הזהר והמקובלים, כי שינויים ההם יש מהם מביאים לידי מינות להאמין ברשויות הרבה ולעבוד אלהים אחרים כמו שיתבאר להלן.
Os decisores: seguir a halachá, não o Zohar

(15) Também trouxe ainda o autor do Revid haZahav as palavras do Maran R. Yossef Karo no Beit Yossef, que se preocupa com as palavras do Zohar num lugar em que não está mencionado o contrário na Guemará; e escreveu sobre ele o Rama, de abençoada memória, que, ainda que não esteja mencionado o contrário na Guemará, não há base para isto vindo das palavras dos posekim, e não há que se preocupar com as palavras do Zohar — vê ali. Trouxe ainda as palavras do Radbaz, de abençoada memória, que escreveu que toda coisa mencionada na Guemará, ou num dos posekim, ou nos Ba'alei ha-Halachot — ainda que seja o contrário do que está escrito nos livros da Cabala —, "eu decido conforme ela, tanto para aliviar quanto para agravar, e não me preocupo com o que está escrito naqueles livros; e, quanto a mim mesmo, se é uma agravação, eu a pratico; e, se é um alívio, dela não me preocupo". E escreveu ainda, em nome do Re'em e de outros posekim, que não há que se preocupar com as palavras dos cabalistas contra qualquer posek — vê ali. Dize, pois, de agora em diante, que já das palavras dos posekim mencionados na responsa do Revid haZahav — a saber, o Maran, e o Mor"m Rama, e o Radbaz, e a Knesset haGedolá, e o Mahari haLevi; e como escreveu o Mahar"sh haLevi, e R. Eliyahu haLevi, e o R"M Alkaboli, e R. Tam ben Yachya, e o Chok Yaakov, e o Maharshal, e o Maharam Alashkar — que dizem que não há que se preocupar com as palavras do Zohar e dos cabalistas quando é contra a Mishná e o Talmud, e mesmo contra um posek isolado: eis que disto prova tu para ti mesmo que o que escreveste — de que as suas palavras são halacha le-Moshe mi-Sinai — é que as tuas palavras são fabricação e tolice completa.

טו) גם הביא עוד הר' רביד הזהב דברי מרן בב"י דחייש לדברי הזהר במקום שלא נזכר בגמרא היפך מדבריו, וכתב עליו הרמ"א ז"ל שאע"פ שלא נזכר בגמרא היך דבריו, אין לזה מדברי הפוסקים, ואין לחוש לדברי הזהר ע"ש. עוד הביא דברי הרדב"ז ז"ל שכתב שכל דבר שנזכר בגמרא או באחד מן הפוסקים, או בעלי ההלכות אפי' שיהיה היפך ממה שכתוב בספרי הקבלה אני מורה בו בין להקל בין להחמיר, ולא אחוש למה שכתוב באותן הספרים. ולעצמי אם הוא חומרא אני נוהג אותו ואם קולא לא אחוש לה. ועוד כתב בשם הרא"ם ושאר פוסקים שאין לחוש לדברי המקובלים נגד שום פוסק ע"ש. אמור מעתה שמדברי הפוסקים הנזכרים בתשובת הרב רבי הזהב והם מרן ז"ל ומור"ם והרדב"ז וכנה"ג ומהר"י הלוי כ' מהר"ש הלוי ור' אליהו הלוי, והר"מ אלקבולי ור"ת בן יחיא והר' חק יעקב ומהרש"ל ומהר"ם אלשקר שאומרים שאין לחוש לדברי הזהר והמקובלים שהוא נגד המשנה והתלמוד ואפילו נגד פוסק יחידי. הנה מזה הוכיח לעצמך שכתבת שהם הלכה למשה מסיני, שדבריך בדותא וסכלות גמורה.
A Torá não é para ler "como ave que pipila"

(16) E quanto ao que arguíste contra mim, dizendo "quem te deu licença de investigar e esquadrinhar as suas palavras" — espanto-me muito com estas tuas palavras! Acaso foi dada a Torá para que nela se lesse como uma ave que pipila, ou como um animal que muge e não sabe o que fala?! Ora, o que assim faz é chamado "ímpio astuto", como aprendemos em Sotá (22a): Ulá disse, este é o que leu a Escritura e estudou a Mishná mas não serviu os sábios; R. Eliezer disse, este é um am ha'aretz ignorante; R. Shmuel bar Nachmani disse, este é um bronco; R. Yannai disse, este é um kuti samaritano; R. Acha bar Yaakov disse, este é um amgush feiticeiro; disse Rav Nachman bar Yitzchak: é razoável como R. Acha bar Yaakov, pois dizem as pessoas: "o feiticeiro murmura e não sabe o que murmura; o tanna recita e não sabe o que recita".

טז) ואשר טענת עלי ואמרת מי נתן לך רשות לדרוש ולחקור אחר דבריהם, תמה אני מאד על דבריך אלה? וכי נתנה תורה לקרות בה כעוף המצפצף או כבהמה גועה ואינו יודע מה מדבר? והלא העושה כן נקרא רשע ערום כדגרסינן בסוטה (דף כב.) עולא אמר זה שקרא ושנה ולא שמש ת"ח, ר' אליעזר אמר ה"ז עם הארץ, ר' שמואל בר נחמני אמר הרי זה בור, ר' ינאי אמר ה"ז כותי, ר' אחא בר יעקב אמר ה"ז אמגוש, אמר רב נחמן בר יצחק מסתברא כרב אחא בר יעקב דאמרי אינשי רטין מגושא ולא ידע מה רטין, תני תנא ולא ידע מה תני ע"כ.
Cartas de comércio e a vida da alma

E, segundo as tuas palavras, os assuntos do corpo e as cartas de comércio — que são dos assuntos da vida dos corpos — seriam preferíveis ao trato da Torá, que é a vida da alma, pela qual mereceremos a vida do mundo vindouro e com a qual receberemos a face do nosso D'us, nosso Rei?! Pois, se te trazem duas cartas de comércio que se contradizem uma à outra, tu dás atenção a elas para entender, a fim de não perderes — e não as recebes "em fé do íntegro"! E na Torá, que é a vida da alma, receberias o que contradiz a tua fé — "em fé do íntegro", seja bom ou mau, sem entendimento? Ora, a essência do trato da Torá é saber e entender os seus mandamentos e estatutos! E o rei David, a paz sobre ele, disse, suplicando diante do Santo: "faze-me entender, e aprenderei os teus mandamentos"; e disse ainda: "bom discernimento e conhecimento ensina-me, pois nos teus mandamentos cri". E é um kal va-chomer: ora, se nos demais mandamentos da Torá se precisa de um coração que entenda, para que não se erre a permitir o proibido — ou mesmo a proibir o permitido —, conforme o dito dos Sábios "sê cuidadoso no estudo, pois um erro de estudo conta como pecado deliberado": quanto mais no mandamento de conhecer o Senhor e a Sua unidade, segundo a verdade e a retidão que o Senhor nos ordenou na Torá, como está escrito "e saberás hoje, e farás voltar ao teu coração, que o Senhor é D'us, nos céus em cima e sobre a terra embaixo — não há outro". E o rei David ordenou ao seu filho, dizendo: "conhece o D'us de teu pai e serve-O". E o profeta Yirmiyahu proclama e diz: "não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte na sua força, nem o rico na sua riqueza; mas nisto se glorie o que se gloria: entender e conhecer-Me, saber que eu sou o Senhor que faz bondade" etc. — quanto mais ainda que precisamos saber a quem servimos.

ולפי דבריך עסקי הגוף ומכתבי מסחר שהם מעסקי חיי הגופות עדיפי מעסק התורה שהם חיי הנפש, אשר בהם נזכה לחיי העולם הבא ונקביל בהם פני אלהינו מלכנו? שהרי אם יביאו לך שני מכתבים מעסקי מסחר שהם סותרים זה את זה, אתה נותן לב בהם להבין כדי שלא תפסיד ואינך מקבלם באמונת אומן! ובתורה שהיא חיי הנפש תקבל את הסותר אמונתך שאמונת אומן אם טוב ואם רע בלי הבנה? הלא עיקר עסק התורה לדעת ולהבין מצותיה וחקותיה! ודוד המלך ע"ה אמר מתחנן לפני הקב"ה הבינני ואלמדה מצותיך. ואמר עוד טוב טעם ודעת למדני כי במצותיך האמנתי וקל וחומר הוא, ומה בשאר מצות של תורה צריך לב להבין שלא יטעה להתיר את האסור, או אפילו לאסור את המותר וכמאמר רז"ל הוי זהיר בתלמוד ששגגת תלמוד עולה זדון? במצות ידיעת השי"ת ויחודו על פי האמת והצדק שצונו השי"ת בתורה כמו שכתוב וידעת היום והשבות אל לבבך כי ה' הוא האלהים בשמים ממעל ועל הארץ מתחת אין עוד. ודוד המלך ע"ה צוה את בנו לאמר דע את אלהי אביך ועבדהו. והנביא ירמיהו מכריז ואמור אל יתהלל חכם בחכמתו, ואל יתהלל הגבור בגבורתו, אל יתהלל עשיר בעשרו, כי אם בזאת יתהלל המתהלל השכל וידוע אותי כי אני ה' עושה חסדו וכו'. על אחת כמה וכמה שאנחנו צריכים לידע את מי נעבוד.
As provas: o Senhor é a Causa Primeira

(17) E, a partir da Torá escrita e oral, transmitida a nós de homem a homem desde Moshé, nosso mestre, o profeta, há provas fortes e verdadeiras de que o Senhor, nosso D'us — chamado pelo Nome HaVaYaH e Adnut, e nas palavras dos Sábios pelo nome "o Santo, bendito seja" — é a Causa Primeira, e Ele é o único necessário de existência (como se explicará adiante), não como escreveu o autor do Sefer haBrit em nome do Yosher Levav e em nome do AR"I — que se deixaram levar pelas palavras do "filósofo" autor do Zohar, e disseram que Ele é o Ze'ir Anpin! Da Torá, pois está escrito "morada é o D'us de outrora" — significando que o Senhor, nosso D'us, é a Causa Primeira de todos os criados, de cima e de baixo, e Ele é o único a quem servimos, como escreveu o Rambam, de abençoada memória, no comentário da Mishná e na sua obra, e o Rav Saadia Gaon, e R. Yehudá haLevi, e outros. E está dito "eu sou o Senhor, o primeiro, e além de mim não há D'us". E o rei David disse "pois quem é D'us, senão o Senhor? e quem é Rocha, senão o nosso D'us?" — pois Ele, bendito seja, é a Causa e o Princípio atuante de tudo o que há fora d'Ele, como explicou o Rav autor do Moré no capítulo 16 da primeira parte: não há outra causa anterior a Ele. E eis as palavras do pio autor do Chovot haLevavot, na "Porta da Unidade": "de direito é que Ele seja primeiro ao mundo, que não haja princípio antes d'Ele, e que seja primeiro que não tem primeiro; e Ele é o que o formou e o inovou do nada — não a partir de coisa alguma, nem sobre coisa alguma —, como se diz 'eu sou o Senhor que faz tudo, que estende os céus sozinho, que estira a terra — quem estava comigo?'. E disse Iyov: 'Ele estende o norte sobre o vazio, suspende a terra sobre o nada' etc. Ele é o Antigo, o Primeiro, a cujo princípio não há princípio, e a cuja antiguidade não há fim — como disse a Escritura: 'eu sou primeiro e eu sou último', e diz 'eu sou o Senhor, primeiro, e com os últimos eu sou Ele'". Também nas correções das orações que ordenaram os Homens da Grande Assembleia, se diz: "verdade — Tu és o primeiro, e Tu és o último" etc.

יז) ומן התורה שבכתב ושבעל פה הנמסרת לנו איש מפי איש שמשה רבינו ע"ה נביא ראיות חזקות ואמתיות שה' אלהינו הנקרא בשם הוי'ה ואדנות, ובדברי רז"ל בשם הקב"ה הוא הסבה הראשונה, והוא לבדו מחויב המציאות וכמו שיתבאר להלן שלא כמו שכ' בעל ספר הברית בשם יושר לבב ובשם האר"י שנמשכו אחרי דברי הפילוסוף מחבר הזהר ואמרו שהוא זעיר אנפין! מן התורה דכתיב מעונה אלהי קדם ענינו כי ה' אלהינו הוא הסבה הראשונה לכל ברואי מעלה ומטה והוא אשר לו לבדו נעבוד, כמו שכתב הרמב"ם ז"ל בפי' המשנה ובחיבור הרב סעדיה גאון ור' יהודה הלוי וזולתם. ונאמר אני ה' ראשון ומבלעדי אין אלהים. ודוד המלך ע"ה אמר כי מי אל מבלעדי ה' ומי צור מבלעדי אלהינו, כי הוא יתברך הסבה וההתחלה הפועלת לכל אשר זולתו כמו שביאר הרב המורה בפרק ט"ז מראשון עי"ש: אין סבה אחרת קודמת לו. וז"ל הר' החסיד בעל חובת הלבבות בשער היחוד, מן הדין שיהיה לעולם תחלה. אין תחלה לפניו, וראשון שאין לו ראשון, והוא אשר יצרו וחדשו מאין דבר, לא בדבר ולא על דבר כמו שנאמר אני ה' עשה כל נוטה שמים לבדי רוקע הארץ מי אתי. ואמר איוב נטה צפן על תהו תולה ארץ על בלי מה וכו'. הוא הקדמון הראשון אשר אין ראשית לראשיתו. ואין תכלית לקדמותו כמו שאמר הכתוב אני ראשון ואני אחרון ואומר אני ה' ראשון ואת אחרונים אני הוא עכ"ל. גם בתיקוני התפילות שתקנו אנשי כנה"ג נאמר אמת אתה הוא ראשון ואתה הוא אחרון וכו'.
Disputas entre os cabalistas: prova de origem tardia

(18) E há ainda outra prova de que a Cabala não é uma tradição recebida de Moshé: pois achamos disputa entre os cabalistas a respeito da sua qualidade e essência — este diz assim, e aquele diz assim; e esta é uma prova cabal de que ela não é uma halacha le-Moshe mi-Sinai, como subiu ao teu juízo. Pois escreveu o Rambam, de abençoada memória, nas Hilchot Mamrim (cap. 1), que nas coisas de tradição não há disputa alguma; e toda coisa em que achares disputa, é sabido que ela não é tradição recebida de Moshé, nosso mestre. E, visto que todas as provas que trazemos são das palavras dos Sábios — mestres da Mishná e do Talmud e dos midrashim verdadeiros, e dos Geonim e posekim, que são, sem dúvida, os mestres da tradição verdadeira recebida de Moshé, nosso mestre, a paz sobre ele —, e todo o que diz o contrário das suas palavras é um min e apikoros: se assim, como podes dizer "quem te deu licença de investigar e esquadrinhar as palavras dos mestres da Cabala nova"? E já testemunhou um sábio singular dos sábios da Idade Média, na terra do Iêmen — a saber, o Mahari"y Tzahari, nas suas homilias, na parashá de Lech Lechá (eis as suas palavras): "e eu vim a contar-te um pouquinho das palavras da Cabala — novas, há pouco vindas". E este seu testemunho serve-nos para reforçar as nossas palavras: de que elas são novas, que os nossos antigos mestres não as imaginaram. E o remanescente dos seus livros testemunha e declara a verdade — eis que estão disponíveis em nossas mãos no Midrash haGadol de R. David ben Amram, homem de Aden (como escreveu o Mahari Bashiri, na parashá de Bereshit e no início de Eleh haDevarim); e assim está escrito no livro Segulat Yisrael, e no livro Nur al-Zalám de R. Netanel ben Yesha, e no Midrash haChefetz de R. Yichya, o médico — que a memória deles seja para a vida.

יח) ועוד ראיה שאינה קבלה ממשה שהרי מצינו מחלוקת בין המקובלים באיכותה ועצמותה זה אומר בכה וזה אומר בכה, וזו ראיה גמורה שאינה הלכה למשה מסיני כמו שעלה על דעתך, שהרי כתב הרמב"ם ז"ל בהל' ממרים פ"א שדברי קבלה אין בהם מחלוקת כלל. וכל דבר שתמצא בו מחלוקת בידוע שאינו קבלה ממשה רבי' ע"כ, וכיון שכל ראיות שאנו מביאים הם מדברי רז"ל בעלי המשנה והתלמוד והמדרשים האמתיים והגאונים והפוסקים שהם בודאי בעלי הקבלה האמתית ממשה רבי' ע"ה, וכל האומר היפך דבריהם הוא מין ואפיקורוס, ואם כן איך תוכל לומר מי נתן לך לדרוש ולחקור אחר דבריהם של בעלי הקבלה החדשה? וכבר העיד אחד מיוחד מחכמי ימי הבינים בארץ התימן הוא מהרי"י צאהרי בדרשות בפרשת לך לך, וז"ל ואני באתי להגיד לך מעט מזער דברי הקבלה חדשים מקרוב באו ע"כ. ועדותו זאת מועלת לנו לחזק דברינו, כי חדשות המה לא שערום רבותינו קדמונינו. ופליטת ספריהם יעידון יגידון האמת הלא המה מצויים בידינו במדרש הגדול לר' דוד בן עמרם איש עדן כמו שכ' מהר"י בשירי בפרשת בראשית ובתחלת אלה הדברים. וכ"כ בספר סגולת ישראל, וספר נור אל צאלם לר' נתנאל בן ישע ומדרש החפץ לר' יחיא הרופא זלה"ה.

Sobre esta seção · עִיּוּן

De volta à pergunta

Qafih recoloca a objeção que ficara sem resposta — a quem se dirige o culto? — e recusa a saída que lhe deram ("não se contradiz uma tradição do Sinai"). O capítulo é todo o esforço de mostrar que essa "tradição do Sinai" não tem, de fato, tal estatuto.

O argumento dos decisores

O raciocínio mais forte é haláchico: os posekim firmaram que, onde a Cabala contraria a decisão da lei, segue-se a lei. Mas uma norma realmente sinaítica jamais cederia a um raciocínio posterior. Logo, a própria tradição haláchica trata a Cabala como algo que não tem o peso de transmissão do Sinai — e Qafih alinha uma longa lista de decisores que o confirmam.

Crítica de textos

Daqui Qafih passa à sua tese mais ousada e mais contestada: apoiado no princípio (que credita a Saadia Gaon) de que muitos livros são atribuídos a sábios sem o serem, sustenta que o Zohar seria obra tardia, não do Rashbi. Apresentamos esse argumento como parte de um debate antigo — não como veredito —, lembrando que o Zohar é sagrado para a maior parte de Israel.

O dever de entender

Por fim, a réplica de método: estudar a Torá sem buscar entendê-la é "lê-la como ave que pipila". Conhecer a unidade de D'us é mandamento — e, num kal va-chomer, o mais grave de todos. E a prova de que uma tradição recebida não comporta disputa (Rambam) fecha o capítulo: onde os cabalistas divergem sobre a essência das sefirot, ali, para Qafih, falta a marca do Sinai.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XIII

"Ouve as respostas": lendo as passagens do Zohar

אֲנִי אֲנִי הוּא וְאֵין אֱלֹהִים עִמָּדִי
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Estabelecido o seu direito de examinar, Qafih passa ao ataque concreto: cita passagens do Zohar — o diálogo entre o "Pai" e a "Mãe" na criação do homem, o "ancião dos anciãos" que dá licença a Rashbi — e lê-as como ascendendo a uma multiplicidade de divindades, contra "eu, eu sou Ele, e não há D'us comigo".

O poder de investigar é dos Sábios

(19) E este poder de investigar e esquadrinhar na Torá, segundo a tradição dos nossos mestres da Mishná e do Talmud, foi-nos transmitido pelos nossos mestres, como disse o Tana: "revolve-a e revolve-a, pois tudo está nela; nela contempla; e nela envelhece e te gasta" Avot 5:22. Pois, se o homem aprende e não entende, não se lhe revela o segredo, e não alcança coisa alguma. Como aprendemos em Berachot (cap. 1): "sempre corra o homem a uma coisa de mandamento, mesmo no Shabat, conforme se disse 'após o Senhor irão, como leão rugirá' etc. Disse R. Zeira: a recompensa de correr para a aula está na corrida" (explicou Rashi: o cerne da recompensa das pessoas que correm para ouvir uma exposição da boca de um sábio é a recompensa da corrida — pois a maioria delas não entende o bastante para reter o estudo; a recompensa do raciocínio sevará é de quem se esforça e labuta e pensa para entender a razão da coisa). E em Sanhedrin aprendemos: "'pois com estratégias farás para ti a guerra' — disse R. Acha b. Chanina em nome de R. Assi em nome de R. Yochanan: em quem achas a ''guerra da Torá''? — em quem tem na mão ''feixes'' de Mishná" etc. (explicou Rashi: a "guerra da Torá" são as suas decisões, o firmar-se sobre o seu fundo e a sua raiz — não como o homem só arguto e afiado e mestre de raciocínio, que não estudou muitas mishnayot e baraitot; pois de onde se lhe revelaria o segredo? — mas sim o mestre de muitas mishnayot, que, se precisar de uma razão aqui, a aprende de outra mishná).

יט) וכח זה לחקור ולדרוש בתורה על פי קבלת רבותינו בעלי המשנה והתלמוד מסור לנו מרבותינו כמו שאמר התנא הפוך בה והפוך בה. דכלא בה ובה תחזי. וסיב ובלי בה.! כי אם ילמוד האדם ולא יבין לא יתגלה לו הסוד ולא ישיג דבר. כדגרסינן בברכות פ"ק לעולם ירוץ אדם לדבר מצוה ואפי'בשבת שנאמר אחרי ה' ילכו כאריה ישאג וכו' אמר ר' זירא אגרא דפרקא רהטא. (פי' רש"י אגרא דפרקא עיקר קיבול שכר הבריות הרצים לשמוע דרשה מפי חכם הוא שכר המרוצה שהרי רובם אינם מבינים להעמיד גרסא ולמי השמועה לאחר זמן שיקבלו שכר לימוד) אגרא דכלה דוחקא (שבת שלפני הרגל שהכל נאספים לשמוע הלכוה הרגל) אגרא דשמעתא סברא _פי' שהוא יגע וטורח ומחשב להבין טעמו של דבר) ע"כ. וכסנהדרין גרסי' כי בתחבולות תעשה לך מלחמה אמר ר' אחא בר' חנינא אמר ר' אסי אמר ר' יוחנן במי אתה מוצא מלחמתה של תורה. במי שיש בידו חבילות של משנה וכו' ופי' רש"י מלחמתה של תורה הוראותיה ולעמוד על בוריה ועל עיקרה, לא כאדם המפולפל ומחודד ובעל סברא ולא למד משניות וברייתות הרבה. כי מהיכן יתגלה לו הסוג? אלא בבעל משניות הרבה שאם יצטרך לו טעם בכאן ילמדנו מתוך משנה אחרת. או אם יקשה לו דבר יבין מתוך משניות שבידו. הא מני ר' פלוני היא ששמענוהו במקום אחר אומר כן עכ"ל הגמ' ורש"י ז"ל.
"Faze do teu ouvido um funil"

E aprendemos também no cap. 1 de Chagigá: "as palavras dos sábios são como aguilhões, e como cravos plantados, as dos mestres das assembleias — todas dadas de um só pastor" Kohelet 12:11. Por que se compararam as palavras da Torá a um aguilhão? — para dirigir o coração dos que as aprendem dos caminhos da morte para os caminhos da vida... "mestres das assembleias" — são os sábios que se assentam em assembleias e se ocupam da Torá: estes declaram impuro e estes declaram puro, estes proíbem e estes permitem, estes invalidam e estes validam. Para que não diga alguém: "como, então, aprenderei a Torá?" — por isso a Escritura diz "todas dadas de um só pastor": um só D'us as deu, e um só líder as disse, da boca do Senhor de todas as obras... "faze, pois, o teu ouvido como um funil, e adquire para ti um coração que entenda", para ouvir as palavras dos que declaram puro e dos que declaram impuro (e explicou Rashi: "um só D'us as disse" — não há, entre os que disputam, quem traga prova da Torá de um outro deus, mas só da Torá do Santo; "faze o teu ouvido como funil" — visto que o coração de todos está voltado ao Céu, faze um ouvido que ouça, e aprende e conhece as palavras de todos; e, quando souberes discernir qual é correta, fixa a halachá conforme ela). E assim escreveu o Maharsha, que isto é uma parábola para o nosso assunto — que o homem introduza no seu ouvido o ouvir muitas das palavras de todos, tanto dos que declaram impuro quanto dos que declaram puro, mas adquira para si um coração que entenda, para discernir, entre as opiniões divididas, qual é correta, e fixe para si a halachá conforme ela.

וגרסי נמי בפ"ק דחגיגה ואף הוא פתח ודרש דברי חכמים כדרבונות וכמסמרות נטועים בעלי אסופות כולם ניתנו מרועה אחד. למה נמשלו דברי תורה מכוונים לב לומדיהן מרדכי מיתה לדרכי חיים. אי מה דרבן זה וכו' בעלי אסופות אלו תלמידי חכמים שיושבין אסופות אסופות ועוסקין בתורה. הללו מטמאין והללו מטהרין. הללו אוסרין, והללו מתירין, הללו פוסלין והללו מכשירין שמא יאמר היאך אני למד תורה מעתה תלמוד לומר כולם ניתנו מרועה אחד, כולן אל אחד נתנן. ופרנס אחד אמרן, מפי אדון כל המעשים ברוך הוא שנ' וידבר אלהים את כל הדברים האלה לאמר, אף אתה עשה אזנך כאפרכסת וקנה לך לך מבין לשמוע דברי המטהרין ודברי המטמאין, דברי האוסרין ודברי המתירין, דברי הפוסלין ודברי המכשירין ע"כ ופי' רש"י ז"ל אל אחד אמרן, אין לך אחד בבני המחלוקת מביא ראיה מתורת אל אחר אלא מתורתו של הקב"ה, ופרנס אחד אמרן אין לך מביא ראיה מדברי נביא הבא לחלוק על משה רבי' ע"ה, עשה אזנך כאפרכסת, מאחר שכולן לבן לשמים עשה אזן שומעת ולמוד ודע דברי כולן, וכשתדע להבחין איזה יבשר קבע הלכה כמותו, עכ"ל, וכן כ' המהרש"א שזה משל לעניינו, שיכניס לאזנו לשמוע הרבה דברי כולן בין המטמאין בין המטהרין אבל יקנה לו לב מבין להבחין מדעות החלוקות איזה יכשר ויקבע לו הלכה כמותו וכפי' רש"י ז"ל עכ"ל.
Nota — investigar é o método dos Sábios. Antes de refutar passagens concretas, Qafih estabelece o seu direito de fazê-lo. A própria Mishná manda "revolver" a Torá e nela contemplar (Avot 5:22); o Talmud diz que a recompensa do estudo está no esforço de entender; e Chagigá 3b ensina o discípulo a "fazer do ouvido um funil" e a adquirir um coração que discirna entre as opiniões dos sábios, fixando a halachá conforme a que se mostrar correta. Ou seja: examinar, comparar e julgar entre posições é o método rabínico — não uma ousadia proibida. É a base sobre a qual ele passará a analisar as passagens do Zohar.
A passagem do Zohar: o "Pai" e a "Mãe"

(20) E agora, inclina o teu ouvido e ouve as respostas da verdadeira Torá de Moshé, para a honra do Senhor, o D'us verdadeiro. Quanto ao que escreveste, respondendo às minhas palavras para negar que eles chamam aos cinco partzufim "divindades" — e disseste "D'us nos livre que digam assim" —: foi um "cobrir dos olhos" da tua parte, pois não viste as palavras do Zohar Bereshit 22 (eis as suas palavras): “"E disse Elokim: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. O segredo do Senhor é para os que O temem". Abriu aquele ancião dos anciãos e disse: "Shimon, Shimon! quem é o que disse ''e disse Elokim''? que é este ''Elokim''?". Nisto, voou aquele ancião dos anciãos, e Shimon não o viu. E, como ouviu R. Shimon que o chamava "Shimon, Shimon" e não "Rabi Shimon", disse aos companheiros: "certamente este é o Santo, de quem se diz ''e o Ancião dos Dias se assenta''" Daniel 7:9” (explicação do Derech Emet: o ancião dos anciãos é Keter Elyon; e o Mikdash Melech: é Atik). “"Agora é a hora de abrir este segredo, pois certamente há aqui um segredo que não foi dada licença de revelar." Abriu e disse: "é semelhante a um rei que tinha vários edifícios a construir, e aquele artífice nada fazia senão por licença do rei... O rei, certamente, é a Sabedoria suprema Chochmá; e o pilar do meio é o rei embaixo; Elokim é o artífice no alto — e esta é a Mãe suprema Imma; e Elokim é o artífice embaixo — e esta é a Shechiná; e a mulher não tem licença de fazer coisa alguma sem a licença do seu marido. E todos os edifícios feitos pelo caminho da emanação, o Pai Abba dizia, por enunciado, à Mãe Imma: ''seja assim e assim'', e logo era — como se diz ''e disse Elokim: haja luz, e houve luz''..."”

כ) ומעתה הט אזנך ושמע תשובות תורת משה אמת. לכבוד ה' אלהים אמת. מה שכתבת והשבת על דברי להכחיש שהים קורים לחמשה פרצופים אלוהות ואמרת ח"ו שהם אומרים כן כסות עינים היה לך שלא ראית דברי הזהר בראשית כ"ב וז"ל ויאמר אלהים נעשה אדם בצלמינו כדמותינו. סוד ה' ליריאיו. פתח ההוא סבא דסבין ואמר שמעון שמעון מאן הוא דאמר ויאמר אלהים. מאי ניהו האי אלהים! אדהכי פרח ההוא סבא דסבין ולא חמא ליה. וכמא דשמע ר' שמעון דהוה קרי ליה שמעון שמעון ולא רבי שמעון. אמר לחברוי ודאי האי הוא קב"ה דאתאמר ביה ועתיק יומין יתיב (פירוש הר' דרך אמת זקן הזקנים והוא כתר עליון. והמקדש מלך כ' סבא דסבין הוא עתיק כמו שאמר רשב"י לקמן כי אבא ואמא נקראו זקנים ועתיק ואריך נקראין סבא דסבין וקימא ליה לרשב"י שהוא עתיק ולא אריך) הא כען איהו שעתא למפתח בהאי רזא דודאי הכא אית רזא דלא אתיהיב רשו לאתגליא. פתח ואמר למלכא דהוה ליה כמה בניינין למבני. וההוא אומנא לא הוה עבד מדעם אלא מרשו דמלכא כמה דאתאמר ואהיה אצלו אמון. מלכא ודאי איהו חכמה עילאה לעילא. ועמודא דאמצעיתא מלכא לתתא, אלהים אומנא לעילא, ודא אימא עלאה אלהים אומנא לתתא ודא שכנתא ואתתא לית לה רשו למעבד מדעם בלא רשו בעלה, וכל בניינין דהוו באורח אצילותה הוה אמר אבא באמירה לגבי אימא יהא כדין וכדין ומיד הוה, כמא דאתמר ויאמר אלהים יהי אור, ויהי אור, ויאמר הוה אמר יהי רקיע, יהי מארת, וכלא אתעביד מיד, כד מטא לעלמא דפירודא דאיהו עולם הנבדלים, אמר אומנא
A criação do homem, segundo o Zohar

“...o artífice disse ao senhor do edifício: ''façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança''. Disse o senhor do edifício: ''certamente é bom fazê-lo, mas ele há de pecar diante de ti, pois é um ''filho tolo'', conforme está escrito ''filho sábio alegra o pai, e filho tolo é a tristeza da sua mãe'' Mishlei 10:1''. Ela Imma disse: ''visto que o seu pecado depende da Mãe e não do Pai, eu quero criá-lo na minha própria forma'' — conforme está escrito ''e criou Elokim o homem à sua imagem''; e o Pai não quis associar-se a ele. No tempo em que o homem pecou, que está escrito? ''e pelas vossas transgressões foi enviada embora a vossa mãe'' Yeshayahu 50:1. Disse o rei à Mãe: ''não te disse eu que ele havia de pecar?'' — naquele tempo, expulsou-o, e expulsou a Mãe com ele. E por isso está escrito ''filho sábio alegra o pai'' — este é o homem que está pelo caminho da emanação Atzilut; ''e filho tolo'' — este é o homem da Criação Beriá''”.” E explicou o Shvivei Nogah: daqui se implica que o Santo, por assim dizer, Ele mesmo não concordou na criação do homem — apenas a Shechiná suplicou ter o homem na sua sorte. E explicou o Mikdash Melech: "filho sábio" é o homem de Atzilut, que é o Ze'ir de Atzilut; "homem de Beriá" é Adam haRishon. E, acima disto, o Mikdash Melech explicou que Imma disse a Abba "façamos o homem" — e este é o sentido de "e disse Elokim"; ao passo que todo "e disse" da obra da criação quer dizer "e disse Abba a Elokim, que é Imma (Biná)" — pois Abba diz, e Biná faz.

למארי בניינא, נעשה אדם בצלמינו כדמותינו, אמר מארי בניינא ודאי טב הוא למעבד ליה אבל עתיד הוא למחטי קמך בנין דאיהו בן כסיל הה"ד בן חכם ישמח אב ובן כסיל תוגת אמו, איהי אמרה, כיון דחוביה תליא באימא ולא באבא, אנא בעינא למברי ליה בדיוקנא דילי, הה"ד ויברא אלהים את האדם בצלמו, ולא בעא לאשתתפא ביה אבא, בזמנא דחב מה כתיב ובפשעיכם שולחה אמכם. אמר מלכא לאימא, ולא אמרית לך דעתיד למחטי, בההוא זמנא תריך ליה ותריך אימא עמיה, ובגין דא כתיב בן חכם ישמח אב דא אדם דאיהו באורח אצילותא, ובן כסיל דא אדם דבריאה עכ"ל. ופירש הר' שביבי נגה גמהכא משמע שהקב"ה בעצמו כביכול לא הסכים בבריאה אדם רק השכינה התחננה להיות אדם בגורלה ע"כ, ופי' הר' מקדש מלך בן חכם דא אדם דאצילות, הוא זעיר דאצילות, אדם דבריאה הוא אדם הראשון וע"כ. ולעיל מזה כי הר' מקדש מלך בדבור המתחיל אמר אומנא פי' אימא אמרה לאבא נעשה אדם, וזהו יאמר אלהים שהיא אימא אמרה לאבא נעשה אדם מה שאין כן כל ויאמר דמעשה בראשית רוצה לומר ויאמר אבא לאלהים שהיא אימא (בינה) כי אבא אומר ובינה עושה ועכ"ל.
"Cada cabalista forja como quer"

Explica-se daqui que o Santo, chamado Atik, se revelou a R. Shimon na sua casa de estudo, na forma de um ancião eminente — e por isso R. Shimon o chamou "ancião dos anciãos"; e este Santo, chamado Atik, é o que deu licença a R. Shimon de revelar "faces" novas na Torá — a saber, que o Santo chamado Imma é o que disse ao Santo chamado Abba "façamos o homem à nossa imagem" etc. Eis que se te explicou que ele chama Atik "o Santo", e assim também a Abba; e chama Imma "Elokim", e também chama Abba "Elokim" e "o Santo". E, em toda a obra da criação, Abba diz a Imma "seja assim e assim", e ela faz; e no enunciado "façamos o homem", Imma disse a Abba "façamos o homem", e Abba não concordou na criação do homem; e disse-lhe Imma: "que te importa? se ele pecar, a mim peca, e não a ti", conforme se disse "e filho tolo é a tristeza da sua mãe"; e, quando o homem pecou na Árvore do Conhecimento, expulsou-o e expulsou-a, conforme "e pelas vossas transgressões foi enviada a vossa mãe". E no Etz Chaim de R. Chaim Vital, Sha'ar haNekudim (cap. 6), escreveu que, quando foram emanadas as sete sefirot inferiores, ainda não fora criado Adam haRishon no mundo; e saíram Ze'ir e a sua Nukva "costas com costas", por temor dos poderes externos, para que não se amamentassem deles... e, quando foi criado Adam haRishon e fez os mandamentos ativos, retornou-os "face a face" por meio de mandamentos e boas obras etc. — vê ali, pois todas as suas palavras são o contrário das palavras do Zohar aqui: pois, ao contrário, segundo o Zohar, Adam haRishon estragou com o seu pecado, e Imma foi expulsa por causa dele. E disto entenderás que cada um dos cabalistas forja para si palavras do seu coração, conforme o seu desejo.

מבואר מזה, כי הקב"ה הנקרא עתיק נגלה לר' שמעון בבית מדרשו ובדמות זקן מופלג, ולכך קרא לו ר' שמעון סבא דסבין רוצה לומר זקן הזקנים כדלעיל בשם דרך אמת ומקדש מלך, והקב"ה זה הנקרא עתיק הוא שהרשה לר' שמעון לגלות פנים בתורה, שהקב"ה הנקרא אמא היא שאמרה להקב"ה הנקרא אבא נעשה אדם בצלמינו בדמותינו וכו'. הרי נתבאר לך שהוא קורא לעתיק קב"ה וכן לאבא, וקורא לאמא אלהים, וגם קורא לאבא אלהים וגם קב"ה, ובכל מעשה בראשית אבא אומר לאמא יהי כך וכך והיא עושה, ובמאמר נעשה אדם, אימא אמרה לאבא נעשה אדם ולא הסכים אבא בבריאת אדם. ואמרה לו אמא, מאי נפקא לך מניה, אם יחטא לי וחטא ולא לך שנ' ובין כסיל תוגת אמו, וכשחטא אדם בעץ הדעת גירש אותו ואותה שנאמר ובפשעיכם שולחה אמכם. ובעץ חיים להרח"ו שער הנקודים פ"ו כ' שכאשר נאצלו שבע תחתונות עדין לא היה אדם הראשון התחתון נברא בעולם ויצאו זעיר ונוקביה אחור באחור מפני פחד החיצונים שלא יינקו, כי אם היו עומדים פנים בפנים היה מקום לקליפות להתאחז במקום אחיזתן וכאשר נברא אדם הראשון ועשה מצות מעשיות החזירן פנים בפנים על ידי מצות ומעשים טובים וכו' עיין שם שכל דבריו הם היפך דברי הזהר פה, שאדרבה אדם הראשון קלקל בחטאו ונתגרשה אימא בעבורו, ומזה תבין שכל אחד מהקובלים בודה לו דברים מלבו כחפצו.
"Eu, eu sou Ele, e não há D'us comigo"

(21) Ainda ali, no Zohar (p. 22b): “Abriu de novo R. Shimon e disse: "Vede agora que eu, eu sou Ele, e não há Elokim comigo" Devarim 32:39. Disse: "companheiros, eis palavras antigas que desejo revelar, depois de dada licença suprema para dizer. Quem é o que disse ''vede agora que eu, eu sou Ele''? — esta é a Causa sobre todas as causas, aquela chamada Causa das Causas, tal que nenhuma destas causas faz obra alguma até que tome licença daquela que está acima dela. Como estabelecemos acima, em ''façamos o homem'' — ''façamos'' certamente foi dito sobre dois, pois disse este àquele que está acima dele ''façamos'', e nada fez até que tomou licença e enunciado daquele que está acima dele... Mas aquela chamada Causa de todas as causas, que não tem nada acima dela, nem nada embaixo igual a ela — como se diz ''e a quem me comparareis, que lhe seja igual, diz o Santo'' Yeshayahu 40:25 —, ela disse ''vede agora que eu, eu sou Ele, e não há Elokim comigo'' que tome conselho d'Ele, como aquele que disse ''e disse Elokim: façamos o homem''"”.” E explicou o Mikdash Melech, em nome do AR"I (no Sefer haLikutim): "Causa sobre todas as supernas" — Adam Kadmon é chamado "Causa sobre todas as causas"... pois, quando dizemos "Causa das Causas", isso aplica-se a todo partzuf assim chamado, por ser causa às sefirot abaixo dele; mas, quando dizemos "Causa de todas as causas", trata-se de Adam Kadmon, que é a primeira causa de todos os partzufim — vê ali.

כא) עוד שם בזהר ד' כ"ב ע"ב פתח עוד ר' שמעון ואמר ראו עתה כי אני אני הוא ואין אלהים עמדי, אמר, חבריא, שמעון מלין עתיקין דבעינא לגלאה בתר דאתיהיב רשו עלאה למימר, מאן ניהו דאמר ראו עתה כי אני אני הוא, אלא דא הוא עלת על כל עלאין ההוא דאתקרי עלת העלות, עלת מאלין עלות דלא יעביד חד מאלין עלות שום עובדא עד דנטיל רשות מההוא דעילוה. כמא דאוקימנא לעילא בנעשה אדם, נעשה ודאי על תרין אתמר, דאמר דא לההוא דלעילא מניה נעשה, ולא עביד מדעם עד דנטיל רשותא ואמירה מההוא דלעילא מניה וההוא דלעילא מניה לא עביד מדעם עד דנטיל עצה מחבריה, אבל ההוא דאתקרי עלת כל עלות דלית לעילא מניה, ולא לתתא שוה ליה, כמא דאתמר ואל מי תדמיוני ואשוה יאמר קדוש, אמר ראו עתה כי אני אני הוא ואין אלהים עמדי דנטיל עצה מניה כגוונא דההוא דאמר ויאמר אלהים נעשה אדם, ועיין עץ חיים שער עתיק פ' שני, ופי' הרב מקדש מלך בשם האר"י בספר הלקוטים, עלת על כל עלאין אדם קדמון נקרא עלת על כל עלות, ההוא דאתקרי עלת העלות, עלת מאלין עלות, פי' כשאנו אומרים עלת העלות שייך בכל פרצוף שנקרא כך לפי שהוא עלה לעלות שתחתיו, אבל כשאנו אומרים עלת כל העלות הוא אדם קדמון, שהוא עלה ראשונה כל הפרצופים כולם ע"ש.
A análise: "o deus que deu licença"

Eis que se te explicou, das palavras do "filósofo" autor do Zohar e dos seus comentadores (Mikdash Melech em nome do AR"I, Derech Emet e Shvivei Nogah), que o deus que deu licença a Rashbi de expor coisas que é proibido elevar ao coração — a pensar multiplicidade na Divindade — é o Santo chamado Atik; e este não é o que disse a Israel "vede agora que eu, eu sou Ele" etc. Pois o Santo que disse "vede agora que eu, eu sou Ele" seria Adam Kadmon, que é a primeira causa de todos os partzufim, e que não tem de quem tomar licença. E o Santo que disse "haja luz", "haja firmamento", "ajuntem-se as águas" etc. seria Abba; e este que disse "façamos o homem à nossa imagem" seria Imma, que disse a Abba "façamos o homem" — e não concordou o Santo, que é Abba, na sua criação; e disse-lhe Imma: "que te importa? se pecar, a mim peca, e não a ti", conforme "e filho tolo é a tristeza da sua mãe", e não a tristeza do seu pai; e então o homem foi criado sem o querer de Abba, como explicou Shvivei Nogah — pois, se Abba tivesse concordado na sua criação, não a teria expulsado com ele quando pecou; mas, certamente, não concordou Abba nisto, como diz no Zohar "e não quis associar-se" etc., e por isso o expulsou do Jardim do Éden e expulsou-a com ele.

הרי נתבאר לך מדברי הפילוסוף מחבר הזהר ומפרשיו מקדש מלך בשם האר"י ודרך אמת ושביבי נגה שהאלוה שנתן רשות לרשב"י לדרוש בדברים שאסור להעלותן על לב לחשוב רבוי באלהות, הוא הקב"ה הנקרא עתיק, ולא זה הוא שאמר לישראל ראו עתה כי אני אני הוא וכו'. כי הקב"ה שאמר ראו עתה כי אני אני הוא, הוא אדם קדמון שהוא עלה לראשונה לכל הפרצופים, ואין לו ממי ליטול רשות. והקב"ה שאמר יהי אור, ויהי רקיע, ויקוו המים וכו' הוא אבא, וזה שאמר נעשה אדם בצלמינו היא אמא שאמרה לאבא נעשה אדם, ולא הסכים הקב"ה שהוא אבא בבריאתו, ואמרה לו אימא מאי איכפת לך, אם יחטא לי יחטא ולא לך שנ' ובן כסיל תוגת אמו ולא תוגת אביו, ואז נברא שלא לרצון אבא כמו שפי' שביבי נגה, שאלו הסכים אבא בבריאתו לא גירשה עמו כשחטא, אלא ודאי לא הסכים אבא לזה כמו שאמר בזהר ולא בעא לאשתתפא וכו' ולכך גירשו מגן עדן וגירשה עמו.
"Que os hereges não digam: muitas potências"

(22) Um tremor muito grande deve tremer o homem verdadeiramente israelita ante as palavras do mencionado "filósofo" sobre estas coisas — a tal permuta de divindades aqui mencionada, e a divisão dos "dez enunciados" com que o mundo foi criado em divindades diferentes umas das outras! E em Sanhedrin (cap. "Echad Dinei Mamonot") aprendemos na Mishná: "por isso foi criado o homem um único... e para que os minim não digam: ''há muitas potências nos céus''" etc. (explicou Rashi: e cada uma criou a sua parte). E numa baraita: "ensinaram os Sábios: o homem foi criado único — por quê? para que os minim não digam ''há muitas potências nos céus''." Ainda ali: disse Rav Yehudá em nome de Rav: "na hora em que o Santo quis criar o homem, criou uma companhia de anjos servidores e disse-lhes: ''quereis, façamos o homem à nossa imagem?'' Disseram diante d'Ele: ''Senhor do mundo, quais são as suas obras?'' Disse-lhes: ''as suas obras são assim e assim''. Disseram: ''que é o homem, para que d'ele te lembres?'' Tehillim 8:5. Estendeu o seu dedo mínimo e os queimou; e assim a segunda companhia. A terceira companhia disse: ''Senhor do mundo, os primeiros, que falaram diante de ti — de que lhes aproveitou? Todo o mundo é teu; tudo o que queres fazer no teu mundo, faze''. Quando chegou a criação aos homens da geração do Dilúvio e da Dispersão, disseram: ''Senhor do mundo, não falaram bem os primeiros diante de ti?'' Disse-lhes: ''e até a velhice eu sou Ele, e até a idade grisalha eu vos suportarei''" Yeshayahu 46:4. Vê o Maharsha, e vê adiante (siman 25).

כב) חרדה גדולה עד מאד יחרד האיש הישראלי באמת מדברי הפילוסוף הנז' על הדברים האלה חילוף האלוהות הנז' פה, וחלוק עשרה מאמרות שבהם נברא העולם לאלוהות שונים זה מזה! ובסנהדרין פרק אחד דיני ממונות תנן לפיכך נברא אדם יחידי וכו' ושלא יהיו המינים אומרים הרבה רשויות בשמים וכו' פי' רש"י וכל אחד ברא את שלו ע"כ, ובבריתא ת"ר אדם נברא יחידי מפני מה שלא יהיו המינים אומרים הרבה רשיות בשמים, עוד שם אמר רב יהודה א"ר בשעה שבקש הקב"ה לבראת את האדם ברא כת אחת של מלאכי השרת אמר להם רצונכם נעשה אדם בצלמינו, אמרו לפניו רבונו של עולם מה מעשיו אמר להם מעשיו כך וכך אמרו לפניו רבונו של עולם מה אנוש כי תזכרנו, הושיט אצבעו הקטנה ושרפם, וכן כת שנייה. כת שלישית אמרה לפניו רבש"ע ראשונים שאמרו לפניך מה הועילו? כל העולם כולו שלך הוא, כל מה שאתה רוצה לעשות בעולמך עשה, כיון שהגיע לאנשי דור המבול ואנשי דור הפלגה. אמרו לפני רבש"ע לא יפה אמרו הראשונים לפניך? אמר להם ועד זקנה אני הוא ועד שיבה אני אסבל. ועיין מתרש"א ועיין לקמן סי' כ"ה.
Nota — "que os hereges não digam: há muitas potências". Aqui Qafih ancora-se no Talmud (Sanhedrin 38a): o homem foi criado um único (e não em multidão) justamente "para que os minim não digam que há muitas autoridades nos céus" — o eixo do monoteísmo bíblico, "eu, eu sou Ele, e não há D'us comigo" (Devarim 32:39). O "grande tremor" com que ele reage às passagens do Zohar é a sua reação polêmica: ele as lê como dividindo "os dez enunciados" da criação em divindades distintas.
"A sua refutação está ao seu lado"

(23) E ainda aprendemos ali: disse R. Yochanan: todo lugar em que os minim acharam como "romper" apoio para a heresia, a sua refutação está ao seu lado: "façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" — e logo "e criou Elokim o homem à sua imagem"; "vinde, desçamos e confundamos ali a sua língua" — e logo "e desceu o Senhor no singular para ver a cidade" etc. (explicou Rashi: todo lugar em que os minim "romperam", isto é, em que trazem prova da Torá para a sua heresia — ou seja, prova para a multiplicidade de divindades — a sua refutação está ao seu lado, pois ali, naquele mesmo assunto, está explícito na Torá que Ele é um). E como escreveu o Semag, em nome de R. Saadia Gaon (será trazido adiante, siman 61). Ora, no Zohar cujas palavras trouxe acima, ele disse "''façamos'' certamente foi dito sobre dois", e explica que Imma disse a Abba "façamos o homem", e ela fez conforme o seu desejo e o criou sem o consentimento d'Abba, como escrevi acima em nome de Shvivei Nogah. E acaso não é esta a própria opinião dos "rompedores", que trazem prova para a sua heresia de que há muitas divindades, e cada uma faz conforme o seu desejo?!

כג) ועוד גרסינן שם אמר ר' יוחנן כל מקום שפקרו המינים תשובתן בצדן נעשה אדם בצלמינו כדמותינו, ויברא אלהים את האדם בצלמו, הבה נרדה ונבלה שם שפתם, וירד ה' לראות את העיר וכו' ופי' רש"י כל מקום שפקרו המינים שמביאין ראיה להפקירן מן התורה ( ר"ל שמביאין ראיה לרבוי אלוהות) תשובתן בצדן ששם באותו ענין מפורש בתורה שהוא אחד, וכמ"ש הסמ"ג משם ר' סעדיה גאון יובא לקמן סי' ס"א. ובזהר שהבאתי דבריו לעיל אמר נעשה ודאי על תרין אתמר ומפרש שאמא אמרה לאבא נעשה אדם. ועשתה כחפצה ובראה את אדם שלא בהסכמתו כמו שכתבתי לעיל בשם שביבי נגה. וכי לא זו היא דעת הפוקרים ומביאים ראיה להפקירן שאלהות הרבה הם וכל אחד עושה כחפצו?
"Direita" e "esquerda": torcendo os versículos

(24) Ainda está no Zohar Bereshit 15: “"Bereshit bará Elokim et ha-shamayim" — com este ''Bereshit'', criou aquele oculto que não se conhece a este ''palácio''” etc. E explicou o Mikdash Melech: "com esta ''Reshit'', que é Abba, criou aquele oculto" — que é Arich que não se conhece, a saber, Atik — "a este ''palácio'', que é Imma, chamada Elokim". E explicou ali ainda outra explicação: "''Bereshit bará Elokim et ha-shamayim ve-et ha-aretz''" — quer dizer: pela força de Abba, criou Elokim, que é Biná, "os céus e a terra", que são o Ze'ir Anpin e a sua Nukva. Eis que se explica, tanto pela primeira explicação quanto pela última, que ele chama Abba "Bereshit"... E na parashá de Bo (p. 37): “"os céus" — esta é a direita do Santo; e "a terra" — esta é a esquerda; pois inclinou o Santo a sua direita e criou os céus, e inclinou a sua esquerda e criou a terra”. E explicou a glosa de R. Chaim Vital: os chassadim constroem o Ze'ir, e as gevurot constroem a Nukva — eis o que está escrito "também a minha mão fundou a terra, e a minha direita estendeu os céus; chamo-os, e erguem-se juntos" Yeshayahu 48:13... E explicou o Mikdash Melech: "'erguem-se juntos' — poderias pensar: os céus e a terra; mas não — antes, a direita e a esquerda... pois não se pode dizer que sempre estão juntos, visto que a Nukva às vezes se separa dele no exílio". O que vê verá, e reconhecerá, e entenderá como o "filósofo" autor do Zohar torce para nós a interpretação dos versículos, não conforme o desejo dos Sábios — como se explicará adiante, no siman seguinte.

כד) עוד איתא בזהר בראשית ט"ו בראשית ברא אלהים את השמים, בהאי בראשית ברא ההוא סתימא דלא אתידע להאי היכלא וכו' ופי' הרב מקדש מלך בהאי ראשית שהוא אבא, ברא ההוא סתימא, הוא אריך דלא אתידע, הוא עתיק, להיכלא דא היא אימא הנקראת אלהים ע"כ. ועוד פי' שם פי' אחר בראשית ברא אלהים את השמים ואת הארץ, ר"ל בכח אבא ברא אלהים שהיא בינה את השמים ואת הארץ שהוא זעיר אנפין ונוקביה ע"כ. הרי מבואר מזה דבין לפירוש קמא בין לפי בתרא הוא קורא לאבא בראשית, אלא דלפירוש קמא קראו אריך ועתיק את אלהים שהיא בינה דהיינו אמא. ולפירוש בתרא בכח אבא ברא אלהים שהיא בינה את השמים ואת הארץ שהם זעיר ונוקביה (מקדש מלך ד"ה אי בהאי). ובפרשת בא דף ל"ז (ח"ב לז, א) את השמים דא ימינא דקב"ה ואת הארץ דא שמאלא, דסטא קב"ה ימיניה וברא את שמיא, וסטא שמאליה וברא ית ארעה. ופי' בגליון הרח"ו החסדים בונים זעור, והגבורות בונים הנוקבא, הדא הוא דכתיב אף ידי יסדה ארץ וימיני טפחה שמים קורא אני אליהם יעמדו יחדיו, מהו יעמדו יחדיו, סלקא דעתך שמיא וארעא. לאו הכי אלא ימינא ושמאלא דאיהו את ואת וכו'. ופי' המקדש מלך, אף ידי יסדה ארץ, הבינה אומרת כן, סלקא דעתך שמיא וארעא, פי' דאי אפשר לאמר עליהם יעמדו יחדו דמשמע תמיד הם עומדים יחדיו, וא"א לומר כן, שהרי הנוקבא פעמים נפרדת ממנו בגלות ע"כ, ועיין לקטן ס"י כ"ז היפך זה דלא מתפרשין לעלמין. הרואה יראה ויכיר ויבין איך הפילוסוף מחבר הזהר מעקם עלינו את נדרך בדרשת הכתובים שלא כרצון חכמים כמבואר להלן בסי' דלקמן.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O direito de examinar

O capítulo abre fundamentando o método: a Mishná manda "revolver" a Torá (Avot 5:22), o Talmud louva o esforço de entender, e Chagigá ensina o discípulo a "fazer do ouvido um funil" e a discernir entre as opiniões dos sábios. Para Qafih, examinar e julgar é o caminho da Torá — e é com esse direito que ele passa às passagens concretas.

A leitura literal das passagens

Qafih cita o Zohar diretamente — o diálogo entre Abba e Imma na criação do homem, o "ancião dos anciãos" (Atik) que autoriza Rashbi, a "direita" e a "esquerda" do Santo — e lê tudo ao pé da letra, como descrições de divindades distintas conferindo entre si. Aponta ainda contradições entre os próprios cabalistas (o Etz Chaim contra o Zohar) para reforçar que não se trata de uma tradição uniforme.

O verdadeiro ponto em disputa

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XIV

Toda oração ao Ze'ir Anpin?

אֶת ה' אֱלֹהֶיךָ תִּירָא וְאֹתוֹ תַעֲבֹד
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih prossegue a refutação. Dois golpes: o argumento da Septuaginta (os 72 anciãos esconderam de Ptolemeu os plurais que poderiam soar a "duas potências") e a tese, que ele atribui ao Zohar, de que todo o culto se dirige ao Ze'ir Anpin — "o Senhor, nosso D'us" — e não ao Ein Sof. Mas as próprias fontes que ele cita dizem que a alma do Ze'ir é a Causa Primeira.

A Septuaginta: esconder os plurais

(25) E, segundo as palavras do Zohar e do Mikdash Melech, por que mudaram os 72 anciãos a tradução para o rei Ptolemeu, quando lhe verteram a Torá? Como aprendemos no cap. 1 de Meguilá: o caso do rei Ptolemeu, que reuniu 72 anciãos, e os pôs em 72 casas, e não lhes revelou para que os reunira; e entrou junto a cada um deles e lhes disse: "escrevei-me a Torá de Moshé, vosso mestre". E o Santo pôs conselho no coração de cada um, e a opinião deles concordou numa só, e escreveram-lhe "Elokim criou no princípio os céus e a terra" invertendo a ordem (explicou Rashi: para que Ptolemeu não dissesse que "Bereshit" é um nome, e que há duas potências, e que a primeira criou a segunda). E assim escreveram "farei o homem no singular em imagem e semelhança". E assim escreveu o Maharsha no comentário de Rashi: para que não dissesse que há duas potências — e Ptolemeu não iria aceitar o que disseram em Sanhedrin, "todo lugar em que os minim romperam, a sua refutação está ao seu lado": "façamos o homem", "e criou Elokim", "vinde, desçamos", "e desceu o Senhor"; e os plurais foram escritos originalmente em plural porque disse R. Yochanan: "o Santo não faz coisa alguma até que tome conselho com a comitiva pamalyá do alto" etc.; e o seu sentido é como escreveu Rashi no Chumash, que é da medida da humildade — que o grande tome conselho com o pequeno —, e isto segundo o Bereshit Rabbá.

כה) ולפי דברי הזהר ומקדש מלך למה שינו השבעים ושנים זקנים לתלמי המלך כשהעתיקו לו את התורה כדגרסינן בפרק קמא דמגלה מעשה בתלמי המלך שכינס ע"ב זקינים והושיבם בע"ב בתים ולא גילה להם על מה כינסם. ונכנס אצל כל אחד ואחד מהם. ואמר להם כתבו לי תורת משה רבכם. ונתן הקב"ה עצה בלב כל אחד ואחד והסכימה דעתם לדעת אחת, וכתבו לו אלהים ברא בראשית את השמים ואת הארץ ופי' רש"י ז"ל שלא יאמר בראשית שם הוא, ושתי רשויות הן, האחד ברא את השני, וכן כתבו אעשה אדם בצלם ובדמות. וכן כ' הרב מהרש"א בפי' רש"י שלא יאמר שתי רשויות הן והוא לא יקבל מה שאמרו בסנהדרין כל מקום שפקרו המינים תשובתן בצדן. נעשה אדם, ויברא אלהים, הבה נרדה, וירד ה', ונכתבו מעיקרא בלשון רבים דאמר ר' יוחנן אין הקב"ה עושה דבר עד שנמלך בפימליא שלמעלה וכו' וענינו כמו שכ' רש"י בחומש שהוא ממדת הענוה שיהא הגדול נמלך בקטן והוא על פי בראשית רבה וכו'.
Nota — o argumento da Septuaginta. O lance é engenhoso. Quando o rei Ptolemeu mandou 72 anciãos traduzirem a Torá (Meguilá 9a), eles, por inspiração divina, alteraram "Bereshit bará Elokim" para "Elokim bará bereshit" e escreveram "farei o homem" no singular — justamente para que o rei pagão não lesse ali "duas potências". Ora — argumenta Qafih — se a leitura cabalística (que vê nos plurais e em "Bereshit" nomes de partzufim) fosse o verdadeiro sentido sinaítico, os anciãos a teriam transmitido; em vez disso, esconderam-na como perigosa. Para ele, isso confirma que tal leitura não é a tradição de Moshé. (O cabalista responderia que os anciãos protegeram um segredo do rei pagão — não que o segredo fosse falso.)
O Moré: tudo retorna ao Único

E vê no Moré Nevuchim (II:6), que trouxe duas versões: a primeira, de que "o Santo não faz coisa alguma até que olhe na comitiva do alto" — e isto seria como o dito de Platão, de que o Santo contempla o mundo dos intelectos e d'ele faz fluir a existência. E a segunda versão é a que disseram noutro lugar: "o Santo não faz coisa alguma até que tome conselho com a comitiva pamalyá do alto" — e "pamalyá" é "o exército", em língua grega. E no Bereshit Rabbá e no Midrash de Kohelet, sobre "aquilo que já o fizeram" — "fê-lo" não se disse, mas "fizeram-no": por assim dizer, Ele e o Seu tribunal se contaram sobre cada membro do corpo que há em ti, e o assentaram no seu lugar, conforme se disse "Ele te fez e te estabeleceu". E no Bereshit Rabbá disseram também: "todo lugar em que se diz ''e o Senhor'' vav+H' — é Ele e o Seu tribunal". E não é a intenção desses ditos o que dela pensaram os tolos — que Ele, bendito, tenha necessidade de palavras, ou pensamento, ou pedido de conselho, ou ponderação, ou auxílio na opinião de outros (e como se auxiliaria o Criador no que Ele mesmo criou?!) —, mas tudo isto significa que até as próprias partes da existência, incluindo a formação dos membros dos seres vivos conforme são, se fizeram tudo por meio de anjos, pois todas as forças são anjos. E quão mau é o cegamento da tolice... — vê ali. Os teus olhos veem como os Sábios afastaram a ideia de atribuir ao Santo que Ele precisa das suas criaturas e se auxilia nelas, ou de atribuir aos anjos que cumprem a Sua missão alguma criação — mas tudo retorna ao Santo; não como fez o "filósofo" autor do Zohar, que chamou Abba "criador" e fez de Imma o "artífice que faz a vontade do dono da casa" — como se explicou acima —, e não atribuiu a criação à Causa Primeira, mas apenas a Abba (ou, por uma explicação, a Arich pela força de Abba) — como se o Criador fosse fraco, e eles se auxiliassem mutuamente na criação.

ועיין במורה נבוכים פ"ו משני שהביא שתי נוסחאות. האחת שאין הקב"ה עושה דבר עד שמסתכל בפימליא שלמעלה והוה כמאמר אלפטון שהשי"ת יעיין בעולם השכלים וישפיע ממנו המציאות. והנוסחא השנית היא שאמרו במקום אחר אין הקב"ה עושה דבר עד שנמלך ב]מיליא שלמעלה. ופמיליא הוא החיל בלשון יון. ובבראשית רבה ובמדרש קהלת את אשר כבר עשוהו. עשהו לא נאמר אלא עשוהו. כביכול הוא ובית דינו נמנו על כל אבר ואבר שבך והושיבוהו על כנו שנ' הוא עשך ויכוננך, ובבראשית רבה אמרו ג"כ כל מקום שנ' וה' הוא ובית דנו, ואין הכוונה כאלו המאמרים מה שהשבוהו הפתאים שיש לו ית' דברים או מחשבה או שאלת עצה או התבוננות, והעזר בדעת אחרים, ואיך יעזר הבורא במה שברא, אבל זה כולו עניינו שאפי' חלקי המציאות עד בריאת האברים מבעלי חיים כפי מה שהם עליו. כל זה באמצעית מלאכים, כי הכחות כולם מלאכים. ומה מאד רע עורון הסכלות, ומה מאד מזיק, שאלו תאמר לאחד מאשר יחשבו שהם חכמי ישראל וכו' ע"ש. עניך הרואות איך רז"ל הרחיקו ליחס לשי"ת שהוא צריך לברואיו ונעזר בהם, או ליחס למלאכים העושים שליחותו שום בריאה, אלא הכל שב אל השי"ת, לא כמו שעשה הפילסוף מחבר הזהר שקרא לאבא בורא, ולאימא שם אותה לאומן העושה רצון בעל הבית. כמו שנתבאר לעיל, ולא יוחס הבריאה לסבה הראשונה רק לאבא, או או לחד פירוש לאריך בכח אבא כאלו הבורא חלש והם מסתייעים זה בזה בבריאה:
"Por que estragaram os versículos?"

E, segundo as tuas palavras — de que os cabalistas receberam assim de Moshé, nosso mestre —, deviam os 72 anciãos verter para o rei Ptolemeu os versículos como eles são, e explicar-lhe que "Bereshit" quer dizer que Abba criou Elokim, que é Biná; e assim "façamos o homem" deviam explicar-lhe que foi dito sobre dois. E por que estragaram os versículos em vão, e tiveram por boa tal estratégia com palavras, sem o conhecimento da Torá que seria halacha le-Moshe mi-Sinai? Cabia-lhes deixar os versículos como são, e explicar-lhe o sentido dos versículos na sua forma — que é halacha de Moshé, segundo as tuas palavras —, e as suas palavras seriam corretas e aceitáveis para ele, conforme a sua própria opinião de crença em muitos deuses! E explicar-lhe também que "Bereshit" é um nome — como explicou no Zohar, que é Abba, e que é o Elokim que disse "haja luz", "haja firmamento", "ajuntem-se as águas" —, e também lhe explicariam que "os céus e a terra" são nomes de divindades, como explicou o "filósofo" no Zohar, a saber, que são Ze'ir e a sua Nukva. Ora, os Sábios afastaram estas opiniões ao extremo do afastamento, como aprendemos em Chagigá (cap. "Ein Dorshin"): perguntou R. Yishmael a R. Akiva, quando caminhavam pelo caminho: "tu, que serviste Nachum ish Gam Zu por 22 anos, que expunha todos os ''et'' partículas da Torá — ''et ha-shamayim ve-et ha-aretz'', que expôs neles?" Disse-lhe: "se se dissesse ''shamayim va-aretz'', eu diria que são nomes do Santo; agora que se diz ''et ha-shamayim ve-et ha-aretz'' — céus são céus de fato, terra é terra de fato". E no Bereshit Rabbá o assunto está mais bem assentado: "...se se dissesse ''Bereshit bará Elokim shamayim va-aretz'', diríamos que os céus e a terra são divindades". E vê o Maharsha e o Etz Yosef, e entenderás que esta é exatamente a opinião do Zohar — pois "os céus e a terra" aqui mencionados no Zohar são Ze'ir e a sua Nukva, que são, segundo a opinião deles, "o Senhor, nosso D'us", como se explicará adiante.

ולפי דבריך שהמקובלים קיבלו כן ממשה רבי' ע"ה היה להם לע"ב זקנים להעתיק לתלמי המלך את הכתובים כמה שהם ולפרש לו כי בראשית שהוא אמר אבא ברא את אלהים שהיא בינה, וכן נעשה אדם היה להם לבאר שעל שנים נאמר, ולמה קלקלו את הכתובים בחנם, והחשיבו עצה במלין בלי דעת תורה שהיא הלכה למשה מסיני? ראוי היה להם להניח את הכתובים כמו שהם, ולפרש לו משמעות הכתובים בצורתן שהיא הלכה למשה לפי דבריך, והיו דבריהם נכונים ומתקבלים אצלו כפי דעתו באמונת אלוהות רבים? ולפרש לו ג"כ כי בראשית שם הוא כמו שפי' בזהר שהוא אבא והוא אלהים שאמר יהי אור ויהי רקיע, ויקוו המים, וגם יפרשו לו את השמים ואת הארץ. שמות אלוהות הן, כמו שפי' הפילוסוף בזהר שהם זעיר ונוקביה. ורז"ל הרחיקו הדעות האלה תכלית ההרחקה כדגרסינן בחגיגה פרק אין דורשין שאל ר' ישמעאל את ר' עקיבה כשהיו מהלכין בדרך. אמר לו אתה ששמשת את נחום איש גם זו כ"ב שנה שהיה דורש כל אתין שבתורה, את השמים ואת הארץ מאי דרש בהן אמר לו אלו נאמר שמים וארץ הייתי אומר שמותיה של הקב"ה הן. עכשיו שנ' את השמים ואת הארץ. שמים שמים ממש ארץ ארץ ממש. ובבראשית רבה הענין מתוקן יותר וז"ל ר' ישמעאל שאל את ר' עקיבה אמר לו בשביל ששמשת את נחום איש גם זו כ"ב שנה. אכין ורקין מעוטין. אתין וגמין ריבויין. הדין את דכתיב הכא מהו, אמר לו אלו נאמר בראשית ברא אלהים שמים וארץ היינו אומרים שמים וארץ אלוהות הן ע"כ. ועיין מהרש"א ועץ יוסף ותבין שזהו ממש דעת הזהר כי שמים וארץ הנז' כאן הם זעיר ונוקביה שהוא לפי דעתם ה' אלהינו וכמו שיתבאר לקמן.
"H' melech" e "há o Senhor no nosso meio?"

(26) Ainda no Zohar Bereshit p.34: está escrito "H' melech, H' malach, H' yimloch le-olam va-ed" — "H' melech" no alto, "H' malach" no meio, "H' yimloch" embaixo. E explicou o Mikdash Melech, em nome das Kavanot: "H' melech" é Arich Anpin; "H' malach" é Abba e Imma; "H' yimloch" é Ze'ir e Nukva. E na parashá de Beshalach (p.64), sobre "há o Senhor no nosso meio, ou não?" Shemot 17:7, pergunta o Zohar: "acaso eram tolos os de Israel?..." — mas explica que queriam saber a diferença entre o Atika Setima, chamado "Ayin" Nada, e o Ze'ir Anpin, chamado "H'". E explicou o Mahari Lopis que a intenção do Zohar é que os nossos pais quiseram saber quem é o que os conduz e lhes faz todos esses milagres — se o Santo chamado Ze'ir e HaVaYaH, ou o "Ayin" chamado Atik —; e fizeram esta investigação a fim de servi-Lo do modo a Ele apropriado: se for o Ze'ir Anpin, de um modo; se for o Atik, de outro modo — pois há diferença entre um culto e outro, e entre uma intenção e outra; e estiveram nesta dúvida até que ouviram "Anochi H' Elohecha", e então souberam que é o Ze'ir. E em Menachot (cap. "Harei Alai Issaron") aprendemos: ensinou R. Shimon ben Azzai: "vem e vê o que está escrito na seção dos sacrifícios — que ali não se disse nem ''El'' nem ''Elohim'', mas só ''la-Hashem'' — para não dar abertura ao herege disputante para divergir" (explicou Rashi: ao disputante, para dizer que há duas potências, e a coisa o provaria — que este, cujo nome é tal, ordenou oferecer-lhe uma oferta vegetal, e este, cujo nome é tal, ordenou oferecer-lhe touros e carneiros). Eis que aprendeste que esta é a opinião

כו) עוד בזהר בראשית דף ל"ד (ח"א לד, א) כתיב ה' מלך ה' מלך ה' ימלוך לעולם ועד ה' מלך לעילא. ה' מלך: באמצעיתא. ה' ימלוך לתתא ע"כ. ופי' המקדש מלך בשם הכוונות. ה' מלך הוא אריך אנפין. ה' מלך אבא ואימא. ה' ימלוך זעיר ונוקביה ע"כ. ובפרשת בשלח דף ס"ד (ח"ב סז, א) על פסוק היש ה' בקרבנו אם אין מקשה בזהר וכי טפשין הוו ישראל וכו' אלא בעו למנדע בין עתיקא סתימא דאיקרי אין ובין זעיר אנפין דאיקרי ה', ועל דא לא כתיב היש ה' בקרבנו אם לא כמה דכתיב הילך בתורתי אם לא. אמרו ישראל אי האיי נשאל בגוונא חד. ואי הא"י נשאל בגוונא אחרינא. ועל דא מיד ויבא עמלק ופי' מהר"י לופיס שכוונת הזהר היא שאבותינו בקשו לדעת מי הוא המנהיגם ועושה להם כל הנסים הללו אם הקב"ה הנקרא ז"א והויה או אין הנקרא עתיק, ועשו החקירה הזאת כדי לעבדו באופן הראוי לו, אם זעיר אנפין באופן אחר, ואם עתיק באופן אחר לפי שיש הפרש בין עבודה לעבודה, ובין כוונה לכוונה, והיו בספק זה עד ששמעו אנכי ה' אלהיך, ואז ידעו שהוא ז"א עכ"ל. ובמנחות פרק הרי עלי עשרון גרסינן תנא אמר ר' שמעון בן עזאי בא וראה מה כתיב בפרשת קרבנות שלא נאמר בהן לא אל ולא אלהים אלא לה' שלא ליתן פתחון פה לבעל הדין לחלוק, ופי' רש"י לבעל הדין לומר רשויות הן, והדבר מוכיח שזה ששמו כך צוה להקריב לו מנחה, וזה ששמו כך צוה להקריב לו פרים ואלים ע"כ. הא למדת, שזוהי דעת
"Escolheram servir o último partzuf"

do autor do Zohar — de que as divindades são divididas; e de que os nossos pais quiseram saber, na sua investigação (segundo as suas palavras), qual é o deus que os conduz — se o Atik chamado "Ayin", cujo culto é de um modo, ou o Ze'ir Anpin, cujo culto é outro —, e não se lhes esclareceu esta dúvida até a entrega da Torá, quando então souberam (segundo o seu sistema) que é o Ze'ir Anpin. E isto se entende como escreveu o Rambam (cap. 3 das Hilchot AZ): "muitos cultos estabeleceram os adoradores de idolatria, a cada imagem um culto próprio; mas nós, os crentes na Unidade que não tem semelhante entre todos os outros uns — não há lugar para estas coisas", como nas palavras dos Sábios em Menachot mencionado. De todos os ditos do Zohar e dos seus comentadores mencionados acima, explicou-se que eles chamam a cada um dos partzufim da Emanação "HaVaYaH", "Adnut", "Elokim" e "o Santo"; e escolheram servir o partzuf último, que é o Ze'ir Anpin. E disseram que ao Ein Sof, com todos os partzufim emanados d'Ele, não se aplica culto algum nem invocação, e que o que lhe ora não é atendido, pela sua grande sublimidade; e quanto mais os partzufim dos mundos acima do mundo da Emanação, aos quais não se aplica culto algum, pela sua grande ocultação; e que somente ao Ze'ir Anpin, sozinho, se aplica culto e oração, e invocação a ele em tempo de aflição — pois ele é o intermediário que conecta todas as forças de cima e de baixo, já que assim o engrandeceram Abba e Imma e o fizeram dominar sobre todos os criados, e ordenaram servi-lo e abençoá-lo; e ele é, segundo eles, "o Senhor, nosso D'us". E isto está explicado no Zohar parashat Balak (p.191b): “"...''que é o Seu nome, e que é o nome do Seu filho, se o sabes?'' Mishlei 30:4 — aquele nome conhecido, ''H' Tzevaot'' é o Seu nome (explicação: Abba); o nome do Seu filho é ''Israel'' (explicação: Ze'ir Anpin), conforme está escrito ''meu filho, meu primogênito, Israel''. E este ''Israel'' — todas as chaves da fé estão suspensas n'ele; e ele se acha e diz ''H' me disse: meu filho és tu'' (explicação: o Ze'ir diz que Abba, chamado ''H' Tzevaot'', lhe disse ''meu filho és tu''), e assim é certamente — pois Abba e Imma o coroaram e o abençoaram com muitas bênçãos, e disseram e ordenaram a todos: ''beijai o filho, para que Ele não se irrite''; ''beijai este filho'' — por assim dizer, Abba deu-lhe domínio sobre tudo, para que tudo o sirva. Todas as bênçãos de cima e de baixo a este filho sobem e o coroam; e o que retém bênçãos d'este filho — descrevam os seus pecados diante do Rei santo (variante: da Mãe santa), à ''mãe'' de fato (explicação: Biná)"”.

מחבר הזהר שאלוהות מחולקים הם, ובקשו אבותינו (לפי דבריו) לידע בחקירתם איזה הוא האלוה המנהיגם, אם עתיק הנקרא אין עבודתו באופן אחר, ואם זעיר אנפין עבודתו אחרת, ולא נתברר להם ספק זה עד מתן תורה שאז ידעו (לפי שיטתו) שהוא זעיר אנפין. ויתבאר זה כמו שכ' הרמב"ם פרק ג' מה"ל ע"ז וז"ל עבודות הרבה קבעו עובדו ע"ז לכל צלם וצלם עבודה מיוחדת לו. אבל אנחנו מאמיני האחדות שאין כמוה בכל שאר האחדים אין מקום לדברים אלו כדברי רז"ל במנחות הנז"ל. מכל מאמרי הזהר ומפרשיו הנז' לעיל נתבאר שהם קורין לכל אחד מן הפרצופים שבאצילות הוי'ה ואדנות ואלהים והקב"ה. ובחרו לעבוד לפרצוף האחרון שהוא זעיר אנפין. ואמרו שהאין סוף עם כל הפרצופים הנאצלים ממנו לא שייכא שהו שום עבודה ולא קריאה, ושהמתפלל אליהם אינו נענה לרוב רוממותם, וכ"ש פרצופים שבעולמות שהם למעלה מעולם האצילות דלא שייכא בהו שום עבודה לרוב העלמם ורק בזעיר אנפין לבדו שייך עבודה ותפלה, וקריאה אליו בעת צרה, כי הוא עמו דהאמצעי המקשר כל הכחות שלמעלה ושלמטה, שכן גידלוהו אבא ואימא והשליטוהו על כל הברואים, וצוו לעבדו ולברכו, והוא לדעתם ה' אלהינו. והוא מבואר בזהר פרשת בלק דף קצ"א ע"ב (ח"ג קצא, ב) וז"ל עם פי' מקדש מלך על פסוק מונע בר יקבוהו לאום, ורזא דמלה כתיב ברזא דלעילא מה שמו ומה שם בנו כי תדע, ההוא שם ידיעה ה' צבאות שמו (פי' אבא) שם בנו ישראל שמו (פי' זעיר אנפין) דכתיב בני בכורי ישראל, והאי ישראל כל מפתחאן דמהימנותא בית תלין. ואיהו משתכח ואמר ה' אמר אלי בני אתה (פי' ז"א אומר שאבא הנקרא ה' צבאות אצר אלי בני אתה) והכי הוא ודאי. דהא אבא ואימא אעטרו ליה ובריכו ליה בכמה ברכאן. ואמרו ופקידו לכלא נשקו בר פן יאנף. נשקו להאי בר. כביכול שולטנו יהב ליה על כלא דכלא יפלחון דזכי לרחמי לרחמי. כל ברכאן דעילא ותתא לההוא בר סלקין ומתעטרן. ומאי דמנע ברכן מהאי בר יפרשון חטאוי קמי מלכא קדישא (ס"א אימא קדישא) לאם ממש (פירש בינה) ע"כ.
"Tudo sobe ao filho, não ao Ein Sof"

Eis explicitamente que o Zohar chama Abba "H' Tzevaot", e ao Ze'ir Anpin chama "filho" de Abba e Imma; e ele é o chamado pelo Nome HaVaYaH em vários lugares no Zohar; e diz que Abba e Imma lhe deram a força e o domínio sobre todos os criados, e ordenaram servi-lo; e que todas as nossas bênçãos e orações a ele especificamente devem subir, para serem coroa ao Ze'ir — e não a Abba e Imma, nem a Arich Anpin, nem a Atik, nem a Adam Kadmon que chamaram "Causa de todas as causas" (como acima, siman 21), e tampouco a Adam Kadma'a (pois todos os mundos acima do mundo da Emanação vieram a ser dentro dos seus "círculos" iggulim — Mikdash Melech, Bereshit 115); e quanto mais não ao Ein Sof, que está distante e elevado, acima de tudo — sobre o qual disseram que não se lhe aplica culto, oração nem bênção; pois só no Ze'ir se aplica e d'ele depende a providência sobre os seres inferiores e as suas obras, e não nas divindades superiores. E é o Ze'ir Anpin, sozinho, que paga boa recompensa aos justos e exige pena dos ímpios.

הרי בהדיא שהזהר קרי לאבא ה' צבאות, ולזעיר אנפין קרי ליה בן לאבא ואימא. והוא הנקרא בשם הוי'ה בכמה מקומות בזהר. ושאבא ואימא נתנו לו הכח והממשלה בכל הנבראים וצוו לעבדו, ושכל ברכותינו ותפלותינו אליו דוקא יעלו להיות עטרה לז"א, ולא לאבא ואימא, ולא לאריך אנפין, ולא לעתיק, ולא לאדם קדמון אשר קראוהו עלת כל העלות (כדלעיל סי כ"א) וגם לא לאדם קדמאה שכל העולמות שלמעלה מעולם האצילות נתהוו בתוך עיגולי (מקדש מלך בראשית קט"ו ד"ה ורמז) וכ"ש להאין סוף שהוא רחוק וגבוה מעל גבוה למעלה מן הכל. שעליו אמרו דלא שייך ביה שום עבודה ותפלה וברכה, כי רק בז"א שייך ותלוי ההשגחה בתחתונים ובמעשיהם, ולא באלוהות העליונים. והוא זעיר אנפין לבדו המשלם שכר טוב לצדיקים ונפרע מן הרשעים.
"O filho" = Israel, não um deus

Mas todos os partzufim de cima, com o Ein Sof que está acima de tudo, não supervisionam nem atendem a nenhuma obra dos seres inferiores, seja entre bem ou mal; "curta, encurtou-se a sua mão de redimir", e não há neles força para salvar o que a eles clama em tempo de aflição — como se o Senhor tivesse abandonado os céus e a terra (D'us nos livre) e os tivesse entregado na mão do "curto de paciência", o Ze'ir — que é criado e não criador, como ainda se explicará adiante das palavras do Zohar e dos cabalistas. Ora, os Sábios expuseram o versículo "quem subiu aos céus e desceu?" Mishlei 30:4 de modo apropriado (trazido no Yalkut Mishlei §962 e no Midrash haGadol, início da parashá de Shemot): “"quem subiu aos céus" — este é o Santo, ''subiu D'us com brado'' Tehillim 47:6, e ''desceu'' — ''e desceu o Senhor sobre o Monte Sinai''; ''quem ajuntou o vento nos seus punhos? ... em cuja mão está a alma de todo vivente'' Iyov 12:10; ... ''qual é o Seu nome? — Tzur é o Seu nome, Shaddai é o Seu nome, H' Tzevaot é o Seu nome''; ''e qual é o nome do Seu filho? — meu filho, meu primogênito, Israel''”. E o assunto é simples: é sobre Israel, que são chamados "filhos" ao Onipresente — pois, por meio de Israel, se divulgou a Sua divindade, bendito, no mundo —; não que haja um "nome" para o Ze'ir, chamado "filho" pelo "filósofo" no Zohar. E agora completemos a coisa que começamos.

אבל כל הפרצופי שלמעלה עם האין סוף שהוא למעלה מן הכל אין משגיחים ומפקידין בכל מעשה התחתונים בין טוב לרע, וקצור קצרה ידם מפדות, ואין בהם כח להציל את הקורא אליהם, בעת צרה, עזב ה' את השמים ואת הארץ ח"ו, והפקידם ביד קצר האפים ז"א. שהוא נברא ולא בורא כמו שיתבאר עוד לקמן מדברי הזהר והמקובלים. ורז"ל דרשוהו לפסוק מי עלה שמים וירד באופן נאות הובא בילקוט משלי רמז תתקס"ב ובמדרש הגדול ריש פרשת שמות וז"ל מי עלה שמים זה קב"ה עלה אלהים בתרועה וירד. וירד ה' על הר סיני, מי אסף רוח בחפניו, אשר בידו נפש כל חי. מי צרר מים בשמלה, צורר מים בעביו, מי הקים כל אפסי ארץ ה' ממית ומחיה, מה שמו. צור שמו, שדי שמו, ה' צבאות שמו, ומה שם בנו, בני בכורי ישראל, והענין פשוט, שהוא על ישראל שנקראו בנים למקום, לפי שעל ידי ישראל נתפרסם אלהותו ית' בעולם, לא שיהא שם לז"א הנקרא אצל הפילוסוף בזהר בן והנה עתה נשלים דבר שהתחלנו בו.
"A Ele servirás": o culto ao Ze'ir

(27) E eis que a opinião do Zohar e dos cabalistas que o seguem é que todo o nosso culto e as nossas orações vão ao Ze'ir Anpin especificamente. Eis as palavras do Zohar (Vayera, p.112): “"''le-H' Elohecha tira'' não está escrito, mas ''et H' Elohecha tira'' Devarim 6:13; que é ''et''? — este é o primeiro grau (explicação na glosa: a Malchut, aludida na palavra ''et''), depois do temor do Santo; e por isso está escrito ''tira'' temerás, pois ali precisa o homem de temer diante do seu Senhor, já que ele é ''tribunal'' bei dina. ''ve-oto ta'avod'' e a Ele servirás — este é o grau supremo que está sobre este grau inferior, e nunca se separam... mas o culto é ao alto, e por isso ''ve-oto ta'avod''"” (explicação: mas o culto é ao Ze'ir Anpin, conforme se disse "ve-oto ta'avod") — até aqui a linguagem do Zohar, com a explicação do Rashb na glosa. E a intenção do Zohar é expor: visto que não se escreveu "le-H' Elohecha tira ve-ta'avod", e se escreveu "et" para incluir — incluiu a medida da Malchut, que é a Nukva do Ze'ir Anpin, no temer; e, visto que se escreveu "ve-oto ta'avod", excluiu-a do culto — pois é especificamente "a ele oto servirás", e não "a ela" otah, isto é, a Malchut. Eis que incluiu-a no temer e excluiu-a do culto, já que o culto é ao Ze'ir Anpin especificamente.

כז) והוא שדעת הזהר והמקובלים הנמשכים אחריו שכל עבודתינו ותפלותינו לזעיר אנפין דוקא, וז"ל הזהר וירא דף קיב (ח"א קיב, א) תא חזי לה' אלהיך תירא לא כתיב אלא את ה' אלהיך תירא, מאי את דא דרגא קדמאה (פירש בגליון מלכות רמוזה בתיבת את ה' אלהיך תירא) אחר דחלא דקב"ה, ובגין כך כתיב תירא, דתמן בעי בר נש לדחלא קמי מריה בגין דאיהו בי דינא, ואותו תעבוד דא דרגא עלאה דקימא על האיי דרגא תתאה ולא מתפרשין לעלמין, את ואותו דא בדא דבקין ולא אתפרשן, מאי ואותו דא אתר ברית קדישא אות לעלמין, דהא פולחנא לא שריא באת ולא איהו למיפלח אלא למדחל, אבל פולחנא איהו לעילא, ובגין כך ואותו תעבוד (פי' אבל העבודה היא לזעיר אנפין כמו שנ' ואותו תעבוד ותייחד עמיה שכנתיה ועיין בס' המצות בתפלת אליהו הנביא מפורש באורך) ע"כ לשון הזהר עם פי' הרש"ב בגליון. וכונת הזהר לדרוש מדלא כתיב לה' אלהיך תירא ותעבוד, וכתיב את לרבות, ריבה מדת המלכות שהיא נוקבא דזעיר אנפין ליראה, ומדכתיב ואותו תעבוד מיעט אותה מעבודה דדוקא אותו תעבוד ולא אותה (דהיינו מלכות) הרי ריבה אותה ליראה ומיעט אותה מעבודה שהעבודה לזעיר אנפין דוקא.
A prova de Shimon haAmsoni

(28) E daqui há como provar que ela não é tradição recebida de Moshé, nosso mestre, como subiu ao teu juízo. Pois, se fosse assim — que é tradição de Moshé —, por que Shimon haAmsoni (ou Nechemiá haAmsoni) desistiu de expor os "et" da Torá, quando chegou a "et H' Elohecha tira"? Como aprendemos no cap. "Kol Sha'á": ensinou-se que Shimon haAmsoni — e há quem diga Nechemiá haAmsoni — expunha todos os "et" da Torá; quando chegou a "et H' Elohecha tira", desistiu. Disseram-lhe os seus discípulos: "Rabi, todos os ''et'' que expuseste — que será deles?" Disse-lhes: "assim como recebi recompensa pela exposição, assim recebo recompensa pela desistência" — até que veio R. Akiva e expôs "et H' Elohecha tira" para incluir os sábios da Torá (explicou Rashi: quando chegou a "et H' Elohecha tira", disse: "que incluirei com Ele no temer?"; desistiu de todos, e retratou-se de todas as inclusões que expusera — até que veio R. Akiva e expôs "et" para incluir os sábios, de modo que o temor do teu mestre seja como o temor do Céu). E, se fosse conforme as tuas palavras — que é halacha le-Moshe mi-Sinai —, que tinha Shimon haAmsoni a desistir? Acaso não saberia dizer "para incluir a esposa do Ze'ir Anpin, que é ''o Senhor, nosso D'us'' segundo as palavras deles"? — como expuseram os Sábios em Ketubot: "ensinou-se sobre ''honra teu pai e tua mãe'': ''et'' teu pai — esta é a esposa do teu pai; ''et'' tua mãe — este é o marido da tua mãe; o vav supérfluo inclui o teu irmão mais velho".

כח) ומכאן יש להוכיח שאינה קבלה ממשה רבינו כמו שעלה על דעתך. שאם כן שהיא קבלה ממשה. למה פירש שמעון העמסוני או נחמיה העמסוני מלדרוש האתין שבתורה כשהגיע לאת ה' אלהיך תירא כדגר' בפ' כל שעה, תניא שמעון העמסוני ואמרי לה נחמיה העמסוני היה דורש כל אתין שבתורה, כיון שהגיע לאת ה' אלהיך תירא פירש אמרו לו תלמידיו ר' כל אתין שדרשת מה תהא עליהן. אמר להם כשם שקיבלתי שכר על הדרישה כך מקבל אני שכר על הפרישה, עד שבא ר' עקיבה ודרש את ה' אלהיך תירא לרבות תלמידי חכמים, ופי' רש"י ז"ל כיון שהגיע לאת ה' אלהיך תירא, אמר מה ארבה עמו לירא, פירש מכולן וחזר בו מכל רבויין שדרש, עד שבא ר' עקיבה ודרש את לרבות ת"ח שיהא מורא רבך כמורא שמים ע"כ לשון הגמ' ורש"י ז"ל.
Por que não incluir "a esposa do Ze'ir"?

E também a respeito de R. Akiva — que é o mestre do Rashbi, e que é também o maior dos quatro que entraram no Pardes e chegou ao lugar das pedras de mármore puro, e entrou em paz e saiu em paz — é de admirar por que incluiu só os sábios da Torá, que são carne e sangue, e equiparou o temor deles ao temor do Céu (e o nosso mestre Rabi também o fixou na Mishná, tratado de Avot, cap. 4, em nome de R. Eliezer)! Cabia-lhe antes incluir a esposa do Ze'ir Anpin, que é "o Senhor, nosso D'us" segundo as palavras deles? Ou, mais ainda, cabia-lhe incluir os pais do Ze'ir Anpin, que são Abba e Imma?

ואם כדבריך שהיא הלכה למשה מסיני. מה לו לשמעון העמסוני לפרוש? וכי לא ידע לומר לרבות אשתו של זעיר אנפין שהוא ה' אלהינו לפי דבריהם? וכמו שדרשו רז"ל בכתובות תניא כבד את אביך ואת אמך, את אביך זו אשת אביך ואת אמך זו בעל אמך, וא"ו יתירה לרבות אחיך הגדול ע"כ. וגם על רבי עקיבה שהוא רבו של רשב"י וגם הוא הגדול מד' שנכנסו לפרדס והגיע למקום אבני שיש טהור, ונכנס בשלום ויצא בשלום ייפלא למה ריבה תלמידי חכמים שהם בשר ודם והשוה מוראם למורא שמים, ורבי' ג"כ קבעה במשנה מסכת אבות פ' ד' בשם ר"א היה לו לרבות אשתו של זעיר אנפין שהוא ה' אלהינו לפי דבריהם? או יותר היה לו לרבות אבותיו של זעיר אנפין שהם אבא ואמא?
Nota — a prova de Shimon haAmsoni. Argumento fino. O sábio Shimon (ou Nechemiá) haAmsoni expôs todos os "et" (partículas) da Torá como inclusões — até chegar a "et H' Elohecha tira" Devarim 6:13, onde parou, recusando incluir algo ao lado de D'us no temor; só R. Akiva, depois, o expôs como incluindo os sábios da Torá. Ora — diz Qafih — se a Cabala fosse tradição do Sinai, ele teria simplesmente incluído "a esposa do Ze'ir" ou "os pais do Ze'ir", que seriam então parte legítima da Divindade. O fato de os maiores Tanaím não conhecerem tal inclusão é, para ele, sinal de que esses partzufim não faziam parte da fé recebida.
As fontes: a alma do Ze'ir é a Causa Primeira

(29) E no Sefer haBrit (parte 1, ensaio 20, cap. 15), escreveu o autor do Mishnat Chasidim citando o livro Yosher Levav: que o nome "o Santo, bendito seja", habitual na nossa boca, e com que, pelo Nome HaVaYaH, O invocamos, é o partzuf Ze'ir Anpin — que é "o Santo, bendito seja", cuja alma, oculta nele por meio dos partzufim que estão dentro dele, é a Causa Primeira mesma; e a ela servimos no seu culto. O princípio que daí emerge: que a Causa Primeira, chamada na boca de todos os cabalistas "Ein Sof", é a que criou tudo do nada, e circunda toda aquela existência por fora; e, no seu escolhido — que é o escolhido dentre os "pais" partzufim, chamado Ze'ir Anpin — está oculto o esplendor, na câmara interior, como uma alma dentro do corpo, e o vivifica. E por isso este escolhido — que é o Ze'ir Anpin — que governa sobre todos os criados, e os conduz, e os alimenta e sustenta, é "o nosso D'us", e nós somos o Seu povo, pois as nossas almas são a Sua porção; e ele é o louvado em todos os louvores ditos na nossa santa Torá, que Ele nos legou, e por meio dela nos revelou todos os ocultos.

כט) ובספר הברית חלק א' מאמר כ' פרק ט"ו כתב בעל משנת חסידים בספר יושר לבב, כי שם הקב"ה המורגל בפינו. ושבשם הוי'ה אנו קורין אותו, הוא פרצוף זעיר אנפין שהוא הקב"ה, שנשמתו המסתתרת בו על ידי הפרצופים שלפנים ממנו, הוא הסבה הראשונה ממש, ולה אנו עובדים בעבודתו, הכלל העולה כי הסבה הראשונה הנקרא בפי כל המקובלים אין סוף, הוא אשר ברא הכל יש מאין והוא מקיף את היש ההוא כולו מבחוץ, ובמובחר שבו והוא הבחור שבאבות הנקרא זעיר אנפין נסתר הדר לפנים מחדר כנשמה בתוך הגוף ומחייהו. ולכך המבחר הזה והוא הזעיר אנפין השולט על כל הברואים ומנהיגם וזנם ומפרנסם, והוא אלהינו ואנחנו עמו, כי נשמותינו הם חלקו, והוא הוא המהלל בכל התשבחות הנאמרים בתורתנו הקדושה אשר הנחילנו ועל ידה כל הנסתרות גלה לנו עכ"ל.
"Dirigir ao Ein Sof revestido nas middot"

E o autor do Sefer haBrit estendeu-se ainda em provas do Zohar e dos Tikkunim, de que o culto é ao Ze'ir Anpin, que é o meio que conecta a tudo. E escreveu ainda em nome do AR"I, em Likutei Tanach, sobre o versículo "confiai no Senhor para sempre, pois em Yah HaVaYaH está a Rocha dos mundos": "acha-se que, quando o homem dirige a intenção ao Ze'ir Anpin apenas, já basta — pois ali se acham Arich Anpin, Abba e Imma, revestidos um dentro do outro, dentro do Ze'ir Anpin". Também no Etz Chaim de R. Chaim Vital, Sha'ar haKlalim (cap. 11), escreveu que Moshé, nosso mestre, disse a Israel, na sua entrada na Terra, "e vós, os que vos apegais ao Senhor vosso D'us, estais todos vivos hoje" — pois "o Senhor vosso D'us" é o Ze'ir Anpin e a sua Nukva... E no Sefer haKavanot, nos costumes do AR"I, escreveu que, cada vez que pronunciares com a tua boca o Nome HaVaYaH, dirijas a intenção ao Ze'ir Anpin... E assim no Sefer Machberet haKodesh, na ordem do Musaf de Shabat, escreveu que os anjos da hoste superna dão uma coroa ao Ze'ir Anpin, que é "o Senhor, nosso D'us" (vê ali, p.40a). Também o Mikdash Melech (p.12) explica que "Elaha Rabrava" o Grande D'us só se diz no Ze'ir Anpin... e o que dirige a intenção ao Ein Sof, por causa da sua sublimidade — já que não tem nome nem "ponto" que o delimite —, a sua oração não é oração; mas deve dirigir a intenção a Ele estando Ele revestido nas suas medidas middot etc. — e vê adiante (siman 100) em nome do Nachalat Yosef.

ועוד האריך בראיות מהזהר והתיקונים שהעבודה לזעיר אנפין שהוא אמצע המקשר את הכל. ועוד כתב בשם האר"י בלקוטי תנ"ך על הפסוק בטחו בה' עדי עד כי ביה ה' צור עולמים וז"ל. נמצא כשיכוין האדם בזעיר אנפין לבד מספיק, כי שם נמצא אריך אנפין ואבא ואמא מתלבשין זה תוך זה תוך זעיר אנפין עכ"ל. גם בספר עץ חיים להרח"ו שער הכללים פ' י"א כתב שמשה רבינו אמר לישראל בכניסתן לארץ ואתם הדבקים בה' אלהיכם חיים כולכם היום, כי ה' אלהיכם הוא זעיר אנפין ונוקביה, וישראל הנכנסים לארץ היו וכו' עי"ש. גם בספר הכוונות במנהגי האר"י כתב כי של פעם שתוציא מפיך שם הוי'ה תכוין לזעיר אנפין, ותכוין בו כך יה"ו זעיר אנפין וה"א אחרונה שבו היא מלכות. תכוין שנעשה שם שלם על אדני באופן וכו' ע"ש. וכן בספר מחברת הקודש בסדר מוסף שבת כ' כי מלאכים המוני מעלה יתנו כתר לזעיר אנפין שהוא ה' אלהינו עיין שם דף מ' ע"א. גם המקדש מלך ד' י"ב ד"ה אלהא רברבא מבואר דלא נקרא אלהא דברבא אלא בזעיר אנפין, ובחכמה נקרא חכם וכו' והמכוין לאין סוף מחמת רוממותו שאין לו שם ולא נקודה שתגבילהו אין תפלתו תפלה, רק יכוין אליו בהיותו מלובש במדותיו וכו' ועיין לקמן סי' ק' בשם נחלת יוסף.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O argumento da Septuaginta

Qafih abre com uma prova elegante: os 72 anciãos, ao traduzir a Torá para Ptolemeu, esconderam os plurais ("façamos") e a ordem de "Bereshit" — para que o rei pagão não lesse "duas potências". Se a leitura cabalística desses versículos fosse o sentido recebido no Sinai, argumenta, os anciãos a teriam transmitido, e não ocultado.

"Todo o culto ao Ze'ir"

O núcleo da acusação: reunindo passagens do Zohar e dos seus comentadores, Qafih conclui que a Cabala dirige todo o culto ao último partzuf, o Ze'ir Anpin — o "filho", "o Senhor nosso D'us" deles —, e não ao Ein Sof, tido por longínquo demais para o culto. Lido ao pé da letra, isso seria adorar um intermediário.

O que as fontes realmente dizem

O ponto decisivo, e o mais justo, está nas próprias citações de Qafih: o Yosher Levav diz que a alma oculta no Ze'ir é a Causa Primeira; o Mikdash Melech diz que dirigir a oração ao Ein Sof "sem nome" não é oração, e que se deve dirigi-la a Ele revestido nas suas middot.

Destino ou canal?

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XV

"Não temos rei senão Tu"

אֵין לָנוּ מֶלֶךְ אֶלָּא אָתָּה
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih reúne os fios da sua refutação em três golpes: o filosófico — aquilo que "nasce" é criado, e o criado não pode ser o Criador; o haláquico — se repetir uma palavra que soa a "duas potências" já é silenciado, quanto mais entronizar "três reis"; e o do método — é proibido especular sobre o que precede a criação, e nenhum profeta pode inovar.

A síntese: o culto sobe ao Ze'ir

(30) Eis que, de tudo isto, se te explicou bem que o Zohar e todos os seus comentadores — Mikdash Melech, Kisé Eliyahu, R. Immanuel autor do Mishnat Chasidim, o Yosher Levav, o Rashash, o Matzref ha-Emuná, o Sefer haKavanot, o Maharchu no Etz Chaim, o Machberet haKodesh, o Sefer haBrit, o AR"I no Sefer haLikutim e o Nachalat Yosef, e outros — todos, como um, respondem e dizem que ao Ein Sof, que é a Causa Primeira, não se aplica culto algum nem invocação; mas somente ao Ze'ir Anpin, que é a causa última dentre todos os emanados — que, segundo a opinião deles, conecta todos os partzufim, e que alimenta e sustenta todos os criados —; e a ele, sozinho, servimos, e a ele invocamos em tempo de aflição, e ele nos responderá no dia em que O chamamos. Mas o R. autor do Kisé Eliyahu exige mencionar, com ele, ao orar a ele, também os demais partzufim acima dele — pois, se não os associar a ele, não é atendido tão rápido. Eis as suas palavras, p.26: “mas convém-lhe unificá-los, no modo que dissemos, ao orar ao Ze'ir Anpin; e, na sua oração, mencionar os nomes dos partzufim mais altos que ele, pois precisam deles; e, se não o fizerem, e não unificarem a sua oração senão ao Ze'ir Anpin, não serão atendidos tão rápido”; e conclui ali que, ainda que orassem apenas ao Ze'ir Anpin, não causariam falha pegam, só que não seriam atendidos com tanta facilidade. E assim escreveu o R. Yosher Levav (Bait 2, Cheder 3, cap. 7).

ל) הנה מכל זה נתבאר לך באר היטב כי הזהר וכל מפרשיו מקדש מלך וכסא אליהו ור' עמנואל בעל משנת חסידים, ויושר לבב, והרש"ב, ומצרף האמונה וספר הכוונות, ומהרח"ו בעץ חיים, ומחברת הקדש, וספר הברית, והאר"י בספר הלקוטים ונחלת יוסף, וזולתם, כולם כאחד עונים ואומרים, דבאין סוף שהוא הסבה הראשונה לא שייך שום עבודה וקריאה. רק לזעיר אנפין שהוא סבה אחרונה שבכל הנאצלים שהוא לפי דעתם המקשר את כל הפרצופים, והוא הזן ומפרנס לכל הברואים ולו לבדו נעבוד ואליו נקרא בעת צרה, והוא יעננו ביום קראינו. אך הר' כסא אליהו מצריך להזכיר עמו בהתפללו אליו גם שאר הפרצופים שלמעלה ממנו, שאם אינו משתפם עמו אינו נענה מהרה אלא א"כ מזכיר שאר פרצופים עמו. וז"ל בדף כ"ו אלא מיבעי ליה ליחדם על הדרך שאמרנו להתפלל לזעיר אנפין. ובתפלתם להזכיר שמות הפרצופים הגבוהים ממנו כי צריכים להם, ואם לא יעשו כן, ולא יחדו תפלתם אלא לזעיר אנפין לא יהיו נענים מהרה וכדאמרן וזהו צירוף מ"ה תצע"ק אל"י, שהם אותיות מאצל העתיק וכו', ומסיים שם דגם אם לא היו מתפללים אלא לזעיר אנפין לא היו פוגמין אלא שלא היו נענים כל כך בקל ע"כ. וכן כתב הרב יושר לבב בית ב' חדר ג' פ' ז' ע"ש.
A hierarquia das muitas potências

Ora, quão atônito ficará o leitor sensato, apegado à Torá de Moshé, nosso mestre — escrita e oral —, e perito nela (a saber, na Mishná, no Talmud e nos midrashim dos Sábios), e cujos olhos contemplam as palavras dos Geonim — o pio autor do Chovot haLevavot, R. Yehudá haLevi, R. Saadia Gaon, o Rambam nas suas obras, R. Eliezer de Germaiza no Rokeach, o Sefer Mitzvot Gadol, o Sefer Mitzvot Katan, o autor dos Ikarim e semelhantes, que falam da unidade do Senhor na sua verdade, conforme a tradição dos Sábios! Quão estremecerá o seu coração, saltando do seu lugar, ao ouvir a hierarquia das muitas divindades, que "foram fecundas e se multiplicaram" em Israel desde o início do sexto milênio, junto a alguns autores; e como, de geração em geração, esta crença foi crescendo muito — a crer em muitas causas, uma acima da outra, e que, ao querer uma das causas criar algo, ela toma conselho e licença da causa que está acima dela, como está explicado explicitamente no Zohar (Bereshit 22): que cada uma das causas toma licença da causa que está sobre ela — Malchut de Ze'ir, e Ze'ir de Imma, e Imma de Abba, e Abba de Arich, e Arich de Atik, e Atik de Adam Kadmon — pois ele é a cabeça dos partzufim da Emanação, e é ele, sozinho, que disse "vede agora que eu, eu sou Ele, e não há D'us comigo", já que não precisa tomar licença de Adam Kadma'a que está acima dele. E, em toda a obra da criação, o rei criador era Abba — e o Zohar o chama "rei supremo", e a Imma "artífice"; e, no tempo da criação de Adam haRishon, Abba não quis criá-lo, visto que ele estava destinado a pecar; e a Imma "artífice" respondeu-lhe: "visto que o seu pecado depende de mim — conforme está escrito ''e filho tolo é a tristeza da sua mãe'' — não te importes com isto", como está explicado ali e no Mikdash Melech.

הנה מה מאד ישתומם הקורא הנלבב הדבק בתורת משה רבינו ע"ה שבכתב ושבע"פ ובקי בה דהיינו במשנה ובתלמוד ומדרשי רז"ל, ועיניו יחזו דברי הגאונים, החסיד בעל חובת הלבבות, ורבי יהודה הלוי, ורבי סעדיה גאון, והרמב"ם בחיבוריו, ור' אליעזר מגרמיזא ברוקח וספר מצות גדול, וספר מצות קטן ובעל העקרים וכיוצא המדברים בענין יחוד השי"ת על אמתתו כפי קבלת רז"ל מעתיקי השמועה. מה מאד יחרד לבו יתר ממקומו בשמעו את מערכת האלהות הרבים, אשר פרו ורבו בישראל מתחלת אלף הששי אצל קצת המחברים, ומדור לדור מזמן הגז"ל הלכה האמונה הזאת הלך וגדול מאד להאמין בעילות רבות זו למעלה מזו, וברצות אחת מהעילות לברוא דבר הוא נמלך ונוטל רשות מן העילה שלמעלה ממנה כמבואר בזהר בהדיא (בראשית כ"ב) שכל אחת מן העלות נוטלת רשות מן העילה שעליה, מלכות מזעיר, וזעיר מאימא, ואימא מאבא, ואבא מאריך, ואריך מעתיק, ועתיק מאדם קדמון. כי הוא הראש לפרצופי האצילות והוא הוא לבדו שאמר ראו עתה כי אני אני הוא ואין אלהים עמדי, שאינו צריך ליטול רשות מאדם קדמאה שלמעלה ממנו. ובכל מעשה בראשית היה המלך הבורא אבא. וקורא לו בזהר מלכה עלאה, ואימא אומנא ובעת בריאת אדם הראשון לא חפץ אבא לבראתו, כיון שהוא עתיד לחטוא, ואימא אומנא השיבתו הואיל וחטאו תלוי בי, כדכתיב, ובן כסיל תוגת אמו, לא איכפת לך בזה כמבואר שם ובמקדש מלך.
"O que tem origem é criado"

(31) E esta coisa é dificílima: por que Adam Kadmon não precisa tomar licença de Adam Kadma'a, nem do Ein Sof que está acima dele? E já trouxe acima a linguagem do Sefer haBrit, em nome do Yosher Levav, que disse que o nome "o Santo, bendito", habitual na nossa boca, aponta para o Ze'ir Anpin; e assim também o Nome HaVaYaH; e assim escreveu o Matzref ha-Emuná — só que não copiei as suas palavras, visto que tu o profanas e o tens por min e herege, por causa da falta da tua perícia (e, sem dúvida, erraste nisto, como escrevi acima, pois assim entendem todos os cabalistas). E no Bereshit Rabbá (parashá 12, trazido também no Yalkut §18): “tudo tem toladot gerações: os céus e a terra têm toladot, conforme se disse ''estas são as gerações dos céus e da terra ao serem criados''; os montes têm toladot, conforme ''antes que os montes nascessem''; a chuva tem toladot, conforme ''acaso a chuva tem pai?''; o orvalho tem toladot, conforme ''ou quem gerou as gotas de orvalho?''. R. Shimon ben Lakish disse: estas são as pérolas do orvalho. Ensinou-se: todo o que tem toladot morre, e se gasta, e é criado; e todo o que não tem toladot não morre nem se gasta — e cria, e não é criado. R. Azariá, em nome de R. ..., disse: a respeito do Ser do alto é que a coisa é dita”. E este é um princípio verdadeiro e claro. E explicou o R. Etz Yosef: "morre, e se gasta" são duas coisas — uma, a destruição; e a segunda, o desgaste enquanto ainda existem —, pois todos os existentes estão sempre a decrescer, por natureza, não fosse pelo fato de o Santo renovar, na sua bondade, cada dia, continuamente, a obra da criação; e "todo o que não tem toladot" — quer dizer, ainda que não haja senão o Santo, diz "todo"... E do conjunto da coisa aprendes que, visto que os partzufim mencionados nas palavras do Zohar e dos cabalistas têm toladot, e ibbur gestação e yenikah amamentação, é falso e impossível chamar a Abba

לא) והדבר הזה קשה עד מאד למה אדם קדמון אין צריך ליטול רשות מאדם קדמאה ולא מא"ס שהוא למעלה ממנו? וכבר הבאתי לעיל לשון ספר הברית משם יושר לבב שאמר ששם הקב"ה המורגל בפינו ראי על זעיר אנפין. וכן שם הוי'ה, וכ"כ מצרף האמונה. רק שלא העתקתי דבריו, כיון שאתה מחלל אותו וחושבו למין וכופר מחמת חסרון בקיאותך. ובודאי שטעית בזה כמו שכתבתי לעיל שכן סוברים כל המקובלים. ובבראשית רבה פרשה י"ב הובא ג"כ בילקוט רמז י"ח וז"ל לכל יש תולדות שמים וארץ יש להן תולדות שנ' אלה תולדות השמים והארץ בהבראם. הרים יש להם תולדות שנ' בטרם הרים יולדו. מטר יש לו תולדות שנ' היש למטר אב. טל יש לו תולדות שנ' או מי הוליד אגלי טל. ר' שמעון בן לקיש אמר אלו מרגליות של טל. תני כל מי שיש לו תולדות מת ובולה ונברא ואני בורא וכל מי שאין לו תולדות אינו לא מת ולא בולה. ובורא ואינו נברא ר' עזריה בשם ר' אמר כלפי מעלה הדבר אמור ע"כ. וזה כלל אמתי וברור. ופי' הר' עץ יוסף מת ובולה הם שני דברים האחד ההפסד והשני הבלייה בעודן קיימין. שכל הנמצאים תמיד חסרים והולכים בטבעם לולי שהקב"ה מחדש בטובו בכל יום תמיד מעשה בראשית וכל מי שאין לו תולדות פי' אע"ג דליכא אלא הקב"ה קאמר כל איידי דתני נושא כל . וכמו שפי' ר' עזריה בשם רבי כלפי מעלה הדבר אמור ע"כ. וממוצא דבר אתה למד שכיון שיש לפרצופים הנזכרים בדברי הזהר והמקובלים תולדות ועיבור ויניקה. שקר הוא ומן הנמנע לקרות לאבא
Só o incausado é D'us

ou a qualquer outro dos partzufim "criador". Ou, ainda, se pode explicar "o que tem toladot" como aquele que tem uma causa para a sua existência — isto é, que é possível de existência —; e todo possível de existência, nele é possível a destruição. Mas o nosso D'us, bendito seja, não tem outra causa anterior a Ele, e é Ele, sozinho, a Causa única de todos os criados, como escreveu o Rambam (Hilchot Yesodei haTorá) — vê ali e no comentador. E assim escreveram os nossos antigos sobre o que escreveu Rabbenu no quarto princípio, de que creiamos que este Um é absolutamente eterno, e todo existente fora d'Ele é não-eterno: escreveram R. Chater e R. Zechariá, o médico: "o Eterno é aquele que não tem princípio; e o originado é o que Ele criou e fez existir, fora d'Ele" — eis que se esclareceu que o D'us é o Primeiro em absoluto. E assim é razoável explicar as palavras do Midrash Rabbá, conforme se vê do que diz a respeito dos montes, da chuva e do orvalho. E, consequentemente, é falso chamar a qualquer um dos partzufim "D'us" ou "criador", visto que cada um tem outra causa anterior a ele. E no Mishnat Chasidim (tratado de Leil Pesach, cap. 7, mishná 23, no comentário da Hagadá da noite de Pessach), escreveu: “"e o Senhor, nosso D'us, nos tirou" — a saber, Abba e Imma... "e, se o Santo" — que é Arich Anpin — "não tivesse redimido os nossos pais" — que são Abba e Imma — "do Egito"...”. E no Sefer haNedarim, sob o verbete "Adam", escreveu que os cabalistas chamam o Santo "Adam Kadmon". E, se assim, cada um dos partzufim é chamado "H' Tzevaot", e "HaVaYaH", e "Adnut", e "o Santo", e os demais Nomes e epítetos próprios do Senhor — como contemplarão os teus olhos aqui, e quanto mais se estudares nos seus livros com algum entendimento. E também chamam a Abba, e aos nossos pais que foram redimidos do Egito por meio de Arich Anpin

או לזולתו מכל הפרצופים בורא. אי נמי אפשר לפרש מי שיש לו תולדות דהיינו שיש סבה להוייתו שהוא אפשרי המציאות. וכל אפשרי המציאות הוא אפשר בו ההפסד אבל אלהינו ברוך הוא. אין סבה אחרת קודמת לו והוא לבדו סבה א' לכל הברואים. כמו שכ' הרמב"ם ז"ל בהל' יסודי התורה ע"ש ובמפרש, וכן כתבו קדמונינו על מה שכתב רבי' בעיקר הרביעי שנאמין שזה האחד הוא קדמון בהחלט וכל נמצא זולתו בלתי קדמון וכו' כתבו הר' ר' חטר ורבי זכריה הרופא וז"ל הקדמון הוא אשר אין ראשית לו והמחודש הוא שבראו והמציאו זולתו. הרי נתברך שהאלוה הוא הראשון בהחלט ע"ש. והכי מסתברא לפרש דברי המדרש רבה כנראה ממאי דקאמר בהרים ובמטר ובטל. וממילא שקר הוא לקרות שום אחד מן הפרצופים אלוה, או בורא, כיון שכל א' יש סבה אחרת קדמה לו. ובמשנת חסידים מס' ליל פסח פרק ז' משנה כ"ג בפי' הגדת ליל פסח כ' וז"ל ויוציאנו ה' אלהינו שהם אבא ואימא וכו' ואלו לא גאל הקב"ה, שהוא אריך אנפין את אבותינו שהם אבא ואימא ממצרים וכו' ובס' הנדרים כ' בערך אדם כי המקובלים קורין להקב"ה אדם קדמון. ואם כן, כל אחד ואחד מן הפרצופים נקרא ה' צבאות והוי'ה ואדנות והקב"ה ושאר השמות והכנויים המיוחדים לשי"ת. כאשר תחזינה עיניך פה וכ"ש אם תלמוד בספריהם בשום שכל. וגם קורין לאבא ואבא אבותינו שנגאלו ממצרים על ידי אריך אנפין
Nota — o causado não pode ser o Criador. Aqui está o argumento filosófico mais forte do capítulo, e o mais sóbrio. O Midrash (Bereshit Rabbá 12) firma um princípio: tudo o que tem toladot — origem, geração — "morre, decai e é criado"; só o que não tem origem "cria e não é criado". Ora, os próprios cabalistas descrevem os partzufim com ibbur (gestação), yenikah (amamentação) e "nascimento" — linguagem de coisas causadas. E o causado, sendo "possível de existência", é por definição perecível; não pode ser o Criador, que é a Causa Primeira incausada (Rambam, Yesodei haTorá; o 4.º dos treze princípios). É o cerne do racionalismo: só o absolutamente não-originado é D'us. (O cabalista responde que "gestação" e "nascimento" são, também eles, metáforas do desdobrar-se do Ein Sof — não geração real.)
O D'us que vai ao exílio?

da mão do Faraó (que é a Sitra Achra, chamada "el echad" um deus à parte) — que Arich Anpin os livrou da sua mão; e isto decorre do seu sistema, já que eles creem na existência de um "el echad", ao contrário das palavras dos Sábios; e creram também que os "outros deuses" imaginados dominaram sobre os deuses santos — que são Abba e Imma e Ze'ir e Nukva —, e que Arich Anpin os redimiu deles. E a refutação destas noções, que estão na mão dos cabalistas posteriores que seguem as noções do autor do Zohar, se explicará do que disseram os Sábios (Shabbat 88): disse R. Akiva: quando Moshé subiu para receber a Torá, disseram os anjos servidores diante do Santo: "que faz um nascido de mulher entre nós?" Disse-lhes: "veio para receber a Torá"... até que o Santo disse a Moshé: "devolve-lhes resposta"... e Moshé disse diante d'Ele: "Senhor do mundo, a Torá que lhes dás, que está escrito nela? ''Eu sou o Senhor teu D'us, que te tirei da terra do Egito''"; disse-lhes Moshé: "ao Egito descestes? ao Faraó vos escravizastes? a Torá, para que a quereis?". E, segundo as palavras dos cabalistas novos, eis que até Abba e Imma e Ze'ir e Nukva se escravizaram ao Faraó (que é a Sitra Achra) — quanto mais os anjos?! E está explicado também ali, no Mishnat Chasidim, explicitamente, que o Ze'ir Anpin está em aflição, num grande exílio, como o feto formado no ventre da sua mãe! E as suas palavras se contradizem umas às outras: pois disseram que o Ze'ir Anpin é o que dá a Torá, e é ele que disse "Eu sou o Senhor teu D'us, que te tirei da terra do Egito"; e aqui diz que o Santo, que é Arich Anpin, tirou os nossos pais, que são Abba e Imma, e que o Ze'ir estava em aflição e exílio?! E não te seja isto uma dificuldade a partir do que disseram os Sábios — "foram exilados ao Egito, a Shechiná com eles; foram exilados a Bavel, a Shechiná com eles, conforme ''com ele estou na aflição'' Tehillim 91:15" —, pois tudo isto é no modo do dito da Escritura "pois não desejo a morte do que morre, mas sim que o ímpio se volte do seu caminho e viva"; e, ademais, é que, por assim dizer, Ele está obrigado a cumprir a Sua promessa para conosco no exílio... e a Sua providência, bendito, está apegada a nós no exílio, para que os nossos inimigos não façam de nós um fim! E ainda virá, diante de nós, a opinião dos Sábios de que não há existência de outro deus no mundo, de modo algum, e que a Torá só falou conforme o pensamento dos seus adoradores.

מיד פרעה (הוא הסטרא אחרא הנקרא אל אחד) שנאלם אריך אנפין מידו וזה נמשך לפי שטתם שהם מאמינים במציאות אל אחד היפך דברי רז"ל וגם האמינו שהאלהים האחרים המדומים שלטו בהאלוהים הקדושים שהם אבא ואימא וזעיר ונוקביה, וגאלם אריך אנפין מהם. ובטול רעיונות אלו שבידי המקובלים האחרונים הנמשכים אחר רעיונות מחבר הזהר יתבאר ממה שאמרו רז"ל (שבת פ') אמר ר' עקיבה כשעלה משה לקבל את התורה אמרו מלאכי השרת לפני הקב"ה מה לילוד אשה בינינו? אמר להם לקבל תורה בא וכו', עד אמר לו הקב"ה למשה החזר להם תשובה, אמר לפניו מתירא אני שמא ישרפוני בהבל פיהם, אמר לו אחוז בכסא כבודי והחזר להם תשובה, ופירש הקב"ה מזיו שכינתו עליו ואמר לפניו רבונו של עולם תורה שאתה נותן להם מה כתיב בה, אנכי ה' אלהיך אשר הוצאתיך מארץ מצרים, אמר להם למצרים ירדתם? לפרעה נשתעבדתם? תורה למה לכם? ולפי דברי המקבולים החדשים, הרי אפי' אבא ואמא וזעיר ונוקביה נשתעבדו לפרעה (שהוא הסטרא אחרא) כל שכן המלאכים? ומבואר ג"כ שם במשנת חסידים בהדיא שזעיר אנפין בצער בגלות גדול כולד המעובר במעי אמו! ודבריהם סותרים זה את זה. שהרי אמרו שהזעיר אנפין הוא נותן התורה והוא שאמר אנכי ה' אלהיך אשר הוצאתיך מארץ מצרים. והכא קאמר שהקב"ה שהוא אריך אנפין הוציא את אבותינו שהם אבא ואימא וזעיר היה בצער וגלות? ולא תקשי לך ממאי דאמור רבנן גלו למצרים שכינה עמהם. גלו לבבל שכינה עמהם שנ' עמו אנכי בצרה. שכל זה הוא על דרך מאמר הכ' כי לא אחפוץ במות המת כי אם בשוב רשע מדרכו וחיה. ועוד שהרי כביכול מוכרח לקיים הבטחתו לנו בגלות. ואף גם זאת בהיותם בארץ אויביהם לא מאסתים ולא געלתים לכלותם וכו' והשגחתו ית' דבקה בנו בגלות שלא יעשו אויבינו אתנו כלה! ועוד ית' לפנינו דעת רז"ל שאין מציאות אל אחר בעולם כלל. ולא דברה תורה אלא לפי מחשבת עובדיהם.
Nota — o D'us que vai ao exílio. Qafih aponta uma tensão: se o Ze'ir "dá a Torá" e diz "Eu te tirei do Egito", como pode estar ele mesmo "em exílio como um feto"? Mas note-se a sua própria ressalva, justa e importante: quando os Sábios dizem "foram exilados, a Shechiná com eles" (Meguilá 29a), não querem dizer que D'us sofre ou é cativo — é imagem da solidariedade de D'us com Israel e da Sua promessa de não os destruir ("com ele estou na aflição", Tehillim 91:15). Ele concede o sentido figurado à frase rabínica; o cabalista pede o mesmo para a linguagem do "exílio do Ze'ir" — metáfora do ocultamento da Presença, não cativeiro de um deus. A divergência, de novo, é sobre até onde estender a leitura figurada.
"Modim modim": parece duas potências

(32) E eis que é sabido e notório quanto foram rigorosos os Sábios, transmissores da tradição recebida de Moshé, nosso mestre, com o que diz "modim modim" agradecemos, agradecemos duas vezes, ou "shemá shemá" ouve, ouve duas vezes — a ponto de o silenciarmos, como aprendemos em Berachot (cap. "Ein Omdin") e em Meguilá (cap. "haKoreh"): "o que diz ''modim modim'' é silenciado". E em Berachot 33: disse R. Zeira: "todo o que diz ''shemá shemá'' é como o que diz ''modim modim''." E explicaram todos os comentadores que a razão é porque tal repetição parece crença em duas potências, e como quem aceita sobre si dois deuses. E em Berachot 14: aquele que desceu a oficiar diante de Rava... e disse "emet emet" duas vezes... — disse Rava... (a intenção, conforme o Ein Yaakov: assim como não se diz "echad echad" — pois isso é multiplicidade, e não unidade —, assim não se diz "emet emet", pois a verdade não é senão uma...). E em Sukká (cap. "heChalil"), sobre o que se ensinou "nós, a Ele e a Ele os nossos olhos"... a guemará objeta e resolve "nós, a Ele damos graças, e os nossos olhos a Ele esperam". Vê-se, pois, que os Sábios eram rigorosos com uma coisa da qual se infira que há duas potências. E assim decidiram todos os posekim: que o que diz "shemá shemá" ou "modim modim" é silenciado — porque parece crença em duas potências.

לב) והנה ידוע ומפורסם כמה הקפידו רז"ל מעתיקי השמועה ממשה רבי' ע"ה על האומר מודים מודים שתי פעמים או שמע שמע שתי פעמים שמשתקים אותנו כדתנן בברכות פ' אין עומדין. ובמגלה פרק הקורא האומר מודים מודים משתקים אותו. ובברכות דף ל"ג (ברכות לג, א) גר' אמר רבי זירא כל האומר שמע שמע כאומר מודים מודים דמי.ופי' כל המפרשים דטעמא משום דמחזי כשתי רשויות וכמקבל עליו שני אלוהות. ובברכות דף י"ד (דף יד.) ההוא דנחית קמיה דרבא שמעיה דקאמר אמת אמת תרי זמני. אמר רבא כל אמת אמת תפסיה להאי ע"כ וכ' הכונה בעין יע' כשם שאין לומר אחד אחד שהוא רבוי ולא אחדות. כל אין לומר אמת אמת כי האמת אינו אלא אחד. והוא מאמר רבא רהטא של אמת תפסתו לזה. כלומר הוא סובר לחזק דבריו באמתות השי"ת בהיותו מוסיף ואינו אלא גורע ע"כ. ובסוכה פרק החליל אהא דתנן אנו ליה וליה עינינו גרסינן איני והאמר ר' זירא כל האומר שמע שמע כאלו אומר מודים מודים? (פי' רש"י כאומר מודים מודים דתנן משתקים אותו משום דמחזי כשתי רשויות) ומתרץ אלא הכי אמרי אנו ליה מודים. ועינינו ליה מיחלות ע"כ. אלמא דרבנן קפדי אבל מלתא דמשתמע מינה שיש שתי רשויות. וכן פסקו כל הפוסקים דהאומר שמע שמע או מודים מודים משתקים אותו משום דמחזי כשתי רשויות.
"Já entronizou três reis"

E disto julga um kal va-chomer (conforme o princípio transmitido em nossas mãos, "o homem deriva um kal va-chomer por si mesmo") para o caso mencionado no Zohar (Bereshit 34a): “está escrito "H' melech, H' malach, H' yimloch le-olam va-ed" — "H' melech" reina no alto, "H' malach" no meio, "H' yimloch" embaixo”; e explicou o Mikdash Melech, em nome das Kavanot: "H' melech" é Arich; "H' malach" são Abba e Imma; "H' yimloch" são Ze'ir e Nukva. Vê-se, pois, que, ao dizer "H' melech", o orante entroniza Arich Anpin; e, ao dizer "H' malach", entroniza Abba e Imma; e, ao dizer "H' yimloch le-olam va-ed", entroniza Ze'ir e Nukva. Há crença em muitas potências, e heresia maior que esta?! Pois, visto que entronizou três reis ao dizer "H' melech" etc., como mentirá a dizer "Avinu Malkenu, não temos rei senão Tu"? Ora, já não entronizou três reis?! E em qual deles escolhe ele agora entronizar, e de qual retirar a coroa da realeza dos outros?! E nisto, e no que lhe é semelhante, se justificaram as palavras do R. autor dos Ikarim (ensaio 2, fim do cap. 28), onde ali advertiu fortemente para não se estudar no livro do Zohar e nos demais livros de Cabala: “e como regra te direi: guarda-te, e guarda a tua alma muito, não vás bater atrás deles e ficar preso na sua rede; pois eles abandonam as veredas da retidão para andar nos caminhos da treva — pois não conhecem nem entendem; na escuridão andam — os que se ocupam da Cabala por conta própria, sem tradição da boca de um sábio cabalista”.

ומזה תדון קל וחומר (כפי הכלל המסור בידינו אדם דן ק"ו מעצמו) לנדון הוזכר בזהר (בראשית ל"ד ע"א) וז"ל כתיב ה' מלך ה' מלך ה' ימלוך לעולם ועד. ה' מלך לעילא. ה' מלך באמצעיתא. ה' ימלוך לתתא ופירש המקדש מלך בשם הכוונות ה' מלך הוא אריך. ה' מלך הוא אבא ואימא. ה' ימלוך זעיר ונוקביה ע"כ. אלמא דבאמרו ה' מלך הוא ממליך לאריך אנפין. ובאמרו ה' מלך הוא ממליך לאבא ואימא. ובאמרו ה' ימלוך לעולם ועד ממליך לזעיר ונוקביה. היש אמונת רשויות רבות ומינות גדולה מזו? שכיון שהמליך שלשה מלכים באמרו ה' מלך וכו' איך ישקר לומר אבינו מלכנו אין לנו מלך אלא אתה. והלא כבר המליך שלשה מלכים? ובאיזה מהם הוא בוחר עתה להמליכו. ולהסיר עטרת מלוכה מהאחרים? ובזה וכיוצא בו צדקו דברי הר' בעל העיקרים מאמר שני סוף פ' כ"ח ששם הזהיר מאד שלא ללמוד בספר הזהר ושאר ספרי קבלה וז"ל וכלל אומר לך השמר לך ושמור נפשך מאד פן תנקש אחריהם ותלכד במצודתם. כי הם עוזבים ארחות יושר ללכת בדרכי חשך כי לא ידעו ולא יבינו בחשכה חתהלכו המתעסקים בקבלה מדעת עצמם מזולת קבלה מפי חכם מקובל עכ"ל. ועל כן כל אוהב את השי"ת ודבק בתורתו שבכתב ושבעל פה אשר העתיקו רז"ל בעלי המשנה והתלמוד. ירחיק עצמו מהקבלה החדשה, ואל ידאג למטעמיה פן יפסיד אמונתו הטהורה המזוקקה שבעתים על פי תנאים, ואמוראים ופוסקים.
"O que há antes da criação": proibido inquirir

(33) Todo homem sensato e entendido, que examine um pouco nos livros do Zohar e dos cabalistas, saberá e reconhecerá que as sefirot e os partzufim mencionados nas suas palavras precederam a criação dos céus e da terra e de todo o seu exército — como se vê das palavras do Maharchu no Etz Chaim (Sha'ar haKlalim e Sha'ar Iggulim ve-Yosher). E está explicado ainda, bem claramente, no Sha'ar Shevirat haKelim (cap. 3): “e explicaremos a ordem da saída dos ''reis'', e começaremos pelo primeiro, que é o Da'at, que saiu primeiro; e, quando o vaso não pôde suportar a luz, como mencionado acima, quebrou-se e desceu para baixo, ao mundo de Beriá — quero dizer, ao lugar onde só mais tarde haveria o mundo de Beriá, pois ainda não fora criado o mundo de Beriá —, e caiu este vaso no lugar onde só mais tarde haveria o Da'at de Beriá”. E o que nos sai disto é que os nossos mestres cabalistas novos erraram ao perguntar e achar soluções no "que há acima e que há abaixo, que há antes e que há depois" — coisa que os Sábios do Talmud (Bavli e Yerushalmi), o Midrash Rabbá, o Tanchumá e outros midrashim receberam para proibir, como aprendemos em Chagigá (cap. "Ein Dorshin"): “"pois pergunta agora dos dias primeiros" — poder-se-ia pensar: pode o homem perguntar do dia em que o mundo foi criado? — a Escritura ensina "desde o dia em que D'us criou o homem sobre a terra"; poder-se-ia pensar: não pode o homem perguntar sequer dos seis dias da criação? — a Escritura ensina "dos dias primeiros" (explicou Rashi: do dia primeiro em diante); poder-se-ia pensar: pode o homem perguntar "que há acima, que há abaixo, que há antes e que há depois"? — a Escritura ensina "e de um extremo dos céus até o outro extremo dos céus": de extremo a extremo dos céus tu perguntas, e não perguntas "que há acima e que há abaixo, que há antes e que há depois"”.

לג) כל משכיל מבין המעיין מעט בספרי הזהר והמקובלים, ידע ויכיר כי הספירות והפרצופים הנזכרים בדבריהם קדמו לבריאת שמים וארץ וכל צבאם כנראה מדברי מהרח"ו בספר עץ חיים שער הכללים ושער עיגולים ויושר. ומבואר עוד באר היטב שער שבירת הכלים פ"ג וז"ל ונבאר סדר יציאת מלכים ונתחיל מן הראשון שהוא הדעת אשר זה יצא ראשונה. וכאשר לא היה יכול הכלי לסבול כנזכר לעיל נשבר וירד למטה בעולם הבריאה. רצוני לומר במקום שיהיה עתיד להיות עולם הבריאה אחר כך כי הרי עדיין לא היה נברא עולם הבריאה, ונפל הכלי הזה במקום שעתיד הדעת דבריאה להיות עכ"ל. והיוצא לנו מזה כי רבותינו המקובלים החדשים שגגו לשאול ולמצאו פתרונים במה שלמעלה ומה למטה מה לפנים מה לאחור. דבר שקבלו חז"ל בעלי הלתמוד בבלי וירושלמי ומדרש רבה ותנחומא וזולתם ממדרשי רז"ל לאסור. כדגר' בחגיגה פרק אין דורשין. כי שאל נא לימים ראשונים. יכול ישאל אדם קדשם שנברא העולם ת"ל למן היום אשר ברא אלהים אדם על הארץ. יכול לא ישאל אדם מששת ימי בראשית ת"ל לימים ראשונים (פי' רש"י מיום ראשון) יכול ישאל אדם מה למעלה מה למטה ומה לפנים ומה לאחור תלמוד לומר ולמקצה השמים ועד קצה השמים. מקצה השמים ועוד קצה השמים אתה שואל. ואי אתה שואל מה למעלה ומה למטה ומה לפנים ומה לאחור עכ"ל הגמרא.
Acima do Ma'aseh Merkavá

E vê no Maharsha, nos Chidushei Aggadot, no caso de R. Elazar, que disse a R. Yochanan: "vem, e eu te ensinarei o Ma'aseh Merkavá"; e R. Yochanan lhe disse: "ainda não envelheci o bastante"; e, quando envelheceu, disse-lhe R. Assi: "vem, e eu te ensinarei o Ma'aseh Merkavá"; disse-lhe: "se o merecesse, já o teria aprendido de R. Yochanan, teu mestre" — e absteve-se, e não quis aprender, nem na sua juventude nem na sua velhice. E ali percebeu o R. Maharsha que as palavras da Cabala nova falam de coisas acima do Ma'aseh Merkavá, e que é mais digno ocultá-la, e não a expor em público — vê ali. E eu digo que, por lei, é proibido expô-la, de modo algum — nem a um indivíduo, nem em público. Pois, mesmo no Ma'aseh Merkavá, não permitiram os Sábios expô-lo senão a um sábio e entendido, e apenas os "cabeçalhos dos capítulos", e apenas até o chashmal (e há quem diga que até a passagem de "Va'erá", e não mais) — pois dali para cima é proibido falar, de modo algum, conforme a tradição dos Sábios e a sua advertência. E o que transgride as palavras dos Sábios é culpado de morte. E de tudo isto aprendemos que um grande erro erraram os nossos mestres da Cabala nova, e se ensoberbeceu o seu juízo, e o coração os encheu de ousadia para expor o que não lhes foi permitido nem autorizado — como se explicará adiante. E subiu no seu coração um pensamento estranho: de que, ao se aproximar o tempo da redenção, esta lei se anularia, e seria permitido expor o que antes não lhes foi permitido — como está explicado no pesak

ועיין במהרש"א בחדושי אגדות במעשה דר' אלעזר שאמר לר' יוחנן תא ואגמרך מעשה מרכבה ואמר ליה אכתי לא קשאי וכד קש אמר ליה ר' אסי תא ואגמרך מעשה מרכבה. אמר ליה אי זכאי הוה גמירנא מר' יוחנן רבך ונמנע ולא רצה ללמוד. לא בילדותו ולא בזקנותו. ושם הרגיש הר' מהרש"א שדברי הקבלה החדשה היא מדברת למעלה ממעשה מרכבה וראוי יותר להסתירה ולא לדרוש בה ברבים ע"ש. ואני אומר דמדינא אסור לדרוש בה כלל לא ביחיד ולא ברבים. שהרי במעשה מרכבה לא התירו חכמים לדרוש בהם ולחכם ומבין ראשי פרקים אלא עד החשמל. ואיכא דאמרי עד וארא ולא יותר דמשם ולמעלה אסור לדבר כלל, כפי קבלת חכמים ואזהרתם. והעובר על דברי חכמים חייב מיתה. ומכל זה למדנו ששגגה גדולה שגגו רבותינו בעלי הקבלה החדשה והגיסו דעתם ומלאם לבם לדרוש במה שלא הותר והורשה להם כמו שיתבאר לקמן. ועלתה בלבם מחשבה זרה שבהתקרב זמן הגאולה תבטל הלכה זו ויהיה מותר לדרוש במה שלא הותר להם מוקדם. כמו שמבואר בפסק
"Nenhum profeta pode inovar"

que fez R. Yitzchak Delamash, impresso no início do Sefer haZohar. E é um erro na sua mão decidir uma halachá das palavras do Zohar contra a Mishná, o Talmud e os posekim; e não se deve apoiar nele, de modo algum. E não puseram os cabalistas novos no seu coração o dito dos Sábios de que todas as halachot da Torá oral não se anularão, como escreveu o Rambam (no fim das Hilchot Meguilá). E, no seu transgredir as palavras dos Sábios, sucedeu-lhes, nesta inadvertência, a crer em multiplicidade na Divindade, e a crer na existência de outros deuses, e a associar o nome do Céu a outra coisa — sobre o que disse R. Shimon: "todo o que associa o nome do Céu a outra coisa é extirpado do mundo". E no fim de Pessachim aprendemos: "que é ''le-machseh atik'' Yeshayahu 23:18? — este é o que cobre as coisas que o Ancião dos Dias cobriu; e que são? os segredos da Torá" (explicou Rashi: o Ma'aseh Merkavá e o Ma'aseh Bereshit); "e há quem diga: este é o que revela as coisas que o Ancião dos Dias cobriu; e que são? as razões da Torá". Eis para ti que o que revela o Ma'aseh Merkavá não merecerá o bem reservado para os justos — quanto mais, num kal va-chomer, as coisas que estão acima do Ma'aseh Merkavá, sobre as quais é proibido falar de modo algum; e que não se deu licença para revelar senão as razões da Torá, mas os segredos da Torá não se deu licença para revelá-los — e quanto mais para expô-los em público, explicitamente, na casa de estudo, mesmo a sábios da Torá; quanto mais entre a multidão, que não sabe nem entende, pois isso os traz à heresia, a crer em muitas divindades, como viram os nossos olhos. E D'us nos livre de pensar a respeito de R. Shimon bar Yochai, o Tana, que transgredisse esta proibição, a falar do que está acima do Ma'aseh Merkavá e do que havia antes, na criação do mundo; e tampouco a respeito de algum outro Tana ou Amora que fizesse assim, e dissesse que o Santo se lhe revelou e lhe permitiu o que é proibido expor — pois tal é profecia falsa (e a sua morte é por estrangulamento, como escreveu o Rambam na introdução à Ordem de Zera'im), já que nenhum profeta tem licença de inovar coisa alguma de agora em diante, pois "não está nos céus".

שעשה ר' יצחק דלמאש המודפס בתחלת ס' הזהר. וטעות הוא בידו לפסוק הלכה מדברי הזהר היפך המשנה והתלמוד והפוסקים ואין לסמוך עליו כלל. ולא שמו המקובלים החדשים אל לבם מאמר רז"ל שכל הלכות של תורה שבעל פה לא יבטלו כמו שכ' הרמב"ם ז"ל בסוף הלכות מגלה. ובעברם על דברי חז"ל אירע להם בשגגת זו להאמין רבוי באלהות ולהאמין במציאות אלהים אחרים, ולשתף שם שמים ודבר אחר שעליו אמר ר' שמעון כל המשתף שם שמים ודבר אחר נעקר מן העולם. ובשלהי פסחים גרסינן מאי למכסה עתיק, זה המכסה דברים שכיסה עתיק יומין, ומאי נינהו סתרי תורה (פ' רש"י מעשה מרכבה ומע' בראשית) ואיכא דאמרי זה המגלה דברים שכיסה עתיק יומין, ומאי נינהו טעמי תורה ע"כ, הרי לך שהמגלה מעשה מרכבה לא יזכה לטוב הצפון לצדיקים, כ"ש וקל וחומר דברים שהם למעלה ממעשה מרכבה שאמור לדבר בהם כלל, ולא ניתן רשות לגלות אלא מטעמי תורה בלבד, אבל סתרי תורה לא ניתן רשות לגלותן, וכל שכן לדרשן ברבים בהדיא בבית המדרש אפי' לתלמידי חכמים, כל שכן בין ההמון אשר לא ידעו ולא יבינו, כי יביאם לידי מינות באמונת אלוהות רבים כאשר ראו עינינו, וחלילה לחשוב על ר' שמעון ב"י התנא שיעבור על איסור זה לדבר במה שלמעלה ממעשה מרכבה ובמה שהיה לפנים קודם בריאת העולם, וגם לא לשום תנא או אמורא לעשות כן ולומר שנגלה הקב"ה והתיר לו את האסור לדרוש בו, כי זו נביאות שקר היא (ומיתתו בחנק כמו שכתב הרמב"ם בהקדמת סדר זרעים) שאין נביא רשאי לחדש דבר מעתה כי לא בשמים היא.
Nota — "não está nos céus". O capítulo fecha onde Qafih sempre volta: a autoridade está na tradição recebida, e nada — nem uma revelação alegada — pode acrescentar-lhe. Por isso ele insiste que nem o Rashbi teria exposto o que a Torá proíbe inquirir ("que há acima, que há abaixo, que há antes"), e que dizer "D'us revelou-me permissão" seria profecia falsa — "a Torá não está nos céus" (Bava Metzia 59b). Eis, justamente, o ponto onde a tradição cabalística diverge na premissa: para ela, o Zohar não é inovação nem nova revelação, mas esoterismo recebido do próprio Rashbi e da sua escola — Ma'aseh Merkavá legitimamente transmitido aos dignos. Qafih nega essa premissa (cap. XII); por isso lê como "inovação proibida" o que o cabalista lê como "tradição guardada". Toda a controvérsia repousa nessa única divergência — e o Zohar permanece texto sagrado para a maior parte de Israel.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A síntese da acusação

Qafih recolhe num só lugar a conclusão dos capítulos anteriores: reunindo o Zohar e os seus comentadores, sustenta que todos, "como um", dirigem o culto ao Ze'ir Anpin — não ao Ein Sof, tido por longínquo demais. É a tese que ele combaterá por três vias.

O argumento filosófico

O mais sólido: o Midrash ensina que tudo o que tem "toladot" — origem, geração — é criado e perecível, e só o incausado "cria e não é criado". Como os partzufim são descritos com gestação e nascimento, não podem ser o Criador, que é a Causa Primeira sem causa anterior (Rambam, 4.º princípio). Só o absolutamente não-originado é D'us.

O argumento haláquico

Se os Sábios silenciam quem apenas repete uma palavra que soa a "duas potências", quanto mais — diz Qafih — a leitura de "H' melech / H' malach / H' yimloch" como entronizando três faces. Para ele, isso contradiz "não temos rei senão Tu". (A Cabala lê o mesmo Senhor reinando em todos os planos — não três reis.)

O argumento do método — e a única divergência

Por fim: é proibido inquirir "o que há antes da criação", e dizer "D'us revelou-me permissão" seria profecia falsa, pois "a Torá não está nos céus". Aqui se vê a raiz de tudo: Qafih lê o Zohar como inovação proibida; a tradição cabalística lê-o como esoterismo recebido do Rashbi. Toda a controvérsia repousa nessa premissa — e o Zohar permanece sagrado para a maior parte de Israel, ambos os lados afirmando um só D'us.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XVI

Crer é conceber, não recitar

אֵין הָאֱמוּנָה אֶלָּא אַחַר הַצִּיּוּר
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Depois de páginas de crítica, o capítulo se volta para a afirmação. Qafih responde à pergunta "por que o mundo foi criado agora e não antes?" (não há "antes" para o Eterno), declara a fé pura — D'us criou sozinho, sem sócio que "carregue o Seu fardo" — e culmina num dos textos mais belos do Rambam: a fé não é o que a boca diz, mas o que a alma concebe.

"Por que o mundo só agora?"

(34) O Maharchu R. Chaim Vital, no Etz Chaim, permitiu a si mesmo falar e expor sobre "o que há antes da criação", e explicar nisso "cabeçalhos de capítulos". E pensou em dar uma razão para o fato de o mundo ter sido criado neste tempo, e não antes — a saber, que, no tempo antigo, o Santo se ocupava da criação dos mundos do alto, e não chegou a terminá-los senão quando chegou o tempo da criação deste mundo; e (D'us nos livre) o Criador não achou tempo livre para criar este mundo, pois todo o decurso do tempo antigo esteve (D'us nos livre) atarefado, ocupado na criação dos mundos superiores, visto que se precisa, necessariamente, de "eras e eras" para a criação do mundo — vê ali. E ficou oculto dos olhos do Maharchu o que escreveu o Rambam no Moré (fim do cap. 15 da parte II): “pois, se disseres, por modo de exemplo, que o Criador criou muitos mundos antes deste mundo — tantos quanto o número de grãos de mostarda que enchem a largura da esfera suprema —, e que cada mundo deles permaneceu anos muitos, sem número: isto, quando o cotejarmos com a Sua existência, bendito, que não tem fim, seria como se tu dissesses que D'us criou o mundo ontem; pois, quando afirmamos um início de existência após a inexistência, não há diferença entre se colocares isto antes de centenas de milhares de anos ou num tempo muito recente”. E disto entende a falta de sabedoria do Maharchu, que pensou tornar sábio o assunto sem sabedoria. E no livro Avon le-Elohim (cap. 21, p.67d) ele ousou responder: “e, se não te satisfizeres com a resposta do livre-arbítrio, responder-te-emos: ouviste que o ''rei santo'' veio a ser e então criou os mundos; e, por isto, não podes objetar por que os criou agora e não antes, pois, desde o instante em que veio a ser, os criou”. E resulta, segundo as suas palavras, que o Criador, bendito seja, não é mais antigo do que Adam haRishon senão por cinco dias apenas! E, segundo as suas palavras, como se poderia conceber o que expuseram os Sábios sobre o versículo "va-ehyeh etzlo amon" — a saber, que a Torá precedeu a criação do mundo em 974 gerações —, pois, segundo as suas palavras, a Torá seria anterior ao vir-a-ser do Criador?! O Misericordioso nos livre de pensamentos estranhos como estes.

לד) הרח"ו בספר עץ חיים הורה היתר לעצמו לדבר ולדרוש במה לפנים ולבאר בה ראשי פרקים. וחשב ליתן טעם למה נברא העולם בזמן זה ולא קודם לכן, שבזמן הקדום נתעסק הקב"ה בבריאת עולמות של מעלה, ולא הספיק לגמרן אלא עד שהגיע זמן בריאת העה"ז. ולא מצא לו הבורא ח"ו עת וזמן פנוי לברוא את העה"ז, כי כל משך הזמן הקדום היה ח"ו טרוד בהתעסקו בברית העולמות העליונים לפי שבהכרח צריך עדן ועדנין לבריאת העולם ע"ש. ונעלם מעיני הרח"ו מה שכתב הרמב"ם ז"ל במורה סוף פרק ט"ו משני וז"ל כי אלו תאמר על דרך משל כי הבורא ברא עולמות רבות קודם זה העולם כפי מנין מלוא רוחב גלגל העליון חרדל, וכל עולם ועולם מהן עמד שנים רבות בלי מספר כמלוא רוחב גלגל העליון (חרדל), היה זה כשנעריכהו אל מציאותו יתברך שאין לו תכלית כמו אלו, אמרת כי האל ברא אתמול העולם, כי כשנקיים התחלת מציאות אחר העדר (ג"א דאפיסה) אין הפרש בין שתשים זה קודם מאות אלפים שנים או מזמן קרוב מאוד ע"כ. ומזה תבין חסרון חכמה מהרח"ו שחשב להחכם מבלי חכמה. ובספר עון לאלהים בבית קדש הקדשים פ' כ"א ד' ס"ז ע"ד העיז פניו להשיב וז"ל ואם לא תתרצה בתשובת הבחירה נשיב לך שמעת שנתהוה מלכא קדישא ברא העולמות, ובזה לא תוכל להקשות למה בראם עכשו ולא קודם, כי מעת שנתהוה בראם עכ"ל. ונמצא לפי דבריו שאין הבורא יתברך גדל מאדם הראשון אלא בחמשה ימים בלבד. ולדבריו ג"כ איך יצוייר מה שדרשו ז"ל על פסוק ואהיה אצלו אמון, שהתורה קדמה לבריאת העולם תתעק"ד דורות, כי לדבריו היתה התורה קודם התהוות הבורא, רחמנא לצלן ממחשבות זרות כאלה.
Nota — não há "antes" para o Infinito. O Maharchu (R. Chaim Vital) tentara explicar por que o mundo foi criado "agora" e não antes — supondo que o Criador estivera "ocupado" criando os mundos superiores. Qafih responde com o Rambam (Moré II:15): medido contra a existência sem-fim de D'us, dizer que Ele criou o mundo há milhões de anos ou "ontem" dá no mesmo — não há "cedo" nem "tarde" para o Eterno, e a pergunta "por que só agora?" simplesmente se dissolve. É um ponto filosófico clássico e sóbrio; e o seu corolário é grave para Qafih: falar de um "rei santo" que "veio a ser" e só então criou rebaixa o Criador a algo com início no tempo.
Sem sócio: "quem esteve comigo?"

E eis as palavras do Mahari Tzahari, em nome de R. Saadia Gaon (parashá de Bereshit, a sétima matéria): “vem a Escritura informar-nos que, ainda que vejais os céus grandes de valor na sua medida — conforme se explicou, por demonstração, aos mestres da geometria —, não penseis que eles precisaram de muito tempo para a sua criação; antes, ''chamo-os, e erguem-se juntos'' Yeshayahu 48:13 — quer dizer, ''Bereshit'', no menor dos tempos, sem labuta, sem trabalho e sem fadiga; e assim diz ''não se cansa nem se fatiga; não há esquadrinhar a Sua compreensão''”. E no Bereshit Rabbá (caps. 1 e 3), e no Yalkut, perguntaram os Sábios: quando foram criados os anjos? R. Yochanan disse: no segundo dia — eis o que está escrito "o que cobre com águas os seus aposentos altos", e logo "faz dos ventos os seus mensageiros anjos". R. Chanina disse: no quinto dia foram criados os anjos — eis "e ave voe sobre a terra", e "e com duas asas voava". R. Lulyani, em nome de R. Yitzchak, disse: tanto segundo R. Yochanan quanto segundo R. Chanina, todos concordam em que nada foi criado no primeiro dia — para que não digam que Michael estava estendendo os céus no sul do firmamento, e Gabriel no seu norte, e o Santo medindo no meio; antes, "Eu sou o Senhor que faz tudo, que estende os céus sozinho, que estira a terra — mi-iti"; "mi iti" quem comigo está escrito: quem foi sócio comigo na criação do mundo?!

וז"ל מהר'י צהרי בשם ר' סעדיה גאון פרשה בראשית הענין השביעי בא להודיענו, שאעפ"י שתראו השמים גדולי הערך במדתם כפי מה שנתבאר במופת לבעלי חכמת התשבורת בשמים ובארץ, אל תחשבו שהוצרכו זמן רב לבריאתם, אלא קורא אני להם יעמדו יחדו, ורוצה לומר בראשית בזמן קטן שבזמנים בלי עמל ובלי טורח ובלי יגיעה, וכן הוא אומר לא ייעף ולא ייגע אין חקר לתבונתו עכ"ל. ובבראשית רבה פ' א' וג' ובילקוט בראשית אמז ה' וישעיה שכ"ב, ותילים תתל"ו שאלו רז"ל אימתי נבראו המלאכים. ר' יוחנן אמר בשני נבראו הדה הוא דכ' המקרה במים עליותיו וכו' וכתיב בתריה עושה מלאכיו רוחות. ר' חנינה אמר בחמשי נבראו המלאכים הדה הא דכתיב ועוף יעופף על הארץ וכתיב ובשתים יעופף ר' לוליאני בשם ר' יצחק אמר בין על דעתיה דר' יוחנן בין על דעתיה דר' חנינה, הכל מודים שלא נברא ביום א' כלום. שלא יאמרו מיכאל היה מותח בדרומה של רקיע וגבריאל בצפונו והקב"ה ממדד באמצע אלא אנכי ה' עושה כל נוטה שמים לבדי רוקע הארץ מיאתי. מי אתי כתיב, מי היה שותף עמי בבריאתו של עולם ע"כ.
"Ele sozinho criou o mundo"

E assim escreveu Rashi (cap. "Yom Tov shel Rosh Hashaná"): que os anjos não foram criados senão no segundo dia, conforme R. Yochanan. E assim escreveu o Semag (na introdução aos preceitos positivos): “quando o Santo criou o mundo, criou-o no primeiro dia, e os anjos foram criados no segundo dia, conforme se disse "o que cobre com águas os seus aposentos", e logo está escrito "faz dos ventos os seus mensageiros"” — e isso está de acordo com R. Yochanan. E no Yalkut Tehillim: "e foi tarde e foi manhã, yom echad dia um" — o dia "único" do mundo, em que não havia no mundo senão Ele; quer dizer: "Tu és Ele, o Senhor D'us, sozinho". Outra interpretação: "pois grande és Tu, e fazes maravilhas" — é costume no mundo que um rei de carne e sangue é louvado na província, e os grandes da província são louvados com ele, por carregarem com ele o seu fardo; mas o Santo não é assim — antes, Ele sozinho criou o mundo, Ele sozinho é louvado no mundo, Ele sozinho se glorifica no Seu mundo. Disse R. Tanchuma: "pois grande és Tu, e fazes maravilhas" — por quê? "pois Tu és D'us, sozinho" — Tu sozinho criaste o mundo.

וכן כ' רש"י ז"ל בפ' יו"ט של ר"ה שלא נבראו המלאכים עד יום ב' וכד' יוחנן. וכ"כ הסמ"ג בהקדמת עשין וז"ל כשברא הקב"ה את העולם בראו ביום הראשון והמלאכים נבראו ביום השני שנאמר המקרה במים עליותיו וכתיב בתריה עושה מלאכיו רוחות ע"כ ואתיא כר' יוחנן. ובילקוט תילים ויהי ערב ויהי בקר יום אחד יום יחיו של עולם שלא היה בעולם אלא הוא, הוי אומר אתה הוא ה' האלהים לבדך ע"כ. ד"א כי גדול אתה ועושה נפלאות בנוהג שבעולם מלך בשר ודם מתקלס במדינה וגדולי המדינה מתקלסין עמו לפי שנושאין עמו במשאו. אבל הקב"ה אינו כן אלא הוא לבדו ברא את העולם הוא לבדו מתקלס בעולם, הוא לבדו מתהדר בעולמו, אמר ר' תנחומא כי גדול אתה ועושה נפלאות למה? כי אתה אלהים לבדך אתה לבדך בראת את העולם ע"כ.
A fé pura: nenhuma potência "carrega o fardo"

(35) E disto se te explicará, meu amigo, a verdade da nossa fé pura, refinada conforme os nossos mestres, recebedores da tradição vinda de Moshé, nosso mestre: de que o Nome, bendito seja — que é a Causa Primeira, sozinho — criou tudo, sem auxílio de nenhum criado; não como expôs o "filósofo" autor do Zohar (que trouxe acima, seções 20, 21, 24), pois, segundo as suas palavras, as muitas causas que ele inventou auxiliam-se umas às outras, e cada uma toma licença de uma causa que está acima dela; e há lugar para o disputante dizer: Atik estende-se no sul, e Arich Anpin no norte, e Abba no leste, e Imma no oeste, e Ze'ir e a sua esposa nos cantos, e Adam Kadmon, o maior deles, medindo no meio! E, contra o que disseram os Sábios — "é costume no mundo que um rei de carne e sangue é louvado, e os grandes da província são louvados com ele, por carregarem com ele o seu fardo" —, assim fez o "filósofo", o falso profeta autor do Zohar, e os demais cabalistas, com a honra do nosso Pai, nosso Rei: fazendo que todos os partzufim que inventaram nas suas mentes sejam louvados com Ele! Adam Kadmon, o maior deles, é louvado no enunciado "vede agora que eu, eu sou Ele, eu mato e dou vida" etc. — pois não há outra causa acima dele da qual tomar licença! E Abba é louvado no enunciado "haja luz" e "ajuntem-se as águas"! E Imma é louvada no enunciado "façamos o homem"! E Atik é louvado no enunciado "Senhor, a Tua obra ... no decurso dos anos faze-a viver" Chavakuk 3:2 — que, sobre Atika Kadisha, se disse, como está explicado na Idra de-Nasa! E Ze'ir é louvado no enunciado "Eu sou o Senhor teu D'us, que te tirei" etc. (como escreveu o Sefer haBrit, e o Rav Nachalat Yosef, p.61-62)! E Malchut é louvada no enunciado "estes são os deuses que feriram o Egito" — já que a Malchut os feria, com o auxílio da Biná (Nachalat Yosef). Vê, meu amigo, como os cabalistas louvam todos os grandes partzufim com o louvor do Rei dos reis dos reis, como se eles carregassem com Ele o Seu fardo — ao contrário das palavras dos Sábios, que disseram "Tu és o D'us, sozinho"! Que o Misericordioso nos resgate de crenças estranhas como estas! E vi o R. autor do Melamed haTalmidim (parashá de Yitro), que escreveu que os anjos foram criados antes da criação dos céus e da terra, e trouxe as suas palavras do autor da Menorat haMaor (cap. 93); e é razoável que do seu próprio juízo escreveu assim, e é mera conjetura, e ele se apoia numa dedução da bênção "Baruch she-Amar"; mas a sua prova-dedução não vale nada, pois nós, de início, não temos a leitura "baruch oseh bereshit", como escreveu o Maharitz no siddur Etz Chaim; e, mesmo segundo a leitura deles, não é compelente, pois não achamos que os anjos se chamem "reshit"; e, conforme as palavras dos Sábios no Bereshit Rabbá, é mais razoável dar ouvidos, e ademais as suas palavras são palavras de tradição. E não há que estender muito em coisas de aggadá — quanto mais em coisas das quais não decorre consequência para a halachá —, pois todo o nosso alvo aqui é esclarecer a verdade da unidade do Criador, bendito, conforme a nossa santa Torá e a tradição dos nossos mestres e dos transmissores da tradição, para saber o que deve Israel fazer ao dizer, cada dia, tarde e manhã, "Shemá Yisrael" etc. — e o Senhor D'us me ajudará.

לה) ומזה יתבאר לך ידידי אמתת אמונתינו הטהורה המזוקקה על פי רבותינו ז"ל מקבלי השמועה ממשה רבי' ע"ה שהשם ית' שהוא הסבה הראשונה לבדו ברא את הכל בלי סיוע שום נברא דלא כמו שדרש הפילוסוף מחבר הזהר שהבאתי לעיל סי' כ' וכ"א וכ"ד כי לפי דבריו העלות הרבות שהמציא מסייעות זו את זו. וכל אחת נוטלת רשות מסבה שהיא למעלה ממנה. ויש מקום לבעל הדין לומר עתיק ממתח בדרום ואריך אנפין בצפון ואבא במזרח ואימא במערב וזעיר ואשתו בזויות ואדם קדמון הגדול שבהם ממדד באמצע. ונגד מה שאמרו רז"ל בנוהג שבעולם מלך ב"ו מתקלס במדינה וגדולי המדינה מתקלסין עמו לפי שהם נושאים עמו במשאו וכו'. כן עשה הפילוסוף נביא השקר מחבר הזהר ושאר מקובלים בכבוד אבינו מלכינו שכל הפרצופים שהמציאו ברעיוניהם הם מתקלסים עמו! אדם קדמון הגדול שבהם מתקלס במאמר ראו עתה כי אני אני הוא אני אמית ואחיה וכו' שאין עילה אחרת עליו שיטול רשות ממנה! ואבא מתקלס במאמר יהי אור ויקוו המים כדלעיל! ואימא מתקלסת במאמר נעשה אדם! ועתיק מתקלס במאמר ה' פעלך בקרב שנים וחייהו. דלעתיקא קדישא אתמר כמבואר באדרת נשא! וזעיר מתקלס במאמר אנכי ה' אלהיך אשר הוצאתיך וכו'. כמו שכ' ספר הברית (יובא לקמן סי' ט"ז) והרב נחלת יוסף דף ס"א וס"ב! ומלכות מתקלסת במאמר אלה הם האלוהים המכים את מצרים שהמלכות היתה מכה בהם בסיועת הבינה כמו שכ' הר' נחלת יוסף ע"ש. ראה ידידי איך המקובלים מקלסים לכל גדולי הפרצופים בקילוסו של מלך מלכי המלכים כאלו הם נושאים במשאי עמו היפך דברי רז"ל שאמרו אתה הוא האלהים לבדך וכו' כדלעיל! דרחמנא לישיזבן מאמונות זרות כאלה! וראיתי לה' מלמד התלמידים בפרשת יתרו שכ' המלאכים נבראו קודם בריאת שמים וארץ והביא דבריו בעל מנורת המאור בפ' צ"ג, ומסתברא דנפשיה כתב כן, ואומדנא בעלמא היא, ומסתייע לדייק לה מברכת ברוך שאמר, וראיתו דיוקו ליתיה דאנן מעיקרא לא גרסינן ברוך עושה בראשית כמו שכתב מהרי'ץ בסי' עץ חיים, ואף לפי גרסתם אינו מוכרח דלא מצינו שהמלאכים נקראו ראשית, ולדברי רז"ל בבראשית רבה שומעין דמלתיהו מסתברא טפי, ועוד שדבריהם דברי קבלה, ואין להאריך במילי דאגדתא כ"כ במילי דלא נפקא מינה לדינא, כי כל מטרתינו פה לברר אמתת יחד הבורא ית' על פי תורתינו הקדושה ועל פי קבלת רבותינו ומעתיקי השמועה לדעת מה יעשה ישראל באומרו בכל יום ערב ובוקר שמע ישראל וכו' וה' אלהים יעזר לי וכו'.
O livro de Yechezkel quase suprimido

(36) Já sabes, meu amigo leitor, o dito dos Sábios no cap. 1 de Shabbat e em Chagigá (cap. "Ein Dorshin"): disse Rav Yehudá em nome de Rav: “em verdade, para o bem seja lembrado aquele homem — Chananyá ben Chizkiyá é o seu nome —, pois, não fosse ele, o livro de Yechezkel teria sido suprimido nignaz, visto que as suas palavras contradiziam as palavras da Torá; que fez? Subiram-lhe trezentos jarros de azeite, e ele assentou-se na câmara alta e os expôs”. E explicou Rashi: "contradiziam as palavras da Torá" — por exemplo, "neveilá e tereifá os sacerdotes não comerão" — donde se inferiria: mas Israel comerá? e, por exemplo, "e assim fareis no sétimo do mês" — pergunta-se: onde está aludida esta oferta na Torá? — e Chananyá expô-las... E deriva disto, e estabelece -o no seu lugar: ora, se o livro de Yechezkel — que já fora estabelecido como profeta verdadeiro, e que reviveu os mortos no vale de Dura, e cujo livro está no rol dos livros sagrados, e que o salvamos do incêndio no Shabat — e, com tudo isto, buscaram os Sábios suprimi-lo, porque parecia contradizer as palavras da Torá num só preceito negativo? — quanto mais, num kal va-chomer, o livro do Zohar, no qual se vê e se reconhece uma contradição à Torá escrita e oral, na questão da idolatria, que é punível com apedrejamento e karet! E ele é como quem nega toda a Torá inteira. E, não só isto, mas também que ele despreza a Mishná e o Talmud, e os apelida de "kelipá" casca e "rocha alheia" etc., como se explicará diante de nós (seções 67, 68). Por tudo isto, quanto mais que é proibido lê-lo, de modo algum — visto que já se esclareceu e se divulgou a sua falsificação aos sábios e entendidos, e o fato de que as suas palavras, no tocante à Divindade, contradizem as palavras da Torá e as palavras dos Sofrim, transmitidas a nós pelos nossos mestres, os transmissores da tradição, e os Geonim e posekim que as receberam deles.

לו) כבר ידעת ידידי הקורא מאמר רז"ל בפ"ק דשבת ובחגיגה פ' אין דורשין, אמר רב יהודה אמר רב ברם זכור אותו האיש לטוב וחנניה בו חזקיה שמו שאמלא הוא נגנז ספר יחזקאל שהיו דבריו סותרין דברי תורה, מה עשה העלו לו שלש מאות גרבי שמן וישב בעליה ודרשן ע"כ, ופי' רש"י ז"ל סותרין דברי תורה כגון נבלה וטרפה לא יאכלו הכוהנים הא ישראל יאכלו? וכגון וכן תעשה בשבעה בחדש, היכן נרמז קרבן זה בתורה ודרשן כדדרשינן להני קראי במנחות דמשום דאישתרי מליקה לכהנים בחטאת העוף הוצרך להזהירן על מליקת חולין שהוא נבלה עכ"ל. ודון מינה ואוקי באתרין ומה ספר יחזקאל שכבר הוחזק לנביא אמת והחיה מתים בבקעת דורא וספרו מכלל ספרי הקדש ומצילין אותו מן הדליקה בשבת. ועם כל זה בקשו חכמים לגנזו מפני שהיה נראה כסותר דברי תורה באיסור לאו? כל שכן קל וחומר ס' הזהר שנראה וניכר בו סתירה לתורה שבכתב ושבעל פה באיסור ע"ז שהיא בסקילה וכרת. והוא ככופר בכל התורה כולה. ולא עוד אלא שהוא מבזה את המשנה והתלמוד ומכנה אותם בשם קליפה וסלע אחרא וכו' כמו שיתבאר לפנינו סי' ס"ז וס"ח. על אחת כמה וכמה שאסור לקרות בו כלל וכלל. כיון שכבר נתברר ונתפרסם זיופו לחכמים ונבונים ושדבריו בענין האלוהות סותרים דברי תורה ודברי סופרים המסורים לנו מרבותינו מעתיקי השמועה והגאונים והפוסקים שקבלו מהם.
Até os livros de Shlomo foram questionados

E ainda aprendemos no cap. "Bameh Madlikin": disse Rav Yehudá, filho de Rav Yehudá bar Shilat, em nome de Rav: “buscaram os Sábios suprimir liGnoz o livro de Kohelet, porque as suas palavras se contradizem umas às outras” etc.; e em Avot deRabbi Natan: “de início, liam apenas Mishlei; e Shir haShirim e Kohelet estavam suprimidos, até que vieram os homens da Grande Assembleia e os explicaram, e os fixaram entre os Escritos”. Eis que também disto julgas um kal va-chomer: ora, se o rei Shlomo, de quem se disse "e foi mais sábio do que todo homem", e que construiu o Templo, e a Shechiná repousou nele, e o Senhor se lhe apareceu, como está explicado na Escritura — e dizemos também, em Eruvin, que, na hora em que ele instituiu os eruvin e a lavagem das mãos, saiu uma bat kol e disse "meu filho, se o teu coração for sábio, se alegrará o meu coração, também eu"... e dizemos também ali "e ponderou, e investigou, e instituiu muitos provérbios", e que disse R. Eliezer: "de início, a Torá era semelhante a um cesto que não tem alças, até que veio Shlomo e lhe fez alças"! — e, com todo este louvor, não lhe mostraram os Sábios favor, e buscaram suprimir os seus livros, porque eram coisas que pareciam contradizer-se umas às outras, até que os explicaram os homens da Grande Assembleia! Quanto mais livros explícitos cujas palavras se contradizem umas às outras, e também contradizem as palavras da Torá e arrancam os seus fundamentos, e dos quais também não se sabe ao certo quem os compôs, e de cujo ventre saíram as palavras ditas neles, e que da mão de um estranho chegaram às nossas mãos — só que aqueles homens em cujas mãos chegaram os atribuíram a R. Shimon ben Yochai, o Tana; e há indícios que provam que falsamente se atribuíram ao Rashbi — quanto mais que é proibido lê-los, de modo algum!

ועוד גרסינן בפ' במה מדליקין אמר רב יהודה בריה דרב יהודה בר שילת משמיה דרב ביקשו חכמים לגנוז ספר קהלת מפני שדבריו סותרים זה את זה וכו' באבות דרבי נתן בתחלה היו קורין משלי בלבד. ושיר השירים וקהלת היו גנוזים עד שבאו אנשי כנסת הגדולה ופירשום וקבעום בין הכתובים ע"כ הנה גם מזה תדין קל וחומר. ומה אם שלמה המלך ע"ה שנ' בו ויחכם מכל האדם. ובנה בית המקדש ושרתה בו שכינה ונראה אליו ה' כמבואר בכתוב. ואמרינן נמי בעירובין בשעה שתיקן עירובין ונטילת ידים. יצאה בת קול ואמרה בני אם חכם לבך ישמח לבי גם אני. ואומר חכם בני ושמח לבי ואשיבה חורפי דבר, ואמרינן נמי התם ואזן וחקר תיקן משלים הרבה, אמר ר"א בהתחלה היתה תורה דומה לכפיפה שאין לה אזנים עד שבא שלמה ועשה לה אזנים! ועם כל השבח הזה לא נשאו לו חכמים פנים ובקשו לגנוז ספריו על שהיו דברים נראים סותרים זה את זה, עד שפירשום אנשי כנסת הגדולה! ספרים המבוארים שדבריהם סותרים זה את זה וגם סותרים דברי תורה ועוקרים יסודותיה. וגם לא נודע בבירור מי חברן. ומבטן מי יצאו הדברים הנאמרים בהם. ומיד בן נכר באו לידינו. רק שאותם אנשים שבאו לידם יחסו אותו לר' שמעון בן יוחאי התנא. ויש ידים מוכיחות דבשקר נתיחסו לרשב"י עאכ"ו שאסור לקרות בהן כלל.
A Mishná, a tradição sem dúvida

(37) E, de agora em diante, dá a tua atenção e contempla muito as palavras de R. Tam ben Yachya, trazidas no Sefer Revid haZahav (e que copiei acima, seção 13), onde ele disse que a Mishná e o Talmud são a tradição verdadeira e universalmente aceita — quer dizer, tal que não há nela dúvida alguma —, ao contrário dos livros da Cabala nova, em que há como duvidar várias dúvidas. E já saíram contra eles contestadores, como é sabido a todo entendido perito na literatura de Israel — a saber, que não se deve apoiar neles em nenhum dín dos díns da Torá, contra o Talmud e os posekim, como escreveram os mestres das regras metodológicas nos "caminhos dos posekim". Quanto mais, num kal va-chomer, na unidade do Senhor e no Seu culto — sobre o que fomos advertidos na Torá, nos Profetas e nos Escritos, e nas palavras dos Sábios, em várias advertências, como se explicou acima. E como se ensinou: "por que precedeu o Shemá ao Ve-hayá im shamoa" etc.; e como escreveu o Rambam (cap. 1 das Hilchot Kriat Shemá): que se antepõe a leitura da parashá do Shemá porque há nela a ordem acerca da unidade do Nome, e do Seu amor, e do seu estudo — que é o grande princípio, do qual tudo depende. E já escrevi acima (seção 32) que os Sábios foram muito rigorosos com toda coisa da qual decorra a possibilidade de crer em duas potências, e disseram que o silenciamos. E que se acrescenta — depois de o autor já ter dito e contado para nós várias causas que tomam licença, cada uma da causa que está acima dela — com o fato de terem ainda dito "e tudo é um"?! Como se fôssemos ordenados a dizer "um" com a nossa boca, mas no nosso coração crer que são muitos deuses?!

לז) ומעתה תן דעתך והתבונן מאד בדברי ר"ת בן יחיא המובא בס' רביד הזהב והעתקיו לעיל סי' י"ג שאמר שהמשנה והתלמוד היא הקבלה האמתית והמוסכמת מכל צד שרוצה לומר שאי בה שום ספק. מה שאין כן ספרי הקבלה החדשה יש לספק בהן כמה ספקות. וכבר יצאו עליהם עסיקין כידוע לכל מבין בקי בספרות ישראל. שאין לסמוך עליהם בשום דין מדיני התורה היפך התלמוד והפוסקים כמו שכתבו בעלי הכללים בדרכי הפוסקים. כל שכן וקל וחומר ביחוד השי"ת ועבודתו אשר על זה הוזהרנו בתורה ובנביאים ובכתובים וכדברי רז"ל בכמה אזהרות כמו שנתבאר לעיל. וכדתנן למה קדמה שמע לוהיה אם שמוע וכו' וכמו שכ' הרמב"ם ז" בפ"א מהל' קריאת שמע שמקדימין לקרות פרשת שמע מפני שיש בה ציווי על יחוד השם ואהבתו ותלמודו שהוא העיקר הגדול שהכל תלוי בו ע"כ. וכבר כתבתי לעיל סי' ל"ב שרז"ל הקפידו מאד על כל מלתא דנפיק מינה להאמין בשתי רשויות ואמרו שמשתקין אותו. ומה יתן ומה יוסיף עוד אמרו וכלא הד. אחר שכבר אמר וחשב לנו כמה עילות שנוטלין רשות כל אחד מן העילה שלמעלה ממנו. כאלו נצטוינו לומר אחד בפינו. אבל בליבנו הם הרבה אלוהות.
O Rambam: crer é conceber

E esta é a linguagem do Rambam, no Moré (I:50): “Sabe, tu que examinas este meu tratado, que a crença não é a coisa dita pela boca, mas a coisa concebida na alma, quando se crê a respeito dela que é assim como foi concebida. E, se te basta — dentre as opiniões verdadeiras, ou tidas por verdadeiras junto a ti — o declará-las em palavra, sem que as concebas e creias nelas, isso é muito leve, como achas muitos dos tolos guardando crenças das quais não se concebe para eles sentido algum, de modo nenhum. Mas, se o teu coração se encheu da ousadia de subir a este grau supremo — que é o grau da contemplação — e de que se te verifique que o Senhor, bendito, é um, com a unidade verdadeira, de sorte que não se ache n'Ele composição alguma, e que não se deva pensar nenhum pensamento de divisão, de modo algum: sabe que Ele, bendito, não tem atributo essencial de modo algum; e, assim como é impossível Ele ser corpo, é impossível Ele ter atributo essencial. Porém, quem creu que Ele é um possuidor de muitos atributos, já disse que Ele é um na sua palavra, e creu que Ele é muitos no seu pensamento — e isto é como o dito dos cristãos ''Ele é um, mas é três, e os três são um''; assim também o dito do que diz ''Ele é um, mas é possuidor de muitos atributos'' — como se a nossa intenção fosse como dizer, e não como crer; pois a crença não é senão após o conceber. Pois a crença é a crença no que se concebe no intelecto; e, se for tal que seja impossível conceber o contrário dela, e que o intelecto não ache lugar de rejeitá-la — então ela será verdadeira. E, quando despires de sobre ti os apetites e os costumes, e fores pessoa de discernimento, e contemplares o que digo nos capítulos vindouros, no afastamento dos atributos, verificar-se-á para ti, necessariamente, o que dissemos; e serás, então, dos que concebem a unidade do Senhor — não dos que a dizem pela sua boca e não a concebem —; e não serás da categoria daqueles sobre quem se diz ''perto estás na boca deles, e longe dos seus rins'' Yirmiyahu 12:2. Mas convém que o homem seja da categoria de quem concebe a verdade e a alcança — ainda que não fale dela —, como foram ordenados os dignos, e a quem se disse ''dizei no vosso coração, sobre o vosso leito, e ficai em silêncio, selá'' Tehillim 4:5”. — Até aqui as palavras do Rav autor do Moré, de abençoada memória.

וזה לשון הרמב"ם במורה פרק ג' לראשון, דע אתה המעיין במאמרי זה, כי האמונה אינה הענין הנאמר בפה אבל הוא הענים המצוייר בנפש, כשיאמינו בו שהוא כן כמו שצוייר, ואם יספיק לך מן הדעות האמתיות או הנחשבות אמתתם אצלך כשתספרם במאמר מבלתי שתציירם ותאמין בהם. כל שכן כשתבקש מהם האמת. הוא קל מאוד, כמו שתמצא הרבה מן הפתאין ישמרו אמונות לא יציירו להם ענין בשום פנים. אבל אם מלאך לבך לעלות לזאת המדרגה העליונה שהיא מדגרת העיון. ושיתאמת לך שהשם ית' אחד האחדות האמתית עד שלא תמצא לו הרכבה כלל. ושאין לחשוב שום מחשבת חלוק בשום פנים. דע שאין לו ית' תואר עצמי בשום פנים ולא בשום ענין. וכמו שנמנע היותו גשם כן נמנע היותו בעל תואר עצמי. אמנם מי שהאמין שהוא אחד בעל תארים רבים כבר אמר שהוא אחד במלתו. והאמין שהוא רבים במחשבתו וזה כמאמר הנצרים הוא אחד. אבל הוא שלשה והשלשה אחד. כן מאמר האומר הוא אחד, אבל הוא בעל תארים רבים, והוא ותאריו אחד. עם הסתלק הגשמות, והאמנת הפשטות הגמורה כאלו כוונתנו וחיפושנו איך נאמר, לא איך נאמין, ואין האמונה אלא ארת הציור. כי האמונה היא האמונה במה שיצוייר בשכל. ואם יהיה עם זאת האמונה שאי אפשר חלוף זאת האמונה בשום פנים. ולא ימצא בשכל מקום דחייה לאמונה ההיא ולא לשער אפשרות חלופה תהיה אמתית. וכשתפשוט מעליך התאוות והמנהגים, ותהיה בעל תבונה, ותתבונן מה שאומר אותו באלה הפרקים הבאים בהרחקת התארים יתאמת לך מה שאמרנו בהכרח. ותהיה אז ממי שיצייר יחוד השי"ת. לא ממי שיאמר אותו בפיו ולא יצייר לו עניין. ויהיה מכת הנאמר עליהם קרוב אתה בפיהם ורחוק מכליותיהם. אבל צריך שיהיה האדם מכת מי שיצייר האמת וישיגהו אע"פ שלא ידבר בו. כמו שצוו החשובים ונאמר להם אמרו בלבבכם על משכבכם ודומו סלה עכ"ל הרב המורה ז"ל.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A crítica à cosmogonia

Qafih recusa a tentativa (que atribui a R. Chaim Vital) de explicar por que o mundo foi criado "agora" — supondo o Criador "ocupado" antes com os mundos superiores. Pelo Rambam, para a existência sem-fim de D'us não há "cedo" nem "tarde": a pergunta dissolve-se, e falar de um "rei santo" que "veio a ser" rebaixa o Eterno a algo com início.

A afirmação positiva

Vem então a fé pura, em tom luminoso: o Criador, sozinho, fez tudo, sem sócio que "carregue o Seu fardo". A imagem é o midrash dos anjos criados no segundo dia — nada no primeiro — para que ninguém pense terem co-criado: "que estende os céus sozinho — quem esteve comigo?".

O precedente dos livros

Por kal va-chomer: até Yechezkel e Kohelet quase foram "suprimidos" por aparentarem contradizer a Torá, até serem harmonizados. Aqui Qafih reafirma, em tom forte, as suas teses sobre a autoria e a autoridade do Zohar — posições dele, que a tradição cabalística rejeita, e que apresentamos como peça do debate.

Crer é conceber

O ápice é o Moré I:50: a fé não é o que a boca diz, mas o que a alma concebe. É o ideal que une os dois campos — não recitar a unidade, mas concebê-la. Para Qafih, a linguagem dos partzufim falha o teste; para o cabalista, os partzufim não são divisão real, mas a vida do Único, e por isso o cumprem. O texto maimonidiano, ambos o reverenciam.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XVII

Por que Moshé não ensinou isto?

זִכְרוּ תּוֹרַת מֹשֶׁה עַבְדִּי
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih examina, de perto, a cosmologia luriânica — o "tzimtzum" (a contração), a "linha" de luz, os "círculos e a retidão", os mundos sem conta — e fecha com a objeção que considera decisiva: se todo este sistema fosse verdadeiro e necessário, por que a Torá de Moshé, o Talmud e os profetas o desconhecem?

"Círculos e linha": retratar o Infinito

(38) Eis que também disto se te explicou, meu amigo, o erro dos nossos mestres cabalistas novos, que retrataram e descreveram o Senhor em vários retratos e atributos diversos — "círculos e linha" iggulim ve-yosher, em vários partzufim diferentes uns dos outros, um dentro do outro, e um acima do outro —, apesar da tradição dos Sábios, que receberam que é proibido pensar e cogitar nestas coisas, que estão no âmbito de "o que há acima, o que há abaixo, o que há antes e o que há depois". E disseram ainda os cabalistas novos que, de início, o Senhor enchia o vácuo de todo o mundo; e depois contraiu tzimtzem a Si mesmo, e se encolheu para os lados, em volta, e se mudou de como era — a fim de dar lugar e vácuo a todo o mundo.

לח) הנה גם מזה נתבאר לך ידידי שגגת רבותינו המקובלים החדשים שציירו ותיארו את השי"ת בכמה ציורים ותארים שונים. עגולים ויושר בכמה פרצופים שונים זה מזה, זה בתוך זה, וזה למעלה מזה, למרות קבלת רז"ל שקבלו שאסור לחשוב ולהרהר בדברים אלו שהם בכלל מה למעלה מה למטה מה לפנים ומה לאחור. ואמרו עוד המקובלים החדשים שבתחלה היה השי"ת ממלא את חלל כל העולם. ואחר כך צמצם את עצמו ונצטמק אל הצדדים סביב, ונשתנה מכמות שהיה כדי להמציא מקום וחלל לכל העולם.
O "tzimtzum" e a "linha" de luz

E esta é a linguagem do Maharchu, no Etz Chaim (Sha'ar Iggulim ve-Yosher, ramo 2): “e eis que, após o tzimtzum — quando então restou o lugar do vácuo, e um ar livre e vazio da própria luz do Ein Sof —, já havia lugar para que ali pudessem estar os emanados, os criados, os formados e os feitos; e então Ele estendeu, da luz do Ein Sof, uma linha kav reta, da Sua luz circular, de cima para baixo, descendo dentro daquele vácuo; e a cabeça superior da linha se estende do próprio Ein Sof e o toca, mas o término daquela linha, embaixo, não toca a luz do Ein Sof que está embaixo; e naquele lugar do vácuo Ele emanou, criou, formou e fez todos os mundos; e esta linha é como um canal fino, através do qual se espalham as águas da luz superior do Ein Sof a todos os mundos que estão naquele ar e vácuo. E agora explicaremos o assunto da investigação dos cabalistas, para saber como há cabeça e fim nas sefirot: ora, sendo aquela linha tal que a sua cabeça toca a luz do Ein Sof do lado superior, e o seu fim não se estende embaixo até o lugar do Ein Sof que circunda por baixo dos mundos — por isso se verifica nela cabeça e fim; pois, se por dois extremos recebessem a abundância do Ein Sof, ambos seriam da espécie de ''cabeças'' iguais, e não haveria cima e baixo; e assim, se o Ein Sof se estendesse por todos os lados daquele vácuo, não haveria cima nem baixo, nem frente nem dorso, nem leste nem oeste, nem norte nem sul; mas, sendo a luz do Ein Sof estendida por uma só linha e um canal fino, se verifica cima e baixo, frente e dorso, leste e oeste” (estas palavras suas não são com discernimento, pois, embora 'cabeça e fim' passe, mas frente e dorso, leste e oeste, como se verificariam?). “E eis que, sendo a luz do Ein Sof estendida na espécie de linha reta dentro do vácuo, não se estendeu para baixo de imediato, mas se espalhava aos poucos; quer dizer: de início, começou a linha da luz a espalhar-se ali, e logo, no segredo da linha, se estendeu e tornou-se como que uma 'roda' circular em volta; e esta 'roda' não estava aderente ao Ein Sof que a circunda de todos os lados — pois, se a ele aderisse, a coisa reverteria a como era, e se anularia na luz do Ein Sof, e a sua força não se mostraria” (das suas próprias palavras se pode objetar ao que ele menciona adiante — que, por esta linha, desce uma luz interior, que é a 'alma' das sefirot, e uma luz circundante, que é o 'manto' das sefirot: por que esta não se mistura e adere ao corpo das sefirot, e não reverte tudo a um só bloco, anulando o vaso?).

וזה לשון מהרח"ו בספר עץ חיים שער עיגולים ויושר ענף ב' והנה אחר הצמצום אשר אז נשאר מקום החלל ואויר פנוי וריקני באמצעות האור שלאין סוף ממש, הנה כבר היה מקום לשיוכלו להיות שם הנאצלים והנבראים והיצורים והנעשים, ואז המשיך מן אור אין סוף קו אחד ישר מן האור העגול שלו מלמעלה למטה ומשתלשל ויורד תוך החלל ההוא, וראש העליון שלהקו נמשך מן הא"ס עצמו ונוגע בו, אמנם סיום הקו ההוא למטה בסופו אינו נוגע באור האין סוף למטה, ובמקום החלל ההוא האציל וברא ויצר ועשה כל העולמות כולם, וקו זה כעין צנור דק אחד אשר דרך בו מתפשט ונמשך מימי האור העליון של אין סוף אל כל העולמות אשר במקום האויר והחלל ההוא, ונבאר עתה ענין חקירת המקובלים לדעת איך יש ראש וסוף בספירות, אמנם בהיות הקו ההוא ראשו נוגע באור אין סוף מצד העליון, וסופו אינו נמשך למטה עד מקום אין סוף הסובב תחת העולמות ואינו דבוק בו, לכן אז יצדק בו ראש וסוף, כי אם היו דרך שני קצוות מקבלים שפע האין סוף היו שני הקצוות בחינת ראשים שווים זה לזה ולא היה אז בחינת מעלה ומטה, וכן אם היה האין סוף נמשך מכל צדי המקום החלל ההוא, לא היה לא מעלה ולא מטה לא פנים ולא אחור. לא מזרח ולא מערב לא צפון ולא דרום, אך בהיות אור האין סוף נמשך דרך קו אחד וצנור דק בלבד יצדק מעלה ומטה פנים ואחור מזרח ומערב (דבריו אלה לא בהשכל דבשלמא ראש וסוף שפיר אך פנים ואחור מזרח ומערב איך יצדק?) והנה בהיות אור האין סוף נמשך בבחינת קו ישר תוך החלל, לא נמשך ונתפשט למטה תיכף, אלא היה מתפשט לאט לאט. רצוני לומר כי בתחלה התחיל קו האור להתפשט שם, ותכף בתחלת התפשטותו בסוד קו נתפשט ונמשך ונעשה כעין גלגל עגול מסביב. והעגול הזה היה בלתי דבוק אל האין סוף הסובב עליו מכל צדדיו, שאם יתדבק בו יחזור הדבר לכמות שהיה, ויתבטל באור אין סוף ולא יתראה כחו כלל, ויהיה הכל אור אין סוף לבד כבראשונה, (מדבריו אלה יש להקשות על דבריו שיזכיר להלן כי דרך הקו הזה יורד אור פנימי שהוא נשמת הספירות ואור מקיף שהוא מלבוש לספירות. למה אינו מתערב ומתדבק בגוף הספירות ויחזור עצם הספירות עם מלבושן ונשמתן כולם גולם אחד ויתבטל הכלי ויתערב באור פנימי ואור חיצון?)
Os dez "círculos" de Adam Kadmon

“Por isso, esta 'roda' está próxima ao Ein Sof, e não aderente a ele; e todo o cerne da ligação daquele emanado com o Ein Sof, o emanador, se dá por meio daquela linha, através da qual desce a luz do Ein Sof, que a influencia naquele círculo; e o Ein Sof circunda-o de todos os lados, a uma distância igual de todos os lados — pois também ele está na espécie de um círculo em volta dele. Pois é forçoso que a iluminação do Ein Sof nos emanados se dê por meio daquela linha apenas; pois, se aquela luz se estendesse a eles de todos os arredores, os emanados seriam da espécie do emanador mesmo, sem limite; e, não só isto, mas até aquela linha é muito fina — para que aquela luz, estendida aos emanados, seja em medida e quantidade; pela qual razão os emanados se chamam ''dez middot'' e ''dez sefirot'', por terem medida, quantidade e número determinado. E eis que este primeiro círculo, o mais aderente ao Ein Sof, é o chamado Keter de Adam Kadmon; e depois esta linha se estendeu um pouco, e voltou a se arredondar, e tornou-se um segundo círculo dentro do primeiro — e este se chama o círculo de Chochmá de Adam Kadmon; estendeu-se ainda mais para baixo, e tornou-se um terceiro círculo — e se chama o círculo de Biná de Adam Kadmon; e por este modo foi indo e se arredondando, até o décimo círculo, chamado o círculo de Malchut de Adam Kadmon” etc. Ora, está explicado e simples que vários tipos de mundos foram emanados, criados, formados e feitos — mil milhares e miríade de miríades —, e todos, como um, dentro do mencionado lugar de vácuo, e nada há fora dele. E cada mundo tem nele dez sefirot particulares; e cada sefira, de cada mundo, está incluída de dez sefirot de particular-particulares.

לכן העגול הזה סמוך אל האין סוף ובלתי מתדבק בו. וכל עיקר התקשרות ודביקות הנאצל ההוא עם אין סוף המאציל הוא ע"י הקו ההוא אשר דרך בו יורד ונמשך אור מן האין סוף המשפיע בעיגול ההוא. והאין סוף סובב ומקיף עליו מכל צדדיו ורחוק ממנו בהשואה אחת מכל צדדיו. כי גם הוא בבחינת עיגול סביב עליו. כי הוא מוכרח שהארת א"ס בנאצלים תהיה דרך הקו ההוא לבד. כי אם היה האור ההוא נמשך להם גם מכל סביבותיהם היו הנאצלים בבחינת המאציל עצמו בלתי גבול וקצבה, ולא עוד אלא אפילו הקו ההוא הוא דק מאד ולא עבה כדי שיהיה האור ההוא הנמשך אל הנאצלים במדה וקצבה אשר לסבה זאת נקראים הנאצלים עשר מדות ועשר ספירות לפי שיש להם מדה וקצבה ומספר קצוב. והנה העיגול הראשון הזה היותר דבוק עם האין סוף הוא הנקרא כתר דאדם קדמון. ואחר כך נתפשט הקו הזה ונמשך מעט וחזר להתעגל ונעשה עיגול שני תוך עיגול ראשון. וזה נקרא עיגול החכמה דאדם קדמון, עוד נתפשט יותר למטה וחזר להתעגל ונעשה עיגול שלישי תוך עיגול שני הזה ונקרא עיגול בינה דאדם קדמון, ועל דרך זה היה הולך ומתעגל עד עיגול העשירי הנקרא עיגול מלכות דאדם קדמון וכו'. אמנם מבואר ופשוט הוא שכמה מיני עולמות נאצלו ונבראו ונוצרו ונעשו אלף אלפים ורבוא רבבות, וכולם כאחד תוך המקום החלל הנז"ל ואין דבר חוצה לו. וכל עולם ועולם יש בו עשר ספירות פרטיות. וכל ספירה וספירה שבכל עולם ועולם כלולה מעשר ספירות פרטי פרטות.
Nota — "contração" e "linha" não são espaço. O capítulo cita, em detalhe, a cosmologia luriânica: o tzimtzum (D'us "contrai-Se" para abrir um "vácuo"), o kav (a "linha" de luz que desce ao vácuo) e os iggulim (os dez "círculos" concêntricos). Qafih lê tudo literalmente — e então pergunta, com razão: como cabe "cima e baixo, leste e oeste" n'Aquele que não tem corpo nem lugar? Mas a própria Cabala adverte que esta linguagem é simbólica: D'us não "encolheu" fisicamente (uma corrente influente lê o tzimtzum como figurado — um ocultamento, não uma retração espacial), e "círculo" e "linha" descrevem relações de causa e medida, não geometria. A crítica de Qafih atinge a leitura literal; a tradição responde que nunca foi literal.
A "figura ereta": tzelem Elokim

“E agora explicaremos uma segunda espécie que há nas dez sefirot: é a espécie do yosher retidão, na forma do Adam superno. Eis que, por meio da linha mencionada acima — da qual se estendem os círculos —, também aquela linha se estende em yosher, de cima para baixo, do alto do telhado do círculo superior até embaixo, ao fundo do término de todos os círculos, incluída de dez sefirot, no segredo da imagem de um homem reto, de estatura ereta, incluído de 248 membros etc. E eis que esta segunda espécie se chama tzelem Elokim, e a ela aludiu a Escritura, ao dizer 'e criou Elokim o homem à sua imagem, na imagem de Elokim o criou'; e que quase a maioria das palavras do Zohar e dos Tikkunim se ocupam desta segunda espécie, que é a espécie do yosher”. E nos ramos 3 e 4 ele repetiu ainda — a saber, que as dez sefirot do mundo de Atzilut não são as primeiras e as mais altas de tudo o que foi emanado, pois vários mundos de ABYA as precederam; e, pela sua grande ocultação, não estenderam a mão para mencioná-los no Zohar e nos Tikkunim, senão por alusão admirável. E ali ele explicou ainda até onde chegam os 'pés' de Adam Kadmon do yosher, e até onde chegam os 'pés' de Atik Yomin, e os 'pés' de Arich Anpin, e de Abba e Imma, e da sua Nukva; e que Abba e Imma são 'curtos de estatura', e a medida da sua estatura é apenas do 'pescoço' de Arich Anpin até o 'umbigo' de Arich Anpin. E coisas como estas estão explicadas também no Sha'ar haHakdamot, e no livro Kisé Eliyahu, e no Mikdash Melech (parashá de Bereshit) — vê ali.

ועתה נבאר בחינה שנית שיש בעשר ספירות, היא בחינת היושר בצורת אדם העליון. הנה דרך הקו הנז' לעיל המתפשט מלמעלה למטה אשר ממנו מתפשטים העיגולים, גם הקו ההוא מתפשט ביושר ממעלה למטה מראש גג העליון שלעיגול העליון עד למטה מתחתית סיום כל העיגולים ממש מלמעלה למטה כלול מעשר ספירות בסוד צלם אדם ישר בעל קומה זקופה כלול מרמ"ח איברים וכו'. והנה בחינה זו השנית נקראת צלם אלהים ועליה רמז הכתוב באמרו ויברא אלהים את האדם בצלמו בצלם אלהים ברא אותו וכו' ושכמעט רוב דברי הזהר והתיקונים מתעסקים בבחינה הזאת השנית שהיא בחינת היושר עכ"ל. ובענף ג'וד' כפל עוד הדברים שאין העשר ספירות דעולם האצילות הם ראשונים וגבוהים מכל מה שנאצלו. כי כמה עולמות אבי"ע קדמו להם. ולרוב העלמם לא שלחו בהם יד להזכירם בזהר ובתיקונים אלא ברמז נפלא. ושם ביאר עוד עד היכן מגיעים רגלי אדם קדמון דיושר. ועד היכן מגיעים רגלי עתיק יומין, ורגלי אריך אנפין, ורגלי אבא ואימא, ורגלי נוקבא דיליה. ושאבא ואימא קצרי קומה, ואין שיעור קומתם רק מהגרון דאריך אנפין עד הטבור שלאריך אנפין, וכדברים האלה מבואר ג"כ בשער ההקדמות ובספר כסא אליהו ומקדש מלך פרשת בראשית עיין שם ושם.
"As sefirot são plena divindade"

(39) Eis que, de tudo isto, está bem explicado que o corpo das sefirot foi estendido e emanado, por meio da linha fina, da essência do Ein Sof — tanto os círculos quanto o yosher. E resulta, segundo isto, que o corpo das sefirot, com a sua luz interior — que é a 'alma' das sefirot — e com a luz circundante — que é o seu 'manto' —, tudo se estende de uma só essência do Ein Sof. E já veio esta coisa explícita, expressamente, no Shoshan Sodot (na ordem da oração, e também na ordem dos sete dias de Pessach), eis as suas palavras: “sabe para ti que as dez sefirot não são coisa criada, mas um assunto que se estende da essência do Criador, bendito, e não estão separadas d'Ele, e Ele está sempre presente nelas, como 'aquele gafanhoto, cujo manto é dele mesmo'” etc. E assim escreveu na glosa, em nome do Ramaz (parashá de Behar, p.109), que os vasos da Atzilut têm uma espécie de divindade. E assim escreveu o R. autor do Mishnat Chasidim (no fim do tratado de Asiyá): “e a Atzilut, em tudo — tanto na espécie de 'luzes' quanto na espécie de 'vasos', e até os seus 'mantos' — são todos divindade completa” (e assim escreveu o R. autor do Oz le-Elohim... que o corpo e a alma 'um são'; e assim o autor do Heichal haBerachá, parashá de Vayikrá...); “mas Beriá, Yetzirá, Asiyá — do seu 'espírito' para baixo, e até o 'espírito' inclusive — não são divindade completa”. E assim se explica da linguagem do Zohar que trouxe acima (seção 21), que ele chama a cada um dos partzufim 'causa das causas', por ser cada um causa às causas que estão abaixo dele; mas Adam Kadmon se chama 'causa de todas as causas', por ser a causa primeira de todos os partzufim, como acima.

לט) הנה מכל זה מבואר באר היטב, כי גוף הספירות נמשכו ונשתלשלו דרך הקו הדק מעצמות האיו סוף, גם העגולים גם היושר, ונמצא לפי זה כי גוף הספירות עם האור הפנימי שלהן שהוא נשמתן של ספירות עם האור המקיף שהוא מלבושן הכל מעצם אחד מן האין סוף מתפשט ונמשך, וכבר בא דבר זה מפורש בהדיא בשושן סודות בסדר התפלה וגם בסדר שבעת ימי הפסח וז"ל דע לך כי עשר ספירות אינם דבר נברא אלא ענין מתפשט מעצם הבורא ית' ואינם נבדלים ממנו והוא תמיד נמצא בהם כהדין קמצא דלבושיה מניה וכו' ע"כ, וכ"כ בגליון הזה בשם הרמ"ז פר' בהר דף ק"ט שכלי האצילות יש להם בחינת אלהות, וכ"כ הר' משנת חסידים בסוף מסכת העשייה וז"ל והאצילות כולו בין בבחינת אורות בין בבחינת כלים ואפי' לבושיו הם כולם אלהות גמור (וכן כתב הר' עוז לאלהים בבית קדש הקדשים שהגוף והנשמה חד אינון וכן כתב בעל היכל הברכה פרשת ויקרא באוצר החיים דך ז' עמוד ד') אבל בריאה יצירה עשייה מהרוח שלהם ולמטה וגם הרוח בכלל אינם אלהות גמור עכ"ל משנת חסידים. וכן מתבאר מלשון הזהר שהבאתי לעיל סי' כ"א שהוא קורא לכל א' מן הפרצופים עלת העלות לפי שהוא עילה לעילות שתחתיו אבל אדם קדמון נקרא עילת כל העילות לפי שהוא עילה ראשונה לכל הפרצופים כלם כדלעיל.
Nota — "plena divindade": a tensão na acusação. Aqui aflora uma tensão no próprio argumento de Qafih. Ele cita o Shoshan Sodot e o Mishnat Chasidim dizendo que as sefirot "não são criatura, mas algo que se estende da essência do Criador... plena divindade". Ora, isso corta contra a sua acusação principal: se as sefirot são a própria essência de D'us (e não criaturas), então servir "através" delas é servir D'us — não idolatria de um ser criado. Qafih oscila, então, entre duas acusações distintas: ora "adoram um Ze'ir criado" (idolatria de criatura), ora "fazem das sefirot partes de D'us" (multiplicidade na essência). A posição cabalística coerente fica no meio: as sefirot são a autorrevelação do Único — nem deuses separados, nem uma divisão real da Sua essência indivisível.
"Do ídolo perto, aprende o distante"

E daqui vem uma resposta às tuas palavras — tu que negaste, e disseste "D'us nos livre que os cabalistas tenham dito assim": ao contrário, disseram que não se deve crer nem elevar ao coração que as sefirot sejam parte do Ein Sof, bendito, que tenha saído e se encadeado de causa em efeito etc. — de modo que estas tuas palavras contradizem as palavras do Zohar, e do Maharchu, e do Shoshan Sodot, e do Ramaz, e do Mishnat Chasidim, que explicaram a qualidade do seu encadear-se da essência do Ein Sof, e que são divindade completa; e eis que tu mesmo admites que as suas palavras, ao terem dito assim, são um pecado criminoso! E já trouxe acima as palavras do Zohar, que chama a Abba e Imma "H' Tzevaot", e ao Ze'ir Anpin "filho" de Abba e Imma; e ali disseram que todo o nosso culto e todas as nossas orações vão a este Ze'ir Anpin. E todos os cabalistas concordam assim — como escrevi acima, em nome do Mikdash Melech, do Rashash, do Yosher Levav, do Sefer haBrit, do Maharchu no Etz Chaim, do AR"I no Sefer haLikutim, do Kisé Eliyahu, do Matzref ha-Emuná e do Nachalat Yosef —: todos estão numa só linha, a saber, que todos os louvores e bênçãos vão ao Ze'ir Anpin especificamente, e não ao Ein Sof, nem aos demais partzufim acima do Ze'ir em Atzilut, nem aos partzufim abaixo dele nos mundos de Beriá, Yetzirá, Asiyá — ainda que tenham posto e dito que, em cada um dos três mundos, há nele todos os partzufim do mundo de Atzilut, e que "de um só barro foram amassados", pois da essência do Ein Sof se estenderam pela linha que sai dele e desce — só que estes não são divindade completa, a ponto de orar a eles e invocá-los em tempo de aflição. E sobre estas coisas, disseram os Sábios em Sanhedrin (61b): "'dos deuses dos povos que estão ao vosso redor, perto de ti ou longe de ti' — que importa perto, que importa longe? Antes: da índole dos pertos aprendes a índole dos longes". E explicou Rashi: "olha a idolatria perto de ti, e verás que não há nela substância; e dela aprendes a índole dos deuses longes".

ומכאן תשובה לדבריך שהכחשת ואמרת ח"ו שהמקובלים אמרו כן, אדרבה אמרו שאין להאמין ולהעלות על לב שהספירות הם חלק מהאין סוף ב"ה שיצא ונשתלשל מעילה לעלול וכו' שדבריך אלה סותרים דברי הזהר ומהרח"ו ושושן סודות והרמ"ז, ומשנת חסידים שביארו איכות השתלשלותם מעצם האין סוף ושהם אלוהות גמור, והרי אתה מודה שדבריהם שאמרו כן הוא עוון פלילי. וכבר הבאתי לעיל דברי הזהר שקורא לאבא ואמא ה' צבאות, ולזעיר אנפין בן לאבא ואימא. ושם אמרו שכל עבודתנו וכל תפלותנו לזעיר אנפין זה שהוא בן לאבא ואימא. וכל המקובלים מסכימים כן. כמו שכתבתי לעיל בשם מקדש מלך והרש"ב ויושר לבב וספר הברית ומהרח"ו בעץ חיים והאר"י בס' הליקוטים וכסא אליהו ומצרף האמונה ונחלת יוסף. כולהו בשטה חדא קיימי שכל השבחים וכל הברכות הם לזעיר אנפין דוקא. ולא לאין סוף ולא לשאר פרצופים שלמעלה מזעיר בעולם האצילות ולא לפרצופים שלמטה ממנו בעולמות בריאה יצירה עשייה, אע"פ שהניחו ואמרו שבכל אחד מהשלשה עולמות הנז' יש בו כל הפרצופים שבעולם האצילות ומחומר אחד קורצו מעצם האין סוף נמשכו ונשתלשלו דרך הקו היוצא ממנו ויורד למטה כמו שנתבאר לעיל רק שאינם אלוהות גמור להתפלל אליהם ולקרוא להם בעת צרה כאשר יראה המעיין בדבריהם. ועל הדברים האלה והאמונות הנז' אמרו רז"ל בסנהדרין דך ס"א ע"ב מאלהי העמים אשר סביבותיכם הקרובים אליך או הרחוקים, מה לי קרובים ומה לי רחוקים? אלא הכי קאמר מטיבתן של קרובים אתה למד מה טיבן של רחוקים ע"כ. ופי' רש"י ז"ל לפיכך אני אומר לך, הסתכל בע"ז הקרובה לך ותראה שאין בהם ממש, ומהן אתה למד טיבן של רחוקים עכ"ל.
A pergunta sem resposta, e o "golem"

Mostraram-nos os Sábios um modo de examinar as imagens da idolatria — a saber, que, da índole dos pertos, saberemos a índole dos longes; e disto inferimos sobre todos os partzufim da Cabala nova, que diz que, em cada um dos quatro mundos, se acham os partzufim mencionados, e, com tudo isso, o culto vai apenas ao Ze'ir Anpin de Atzilut: pois, assim como os pertos a nós — nos mundos de Asiyá, Yetzirá e Beriá — não se devem adorar, já que não há neles substância, e não são divindade, assim também o Ze'ir Anpin de Atzilut, o longe, não há nele substância — e não há D'us além do nosso D'us. E, visto que esclarecemos que o consenso de todos os cabalistas novos é que todo o culto, os louvores e as bênçãos vão ao Ze'ir Anpin de Atzilut, eis que todas as tuas alegações contra nós, e todas as tuas negações, são palavras de vaidade e "aflição de espírito" — como quem diz, do homem, que é mulher, e da coluna de mármore, que é de ouro. E, nesta resposta que respondeste, fizeste-te a ti mesmo como um "golem", conforme o dito do Tana (no último cap. de Avot): "sete coisas há no sábio, e os seus contrários no golem"... e, dentre elas, "o sábio pergunta conforme a halachá e responde conforme o assunto, e o golem faz o contrário". E assim fizeste tu: pois o que te perguntou perguntou-te conforme a halachá — "a quem servimos, segundo a Cabala nova: a Atik, ou a Arich Anpin, ou a Abba e Imma?" —; e veio a tua resposta não conforme o assunto — "pois a tua tradição" etc. —, como se ele te houvesse perguntado sobre a tua tradição. E também multiplicaste palavras a trazer alusões e guematrias das palavras do Chavot Yair, que não entendeu as palavras do seu pai; e ele mencionou alusões que todo homem poderia fazer, sem nenhuma tradição — como fez R. Shmuel, que compôs o livro Koach Hashem, cheio de combinações, guematrias e alusões, feito numa só noite, do seu próprio juízo, sem tradição, apenas para mostrar a sua capacidade de fazê-las com facilidade. E, em verdade, alusões e combinações — tudo o que não toca à honra do Bendito Criador, no sentido de adorar outros deuses e menosprezar a excelência da Mishná, do Talmud e dos midrashim dos Sábios — passe; e, em especial, nisto tu te estendeste a assinalar as alusões que escreveu o autor da Menorat haMaor, cada uma no seu lugar; mas o que te foi pedido, não o respondeste — como a medida do "golem" que o Tana mencionou, que não sabe responder conforme o que lhe é pedido.

הראו לנו רז"ל דרך בחינת צלמי ע"ז שמטיבם של קרובים נדע מה טיבם של רחוקים ומזה נקיש ונדון על כל פרצופי הקבלה החדשה האומרת שבכל עולם מארבעה עולמות נמצאים הפרצופים הנזכרים, ועכ"ז אין העבודה אלא לזעיר אנפין דאצילות. שכשם שהקרובים אלינו בעולם העשייה והיצירה והבריאה אין לעבדם שאין בהם ממש ואינם אלהות, כן זעיר אנפין דאצילות הרחוק אין בו ממש, ואין אלוה מבלעדי אלהינו. ומאחר שביררנו שהסכמת כל המקובלים החדשים שכל העבודה והשבחים והברכות לזעיר אנפין שבאצילות הנה כל טענותיך שטענת עלינו וכל הכחשותיך כולם דברי הבל ורעות רוח כאומר על האיש שהוא אשה ועל העמוד של שיש שהוא של זהב וכו'. ובתשובה זו שהשבת עשית עצמך כגולם כמאמר התנא בפ' בתרא דאבות ז' דברים בחכם וחילופיהן בגולם, ומכללן החכם שואל כהלכה ומשיב כענין ובגולם בחילוף זה. וכן אתה עשית, כי השואל שאל אותך כהלכה את מי נעבוד על פי הקבלה החדשה את עתיק, או אריך אנפין, או אבא ואימא וכו'. ובאה תשובתך שלא כענין כי קבלתך וכו' כאילו שאל אותך על קבלתך. וגם הרבית דברים והארכת להביא רמזים וגימטריות מדברי חוות יאיר שלא הבין דברי אביו. והזכיר רמזים שיוכל כל אדם לעשות כמותן מבלי קבלה כמו שעשה ר' שמואל שחיבר ספר כח ה' שהוא מלא צירופים וגימטריות ורמזים בלילה אחת מדעתו מבלי קבלה, רק להראות כחו ויכלתו לעשות צירופים וגימטריות ורמזים בנקל ככתוב בספר א"נ. ובשלמא רמזים וצירופים כל שאינו נוגע בכבוד המב"ה לעבוד אלהים אחרים ולזלזל במעלת המשנה והתלמוד ומדרשי רז"ל המספרים שבחי תורתינו הקדושה דליכא מידי דלא רמיזה באוריתא. ובפרט זה הארכת לציין הרמזים שכ' בעל מנורת המאור למקומותם, ואת המבוקש ממך לא ענית, ולא עלה על דל שפתיך כמדת הגולם שהזכיר התנא ע"ה שאינו יודע להשיב כענין המבוקש ממנו.
Nota — "do ídolo perto, aprende o distante". Qafih aplica Sanhedrin 61b (examinar os ídolos "próximos" para conhecer os "distantes") aos quatro mundos: se os partzufim de Beriá/Yetzirá/Asiyá não se adoram, tampouco o Ze'ir de Atzilut. O argumento depende da sua premissa — que o Ze'ir é uma entidade entre outras. O cabalista nega a premissa: o Ze'ir de Atzilut não é um "ídolo distante", mas a face acessível do único D'us, e a oração que o atravessa sobe ao Ein Sof (caps. IX–X, XIV). O tom torna-se aqui pessoal — a comparação do interlocutor a um "golem" (Avot 5:7) é retórica de polêmica; lemo-la como tal, sem a fazer nossa.
Pior que a crença dos gentios?

(40) E os cabalistas novos, que retrataram o Ein Sof circundante (após o tzimtzum) como uma bola redonda e oca no seu meio, e dentro dela círculos aos milhares e miríades, estendidos da Sua essência, bendito; e também partzufim de yosher, sem fim ao seu número, que se estenderam da Sua essência, pela linha que se estende d'Ele — desde Adam Kadma'a, que está acima do mundo de Atzilut, até o fim dos partzufim de toda a ABYA —: sobre eles disse o nosso mestre e rabino, o Rambam (I:50): "perto estás na boca deles, e longe dos seus rins" (cf. Yirmiyahu 12:2). Pois, com a boca, dizem que Ele é um; e com todo o seu coração, e toda a sua alma, e os seus pensamentos — creem que Ele se divide em vários partzufim e graus, um acima do outro, e que precisam tomar licença um do outro, como se explicou acima. E quase que esta crença é pior do que a crença dos idólatras — como escreveu o Rivash, em nome de um dos filósofos: pois os cristãos dizem que são três e os três são um, e os cabalistas dizem que são cinco no mundo de Atzilut, e os cinco se dividem em doze, e tudo é um. E lembro que, no livro Beit Yehudá, escreveu que as coisas mencionadas no Rivash, em nome de um dos filósofos, são palavra sua própria — só que as pendurou num dos filósofos, não fossem os que perseguem a honra atingi-lo e prejudicá-lo, e por isso pendurou a coisa em outros. E por isso ele concluiu que não se embrenha a estudar a Cabala nova, pois basta-lhe com a Cabala antiga, que é a Mishná e o Talmud.

מ) והמקובלים החדשים שציירו את האין סוף המקיף אחר הצמצום ככדור עגול וחלול באמצעו ובתוכו עיגולים לאלפים ורבבות הנמשכים מעצמותו יתברך, גם פרצופים דיושר אין קץ למספרם שנמשכו ונשתלשלו מעצמותו דרך הקו המתפשט ממנו מאדם קדמאה שהוא למעלה מעולם האצילות ועד סוף פרצופי כל האבי"ע, עליהם אמר מורנו ורבנו הרמב"ם ז"ל בפרק ג' מראשון: "קרוב אתה בפיהם ורחוק מכליותיהם" (ע"פ ירמיהו י"ב ב'). כי בפיהם אומרים שהוא אחד ובכל לבבם ובכל נפשם ומחשבותם - שהוא נחלק לכמה פרצופים ומדרגות זה למעלה מזה, וצריכים הם ליטול רשות זה מזה כמו שנתבאר לעיל. וכמעט שאמונה זו גרועה מאמונת העכו"ם וכמו שכתב הריב"ש בשם אחד מן המתפלספים. כי הנוצרים אומרים שהם שלושה והשלושה אחד, והמקובלים אומרים שהם חמישה בעולם האצילות והחמישה נחלקים לי"ב, והכל אחד. וזוכר אני בספר בית יהודה כתב שהדברים הנזכרים בריב"ש בם אחד מהמתפלספים מילתא דנפשיה היא, רק שתלה אותם באחד מן המתפלספים פן יפגעו בו הרודפים אחר הכבוד ויזיקוהו, לכן תלה הדבר באחרים. ולכך סיים שאינו תוקע עצמו ללמוד הקבלה החדשה, כי די לו בקבלה הישנה שהיא המשנה והתלמוד.
"Vários tipos de Ein Sof"

E os cabalistas novos compararam a Sua existência, bendito, e a Sua verdade, ao corpo do homem — que é composto de 248 membros e 365 tendões, e se chama por um só nome, "Reuven" —, ou a uma casa, composta de pedras, cal, madeiras e barro, e que tem nela vários cômodos, e se chama por um só nome, "casa". E não só isto, mas até na Causa Primeira — chamada junto a eles "Ein Sof" — fizeram multiplicidade, como escreveu o Maharchu no livro Arba Me'ot Shekel Kesef (p.72), eis as suas palavras: “convém que saibas que eis que toda a existência inteira é o Ein Sof, ao qual chamamos "Atika de-chol Atikin" o Ancião de todos os anciãos — assim dito a fim de que se nos revele alguma iluminação d'Ele —, e Ele está oculto e escondido em Keter. E convém que saibas que há ainda um Ein Sof que está mais e mais alto, pois nenhum pensamento o apreende, e Ele é 'profundo, quem o achará'; e por isso achas no Zohar vários tipos de Ein Sof, em vários lugares, tais que quase se arrisca o homem na sua alma — pois quem não tem premissas não pode navegar no 'grande mar'. E por isso, sobre este Ein Sof inferior, ensinaram no Zohar na Idra de-Nasa; e então, estando ali, no segredo de 'três cabeças', então se chama 'Atika de-chol Atikin'... resulta que o cerne de Atika Kadisha é o Ein Sof; porém, por causa do seu revestir-se em 'três cabeças', as três cabeças se chamam Atika Kadisha”. Explica-se expressamente das suas palavras que o primeiro Ein Sof, que é profundíssimo e circunda todos os mundos, não se deve dirigir a oração a ele, de modo algum — pois ele é profundíssimo e muito distante, e "nenhum pensamento o apreende", de modo nenhum. E todas as nossas orações vão ao Ze'ir Anpin, para fazer fluir a abundância

והמקובלים החדשים המשילו מציאותו יתברך ואמתתו לגוף האדם שהוא מורכב מרמ"ח אברים ושס"ה גידים והוא נקרא בשם אחד ראובן, או לבית המחובר מאבנים וסיד ועצים וטיט ויש בו כמה חדרים, והוא הנקרא בשם אחד בית. ולא זו בלבד אלא גם בסיבה הראשונה הנקרא אצלם אין סוף עשו בו ריבוי כמ"ש מהרח"ו בספר ארבע מאות שקל כסף דף ע"ב וז"ל: "ראוי שתדע כי הלא כל המציאות כולו האין סוף אשר אנו קורין אותו עתיקא דכל עתיקין האמור כדי שיתגלה לנו קצת הארה ממנו, והוא גנוז וטמיר בכתר כנודע דאין סוף גנוז בכתר. וראוי שתדע כי יש עדיין אין סוף אשר הוא לעילא לעילא, כי אין שום מחשבה תפיס ביה והוא עמוק מי ימצאנו, ולכן תמצא בזהר כמה מיני אין סוף בכמה דוכתי אשר כמעט יסתכן האדם בנפשו, יען מי שאין לו הקדמות אינו יכול לשוט בימא רבה. ולכן על זה האין סוף למטה למדו בזהר אדרת נשא. ואז בהיותו שם בסוד תלת רישין אז הוא נקרא עתיקא דכל עתיקין, וז"ס מה שאמרו האי עתיקא קדישא אשתכח בתלת רישין. נמצא כי עיקר עתיקא קדישא הוא האין סוף, אמנם ע"ש התלבשותו בתלת רישין נקראים התלת רישין עתיקא קדישא", עכ"ל. מתבאר בהדיא מדבריו כי הא"ס הראשון שהוא עמוק עמוק ומקיף את כל העולמות אין לכוון תפילתו אליו כלל, כי הוא עמוק עמוק ורחוק מאד ולית מחשבה תפיסא ביה כלל וכלל. וכל תפילותנו אל הזעיר אנפין להמשיך השפע
"Lembrai-vos da Torá de Moshé"

de Abba e Imma, e do Ein Sof oculto em Keter apenas, para que se nos revele a Sua iluminação. Mas o Ein Sof antigo, o elevado — nenhum pensamento o apreende, de modo algum. E quem não souber isto virá a dirigir as suas orações a ele, e se arriscará na sua alma, pois a sua oração não será aceita; e, ao contrário, será punido, como foi escrito acima, em nome do livro Kisé Eliyahu. E estas coisas são o contrário das tuas palavras, que escreveste em nome do Lechem Shlomo. E o livro Lechem Shlomo não está disponível junto a nós para examiná-lo; e é possível que tu nos enganes, e nos escrevas, em seu nome, o contrário da sua intenção — como fizeste com a intenção do Kisé Eliyahu. Pois o que está consensual junto aos cabalistas novos é que o Ein Sof, que é a Causa Primeira, nenhuma oração nem bênção lhe é aplicável, segundo eles, de modo algum, pois ele é profundo e muito distante; e que apenas todas as nossas orações vão a fazer fluir do Ein Sof oculto em Keter, a fim de que se nos revele a Sua iluminação. E por que então não dirigiríamos, nas nossas orações, ao Ein Sof antigo, que circunda toda a existência? E por que Ele se iraria contra nós, no tempo em que O chamamos? E também, por que Ele não fez saber tudo isto, por meio do fiel da Sua casa, Moshé, homem de D'us — nem na Torá escrita, nem na Torá oral, que é a Mishná e o Talmud, recebida de boca a boca? E, assim, por que todos os profetas que se levantaram para Israel, dos dias de Moshé até o último deles — Malachi, que nos adverte (Malachi 3:22): "lembrai-vos da Torá de Moshé, meu servo, que lhe ordenei em Chorev, sobre todo Israel — estatutos e juízos" — e não "combinações" e "tikkunim de mundos" —, por que não nos fizeram saber tudo isto? E por que todas as gerações que se passaram andaram desencaminhadas (segundo as suas palavras), a orar (D'us nos livre) a "um deus que não salva"? Cabia-lhes fazer saber a Israel que não é ao supremo, temível "D'us Altíssimo" que se deve orar, pois Ele não é apreensível, mas apenas ao "curto de paciência" (o Ze'ir Anpin), que já "engrossou" e se tornou apreensível ao sentido. E eis que, agora, se dobrou a nossa dificuldade e se reforçou: pois há vários tipos de Ein Sof, e há vários partzufim, tais que cada um faz uma ação — e isto é a crença em muitas potências nos céus. E já trouxe acima as palavras do Kisé Eliyahu, para fazer-te saber o teu erro, tu que pensaste assentar as suas palavras. E todas as tuas palavras são vaidade e vazio — o vento as carrega. E é claro que a sua opinião é que se precisa orar ao Ze'ir Anpin em associação com os demais partzufim que estão acima dele.

מאבא ואמא ומאין סוף הגנוז בכתר בלבד יתגלה לנו הארתו. אבל אין סוף הקדום הנעלה לית מחשבה תפיסה ביה כלל. ומי שלא ידע זה יבוא לכוון תפילותיו אליו, ויסתכן בנפשו שלא תקובל תפילתו. ואדרבה ענוש ייענש כמ"ש לעיל בשם ספר כסא אליהו. ודברים אלה היפך דבריך שכתבת בשם לחם שלמה. ואין ספר לחם שלמה מצוי אצלנו לעיין בו ואפשר שאתה מטעה אותנו וכותב לנו בשמו היפך כוונתו כמו שעשית בכוונת כסא אליהו ואינו כן. כי המוסכם על בעלי הקבלה החדשה שהאין סוף שהוא הסיבה הראשונה אין שום תפילה וברכה שייכא ביה לדעתם כלל כי הוא עמוק ורחוק מאד. ורק כל תפילותנו להמשיך מאין סוף הגנוז בכתר בלבד כדי שיתגלה לנו הארתו. ולמה זה לא נכוון בתפילותנו אל האין סוף הקדום המקיף את כל המציאות? ולמה יקצוף עלינו בעת אשר נקרא אליו? וגם למה לא הודיע כל זאת ע"י נאמן ביתו משה איש האלהים, לא בתושב"כ ולא בתושבע"פ שהיא המשנה והתלמוד המקובל מפה אל פה? וכן כל הנביאים שעמדו להם לישראל מימות משה ועד האחרון שבהם - מלאכי - המזהיר אותנו (מלאכי ג' כ"ב): "זכרו תורת משה עבדי אשר צויתי אותו בחורב על כל ישראל חוקים ומשפטים" - ולא צירופים ותיקון עולמות. ולמה לא הודיעונו כ"ז? וילכו כל הדורות שעברו שולל (לפי דבריהם) להתפלל ח"ו אל אל לא יושיע? היה להם להודיע לישראל כי לא אל אל עליון נורא יתפללו כי אינו מושג. ורק אל קצר האפים (הזעיר אנפין) שכבר נתעבה והושג בחוש יתפללו. והן עתה נכפלה קושיתנו וחזקה. כי הרבה מיני אין סוף הם והרבה פרצופים יש שכ"א עושה פעולה, וזה הוא אמונת הרבה רשויות בשמים, וכבא הבאתי לעיל דברי כסא אליהו להודיע לך טעותך שחשבת לישב דבריו. וכל דבריך הבל וריק ישאם רוח. וברור הוא שדעתו שצריך שיתפלל לזעיר אנפין בשיתוף שאר הפרצופים שלמעלה ממנו.
Nota — "lembrai-vos da Torá de Moshé". Esta é, talvez, a objeção mais forte de Qafih, e a mais simples: se todo este sistema — o tzimtzum, os mundos, os partzufim, e a regra de orar ao Ze'ir e não ao Ein Sof "inatingível" — fosse verdadeiro e necessário para a salvação, por que está ausente da Torá escrita e do Talmud? Por que Malachi, o último profeta, sela o Tanach com "lembrai-vos da Torá de Moshé... estatutos e juízos" — e não "combinações e tikkunim"? E teriam, então, todas as gerações orado "a um deus que não salva"? A resposta da tradição cabalística é a sua premissa de sempre: o sistema está na Torá — como a sua alma oculta (sod), transmitida de mestre a discípulo desde o Sinai, não publicada por ser esoterismo. Qafih nega exatamente essa premissa (cap. XII); nela, e só nela, repousa toda a controvérsia.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A cosmologia luriânica

O capítulo cita, em detalhe, o Etz Chaim: o tzimtzum, o kav ("linha") e os iggulim ve-yosher (os "círculos" e a "figura ereta" de 248 membros). Qafih lê tudo ao pé da letra e objeta: cima, baixo, leste e oeste não cabem n'Aquele que não tem corpo nem lugar. A tradição responde que essa linguagem sempre foi símbolo — relações de causa e medida, não geometria.

A tensão das sefirot

As próprias fontes que ele cita dizem que as sefirot são "plena divindade" — a essência de D'us, não criaturas. Isso, porém, corta contra a acusação de "culto a um criado": se as sefirot são D'us, servir através delas é servir D'us. Qafih oscila entre "adoram um Ze'ir criado" e "dividem a essência de D'us"; o cabalista sustenta o meio coerente — autorrevelação do Único, sem deuses separados nem divisão real.

"Perto na boca, longe no coração"

Aplicando o Moré I:50 e a regra de Sanhedrin 61b ("do ídolo perto, conhece o distante"), Qafih conclui que dizer "um" com a boca enquanto se pensa uma hierarquia de potências é fé só de lábios — e cita o Rivash, para quem isto seria "quase pior" que a crença dos gentios.

A objeção decisiva

O capítulo culmina na pergunta mais simples e mais forte: se este sistema fosse necessário para a salvação, por que falta na Torá de Moshé, no Talmud e nos profetas? Por que Malachi sela o Tanach com "lembrai-vos da Torá de Moshé… estatutos e juízos", e não "combinações e tikkunim"? A resposta da Cabala é a sua premissa de sempre — o sod está na Torá, oculto e transmitido aos dignos. Qafih nega essa premissa; e nela, só nela, repousa toda a controvérsia.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XVIII

Voltamos à Mishná: a defesa do Dor Deah

אַל תִּטֹּשׁ תּוֹרַת אִמֶּךָ
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih volta-se ao interlocutor com um repto — "a qual Ein Sof tu oras? de quem recebeste esta tradição?" — e, depois, faz algo raro nesta obra: conta, em primeira pessoa, como o seu círculo (o Dor Deah) devolveu a Sana'a o estudo da Mishná, do Talmud e do Rambam, contra o costume de então, de ler o Zohar à noite "sem entender".

"A qual Ein Sof tu oras?"

(41) E quanto ao teu engrandecer-te e glorificar-te a ti mesmo, e ao teu exaltares-te contra o "Senhor dos céus", a pretexto de expor, perante a multidão, que conheces o "assentar-se e o erguer-se" do Rei dos reis dos reis, o Santo bendito — e a tomar para ti o Nome, e a dizer "mas a nossa tradição" etc. —: eis que não nos informaste a qual Ein Sof tu oras (pois há vários tipos de Ein Sof), e tampouco esclareceste de quem recebeste esta tradição. E, de início, não foi sobre a tua tradição que o questionador te perguntou; e por que haverias de responder não conforme o assunto — ao contrário das palavras do Zohar e dos cabalistas? — como está dito explicitamente no Kisé Eliyahu (p.15b): “porém, o assunto da bênção a Ele, bendito seja o Seu Nome — não é a intenção dirigi-la à essência do 'Senhor único', bendito, D'us nos livre, pois Ele está elevado acima de toda bênção”. E assim escreveu o Sefer haBrit (no segundo ensaio): que o Ein Sof, na sua condição simples — aquela de que falaram os filósofos —, tal que não se lhe aplica culto nem oração, pois, nesta condição, Ele está elevado e exaltado acima de toda bênção e louvor, e nele se anula todo mandamento, toda Torá e todo culto — vê ali. E, visto que esta tua "tradição" que mencionaste é o contrário das palavras do Zohar e dos cabalistas — Mikdash Melech, Kisé Eliyahu, Matzref ha-Emuná, Yosher Levav, Mishnat Chasidim, o Rashash, Maharchu no Etz Chaim, Sefer haKavanot, Machberet haKodesh, Sefer haBrit e o AR"I no Sefer haLikutim —, se assim, "tolo e néscio" é que te chamarão! Sobre que motivo guerreias tu contra os que estudam a Torá, com mexerico, delação e língua maligna? E por que os desprezas? Será por não tartamudearem e pipilarem no livro do Zohar como tu — mas apenas se apegarem à Mishná, ao Talmud e aos posekim? Pois sobre isto é que se separaram de estudar nos livros da Cabala nova — já que ela só chegou a nós "da mão de filhos estrangeiros", como está explicado no Shem haGedolim do Chid"a, e na glosa vinda de Jerusalém em nome do Rav mencionado e em nome do Rav YShR, como se explicará adiante. E, na opinião de muitos e grandes dos nossos sábios,

מא) ועל התגדלך והתפארך בעצמך, והתרוממת על מרי שמיא לדרוש בהמון כי ידעתו שבתו וקומו של ממ"ה הקב"ה וליטול את השם ולאמר אבל קבלתנו וכו', הנה לא הודעתנו אל איזה א"ס אתה מתפלל, כי כמה מיני א"ס יש, וגם לא בארת ממי קבלת קבלה זו. ומעיקרא לא על קבלתך שאלך השואל, ולמה לך להשיב שלא כענין, היפך דברי הזהר והמקובלים כמ"ש לעיל, וכמ"ש בהדיא בכסא אליהו דף ט"ו ע"ב וז"ל: "אמנם ענין הברכה לו ית"ש אין הכוונה לעצמות אדון יחיד ב"ה חלילה חלילה, כי הוא מרומם מעל כל ברכה" ע"כ, וכ"כ ספר הברית במאמר שני כי הא"ס בבחינתו הפשוטה אשר דיברו הפילוסופים (הכופרים) שלא שייך בו שום עבודה ותפילה, על כי הוא בבחינה זאת נעלה ומרומם מכל ברכה ותהילה, ובטלה כל מצוה וכל תורה ועבודה, עי"ש ועוד יתבאר לפנינו. וכיון שקבלתך זו שהזכרת היא היפך דברי הזהר והמקובלים מקדש מלך וכסא אליהו ומצרף האמונה ויושר לבב ומשנת חסידים והרש"ב ומהרח"ו בעץ חיים וספר הכוונות ומחברת הקודש וספר הברית והאר"י בספר הליקוטים, א"כ הוי שוטה וסכל יקראו לך! על מה אתה נלחם בלומדי תורה ברכילות ומלשינות ולה"ר? ועל מה אתה מבזה אותם? העל שאינם מהגים ומצפצפים בספר הזהר כמוך? רק מחזיקים במשנה ותלמוד ופוסקים? הן על זה פירשו מללמוד בספרי הקבלה החדשה כי רק מיד בני נכר הגיעה אלינו כמבואר בספר שם הגדולים להר"ר חיד"א. ובגיליון הבא מירושלים בשם הרב הנזכר ובשם הרב יש"ר וכמו שיתבאר להלן. ולדעת רבים וגדולים מחכמינו
"Sábio sem sabedoria"

isto é minut heresia. E por isso fixamos todo o nosso estudo na Mishná, no Talmud e nos posekim — conforme a instrução de Rav Hai Gaon (trazida na responsa do Rashb"a e no Mevo haTalmud), de que não há coisa boa para Israel como o trato da Mishná e do Talmud —; isto é para nós há mais de trinta anos. E, com a soberba do vosso coração, fizestes ouvir, em grande assembleia, que nós somos minim e hereges — por não estudarmos no Zohar e nos Tikkunim. Eis que agora se esclareceu para nós, das vossas respostas, que não sabeis dos livros de Israel coisa alguma — nem dos midrashim dos Sábios, nem do Talmud, nem da própria Cabala nova! — conforme o dito de R. Yehudá ibn Tibbon, na abertura do segundo portão do livro Chovot haLevavot, em nome do Mivchar haPeninim: “quem se faz sábio sem sabedoria é como o jumento do moinho — gira e gira, e não se move do seu lugar”. E ali ainda: “não digas, sobre o que não sabes, ''eu sei'' — não vás a ser suspeito também no que sabes; e disseram os sábios: quem é néscio e pensa que sabe — a sua necedade é dobrada”. Ó pastores maus, que desviam o povo com as suas mentiras, e se têm por sábios aos seus próprios olhos! Sábios sois para fazer o mal, e para profanar o Senhor e a Sua Torá! E numa religião verdadeira, que não conhecestes, pretendeis negociar — fazendo dela um machado para cavar "cisternas rotas que não retêm as águas", conforme o dito do profeta (Michá 3:5): “assim disse o Senhor, sobre os profetas que desencaminham o meu povo, que mordem com os seus dentes e proclamam 'paz', mas, contra quem não lhes põe algo na boca, declaram guerra”. E, da tua resposta, se reconhece que não conheceste senão um só Ein Sof, que circunda toda a existência; e não soubeste que há vários tipos de Ein Sof nas palavras dos cabalistas, e que não se deve dirigir a intenção, ao orar ao Ze'ir Anpin, senão a fazer fluir do Ein Sof oculto em Keter apenas — mas o Ein Sof que está "mais e mais alto", nenhum pensamento o apreende, e não se deve dirigir a oração a ele, como se escreveu acima em nome do R. Chaim Vital (no livro Arba Me'ot Shekel Kesef) e do Sefer haBrit.

הוי מינות. ולכן קבענו כל לימודנו במשנה ותלמוד ופוסקים, כהוראת רב האי גאון המובא בתשובת הרשב"א ובמבוא התלמוד שאין טוב לישראל כעסק המשנה והתלמוד, זה לנו יותר משלושים שנה. ובזדון לבכם השמעתם בקהל רב כי אנחנו מינים וכופרים על שאין אנו לומדים בזהר ותיקונים. הן עתה נתברר לנו מתשובותיכם כי לא ידעתם מספרי ישראל מאומה, לא במדרשי רז"ל ולא בתלמוד ולא בקבלה החדשה. כמאמר ר' יהודה בן תיבון בפתיחה לשער השני מספר חובת הלבבות בשם מבחר הפנינים: "מי שמתחכם מבלי חכמה הוא כחמור הריחיים, סובב סובב ואינו זז ממקומו". עוד שם: "אל תאמר במה שלא ידעת - ידעתי, פן תחשד במה שידעת, ואמרו החכמים: מי שסכל וחשב שידע סכלותו כפולה", עכ"ל. הוי רועים רעים המטעים את העם בשקריהם, ומחשיבים עצמם לחכמים בעיניהם! חכמים אתם להרע ולחלל את השי"ת ואת תורתו! ובדת אמת אשר לא ידעתם אותה על בריה תסחרו, להיות לכם לקרדום לחפור בה בורות נשברים אשר לא יכילו המים, כמאמר הנביא (מיכה ג' ה'): "כה אמר ה' על הנביאים המתעים את עמי, הנשכים בשניהם וקראו שלום. ואשר לא יתן אל פיהם, וקדשו עליו מלחמה". ומתשובתך ניכר שלא ידעת רק אין סוף אחד המקיף את כל המציאות. ולא ידעת שיש כמה מיני אין סוף בדברי המקובלים, ושאין לכוון בהתפללו לזעיר אנפין רק להמשיך מאין סוף הגנוז בכתר בלבד. אבל האין סוף אשר הוא לעילא לעילא לית מחשבה תפיסה ביה כלל ואין לכוון תפילתו אליו, כמ"ש לעיל בשם הרח"ו בספר ארבע מאות שקל כסף וספר הברית.
Nota — "sábio sem sabedoria". O tom aqui é de polêmica pessoal, mas o ponto de fundo é sério: Qafih acusa o interlocutor de proclamar o que não domina — citando o Mivchar haPeninim (via ibn Tibbon): "quem se faz sábio sem sabedoria é como o jumento do moinho, que gira sem sair do lugar". Por baixo da invectiva está a sua convicção central — que a fé exige conhecimento real, examinado, e não a repetição de fórmulas. As caracterizações duras ("pastores maus", a aplicação de Michá 3:5) são retórica de combate; lemo-las como tais.
O critério, e o apelo ao co-religionista

(42) Desvia-te, ó leitor agradável, destas crenças imaginadas; e vê o que escreveu um dos pilares da instrução haláquica, sobre os quais se apoia a casa de Israel — a saber, Rabbenu, o Rosh, de abençoada memória, no cap. "haShochet" do tratado de Chulin (e as suas palavras foram trazidas no Mevo haTalmud): “e é razoável que toda Tossefta que não se divulgou senão depois da ordenação da Guemará não é fidedigna; pois, presumivelmente, já que os sábios de Israel quiseram fazer uma obra que subsistisse, com verdade, investigaram, esquadrinharam e revolveram para conhecer todos os livros que foram escritos sobre as palavras dos sábios, e selecionaram aqueles que são fidedignos”. E vê acima (seções 12 e 13): escreveu R. Saadia Gaon, cujas palavras concordam com as palavras do Rosh. E quanto ao que se anotou no Mevo haTalmud, na glosa, mandando ver no Rosh — a saber, que o Rambam não entenderia assim —, já assentou o R. Beit Yossef as palavras do Rambam (que decidiu conforme a Tossefta); e assim é a versão do texto no Rambam em manuscritos antigos. E resulta que também o Rambam assim entende. E, segundo isto, todos concordam que toda obra atribuída a algum Tana ou Amora, que só se divulgou depois da ordenação da Guemará, não é fidedigna — como disseram no Yerushalmi, que toda mishná que não entrou na "reunião" autorizada não é mishná. E, se assim é a tua crença — de que todas as nossas orações e cultos vão à Causa Primeira, que é o "Senhor D'us verdadeiro", a cujo princípio não há princípio, e que é Ele quem tirou os nossos pais do Egito, e cuja glória se revelou sobre eles no Monte Sinai, ao nos dar a Torá, e ao dizer "Eu sou o Senhor teu D'us ... não terás outros deuses diante de mim" —: se assim,

מב) נטה לך קורא נעים מהאמונות המדומות האלה. וראה מה שכ' אחד מעמודי הוראה אשר בית ישראל נשענים עליהם הוא רבי' הראש ז"ל במס' חולין פ' השוחט והובאו דבריו במבוא התלמוד וז"ל ומסתברא שכל תוספתא שלא נתפשטה עד אחר סידור הגמרא לאו דסמכא היא דמסתמא כיון שרצו חכמי ישראל לעשות חבור קיימא אמת. חקרו ודרשו וחיזרו לידע כל הספרים שנכתבו על דברי חכמים וביררו אותם שהם בר סמכא עכ"ל. ועיין לעיל סי' י"ב וי"ג כ' הר' סעדיה גאון שדבריו מסכימים לדברי הרא"ש. ומה שכ' המניה במבוא התלמוד בגיליון לעיין בהרא"ש דהרמב"ם לא ס"ל הכי כבר ישב הר' ב"י דברי הרמב"ם שפסק בהתוספתא ושגם מסדר הגמרא סבירא ליה כהתוספתא ושגירסת הרמב"ם בגמרא שהה כמיעוט סימנים וכבר הביאה אבי' לעיל שהה כדי שיגביה הבהמה וירביצנה וישחוט מיעוט הסימנים. וכן היא הגירסא בהרמב"ם כ"י ישנים. ונמצא שגם הרמב"ם הכי ס"ל, וכבר העיר על זה ג"כ המ"מ הנדפס מחדש. ולפי זה כולי עלמא מודו שכל חיבור המיוחס לשום תנא או אמורא שלא נתפשט רק אחר סידור הגמ' לאו דסמכא הוא. וכמו שאמרו בירושלמי שכל משנה שלא נכנסה לחבורה אינה משנה. כמו שכתבתי לעיל סי' י"ב. ואם כך היא אמונתך שכל תפלותינו ועבודותינו לסבה הראשונה שהוא ה' אלהים אמת אשר אין ראשית לראשיתו והוא שהוציא את אבותינו ממצרים וכבודו נגלה עליהם בהר סיני בתתו לנו את התורה ואמר אנכי ה' אלהיך, לא היה לך אלהים אחרים על פני וכו' א"כ
Nota — o apelo ao co-religionista. Depois do critério textual (o Rosh: obras que só se difundiram após o Talmud não têm peso de tradição firme), vem o apelo mais humano do capítulo: se tu crês — como dizes — na Causa Primeira que tirou Israel do Egito e deu a Torá no Sinai, por que então atacas os que estudam Mishná e Talmud dia e noite, chamando-os de hereges? A força está em apontar a contradição entre a fé que o interlocutor professa e a sua hostilidade contra o próprio campo racionalista. (A acusação de que o Zohar veio "da mão de um gentio" é a tese de autoria de Qafih — contestada; cf. cap. XII.)
"Não abandones a Torá da tua mãe"

por que desprezas os que são da tua própria fé, que se ocupam dia e noite na Mishná e no Talmud, e por que os chamas minim e apikorsim — e por que reforças as mãos de estranhos em prol da tua crença, que se sustenta "em filhos estrangeiros", a saber, o livro do Zohar, entregue a Israel da mão de um gentio, e atribuído ao Rashbi, o Tana, falsamente? E o bom e o aprazível para nós é apegarmo-nos à fé dos nossos antigos, na unidade do Senhor, sem "combinação" nem "associação" — para cumprir "e não abandones a Torá da tua mãe", "e não a desprezes, ainda que envelheça a tua mãe"; quero dizer, que não desprezes nem zombes da fé dos nossos antigos na unidade do Senhor, e não menosprezes os seus livros, ainda que se tenham gasto e envelhecido — não como fizeram nos tempos da Idade Média, quando os menosprezaram e os perderam, e fizeram deles "capas" para livros novos, impressos; e há quem os vendeu por preço muito baixo. E com os meus próprios olhos vi um dos filhos do nosso povo que trocou o livro Moré Nevuchim, em manuscrito, na língua árabe — que vale hoje para nós dois ou três zehuvim — por um livro de pequena quantidade e qualidade, impresso, que vale meio rial. E muitos da nossa gente venderam livros antigos, que herdaram dos seus pais, a "incircuncisos" que vieram à terra do Iêmen — como um certo Moshe ben Netanel, que se assentou na casa do meu mestre Avraham Tzalach: e este mesmo lhe vendeu, então, Nevi'im e Ketuvim com o Targum de Yonatan ben Uziel sobre os Nevi'im, e o Tafsir tradução árabe de R. Saadia Gaon sobre Yeshayahu e os Ketuvim, e também uma Mishná com o comentário do Rambam em árabe (Seder Kodashim, em escrita primorosa, com ilustrações da nossa Casa sagrada e gloriosa e dos utensílios do santuário, no tratado de Midot). E com os meus olhos a vi na sua mão — eu e o falecido meu mestre, Yichya Korach, de abençoada memória —, e não esteve em nosso poder tirá-la da sua mão. E, até agora, falta-nos o Seder Kodashim e o Seder Nashim da Mishná em manuscrito, com o comentário do Rambam. E não foram só estes que lhe venderam, pois muitos livros em manuscrito, antigos, se venderam a ele e a outros por preço baixo — pois estavam nas suas mãos "como objeto que não se deseja", e não sabiam lê-los.

למה תבזה את בעלי אמונתך העוסקים יומם ולילה במשנה ובתלמוד ותקרא להם מינים ואפיקורסים ותחזיק ידי זרים לאמונתך אשר בילדי נכרים ישפיקו הוא ספר הזהר הנמסר לישראל מיד גוי ויחסוהו לרשב"י התנא בשקר. והטוב והנאות לנו להחזיק באמונת קדמונינו ביחוד השי"ת בלי צירוף ושתוף. לקיים ואל תטוש תורת אמך, ואל תבוז כי זקנה אמך. רצוני לומר שלא תבוז ותלעיג על אמונת קדמונינו ביחוד השי"ת ולא תזלזל בספריהם אף על פי שבלו והזקינו ונתישנו. לא כאשר עשו בימי הבינים שזלזלו בהם ואיבדו אותן ועשו אותן כריכות לספרים חדשים המודפסים. ויש שמכרו אותן בזול מאד. ובעיני ראיתי אחד מבני עמנו שהחליף את ספר מורה הנבוכים כ"י בלשון ערבי השוה לנו עתה שנים ושלשה זהובים בספר קטן הכמות והאיכות מודפס שוה חצי ריאל. והרבה מהמונינו מכרו ספרים ישנים שירשו מאבותיהם לערלים שבאו לארץ התימן כמשה בן נתנאל שישב בבית מ"ו אברהם צאלח. והוא בעצמו מכר לו אז נביאים וכתובים עם תרגום יונתן בן עוזיאל על נביאים. ותר' ר' סעדיה גאון ערבי על ישעיה ועל כתובים. גם משנה עם פי' הרמב"ם בערבי ס' קדשים בכתב מפואר עם ציורי בית קדשינו ותפארתינו וכלי הקדש במסכת מדות. ובעיני ראיתיה בידו אני והמנוח מו"ר יחיא קרח זלה"ה. ואין לאל ידינו להוציאה מתחת ידו. ועד עתה חסר לנו סדר קדשים ונשים מהמשנה כ"י עם פי' הרמב"ם ז"ל. ולא אלו בלבד מכרו לו. כי הרבה ספרים כתבי יד עתיקים נמכרו לו גם לזולתו בזול. כי היו בידם ככלי אין חפץ בו ולא היו יודעים לקרות בהם
O Dor Deah em Sana'a

E nós é que fizemos esforço pela Torá dos nossos pais, para que não se esquecesse de Israel, na "cidade de louvor" — Sana'a: pois fixamos o nosso estudo na Mishná com o comentário do Rambam em árabe, e nos comentários de Rasa"g Saadia Gaon sobre a Escritura, com o Talmud e os posekim. E, antes, não se estudava, em todas as casas de assembleia, nas noites, senão no livro do Zohar — sem entender, como é notório; e se vangloriavam de que estudaram, naquela noite, tantas e tantas páginas. E o estudo da Mishná e do Talmud era "caro" raro naqueles dias — "não havia visão divulgada". E apenas de manhã estudavam um pouco de Mishná, diante do meu mestre Yossef Korach, de abençoada memória, com o comentário de R. Ovadiá de Bertinoro, na casa de assembleia dos Sharabi — e o início do nosso estudo foi ali; e, depois, também diante do seu filho, o grande rav Chaim Korach, à noite; e muitos dos esclarecidos do nosso povo vinham a estudar. E, depois, começamos a estudar o comentário do Rambam em árabe, nas noites de Shabat, a partir da meia-noite. E então se esforçou a nossa mão — o falecido meu mestre Chaim Alaksar — para copiar a Mishná com o comentário do Rambam; e outros dos esclarecidos também se esforçaram para escrevê-los e estudar neles. E a coisa se estendeu, de modo que também nalgumas casas de assembleia se emularam para fazer como o nosso feito — conforme o dito dos Sábios, "a inveja dos escribas aumenta a sabedoria"; e estudaram também a introdução do Rambam ao Seder Zera'im, e os Treze Princípios que Rabbenu escreveu no décimo capítulo de Sanhedrin, com bom discernimento, e entenderam neles, e nas palavras de R. Saadia Gaon e do Chovot haLevavot — que se colocam contra as palavras do Zohar e dos cabalistas novos.

ואנן הוא דעבדינן לתורת אבותינו שלא תשתכח מישראל בעיר תהלה צנעא, כי קבענו למודינו במשנה עם פי' הרמב"ם בערבי. ופירושי רס"ג במקרא עם תלמוד ופוסקים. ומקודם לא היו לומדים בכל בתי כנסיות בלילות כי אם בספר הזהר בלי הבין כמפורסם. והיו משתבחים בעצמם שלמדו באותה לילה כך וכך דפים. ולימוד המשנה והתלמוד היה יקר בימים ההם אין חזון נפרץ. ורק בבקר לומדים מעט משנה לפני מו"ר יוסף קרח ז"ל עם פי' ר' עובדיה בבית הכנסת שרעבי. ותחלת לימודנו היה שם, וגם אחרי כן לפני בנו הרה"ג כמו"ר חיים קרח ז"ל בלילה. ורבים ממשכילי עמנו היו באים ללמוד. ואחרי כן התחלנו ללמוד פירוש הרמב"ם בערבי בלילי שבת מחצות. ואז נשתדל ידינו המנוח מו"ר חיים אלכסאר לכתוב לו משנה בפי' הרמב"ם ז"ל. ואחרים מהמשכילים גם הם נשתדלו לכתבם וללמוד בהם. ונמשך הדבר שגם בקצת בתי כנסיות נתקנאו לעשות כמעשנו כמאמר רז"ל קנאת סופרים תרבה חכמה. ולמדו גם כן הקדמת הרמב"ם לסדר זרעים ושלש עשרה עיקרים שכ' רבינו בפרק עשירי דסנהדרין בשום שכל ויבינו בהם ובדברי ר' סעדיה גאון וחובת הלבבות שהם עומדים נגד דברי הזהר והמקובלים החדשים.
Nota — um retrato do Dor Deah por dentro. Este é um raro testemunho de primeira mão sobre a fundação das reformas de estudo do Dor Deah em Sana'a. Qafih descreve o programa: estudar a Mishná com o comentário judaico-árabe do Rambam, o Tafsir de Saadia Gaon, o Talmud, os posekim e os Treze Princípios — em lugar do costume então vigente, de ler o Zohar à noite "sem entender", contando páginas. É também um registro melancólico da perda de manuscritos antigos do Iêmen (incluindo um Moré Nevuchim em árabe e uma Mishná ilustrada do Seder Kodashim), vendidos a baixo preço a forasteiros. Lê-se como história viva de um movimento — na voz do seu próprio líder.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O repto

O capítulo abre devolvendo ao interlocutor a sua própria postura: ele proclama-se conhecedor dos "segredos", mas não diz a qual Ein Sof ora (há vários, no sistema) nem de quem recebeu a sua "tradição" — e, ainda assim, ataca com delação os que estudam Mishná e Talmud. Para Qafih, professar sem saber é "ser sábio sem sabedoria": o jumento do moinho, que gira sem sair do lugar.

O critério e o apelo

Vem então o critério textual (o Rosh: obras que só se difundem após o Talmud não têm o peso de tradição firme) e, sobretudo, um apelo: se crês na Causa Primeira que tirou Israel do Egito, por que hostilizar os teus próprios e exaltar o Zohar? O coração do apelo é o verso "não abandones a Torá da tua mãe" — fidelidade à fé recebida dos antigos.

O Dor Deah em Sana'a

A parte mais singular é histórica: Qafih conta, em primeira pessoa, como o seu círculo devolveu a Sana'a o estudo da Mishná com o comentário judaico-árabe do Rambam, do Tafsir de Saadia, do Talmud e dos Treze Princípios — onde antes só se lia o Zohar à noite, "sem entender". É um retrato vivo, e por vezes melancólico (a venda de manuscritos antigos a baixo preço), de um movimento de reforma do estudo.

Uma leitura sóbria

As palavras de combate — "pastores maus", o Zohar "da mão de um gentio" — são posições de Qafih num conflito real, e a tradição cabalística as rejeita. Apresentamo-las como documento do debate, sem as fazer nossas. O que fica, acima da polêmica, é o seu ideal positivo: uma fé que se entende, fundada na Mishná, no Talmud, no Rambam e em Saadia.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XIX

O Shemá: a unidade absoluta de D'us

שְׁמַע יִשְׂרָאֵל ה' אֱלֹהֵינוּ ה' אֶחָד
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih traz o Segundo dos Treze Princípios — a unidade absoluta de D'us — nas palavras de um antigo sábio iemenita, e o contrasta com as crenças que a negam. Daí faz o seu lance mais ousado: alinhar a leitura cabalística do "Ouve, Israel" (os três Nomes como três partzufim) à Trindade — um paralelo que a Cabala rejeita com firmeza, pois, para ela, o Shemá é justamente a proclamação do Um absoluto.

O Segundo Princípio (em judaico-árabe)

(42, cont.) E achei por bem trazer aqui o Segundo dos Treze Princípios, com um pouco das palavras de um dos nossos antigos — o R. Chater ben Shlomo ben Almoalem — no comentário deste princípio.

Segue, no original, em judaico-árabe (escrito em letras hebraicas), o texto do Segundo Princípio — a unidade absoluta de D'us, e um exame das três crenças que a contradizem: o dualismo, o masdeísmo (os "magos") e a trindade cristã. O próprio Qafih oferece, logo a seguir, a sua tradução hebraica, que vertemos ao português nos blocos seguintes.

וראיתי להביא פה העיקר השני מהי"ג עיקרים עם קצת מדברי אחד מקדמונינו הר"ר חטר בן שלמה בן אלמעלם בפי' העיקר הזה וז"ל. ואלקאעדה אלתאניה וחדתה תעאלי ודאלך אן הדא עלה אלכל ואחד, ליס כואחד אלגנס, ולא כואחד אלנוע. ולא כאלשכץ אלואחד אלמרכב אלדי ינקסם לאחאד כתירה ולא ואחד כאלגסם אלבסיט אלואחד באלעדר אלדי יקבל אלאנקסאם ואלתגזי אלי לא נהאיה. בל הו תע' ואחד בוחדה ליס כמתלה וחדה בוגה, והדה אלקאעדה אלתאניה הי אלמדלול עליהא בקולה שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד. שרחהא אנה למא ביין לנא ונודה תע' אפתקר לביאן וחדאנייתה, אד האתין אלקאעדתין המא אצל שריעה משה רבי ע"ה, והמא אוול כל שריעה אלאהייה. ואכר כל שריעה נאמוסייה, לאן אלשריעה אלאלאהייה תבתדי מן אלאלאהיאת ותנתהי אלי אלנסטאנייאת, ואלשריעה אלנמוסייה עכס דאלך. ביאן דאך אן אלאנסאן אלא עלם אלונוד מן אבתדאיה אלי אנתהאיה אעני מם אעלא אעאליין אלי אספל אלסאפלין, פכיך מא נזל ואכר פי אלהבוט ספלא קלת אלוחדה צרורה ואזאדת ואלכהרה וכו. ואמא אדא אכד אלאנסאן אן יתרקא פי אלוגוד מן אספל אלי אלעא, פכיך מא אזאד פי אלתרקא עלווא צעפת אלכתרה ותקוות אלוהדה אלי אלוהחד אלאחד אלדי נשת מנה כל וחדה אחדיהה פי אלוגוד, והו ואחד אלוהדאנייה, והא אנא אדבר תלאתה מדאהב, אתנוייה, ואמגוס, ואנצארא והא אנא אביין כל מדהב מנהם ומן אטלע עלי כתבהם פצל דאלך, אמא אלתנוייה פאנהם יקולון אן לאלעאלם צאנעאן דקימאן, אחדהמא אלנור, והו יפעל אלכיר פי אלוגוד ולא יקדר עלי פעל אלשר! ואלתאני אלצלמה, והו יפעל אלשר פי אלוגוד ולא יקדר עלי פעל אלכיר, והם מכתלפין, מנהם מן יקול אן אלנור ואלצלמה חיאן, ומנחם מן יקול מייתאן. ואמא אלמגוס פאנהם יקולין אן לאלעאלם צאנעא חכימא קדירא מדברא גיר גסם, תזהוה ען פעל אלשדור וסמוה יזדאן, תם אנהם אצאפו היה אלאלאם אלכיאנה פי אלעאלם לאלשיטאן אהרמין בלגתהם, והם איצא מכתלפין, מנאהם מן יקול אנה מהדת וגסם, ומנאהם מאן יקול בקרם אהרמין ואנא גיר גסם, תם אכתלפו בסבב חדותה איצא, פקאלו אנה חדת ליזדאן פכרה, פקאל פי נפסה, פכיף יכון חאלי וחדי או מן ינאזעני, וקאלו אן אלשיטאן תולד מן תלך אלפכרה, תם אנה חדאת יזדאן וצאלחה אלי מרה, ודכרו אשיא ליס הנא מוצע דכרהא, ואלכיר ענדהם גניע אעני אלתנוייה ואלמגוס הו מא תשתהיה אלנפוס, ואלשר הו מא תכרהה אלנפוס! ואמא אלנצרא פאנהם יקולו אם אללה תע ואחד (עלי אלחקיקה) תלאתה אקאנים עלי אלחקיקה, אקנים אלאב, והו דאת אלבארי ענדהם, ואקנוס אלאכן והו אלעלם (חכמה) ואוקנום רוח אלקודש והו אלחיה (בינה הנקרא אלהים חיים) ואלתלאתה ורגעו ואחד. והם פריק מן ישראל. ואסתדלאלהם עלי אנה אלתלאתה ירגעו ואחד, מן קולח תע שמע ישראל ידוד אלהינו ידוד אחד, קאלו הדה תלתלאה אסמא לתלאתה מסמיין, וכלן אלתלאתה ירגעו ואחד, כמא קאל תע ידוד אלהינו ידוד אחד, ואלתאלב אנהם יעתקדו פי אלתוחיד לתהדר מן דאלך ארגע אלי גרץ אלקאעה וכו' עכ"ל הר' חטר ז"ל ע"ש.
A tradução: do múltiplo ao Um

Tradução do próprio autor, Qafih: O Segundo Princípio — a Sua unidade, bendito seja. E isto é: saber que este Um, que é a causa de tudo, é um — não como o "um" do gênero, nem como o "um" da espécie, nem como o "um" composto, que se divide em muitas partes, nem como o corpo simples, que é "um" em número (como a água, que é um elemento simples) ... e se divide ao infinito. Mas Ele, bendito, é um — com uma unidade que não tem semelhante, de modo algum. E este Segundo Princípio é o que se aprende do Seu dizer: "Ouve, Israel — o Senhor, nosso D'us, o Senhor é um!". Explicação: visto que Rabbenu o Rambam já esclareceu a Sua existência, precisou agora esclarecer a Sua unidade; pois estes dois princípios a existência e a unidade são o cerne da Torá de Moshé, nosso mestre, e o princípio de toda Torá divina. Explicação mais ampla: o homem, se conhece a existência de todos os seres, do princípio ao fim — do mais alto dos altos ao mais baixo dos baixos —, verá que, quanto mais desce no seu conhecimento, mais se reduz a unidade e mais se acrescenta a multiplicidade, até chegar ao mundo inferior, tal que, sem dúvida, não se poderá medir nem contar a quantidade de tipos das suas espécies — quanto mais a dos indivíduos de cada espécie. Mas, se vem a subir nos seres, de baixo para cima, eis que, quanto mais sobe, mais se reduz a multiplicidade e mais se fortalece a unidade — até o Um Singular, do qual se originaram todas as "unidades" de todos os seres. E Ele é um, singular.

[תרגום הרב המחבר: היסוד השני יחודו יתברך וזהו לידע שזה האחד שהוא סיבת הכול, אחד לא כאחד הסוג, ולא כאחד המין, ולא כאחד המורכב אשר יחולק לחלקים רבים, ולא כגוף הפשוט שהוא אחד במנין (כמו המים שהוא יסוד פשוט) (חסר) ומתחלק לאין קץ. אבל הוא יתברך אחד, אחדות שאין כמוה אחדות בשום פנים, וזה היסוד השני הוא הנלמד מאומרו: "שמע ישראל ה"א ה' אחד!". ביאור היסוד הזה, הואיל וכבר באר רבנו מציאותו ית', הוצרך לבאר אחדותו. כי אלו השני יסודות הם עיקר תורת משרע"ה. והמה ראשית לכל תורה אלוהית וסוף לכל תורה נימוסית. כי התורה האלוהית (מתחלתאמן האלהיות) [מתחלת באלוהיות] וגומרת בגשמיות והתורה הנימוסית היפך זה. ביאור זה שהאדם אם ידע מציאות כל הנמצאים מראש ועד סוף, ר"ך ממעלה מעלה ועד מטה מטה, כל עוד שירד בידיעתו מטה נתמעטה האחדות ונתוסף הריבוי עד שמגיע לעולם השפל שבלי ספק לא ימד ולא יספר סוגי מיניו כ"ש אישי כל מין ומין וכו'. אבל אם בא לעלות בנמצאים ממטה למעלה, הנה כל מה שיוסיף לעלות יתמעט הריבוי ותתחזק האחדות עד האחד המיוחד שממנו נמצאו כל האחדים שלכל הנמצאים. והוא אחד מיוחד.
As três crenças contrárias

Três crenças contrárias há: os Shonim dualistas, os Amgushim magos e os Notzrim cristãos; e eis que explico cada uma delas — e quem examinar os seus livros, isto se lhe esclarecerá. Os Shonim dizem que há, para o mundo, dois agentes: um deles, a luz — e este faz o bem nos seres, e não pode fazer o mal; e o segundo, a treva — e este faz o mal, e não pode fazer o bem; e eles divergem entre si: há dos que dizem que a luz e a treva são vivas, e há quem diga que são mortas. Já os Amgushim magos — eis que dizem que há, para o mundo, um agente sábio, poderoso, governante, e que não é corpo, e afastaram d'Ele o fazer todo mal, e o chamaram "Yazdan"; e atribuíram todo o mal e a aflição que há no mundo ao Satã, e o chamaram "Ahriman" na sua língua; e também eles divergem entre si...

שלש אמונות יש: השונים, והאמגושים והנוצרים, והנני מבאר כ"א מהם ומי שיעיין בספריהם יתבאר לו זה. השונים אומרים שיש לעולם שני פועלים: אחד מהם האור, והוא פועל הטוב בנמצאים ולא יוכל לעשות רע, והפועל השני החושך, והוא פועל הרע בעולם ולא יוכל לעשות טוב, והמה חלוקים: יש מהם אומרים שהאור והחושך חיים וי"א שהם מתים. אמנם האמגוש הנם אומרים שיש לעולם פועל חכם גיבור מנהיג ואינו גוף, והרחיקו ממנו מעשות כל רע, וקראוהו "יזדאן". וייחסו כל הרע והצער ההווים בעולם לשטן, וקראוהו "אהרמן" בלשונם. והמה חלוקים:
Nota — a taxonomia das crenças. R. Chater ben Shlomo (sábio iemenita medieval), comentando o Segundo dos Treze Princípios do Rambam, contrasta a unidade absoluta de D'us com três doutrinas que a negam: o dualismo (duas potências — luz e treva), o masdeísmo dos "magos" (Yazdan, o bem; Ahriman, o mal) e a trindade cristã. É um levantamento clássico da teologia medieval judaica — apresentado aqui como documento histórico, não como ataque a essas fés. O ponto de Qafih virá a seguir: ele tentará alinhar a leitura cabalística do Shemá a essa lista. (O texto judaico-árabe, no original, está em letras hebraicas — por isso é hebraico de domínio público, e a fidelidade do bloco é preservada; vertemos ao português a tradução hebraica que o próprio Qafih fornece.)
A acusação: a Trindade no Shemá?

Quem não saberá acautelar-se em todas estas advertências com que nos advertiram os nossos antigos — não vá o nosso coração se deixar seduzir pelas palavras das seitas externas? — conforme o dito dos Sábios: "quem deseja ser piedoso, cumpra as palavras de Avot", a saber, acautelar-se de toda crença externa e falsa, como estas crenças que mencionou R. Chater, de abençoada memória, e das quais advertiu. Quem não dará atenção, para entender e discernir, que o "filósofo", o falso profeta autor do Zohar, tomou para si das crenças externas, e misturou e mesclou a crença dos gentios — crentes na Trindade — na crença da nossa santa Torá, com os seus nomes (embora não na ordem das suas "gerações" junto a eles), e lhes põe "face oposta", atribuindo "Pai", "Filho" e "Espírito Santo" no versículo "Ouve, Israel"? Eis as palavras do Zohar (parashat Vaetchanan, p.263), com o comentário do Mikdash Melech e a glosa:

מי לא ידע להזהר בכל אלה האזהרות שהזהירו אותנו קדמונינו. פן יתפתה לבבינו אל דברי הכתות החיצונות. כמאמר רז"ל מאן דבעי למהוי חסידא ליקיים מילי דאבות להזהר מכל אמונה חיצונית כוזבת כאלה האמונות שהזכיר ר' חטר ז"ל והזהיר מהן. מי לא יתן לב להבין ולהשכיל כי הפילסוף נביא השקר מחבר הזהר לקח לו מאל ה האמונות החיצונות ובלל ועירב אמונת העכי"ם מאמיני השלוש באמונת תורתינו הקדושה בשמותם שלא כסדר תולדותם אצלם, וסתר פנים ישים להם אב ובן ורוח הקדש בפסוק שמע ישראל, וז"ל הזהר פ' ואתחנן דף רס"ג (ח"ג רסג, א) עם פי' מקדש מלך והגליון.
A passagem do Zohar sobre o Shemá

“"Ouve, Israel" — disse R. Yeisa: "Israel" é o ancião saba; R. Yitzchak disse: o "grande Israel" — vem incluir os setenta nomes do "todo" (explicação: o segredo da Biná, que tem nela setenta nomes; e a intenção é que a Malchut recebe dos setenta). "Ouve, Israel" — como está escrito "ouvi, ó céus", e "dai ouvidos, ó céus"; também aqui "ouve, Israel"; e tudo é uma só coisa (explicação: a saber, o Ze'ir). "HaVaYaH" — a cabeça de tudo, na luz do Atika Kadisha; e este é o que se chama "Pai" (explicação: Abba, que recebe do yud de Arich). "Eloheinu" — o "ancião" das torrentes e fontes que saem e fluem para tudo (explicação: Imma). "HaVaYaH" segundo — o "tronco da árvore", perfeição das raízes (explicação: Ze'ir). "Echad" um — a Knesset Yisrael (explicação: o "א-ח" de echad são as nove sefirot do Ze'ir, e o "ד" é a Malchut unida ao Ze'ir). E tudo é uma só perfeição, e se ligam um ao outro, e não se acha neles separação — antes, tudo é um”.

שמע ישראל אמר ר' ייסא ישראל סבא, ר' יצחק אמר ע' רברבא, לאכללא שבעין שמהן מהדותא דכלא (סוד הבינה שיש בה שבעים שמות והכוונה שהמלכות מקבלת מן ע') שמע ישראל כמה דכתיב שמעו שמים וכתיה האזינו השמים. אוף הכא שמע ישראל וכלא חד מלה הוא (פי' דעיר) ידוד רישא דכלא בנהירו דעתיקא קדישא. והאי הוא דאתקרי אב (פי' אבא מקבל מן יוד דאריך) אלהינו עתיקתא דנחלין ומבועין דנפקין וגנדין לכלא (פי' אימא) ידוד גופא דאילנא שלימו דשרשין (פי' זעיר) אחד כנסת ישראל (פי' א"ח הוא תשעה ספירות דזעיר ודל"ת מלכות וזעיר) וכלא חד שלימותא ואתקשר דא בדא ולא אשתבח פירודא אלא כלא חד עכ"ל.
Nota — "e tudo é um". Aqui está o ponto decisivo, e a razão pela qual a comparação à Trindade é, para a Cabala, profundamente injusta: a própria passagem que Qafih cita termina com "e tudo é uma só perfeição… não se acha separação — tudo é um" (kola chad). Para a tradição, o "Ouve, Israel" é o Yichud — o ato de unificar: os Nomes e as sefirot, que de baixo parecem muitos, são proclamados um. É o exato contrário de uma trindade de pessoas. Qafih, porém, sustenta que nomear "Pai", "Mãe" e "Filho" — ainda que se conclua "tudo é um" — é precisamente o erro que o Moré I:50 condena ("dizem ''um'' com a boca e ''muitos'' no pensamento"), o mesmo que os cristãos fazem ao dizer "os três são um". A disputa não é sobre se D'us é Um — ambos afirmam que sim —, mas sobre se a linguagem das faces o proclama ou o obscurece.
Os três Nomes e os três partzufim

Eis para ti que o Zohar considerou os três Nomes como três partzufim distintos: o primeiro "HaVaYaH" é Abba; "Eloheinu" é Imma; o último "HaVaYaH" é Ze'ir Anpin; e "Echad" inclui Ze'ir e a sua Nukva, que são um — "e não se separam", "e tudo é um" etc., no sentido de que os partzufim são um. E ele anda conforme o seu próprio sistema, pois na parashá de Bereshit considera a essência do Criador como Abba, e a Imma como a "artífice", e o Ze'ir Anpin como "filho" de Abba e Imma. E os gentios cristãos consideraram a essência do Criador como Arich, e a chamaram "Pai"; e a sefira da Chochmá chamaram "Filho" — e este é "al-'Ilm" o Conhecimento em língua árabe; e a sefira da Biná, que é Imma, chamaram "Espírito Santo" — e ela é o "espírito de vida", chamado em árabe "al-Chaya", e nas palavras do autor do Zohar "Elohim Chayim" D'us vivo.

הרי לך שהזהר חשב השלשה שמות לשלשה פרצופים מחולקים ידוד ראשונה אבא, אלהינו אמא, ידוד אחרונה זעיר אנפין. אחד כולל זעיר ונוקביה שהם אחד. ולא מתפרשין וכלא חד וכו' שחמה פרצופין הם אחד, ולשיטתיה אזיל שבפרשת בראשית הוא חושב עצם הבורא אבא, ואימא אומנא, וזעיר אנפין בן לאבא ואמא. והעכו"ם חשבו עצם הבירא אריך, וקראו לו אב, וספירת החכמה קראו ל הבן והוא אלעלם בלשון ערבי. ולספירת המינה שהיא אימא קראו לה רוח הקודש. והיא רוח החיים הנקרא בערבי אלחיאה, ובדברי מחבר הזהר אלהים חיים.
"Crentes na Trindade — ou nas Cinco?"

E nos Tikkunei Zohar Chadash (Tikun 1, p.16c) está escrito: “eis aqui o segredo dos três nomes — "yud-heh-vav" triplicados; e dali vêm "filhos, vida e sustento". "Vida" — "e a sabedoria dá vida ao seu dono"; "sustento" — "abres a tua mão e sacias a todo vivente com favor", e ela é a Imma suprema; "filhos" — o filho de "Y-ah", e ela é a "mão erguida", a Biná, cujas letras são "yud-heh-vav"; e do "yud" sai "HaVaYaH", e do "heh" sai "Eloheinu", e do "vav" sai "HaVaYaH" — que são catorze letras, aludidas na leitura do Shemá, pois ali está "HaVaYaH Eloheinu HaVaYaH", e logo "Echad"”. Quem é sábio, e entenderá isto, e me fará saber: que diferença e que distinção há entre a crença das seitas que mencionou — e das quais advertiu — o R. Chater, de abençoada memória, e as palavras do Zohar e dos Tikkunei ha-Zohar destes? E por que se chamará aos gentios "crentes na Trindade", e não se chamará a estes "crentes nas Cinco", ou "crentes nas Doze faces de pormenor" — como escreveu o Rivash, em nome de um dos filósofos?

ובתקוני זהר חדש תקונא קדמאה דף י"ו ע"ג וז"ל הא הכא רזא דתלת שמהן יה"ו משולשין ומתמן בני, היי ומזוני. חיי וההבמה תחיה את בעליה. מזוני פותח את ידיך ומשביע לכל חי רצון. ואיהי אימא עילאה. בני בן י"ה ואיהי יד רמה בינת דאתוון דילה יה"ו, ומן יוד נפיק ידוד ומן ה"א נפיק אלהינו. ומן וא"ו ידוד דאינן י"ד אתוון ורמיזין בקריאת שמע דתמן ידוד אלהינו ידוד ובלה אחד עכ"ל. מי חכם ויבין את זאת ויודיעני מה הפרש וחילוק יש בין אמונת הכתות שהזכיר והזהיר ממנה הר"ר חטר ז"ל ובין דברי הזהר ותיקוני הזהר הללו? ולמה יקראו לעכו"ם מאמיני השלוש. ולא יקראו לאלה מאמיני החמוש. או מאמינ יהי"ב דפרטות כמו שכתב הריב"ש בשם אחד מן המתפלספים?

Sobre esta seção · עִיּוּן

O Segundo Princípio

Qafih ancora o capítulo no Segundo dos Treze Princípios do Rambam — a unidade absoluta de D'us — no comentário judaico-árabe de um sábio iemenita, R. Chater ben Shlomo. A imagem central é luminosa: subindo dos seres inferiores até a Causa Primeira, a multiplicidade vai-se reduzindo e a unidade fortalecendo, até o "Um Singular" do qual tudo provém. É a leitura do "Ouve, Israel" como o ápice do monoteísmo.

As crenças contrárias

R. Chater contrasta essa unidade com três doutrinas que a negam — o dualismo, o masdeísmo dos "magos" e a trindade cristã —, num levantamento clássico da teologia medieval, que apresentamos como documento histórico.

A comparação ousada

Daí Qafih faz o seu lance mais agudo: a leitura do Zohar para o Shemá (os três Nomes como Abba, Imma e Ze'ir) espelharia, na sua forma, a Trindade. É a sua leitura adversária — e a Cabala a rejeita com firmeza.

Trindade ou Yichud?

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XX

Tudo é previsto, e a escolha é dada

הַכֹּל צָפוּי וְהָרְשׁוּת נְתוּנָה
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Um capítulo mais sereno. Qafih expõe a clássica conciliação da presciência divina com o livre-arbítrio — "tudo é previsto, e a liberdade é dada" — na voz de Rambam e Saadia; mostra que o próprio AR'I afirma a liberdade da escolha; e recorda, pelo Rambam, como Avraham descobriu o Criador e iniciou a cadeia ininterrupta da fé pura, de Avraham a Moshé e aos sábios.

Presciência e liberdade

(43) Ensinamos no tratado de Avot: "tudo é previsto, e a liberdade de escolha é dada" etc. E explicou o Rambam: tudo o que há no mundo é sabido junto a Ele, bendito, e Ele o apreende (quer dizer, tanto o passado quanto o futuro); e não digas: visto que o Santo sabe o que o homem fará, então ele está forçado nos seus atos a ser justo ou ímpio — não, pois a liberdade está dada na sua mão, para fazer o bem ou o mal, e não há coisa alguma que o force, de modo nenhum. E no fim dos Oito Capítulos escreveu que o conhecimento do Senhor não é como o nosso conhecimento; e, ainda que digamos a respeito d'Ele "conhecimento" — como dizemos "conhecimento" em nós —, isto não é senão por homonímia apenas. E, assim como não há em nós força para conhecer a realidade da Sua verdade — como se disse "acaso a sondagem de D'us tu achas? acaso até o fim de Shaddai tu achas?" —, assim não há em nós força para sondar e achar o Seu conhecimento; pois Ele e o Seu conhecimento são um, não como o conhecimento do homem, que é ele e o seu conhecimento como dois — isto é o que o profeta diz "pois os meus pensamentos não são os vossos pensamentos". E assim escreveu na sua obra (Hilchot Teshuvá, cap. 5), e no Moré parte III; e assim escreveu Rabbenu Saadia Gaon no seu livro honrado, ha-Emunot ve-ha-De'ot (tratado IV); e vê o Tossafot Yom Tov, que se estendeu nisto na mishná mencionada. E o assunto é que o nosso D'us, bendito, não cai sob o tempo — pois o tempo é das Suas obras, e Ele conhece todas as suas partes: passado, presente e futuro; nada se oculta d'Ele —, como disseram os Homens da Grande Assembleia, na oração do Musaf de Rosh Hashaná, que Ele "olha e contempla até o fim de todas as gerações" — quer dizer, que tudo está revelado diante d'Ele. E por isso designaram os Sábios isto por termos de "olhar" e "contemplar", e não por termo de "conhecer" — para nos ensinar que tudo está ordenado e previsto diante d'Ele. E por isso escreveu o Rambam, em palavras breves, que não há em nós força para conhecer a verdade do Seu conhecimento — pois o conhecimento do homem só alcança o presente, e não o que está por vir.

מג) תנן במסכת אבות הכל צפוי והרשות נתונה וכו' ופי' הרמב"ם ז"ל כל מה שבעולם ידוע אצלו יתברך והוא משיג אותו (רוצה לומר בין עבר בין עתיד), ולא תאמר כיון שהקב"ה יודע מה שיעשה האדם. וא"כ מוכרח במעשיו שיהי תדיק או רשע כי הרשות נתונה בידו לעשות טוב או רע, ואין שום דבר שיכריחהו כלל. ובסוף השמנה פרקים כתב שאין ידיעת השי"ת כידיעתנו ואעפ"י שאנו אומרים בו לשון ידיעה כמו שאנו אומרים ידיעה בנו אין זה אלא בשתוף השם בלבד. וכמו שאים בנו כח לידע מציאות אמתתו ית' כמו שנ' החקר אלוה תמצא אם עד תכלית שדי תמצא. כל אין בנו כח לחקור ולהשיג ולמצוא דעתו, כי הוא ודעתו אחד, לא כדעת האדם שהוא ודעתו שנים, הוא שהנביא אומר כי לא מחשבותי מחשבותיכם. וכ"כ בחבורו פ"ה מהלכות תשובה ע"ש ובמורה משלישי. וכן כתב רבינו סעדיה גאון בספרו הנכבד האמונות והדעות מאמר ד'. ועיין תוספת יו"ט שהאריך בענין זה במשנה הנז"ל. והענין הוא כי אלהינו ב"ה איננו נופל תחת הזמן. כי הזמן הוא מפעולותיו והוא יודע כל חלקיו. עבר והוה ועתיד אין דבר נסתר ממנו כמו שאמרו רז"ל אנשי כנה"ג בתפלת מוסף דראש השנה שהוא יתברך צופה ומביט עד סוף כל הדורות. ר"ל שהכל גלוי לפניו יתברך עבר והוה ועתיד. ולפיכך כינו חז"ל אותה בלשון צפיה והבטה, ולא בלשון ידיעה, ללמדנו שהכל סדור וצפוי לפנוי ית' ומביט בו, ולכן כתב הרמב"ם במלות קצרות שאין בנו כח לידע אמיתת ידיעתו, לפי שידיעת האדם אינה משגת אלא את ההוה ולא מה שעתיד להיות.
Nota — saber não é forçar. Esta é a clássica resolução maimonidiana da grande tensão entre a presciência divina e o livre-arbítrio (a Mishná de Avot: "tudo é previsto, e a liberdade é dada"). A chave: o conhecimento de D'us não é como o nosso — é homônimo ("shituf ha-shem"). D'us não está no tempo (o tempo é criatura Sua); Ele "olha e contempla" todas as gerações de um ponto fora do tempo, e por isso a Sua presciência não causa nem força a escolha humana, tal como ver não é compelir. É um terreno em que Qafih, Saadia (Emunot veDeot IV) e o Rambam (Hil. Teshuvá 5; Moré III) falam a uma só voz.
A objeção: providência só no Ze'ir?

(44) E, depois que conheceste tudo isto, vem e vê como erraram os nossos mestres cabalistas, e lançaram mácula no conhecimento do Senhor acerca dos futuros; e também retiraram a providência do Rei Supremo, e penduraram a providência no Ze'ir Anpin apenas — e não nos demais partzufim (Abba e Imma, Arich, Atik, Adam Kadmon), e quanto menos no Ein Sof superior —, e disseram que eles não se importam nem supervisionam o feito dos seres inferiores, seja entre bem ou mal (D'us nos livre), tratando "o bom como o pecador, e o justo como o ímpio, o que jura como o que teme o juramento" — como se todas as faces fossem iguais. E esta coisa está explicada nos escritos do AR"I, trazida no livro Arba Me'ot Shekel Kesef (p.91b): uma pergunta que perguntou o rav eminente, o cabalista divino, Avraham Monzon, da cidade de Tnifil, ao AR"I, de abençoada memória: “há como perguntar uma coisa difícil — a saber, que vimos nos livros da Cabala, e no Zohar, e no Sefer haMada, e no Sefer haKaneh, que, na hora em que D'us se ocupa na Criação Beriá, Ele não sabe; e, quando está na Emanação Atzilut, Ele sabe. Se assim, eis que se explicou que, no mundo da Atzilut, há o conhecimento e a compulsão. Se assim, há dificuldade com as palavras dos Sábios sobre o versículo "e disse o Senhor a Moshé: dize aos sacerdotes, filhos de Aharon" — a saber, "o primeiro rei que se levantar para Israel Saul será trespassado pela espada"... pois Saul matou Nov, a cidade dos sacerdotes; e resulta que o Seu conhecimento forçou a mente de Saul, de qualquer modo — seja em Beriá, seja em Atzilut. E, se assim, resulta que houve compulsão, de toda forma”.

מד) ואחר שידעת את כל אלה בא וראה איך שגגו רבותינו המקובלים והטילו דופי בידיעת השי"ת בעתידות, גם סלקו ההשגחה מהמלך העליון ותלו ההשגחה בזעיר אנפין לבד, ולא באשר הפרצופין אבא ואמא, ואריך, ועתיק, ואדם קדמון, וכ"ש כאין סוף העליון, ואמרו שאין מקפידין ומשגיחין במעשה התחתונים בין טוב לרע ח"ו כטוב כחוטא, והיה כצדיק כרשע, הנשבע כאשר שבועה ירא כל אפיא שוין. ודבר זה מבואר בכתבי האר"י והבא בספר ד' מאות שקל כסף דך צ"א ע"ב ז"ל שאלה ששאל הרב המובהק המקובל האלהי כמהר"ר אברהם מונצוץ מעיר טניפיל להאר"י זצוק"ל יש לשאול דבר אחד קשה והוא כי ראינו בספרי הקבלה והזהר ובספר המדע ובספר הקנה כי בשעה שהאל מתעסק בבריאה, אינו יודע. וכשיהיה באצילות יודע. אם כן הרי נתבאר שבעולם האצילות היא הידיעה והכריחה, א"כ קשה ךדברי רז"ל על פסוק ויאמר ה' אל משה אמר אל הכוהנים בני אהרן, מלך ראשון שיעמוד לישראל ידקר בחרב. אמר לו ולי אתה שואל, אמור אל הכוהנים בני אהרן שהרי הרג נוב עיר הכהנים. ונמצא שהכריחה דעתו של שאול, באיזה אופן שיהיה אם בבריאה אם באצילות. וא"כ נמצא שהכריחה על כל פנים.
A resposta do AR'I: "e escolherás a vida"

E a resposta que respondeu o meu mestre o AR"I, de abençoada memória: “é verdade que há, na Atzilut, conhecimento — mas há força no homem para escolher o diferente, como disse a Escritura "vê, eis que pus diante de ti, hoje, a vida e o bem, e a morte e o mal ... e escolherás a vida, para que vivas, tu e a tua descendência". Eis que daqui se vê que, contra a compulsão inferida do feito de Saul, e pelo versículo, se prova que há escolha — conforme se disse "e escolherás a vida". E também, conforme os Sábios, que disseram "o mal não desce do céu" — pois, em cima, na Atzilut, tudo é simples, e aquele conhecimento não desce para baixo para forçar o homem, já que não há recompensa nem castigo, nem escolha nem vontade, em cima; e este é o segredo de "não era Esav irmão de Yaakov? — palavra do Senhor; e amei a Yaakov"; ora, acaso o Senhor diz que, como Yaakov, também Esav? — pois já testemunhou a Torá que Yaakov é "homem íntegro, morador de tendas", e Esav é adorador de idolatria, e o Senhor escolhe o justo; e, se assim, que quer dizer isto que o Senhor disse "e amei a Yaakov", sendo este justo e este ímpio? — antes, a intenção é que, em cima, na Atzilut, tanto faz como Yaakov ou como Esav, pois ali não há recompensa nem castigo; e este é o segredo de "não era Esav irmão de Yaakov? — palavra do Senhor", que é o Atika Kadisha, como explicou na Idra. Por isso Ele disse: cabe-vos ouvir a minha voz e aceitar o meu reino — pois escolhi a Yaakov.”

והתשובה שהשיב מורי זלה"ה, הוא אמת שיש באצילות ידיעה, אבל יש כח באדם לבחור זולתה כמו שאמר הכתוב ראה נתתי לפניך היום את החיים ואת הטוב ואת המות ואת הרע ובחרת בחיים למען תחיה אתה וזרעיך. הרי מכאן שהכריחה ממעשה שאול, ומן הכתוב מוכיח שהיא בחירה שנ' ובחרת בחיים וגם לרז"ל שאמרו אין רע יורד מן השמיים, כי למעלה באצילות הכל פשוט, ואין אותה ידיעה יורד למטה להכריח על האדם כי אין שכר ועונש ואין בחירה ורצון למעלה, וזה סוד הלא אח עשו ליעקב נאם ה' ואהב את יעקב, וכי השי"ת אומר שכמו יעקב כן עשו. כי כבר העידה תורה כי יעקב איש תם יושב אהלים, ועשו עובד ע"ז, והשי"ת בוחר בצדיק, וא"כ מהו זה שאמר השי"ת ואֹהב את יעקב, זה צדיק וזה רשע, אלא הכוונה היא, כי למעלה באצילות כמו יעקב כן עשו, כי שם לא יש שכר ועונש, וזהו סוד הלא אח עשו ליעקב נאם ה', שהוא עתיקא קדישא, כמו שפירש באדרא, בי נשבעתי נאם ה' עתיקא קדישא. על כן אמר יש לכם לשמוע בקולי ולקבל מלכותי כי בחרתי ביעקב ואף שהוא כמו עשו
Sem livre-arbítrio, a Torá seria vã

“E também, se dissermos que há um conhecimento que força, não haveria necessidade da Torá nem dos mandamentos — pois já estaria o homem forçado nos seus atos. E também o dito de R. Chananiá ben Akashiá: "quis o Santo dar mérito a Israel, por isso lhes multiplicou Torá e mandamentos" — ora, se dissermos que há um conhecimento que força, não haveria necessidade de multiplicar Torá e mandamentos. Mas, se dissermos que há conhecimento, e que o conhecimento do mal do homem não desce de cima — pois ele permanece ali em cima, e está na mão do homem, que é dono de escolha, o escolher o diferente —: por isso ordenou a Torá que se guardem os seus mandamentos; e também, se o homem se apega à Torá, atrai sobre si o bem — pois o mal não desce de si mesmo, de cima, mas, quando o homem atrai sobre si o mal, então ele desce.” E com isto se entende outro dito (parashat Vayikrá): a saber, que a alma, antes de descer, Ele, o Santo, a adjura: "sê justo e não sejas ímpio" — pois, se dissermos que há um conhecimento que força, resulta que Ele a adjura falsamente, já que sabe nela que ela pecará, e ainda assim a adjura; e o Santo não quer que se jure pelo Seu nome falsamente. Antes, estes ditos — e também muitos versículos — provam que, na hora da Criação, não há um conhecimento que force. E do que esclarecemos, há prova de que até o conhecimento da Atzilut é um conhecimento simples, que depende da vontade do homem... E, se se disser que há nele um conhecimento, e que ele não é forçoso — como escreveu o Rambam —, resulta que Saul, a quem o Seu conhecimento forçou, tem queixa sobre isto; porém, se dissermos como dissemos, virá tudo a estar em verdade e em fé." — até aqui o Arba Me'ot Shekel Kesef.

וגם אם נאמר שיש ידיעה מכרחת, אין צורך לתורה ולא למצות, כי כבר הוכרח האדם במעשיו, וגם מאמר, ר' חנניה בן עקשיא אומר רצה הקב"ה לזכות את ישראל לפיכך הרבה להם תורה ומצות. אם נאמר שיש ידיעה מכרחת, אין צורך בהרבות תורה ומצות. אם נאמר שיש ידיעה ואין ידיעת הרע של אדם יורד מלמעלה כי נשאר שם וביד האדם שהוא בעל בחירה לבחור בזולתה. על כן צותה תורה לשמור מצותיה וגם אם האדם דבק בתורה מושך עליו הטוב. כי אין רע יורד מעצמו מלמעלה אלא ימשוך האדם עליו הרע אז יורד. ועם זה יובן מאמר אחר פר' ויקרא או ראה או ידע כי שם אומר כי הנפש קודם שתרד שמביע אותה הקב"ה תהי צדיק ואל תהי רשע. כי אם נאמר שיש ידיעה נמצא משביעה לשקר. שהרי הוא יודע בו שיחטא ומשביע. וגם מאמר אחר לרז"ל משביעין אותו תהי צדיק ואל תהי רשע. אם נאמר שידע נצא משביעו לשקר. ואין הקב"ה רצה שישביעו בשמו לשקר. אלא אלו המאמרים וגם הרבה כתובים מוכיחים שבשעת הבריאה אין לו ידיעה. וממה שביארנו יש ראיה שאפי' ידיעת האצילות היא ידיעה פשוטה, הויא תלויה ברצון האדם שכבר נאמר לו כי הוא כמו רונו שהוא בעל בחירה ורצון כמו שאמר הכתוב כי יעקב בחר לו יה ישראל לסגולתי. הרי הוא מובן שיש לו בחירה ורצון. גם מה שנ' ורציתי אתכם וכו' הרי מן הכתובים שיש לו בחירה ורצון. וגם מדמה ישראל אליו שאמר והייתם קדושים כי קדוש אני כמו שאני קדוש כן אתם תהיו קדושים. אחי ורעי בני כדמותו כצלמו. כי אם יאמר שיש לו ידיעה ואינה מכרחת כמו שכתב הרמב"ם נצא שאול שהכריחה אותו ידיעתו עליו יש לו תלונה על זה, אמנם אם נאמר כמו שאמרנו יבוא הכל באמת ובאמונה עכ"ל.
Nota — o próprio AR'I afirma a liberdade. É notável: aqui Qafih cita o AR'I com aprovação. À pergunta de R. Avraham Monzon (se "saber" em Atzilut implicaria que D'us força a escolha), o AR'I responde que não — "e escolherás a vida"; o homem tem poder de escolher, e "o mal não desce de cima" por si. Ou seja, sobre o livre-arbítrio os cabalistas e Qafih largamente concordam, e até a célebre prova de que, sem liberdade, "a Torá e os mandamentos seriam vãos" lhes é comum. A objeção de Qafih (seção 44) é mais estreita: que alguns cabalistas teriam "retirado a providência do Rei Supremo" e a confinado ao Ze'ir Anpin — ponto que ele lê como falha, e que o cabalista entenderia como linguagem figurada da ação do Único através das Suas faces.
Avraham descobre o Criador

(50) E assim escreveu o Rambam (cap. 1 das Hilchot AZ): “quando este "poderoso" Avraham foi desmamado, começou a vaguear na sua mente — e ele ainda pequeno — e a pensar de dia e de noite; e se admirava: como é possível que esta esfera celeste ande continuamente, sem ter quem a dirija? e quem a faz girar? — pois é impossível que ela gire a si mesma. E ele não tinha mestre, nem quem lhe fizesse saber coisa alguma, mas estava imerso em Ur Kasdim, entre os adoradores de idolatria, os tolos; e o seu pai e a sua mãe e todo o povo eram adoradores de idolatria, e ele os servia com eles — mas o seu coração vagava e entendia, até que alcançou o caminho da verdade, e entendeu a "linha da retidão" pelo seu juízo correto, e entendeu e soube que há um D'us um, e que Ele dirige a esfera, e que Ele é o D'us que cria tudo, e que não há, em toda a existência, outro D'us senão Ele; e soube que todo o povo erra... E com quarenta anos, reconheceu Avraham o seu Criador. E, quando reconheceu e soube, começou a dar respostas aos filhos de Ur Kasdim... e, quando o povo se ajuntava a ele, ele fazia saber a cada um, conforme o seu entendimento, até os retornar ao bem, ao caminho da verdade; até que se ajuntaram a ele milhares e miríades — e estes são "os homens da casa de Avraham" —, e ele plantou no seu coração este grande princípio, e compôs sobre ele livros, e o fez saber a Yitzchak, seu filho; e Yitzchak se assentou a ensinar e advertir, e ensinou a Yaakov e o designou a ensinar; e Yaakov, nosso pai, ensinou a todos os seus filhos, e separou Levi, e o designou como cabeça, e o assentou numa yeshivá para ensinar o caminho do Senhor e guardar o mandamento de Avraham; e ordenou aos seus filhos que não interrompessem a designação de um encarregado dentre os filhos de Levi, para que o estudo não se esquecesse. E a coisa foi indo e se fortalecendo nos filhos de Yaakov e nos que se juntavam a eles, e se fez no mundo uma nação que conhece o Nome — até que se alongaram os dias para Israel no Egito, e voltaram a aprender os seus feitos dos egípcios e a servir idolatria como eles, exceto a tribo de Levi, que se manteve no mandamento dos seus pais; e a tribo de Levi nunca, jamais, serviu idolatria”."

נ) וכ"כ הרמב"ם פרק א' מהל' ע"ז וז"ל כיון שנגמל איתן זה התחיל לשוטט בדעתו והוא קטן ולהשב ביום ובלילה, והיה תמיה היאך אפשר שיהיה הגלגל הזה נוהג תמיד ואין לו מנהיג, ומי יסבב אותו לפי שאי אפשר שיסבב את עצמו. ולא היה לו מלמד ולא מודיע לו דבר אלא מושקע באור כשדים בין עובדי עבודה זרה הטפשים. ואביו ואמו וכל העם עובדים ע"ז והוא היה עובד עמהם ולבו משוטט ומבין עד שהשיג דרך האמת והבין קו הצדק מדעתו הנכונה והבין וידע שיש שם אלוה אחד והוא מנהיג את הגלגל. והוא האל בורא הכל ואין בכל הנמצאים אלוה חוץ ממנו, וידע שכל העם טועים, ודבר שגרם להם טעות זו שעובדים את הכוכבים ואת הצורות עד שאבד האמת מדעתן. ובן ארבעים שנה הכיר אברהם את בוראו כיון שהכיר וידע התחיל להשיב תשובות על בני אור כשרים לערוך דין עמהם ולומר שאין זו דרך האמת שאתם הולכים בה וכו' וכיון שהיו העם מתקבצין אליו היה מודיע לכל אחד ואחד כפי דעתו עד שיחזירוהו למוטב לדרך האמת עד שנתקבצו אליו אלפים ורבבות והם אנשי בית אברהם ושתל בלבן העיקר הגדול הזה וחיבר בו ספרים והודיע ליצחק בנו ויצחק ישב ללמד ומחזיר ומזהיר, ויצחק ליעקב ומינהו ללמד ומחזיר כל הנלוים אליו. ויעקב אבינו לימד בני וכולן, והבדיל לוי ומינהו ראש והושיבו בישיבה ללמד דרך ה' ולשמור מצות אברהם, וצוה את בניו שלא יפסיקו מבני לוי ממונה כדי שלא ישתכח הלמוד, והיה הדבר הולך ומתגבר בבני יעקב והנלוים אליהם ונעשית בעולם אומה שהיא יודעת את השם עד שארכו הימים ליראל במצרים, וחזרו ללמוד מעשיהם ולעבוד ע"ז כמותן חוץ משבט לוי שעמד במצות אבותיו ומעולם לא עבד שבט לוי ע"ז עכ"ל.
Nota — a cadeia da masorá. Aqui está a visão positiva que move toda a obra de Qafih: a transmissão ininterrupta do monoteísmo puro — Avraham, que descobre o Criador pela razão, aos quarenta anos, e funda uma "nação que conhece o Nome"; depois Yitzchak, Yaakov, a tribo de Levi (guardiã do estudo), Moshé, os profetas e os sábios do Talmud. É esse fio que ele entende ser a autêntica kabbalah (o "recebido") — e é contra esse pano de fundo que ele lê a Cabala luriânica como um desvio tardio. Note-se a beleza do retrato maimonidiano de Avraham: a fé alcançada por investigação, exatamente o método que Qafih reivindica.
A cadeia até Moshé, e o lamento

E nas Hilchot Kriat Shemá o Rambam escreveu: “quando se aproximaram os dias de Israel Yaakov para morrer, ajuntou os seus filhos, e os ordenou e os exortou sobre a unidade do Senhor e sobre o caminho do Senhor que andaram Avraham e Yitzchak; e disse-lhes: "meus filhos, talvez haja em vós alguma falha — alguém que não se mantém comigo na unidade do Senhor do mundo?". Responderam todos e disseram: "Ouve, Israel, o Senhor, nosso D'us, o Senhor é um" (quer dizer: ouve de nós, nosso pai Israel — o Senhor, nosso D'us, o Senhor é um). Abriu o ancião Yaakov e disse: "Bendito seja o nome da glória do Seu reino, para todo o sempre"”. A coisa que se aprende de tudo o dito é que Avraham, nosso pai, ensinou a todo o mundo a fé da unidade do Nome, e compôs sobre ela livros, e a fez saber aos seus filhos e a todos os que o seguiram — e Yishmael, seu filho, entre eles (pois sustentamos que Yishmael fez teshuvá). E é possível que, no mérito de Yishmael ter feito teshuvá, mereceram os seus descendentes voltar à fé da unidade do Senhor, após muitos dias — por meio de Muhammad, que aprendeu junto a Israel, como é sabido. Mas, na semente de Yaakov, ela não cessou, e permaneceu na semente de Levi e nos remanescentes das demais tribos, até que veio o nosso legislador, pai de todos os profetas e cabeça dos sábios, Moshé, nosso mestre; e se lhe revelou o anjo do Senhor na sarça, Ele guardando o juramento que jurou a Avraham, e redimiu os nossos pais do Egito por meio dele, e nos aproximou diante do Monte Sinai, e nos coroou com os mandamentos, e nos fez saber o caminho do Seu culto e da Sua unidade. E, quando se aproximou o tempo de Moshé para se retirar, fez-lhe saber o Santo o que nos seria no fim dos dias, no nosso exílio, e disse-lhe: "eis que tu jazes com os teus pais, e se levantará este povo, e se prostituirá após os deuses estrangeiros da terra" etc. E assim nos sucedeu — que nos desencaminharam a desviar de após o Senhor, nosso D'us, e a servir outros deuses, e a crer em muitas divindades, por meio do livro do Zohar, entregue a nós da mão de um rei dos reis dos gentios que habitam no Oriente; e atribuíram este livro a Rashbi, o Tana, falsamente; e dali em diante se mudou a nossa fé, pouco a pouco, até se tornar coisa de enjoo. (51) E, assim, deitemo-nos na nossa vergonha, e cubra-nos a nossa ignomínia — como abandonamos a nossa fé pura, recebida em nossas mãos dos nossos profetas e dos nossos sábios talmúdicos, e nos deixamos seduzir pelo autor do Zohar e dos Tikkunim, que nos incita, com lisonjas, a crer em muitas divindades e a servir outros deuses — o "curto de paciência" e a sua consorte (Ze'ir e Nukva)! E os ishmaelitas se mantiveram na sua fé na unidade do Senhor, conforme a receberam de Israel — como escreveu o Rambam, na sua responsa ao "converso justo"; e também muitos dos nossos sábios, que declaram a unidade do Senhor como nós, e conforme se explica dos nossos sábios talmúdicos — e não como escreveram os cabalistas novos, de que a nossa fé na unidade do Senhor não seria como a opinião dos ishmaelitas e dos filósofos divinos, mas por outro caminho, em associação com as Suas criaturas — que é como a fé dos gentios, crentes na Trindade, como se explicou acima (siman 42), e como ainda se explicará adiante.

ובהל' קריאת שמע כתוב כשקרבו ימי ישראל למות קבץ בניו וצוום וזריזם על יחוד ה' ועל דרך ה' שהלך בה אברהם ויצחק אביו, ואמר להם בני שמא יש בכם פסלות מי שאינו עומד עמו ביחוד אדון העולם ענו כולם ואמרו שמע ישראל 'ה אלהינו ה' אחד (כלומר שמע ממנו אבינו ישראל ה' אלהינו ה' אחד) פתח הזקן ואמר ברוך שם כבוד מלכותו לעולם ועד, לפיכך וכו' ע"כ. דבר הלמד מכל האמור שאברהם אבינו ע"ה לימד לכל העולם אמונת יחוד השם וחיבר בה ספרים והודיעם לבניו ולכל הנמשכים אחריו וישמעאל בנו בכללם דהא קי"ל שישמעל עשה תשובה. ואפשר שבשכר שעשה ישמעאל תשובה זכו בניו לחזור לאמונת יחוד ה' אחרי ימים רבים על ידי מחמד שלמד אצל ישאל כידוע, אך בזרע יעקב לא פסקה, ונשארה בזרע לוי ובשרידים משאר שבטים עד שבא מחוקקינו אבי כל הנביאים וראש לחכמים משה רבינו ע"ה ונגלו לו מלאך ה' בסנה בשמרו את השבועה שנשבע לאברהם אבינו וגאל את אבותינו ממצרים על ידו, וקירבנו לפני הר סיני, והכתיר אותנו במצות והודיענ ודרך עבודתו ויחודו ומה יהיה משפט ע"ז והטועים אחריה. וכאשר קרב עתו של משה רבינו ע"ה להפטר הודיעו הקב"ה מה יהיה לנו באחרית הימים בגלותנו, ואמר לו, הנך שוכב עם אבותיך וקם העם הזה וזנה אחרי אלהי נכר הארץ אשר הוא בא שמה בקרבו וכו'. וכך אירע לנו שהטעו אותנו לסור מאחרי ה' אלהינו ולעבוד אלהים אחרים, ולהאמין באלוהות רבים על ידי ספר הזהר הנמסר לנו מיד מלך ממלכי העכו"ם היושבים במזרח, ויחסו הספר הלזה לרשב"י התנא בשקר ומן הוא והלאה נשתנית אמונתינו מעט מעט עד שנהפכה לזרא. ורוב חכמי ישראל לא נתנו לב לדעת מקורו ומבטן מי יצאו הדברים רק האמינו למשאות שוא ומדוחים הממונים בחובו, כאלו מרשב"י התנא הקדוש יצאו הדברים, ולכן לא שמו אל לבם למרורת הפתנים אשר בקרבו כי לקחם בחלק שפתיו והדיחם, ונעשית הקבלה המזוייפת לגבירה! והקבלה האמתית המסורה לנו איש מפי איש ממשה רבי' עד רבי ועד רב אשי ורבינא ור' יוחנן מרה דארעא דישראל נעשית לשפחה בזויה ומאוסה ח"ו ותחתיה רגזה ארץ כמבואר בזהר ויובא לקמן (סי' ס"ז וז"ח). נא) ובכן נשכבה בבשתינו ותכסינו כלימתינו איך עזבנו אמונתינו הצרופה המקובלת בידינו מנביאינו וחכמינו התלמודיים, ונפתינו למחבר הזהר והתקונים המסית אותנו בחלקלקות להאמין באלוהות רבים ולעבוד אלהים אחרים קצר אפים וזוגתו (זעיר ונוקביה)! והישמעלים עמדו באמונתם ביחוד השי"ת כמו שקבלו מישראל כמ"ש הרמב"ם בתשובה לגר צדק והרבה מחכמינו שהם מיחדים את השי"ת כמונו וכפי המתבאר מחכמינו התלמודיים, ולא כמו שכתבו המקובלים החדשים שאין אמונתינו וביחוד השי"ת כדעת הישמעאלים והפילסופים האלהיים, אלא בדרך אחרת בשיתוף ברואיו שהיא כאמונת העכו"ם מאמיני השלוש כמו שנתבאר לעיל סימן מ"ב ויתבאר עוד לקמן.
Nota — o lamento, e os ishmaelitas. O capítulo fecha num tom de luto comunitário: Qafih lamenta que Israel tenha sido levado, pelo Zohar, a "crer em muitas divindades" — e observa, com amargura retórica, que os ishmaelitas (muçulmanos) "mantiveram a unidade de D'us como a receberam de Israel" (apoiando-se na conhecida responsa do Rambam a um converso). É uma inversão deliberada, para envergonhar o seu próprio campo. As teses subjacentes — o Zohar "entregue da mão de um rei gentio", a equiparação à crença trinitária — são as posições polêmicas de Qafih, que a tradição cabalística rejeita (para ela, o Zohar é esoterismo recebido, e o Shemá afirma a unidade absoluta). Apresentamo-las como documento do debate; o Zohar é sagrado para a maioria de Israel.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A presciência e a liberdade

O capítulo abre numa das grandes serenidades da filosofia judaica: como conciliar que D'us tudo prevê com que o homem seja livre. A resposta maimonidiana — que Qafih partilha com Saadia — é que o conhecimento de D'us não é como o nosso, e que Ele, estando fora do tempo, "olha e contempla" sem com isso forçar. Ver não é compelir.

O testemunho do AR'I

Surpreende, em meio à polêmica, que Qafih cite o AR'I com aprovação: à pergunta se o "saber" em Atzilut compeliria a escolha, o AR'I responde "e escolherás a vida" — o homem é livre. Sobre o livre-arbítrio, portanto, os campos convergem; a queixa de Qafih é estreita (a providência confinada ao Ze'ir).

A cadeia desde Avraham

Vem então o belo relato do Rambam: Avraham descobre o Criador pela razão e funda "uma nação que conhece o Nome"; e a fé pura passa de Yitzchak a Yaakov, a Levi, a Moshé, aos profetas e aos sábios. É a masorá autêntica — e o critério com que Qafih julga tudo o mais.

O lamento

O fecho é de luto: a queixa de que Israel se afastou dessa fé pura. As palavras mais agudas — o Zohar "de mão gentia", o paralelo trinitário, o contraste com os ishmaelitas — são posições de Qafih num conflito real, que a tradição cabalística rejeita; damo-las como documento, sem as endossar. Acima da polêmica fica o tema que une os dois lados: um só D'us, conhecido e amado.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXI

"A Ti, o silêncio é louvor": o hino do Rokeach

לְךָ דֻמִיָּה תְהִלָּה
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Um respiro luminoso. Qafih transcreve, quase inteiro, o hino do Rokeach (R. Eliezer de Worms) à unidade incomparável de D'us — Aquele que "enche tudo" e a que nenhuma imagem se compara; como o Invisível "aparece" pela Glória criada; e o mandato de não cogitar o que Ele é. E afirma: esta é a fé pura recebida, em uma só voz com Rambam, Saadia, o Kuzari e o Chovot haLevavot.

A raiz da unidade do Nome

(52) E, com a ajuda d'Aquele que ensina conhecimento ao homem, vamos transcrever as palavras do R. Eliezer, autor do Rokeach, na "raiz da menção do Nome", eis as suas palavras: “quando mencionar o Nome, ao dizer "Bendito és Tu, Senhor", não pense na Glória Kavod vista no coração dos profetas, e na visão sobre o Trono, mas apenas no Senhor que se acha nos céus, e na terra, e no ar, e no mar, e em todo o mundo — o D'us dos pais, que está de pé diante dele: "pus o Senhor diante de mim, sempre"”. E na "raiz da unidade do Senhor" escreveu: “"A Ti pertence o silêncio — Ele é o louvor"; despertam-Te os Teus piedosos; não há como comparar-Te aos Teus servos; que há para cotejar diante de Ti? quem viu, para conhecer o Teu segredo? quem veio até Ti? Tudo vês diante de Ti” etc. “Todo sábio de coração tem o dever de saber — pelo seu conhecimento, ao menos um pouco — a Sua unidade: a verdade da unidade do Nome. E o segredo do Criador, não há força para inquirir o que Ele é; pois não O vê todo vivente — nem anjo, nem serafim, nem profeta —, pois tudo é criado, e Ele criou tudo; Ele é o Formador, Ele é o Criador, Ele é um, e não há segundo a Ele; e quem O viu? Por isso, não há como compará-Lo a nenhuma imagem nem a nenhuma forma — pois toda coisa que tem forma tem limite e fim; mas o Criador não tem fim, nem em cima nem embaixo, nem nas quatro direções do mundo; nem princípio nem fim, nem na Sua sabedoria nem na Sua capacidade. Apenas a força das Suas obras Ele contou ao Seu povo, para fazer saber as Suas potências e a glória do esplendor do Seu reino. Ele, num só tempo e num só instante, a Ele clamam e oram todas as Suas criaturas — cada uma, conforme o que tocou o seu coração e as suas aflições —, e Ele responde a cada uma; sabe, com certeza, que Ele está perto de todos os que O chamam, e ouve. Por isso, o sábio — os seus olhos estão na sua cabeça:”

נב) ובעזרת המלמד לאדם דעת נעתיק דברי קצת מרז"ל שוני הלכות אשר מפיהם אנו חיים והולכים לאור תורתם בדיני התורה וחוקותיה, וכבר העתקתי בקונדרים הקודם קצת דברי הרמב"ם ז"ל, ולעת עתה נעתיק דברי הר"ר אליעזר בעל הרוקח ז"ל בשורש זכירת השם וז"ל כשיזכור השם באמרו ברוך אתה ה', אל יחשוב על הכבוד הנראה בלב הנביאים ומראה על הכסא, כי אם על ה' הנמצא בשמים ובארץ ובאויר ובים ובכל העולם, אלהי האבות העומד לנגדו שויתי ה' לנגדי תמיד ע"ש. ובשורש יחוד ה' כתב: לך דומיה תחלה, יעירו חסידיך, אין לדמותך למעבדיך, מה לערוך נגדיך, מי ראה לידע סודך, מי בא עדיך, הכל תראה נגדיך, וכו' כל חכם לב יש לו לדעת בשביל מדעו, לכל הפחות קצת יחודו, אמת יחוד השם, וסוד הבורא אין כח לדרוש מה הוא. כי לא יראהו כל חי, לא מלאך ולא שרף ולא נביא, כי הכל נברא, והוא ברא כל, הוא היוצר, הוא הבורא, הוא אחד ואין שני לו, ומי ראהו, על כן אין לדמותו לכל דמיון ולכל מראה כי כל דבר שיש לו מראה יש לו גבול וקץ, אבל הבורא אין לו קץ לא למעלה ולא למטה, ולא לארבע רוחות העולם. לא ראש ולא סוף, לא לחכמתו ולא ליכלתו, אך כח מעשיו הגיד לעמו, להודיע גבורותיו וכבוד הדר מלכותו, הוא בעת אחד וברגע אחד יקראו אליו יתפלו כל יצוריו, כל אחד נגע לבבו וצרותיו, ועונה לכל אחד ואחד, ידוע תדע, כי הוא קרוב לכל קוראיו וישמע, על כן החכם עיניו בראשו
"Não te canses a pensar o que Ele é"

“meu filho, ouve as minhas palavras, e não te canses a pensar o que Ele é; pois não poderás saber coisa alguma do Criador — pois Ele não foi criado: foi, é, e será. Que imagem cotejareis a Ele? "A quem me comparareis, que Lhe seja igual?" — pois toda forma dos formados não está no Formador, e toda imagem dos criados não está no Criador, e toda figura dos feitos não está n'Aquele que os faz. No Sefer Yetzirá: "dez sefirot beli mah sem o quê, que não têm fim — profundidade do princípio, profundidade do fim, profundidade do bem, profundidade do mal, profundidade do alto, profundidade do baixo, profundidade do leste, profundidade do oeste, profundidade do norte, profundidade do sul; e um só Senhor único, D'us, Rei fiel, que governa sobre todas elas" etc. "Isto sabes desde a eternidade" — não te cabe inquirir senão "desde o dia em que pôs o homem sobre a terra", como está no Midrash Rabbá: "no que é maior que tu, não inquiras; no que te foi permitido, contempla". E não te cabe sondagem nos assuntos ocultos, senão "desde o dia em que D'us criou o homem sobre a terra". Disse R. Levi: por que se criou o mundo com a letra "bet"? — porque, como a casa bayit é fechada de todo lado e aberta de um só lado, assim não te cabe inquirir "o que há acima, o que há abaixo, o que há antes e o que há depois". Disse R. Tanchuma: "pois grande és Tu, e fazes maravilhas; Tu, D'us, sozinho" — sozinho criaste o mundo; "no princípio criou D'us" — não com labuta nem com fadiga, mas "pela palavra do Senhor se fizeram os céus". Entende, na sabedoria, que Ele enche tudo, e está oculto a todo olho, e não se vê, e não tem fim, e é sábio por Si, e não há coisa que se lhe oculte: "dentro de ti — acaso não estou eu, que encho os céus e a terra?" — como dizemos em Chagigá (cap. "Ein Dorshin").”

בני שמע לדברי ואל תיגע לחשוב מה הוא, כי לא תוכל לידע דבר מהבורא, כי הוא לא נברא, היה, הוה, ויהיה, מה דמות תערכו לו, אל מי תדמיוני ואשוה, כי כל דמות הנוצרים אין ביוצר, וכל דמיון הברואים אין בבורא, וכל תמונת העשוים אין בעושה. בספר יצירה עשר ספירות (בלי מה) שאין להם סוף, עומק ראשית, עומק אחרית, עומק טוב, עומק רע, עומק רום, עומק תחת, עומק מזרח, עומק מערב, עומק צפון, עומק דרום, ואדון יחיד אל מלך נאמן מושל בכולן וכו'. הזאת ידעת מני עד, אין לך לדרוש אלא מני שים אדם עלי ארץ, כדאיתא במדרש רבה, בגדול ממך אל תדרוש, במה שהורשת התבונן. ואין לך חקר בנסתרות, כי אם למן היום אשר ברא אלהים אדם על הארץ, אמר ר' לוי למה נברא העולם בבית, מה בית סתום מכל צד ופתוח מצד אחר, כל אין לדרוש מה למעלה מה למטה מה לפנים ומה לאחור. אמר ר' תנחומא כי גדול אתה ועושה נפלאות אתה אלהים לבדך בראת את העולם, בראשית ברא אלהים לא בעמל ולא ביגיעה. אלא בדברי ה' שמים נעשו, הבן בחכמה כי הוא מלא כל, ונעלם מעין כל, ואינו נראה, ואין לו סוף, וחכם מאליו, ואין דבר נעלם ממנו בקרבך, הלא את השמים ואת הארץ אני מלא, כדאמרינן בחגיגה פרק אין דורשין.
Nota — os limites do pensamento. O Rokeach cita o Sefer Yetzirá ("dez sefirot beli mah… que não têm fim, profundidade do princípio, profundidade do fim…") e o liga não a um mapa especulativo do divino, mas ao oposto: ao mandato de não inquirir "o que há acima, abaixo, antes, depois" (Chagigá; Bereshit Rabbá). É o mesmo Sefer Yetzirá que a Cabala lê como fundamento da doutrina das sefirot — e Qafih traz o Rokeach precisamente para mostrar uma leitura alternativa, sóbria e apofática: as "profundidades" como as dimensões insondáveis de um D'us que "enche tudo" e está além de toda figura. Onde a Cabala vê estrutura, o Rokeach (na leitura de Qafih) vê o silêncio diante do Infinito.
O pouco que contém o muito

“E é um Rei alto e exaltado que habita sobre eles; e no início do Midrash Mishlei: "e a morada do Seu esplendor está nos céus, em cima, e a Presença Shechiná da Sua fortaleza, nas alturas dos altos" — Ele é o nosso D'us, e não há outro. "Se subir aos céus, ali estás Tu; e se estender o leito no Sheol, eis-Te"; "também ali a Tua mão me conduzirá".” No Bereshit Rabbá, disse R. Onya bar Sisya: “às vezes, o mundo e a sua plenitude não contêm a Sua divindade; e às vezes, Ele fala com o homem de entre os fios do seu cabelo — o pouco contém o muito” etc. No Torat Kohanim: “"os céus e a terra eu encho" — vê a afeição de D'us por Israel: a Glória, tão vasta, contraída entre os dois querubins”. No Bereshit Rabbá: “"e viu D'us tudo o que fez" — os seres inferiores e os superiores num só olhar; este mundo e o mundo vindouro”. E Ele é um e singular, e criou o mundo do nada, pela vontade do Seu desejo — "a Sua alma desejou, e Ele fez", e não contra a Sua vontade; "pela palavra do Senhor se fizeram os céus". O Criador não precisa de lugar nem de morada, pois Ele foi antes de todas as existências; e não há paredes nem vigas que se interponham diante d'Ele, pois não houve quem criasse coisa que Lhe seja danosa, posta contra Ele. Bendito seja o Criador e o Formador de tudo — o mais tênue que tudo o que é tênue, maravilhoso, e oculto, e escondido, e recôndito.”

ומלך רם ונשא שוכן עליהם, ובריש מדרש משלי ומושב יקרו בשמים ממעל ושכינת עזו בגבהי מרומים, הוא אלוהינו ואין עוד אחר, אם אסק שמים שם אתה ואציעה שאול הנך, גם שם ידך תניחני ותקחני, בבראשית רבה אמר ר' אוניא בר סיסיא פעמים שאין העולם ומלואו מחזיק אלהותו, ופעמים שהוא מדבר בין שערות ראשו, מועט מחזיק את המרובה וכו' בתורת כהנים. את השמים ואת הארץ אני מלא ראה חיבתן של ישראל. כבוד המרובה בין שני הכרובים, בבראשית רבה וירא אלהים את כל אשר עשה, התחתונים העליונים בסקירה אחת, העולם הזה והעולם הבא, והוא באחד ומיוחד, ברא את העולם בולא כלום, ברצון חפצו ונפשו אותה ויעש, ולא שלא כרצונו, בדבר ה' שמים ונעשו, הבורא אינו צריך למקום ומכון, כי היה קדם כל הויות, ואין קירות והקורות חוצצין לפניו. כי לא היה בורא דבר שהוא מזיק כנגדו. יתברך הבורא והיוצר כל, דק מכל דק, נפלא ונעלם וחבוי וספון.
Nem repouso, nem fadiga, nem instrumento

“Toda coisa da criação não se iguala ao Criador. Não se lhe aplica medida nem quantidade, nem comprimento nem largura, nem imagem nem figura de um bloco, nem aderência nem membros, nem sombra nem luz, nem semelhança nem forma, nem rotação. E, conforme a Sua vontade, faz ouvir uma voz diante da Sua Glória esclarecida, que se assemelha conforme a necessidade da hora. O Criador é o que existe em tudo; o Criador não tem semelhança nem forma, nem acidente nem corpo, nem associação, nem apoio, nem aderência; e não precisa de coisa alguma, nem de morada nem de lugar; e não está aderente a um lugar; e enche todos os céus e a terra, e o mar, e o ar, e todos os mundos. E não se lhe aplica nem o estar de pé, nem o sentar-se, nem o andar, nem o apoiar-se; e Ele é vivo pela Sua força e pela Sua capacidade, todos os dias; e não tem n'Ele estremecimento, nem fadiga, nem operação de um instrumento. Ele cria tudo, sem labuta e sem fadiga; e todos os olhos dos profetas, e todo olho, não O divisam nem O contemplam. O Criador foi antes de tudo — fundamento e o que está antes de tudo, primeiro a tudo, vivo e subsistente, grande, poderoso e temível, Rei louvado e exaltado; e não há n'Ele nem acréscimo nem falta, nem redução nem sobra; não há fim à Sua existência. "Acaso a sondagem de D'us tu achas? acaso até o fim de Shaddai tu achas?" — para a Sua compreensão não há número; para a Sua grandeza não há sondagem.”

כל דבר בריאה אין שוה לבורא. אין שייך בו שיעור וקצב, ולא אורך ולא רוחב ולא דמות ולא צורת גולם, ולא דיבוק ולא איברים, ולא צל ולא אור, ולא דמות ולא צורה, ולא סיבוב. וכפי רצונו משמיע קול לפני כבודו המבוררה, המדמה עצמו כפי צורך השעה. הבורא הוא ההוה בכל, הבורא אין לו דמות וצורה, ולא מקרה ולא גוף, ולא שיתוף וסמך ודיבוק, ואינו צריך לכלום, ולא למעון ולא למקום, ואינו דבוק למקום, וממלא כל השמים והארץ, והים והאויר וכל העולמים, ואין שייך בו לא עמידה ולא ישיבה ולא הליכה ולא סמיכה, והוא חי בכחו ויכלתו כל הימים, ואין לו נדנוד ולא יגיעה ולא פעולת כלי הוא בורא כל, בלא עמל ולא יגיעה, כל עיני הנביאים וכל עין לא תשורנו ולא תשופנו. הבורא היה טרם כל, מכון וקדם לכל, ראשון לכל חי וקיים גדול נבור ונורא, מלך מהולל ומשובח, ואין בו לא תוספת ולא חסרון, ולא מיעוט ולא יתרון, אין קץ להוייתו. החקר אלוה תמצא, אם עד תכלית שדי המצא. לתבונתו אין מספר, לגדולתו אין חקר.
A aliança de não cogitar a Sua essência

“O Criador vê tudo — olho que vê e ouvido que ouve —, por isso anda com recato. Quando pensares no Criador do mundo, no que Ele é, e como é a Sua presença em todo lugar e as Suas obras — fecha a tua boca de falar, e o teu coração de cogitar; afasta o pensamento do teu coração. E, se o teu coração se desviou para este pensamento, apressa-te, e não cogites, e volta à unidade do Lugar do mundo, ao Seu culto e ao Seu temor — pois, como as "santas criaturas" chayot, quando querem endireitar a sua estatura, logo se curvam por Seu temor, e voltam e se prostram —, assim refreia o teu coração de cogitar; e sobre esta coisa se cortou uma aliança: não pensar na Sua divindade, no que todos os sábios não podem saber. E volta e pensa que Ele é o Formador de tudo, e Ele é o Criador; crê na Sua divindade — de que Ele é um, único Criador.”

הבורא רואה את הכל. עין רואה ואוזן שומעת. על כן הצנע לכת בבית הכסא ועם אשתך. כשתחשוב על בורא עולם מה הוא, והיאך חנייתו בכל מקום ומעשיהו. בלום פיך מלדבר, ולבר מלהרהר. הסר המחשבה מלבך. ואם סר לבך למחשבה זאת, חושה ומהר, ואל תהרהר, ושוב ליחוד מקומו שלעולם, לעבודתו וליראתו, בחיות הקדש כשרוצין לזקוף קומתן מיד כופפין מאימתו, ושבים ומשתחוים. כך סבב לבך מלהרהר, ועל דבר זה נכרתה ברית שלא לחשוב באלהותו. שאין כל חכמים יכולים לידע. ושוב וחשוב כי הוא יוצר הכל, והוא הבורא, האמן באלהותו כי הוא אחד, יחיד הבורא.
Como o Invisível "aparece"

“E Ele mostra a Glória Kavod conforme a Sua vontade e o Seu desejo. A aparição da Glória do Senhor é "como fogo consumidor", e se chama Shechiná; e às vezes se vê sem forma — apenas como uma luz, sem visão perceptível a toda criatura. E o profeta ouve a fala e vê a visão — uma aparição admirável; e diz "vi o Senhor" — quer dizer a aparência da Sua Glória etc. E a aparência da semelhança da Sua Glória é conforme o desejo dos Seus decretos: às vezes na semelhança de homem, e às vezes n'outra semelhança — pois o Seu desejo é o que mostra a Sua Glória; ora como exércitos de hostes unidas — "Senhor dos Exércitos" —, e às vezes como corpos distintos — "Senhor, D'us dos Exércitos" —, e às vezes se chamam "filhos de D'us", e às vezes "vigias e santos"; e a fala vem como que da boca da Grande Glória. Acautela-te, não vás mentir sobre Ele.

ומראה הכבוד כפי רצונו וחפצו. מראה כבוד ה' כאש אוכלת, וקראו השכינה. ופעמים נראה בלא צורה. כי אם אורה בלא ראות לכל יצירה. ושומע הדבור ורואה החזון מראה מופלאה. ויאמר ראיתי את ה', את לרכות כבודו וכו' ומראה דמות כבודו כחפץ גזרותיו. פעמים דמות אדם, ופעמים דמות אחר כי חפצו מראה כבודו, כצבאות חיילות דבוקים יחד, ה' צבאות, ופעמים גופים מחולקים, ה' אלהי הצבאות, ופעמים נקראים בני האלהים, ופעמים עירין וקדישין, והדבור בא כמפי הכבוד הגדול, הזהר פן תכזב עליו.
Nota — como o Invisível "aparece". O passo mais sutil do Rokeach: D'us em Si não tem forma nem é visto por criatura alguma — mas Ele "mostra a Glória Kavod conforme a Sua vontade", uma luz criada (a Shechiná) que os profetas percebem, ora como fogo, ora sem forma, ora "à semelhança de homem". É a mesma teologia de Saadia e do Rambam (a "Glória criada"): o que o profeta vê não é a essência de D'us, mas um sinal que Ele suscita conforme a hora. Assim o Rokeach concilia os antropomorfismos da Escritura com a incorporeidade absoluta — e adverte, no mesmo fôlego, a "não fazer pecar a tua carne" atribuindo a D'us "divisão de membros". É a chave de toda a posição de Qafih: a linguagem das "faces" é figura, não descrição.
Ninguém vê a Glória — nem os anjos

“Guarda-te, e guarda muito a tua alma, não vás "fazer pecar a tua carne" a dizer sobre Ele "divisão de membros" — "que imagem cotejareis a Ele?", pois "não vistes forma alguma". E o que está escrito "e viram o D'us de Israel" — foi a Glória que viram (como traduziu Onkelos). E no cap. 1 de Berachot: "assim como o Santo vê e não é visto, assim a alma vê e não é vista"... e o debate sobre "pois não me verá o homem, e viverá" — R. Akiva diz que é conforme o seu sentido literal; "e viverá" — referindo-se aos anjos servidores e às santas criaturas; R. Eliezer diz: "e viverá" — não O vê em vida, mas vê na hora da morte... e no Sifrei: "e viverá" — em suas vidas não veem, mas veem na hora da morte; R. Akiva diz: as criaturas que carregam o Trono não veem a Glória; disse Rashbi: até os anjos servidores, cuja vida é vida eterna, não veem a Glória.” E o Rokeach estendeu-se ainda, e conclui ali: “o Criador advertiu-nos a unificá-Lo duas vezes por dia — "o Senhor, nosso D'us, o Senhor é um" — pela aceitação do coração, pela crença n'Ele, e não só pela audição do ouvido: aqui O aceitamos por D'us — "este é o nosso D'us" — e cremos que Ele é um, e na unidade do Seu Nome; "e saberás hoje, e farás voltar ao teu coração, que o Senhor é D'us, nos céus em cima e sobre a terra embaixo — não há outro". Ele é antigo e vivo para sempre, e não tem sócio, e é um, e não há como compará-Lo a nenhuma semelhança ou forma; "e guardai muito as vossas almas, pois não vistes forma alguma" — "que semelhança cotejareis a Ele?". E dos Seus nomes, e dos Seus louvores, e das Suas obras, não poderemos saber — pois não há como Ele. Bendito seja Ele e bendito o Seu Nome” — até aqui a linguagem do Rokeach.

השמר לך ושמור נפשך מאד פן תחטיא את בשרך לומר עליו חלוקת איברים, מה דמות תערכו לו, כי לא ראיתם כל תמונה, ומה שכתוב ויראו את אלהי ישראל, הכבוד ראו (כמו שתרגם אונקלוס) ובפרק קמא דברכות מה הקב"ה רואה ואינו נראה, אף הנשמה רואה ואינה נראית, מנין שהקב"ה מניח תפילין, פי' מראה מכבודו באובנתא דליבא, כמו וירא יעקב כי יש שבר במצרים, ולבי ראה הרבה, כי לא יראני האדם וחי, ר' עקיבה אומר כמשמעו, וחי אלו מלאכי השרת וחיות הקדש, ר' אליעזר אומר וחי אינו רואה אבל רואה בשעת מיתה, ובספרי וחי בחייהן אינן רואין, אבל רואין בשעת מיתה, ר' עקיבה אומר וחי, חיות הנושאות את הכסא אינן רואות את הכבוד, אמר רשב"י אף מלאכי השרת שחייהן חיי עולם אינן רואים את הכבוד. והאריך עוד הרוקח ז"ל ומסיים שם, הבורא הזהירנו ליחדו שני פעמים ביום ה' אלהינו ה' אחד, בקבלת הלב האמנתו ולא בשמיעת האזן, בכאן נקבלהו באלוה, זה אלהינו, ולהאמין שהוא אחד, ויחוד שמו, וידעת היום והשבות אל לבביך כי ה' הוא האלהים בשמים ממעל ועל הארץ מתחת אין עוד, הוא קדמון וחי לעולמים, ואין לו שותף, והוא אחד ואין לדמותו, אל דמות וצורה, ונשמרתם מאד לנשפותיכם כי לא ראיתם כל תמונה, ומה דמות תערכו לו. ומשמותיו ומשבחיו ומעשיו לא נוכל לדעת. כי אין כמוהו. ברוך הוא וברוך שמו ע"כ לשון הרקח.
"E tudo é um" — basta?

(53) Dá o teu coração, ó leitor agradável, às palavras deste Rav, sobre a figura da unidade verdadeira. E o Ramban trouxe as suas palavras, em resumo, na sua carta aos rabinos da França. Esta é a nossa fé, pura de todos os conceitos imaginados e falsificados; ela é a que brota de uma fonte fiel — dos Sábios —, como trouxe o Rav mencionado do Bereshit Rabbá, e do Torat Kohanim, e do Sefer Yetzirá, e dos livros da Guemará — todos eles retos para quem entende. Todas as suas palavras estão alinhadas e em concordância com as palavras do Rambam (na sua grande obra, a Mishné Torá, e no comentário da Mishná, e no Moré), e de R. Saadia Gaon (no Emunot ve-De'ot e na sua tradução árabe da Escritura), e de R. Yehudá haLevi (no Kuzari e nas suas súplicas e poemas), e de R. Bachya (no Chovot haLevavot), e do Shvilei Emuná, e do Sefer Mitzvot haGadol: a saber, que Ele, bendito, é um, singular — tal que não há unidade como a Sua, e Ele não é como os demais "uns", mas uma unidade que não tem semelhante. E a semelhança de todos os criados não está no Criador, e toda figura dos feitos não está n'Aquele que os faz; e Ele não tem nenhum partzuf de entre os partzufim que imaginam os adeptos da Cabala nova. E é proibido ao homem expandir-se e figurar, no seu juízo, como Ele é — conforme o dito dos Sábios "e não vagueis após o vosso coração — isto é minut"; e não há minut maior do que esta: pensar acerca do Criador, bendito, que tem vários partzufim, divididos nos seus nomes, nas suas qualidades e nas suas operações, e que sempre se acasalam, e fazem "gerações"... E, depois de ter contado vários partzufim diversos, chamados pelos nomes do Santo — que lhe adianta, e que lhe acrescenta, o fato de dizer, depois, "e tudo é um"? Pois ele já falou com a sua boca o que pensou no seu coração, e proferiu com os seus lábios e escreveu com a sua pena que são muitos. Acaso vem a mera fala, sozinha, e anula o pensamento, a fala e a obra que se escreveu num livro?! Porém, a verdade completa, recebida junto à nossa nação, de geração em geração: que, em verdade, não há medida nem quantidade ao nosso D'us — nem comprimento nem largura, nem semelhança nem figura de um bloco; e, quanto mais, que Ele não tem esposa, que Lhe seja auxílio — pois Ele não precisa de auxílio; pois, para a Sua grandeza, não há sondagem nem fim, e Ele é o Primeiro, e não tem princípio ao Seu princípio.

נג) תנה לבך קורא נעים בדברי הר' הלזה בתמונת היחוד האמתי. והרמב"ן הביא דבריו בקצור באגרתו לרבני צרפת. היא אמונתינו הטהורה מכל רעיונות מדומות מזויפות. היא הנובעת ממקור נאמן מרז"ל שהביא הר' הנז' מבראשית רבה, ותורת כהנים, וספר יצירה, וספרי גמרא, כולם נכוחים למבין. כל דבריהם מכוונים ומתאימים לדברי הרמב"ם ז"ל בחיבורו הגדול היד. ובפי' המשנה ובמורה, והר' סעדיה גאון בס' האמונות והדעות בתרגומו הערבי למקרא ור' יהודה הלוי בכוזרי ובתחנותיו ושיריו, ור' בחיי בחובת הלבבות, ושבילי אמונה, וס' מצות הגדול, שהוא ית' אחד מיוחד שאין אחדות כמהו ואיננו כשאר האחרים, אלא אחדות שאין כמוה. ודמיון כל הברואים אין בבורא. וכל צלם העשוים אין בעושה, ושאין לו שום פרצוף מכל הפרצופים שמדמים בעלי הקבלה החדשה. ושאסור לאדם להרחב ולצייר בדעתו היאך הוא, והיאך הנייתו. כמאמר רז"ל ולא תתורו אחרי לבבכם זו מינות ואין לך מינות גדולה מזו לחשוב לבורא ית' כמה פרצופים חלוקים בשמותן ובאיכותן ובפעולותיהם. ותמיד מזדווגים, ועושים תולדות זה מוליד נשמות למלאכים, וזה מוליד נשמות לישראל (זהר יתרו דף פ"ט) וסטרא אחרא סמא"ל בספירותיו הנקרא אל אחר ואדם בליעל מוליד נשמות לגוים. ואחר שסיפר לנו כמה פרצופים שונים הנקראים בשמותיו של הקב"ה. מה יתן ומה יוסיף מה שהוא משקר בלשונו אחר כך ואומר וכלא חד. והוא כבר דיבר בפיו מה שכבר חישבה בלבו. וגם הוציא בשפתיו וכתב בקולמוסו שהם רבים. וכי אתי דיבור לחודיה ומבטל מחשבה ודבור ומעשה שכתב בספר? אכן האמת הגמור המקובל אצל אומותינ ומדור דור. כי באמת ובתמים אין שיעור וקצב לאלהינו יתברך שמו ולא אורך ולא רוחב, ולא דמות ולא צורת גולם. וכל שכן שאין לו אשה, שתהיה לו לעזר ולהועיל, שהוא ית' אינו צריך לעזר. כי לגדולתו אין חקר ולא סוף, והוא ראשון ואין לו ראשית לראשיתו.
Nota — "e tudo é um" basta? Aqui Qafih formula a sua objeção lógica mais nítida, na esteira do Moré I:50: depois de descrever vários partzufim distintos — com nomes, qualidades e até "uniões" e "gerações" próprias —, de que serve concluir "e tudo é um"? Para ele, é o mesmo que o cristão dizer "os três são um": a unidade afirmada com a boca não desfaz a multiplicidade pensada e escrita. A Cabala responde que a comparação falha na raiz: os partzufim não são entidades que depois se somam num, mas modos da autorrevelação de um D'us que nunca foi múltiplo; as "uniões" e "gerações" são símbolos do fluxo da abundância (shefa), não biografia de deuses. Para o cabalista, "tudo é um" não é um remendo, mas a verdade que o símbolo serve. Eis, de novo, a única divergência: figura que ilumina, ou figura que arrisca.
A fé recebida, de Avraham a Moshé

(54) E esta é a nossa fé e a nossa tradição fundamental, que recebemos dos nossos pais, geração após geração, até Moshé, nosso mestre, e até Avraham, nosso pai. E ela é igual e concorda com a tradição dos ishmaelitas, recebida junto a eles do seu legislador — que a recebeu de Israel, como se mencionou acima; pois, de outra fonte — de Avraham, nosso pai — etc. E uma afeição extra nos foi dada a conhecer: que o Santo nos aproximou diante do Monte Sinai, e se revelou a Sua Glória a nós ali, e deu, com a Sua voz, uma voz de força a toda a nossa assembleia, a dizer: "Eu sou o Senhor teu D'us; não terás outros deuses diante de mim"; e Ele nos legou Torá, mandamentos e estatutos.

נד) וזוהי אמונתינו וקבלתינו העיקרית שקבלנו מאבותינו דור אחר דור עד משה רבי' ועד אברהם אבינו. והיא שוה ומתאמת לקבלת הישמעאלים המקובלת אצלם ממחוקקם שקיבל מישראל כנז' לעיל. כי ממקור אחר מאברהם אבינו וכו' כנז"ל. וחיבה יתירה נודעת לנו. שקירבנו הקב"ה לפני הר סיני, ונגלה כבודו לנו שם, ונתן בקולו רול עוז לכל קהלינ ולאמר אנכי ה' אלהיך, לא יהיה לך אלהים אחרים על פני. והנחילנו תורה ומצות וחקים.
O sistema que recapitula — e critica

E não se deve trazer prova das gerações dos tempos da Idade Média, que creram na Cabala nova — visto que estudavam o livro do Zohar por mera recitação, sem entender, como é sabido; e cumpriram em si o princípio "recite o homem primeiro", apenas — mas "e depois, que entenda" não cumpriram; e não aprofundaram a sondagem nas palavras do livro mencionado, para entender que eles derrubam os cantos da nossa santa Torá e os seus princípios, que explicou o Rambam no comentário da Mishná. E por isso dizem "Gadel Elohim Chai" toda noite de santo Shabat, e se ocupam da recitação do livro do Zohar — e não souberam que as suas partes contradizem umas às outras, como escreveu Rabbenu Tam ibn Yachya. E, se eles soubessem e entendessem que é assim, distanciar-se-iam delea ao extremo do afastamento; pois "olho que vê e ouvido que ouve" percebe que eles corporificam até o Ein Sof — que está (segundo as suas palavras) "mais e mais alto" —, e o figuram como uma bola redonda e oca, vazia no seu meio, que vem a ser por meio do tzimtzum contração feito nele recolhendo-se para os lados, a uma distância igual, a fim de dar um lugar onde possam estar, no espaço vazio, todos os emanados, os criados, os formados e os feitos. E então se estendeu, do Ein Sof, uma linha kav fina, da luz circular do Ein Sof, de cima para baixo; e se fizeram as sefirot dos círculos daquela linha, círculo dentro de círculo; e também se encadeou e se estendeu aquela linha em yosher retidão, dentro do vácuo, e se fizeram as sefirot da retidão — que eles chamaram "medidas" e "vasos", e que são "a essência da divindade"; e também a sua alma — que é a luz interior — e também o seu manto — que é a luz circundante —, tudo se estendeu da essência do Ein Sof: d'Ele o corpo, d'Ele a alma, d'Ele o manto. Todos se estendem da essência daquela luz, como escrevi acima (seção 39), em nome do Shoshan Sodot e do Mishnat Chasidim — que também os vasos são divindade completa, pois "de um só barro foram amassados". E estas causas se estendem, e cada uma se faz causa àquilo que está abaixo dela: a primeira dos partzufim da retidão, e os partzufim abrangentes — Adam Kadma'a, e depois dele Adam Kadmon, e depois dele Atika Kadisha, e depois dele Arich Anpin, e dele se fizeram Abba e Imma, e deles se fizeram Ze'ir e a sua Nukva — e este se chama "filho" de Abba e Imma. Todos estes partzufim se encadearam um do outro, e se chama cada um deles "causa" do partzuf emanado dele depois. E Abba e Imma coroaram o Ze'ir com duas coroas, e o fizeram dominar sobre todos os criados, e ordenaram (segundo as suas palavras) servi-lo, e temer a sua esposa — que a Escritura supostamente "incluiu" no temer, ao dizer "ao Senhor teu D'us temerás", o "et" vindo a incluir a sua Nukva, para temê-la (como se explicou acima, seções 26–28) — o que não subiu à mente de Shimon haAmsoni (e há quem diga Nechemiá haAmsoni) nem de R. Akiva. E atribuíram o culto ao Ze'ir Anpin especificamente, conforme se disse "e a Ele servirás"; e ele é chamado, na sua boca, "HaVaYaH Eloheinu", e é a causa e o partzuf último dos partzufim da Emanação; e disseram que ele é o nosso D'us, e nós somos o Seu povo e os Seus servos — como está explicado no Kisé Eliyahu, e no Sefer haBrit, e no Yosher Levav (p. 21, 31, 32); e o assunto do seu encadear-se está no Etz Chaim (Sha'ar Iggulim ve-Yosher) e no Kisé Eliyahu.

ואין להביא ראיה מדורות ימי הבינים שהאמינו בקבלה החדשה לפי שהיו לומדים ס' הזהר בגרסא בעלמא מבלי הבין כידוע. וקיימו בעצמם לגרוס איניש לבד, אבל והדר ליסבר לא קיימו, ולא העמיקו חקר בדברי הספר הנזכר ולא בשאר ספרי הקבלה החדשה להבין שהם הורסים פנות תורתינו הקדושה ועיקריה ויסודותיה שביארם הרמב"ם בפי' המשנה. ולפיכך הם אומרים גדל אלהים חי בכל ליל שבת קודש ועוסקים בגירסת ס' הזהר ולא ידעו שהם סותרים זה את זה כמו שכ' רבי' תם ן' יחיא ז"ל. ואלו ידעו והבינו שהוא כן היו מרחיקים עצמם ממנה תכלית ההרחקה. כי עין רואה ואזן שומעת שהם מגשימים אפי' את האין זוף שהוא (לפי דבריהם) לעילא לעילא, ומציירים אותו ככדור עיגול וחלול באמצעיתו פנוי וריקם המתהוה על ידי הצמצום הנעשה בו לצדדין שוה בהשואה א'. כדי להמציא מקום שיוכלו להיות שם במקום הריקן כל הנאצלים והנבראים והנומרים והנעשים. ואז נמשך מאוד האין סוף קו דק מן האור העגול של האין סוף מלמעלה למטה ונעשו ספירות העיגולים מאותו הקו הנמשך ממנו עגול בתוך עגול. וגם נשתלשל ונמשך הקו ההוא ביושר תוך החלל ונעשו ספירות דיושר. אשר קראום מדות וכלים והם עיקר האלהות, וגם נשמתם שהוא האור הפנימי גם מלבושם שהוא האור המקיף הכל נמשך ונשתלשל מעצם האין סוף המקיף את הכל, ממנו גוף, ממנו נשמה, ממנו מלבוש. כלם נמשכים מעצמות האור ההוא כמו שכתבתי לעיל פי' ט"ל בשם שושן סודות ומשנת חסידים שגם הכלים אלהות גמור כי מחומר אחד קורצו. והסבות הללו נמשכים ונעשה כל אחד סבה למה שלמטה ממנה. זה סבה לזה וזה סבה לזה. הסבה הראשונה מפרצופי היושר ופרצופים הכוללים אדם דשמאה, ואחריו אדם קדמון, ואחריו עתיקא קדישא, ואחריו אריך אנפין, וממנו נחיו אבא ואימא, ומהם נהיו זעיר ונוקביה, והוא הנקרא בן לאבא ואימא. כל הפרצופים הללו נשתלשלו זה מזה, ונקרא כל אחד מהם עילה וסבה לפרצוף העלול ממנו אחריו. ואבא ואימא אעטרו לז"א בתרין עטרין והשליטוהו על כל הברואים וצוו (לפי דבריהם) לעבדו ליראה את אשתו, שריבה אותה הכתוב ליראה באמרו את ה' אלהיך תירא, את לרבות נוקבא דיליה ליראה אותה כמו שנתבאר לעיל סי' כ"ו כ"ז כ"ח, מה שלא עלה על דעת שמעון העמסוני ואמרי לה נחמיה העמסוני ור' עקיבה. ויחסו העבודה לזעיר אנפין דוקא כמו שנ' ואותו תעבוד והוא נקרא בפיהם יהוה אלהינו. והוא הסבה והפרצוף האחרון שבפרצופים האצילות. ואמרו שהוא הוא אלהינו ואנחנו עמו ועבדיו כמבואר בכסא אליהו וס' הברית ויושר לבב דף כ"א ול"א ול"ב. וענין השתלשלותם בעץ חיים שער עיגולים ויושר וכסא אלהיו.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O hino do Rokeach

O coração do capítulo é a longa citação do Rokeach — R. Eliezer de Worms, dos Chassidei Ashkenaz — sobre a unidade de D'us. É uma das mais belas meditações apofáticas da tradição: nenhuma forma, nenhum limite, nenhum repouso nem fadiga; um D'us que "enche tudo" e a que nenhuma imagem se compara, mas que está perto de cada um que O chama. Qafih traz-no como a voz autêntica da fé recebida.

Como o Invisível aparece

O passo mais fino: D'us em Si não é visto — nem pelos anjos —, mas "mostra a Glória conforme a Sua vontade", uma luz criada (a Shechiná) que o profeta percebe, ora como fogo, ora sem forma, ora como homem. É a teologia da "Glória criada" (Saadia, Rambam): o que se vê é um sinal, não a essência. Daí o aviso: não atribuir a D'us "divisão de membros".

"Tudo é um" basta?

A objeção lógica de Qafih: depois de nomear partzufim distintos, que se acasalam e geram, dizer "tudo é um" não desfaria a multiplicidade — como o cristão que diz "os três são um". A Cabala replica que os partzufim não são entidades somadas, mas modos do Um que nunca foi múltiplo, e que "tudo é um" é a verdade que o símbolo serve.

A fé recebida, e o sistema

Qafih afirma que esta fé pura — a do Rokeach, do Rambam, de Saadia, do Kuzari, do Chovot haLevavot — é a que se recebeu de Avraham a Moshé ao Sinai. E recapitula, por contraste, todo o sistema luriânico (tzimtzum, kav, partzufim, culto ao Ze'ir). Apresentamos a sua crítica como documento do debate; mas o que ilumina o capítulo é o louvor partilhado do D'us único, "a quem o silêncio é louvor".

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXII

"Senão ao Senhor, sozinho": a acusação de shittuf

בִּלְתִּי לַה' לְבַדּוֹ
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O ponto culminante da polêmica. Qafih reúne as categorias clássicas de heresia, a idolatria da geração de Enosh e a proibição de "associar o nome do Céu a outra coisa", para concluir o que considera a sua acusação mais grave: que intencionar o Ze'ir Anpin na oração seria idolatria. É a sua leitura — vigorosamente rejeitada pela tradição cabalística, para quem o culto sobe ao Um único.

As categorias da heresia

(55) Eis estas são as arestas dos caminhos dos cabalistas novos, no tocante à Divindade — tal que o observador verá que elas se opõem inteiramente às palavras dos nossos mestres (no Bereshit Rabbá, no Yalkut seção 31, no Midrash Rabbá parashat Yitró e no Yerushalmi Shabat): a saber, que só um rei de carne e sangue tem pai, ou irmão, ou filho. E a verdade é conforme os Sábios: que o nosso D'us, bendito, é um, e não há único como a Sua unidade. E ainda escreveu o Rokeach (na "raiz da teshuvá"): “estes são os minim: o que diz "o mundo segue conforme o seu costume, e não há D'us no mundo"; e o que diz "não há um Criador antigo anterior a tudo" (esta é a opinião do "filósofo" autor do Zohar, que disse que Atik se revelou a Rashbi e lhe permitiu revelar o segredo de que as divindades são causas múltiplas... e que Abba é o Criador... mas "façamos o homem" disse-o Imma; e Adam Kadmon, acima deles, disse "vede agora que eu, eu sou Ele"); ou o que diz "há um D'us outro com Ele" (também nisto erraram os cabalistas, pois consideram a cada um dos partzufim "um deus, ele e a sua esposa"... e creem em "dez sefirot na kelipá", chamada "el echad"); ou o que diz "Ele tem semelhança e forma, como um homem, e corpo" (esta também é a opinião dos cabalistas — o "segredo" de "e criou Elokim o homem à sua imagem"); ou o que associa outra coisa com Ele (e se explicará adiante, seção 58, como os cabalistas associam); ou o que diz "não há profecia"; ou o que nega a Torá de Moshé — nem que uma composição ou um ponto gramatical; ou o que diz "o Criador não conhece os pensamentos do homem", ou "o homem não é julgado conforme os seus atos" (isto dizem os cabalistas a respeito de Atik, Arich e dos partzufim acima deles, seções 44–45); ou o que diz "não há mundo vindouro e não há recompensa" — estes são os minim e os apikorsim, que "se fazem descer e não se fazem subir", se não fizeram teshuvá” — até aqui o Rokeach. E no Sefer Mitzvot haGadol (preceitos negativos, 1): o primeiro mandamento é não elevar no pensamento a ideia de que há um D'us além do Senhor, conforme "não terás outros deuses diante de mim"... e no cap. "Quatro penas de morte" disseram que todo o que associa o nome do Céu a outra coisa é extirpado do mundo, conforme "senão ao Senhor, sozinho"; e diz R. Yaakov que "uma espada para o Senhor e para Gideon" não é associação de divindade — até aqui o Semag.

נה) הן אלה קצות דרכי המקובלים החדשים בענין האלהות, אשר יראה הרואה שהם מתנגדים לגמרי לדברי רבותינובבראשית רבה וילקוט המובא לעיל סי' ל"א ומדרש רבא פרשת יתרו וירושלמי שבת פרק במה אשה המובא בקונדריס שקדם דמלך בשר ודם שמלך יש לו אב או אח או בן וכו'. והאמת כדברי רז"ל כי אלהינו בהו"ש אחד ואין יחיד כיחודו, עוד כ' הרקח בשורש תשובה וז"ל אלו הן המינים האומר עולם כמנהגו נוהג ואין אלוה בעולם והאומר אין בורא קדמון לכל ( זהו דעת הפילסוף מחבר הזהר דמ"ל שעתיק נגלה לרשב"י והתיר לו לגלות הסוד שהאלוהות עלות וסבות רבות זו למעלה מזו ושאבא הוא הבורא והוא שאמר יהי אור, ויהי רקיע, ויקוו המים, ויהי מארת, אבל נעשה אדם אמרה אימא. ואדם קדמון שהוא למעלה מהם אמר ראו עתה כי אני אני הוא ואין אלהים עמדי) או האומר יש אלוה אחד עמו. (גם בזה שגגו המקובלים ונפתו למחבר הזהר שחושבים לכל אחד מן הפרצופים אלוה הוא ואשתו כדלעיל סי' כ' וכ"א וכ"ד וגם מאמינים במציאות עשר ספירות בקליפה הנקרא בשם אל אחד) או האומר יש לו דמות וצורה כאדם וגוף ותמונה (זה ג"כ דעת המקובלים שאמרו שזהו סוד ויברא אלהים את האדם בצלמו) או משתף דבר אחר עמו (ויתבאר לקטן סי' נ"ח איך המקובלים משתפים, וכבר ביארתי לעיל סי' מ"ח שהמקובלים ממאנים למור ד' בתים הראשונים שביגדל אלהים חי) או האומר שאין שם נבואה בעולם מן השי"ת או מכחיש תורת משה רבינו אפי' חבור אחד או דקדוק אחד או אומר אין הבורא יודע עשת מחשבות האדם, או אין האדם נדון לפי מעשיו (זה אומרים המקובלים על עתיק ואריך ופרצופים שלמעלה מהם. שאינם דנים את האדם לפי מעשיו. ואין אדם יוצא חייב בדיניהם כצדיק כרשע לפי שלא נתכנו להם עלילות, רק לז"א נתכנו עלילות סי' מ"ד ומ"ה). או שאומר אין העולם הבא ואין תשלום שכר, אלו המינים והאפיקורסין שמורידין אותן ולא מעלין אם לא עשו תשובה עכ"ל הרקח. ובספר מצות גדול לאוין א' המצוה הראשונה שלא לעולות במחשבה שיש שם אלוה זולתי השי"ת שנ' לא יהיה לך אלהים אחרים על פני, ותניא במכלתא לפי שנ' לא תעשה לך פסל. העשוי כבר מנין שלא יקיים ת"ל לא יהיה לך. ואין מקרא יוצא מדי פשוטו. ובפרק ד' מיתות אמרו שם כל המשתף שם שמים ודבר אחד נעקר מן העולם שנ' בלתי לה' לבדו. והמקרא הזה בא לעונש. וזה לאזהרה, ואומר ר' יעקב כי מה שנ' חרב לה' ולגדעון, אין זה שתוף לאלהות ולאדנות עכ"ל הסמ"ג.
Nota — o catálogo dos minim. Qafih cita a lista clássica de heresias do Rokeach (na "raiz da teshuvá", ecoando o Rambam, Hil. Teshuvá 3) — quem nega o Criador, quem afirma dois poderes, quem O corporifica, quem associa outra coisa a Ele — e, em parênteses, aplica cada item à Cabala luriânica. São aplicações dele, e é exatamente onde a tradição cabalística discordaria: para ela, os partzufim não são "outro deus" nem corporeidade real, mas a estrutura simbólica da autorrevelação do Um. Lemos o catálogo como a moldura haláquica da acusação de Qafih — não como veredito sobre a Cabala, que se entende, ela própria, como monoteísmo estrito (e proíbe adorar qualquer sefira como deus).
A idolatria da geração de Enosh

(56) E eis as palavras do Rambam (cap. 2 das Hilchot AZ): “o cerne do mandamento contra a idolatria é não adorar nenhum dos criados — e, ainda que o adorador saiba que o Senhor é o D'us, e que adora este criado no modo em que adoraram Enosh e os homens da sua geração no início, eis que este é um adorador de idolatria”. E no início do cap. 1: “nos dias de Enosh, erraram os homens um grande erro... disseram: visto que D'us criou estes astros e esferas para conduzir o mundo, e os pôs no alto, e lhes repartiu honra — e já que eles são servidores que servem diante d'Ele —, é digno louvá-los, glorificá-los e lhes repartir honra; e esta é a vontade de D'us: engrandecer e honrar quem Ele engrandeceu — como o rei quer honrar os que se põem diante dele”. E no Yalkut (Yitró): “"não terás outros deuses" — disse R. Yossi: por que se diz "outros deuses"? — para não dar abertura às nações a dizer "se eles fossem chamados pelo Seu nome, é porque haveria neles necessidade"; eis que foram chamados pelo Seu nome — e não há neles necessidade. Quando o foram? — nos dias de Enosh ben Shet, conforme "então se começou a chamar pelo nome do Senhor" — começou-se a chamar à idolatria pelo nome do Lugar; naquela hora, subiu o oceano e inundou um terço do mundo”. E no Midrash haGadol (Bereshit): “Enosh — que o seu juízo se tornou "enfermo" anush e embrutecido, e começou a idolatria no mundo”. E no Midrash haChefetz de R. Zechariá e no Yalkut, sobre "não farás para ti imagem escultura": enumeram-se as formas proibidas — gravada, vazada, de madeira, de pedra, de ouro, de bronze...; e conclui: "poder-se-ia pensar: não a fará, mas a elevará no seu juízo? — a Escritura ensina ''não terás outros deuses diante de mim''". E assim escreveu o Rambam (cap. 1 das Hilchot Yesodei haTorá): “e todo o que eleva no seu juízo a ideia de que há um outro D'us, fora deste, transgride o "não terás outros deuses diante de mim", e nega o Ikkar — que este é o grande princípio, do qual tudo depende”. Está explicado de tudo isto, explicitamente, que, ainda que não faça nenhum ato — apenas que creia no seu juízo que há um D'us outro, inferior ao D'us superno —, eis que este é um min.

נו) וז"ל הרמב"ם בפרק ב' מהל' ע"ז עיקר הציווי בע"ז שלא לעבוד אחד מכל הנבראים הנבראים מהם. ואעפ"י שהעובד יודע שה' הוא האלהים והוא עובד הנברא הזה על דרך שעבד אנוש ואנשי דורו תחלה הרי זה עובד ע"ז. ובריש פרק א' כ' בימי אנוש טעו בני אדם טעות גדולה וכו' אמרו הואיל והאל ברא כוכבים וגלגלים אלו להנהיג את העולם ונתנן במרום וחלק להם כבוד. והן שמשים שמשמשים לפניו. ראוים הם לשבחם ולפארם ולחלוק להם כבוד. וזה הוא רצון האל ב"ה לגדל ולכבד מי שגדלו וכבדו. כמו שהמלך רוצה לכבד עבדיו והעומדים לפניו וזהו כבודו של מלך. עכ"ל ובילקוט פרשת יתרו לא יהיה לך אלהים אחרים ר' יוסי אומר אלהים אחרים למה נאמר. שלא ליתן פתחון פה לאומות העולם לומר אלו נקראו בשמו כבר היה בהן צורך. הרי נקראו בשמו ואין בהן צורך. אימתי נקראו בשמו בימי אנוש בן שת שנ' אז הוחל לקרא בשם ה'. החל לקרוא ע"ז בשם המקום באותה שעה עלה אוקינוס והציף שלישו של עולם וכו'. ובמדרש הגדול פר' בראשית אנוש, שהיתה דעתו אנושה ונבערה, והתחיל בע"ז בעולם שה' אז הוחל לקרא בשפ ה'. החל לקרוא ע"ז בשם המקום באותה שעה עלה אוקיינוס וכו'. ובמדרש חפץ לר' זכריה הרופא פר' יתרו ובילקוט לא תעזה לך פסל יכול לא תעשה גלומה (ובילקוט גלופה) אבל יעשה אטומה ת"ל כל צמונה. יכול מטע, ת"ל לא תטע לך אשרה. יכול יעשה של עץ ת"ל כל עץ. יכול יעשה של אבן ת"ל ואבן משכית. יכול של זהב ת"ל ואלהי זהב. יכול יעשה של נחשת בדיל ברזל ועופרת ת"ל אלהי מסכה לא תעשה לך. יכול וכו' ומסיים יכול לא יעשה, אבל יעלה בדעתו ת"ל לא יהיה לך אלהים אחרים על פני ע"כ. וכן ב' הרמב"ם ז"ל בפ"א מהל' יסודי התורה וז"ל וכל המעלה בדעתו שיש שם אלוה אחר חוץ מזה עובר בלא תעשה שנ' לא יהיה לך אלהים אחרים על פני וכפר בעיקר שזהו העיקר הגדול שהכל תלוי בו ע"כ. מבואר מכל זה בהדיא שאע"פ שאינו עושה שום מעשה רק שמאמין בדעתו שיש אלוה אחר למטה ממנו מהלאהים העליון ה"ז מין.
"Eles adoram a alma dentro deles"

(57) Entenderá bem o que entende, e discernirá, nas palavras dos nossos mestres aqui mencionadas, que as noções do "filósofo" autor do Zohar — e dos cabalistas que o seguem — estão muito alinhadas com os pensamentos da geração de Enosh, que chamaram aos "ídolos" pelo nome do Santo e oraram a eles; e os cabalistas também o fizeram, pois chamaram a cada um dos partzufim pelo nome do Santo, e disseram para servi-los, e se prostrar a eles, e clamar a eles em tempo de aflição; e todas as orações e bênçãos que ordenaram os Homens da Grande Assembleia para louvar o Senhor — tudo o desviaram para o partzuf Ze'ir, em associação com os demais partzufim, ainda que estes sejam criados. E pensaram poder consertar a heresia manifesta nesta crença, ao dizerem que eles adoram "a sua alma" a alma neles; e esqueceram a fé verdadeira, notória e simples em toda a Escritura — Torá escrita e oral —: que o nosso D'us, bendito, não é corpo nem força num corpo. E eles inventaram e fizeram para o nosso D'us vários corpos e mantos, descritos "com régua e compasso", com comprimento e largura; e lhes deram almas vindas do D'us superno; e deixaram o Seu cerne "mais e mais alto", sem orar a ele — pois não lhe deixaram nome —; e penduraram todos os mandamentos da Torá, e as suas narrativas que "ensinam conhecimento ao homem", no "corpo do Rei" (e não na sua alma) — "estes nas suas mãos, estes nos seus pés", como escreveu o Mahari Tzahari em nome do Zohar. E eles contradizem também as suas próprias palavras, que escrevi acima (seção 39) em nome do Shoshan Sodot, do Mishnat Chasidim e do Ramaz — de que, tanto o corpo das sefirot, quanto a alma, quanto o manto, é tudo divindade completa, pois todos se estendem e vêm a ser da essência do Ein Sof, "como aquele gafanhoto cujo manto é dele mesmo"; e se encadeiam um do outro, como o filho vem do pai — e por isso chamam o Ze'ir "filho" de Abba e Imma, e dizem que ele é o que governa sobre todos os criados, e os alimenta e sustenta, por ordem do seu pai e da sua mãe (Zohar Balak, p.191, seção 26); e ali se explica que o culto e as bênçãos pertencem (segundo a sua opinião) ao Ze'ir — pois assim ordenaram Abba e Imma, "que todos o sirvam" —, como também escreveram o Sefer haBrit, o Kisé Eliyahu, o Yosher Levav e o Nachalat Yosef.

נז) יבין המבין וישכיל היטב בדבר רבותינו ז"ל הנז' פה כי רעיונות הפילסוף מחבר הזהר והמקובלים הנמשכים אחריו מכוונים מאד למחשבות דורו של אנוש שקראו לעצבים בשנו של הקב"ה והתפללו אליהם, והמקובלים גם הם עשו כן, כי קראו לכל אחד מן הפרצופים בשמו של הקב"ה ואמרו לעבדן ולהשתחות להם ולקרוא אליהם בעת צרה וכל התפלות והברכות שתקנו אנשי כנה"ג לשבח ולפאר לשי"ת בהן. את הכל הסבו לפרצוף ז"א בצירוף שאר פרצופים הללו אע"פ שהן נבראים. וחשבו לתקן הכפירה הנגלית ונראית באמונה זו באמרם שהם עובדים לנשמתם. ושכחו את האמונה האמתית המפורסמת ופשוטה בכל כתבי הקדש תורה שבכתב ותורה שבעל פה. כי אלהינו ב"ה אינו גוף ולא כח בגוף. והם המציאו ועשו לאלהינו כמה גופים ומלבושים מתוארים בשרד ובמחוגה אורך ורוחב להם. ונתנו להם נשמות מהאלהים העליון. והשאירו עיקרו לעילא לעילא מבלי להתפלל אליו, כי לא השאירו לו שם. ותלו כל מצותיה של תורה וספוריה המלמדים לאדם דעת בגופא דמלכא (ולא בנשמתו) מנהון בידוי מנהון ברגלוי וכו' כמו שכ' מהר"י צאהרי בשם הזהר, וסותרים ג"כ דבריהם שכתבתי לעיל סי' ט"ל בן שושן סודות ומשנת חסידים והרמ"ז דבין הגוף של ספירות בין הנשמה בין המלבוש הכל אלהות גמור. כי כולם נמשכים ונהוים מעצמות האין סוף כהדין קמצא דלבושיה מניה וביה. ומשתלשלים זה מזה כבן מן האב. ולפיכך קורין לז"א בן לאבא ואימא. והוא השולט על כל הברואים וזנם ומפרנסם במצות אביו ואמו כדאיתא בזהר בלק דף קצ"א (ח"ג קצא, א). והובא לעיל סי' כ"ו. ושם מבואר שהעבודה והברכות שייכים (לפי דעתם) לז"א דהכי פקידו אבא ואימא דכלא יפלחון ליה וכמו שכ' ג"כ ס' הברית וכס"א ויושר לבב ונחלת יוסף.
A Cabala é a geração de Enosh?

O que planta o ouvido — acaso não ouve? e o que forma o olho — acaso não vê? Para o homem, e para o coração que sabe entender e discernir, está claro que assim foi o pensamento da geração de Enosh e o seu erro — que tiveram as "formas" e os "partzufim", que inventaram do seu coração, por divindades, e os chamaram pelos nomes do Santo, e os adoraram, para serem intermediários a fazer fluir a abundância do D'us superno. E, se disseres: "que tenho eu com os feitos da geração de Enosh, que fizeram partzufim e formas, obra das mãos do homem, e os chamaram pelo nome do Santo e os adoraram — mas os cabalistas não fizeram nenhuma forma, de fato; apenas pensaram os partzufim e as formas, que são obra de D'us, como divindades?" — ora, também a geração de Enosh foi assim que a coisa subiu no seu juízo, de início, como escreveu o Rambam (cap. 1 das Hilchot AZ); e os Sábios já disseram: "poder-se-ia pensar: não a fará, mas a elevará no seu juízo? — a Escritura ensina ''não terás outros deuses'', de toda forma". E assim diz: "e para que não eleves os teus olhos aos céus, e vejas o sol, a lua, as estrelas, todo o exército dos céus, e te deixes arrastar" — tudo está incluído, a saber, que não eleve no seu juízo a ideia de divindade e domínio para nenhum criado ou emanado, pois todos estão sob o nome "exército dos céus", que a Escritura advertiu a não adorar. E, ainda que se chame a eles pelos nomes do Santo — como fez a geração de Enosh —, não há neles substância (como está no Yalkut, no Midrash haGadol e em Rashi, seção 56); pois o Santo não criou coisa alguma das Suas criaturas para ser adorada, mas para conduzir o mundo conforme o Seu desejo; e elas são como servos que se põem diante do Rei para fazer a Sua vontade, conforme "mil milhares O serviam, e miríade de miríades diante d'Ele se erguiam" — não para serem divindades (D'us nos livre), nem para adorá-las; pois não há D'us além do Senhor, e não há Rocha como o nosso D'us. E Ele está perto de todos os que O chamam em verdade — ainda que, num só instante, clamem a Ele todas as Suas criaturas —, e Ele responde a cada uma, e cumpre o seu pedido, se ela é digna conforme os seus atos; pois os pecados do homem impedem Ele de fazer o seu pedido, conforme "para dar a cada um conforme os seus caminhos", e "mas os vossos pecados se fizeram separação entre vós e o vosso D'us" — e como escreveu o Rambam nas Hilchot Teshuvá.

הנוטע אזן הלא ישמע. ויוצר עין לאדם ולב להבין ולהשכיל שכן היא מחשבת דורו של אנוש וטעותם אשר חשבו את הצורות ואת הפרצופים אשר בדו מלבם לאלוהות וקראו להם בשמותיו של הקב"ה ועבדום להיות אמצעיים להמשיך השפע מהאלהים העליון. ואם תאמר שאני מעשי דורו של אנוש שעשו פרצופים וצורות מעשה ידי אדם וקראום בשמו של הקב"ה ועבדום. אבל המקובלים לא עשו שום צורה בפועל רק חשבו הפרצופים והצורות שהן מעשה השם לאלוהות? הלא גם דורו של אנוש כן עלה בדעתם בתחלה כמו שכ' הרמב"ם ז"ל בפ"א מהל' ע"ש. והרי כבר אמרו רז"ל יכול לא יעשה אבל יעלה בדעתו. ת"ל לא יהיה לך אלהים אחרים מכל מקום. וכן הוא אומר ופן תשא עיניך השמימה וראית את השמש ואת הירח ואת הכוכבים כל צבא השמים ונדחת. הכל בכלל, שלא יעלה בדעתו אלהות וממשלה לשום נברא או נאצל. כי כולם בשם צבא השמים שהזהיר הכתוב מלעבדן. ואף אם קורא להן בשמותיו של הקב"ה כמו שעשו דורו של אנוש אין בהן ממש, כמו שמבואר בילקוט ומדרש הגדול וברש"י שהבאתי לעיל, סי' נ"ו, כי לא ברא הקב"ה דבר מבריותיו להיות נעבד, כי אם להנהיג את העולם כחפצו ורצונו, והמה כעבדים העומדים לפני המלך לעשות רצונו שנ' אלף אלפין ישמשוניה ורבוא רבוון קדמוהי יקומון, לא להיות אלוהות ח"ו ולא לעבדן. כי אין אלוה מבלעדי ה' ואין צור כאלהינו. והוא קרוב לכל קוראיו באמת, ואף אם ברגע א', יקראו אליו כל יצוריו ויגיד כל אחד מהם, ועונה אותו וממלא משאלו שלכל אחד ואחד אם הוא ראוי לפי מעשיו, כי עונותיו של אדם מעכבים מלעשות בקשתו, שנ' לתת לאיש כדרכיו, כפרי מעלליו, ונאמר כי אם עונותיכם היו מבדילים ביניכם לבין אלהיכם וכמו שכ' הרמב"ם בהל' תשובה.
Nota — a Cabala é a geração de Enosh? Aqui está a analogia mais dura de Qafih: como a geração de Enosh honrou astros e formas "por servirem diante de D'us" e acabou na idolatria, assim — diz ele — os cabalistas nomeiam os partzufim pelos Nomes divinos e a eles dirigem o culto. E antecipa a defesa ("eles adoram a alma dentro deles") para rejeitá-la. Mas a analogia tem um ponto fraco que o próprio Qafih expõe: os ídolos de Enosh eram criaturas (astros, imagens); ao passo que os partzufim, segundo as fontes que ele mesmo cita (seção 39: Shoshan Sodot, Mishnat Chasidim), são "divindade completa" — a própria essência de D'us em manifestação, não criaturas. Se assim, dirigir-se a eles não seria cultuar um astro criado, mas o próprio D'us tal como Se revela. A força e o limite da analogia estão, lado a lado, no mesmo parágrafo.
"Quem associa o Nome a outra coisa"

(58) E em Sanhedrin (cap. "Quatro tipos de morte") aprendemos: disse R. Yehudá: "não fosse o vav de ''he'elucha'' ''estes [são os teus deuses, ó Israel, que te fizeram subir do Egito'' — Shemot 32:4], os inimigos de Israel" eufemismo para Israel "se teriam tornado culpados de destruição". Disse-lhe Rashbi: "ora, todo o que associa o nome do Céu a outra coisa é extirpado do mundo, conforme ''senão ao Senhor, sozinho''; antes, que nos ensina ''que te fizeram subir no plural''? — que eles desejaram várias divindades". E o Maharsha explicou que, sem dúvida, para todos, o negar o Ikkar é pior e é culpado de destruição; mas Rashbi diz que todo o que associa o nome do Céu a outra coisa — isto é, o que crê também n'outra coisa — é culpado de destruição; só que a geração do bezerro não foi extirpada, senão porque apenas desejaram várias divindades, e disseram que o Único Existente deu poder a várias potências — dizendo: "o Senhor abandonou a terra, e estas potências e divindades conduzirão na terra". E assim escreveu o Rambam, que esta é a opinião de muitos dos adoradores de idolatria, que dizem que a ela foi dada a condução. E por este caminho há como entender o que disse Moshé "vê, Tu me dizes: faze subir este povo" intercedendo por eles... E tudo isto é grande forçar do sentido. E o Ma'aseh Rokeach explicou que o "shittuf" de que se fala é a associação de todas as divindades com o Santo — e é simples.

נח) ובסנהדרין פ' ד' מיתות גרסינן אמר ר' יהודה אלמלא וי"ו שבהעלוך נתחייבו שונאיהם של ישראל כלייה. אמר לו רשב"י והלא כל המשתף שם שמים ודבר אחר נעקר מן העולם שנ' בלתי לה' לבדו אלא מה ת"ל אשר העלוך שאיוו לאלוהות הרבה ע"כ, ומביאו מעשה רקה בפרק ב' מהל' ע"ז. ובפ' לולב וערבה אמתניתין דהיו אומרין ליה ולך מזבח פריך תלמודא והתניא כל המשתף שם שמים ודבר אחד נעקר מן העולם? אלא הכי קאמרי וכו' וכ' הרב מהרש"א בפ' ד' מיתות דודאי לכ"ע גרע טפי כופר בעיקר וחייב כלייה, אלא דרשב"י קאמר שכל המשתף שם שמים ודבר אחר דהיינו המאמין נמי בדבר אחר חייב כלייה ונעקר מן העולם, אלא מה ת"ל אשר העלוך דודאי האמינו בנמצא וכו' ולכך לא נעקרו אלא שאיוו לאלוהות הרבה ואמרו שהאחד הנמצא נתן כח לאלוהות וכוחות רבים עזב ה' את הארץ. ואלו הכוחות והאלוהות יהיו מנהיגים בארץ. וכן כ' הרמב"ם שבה דעת רבים מעובדי ע"ז שעובדים אותה. שאומרים שניתנה ההנהגה בידה. ועל דרך זה יש לכוון מה שאמר משה ראה אתה אומר אלי העל את העם הזה. שבא משה להתנצל בעדם. שאמר משה להקב"ה שהרי אתה אומר אלי העל את העם הזה. וכוונתך שאתה מעמיד אותי למנהיג להם, ותלית העלייה בי, כיוצא בזה כיוונו כלל לע"ז ולשתף שם שמים ודבר אחר עכ"ל וכל זה דוחק גדול. וכ' מעשה רקח דאפשר דשיתוף דקאמר היינו לכל האלוהות עם הקב"ה ע"ש ופשוט הוא.
Nota — o que é "associar". Qafih invoca Sanhedrin 63a: "quem associa o nome do Céu a outra coisa é extirpado do mundo" (biltei la-Shem levado). O conceito de shittuf (associação) pressupõe, porém, uma segunda entidade posta ao lado de D'us. É exatamente aí que a Cabala nega a premissa: para ela não há segunda entidade — os partzufim não são "outro" ao lado do Ein Sof, mas o próprio Ein Sof em Suas faces reveladas; dirigir a oração "ao Ze'ir" é dirigi-la ao Ein Sof revestido nele (cap. XIV). Qafih lê a configuração como muitos poderes associados; o cabalista, como o Um sob o Seu Nome manifesto. A acusação de shittuf vale se a premissa de Qafih valer — e é precisamente a premissa que se disputa.
A conclusão: o culto, só ao Único

De tudo isto se te explicou, meu amigo, tu que amas a Torá da verdade e as palavras dos seus "amados" transmissores, vindos de Moshé, nosso mestre, de homem a homem: que isto que disseram os cabalistas novos — a saber, que o nosso D'us, bendito, na Sua condição simples, não se lhe aplica culto, oração nem invocação, de modo algum (pois "curta, encurtou-se a sua mão", D'us nos livre, de redimir, e não há n'Ele força para salvar o que a Ele clama), e que só ao Ele associar-se aos partzufim, e em especial ao Ze'ir Anpin, então aplica-se a Ele culto e bênção; e que precisa, especificamente, uni-lo e associá-lo à sua Nukva e aos demais cinco partzufim, e então, ao associar-se a eles, eles respondem a todo o que a eles clama —: isto é exatamente "associar o nome do Céu a outra coisa" — pois, sozinho, Ele não pode fazer coisa alguma, e só na sua associação a eles pode operar; e não há associação do nome do Céu a outra coisa maior do que esta! E aquilo que, junto ao verdadeiro Rashbi, era odioso na Cabala verdadeira do Talmud, isso fez o "Rashbi" mentiroso, autor do Sefer haZohar, na Cabala falsificada. O Misericordioso nos livre de crenças estranhas como estas! E a fé clara, pura de toda escória, é crer, com fé íntegra e perfeita, que a Ele, somente — bendito —, pertencem a força e o domínio sobre todos os criados que Ele fez na Sua bondade; e a Ele, bendito, dirigimos a intenção em todos os nossos cultos e orações, como nos é ordenado na Torá "senão ao Senhor, sozinho" — Ele que é a Causa Primeira, sem combinação nem associação de nenhuma outra força: nem Atik e a sua Nukva, nem Arich e a sua Nukva, nem Abba e Imma, nem Ze'ir e a sua Nukva — pois todos os existentes precisam d'Ele, e Ele não precisa deles. E assim escreveu o Ibn Ezra no comentário do Chumash, sobre "senão ao Senhor, sozinho": "e não se mescle outro com Ele". E ouvi que alguns tolos disseram que não se chama "associar o nome do Céu a outra coisa" senão quando o profere com a sua boca... Mas isto não é verdade, pois até o dirigir a intenção, no seu pensamento, ao mencionar o Nome numa bênção ou numa oração, a qualquer criado ou emanado — ainda que tencione associar a força dada nele pelo Senhor — é proibido, e eis que este é um adorador de idolatria; pois o "pensamento de idolatria", o Santo o junta ao ato, como aprendemos em Kidushin (39) e em Chulin (142)... E, no nosso caso, visto que dirige a intenção, no seu pensamento, ao Ze'ir Anpin, eis que este é como um adorador de idolatria; e lemos a respeito dele o que escreveu o Rambam (I:50): "perto estás na boca deles, e longe dos seus rins".

מכל זה נתבאר לך ידידי האוהב את תורת האמת ודברי דודים מעתיקיה ומקבליה ממשה רבי' איש מפי איש, שזה שאמרו המקובלים החדשים כי אלהינו בהו"ש בהיותו בבחינתו הפשוטה לא שייך בו שום עבודה ותפלה וקריאה כלל, כי קצור קצרה ידו ח"ו מפדות ואין בו כח להציל את הקורא ומשוע אליו ורק בהיותו משתתף בפרצופים הנז' וביחוד פרצוף זעיר אנפין אז שייך בו עבודה וברכה. וצריך דוקא לאחדו ולשתפו עם נוקבא דילה ועם שאר החמשה פרצופים, ואז בהיותו משתתף עמהם אז המה עונים את כל הקורא אליהם, וזהו ממש שיתוף שם שמים ודבר אחר, כי לבדו אינו יכול לעשות מאומה, ורק בשיתופו עמהם הוא יכול לפעול את פעולותיו, ואין לך שיתוף שם שמים ודבר אחר יותר מזה. ומאי דעל רשב"י סני בקבלה האמיתית בתלמוד, עשה רשב"י המשקר מחבר ס' הזהר בקבלה המזויפת, רחמנא ליצלן מאמונות זרות כאלה, והאמונה הברורה הטהורה מכל סיג וחלאה היא להאמין באמונה שלימה תמימה כי לו לבדו ית' הכח והממשלה בכל הנבראים שהמציא בחסדו ולו ית' נכוין בכל עבודותינו ותפלותינו כמצווה עלינו בתורה בלתי לה' לבדו שהוא הסבה הראשונה בלי צרוף ושיתוף שום כח אחר לא עתיק ונוקביה, ולא אריך ונוקביה, ולא אבא ואימא, ולא זעיר ונוקביה, כי כל הנמצאים צריכים לו והוא אינו צריך להם, וכן כתב הראב"ע בפי' החומש בלתי לה' לבדו ולא יתערב אחר עמו ע"כ, ומשעתי קצת טפשים אמרו דלא מיקרי משתף שם שמים ודבר אחר אלא דוקא כשמוציא בפיו דומיא דמתניתין דקאמרי ליה ולך מזבח, שעליה הקשו בגמרא והא משתף שם שמים ודבר אחר וכו'. ואין זה אמת דאפי' לכוון במחשבתו בהזכירו את השם בברכה או בתפלה לשום נברא או נאצל אף אם מכיון לשתף כח הניתן בו מאת השי"ת אסור, והרי זה עובד ע"ז, דמחשבת ע"ז הקב"ה מצרפה למעשה כדגרסינן בקידושין ד' ל"ט ובחולין קמ"ב ואלא הא דכתיב למען תפוש את בית ישראל בלבם ההוא כמחשבת ע"ז הוא דכתיב דאפי' חרהור הוי כמעשה. ובנ"ד כיון שמכוין במחשבתו לזעיר אנפין הרי זה כעובד ע"ז. וקרינא ביה מה שכ' הרמב"ם בפרק ג' לראשון קרוב אתה בפיהם ורחוק מכליותיהם.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O catálogo da heresia

Qafih consolida a sua acusação com a moldura haláquica: as categorias de minut do Rokeach e do Semag (negar o Criador, dois poderes, corporeidade, associação), aplicando cada item, em parênteses, à Cabala luriânica. São aplicações dele — o lugar exato onde a tradição cabalística discorda, pois entende os partzufim como símbolo, não como "outro deus".

A geração de Enosh

O paralelo central: como a geração de Enosh honrou os astros "por servirem diante de D'us" e caiu na idolatria, assim a Cabala nomearia os partzufim pelos Nomes divinos. Mas o próprio Qafih expõe o limite: os ídolos de Enosh eram criaturas; os partzufim, pelas fontes que ele cita, são "divindade completa" — manifestação de D'us, não criaturas.

O que é "associar"

Da regra "quem associa o nome do Céu a outra coisa é extirpado" (Sanhedrin), Qafih conclui que orar ao Ze'ir é shittuf. Mas o conceito pressupõe uma segunda entidade — e a Cabala nega que haja segunda entidade: o Ze'ir não é "outro" ao lado do Ein Sof, mas o próprio Ein Sof em Sua face revelada.

A acusação extrema

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXIII

Um de todos os lados: a unidade incomparável

אֶחָד מִכָּל הַצְּדָדִים
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih reúne três fios: o ensino de Menachot — que o mundo veio a conhecer D'us através de Israel; a clássica refutação de Saadia Gaon aos que afirmam "dois ou três poderes"; e o ensino do Ba'al haGedarim e do Kuzari de que a fé é o que a alma concebe, e por isso exige investigação. A unidade de D'us não é como a de um rei ou de um anjo — é "uma de todos os lados".

D'us conhecido através de Israel

(59) E ainda aprendemos em Menachot (cap. "Harei Alai Issaron", p.110): disse R. Elazar bar Yitzchak — e há quem diga, disse Rav Yehudá em nome de Rav: “de Tiro até Cartago Kartagni, as nações reconhecem Israel e o seu Pai que está nos céus; mas de Tiro para o ocidente e de Cartago para o oriente, não reconhecem nem Israel nem o seu Pai que está nos céus”. Objetou-lhe Rav Shimi bar Chiya a Rav: “ora, "do nascente do sol até o seu poente, grande é o meu nome entre as nações" etc.?”. Disse-lhe: “Shimi és tu? — pois o que fazem é chamá-Lo ao D'us de Israel "Deus dos deuses"”. E explicou Rashi: "reconhecem Israel" — reconhecem Israel na sua honra primeira, mas não reconhecem o seu mundo nem o seu Pai que está nos céus — isto é, que creiam no Santo e não adorem idolatria. E escreveu o Maharsha: a guemará tomou de início "Israel", porque é por meio de Israel, aqui embaixo, que se divulgou a Sua divindade e a Sua capacidade no mundo inferior — e que Ele é o D'us de Israel e supervisiona a terra (isto é, "o seu Pai que está nos céus"); mas, de Tiro para o ocidente, visto que não reconhecem Israel, não reconhecem o seu Pai que está nos céus, a saber, Aquele que supervisiona o mundo baixo; antes, têm-No por "Deus dos deuses", como a guemará conclui — que Ele é o D'us dos deuses, e que àquelas "divindades" que estão abaixo d'Ele Ele deu força e domínio embaixo, e que Ele não supervisiona o mundo baixo, inferior — até aqui o Maharsha.

נט) ותו גרסינן במנחות פרק הרי עלי עשרון דף ק"י (דף קי.) אמר ר"א בר יצחק ואמרי לה אמר רב יהודה אמר רב מצור ועד קרתגני מכירין את ישראל ואת אביהם שבשמים, מצור כלפי מערב. ומקרתגני כלפי מזרח אין מכירין לא את ישראל ולא את אביהם שבשמים. אתיביה רב שימי רב חייא לרב. כי ממזרח שמש ועד מבואו גדול שמי בגוים ובכל מקום וכו' אמר ליה שימי את? דקרו ליה (לאלהי ישראל) אלהא דאלהיא ע"כ ופי' רש"י מכירים את ישראל מכירים בכבודן הראשון ואין מכירים את עולם ואת אביהם שבשמים שמאמינים בהקב"ה ואינם עובדים ע"ז. וכתב הר' מהרש"א נקט מתחלה ישראל דעל ידי ישראל למטה נתפרסם אלהותו ית' ויכלתו בעולם התחתון ושהוא אלהי ישראל ומשגיח על הארץ דהיינו אביהם שבשמים אבל מצור כלפי מערב כיון שאין מכירים את ישראל. אין מכירים את אביהם שבשמים שהוא משגיח בעולם השפל. אבל הוא אלהא דאלהא כדמסיק שהוא אלהי האלהים. ולאותן אלוהות שתחתיו נתן כח וממשלה למטה ואינו משגיח בעולם השפל התחתון עכ"ל.
"É a fé dos povos distantes"

Inclina o teu coração, ó leitor agradável, à sensatez e ao discernimento, nas palavras dos Sábios, mestres do Talmud, e abrir-se-ão os teus olhos, e te esclarecerás e te convencerás de saber que a opinião dos cabalistas — que disseram que o Ein Sof, que está "mais e mais alto", tal que o pensamento não o apreende, e a quem não se deve orar nem clamar, senão ao Ze'ir Anpin, "cujo domínio lhe foi dado sobre tudo"; e que o que clama e ora ao Ein Sof, que é o D'us superno, não é atendido! — é, ela mesma, a crença das nações de "Tiro para o ocidente e de Cartago para o oriente", que dizem que o nosso Pai que está nos céus, "o que se eleva para habitar no alto", não supervisiona os seres inferiores, mas é "Deus dos deuses" — que são os cinco partzufim —; e que também os partzufim superiores, eles mesmos, deram o domínio e a força ao "deus curto de paciência" (o Ze'ir Anpin), a quem coroaram e a quem deram o domínio sobre tudo (Zohar Balak, p.191) — pois só ao Ze'ir Anpin se aplicam "feitos/contas", mas aos deuses superiores não se aplicam "feitos" (Zohar Haazinu, p.292), como se explicou acima (seção 29 em diante). É isto que o profeta Yeshayahu reprova a Israel, com o dito do Senhor, bendito: "qual é o documento de divórcio?" etc. — "acaso curta, encurtou-se a minha mão de redimir? e acaso não há em mim força para salvar?" etc. — como se eu precisasse valer-me dos partzufim que estão abaixo de mim, ou que eu os designasse no meu lugar?! Pois Ele, bendito, a Causa Primeira, não ordenou adorar nenhum criado, de modo algum; e não é força num corpo, a ponto de se adorar a sua "alma", como pensaram os cabalistas novos.

הט לבך קורא נעים לתושיה ולתבונה בדברי רז"ל בעלי התלמוד ותפקחנה עיניך ונהרת ונוכחת לדעת כי דעת המקובלים שאמרו שהאין סוף שהוא לעילא לעילא מחשבה הפיסה ביה ואין להתפלל ולקרא אליו רק לזעיר אנפין דשולטנו יהיב ליה על כלא. ושהקורא ומתפלל לאין סוף שהוא אלהים עליון לא יענה! היא בעצמה אמונת אוה"ע מצור כלפי מערב ומקרתגני כלפי מזרח האומרים שאבינו שבשמים המגביהי לשבת איננו משגיח בתחתונים. אבל הוא אלהי האלהים שהם חמשה פרצופים ושגם פרצופים העליונים עצמן נתנו הממשלה והכח לאלוה קצר אפים (זעיר אנפין) דאעטרו ליה ויהבו ליה שולטנו על כלא (זהר בלק דף קצ"א) כי רק לזעיר אנפין נתכנו עלילות. אבל האלהים העליונים לא נתכנו להם עלילות (זהר האזינו דף רצ"ב) כמו שנת' לעיל מסי' כ"ט והלאה. הוא שהנביא ישעיה מוכיח את ישראל במאמרו ית' לאמר איזה ספר וכו' הקצור קצרה ידי מפדות ואם אין בי כח להציל וכו' עד שאצטרך להעזר בפרצופים שהם למטה ממני. או שאמנה אותם במקומי? כי הוא ית' הסבה הראשונה לא צוה לעבוד לשום נברא כלל, ואינו כח בגוף כדי לעבוד לנשמתו כמו שחשבו המקובלים החדשים.
Nota — o D'us que supervisiona. Qafih lê o ensino de Menachot (D'us conhecido pelo mundo "através de Israel" como Aquele que supervisiona a terra) como o avesso da posição que atribui à Cabala: um Ein Sof tão alto que "não se ocupa" do mundo de baixo, deixando o governo ao Ze'ir. Ele a equipara à crença das nações distantes, que têm o D'us supremo por "Deus dos deuses" indiferente, e cita o repto de Yeshayahu 50 ("encurtou-se a minha mão de redimir?"). A réplica da tradição cabalística é direta: o Ein Sof não é distante nem indiferente — a Sua providência e a Sua luz permeiam todos os mundos através das sefirot, que são a Sua ação, não intermediários autônomos. Onde Qafih lê "abandono", o cabalista lê "imanência velada".
Isto não saiu do Rashbi

(60) E, de tudo isto, aprende a saber que, certamente, as coisas ditas no Zohar no tocante à Divindade não foram ditas como as diria Rashbi, a paz sobre ele, e nem saíram tais coisas da boca de algum Tana ou Amora dos Sábios; antes, apenas as penduraram em Rashbi e seus companheiros, falsamente — pois ele mesmo proclama e diz: "todo o que associa o nome do Céu a outra coisa é extirpado do mundo"! D'us nos livre, D'us nos livre, de crer que Rashbi, o Tana — ou algum outro dos nossos mestres, os Tanaím ou os Amoraím — pensasse ou dissesse coisas como estas: adorar um outro deus, o "curto de paciência", e associá-lo, no seu pensamento, com o Senhor, nosso D'us, o "longânimo", que é a Causa Primeira (e que é, segundo a opinião deles, como uma alma para esses partzufim); e que adorem e orem aos partzufim mencionados, e digam que é à sua "alma" — que é a parte do Ein Sof neles — que adoram; e que unifiquem os partzufim mencionados com as suas "fêmeas", aludidos no Nome HaVaYaH: yud = Chochmá, que é Abba; primeiro heh = Biná, a Imma; vav = Tiferet, o Ze'ir; último heh = Malchut; e, no "Shemá Yisrael", o primeiro HaVaYaH = Abba, "Eloheinu" = Imma, o último HaVaYaH = Tiferet o Ze'ir, "Echad" = Malchut — tudo para juntá-los e ligá-los, de modo a serem os quatro um (Zohar Vaetchanan, p.263a). Pois o cerne do "yichud", junto a eles, é juntar e ligar, no seu pensamento, tais coisas — que, quando estão figuradas no seu pensamento como "corpos de luz" separados, ele força o seu pensamento a pô-las juntas; e também diz, com a sua boca, "para a unificação do Santo, bendito, e da sua Shechiná... para unificar o nome ''yud-heh'' em ''vav-heh''" etc. — e a sua intenção é sobre Abba, Imma, Ze'ir e a sua Nukva (aludidos, segundo eles, no Nome HaVaYaH), e Arich e Atik (aludidos no "espinho do yud") — vê acima (seção 42). E, segundo as suas palavras, por que não mencionaram os Sábios, na Mishná e na Guemará (tratado de Zevachim), sobre as seis intenções para as quais o sacrifício se abate — "para o sacrifício, para o que o abate, para o Nome, para os fogos, para o aroma, para a satisfação nichoach", e a chatat e o asham "para o pecado" (e explicou a Guemará: "le-shem nichoach" — satisfação nachat ruach ao Santo, que disse e a Sua vontade se fez) —, por que não contaram também "para a unificação do Santo e da sua Shechiná"? Antes, sem dúvida, a opinião dos Sábios é que o nosso D'us, bendito, é único e mais singular do que todos os demais "uns", e não precisa de ser ligado e unificado a partir de muitas partes — como pensaram os cabalistas novos —, nem de ser associado a partzufim divididos e diferentes uns dos outros! D'us nos livre de elevarmos ao nosso coração coisas estranhas à nossa santa Torá, como estas, que o Santo não nos ordenou na Torá a saber, unificá-Lo e associá-Lo a algum criado — mas apenas conhecer e crer que Ele é um, conforme se disse "e saberás hoje, e farás voltar ao teu coração, que o Senhor é D'us... não há outro" (vê adiante, seção 136).

ס) והנה מכל זה תלמוד לומר דוראי שהדברים שנאמרו בזהר בענייני האלהות לא כפי שרשב"י ע"ה נאמרו ולא יצאו דברים כאלה מפי שום תנא או אמורא מרז"ל, ורק תלו אותן ברשב"י וחביריו בשקר, שהרי הוא בעצמו מכריז ואומר: כל המשתף שם שמים ודבר אחר נעקר מן העולם! חלילה, חלילה להאמין שרשב"י התנא או שום אחר מרבותינו התנאים או האמוראים יחשוב או יאמר כדברים האלה לעבוד אלוה אחר קצר אפים ולשתפו במחשבה עם ה' אלהינו ארך אפים שהוא הסבה הראשונה שהוא בתור נשמה לפי דעתם לפרצופים האלה ועובדים ומתפללים לפרצופים הנז' ואומרים כי לנשמתם שהוא חלק האין סוף שבהם הם עובדים, ומיחדים הפרצופים הנזכרים עם נקיבותיהם הנרמזים בשם הוי"ה, יוד חכמה שהוא אבא, ה"א ראשונה בינה אמא, וי"ו תפארת זעיר, ה"א אחרונה מלכות, ובשמע ישראל הוי"ה ראשונה אבא, אלהינו אמא, הוי"ה אחרונה תפארת זעיר, אחד מלכות, לחברם ולקשרם יחד להיות הארבעה אחד (זהר ואתחנן דף רס"ג ע"א), כי עיקר היחוד אצלם לחבר ולקשר במחשבתו עיניינים כשהם מצויירים במחשבתו כגופי אור נפרדים והוא דוחק את מחשבתו לשום אותם יחד, וגם בפיו אומר לשם קב"ה ושכינתיה וכו' ליחדא שם יו"ד וה"א בו"ו וה"א וכו'. וכוונתו על אבא ואימא וזעיר ונוקביה הנרמזים לפי דעתם בשם הוי'ה, ואריך ועתיק הנרמזים בקוצו של יו"ד ועיין לעיל ס' מ"ב. ולפי דבריהם למה לא הזכירו רז"ל במשנה ובגמרא במסכת זבחים על הא דנתן לשם ששה דברים הזבח נזבח, לשם זבח, לשם זובח, לשם השם, לשם אישים, לשם ריח, לשם ניחח, והחטאת והאשם לשם חטא, ופי' בגמרא לשם ניחח, נחת רוח להקב"ה שאמר ונעשה רצונו, ולא קחשיב לשם יחוד קב"ה ושכינתיה, אלא ודאי שדעת רז"ל שאלהינו ב"ה יחיד ומיוחד מכל שאר האחדים, ואינו צריך לקשרו ולאחדו מחלקים רבים כמו שחשבו המקובלים החדשים ולא לשתפו עם פרצופים חלוקים ושונים זה משה! חלילה לנו מהעלות על לבבינו דברים זרים לתורתינו הקדושה כאלה שלא צונו הקב"ה בתורה לאחדו ולשתפו עם שופ נברא, רק לדעת ולהאמין כי הוא אחד שנאמר וידעת היום והשבות אל לבביך כי ה' הוא האלהים וכו' אין עוד, ועיין לקמן סי' קל"ו.
Nota — a ausência no Talmud. Um argumento fino: se a essência do culto fosse "unificar" os partzufim (o yichud cabalístico, hoje recitado antes de muitas mitzvot), por que a Mishná, ao enumerar as seis intenções com que se oferece um sacrifício (Zevachim 46b), não inclui "para a unificação do Santo e da Sua Shechiná"? Para Qafih, o silêncio prova que os Sábios não conheciam tal prática. (O cabalista responde que o yichud é a kavaná interior de toda mitzvah, não uma sétima intenção entre as do sacrifício — e que a fórmula explícita é um costume devocional posterior, não uma lei talmúdica omitida.)
Saadia refuta os "dois ou três"

(61) E assim escreveu o Semag (preceitos positivos, 1): “é mandamento positivo crer e aceitar a tradição de que Ele, bendito, está nos céus e na terra e nas quatro direções do mundo, conforme se disse "Ouve, Israel, o Senhor, nosso D'us, o Senhor é um" — "ouve" shema no sentido de "aceita". E este "um" não é como os demais "uns": o rei é "um" na sua terra, mas não é um de todos os lados, pois há na sua terra homens como ele, e em outras terras há reis como ele; e, se um anjo descesse dos céus à terra, eis que aquele anjo seria "um" na terra, mas não um de todos os lados, pois há nos céus anjos como ele. Mas o Senhor, nosso D'us, não é assim — Ele é um de todos os lados. E Rav Saadia escreveu, para refutar os hereges que dizem que os poderes são dois ou três: se o um não puder fazer uma obra senão com o auxílio do seu companheiro — eis que ambos são fracos; e, se um pode compelir o seu companheiro — eis que ambos são compelidos; e, se ambos têm permissão de fazer, sobre uma só coisa, o que quiserem, e um buscar matar um homem e o segundo quiser o reviver — seria cabível que aquele homem fosse morto-vivo-morto-vivo, num instante, num piscar de olhos; e, se um puder ocultar uma coisa do seu companheiro — eis que ambos são limitados. E escreveu ainda, contra os que "rompem" sobre "façamos o homem à nossa imagem" (esta é a opinião do autor do Zohar e dos cabalistas, como acima, seção 30): que é modo da língua sagrada que os grandes se designem em linguagem de plural, ainda que sejam singulares — como "talvez eu possa golpeá-lo nakeh", e em Daniel "diante do rei kodam malka", e em Manoach "detenhamos-te ne'tzra na"”. E ainda Rav Saadia Gaon se estendeu muito; e não há necessidade de estender tanto, pois todo Israel está fincado numa fé firme: que o Formador de tudo é um e singular, conforme se disse "o Senhor é um", e "vede agora que eu sou Ele, e não há D'us comigo"; e na Escritura há muitos versículos como estes — até aqui o Semag.

סא) וכ"כ הסמ"ג בעשיין א' מצות עשה להאמין ולשמוע היא הקבלה שהוא ית בשמים ובארץ ובארבע רוחות העולם שנ' שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד, שמע כמו תקבל וכן אתה תשמע השמים וגו' וזה האחד אנו כשאר האחדים, המלך הוא אחד בארצו, אבל אינו אחד מכל צדדים, כי יש בארצו אנשים שהם כמהו ובשאר ארצות יש מלכים כמהו, ואם מלאך מן השמים ירד לארץ. הנה המלאך ההוא אחד בארץ. אבל אינו אחד מכל צדדים כי יש בשמים מלאכים כמותו. אבל ה' אלהינו אינו כך. הוא אחד מכל הצדדים. ורב סעדיה כ' להשיב לכופרים שאומרים שהם שנים או שלשה. אם לא יוכל האחד לעשות מעשה אלא בעזר חבירו האי שניהם חלשים. ואם אחד יכול להכריח את חבירו, הרי שניהם מוכרחים. ואם שניהם רשאים לעשות על אחד מה שירצה, ובקש אחד להמית אדם אחד והשני רוצה להחיותו. ראוי שיהיה האיש ההוא מת חי מת חי לאלתר כהרף עין. ואם יוכל האחד להסתיר דבר מחבירו הרי שניהם נלאים. ועוד כתב לאלה שפוקרים על נעשה אדם בצלמנו (היא דעת מחבר הזהר והמקובלים כדלעיל סי' ל"י) כי דרך שפת לשון הקדש שהגדולים מכנים עצמם בלשון רבים אע"פ שהם יחידים, כמו אולי אוכל נכה בו. ובדניאל נאמר קדם מלכא ובמנוח נעצרה נא אותך ע"כ ועוד האריך רבי סעדיה גאון מאד, ואין צורך להאריך כל כך, כי כל ישראל תקועים באמונה חזקה, כי יוצר הכל אחד מיוחד כמו שנ' ה' אחד. ונאמר ראו עתה כי אני הוא ואין אלהים עמדי. ובמקרא יש הרבה מקראות כאלה עכ"ל הרב הסמ"ג.
Nota — a unidade que não tem semelhante. O argumento, vindo do Semag e de Saadia (Emunot veDeot II), é elegante: um rei é "um" no seu reino, mas há outros reis; um anjo é "um" na terra, mas há outros anjos — ambos são "um" só de um lado. D'us é "um de todos os lados": sem semelhante, sem segundo, sem parte. E a refutação de Saadia aos dois/três poderes é um clássico da filosofia: dois poderes ou são mutuamente dependentes (logo fracos), ou um compele o outro (logo ambos coagidos), ou colidem (e a criatura ficaria "morta-viva-morta-viva num instante"). É terreno comum a todo o monoteísmo racional — e o ponto em que Qafih e os cabalistas concordam plenamente: D'us é absolutamente Um. A disputa é só sobre se a linguagem das sefirot honra ou arrisca esse Um.
A unidade menor que a de um par?

(62) Olha, por favor, meu irmão, com olho penetrante, nas palavras do Semag, como ele trouxe as palavras de Rasa"g Saadia Gaon para reforçar as suas; e, aos seus olhos, a coisa é muito simples: a saber, que assim é a fé da Sua unidade, bendito — uma unidade que não tem semelhante entre todas as demais unidades. Isto, não como as palavras da Cabala nova, que pensaram que a Sua unidade, bendito, é inferior até às demais unidades: pois "o par" zug é dois apenas, ao passo que, junto aos cabalistas novos, a Divindade abrange vários partzufim, como se explicou acima — cinco partzufim "abrangentes", e os cinco se subdividem ainda em doze partzufim no mundo de Atzilut (fora dos partzufim nos mundos superiores, dos quais, sem dúvida, não falaram, e fora dos partzufim em Beriá, Yetzirá e Asiyá). E cada um destes partzufim é chamado pelo Nome HaVaYaH, e Adnut, e Elohim, e pelo nome "o Santo, bendito"; e os seus graus são distintos uns dos outros, este acima daquele, e este abaixo dele; e não há permissão a um partzuf de criar, ou dar vida, ou matar, senão por licença tomada daquele partzuf que está acima dele — como os "encarregados" sob a mão do rei, em que o rei dá licença ao seu vice, e o vice ao terço, e o terço aos chefes de milhares... e cada um faz o seu desejo na coisa que lhe foi confiada, mas uma coisa grande não fará por seu próprio juízo, senão por licença tomada do encarregado que está acima dele (como acima, seção 21, em nome do Zohar Bereshit); e que o Rei superior a todos eles é Adam Kadmon, e é ele que disse "vede agora que eu sou Ele, e não há D'us comigo"... e é de admirar por que ele não precisa tomar licença de Adam Kadma'a, que está acima dele... ou do Ein Sof, que é o D'us superno, acima de todos? E das palavras do Semag ganhamos a saber que, até os seus dias, todo Israel estava fincado na fé da unidade do Senhor — que Ele é um e mais singular do que todas as demais unidades, como a opinião de Rasa"g —, e que esta é a opinião da nossa santa Torá, escrita e oral, que os Sábios receberam na Guemará e nos midrashim notórios, sem dúvida alguma; e não como a opinião da Cabala nova, da qual não se sabe de cujo ventre saiu, e que da mão de um estrangeiro chegou à mão de Israel — como escreveu o R. Chaim Yossef David Azulai Chid"a no seu livro Shem haGedolim (trazido adiante) —, e que é quase minut completa, pois apenas com a sua língua ao mentem, bendito, chamando-O "um", mas no seu coração pensam várias "causas" que se encadeiam uma após a outra, e em que cada causa é chamada pelo nome "o Santo, bendito".

סב) הבט נא אחי בעין חודרת בדברי הר' הסמ"ג ז"ל איך הביא דברי הרס"ג לחזק דבריו. ובעיניו הדבר פשוט מאוד, שכן היא אמונת אחדותו ית' אחדות שאין כמוה בשאר כל האחדים. שלא כדברי הקבלה החדשה שחשבו שאחדותו ית' פחותה גם משאר האחדים, כי הזוג האחד הם שנים בלבד, ואצל המקובלים החדשים האלהות כוללת כמה פרצופים כמבואר לעיל, חמשה פרצופים כוללים. והחמשה נפרטים עוד לשנים עשר פרצופים בעולם האצילות, חוץ מן הפרצופים שבעולמות העליונים אין מספק שלא דברו בהם. וחוץ מהפרצופים שבבריאה ויצירה ועשייה, ואלה הפרצופים כל אחד מהם נקרא בשם הוי'ה ואדנות ואלהים ובשם הקב"ה ומדרגותיהם חלוקים זה מזה, זה למעלה מזה, וזה למטה ממנו. ואין רשות לפרצוף לברוא או להחיות או להמית אלא בנטילת רשות מאותו פרצוף שלמעלה ממנו, כשרים הממונים מתחת יד המלך שהמלך נותן רשות למשנהו. והמשנה לשליש והשליש לשרי אלפים ושרי אלפים למאות וכו'. וכל אחד יעשה חפצו בדבר שנתמנה לו, אבל דבר גדול לא יעשה מדעת עצמו אלא בנטילת רשות מהממונה שלמעלה ממנו כמבואר לעיל סי' כ"א בשם זוהר בראשית וכמו שפירשו וביארו דבריו המפרשים, ושהמלך העליון מכולם אדם קדמון. והוא שאמר ראו עתה כי אני אני הוא ואין אלהים עמדי אני אמית ואחיה, לפי שאדם קדמון זה הוא תחלת פרצופי האצילות, ולית לעילה מניה דימחי ביה. ויש לתמוה על זה למה אינו צריך ליטול רשות מאדם קדמאה שהוא למעלה ממנו אשר כל העולממות העליונים שאין להם מספר נתונים בחלל עיגוליו כמו שכתב המקדש מלך דף ט"ו ד"ה ורמז, או מהאין סוף שהוא האלוה העליון מעל כולם? ומדברי הר' הסמ"ג הרוחנו שעד ימיו היו כל ישראל תקועים באמונת יחוד השי"ת שהוא אחד ומיוחד מכל שאר האחדים כד' הרס"ג. והיא דעת תורתנו הקדושה שבכתב ושבעל פה שקבלו רז"ל גמרא ובמדרשים הידועים ומפורסמים לרס"ל בלי שום ספק. ושלא כדעת הקבלה החדשה אשר לא נודע מבטן מי יצאה, ומיד בן נכר הגיע ליד ישראל כמו שכתב הר' חיים יוסף דוד אזולאי בספרו שם הגדולים ויובא לקמן והיא כמעט מינות גמורה, כי רק בלשונם יכזבו לו יתברך שהוא אחד, ובלבם יחשבו כמה עילות משתלשלים זה אחר זה וכל עילה נקרא בשם הקב"ה.
A fé é o que a alma concebe

(63) E o R"M, autor do Sefer ha-Gedarim, na "raiz da palavra fé emunah", escreveu (eis as suas palavras): “a emunah é a coisa figurada na alma, quando se crê nela como sendo assim como foi figurada — quer fosse verdade o que figurou, quer não fosse verdade —, pois ela é uma crença, junto ao crente, que lhe é desejável. E a fé verdadeira é a afirmação do que se figurou — a saber, que aquilo que está fora do intelecto é conforme o que está figurado no intelecto; pois a "afirmação" ha'amaná não é a coisa dita pela boca, já que não há fé senão após o figurar a conceição. E, se for, com esta fé, tal que seja impossível o contrário desta fé, de modo algum — então aquela fé será verdadeira e estável, pois ela concorda com a existência e a verdade...”

סג) והר"מ בעל הגדרים בשורש אמונה כתב וז"ל, אמונה הוא הענין המצוייר בנפש כשיאמינו בו כך כמו שצויר, היה אמת מה שצייר או בלתי אמת, כי היא אמנוה אצלו רצויה אצל המאמין, והאמונה האמתית היא ההאמנה במה שצייר שהוא חוץ לשכל כפי מה שהו מצויר בשכל, כי ההאמנה אינה ענין הנאמר בפה, כי אין אמונה אלא אחר מיור. ואם יהיה עם זאת האמונה שאי אפשר חילוף זאת האמונה בשום פנים. אז תהיה האמונה ההיא אמתית וקיימת, כי תסכים למציאות והאמות כאשר יהיה בצודק, והוא לא יאמין במקבילו, היה אמות אמרתי ע"כ.
Por isso é dever investigar a unidade

E se escreveram, à sua margem, as palavras do comentador (eis as suas palavras): “"a fé é a coisa figurada na alma" — isto vem excluir a crença dos que se contradizem, que não tem figura na alma, e por isso não entra na categoria de "fé". E "a fé verdadeira" etc. — esta definição é tirada das palavras do Rav autor do Moré, e ali se diz que a fé verdadeira tem -na em três coisas que concordam num só acordo: o figurar mental, a crença do coração, e a existência real — como quando se figura no seu pensamento a forma do leão, e se crê no seu coração que ele existe assim, na realidade, fora da alma. E, visto que a alma não se satisfaz na sua fé senão pelo acordo do intelecto, por isso está sobre nós este mandamento: fortalecer a fé e as opiniões da Torá com a investigação intelectual e o acordo da sabedoria com a Torá — pois, ao se juntarem, se fortalece a alma na sua fé. "E será a justiça o cinto dos seus lombos, e a fé o cinto dos seus rins" — e juntos serão perfeitos, e não se moverão do seu coração todos os dias”. E assim disseram os Sábios "e o que não sabe perguntar — tu abre para ele" etc.; e assim instruíram o R. autor do Chovot haLevavot e o autor do Biná la-Ittim... E quanto a haver alguns "sábios aos seus próprios olhos" que pensam que a fé escolhida é aquela que se opõe ao intelecto — e se deixaram levar, nisto, pela opinião dos "crentes na Trindade" —: não é assim a porção de Yaakov! Pois a nossa fé, o intelecto não a afasta, conforme está escrito "não te assemelhes, Israel, aos povos"... e como diz o Kuzari (ensaio V): "D'us nos livre da mentira, e de que venha na Torá algo que o intelecto afaste e tenha por falso". E quem é sábio para entender conhecimento? Pois a maioria dos mandamentos da Torá não se dão a expor só da boca da Torá escrita, senão conforme a explicação dos Sábios na Torá oral. E eis que o mandamento da unidade — quero dizer, crer que Ele, bendito, é um, simples, verdadeiro (o que decorre da negação dos acidentes e dos atributos, e da negação da corporeidade, e da crença na necessidade da Sua existência por força da Sua própria essência, e da negação da mudança n'Ele, bendito, e semelhantes, das crenças divinas) — não está explicado nem na Torá escrita nem na Torá oral de modo expresso; tal que o que crê neles não conforme a lei reta não está no rol dos que têm fé perfeita, e nem adora a Ele, bendito — como escreveu o autor do Chovot haLevavot: "não se pode adorar a Causa das Causas senão o profeta ou o sábio perfeito". Por isso está sobre nós o mandamento de investigar estes mandamentos da fé, da boca dos escribas e dos mestres divinos — para que não se erre na sua fé.

ונכתבו בצדו מהמפרש וז"ל אמונה הוא הענין המצויר בנפש, לאפוקי אמונת הסותרים שאין לה ציור בנפש, לכן לא תכנס בגדר אמונה. והאמונה האמתית וכו' זה הגדר לקוח מדברי הרב המורה, ושם נאמר שהאמונה האמתית לה שם בשלושה מסכימים בקשר הסכמה אחת, שהם הציור המחשבי, ואמונת הלב, והמציאות. כמו שמצייר במחשבתו צורת הארי ומאמין בלבו שהוא נמצא כן במציאות חוץ לנפש. ואחר שהנפש לא תתרצה באמונתה כי אם בהסכמת השכל, לכן עלינוזאת המצוה לחזק אמונת ודעות התורה במחקר השכלי והסכמת החכמה עם התורה, כי בהצמדם יחד תחזק הנפש באמונתה. והיתה האמת אזור מתנה, והאמונה אזור חלציה. ויחדיו יהיו תמים, בל יזוזו מלבו כל הימים. וכן אמרו רז"ל ושאינו יודע לשאול את פתח לו וכו' וכן הורו הר' בעל החובות וה' בעל בינה לעתים וסמכה אקרא דכ' דרך אמונה בחרתי משפטיך שויתי, פי' האמונה והדעות האמנתי אחר בחירת השכל באמתתן, משפטיך שויתי, אך בדברים הנוגעים במשפט וחוקים שויתי הבלתי מבוררים בשכל עם המבוררים וקצת חכמים בעיניהם יחשבו שהאמונה הנבחרת היא המתנגדת לשכל, ונמשכו בזה אחר דעת בעלי השלישים. ולא כן חלק יעקב, כי אמונתינו לא יסור אותם השכל, ככתוב אל תדמה ישראל אל עמים לא עלו מתוך ההפכה, וריב להם עם הדעת (אסף חלק א' מאמר א') וכן יאמר הכוזרי מאמר ו' סי' ל"א חלילה לאל מן השקר ושיבא בתורה מה שהשכל מרחיק אותו וישימהו שקר, ומי חכם יבין דעת, כי רובי מצות התורה לא ניתנו לדרוש מפי התורה שבכתב כ"א כפי ביאור חכמים ז"ל בתורה שבעל פה. והנה מצות האחדות ר"ל להאמין שהו ית' אחד פשוט אמתי הנמשך אחר שלילת המקרים, והתארים, ושלילת הגשמות, ואמונת חיוב מציאותו בבחינת עצמו, ושלילת השינוי ממנו ית' וכיוצא בהם מהאמונות האלהיות הבלתי מבוארת לא בתורה שבכתב ולא בתורה שבעל פה, שהמאמין בהם שלא כדת אינו בכלל בעלי האמונה השלימה, ולא אותו ית' יעבוד כמו שכ' הרב בעל חובת הלבבות לא יוכל לעבוד עילת העילות זולת הנביא או החכם השלום, על כן המצוה עלינו לחקור על מצות אלה מפי סופרים ומספרים האלהיים למען לא יטעה באמונתו עכ"ל.
Nota — crer é conceber, e por isso investigar. O capítulo fecha retomando — pelo Ba'al haGedarim e pelo Moré I:50 — que a fé verdadeira é a concordância de três: o que se concebe na mente, o que se crê no coração, e o que existe de fato. Daí o corolário luminoso: como a alma só sossega na fé que o intelecto confirma, há um mandamento de fortalecer a fé pela investigação e de harmonizar a sabedoria com a Torá. E como a unidade de D'us (simples, incorpóreo, imutável, necessário) não está explicada literalmente na Escritura, ela tem de ser estudada com mestres — "não se pode adorar a Causa das Causas senão o profeta ou o sábio perfeito" (Chovot haLevavot). É o coração do programa do Dor Deah, e o ideal que une Qafih aos próprios cabalistas que aqui critica: a fé que se entende vale mais do que a fé que apenas se recita. (E note-se a delicadeza: também o Kuzari — uma obra cara à tradição cabalística — é convocado para "D'us nos livre de algo na Torá que o intelecto rejeite".)

Sobre esta seção · עִיּוּן

D'us conhecido através de Israel

O ensino de Menachot é belo: o mundo veio a reconhecer o Pai dos céus — Aquele que supervisiona a terra — por meio de Israel. Qafih lê nisso o contraste com a posição que atribui à Cabala (um Ein Sof distante, indiferente ao mundo de baixo) e a equipara à crença das nações remotas.

A unidade incomparável

O coração filosófico do capítulo: D'us é "um de todos os lados" — não como um rei (há outros reis) ou um anjo (há outros anjos). E a refutação clássica de Saadia aos dois/três poderes mostra a impossibilidade lógica da multiplicidade divina. Aqui Qafih e os cabalistas plenamente concordam: D'us é absolutamente Um.

O argumento do silêncio

Um lance fino: se "unificar os partzufim" fosse a essência do culto, por que o Talmud, ao listar as seis intenções do sacrifício, não a inclui? Para Qafih, prova que os Sábios a desconheciam. O cabalista responde que o yichud é a intenção interior de toda mitzvah, não uma rubrica sacrifical.

Crer é conceber

O fecho é construtivo e luminoso: a fé é o que a alma concebe (Ba'al haGedarim, na linha do Moré); e como a alma só sossega na fé que o intelecto confirma, é dever investigar a unidade de D'us e harmonizar a sabedoria com a Torá. É o ideal que, no fundo, une Qafih aos próprios cabalistas: uma fé compreendida, não apenas recitada.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXIV

Por que os Sábios não "explicaram" a unidade

דֶּרֶךְ הַתַּנָּאִים — לֹא לְבָאֵר אֶת הַמְפֻרְסָם
Rav Yichya Qafih (1850–1935) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O Ba'al haGedarim dissera que os Sábios não dedicaram um ensino expresso ao mandamento da unidade. Qafih responde com um princípio: a Mishná e o Talmud nunca ensinam o que já é óbvio e notório — e a unidade de D'us era a coisa mais explícita e firme em todo Israel. Daí a regra contra traduzir um versículo ao pé da letra, e a leitura não-literal dos antropomorfismos.

A Mishná não ensina o óbvio

(64) E estas palavras suas, que escreveu — a saber, que "o mandamento da unidade, os nossos mestres não o explicaram" —, são maravilhosas aos meus olhos em extremo, por vários aspectos. Pois eis que é sabido e notório que o caminho dos Sábios, mestres da Mishná e do Talmud, era não mencionar senão aquilo de que se possa duvidar se é proibido ou permitido; mas a coisa cuja proibição ou permissão é simples, não a menciona o tana de modo algum — pois "isto é ir ler na escola do mestre" coisa elementar. E assim escreveu o Rambam no comentário à Mishná, capítulo 7 de Berachot (eis as suas palavras): “e saiba que a Mishná não fala da proibição de uma coisa notória, cuja proibição é sabida, nem da permissão de uma coisa cuja permissão é sabida; mas, em coisa em que há que duvidar se é proibida ou permitida, a Mishná esclarece — para proibir uma coisa que viria à mente ser permitida, ou para permitir uma coisa que viria à mente ser proibida; mas das coisas sabidas não fala de modo algum. E por isso perguntam na Guemará sempre: "pashita?" é óbvio! "mai ka mashma lan?" o que [nos vem ensinar?] — é dizer: se já era coisa sabida e notória...” (fim da citação). E já se explicou acima, nas palavras do Semag, que a Sua unidade, bendito, é simples e fincada no coração de todo Israel — e tanto mais nos dias dos Sábios, mestres da Mishná e do Talmud —; e em segundo, que ela está explicada na Torá, Profetas e Escritos em lugares sem número: "Ouve, Israel, o Senhor nosso D'us, o Senhor é um"; "e saberás hoje... que o Senhor, Ele é o D'us, nos céus em cima e sobre a terra embaixo, não há outro"; e disse "não há outro além d'Ele"; "vede agora que Eu, Eu sou Ele, e não há D'us comigo"; "o Senhor sozinho o conduziu, e não havia com ele deus estranho"; "Eu sou o que estende os céus sozinho, o que estira a terra por Mim mesmo"; "quem Me precedeu, que Eu lhe pague?" — e ainda muitos versículos que falam da Sua unidade, bendito, e da Sua eternidade; e é notório também na nação de Israel, como acima (seções 60–61). Por isso não precisaram os Sábios de explicar a unidade verdadeira, por ser ela das coisas notórias. Também a negação da corporeidade está explicada nos versículos: "pois não vistes figura alguma"; "e figura vós não vedes"; "e a quem Me comparareis, para que eu lhe seja igual?"; "e a quem comparareis a D'us?" — e muitos versículos semelhantes. E a mudança, também, está explicada a sua negação do Senhor, no que Ele disse, bendito: "Eu, o Senhor, não mudei". E, com tudo isto, não se calaram os Sábios de mencionar — no Bavli, no Yerushalmi, no Midrash Rabá, no Tanchuma e nos demais midrashim conhecidos e notórios — a resposta às alegações e perguntas que lhes ocorreram da parte dos de fora, os que negam, os que alegam contra as Suas crenças; e há neles o bastante para instruir-nos o caminho reto na unidade do Senhor — que é como explicaram R. Saadia Gaon e o Rambam (no comentário à Mishná, no Compêndio e no Moré), e R. Bachya em Chovot haLevavot, e o Rokeach, e Shevilei Emuná, e R. Yehudá haLevi no Kuzari. E também afastaram os Sábios o multiplicar em atributos do Senhor. E de toda coisa da qual saia a insinuação de "dois poderes" ou mais — como no que disseram: "o que diz 'Ouve, ouve' ou 'Modim, modim', repetindo, e semelhantes, os silenciam" (como se explicou acima, seção 32). E tanto mais que encontramos todas estas coisas segundo a Cabala verdadeira na unidade do Senhor, se atentarmos e aprofundarmos a investigação nos Targumim que nos foram entregues pelos Sábios: o Targum de Onkelos, o convertido — sobre quem seja a paz —, que traduziu a Torá da boca de R. Eliezer e R. Yehoshua; e o Targum de Yonatan ben Uziel, o maior dos discípulos de Hilel, que traduziu os Profetas conforme recebeu de Hilel. E achamos e vimos que eles enraízam a fé verdadeira no coração do povo, e corrigem a tradução dos versículos para que não caia dúvida na tradição verdadeira — como escreveram o Rambam e o Rasa"g. E veja na introdução geral de R. Natan Adler, autor de Netiná la-Ger. E por isso disseram os Sábios: "quem traduz um versículo conforme a sua forma ao pé da letra — eis que é um mentiroso" — porque é o caminho dos versículos falar por modo de amplitude da língua, ou em linguagem emprestada metafórica, ou homônima, ou em linguagem curta, ou no tom anterior e posterior inversão; e o tradutor precisa de traduzi-lo como o receberam os Sábios. E estes são os segredos da Torá: explicar os versículos obscuros conforme a verdade que receberam os Sábios. E por isso disseram os Sábios que, quando Yonatan ben Uziel traduziu os Profetas, saiu uma voz celeste e disse "quem revelou os Meus segredos aos filhos do homem?". E sobre ele diz Rav Yossef, em vários lugares: "não fosse o targum deste versículo, não saberíamos o que ele diz". E no Midrash haGadol, parashá Mishpatim, sobre "e viram o D'us de Israel": disse R. Eliezer: “todo o que traduz um versículo conforme a sua forma — eis que é um mentiroso; e todo o que lhe acrescenta — eis que é um que blasfema e injuria. Como em "e viram o D'us de Israel": se traduzir "e viram o D'us de Israel" literalmente — eis que é mentiroso, pois o Santo, bendito, vê e não é visto; e, se traduzir "e viram a glória da Presença do D'us de Israel" — eis que é um que blasfema e injuria, pois faz aqui três: glória, Presença e D'us” (fim). E isto me serve de muito, pois eis que Yonatan ben Uziel traduziu "porque o Rei, o Senhor dos Exércitos, viram os meus olhos" como "porque a glória da Presença do Rei dos mundos, o Senhor dos Exércitos, viram os meus olhos". E o Rif, ao fim de Meguilá, trouxe esta Tossefta; e explicou R. Nissim: “quem traduz um versículo conforme a sua forma — "e viram o anjo do D'us de Israel", e viram a forma do trono da Sua glória — eis que é um que injuria, pois igualou a honra do servo à honra do seu Senhor”. E o Aruch, na entrada "tirguem", explicou: “eis que injuria e blasfema, aquele que faz a glória um anjo; antes, traduza "e viram a glória do D'us de Israel"...”

סד) ודבריו אלה שכתב שמצות האחדות לא ביארוה רבותינו ז"ל נפלאים בעיני עד מאוד מכמה פנים, כי הנה ידוע הוא ומפורסם שדרך רז"ל בעלי המשנה והתלמוד שלא להזכיר רק דבר שאפשר להסתפק בו אם הוא אסור או מותר, אבל דברי הפשוט איסורו או התירו לא יזכיר התנא כלל, דזיל קרי בי רב הוא, וכן כתב הרמב"ם ז"ל בפי' המשנה פרק ז' דברכות וז"ל ודע כי המשנה לא תדבר דבר באיסור דבר המפורסם וידוע איסורו או בהתר דבר שידוע התירו, אך בדבר שיש לספק בו אם הוא אסור או מותר, תבאר המשנה לאסור דבר שיעלה על הדעת שהוא מותר, או בהתר דבר שיעלה על הדעת שהוא אסור, אבל דברים הידועים לא תדבר בהם כלל, ולכן מקשים בגמרא תמיד פשיטא? מאי קמ"ל? אם היה דבר ידוע ומפורסם עכ"ל. וכבר נתבאר לעיל בדברי הר' הסמ"ג כי אחדותו ית' פשוטה ותקועה בלב כל ישראל, וכל שכן בימי רז"ל בעלי המשנה והתלמוד, והשנית שהיא מבוארת בתורה נביאים וכתובים במקומות אין מספר, שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד, וידעת היום וכו' כי ה' הוא האלהים בשמים ועל הארץ מתחת אין עוד, ואמר אין עוד מלבדו ראו עתה כי אני אני הוא ואין אלהים עמדי, ה' בדד ינחנו ואין עמו אל נכר, נוטה שמים לבדי, רוקע הארץ מיאתי, מי הקדימני, ועוד הרבה כתובים מדברים באחדותו ית' וקדמותו, ומפורסם ג"כ באומה הישראלית כנז"ל ס' ס"א, לכן לא הוצרכו רז"ל לבאר היחוד האמתי, להיותו מן המפורסמות, גם שלילת הגשמות מבוארת בכתובים כי לא ראיתם כל תמונה ותמונה אינכם רואים, ואל מי תדמיוני ואשוה, ואל מי תדמיון אל, והרבה כתובים כיוצא בהם, והשינוי ג"כ מבואר שלילתו מהשי"ת בכתוב הוא אמרו ית' אני ה' לא שגיתי, וכן שאר דברים המביאים לענינים הנזכרים, ועם כל זה לא שתקו לרז"ל מלהזכיר תשובת בבלי וירושלמי ומדרש רבה ותנחומא ושאר מדרשים הידועים ומפורסמים לרז"ל מלהזכיר תשובת טענות ושאלות שאירעו וקרו להם מן החיצונים הכופרים הטוענים נגד אמונותיו ויש בהם די להורותינו הדרך הנכונה ביחוד השי"ת שהוא כמו שביארו ר' סעדיה גאון והרמב"ם בפי' המשנה ובחבור ובמורה ור' בחיי בחובת הלבבות, והרקח, ושבילי אמונה, ור' יהודה הלוי בכוזרי. וגם הרחיקו רז"ל מלהרבות בתארי השי"ת. ומכל ענין היוצא ממנו משמעות שתי רשויות או יותר כאמרם האומר שמע שמע או מודים מודים וכיוצא משתקים אותו וכמו שנת' לעיל סי' ל"ב. וכ"ש שנמצא את כל אלה על פי הקבלה האמתית ביחוד השי"ת אם נשכיל ונעמיק חקר בתרגומים המסורים לנו מרז"ל תרגום אונקלוס הגר ע"ה שתרגם את התורה מפי ר' אליעזר ור' יהושע, ותרגום יונתן בן עוזיאל הגדול שבתלמיד הלל שתרגם את הנביאים כמו שקבל מהלל. ומצאנו ראינו שהם משרישים האמונה האמתית בלב העם ומתקנים תרגום הכתובים שלא יפול ספק בקבלה האמתית כמו שכ' הרמב"ם והרס"ג. ועיין בהקדמה כוללת להר"ר נתן אדלר בעל נתינה לגר. ועל כן ארז"ל המתרגם פסוק כצורתו הרי זה בדאי. לפי שדרך הכתובים לדבר בדרך הרחבת הלשון, או בלשון מושאל, או משותף, או בלשון קצר, או במוקדם ומאוחר. צריך המתרגם לתרגמו כמו שקבלו חכמים, ואלו הן סודות התורה לפרש מקראות הסתומים כפי האמת שקבלו חכמים. ולכן אמרו רז"ל כי כשתרגם יונתן בן עוזיאל את הנביאים יצאה בת קול ואמרה מי גלה רזי לבני אדם. ועליו יאמר רב יוסף בכמה מקומות אלמלא תרגומא דהאיי קרא לא ידענא מאי קאמר. ובמדרש הגדול פ' משפטים ויראו את אלהי ישראל. אמר ר' אליעזר כל המתרגם פסוק כצורתו ה"ז בדאי וכל המוסיף בו הרי זה מחרף ומגדף כגון ויראו את אלהי ישראל. וחזו ית אלהא דישראל ה"ז בדאי. שהקב"ה רואה ואינו נראה. ואם תרגם וחזו ית יקר שכינת אלהא דישראל הרי זה מחרף ומגדף. שהוא עושה כאן שלשה, יקר, ושכינה ואל עכ"ל. וקאי לי טובא שהרי יונתן בן עוזיאל תרגם כי את המלך ה' צבאות ראו עיני. ארי ית יקר שכינת מלך עלמיא ה' צבאות חזאה עיני והרי"ף בסוף מסכת מגלה הביא תוספתא זו ופי' ר' נסים המתרגם פסוק כצורתו וחזו ית' מלאכא דאלהא דישראל, ורחות כרסי יקריה ה"ז מגדף שהשוה כבוד עבד לכבוד רבו ע"כ, והערוך ערך תרגם פי' הרי מחרף ומגדף שעושה הכבוד מלאך, אלא יתרגם וחזו ית יקר אלהא דישראל וכו'.
Nota — o argumento do silêncio, ao contrário. O Ba'al haGedarim raciocinara: se os Sábios não explicaram a unidade, é porque a transmitiam de boca a boca, em segredo. Qafih inverte a inferência com um princípio que o próprio Rambam formula no comentário à Mishná: a Mishná, por economia, nunca ensina o óbvio — quando algo é evidente, a Guemará reage com "pashita?" ("é óbvio — o que isto vem ensinar?"). Logo, o silêncio prova que a unidade era notória, não que fosse um segredo esotérico. E ela não está só pressuposta: está explícita em dezenas de versículos ("o Senhor é um", "não há outro além d'Ele", "a quem Me comparareis?"). A regra "quem traduz ao pé da letra é mentiroso" (Qiddushin 49a; Tossefta Meguilá) é a chave: a própria tradição dos Targumim já lê "a mão de D'us", "os olhos de D'us" como metáforas de reverência. Para Qafih, a leitura literal/corpórea é que seria a inovação.
"Não tenho pai, nem filho, nem irmão"

E contra a fé nos Três shilush — que se inovou no tempo dos Sábios, mestres da Mishná, vinda dos discípulos de Yeshu, o Nazareno — disseram os Sábios no Midrash Rabá, parashá Yitró: sobre "Eu sou o Senhor teu D'us, que te tirei etc.", disse o Santo, bendito: “um rei de carne e sangue que reina, tem para si pai, ou irmão, ou filho; Eu não sou assim: Eu sou o primeiro, pois não tenho pai; e Eu sou o último, pois não tenho filho; e "além de Mim não há D'us", pois não tenho irmão” (fim). E os cabalistas novos se arrastaram atrás da opinião dos que creem nos Três, os que creem no Pai, no Filho e no Espírito Santo — como se entende da parábola explicada no livro Oz le-Elohim, n'"o Santo dos Santos", folha 59b (eis as suas palavras): “e visto que o "Rei Santo, o mais santo de todos os santos", não se separa d'Ele jamais, e ilumina em Ze'ir Anpin — que é o coração de Atzilut —, por isso é também chamado botzina de-kardinuta a lâmpada cintilante, que ilumina no coração, que é Ze'ir Anpin de Atzilut... e ele é o chamado Rei para os filhos de Israel... e é o nosso Rei, e nós somos os seus servos, e a ele vão as nossas orações e as nossas intenções; e até Abba e Imma Pai e Mãe estão advertidos a honrar este Filho e a temê-lo, porque ele é o Rei que governa sobre tudo... e, ainda que tenha saído este Filho santo de Abba e Imma, adiante se explicará que ele é o principal... pois, a quem é preciso servir? Sem dúvida, ao Rei; e até o seu pai e a sua mãe têm necessidade dele, por ser ele rei. Sobre isto se disse "beijai o filho bar, para que Ele não Se ire"... eis que até Abba e Imma têm necessidade dele” (fim). Eis claramente que isto contradiz as palavras dos Sábios no Midrash Shemot Rabá citado acima, e n'o Yerushalmi, no capítulo "Dinei Mamonot", onde se lê: “qual é o selo do Santo, bendito? Rav Bibi, em nome de R. Reuven: "verdade" emet. Que é "emet"? Disse R. Bun: que Ele é o "D'us vivo e Rei do mundo". Disse Resh Lakish: alef, cabeça do alfabeto; mem, no meio; tav, no fim — para dizer: "Eu sou o Senhor, o primeiro, pois não recebi de outro; e além de Mim não há D'us, pois não tenho sócio; e Eu sou com os últimos, pois não hei de entregá-la a soberania a outro"” (fim do Yerushalmi).

וכנגד אמונת השלוש שנתחדשה בזמן רז"ל בעלי המשנה מתלמידי ישוע הנצרי אמרו רז"ל במדרש רבה פרשת יתרו אנכי ה' אלהיך אשר הוצאתיך וגו' אמר הקב"ה מלך בשר ודם מולך יש לו אב או אח, או בן, אני איני כן, אני ראשון שאין לי אב, ואני אחרון שאין לי בן, ומבלעדי אין אלהים שאין לי אח ע"כ. והמקובלים החדשים נמשכו אחר דעת בעלי השלוש המאמינים באב ובן ורוח הקודש כמובן מהמשל המבואר בס' עז לאלהים בבית קודש הקדשים דף נ"ט ע"ב וז"ל ולפי שמלכא קדישא דכל קדישין לא מתפרש מניה לעלמין והוא מאיר בזעיר אנפין דהוא לב האצילות לכן הוא ג"כ יקרא בוצינא דקרדינותא שמאיר בלב שהוא זעיר אנפין דאצילות. נמצא שמה שנקרא זה השם הוא על שם נשמתו ולא על שם מלבושו כשאר השמות. והוא הנקרא מלך לבני ישראל כאשר נתבאר בפרשת ואלה המלכים. והוא מלכינו ואנחנו עבדיו. ואליו תפלותינו וכוונותינו. ואפי' אבא ואימא מוזהרים לכבד את הבן הזה וליראה ממנו, לפי שהוא המלך השליט על כלא. ואפי' שיצא הבן הקדוש הזה מאבא ואימא יתבאר לקמן שהוא העיקר, אבל בכל זאת אמשול לך משל אם ימלוך א' ויהיה לו אב ואם. למי צריכים לעבוד? בודאי למלך. ואפי' אביו ואמו צריכים לו לפי שהוא מלך. על זה אמר נשקו בר פן יאנף. ואמר בזהר נשקו ידין להאי ברא קדישא. כי שולטנו אתיהיב ליה על כלא וכו' הרי שאפי' אבא ואימא צריכים לו עכ"ל. הרי בהדיא שהוא סותר לדברי רז"ל במדרש שמות רבה הנז' לעיל, וירושלמי בפ' דיני ממונות, דגרסינן התם מהו חותמו של הקב"ה רב בבי בשם ר ראובן אמת. מהו אמת. אמר ר' בון שהוא אלהים חיים ומלך עולם. אמר ריש לקיש אלף רישא דאלף בית מים באמצעיתא, תיו בסופא. לומר אני ה' ראשון שלא קבלתי מאחר. ומבלעדי אין אלהים שאין לי שותף. ואת אחרונים אני הוא שאיני עתיד למוסרה לאחר עכ"ל הירוש'.
Pré-existência, unidade, eternidade

E no Shir haShirim Rabá, parashá 1, se traz: disse Resh Lakish: “e por que é "emet"? Alef no início das letras, mem no meio, tav no fim — para dizer: "Eu sou o primeiro e Eu sou o último, e além de Mim não há D'us; Eu sou o primeiro, pois não recebi a Minha soberania de outro; e Eu sou o último, pois não a entrego a outro, pois não há outro no mundo; e além de Mim não há D'us, pois não tenho segundo"” (fim). E explicou R. Etz Yossef que três raízes estão singularizadas na Sua divindade, bendito: a primeira, a Sua pré-existência; a segunda, a Sua unidade; e a terceira, a Sua eternidade (fim). Eis que se explicou para ti, disto, que o Yerushalmi, e o Shemot Rabá, e o Shir haShirim Rabá, todos concordam com os princípios que escreveu o Rambam acerca da Sua unidade, bendito, e da Sua pré-existência; e as palavras do Zohar e dos cabalistas novos contradizem aqueles princípios — porque se arrastaram atrás dos que creem nos Três, a servir o Filho, como se explicou. E os Sábios exageraram em afastar os adeptos desta crença, até proibirem comerciar com eles — como se lê em Avodá Zará, capítulo "Ein Ma'amidin": “um judeu não comercie com os minim sectários, e não se cure deles, ainda que para a vida de uma hora. E houve um caso com Ben Dama, filho da irmã de R. Yishmael, que uma cobra o picou, e veio Yaakov, homem da aldeia de Sechania, para curá-lo, e não o deixou R. Yishmael. Disse-lhe Ben Dama: "Yishmael, meu irmão, deixa-me, e eu me curarei dele, e eu te trarei um versículo da Torá mostrando que é permitido". E não chegou Ben Dama a concluir a coisa, até que saiu a sua alma e morreu. Disse sobre ele R. Yishmael: "feliz és tu, Ben Dama, pois o teu corpo está puro e a tua alma saiu em pureza, e não transgrediste as palavras dos teus colegas, que diziam 'e o que rompe uma cerca, a ele o morderá a serpente'"”, e conclui ali que “a minut é diferente dos demais proibidos da Torá, porque atrai, e a pessoa vem a se deixar atrair atrás deles” (fim). E assim, também, disseram no Yerushalmi, Shabat, capítulo 8: “o neto de R. Yehoshua ben Levi tinha algo engasgado na garganta; veio um homem e lhe sussurrou um encantamento em nome daquele indivíduo, e o homem sarou. Quando este saiu, R. Yehoshua ben Levi lhe disse: "o que lhe sussurraste?"... disse-lhe: "melhor lhe fora a ele se tivesse morrido"; e assim lhe foi: como um erro que sai de diante do governante” Eclesiastes 10:5. Ali, também: “houve um caso com R. Elazar ben Dama, a quem uma cobra picou, e veio Yaakov, homem da aldeia de Sama (é Yaakov, homem da aldeia de Sechania, mencionado no Bavli, que é dos discípulos daquele indivíduo), para curá-lo, e não o deixou R. Yishmael...” E de tudo isto aprendes quanto exageraram e se afastaram, a ponto de não comerciar com os adeptos dos Três, e de não se curar deles, ainda que em lugar de perigo. E ainda que eles digam "os três são um" — e, visto que todo Israel, no tempo dos Sábios, estava aderente e apegado à unidade do Senhor em verdade, não precisaram, na Mishná e no Talmud, de explicar esta coisa, e de dizer que aquele que pensa "causas emanadas do Criador" e diz que elas são uma só coisa com o seu Emanador — esse é um que adora avodá zará. Pois esta é a fé dos "messiânicos"; e sobre ela disse R. Shimon bar Yochai: “todo o que associa o Nome dos céus e outra coisa — é arrancado do mundo”. E já disseram que os nazarenos são adoradores de avodá zará, e o domingo é dia da sua festa... e por isso escreveu o Semag que não há necessidade de se alongar nisto, porque todo Israel está apegado à fé da unidade.

ובשיר השירים רבה פר' א' איתא, אמר ריש לקיש ולמה הוא אמת. אלף בראש האותיות, מים באמצע, תיו בסופן. לומר אני ראשון ואני אחרון ומבלעדי אין אלהים. אני ראשון שלא קיבלתי מלכותי מאחר, ואני אחרון שאיני מוסרה לאחר שאינו בעולם. ומבלעדי אין אלהים שאין לי ש ני ע"כ. ופי' הר' עץ יוסף ששלשה שרשים מיוחדים באלהותו ית' הא' בקדמותו, והשני אחדותו, והג' נצחיותו ע"כ. הרי נתבאר לך מזה שהירושלמי ושמות רבה ושיר השירים רבה כולם מסכימים לעיקרים שכתב הרמב"ם באחדותו ית' וקדמותו. ודברי הזהר הומקובלים החדשים סותרים העיקרים ההם. לפי שנמשכו אחר מאמיני השלוש לעבוד את הבן כמו שנתבאר. ורז"ל הפליגו בהרחקת בעלי אמונה זו עד שאסרו לישא וליתן עמהם כדגרסינן בע"ז פרק אין מעמידין לא ישא ויתן עם המינים ואין מתרפאין מהן אפי' לחיי שעה. ומעשה בבן דמא בן אחותו של ר' ישמעאל שהכישו נחש ובא יעקב איש כפר סכניא לרפאתו ולא הניחו ר' ישמעאל. אמר לו ישמעאל אחי, הנח לי ואתרפא ממנו. ואני אביא לך מקרא מן התורה שהוא מותר. ולא הספיק לגמור את הדבר עד שיצאה נשמתו ומת. קרי עליה ר' ישמעאל אשריך בן דמא שגופך טהור ונשמתך יצאה בטהרה, ולא עברת על דברי חביריך שהיו אומרים ופורץ גדר ישכנו נחש, ומסיים שם שאני מינות משאר איסורין של תורה. משום דמשכא ואתי למשך בתריהו ע"כ. טהכי נמי אמרו בירוש' שבת פרק ח' שרצים. בר ברוה דר' יהושע בן לוי הוה ליה בלי את בר נש ולחש ליה מן שמיה דישו פנדירא ואינשם כד נפיק אמר ליה מאן לחשת ליה, אמר ליה מילת פלן. אמר ליה נוח הוה ליה אלו הוה מאית. והות לי' כן. בשגגה שיוצא מלפני השליט. עוד שם מעשה בר' אלעזר בן דמא שנשכו נחש ובא יעקב איש כפר סמא (הוא יעקב איש כפר סכניא הנז' בבבלי שהוא מתלמידי יש"ו) משם של יש"ו פנדריא לרפותו ולא הניח לו ר' ישמעאל. אמר לו אני מביא לך ראיה שירפאני. לא הספיק להביא ראיה עד שמת בן דמא. אמר לו ר' ימשעאל אשריך בן דמא שיצאת בשלום מן העולם ולא פרצת גדירן של חכמים דכ' ופורץ ישכנו נחש וכו' ומאי הוה ליה מימר אשר יעשה אותם האדם וחי בהם ע"כ. מכל זה אתה למד כמה הפליגו והרחיקו שלא לישא וליתן עם מאמיני השלשה ואין מתרפאין מהן אפי' במקום סכנה. ואע"פ שהם אומרים שהשלשה אחד, ולפי שכל ישראל בזמן רז"ל אדוקים ודבוקים ביחוד השי"ת באמת לא הוצרכו במשנה ובתלמוד לבאר דבר זה ולומר שמי שחושב עלות נאצלים מהבורא ואומר שהם אחד עם מאצילם שהוא עובד ע"ז. כי זו היא אמונת המשיחים. ועליה אמר ר' שמעון ב"י כל המשתף שם שמים ודבר אחר נעקר מן העולם. וכבר אמרו הנצרים עובדי ע"ז הם. ויום ראשון יום אידם הוא. לפיכך אסור לשאת ולתת עמהן בארץ ישראל יום ה' ויום ו' שבכל שבת ושבת ואין צריך לומר יום ראשון עצמו שהוא אסור בכל מקום. וכן בכל אידיהן (הרמב"ם פ"ט מע"ז) ולכן כ' הסמ"ג שאין צריך להאריך בזה מפני שכל ישראל אדוקים באמונת היחוד.
Nota — material talmúdico antigo sobre os minim. Estes trechos (Avodá Zará 27b; Yerushalmi Shabat 14:4) são textos da Antiguidade tardia, da época em que o judaísmo rabínico definia suas fronteiras frente aos minim — termo amplo para sectários, que aqui inclui os primeiros cristãos. Qafih os cita para um fim preciso: mostrar que os Sábios conheciam e combatiam toda forma de shittuf (associar a D'us "outra coisa"), e que por isso não precisavam dedicar um tratado à unidade — ela era pressuposta e defendida em ato. Reproduzimos o material com fidelidade histórica, sem o dirigir a nenhuma comunidade viva e sem o tomar como juízo nosso sobre quem quer que seja. O princípio teológico que Qafih extrai — "quem associa o Nome do Céu a outra coisa é arrancado do mundo" (atribuído a Rashbi) — é, note-se, o mesmo princípio que os cabalistas invocam contra o kitzutz ba-netiot: ambos os lados condenam a multiplicidade real de poderes divinos.
Um, sem composição alguma

(65) Ainda escreveu o Ba'al haGedarim, na raiz "yichud" (eis as suas palavras): “"yichud" unificação se deriva de "yachid" único; usaram-no para indicar a unidade verdadeira, na qual não há composição alguma — a qual não a compreende senão o sábio habituado à negação do corpóreo e dos seus acidentes; e o homem bruto não conhece a negação, e o tolo não a entende, mas só o sábio. E eis que a unidade verdadeira é um mandamento escrito na Torá: "Ouve, Israel, o Senhor nosso D'us, o Senhor é um". E, do explicado resulta que não se pode decidir nenhum mandamento da Torá só da Torá escrita, senão da Torá oral, que é a explicação dos mandamentos. E eis que, do tema do mandamento da unidade, não achamos que os Sábios falassem na sua explicação; e, sem dúvida, eles o transmitiam de homem a homem por tradição — pois não é possível que abandonassem o princípio do mandamento e o fundamento da fé divina sem explicação! Mas agora, que aquela explicação se esqueceu de nós, está sobre nós tomar a Torá da boca dos filósofos da Torá, para que não nos desviemos, sem saber, a crer em uma dualidade e em corporeidade (como os cabalistas novos), e a servir a um não-D'us verdadeiro. E é a coisa que disse o autor do Chovot haLevavot: "não se pode servir a Causa das Causas senão o profeta da geração ou o sábio insigne, no que adquiriu da sabedoria; e os demais servem a outro que não Ele"”. E, em verdade, é palavra de sábio o que disse que várias coisas compostas de dois se descrevem por um só nome, por modo de convenção. Explicação das suas palavras: por exemplo, o nome "kirayim" fogão, que é o lugar da colocação de duas panelas, e se chama, nas palavras dos Sábios, por um só nome — "kirá"; e assim "rechayim" moinho, que é o nome da pedra superior — "rechev" — e a inferior, e se chamam ambas por um só nome... ainda que sejam dois, são chamados por um só nome, por modo de convenção e de transferência do termo. E não é assim a Sua unidade, bendito — que é uma unidade verdadeira, na qual não há composição nem agregação alguma —; não como a opinião dos cabalistas novos, que dizem que Ele tem vários partzufim que foram emanados d'Ele, e cada um é chamado por um nome próprio; e eles os juntam e os associam, na sua boca e na sua mente, com o D'us que os emana, e dizem "e tudo é um" ve-chola chad, e os servem juntos — tanto o "corpo" quanto a "alma" —, e mentem ao dizer que é a sua alma que servem. E esta é a linguagem do Oz le-Elohim, n'"o Santo dos Santos", capítulo 18, folha 56b: “e se disseres "que eu serei um que serve à alma sem o corpo", D'us nos livre, não! Antes, já dissemos acima que este partzuf "do Rei santo e da sua Presença" está aderido à alma, por ser Atika Kadisha, o mais santo de todos os santos; e ele e a alma são um só... e, se servir à alma sem o "Rei santo", haveria separação entre a alma e o corpo”. E assim se explica das palavras da glosa do Zohar e do Mishnat Chassidim (trazido acima, seção 39). E sobre o que escreveu o Ba'al haGedarim — a saber, que não é possível que os Sábios abandonassem o princípio do mandamento e o seu fundamento etc. —, já o adverti acima (seção 64) que, ao contrário, é o inverso: que toda coisa explícita nos versículos e que é simples e notória em Israel, os sábios da Mishná não falam dela; e os mestres do Talmud, também, não puseram a sua mira senão em explicar e debater nas suas palavras, e apurá-la e clareá-la, e dar a conhecer leis e questões que se inovaram nos seus dias, e decretos e ordenanças que ordenaram; mas das coisas simples, não há necessidade de mencioná-las de modo algum. E as opiniões e ideias da Cabala nova ainda não eram conhecidas nem ouvidas, nos seus dias, entre os judeus, de modo algum, e estranhas são elas à fé da nossa santa Torá. Pois apenas a partir do início do sexto milênio, no fim do primeiro século, é que sustentaram estas ideias alguns autores que se arrastaram atrás das opiniões do "filósofo enganador" que aderiu à opinião dos adeptos da dualidade e dos Três — é ele o autor do livro Zohar e dos Tikkunim —; e ele intentou nele desencaminhar Israel e afastá-los de sobre o Senhor nosso D'us; e pendurou as suas ideias em Rashbi, o tana, e nos seus colegas...

סה) עור כ' בעל הגדרים בשורש יחוד וז"ל יחוד נגזר מן יחיד שמשו בו להורות על האחדות האמתי אשר אין בו הרכבה כלל. אשר לא יבינהו רק החכם הרגיל בשלילת הגשם ומשיגיו. ואיש בער לא ידע שלילה. וכסיל לא יבינהו רק החכם והנה האחדות האמתי היא מצוה כתובה בתורה. שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד. ומהמבואר שאין לפסוק שום מצוה מן התורה שבכתב לבד כי אם מן התורה שבעל פה שהיא ביאור המצות! והנה מענין מצות האחדות לא מצאנו שדברי חכמים ז"ל בביאורה. ובלי ספק שהיו מוסרין ביאורו איש לאיש בקבלה. כי לא יתכן שיעזבו ראשית המצוה ויסוד האמונה האלהית בלי ביאור! אך עתה שהביאור ההוא נשכח מאתנו עלינו לקחת תורה מפי הפילסופים (התורניים) למען לא נתעה בלי דעת להאמין בשניות ובגשמות (כהמקובלים החדשים) ונעבוד ללא אלהי אמת. והוא הדבר שאמר בעל החובות ז"ל לא יוכל לעבוד עלת העלות אלא נביא הדור או החכם המובהק במה שקנהו מן החכמה. וזולתן עובדים זולתו. ובאמת דבר החכם כי כמה דברים מורכבים שנים יתוארו בשם אחד. על דרך ההסכמה ע"כ. ביאור דבריו כגון שם כירים שהוא מקום שפיתת שתי קדרות, ונקרא בדברי רבותינו בשם אחד כירה. וכן רחים שהוא שם השכב העליון רכב, ונקראו שניהם בשם אחד טחון. בחורים טחון נשאו ובערבי רחא אע"פ שהם זו. וכן מספרים נקרא בערבי מקץ. וכן כל כיוצא בהם כדתנן בפרק י"ג ממסכת כלים קלגריפון, ומכחול, ומכתב, וזומא ליסטרא, אע"פ שהם שנים מחוברים ומורכבים נקראים בשם אחד על דרך ההסכמה וההעברה. ולא כן היא אחדותו ית' שהוא אחד אמיתי שאין בו שום הרכבה וצירוף, שלא כדעת המקובלים החדשים שאומרים שיש לו כמה פרצופים שנאצלו ממנו. וכל אחד נקרא בשם בפני עצמו, והם מחברים ומשתפים אותם בפיהם ובדעתם עם האלוה המאצילם ואומרים וכלא חד. ועובדים אותם יחד גם הגוף גם הנשמה, ומשקרים לומר כי את נשמתו הם עובדים, וזה לשון עוז לאלהים בבית קדש הקדשים פ' י"ח דף נ"ו ע"ב ואם תאמר שאהיה עובד לנשמה בלא גופא ח"ו, חלילה, אלא כבר אמרנו לעיל שזה הפרצוף דמלכא קדישא ושכינתיה הוא אדוק בנשמה. לפי שהוא עתיקא קדישא דכל קדישין. והוא ונשמתא חד אינון כמא דאמרינן לעיל הוא ושמיה חד אינון ולא מהפרש מנהון לעלמין. ואם יעבוד לנשמה בלי מלכא קדישא יהיה פירוד בין נשמה לגופא. וכן מבואר מדברי גליון הזהר ומשנת חסידים הובא לעיל סי' ט"ל. ועל מה שכ' בעל הגדרים שךא יתכן שיעזבו רז"ל ראשית המצוה ויסודה וכו' כבר העירותי על דבריו לעיל סי' ס"ד שאדרבה נהפוך הוא שכל דבר המפורש בכתובים והוא פשוט ומפורסם בישראל לא ידברו בו חכמי המשנה. ובעלי התלמוד ג"כ לא שמו מגמתם רק לבאר ולישא וליתן בדבריה ולבררה וללבנה, ולהודיע דינים ושאלות שנתחדשו בימיהם, וגזרות ותקנות שתיקנו, אבל דברים הפשוטים אין צורך להזכירם כלל. ודעות ורעיונות הקבלה החדשה עוד לא נודעו ולא נשמעו בימיהם בין היהודים כלל, וזרים המה לאמונת תורתינו הקדושה. כי רק מתחלת האלף הששי בסוף המאה הראשונה החזיקו ברעיונות האלה קצת מחברים שנמשכו אחר דעות הפילסוף הרמאי שדבק בדעת השונים והשלישי הוא מחבר ספר הזהר והתקונים. וכון בו להטעות את ישראל ולהדיחם מעל ה' אלהינו. ותלה רעיונותיו ברשב"י התנא וחביריו, בפרט בשני דברים, מידי דעל רשב"י תני במאמרו הקצר כל המשתף שם שמים ודבר אחר נעקר מן העולם. והשני בביזוי המשנה שקלא וטריא דבלמודא שהם עיקר ויסוד תורה שבעל פה שהוא מבזה אותן כמו שיתבאר להלן (דלרשב"י שתורתו אומנותו היא כקריאת שמע בעונתה ירוש' שבת פ"א). וטמן את הספר הנז' בארון וקברו בקרקע כדי לישנו כאלו הוא ישן נושן מימי רשב"י. ואמר למלך ממלכי מזרח לחפור שם בקרקע למצוא מטמון של כסף וזהב, וצוה המלךהנז' לחפור על עסקי ממון ונמצא שם ארון ובו ס' הזהר וכו' ושלח אותו לטוליטולא וכו' ומשם נתפשטה הקבלה החדשה בישראל כמו שכ' הר' חיד"א בספרו הנחמד שם הגדולים במערכת ספרים ערך זהר.
Nota — a tese da autoria, mais uma vez. Esta é a posição histórica do Dor Deah (a escola racionalista iemenita de Qafih): o Zohar não seria de Rabi Shimon bar Yochai (séc. II), mas obra muito posterior. É uma tese contestada e minoritária. A esmagadora maioria da tradição recebe o Zohar como sagrado e antigo; e mesmo a crítica acadêmica moderna, que situa a redação do Zohar em Castela no séc. XIII (em torno de R. Moshe de León), o lê como obra-prima do misticismo judaico — não como uma fraude para "desencaminhar Israel". A "lenda do rei do Oriente" que Qafih repassa (o livro enterrado e desenterrado, enviado a Toledo) ele a colhe do Shem haGedolim do Chid"a, que a registra entre relatos sobre a transmissão do Zohar. Apresentamos a tese como peça do argumento de Qafih, não como fato estabelecido — e lembramos que o Zohar é venerado pela maioria de Israel.
A leitura literal que a regra proíbe

...E, por meio dos rabinos simples que o receberam, na sua candura, com fé plena de que era obra de Rashbi, e se apegaram a ele em seu nome, e não puseram no coração a investigar e indagar de cujo ventre saiu, e quem permitiu indagar e investigar no que é oculto e encoberto, e que ele contradiz a nossa fé pura, que recebemos dos nossos pais e dos Sábios, num D'us um, mais singular que todas as demais unidades — e isto, pela causa de que o autor misturou nele muitas coisas das palavras dos Sábios, e adverte muito acerca do cumprimento dos mandamentos da Torá e da ocupação na Torá escrita, enquanto a sua "Torá nova", que inventou em troca da Mishná e do Talmud (que seriam "misturados de bem e de mal"), ele a chama "Torá oral, que é toda bem" — só que seja em nome de "outros deuses": "o Santo, bendito, e a sua Presença superiores" (Abba e Imma) e "o Santo, bendito, e a sua Presença inferiores" (Ze'ir e Nukvá) —; e não mudou nos mandamentos da Torá senão em alguns pormenores, n'os quais intentou insinuar a sua crença em "deuses muitos", e a pôr o principal do culto no "Filho", que é Ze'ir Anpin; e, na maioria dos mandamentos, se intenciona neles "adornar as mulheres" — a Presença superior e a Presença inferior —, para que estas achem graça aos olhos dos seus "maridos"... e assim por diante. E, conforme as suas ideias que lhes sobem ao espírito, pensaram explicar os versículos que foram ditos por modo de eloquência e amplitude da língua, ou por modo de afeto — como disseram os Sábios "D'us não Se move do amá-la a Israel" etc. — explicá-los conforme o seu sentido literal e a sua acepção primeira: "a mão do Senhor", "os olhos do Senhor", "fumegará a ira do Senhor", "subiu fumaça no Seu nariz", "façamos o homem na nossa imagem, conforme a nossa semelhança", "filhos sois vós ao Senhor vosso D'us", "meus irmãos e meus companheiros", "e viram o D'us de Israel", "desperta, por que dormes, Senhor?", "eis que não dormita nem dorme o Guarda de Israel", e semelhantes — explicam-nos, por meio destas ideias, conforme a sua acepção primeira literal —, ao contrário do dito dos Sábios "quem traduz um versículo conforme a sua forma ao pé da letra — eis que é um mentiroso", e como escreveram o Rasa"g em Emunot ve-De'ot, no tratado da Unidade, e o Rambam no Moré, parte I, e outros.

ועל ידי הרבנים הפתאים שקבלוהו לתומם באמונת אומן שהוא חבור רשב"י והחזיקו בו על שמו ולא שמו אל לבם לחקור ולדרוש מבטן מי יצא, ומי התיר לדרוש ולחקור במופלא ומכוסא, ושהוא סותר אמונתינו הטהורה שקבלנו מאבותינו ומרז"ל באל אחד מיוחד מכל שאר האחדים, וזה לסבת שעירב בו הרבה דברים מדברי רז"ל, ומזהיר מאד בקיום המצות של תורה והעסק בתורה שבכתב ותורתו החדשה שהמציאה חלף המשנה והתלמוד שהם מעורבים מטוב ורע, וקורא לתורתו תורה שבע"פ שכולה טוב ורק שיהיו לשם אלהים אחרים, קב"ה ושכינתינ עלאין (אבא ואימא) וקב"ה ושכינתיה התאין (זעיר ונוקביה) ולא שנה במצות התורה רק בקצת פרטים שכיוון לרמוז אמונתו באלהים רבים, ולשום עיקר העבודה לבן שהוא זעיר אנפין, וברוב המצות מכוינים בהם לקשט הנשים שכינתא עלאה ושכינתא תתאה, כדי למצוא חן בעיני בעליהן לעוררם לתשמיש (כמו שכ' הר' משנת חסידים בתיקון חצות וז"ל וכיצד יעשה ישב על הארץ אצל המזוזה שבפתח שרומזת להח' ורגליו יחפים ממגעל, ויתן אפר מקלה וכו' ועל ידי זה מתחמם הזעיר אנפין ומתאוה לה וכו') זה להוליד נשמות למלאכים. וזה להוליד נשמות חדשות לישראל (זהר יתרו דף פ"ט ע"כ) שלא כרצון חכמים בבראשית רבה (הבאתיו לעיל סי' ל"א כל שיש לו תולדות וכו') ויחס עיקר העבודה וקיום המצות והברכות לבן כנז"ל. ועוד יתבאר לקטן. ועל ידי רעיונותיהם העולים על רוחם חשבו לפרש הכתובים שנאמרו על דרך המליצה והרחבת הלשון או בדרך חיבה כמו שאמרו רז"ל לא זז מחבבה וכו' כמשמען והנחתן הראשונה יד ה', עיני ה', יעשן אף ה' עלה עשן באפו, בלצמנו כדמונתנו, בנים אתם לה' אלהיכם, אחי ורעי, ויראו את אלוהי ישראל, עורה למה תישן ה', הנה לא ינום ולא יישן שומר ישראל, וכיוצא בהן, יפרשו אותן על ידי רעיונות אלו כהנחתן הראשונה, היפך מאמר רז"ל המתרגם פסוק כצורתו הרי זה בדאי. וכמו שכ' הרס"ג בהאמונות והדעות מאמר האחדות. והרמב"ם במורה ח"א וזולתם.
Nota — o fio que amarra o capítulo. Toda a seção 65 converge no mesmo ponto da seção 64: a regra "quem traduz ao pé da letra é mentiroso". Para Qafih, a leitura literal dos antropomorfismos ("a mão de D'us", "os olhos de D'us", "subiu fumaça no Seu nariz") é precisamente o que a tradição dos Targumim, de Saadia (Emunot ve-De'ot II) e do Rambam (Moré I) sempre proibiu — e ele acusa a leitura cabalística de reintroduzi-la. A réplica cabalística é firme: a Cabália é, ela mesma, profundamente anti-corpórea — o Ein Sof é absolutamente incognoscível e sem forma; as sefirot e os partzufim não são "membros" de D'us nem deuses, mas símbolos do fluxo (shefa) pelo qual o Infinito Se relaciona com o mundo. "Adornar as mulheres", "o despertar do Ze'ir" são linguagem figurada da harmonia das forças divinas (yichudim), exatamente o tipo de metáfora que a regra dos Targumim pressupõe. O debate, no fundo, é sobre qual linguagem é a literal e qual é a simbólica.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Um argumento sobre o silêncio

A pergunta do Ba'al haGedarim era séria: se a unidade de D'us é "o princípio do mandamento e o fundamento da fé", por que o Talmud não lhe dedica um tratado? Sua resposta foi: porque a transmitiam em segredo. A resposta de Qafih é o coração do capítulo, e é metodologicamente elegante: a Mishná, por princípio declarado pelo próprio Rambam, nunca ensina o óbvio. O silêncio do Talmud, portanto, não esconde um esoterismo — atesta que a unidade era a verdade mais notória de todas.

A regra dos tradutores

O fio condutor é "quem traduz um versículo ao pé da letra é um mentiroso". Os Targumim de Onkelos e Yonatan ben Uziel já substituíam sistematicamente "a mão de D'us" ou "viram o D'us de Israel" por expressões de reverência ("a glória da Presença"). Para Qafih, isso prova que a leitura não-corpórea, não-literal, é a antiga e recebida — e que ler os antropomorfismos "conforme a sua forma" é que seria a inovação.

A equação polêmica — e sua réplica

O lance mais agudo, e o mais contestado: Qafih equipara a estrutura dos partzufim à fé trinitária, e mobiliza o severo material talmúdico contra os minim. É posição dele.

O ponto de encontro

Sob a polêmica há um acordo profundo, que vale guardar: tanto Qafih quanto a Cabália insistem que D'us não tem corpo, não tem partes, não tem "dois ou três poderes"; que associar a Ele qualquer "outra coisa" é a falha capital; e que a fé na unidade merece o esforço do entendimento. A disputa é sobre como ler uma linguagem — a dos versículos, a dos Targumim, a do Zohar —, não sobre se D'us é Um.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXV

O amor dos Sábios pela Mishná e pelo Talmud

חִבַּת הַמִּשְׁנָה וְהַתַּלְמוּד
Rav Yichya Qafih (1850–1935) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Antes de prosseguir, Qafih monta uma antologia: dezenas de passagens dos Sábios que mostram o quanto amavam, honravam e exaltavam a Mishná e o Talmud — "o coração da Torá oral, que Moisés recebeu no Sinai". É a base de onde ele lançará, no capítulo seguinte, a sua crítica a quem (diz ele) menosprezou esse estudo.

"O mistério do Santo, bendito"

(66) Eis que agora vou dispor diante de ti, meu amigo leitor — tu que pões diante da tua face a honra do Senhor e a honra da Torá oral, que é a Mishná e o Talmud, para a qual se volta todo o que indaga a palavra do Senhor na lei de D'us —, vou copiar aqui alguns ditos dos Sábios, para dar-te a conhecer como eles amam e prezam a Mishná e o Talmud, e como eles são o princípio da Torá oral que Moisés recebeu do Sinai — e Moisés não mudou nada de tudo o que lhe ordenou o Senhor nosso D'us, como atestou sobre ele o Senhor ao dizer "em toda a Minha casa ele é fiel". E, depois disso, disporei aos teus olhos, leitor, as palavras do falso profeta e do filósofo enganador, autor do livro Zohar — como ele menospreza a Mishná e o Talmud, e lançou injúria e suspeita sobre Moisés, nosso mestre — sobre quem seja a paz —, dizendo que a Torá "da sua própria boca ele a disse", e que por isto lhe foi decretada a morte e o ser sepultado em terra estranha, fora da Terra de Israel. E é notório e sabido de todos que, conforme a grande afeição pela Mishná aos olhos dos Sábios, mestres do Talmud, eles examinam minuciosamente a sua linguagem, do modo que fizeram com os textos sagrados — como se lê em Eruvin e Sucá: "que há de diferente n'o beco, que o tana ensina 'a sua correção', e que há de diferente n'a sucá, que o tana ensina 'a sua invalidez'?" etc. Porque, para os Sábios, coisa clara é, junto a eles, que a Mishná, ela mesma, são as halachot que Moisés recebeu no Sinai, e sobre ela se deteve no monte quarenta dias e quarenta noites, a aprender as suas generalidades e os seus pormenores — pelos quais mereceremos a vida do mundo vindouro, como é recebido em toda a nação de Israel, e como disseram os Sábios "todo o que repassa halachot a cada dia, está-lhe garantido que é filho do mundo vindouro". E disseram ainda que "não tem o Santo, bendito, no Seu mundo, senão os quatro côvados da halachá". E R. Ami e R. Assi não oravam na sinagoga, senão entre as colunas onde estudavam. E em Horayot, folha 13, no caso de R. Meir e R. Natan, que se invejaram de Rabban Shimon ben Gamliel... e quiseram remover Rabban Shimon ben Gamliel da sua presidência, pedindo-lhe que lhes ensinasse o tratado Uktzin, que ele não conhecia a fundo — e, como não o soubesse, outros lhe disseram "quem proferirá os poderes do Senhor? Fará ouvir todo o Seu louvor? — a quem possa fazer ouvir todo o Seu louvor"... vê que chamaram os Sábios à Mishná "os louvores do Senhor". E no Midrash Tanchuma, parashá Vayerá, se lê: disse Rav Yehudá ben Shalom: “pediu Moisés que a Mishná, também ela, fosse por escrito; e previu o Santo, bendito, que as nações do mundo estavam por traduzir a Torá e a lê-la em grego, e dizer "nós somos os de Israel". Disse o Santo, bendito, a Moisés: "se eu lhe escrever a maior parte da Minha Torá, então eles serão tidos como estranho". E por que tudo isso? Porque a Mishná é o mistério mistorin do Santo, bendito; e o Santo, bendito, não entrega o Seu mistério senão aos justos, conforme está escrito "o segredo do Senhor é para os que O temem"”. E veja o que escreveu nisto o Maharí de Dubno, no seu livro Ohel Yaakov, no fecho do livro de Bamidbar, e te será agradável. Vê quão querida lhes era a Mishná, e como a chamaram "mistério do Santo, bendito", que Ele não a entrega senão aos justos, conforme está escrito "o segredo do Senhor é para os que O temem".

סו) הן עתה אערוך לפניך ידידי הקורא, השם נגד פניו כבוד השי"ת וכבוד תורה שבעל פה שהיא המשנה והתלמוד אשר כל דורש את דבר ה' בתורת אלהים יפנה ואעתיק פה קצת מאמרים מרז"ל להודיעך איך הם מחבבים ומוקירים את המשנה ואת התלמוד. וכי הם עיקר תורה שבעל פה שקבל משה מסיני, ולא שינה מכל אשר צוהו ה' אלהינו כאשר העיד עליו השי"ת באמרו כל ביתי נאמן הוא. ואחרי כן אערוך לעיניך הקורא את דברי נביא השקר והפילסוף הרמאי מחבר ס' הזהר איך הוא מבזה את המשנה והתלמוד והוציא לעז וחשד למשה רבי' ע"ה שמפי עצמו אמרה, ושעל זה נקנסה עליו ימיתה ולהקבר בארץ נכריה חוץ לארץ, ומן המפורסם וידוע לכל שלפי רוב חבתה של משנה בעיני רבותינו ז"ל בעלי התלמוד הם מדקדקים בלשונה כדרך שעשו במקראי קדש כדגרסינן בעירובין וסוכה מאי שנא מבוי דתני תקנתא ומאי שנא מוכה דתני פסולה וכו'. לפי שרז"ל דבר ברור הוא אצלם שהמשנה היא בעצמה ההלכות שקבל משה בסיני ועליה עמד בהר ארבעים וארבעים לילה ללמוד כללותיה ופרטותיה אשר בהם נזכה לחיי העוה"ב כמקובל בכל האומה הישראלית וכמו שאמרו רז"ל כל השונה הלכות בכל יום מובטח לו שהוא בן העולם הבא. ואמרו עוד שאין לו להקב"ה בעולמו אלא ארבע אמות של הלכה. ור' אמי ור' אסי לא הוו מצלו בבי כנשתא אלא ביני עמודי היכי דגרסי. ובהוריות דף י"ג במעשה דר' מאיר ור' נתן שנתקנאו ברבן שמעון בן גמליאל שתיקן שכשיכנס הנשיא כל העם עומדים מבפניו, וכשאב ב"ד נכנס עושין לו שתי שורות אחת מכאן ואחת מכאן, וכשחכם נכנס אחד ועומד ואחד יושב עד שישב במקומו, ובקשו להעביר את רשב"ג מנשיאותו על ידי שישאלו ממנו לשנות להם מסכת עוקצין דלא הוה נמיר לה, וכי לא ידע נימרו ליה מי ימלל גבורות ה' ישמיע כל תהלתו, למי שיכול להשמיע כל תהלתו וכו', אלמא דקרו רבנן למשנה תהלות ה', ובמדרש תנחומא פרשת וירא גרסינן אמר רב יהודה בן שלום בקש משה שתהא המשנה אף היא בכתב וצפה הקב"ה שאומות העולם עתידן לתרגם את התורה ולהיות קורין אותה יונית והן אומרין אנו הן של ישראל. אמר לו הקב"ה למשה אכתב לו רובי תורתי ואם כן כמו זר נחשבו, וכל כך למה מפני שהמשנה היא מסתורין של הקב"ה. ואין הקב"ה מוסר מסתורין שלו אלא לצדיקים שנ' סוד ה' ליריאיו. ועיין מה שכ' בזה מהר"י מדובנא בספרו הנחמד אהל יעקב בחתימת ספר במדבר וינעם לך. ראה כמה היה חביבה עליהם המשנה וקראו לה מסתורין של הקב"ה שאינו מוסרה אלא לצדיקים שנ' סוד ה' ליריאיו.
Nota — por que a Torá oral ficou oral. O tema que costura este capítulo é antigo e belo: a Torá oral (Mishná, Talmud) não foi posta por escrito de propósito. O midrash do Tanchuma e de Shemot Rabá dá a razão: para que ela permaneça "o mistério do Santo, bendito" e a marca distintiva de Israel — algo que não se pode simplesmente "tomar" traduzindo um livro. Daí a dignidade altíssima que os Sábios atribuem ao estudo da halachá ("as quatro covados da halachá", "os louvores do Senhor"). Qafih reúne estas fontes para um fim claro: estabelecer, antes da crítica que virá, que menosprezar o estudo da Mishná/Talmud seria contrariar toda a tradição.
A aliança que distingue Israel

E assim, no Midrash Shemot Rabá, parashá 47, disseram: sobre "escreve para ti estas palavras" etc. — isto é o que está escrito "se eu lhe escrever a maior parte da Minha Torá, como estranho serão tidos". Na hora em que Se revelou o Santo, bendito, no Sinai para dar a Torá a Israel, disse-a a Moisés por ordem: Escritura, Mishná, Talmud e Agadá — conforme está dito "e falou D'us todas estas palavras" —; até aquilo que um aluno experiente pergunta ao mestre, disse-o o Santo, bendito, a Moisés naquela hora. E, depois que Moisés a aprendeu da boca do Santo, bendito, disse-lhe Ele: "ensina-a a Israel". Disse Moisés diante d'Ele: "Senhor do mundo, escrevê-la-ei para eles?". Disse-lhe: "não desejo dá-la a eles por escrito, porque está manifesto diante de Mim que as nações do mundo estão por dominá-los e tomá-la deles, e Israel seria desprezado entre as nações (explicação: pois as nações do mundo diriam que a Torá lhes foi dada a elas); antes, a Escritura eu lhes dou por escrito, e a Mishná, o Talmud e a Agadá dou-lhes oralmente" etc.; e conclui: “pois "sobre a boca al pi destas palavras" — esta é a Mishná e o Talmud, que separam entre Israel e as nações” (fim). E assim escreveram os nossos antigos, R. Choter e R. Zacharia, o médico, no comentário aos Treze Princípios, no oitavo princípio (eis as suas palavras): “e eu digo: aqui, "oralmente", porque sabia o Santo, bendito, e o deu a conhecer a Moisés, que as nações do mundo estavam por tomar a Torá de cima de Israel; e, visto que tomaram a Torá escrita, não poderiam tomar a Torá oral, porque ela está nos escribas e não nos livros; e, se tomassem a Torá escrita junto com a Torá oral, diriam que eles são Israel, em testemunho fiel” (fim). Vê, meu amigo leitor, e entende as palavras dos Sábios, que disseram que sobre a Mishná e o Talmud — que são o fundamento de toda a Torá oral — fez o Senhor uma aliança com Israel; pois eles são a vida do nosso espírito para o mundo vindouro, e são a maior parte da Torá, como consta em Guitin, capítulo "haNizakin". E no capítulo primeiro de Berachot se lê: disse R. Levi bar Chama, em nome de Resh Lakish: que significa o que está escrito "e te darei as tábuas de pedra, e a Torá e o mandamento que escrevi para os instruir"? "As tábuas" — estes são os Dez Mandamentos; "e a Torá" — esta é a Escritura; "e o mandamento" — esta é a Mishná; "que escrevi" — estes são os Profetas e Escritos; "para os instruir" — esta é a Guemará. Ensina isto que todos foram dados a Moisés no Sinai (fim). E o traz o nosso mestre, o Rambam, na introdução ao Sefer haYad; veja ali.

וכן במדרש שמות רבה פרשה מ"ז אמרו כת בלך את הדברים האלה וגו' הדא הוא דכתיב אכתב רובי הורתי כמו זר נחשבו בשעה שנגלה הקב"ה בסיני ליתן תורה לישראל אמרה למשה על הסדר מקרא, משנה, תלמוד, ואגדה, שנאמר וידבר אלהים את כל הדברים האלה, אפי' המ שמלתמיד שואל לרב אמר הקב"ה למשה באותה שעה ומאחר שלמד אותה מפי הקב"ה אמר לו למדה לישראל, אמר לפניו רבונו של עולם אכתוב אותה להם, אמר איני מבקש ליתנה להם בכתב, מפני שגלוי לפני שאומות העולם עתידים לשלוט בהם וליטול אותה מהם ויהיו בזוים באומות (פי' שיאמרו אומות העולם שניתנה להם) אלא המקרא אני נותן להם בכתב והמשנה והתלמוד והאגדה בעל פה וכו' ומסיים כי על פי הדברים האלה זו המשנה והתלמוד שהם מבדילים בין ישראל לבין האומות ע"כ. וכן כתבו קדמונינו הר' חטר ור' זכריה הרופא בפי' הי"נ עיקרים בעיקר השמיני וז"ל ואנמי' כאן על פה לפי שידע הקב"ה והודיע למשה שאומות העולם עתידין ליקח התורה על ישראל. וכיון שלקחו תורה שבכתב לא יוכלו ליקח תורה שבעל פה מפני שהיא בסופרים ולא בספרים. ואלו לקחו תורה שבכתב עם תורה שבעל פה היו אומרים שהם ישראל בעדות נאמנה ע"כ. ראה ידידי הקורא והבן דברי רז"ל שאמרו כי על המשנה והתלמוד שהם יסוד כל תורה שבעל פה כרת השי"ת ברית עם ישראל. כי המה חיי רוחנו לעולם הבא והם רובה של תורה כדאיתא בניטין פרק הנזיקין. ובפרק קמא דברכות גרסינן ואמר ר' לוי בר חמא אמר ריש לקיש מאי דכתיב ואתנה לך את לוחות האבן והתורה והמצוה אשר כתבתי אלו נביאים וכתובים, להורותם, לוחות אלו עשרת הדברות, והתורה זו מקרא. והמצוה זו משנה, אשר כתבתי אלו נביאים וכתובים, להורותם זו גמרא. מלמד שכולם ניתנו למשה מסיני ע"כ. ומביאו רבינו הרמב"ם בהקדמת ספר היד עיין שם.
As sessenta rainhas: os tratados

E no fim do capítulo primeiro de Chagigá, ensinamos: “a permissão dos votos voa no ar, e não tem sobre o que se apoiar na Escritura; as halachot do Shabat, das festas e dos sacrilégios — eis que elas são como montanhas suspensas por um fio de cabelo: pouca Escritura e halachot numerosas; já os casos civis, os serviços do Templo, as leis de pureza e impureza e as relações proibidas — têm sobre o que se apoiar na Escritura; eles, eles são os corpos da Torá”. E explicou-se na Guemará que assim diz: "eles e eles são corpos da Torá" — tanto estes que têm sobre o que se apoiar, quanto aqueles que são como montanhas suspensas por um cabelo, uns e outros são corpos da Torá — quer dizer, o seu princípio e a sua substância. Também, no fim do capítulo terceiro de Avot, ensinamos igualmente: R. Elazar Chisma diz: “as leis dos ninhos de aves e das aberturas da menstruação — eles, eles são os corpos das halachot”; e explicou R. Ovadia: "eles, eles são os corpos das halachot" — o principal da Torá oral, aquilo pelo qual se recebe recompensa (fim). E no tratado Meguilá, folha 22, disseram: “"e o que se serve do tanaíta, passou deste mundo" — ensinou Resh Lakish: este é o que se serve daquele que repassa halachot, que é a coroa da Torá” (fim). De tudo o que trouxe, se te explicará que as halachot que estão na Mishná e na Guemará — elas, elas são o principal e a substância da Torá oral, que Moisés recebeu no Sinai; aquilo pelo qual a pessoa recebe recompensa, e pelo qual merece a vida do mundo vindouro; e elas são a coroa da Torá, sobre a qual se disse "por mim reis reinam, por mim príncipes governam". E no Midrash Rabá, parashá Korach, interpretaram os Sábios: “"sessenta são as rainhas" — estes são os sessenta tratados; "e oitenta concubinas" — estas são as oitenta casas de estudo que havia em Jerusalém... "e moças sem número" — esta é a Mishná externa”. E explicaram as Matnot Kehuná; e o R. Etz Chaim, que chamou às casas de estudo "concubinas" porque nelas debatem e disputam uns com os outros como concubinas... E achei apoio à sua explicação no Shir haShirim Rabá (eis as suas palavras): “"sessenta são as rainhas" — estes são os sessenta tratados de halachot; "e oitenta concubinas" — estas são as oitenta seções que estão na Torat Kohanim Sifra; "e moças sem número" — não há fim às Tosseftot. "uma só é ela" — ainda que disputem uns com os outros, todos eles interpretam a partir de uma só razão: de uma só halachá, de uma analogia gezerá shavá, de um argumento a fortiori kal va-chomer” (fim). Vê quanto amam os Sábios a Mishná e o Talmud, e os chamaram "rainhas" — e não "servas", como fez o filósofo enganador, aderido às opiniões de fora, que é o autor do Zohar, como se explicará adiante.

ובסוף פרק קמא דחנינה שנינו היתר נדרים פורחים באויר ואין להם על מה שיסמכו, הלכות שבת חגיגות והמעילות הרי הם כהררים התלויים בשערה מקרא מועט והלכות מרובות, הדינין והעבודות, הטהורות והטומאות ועריות יש להן על מה שיסמכו הן הן גופי תורה. ופי' בגמרא דהכי קאמר הן והן גופי תורה בין אלו שיש להן על מה שיסמכו בין אלו שהם כהררים התלוים בשערה אלו ואלו גופי תורה, כלומר עיקרה ועצמה של תורה. גם בסוף פרק שלישי דאבות שנינו גם כן ר' אלעזר הסמא אומר קינין ופתחי נדח הן הן גופי הלכות, ופי' ר' עובדיה הן הן גופי הלכות עיקר תורה שבעל פה, שמקבלים עליה שכר ע"כ. ובמסכת מגילה דף כ"ב אמרו ודאשתמש בתנא חלף, תני ריש לקיש זה המשתמש במי ששונה הלכות כתרה של תורה. ע"כ מכל מה שהבאתי יתבאר לך שההלכות שבמשנה ובגמרא הן הן עיקרה ועצמה של תורה שבעל פה שקבל משה בסיני שאדם מקבל שכר עליהם וזוכה בהן לחיי העולם הבא, והן כתרה של תורה שנאמר בה בי מלכים ימלכו בי שרים ישורו. ובמדרש רבה פרשת קרח דרשו רז"ל ששים המה מלכות אלו ששים מסכתות ושמנים פלגשים אלו שמנים בתי מדרשות שהיו בירושלים כנגד פתחיה, ועלמות אין מספר זו משנה החיצונה, ופירשו המתנות כהונה. והרב עץ חיים דקרי לבתי מדרשות פילגשים על שם שנושאים ונותנים וחולקים זה עם זה כמו פילגשם, וכי משנה החיצונה מה שלמדו היחידים חוץ לאלו בתי המדרשות. וביד יוסף פי' שכוונת המדרש על הבריתות וע"כ. וכן מצאתי סיוע לפירושו בשיר השירים רבה וז"ל ששים המה מלכות אלו ששים מסכתות של הלכות, ושמונים פילגשים אלו שמונים פרשיות שבתורת כהנים. ועלמות אין מספר אין קץ לתוספתות. אחת היא הן חולקין אלו עם אלו וכולהון דורשים מטעם אחד, מהלכה אחת, מגזירה שוה, מקל וחומר ע"כ. ראה כמה מחבבים רז"ל את המשנה והתלמוד וקראו להן מלכות. ולא שפחות כאשר עשה הפילסוף הרמאי האדוק בדעות חיצוניות הוא מחבר הזהר כמו שיתבאר לקמן.
Nota — "corpos da Torá". A imagem de Chagigá 10a é célebre: certas leis (o Shabat, por exemplo) são "montanhas suspensas por um fio de cabelo" — vastíssimas, mas com apoio textual mínimo na Torá escrita. Longe de as rebaixar, a Mishná as declara "corpos da Torá" — seu núcleo, não seu apêndice. É a melhor prova do argumento de Qafih: a Torá oral completa e sustenta a escrita; uma não vive sem a outra. As metáforas que ele colhe — a Mishná como "rainhas", como "coroa da Torá", como "louvores do Senhor" — todas erguem o estudo da halachá ao mais alto grau. O contraste retórico ("rainhas, não servas") prepara a acusação do capítulo seguinte.
Rashbi ensinava a Mishná

E em Bava Metzia, capítulo "Elu Metziot", folha 33, se lê: ensinaram os mestres: “os que se ocupam da Escritura — é uma medida, e não é medida; os que se ocupam da Mishná — é medida, e se recebe sobre ela recompensa; os que se ocupam do Talmud — não tens medida maior que esta; e sempre corre para a Mishná mais que para o Talmud”. E objeta-se: isto mesmo é difícil — disseste "no Talmud não tens medida maior que esta", e depois disseste "e sempre corre para a Mishná mais que para o Talmud"? Disse R. Yochanan: nos dias de Rabi Yehudá haNasi se ensinou esta mishná — pois abandonaram todos o estudo das mishnaiot e foram atrás do Talmud; e Rabi tornou a expor-lhes "e sempre corre para a Mishná mais que para o Talmud" (veja ali, e n'o comentário de Rashi). E no Yerushalmi se explica claramente que é Rashbi quem a ensinou esta máxima, como se lê ali, no capítulo "Kol Kitvei": “isto nos diz que a Mishná precede a Escritura; e isto apoia a opinião de Rashbi, que ensinou — Rashbi: o que se ocupa da Escritura, é uma medida que não é medida; da Mishná, é uma medida pela qual se recebe recompensa; o que se ocupa do Talmud, não tens medida maior que esta; sempre corre atrás da Mishná mais que do Talmud”. Disse R. Yossi b. R. Bun: isto que dizes é antes de Rabi Yehudá haNasi ter assentado nela a maioria das mishnaiot; mas, depois que Rabi assentou nela a maioria das mishnaiot, "sempre corre atrás do Talmud mais que da Mishná" (fim). E assim, no capítulo primeiro de Shabat, no fim da passagem "que não se sente uma pessoa diante do barbeiro" — ali diz que aquele que lê o Shemá no seu tempo devido, é como a Mishná; e quem o lê fora do seu tempo, é como uma pessoa que lê na Torá Escrita, cuja recompensa é menor do que a do que se ocupa da Mishná; e conclui ali Rashbi conforme a sua própria opinião — pois Rashbi disse: o que se ocupa da Escritura, é uma medida que não é medida; e os rabinos fazem a Escritura como a Mishná (fim). E no Yalkut, início da parashá Tzav: R. Chanina disse: “não se reúnem os exílios senão pelo mérito das mishnaiot, conforme está dito "ainda que as tenham dado a Torá / repassem suas lições entre as nações, agora Eu os ajuntarei"” (fim). Vê, verás, meu amigo leitor, as palavras dos Sábios que trouxe — alguns deles — quão amam e quão prezam a Mishná, que é o princípio da Torá oral que foi dita a Moisés no Sinai; e, em particular, põe os teus olhos nas palavras do nosso tana, Rashbi, ditas em verdade no Bavli e no Yerushalmi: quão ele ama e quão preza a Mishná, mais que a Escritura, e o Talmud — que é a explicação dos motivos da Mishná — mais que todos, tal que "não tens medida maior que ela". Só que, no Yerushalmi, se estabelece que aquilo que disse "sempre corre para a Mishná mais que para o Talmud" foi antes de Rabi ter ordenado a Mishná... e, das palavras de todos, aprendemos quão querido lhes era o estudo da Mishná e do Talmud, e que é Rashbi quem a ensinou. E disto há uma prova completa e clara de que o livro Zohar não é de Rashbi, o tana — sobre quem seja a paz —, senão de um grande filósofo enganador, que aprendeu toda a sabedoria de Israel nos dois Talmudes e nos midrashim dos Sábios; e que ele crê nas opiniões dos caldeus e dos casdim — filósofos primevos que disputavam com Avraham, nosso pai, na sua fé num D'us único —, e creem em duas causas pré-existentes, cada uma operando o contrário da outra... pois ele crê e afirma a existência de "outros deuses" no mundo, conforme a opinião dos caldeus e dos egípcios antigos, na filosofia primeva, cujo aroma já se dissipou e cujo sabor se foi. E, com lábios lisonjeiros e exageros, ele atrai a muitos dos rabinos simples a crer em "muitos outros deuses" e a menosprezar o estudo da Mishná e do Talmud — a ponto de não saberem o que fazer, nem como se afastar das proibições que foram ditas a Moisés no Sinai (como as dezoito treifot mencionadas na Mishná e os pormenores das suas leis, pois não se explicitou na Torá Escrita claramente senão a derussá, como escreveu o Rambam nas leis dos alimentos proibidos; e semelhantes, nos demais proibidos da Torá que não se explicitaram na Torá escrita e foram entregues a Moisés oralmente, e que estão pormenorizados na Mishná e no Talmud — como as leis da mistura proibida de carne e leite, e qual deles é proibido pela Torá e qual é proibido pelos rabinos). E o referido filósofo intentou invalidar e fazer esquecer de Israel todas as leis explicadas na Mishná e no Talmud; e claramente disse que "no fim do exílio se sustentarão da sua própria composição o Zohar".

ובבא מציעא פרק אלו מציאות דף ל"ג גרסינן. ת"ר העוסקים במקרא מדה ואינה מדה במשנה מדה ונוטל עליה שכר, בתלמוד, אין לך מדה גדולה מזו, ולעולם הוי רץ למשנה יותר מן התלמוד, ופריך היא גופה קשיא, אמרת בתלמוד אין לך מדה גדולה כזו, והדר אמרת ולעולם הוי רץ למשנה יותר מהתלמוד? אמר ר' יוחנן בימי ר' נשנית משנה זו, שבקו כולי עלמא מתניתין ואזלו בתר תלמודא, הדר דרש להו ולעולם הוי רץ למשנה יותר מן התלמוד עיין שם ובפי' רש"י. ובירושלמי מבואר בהדיא דרשב"י הוא דתני לה, כדגרסינן התם בפרק כל כתבי הדא אמרא שהמשנה קודמת למקרא, ודא מסייעא לרשב"י דתני רשב"י העוסק במקרא מדה שאינה מדה, במשנה מדה שנוטלין ממנה שכר, העוסק בתלמוד אין לך מדה גדולה כזו, לעולם הוי רץ אחר המשנה יותר מן התלמוד אמר ר' יוסי בר' בין הדא דאת אמר עד שלא שקע בו רבי רוב משניות, אבל מששיקע בו רבי רוב משניות לעולם הוי רץ אחרי התלמוד יותר מן המשנה ע"כ. וכן בפ"ק דשבת סוף פסקא דלא ישב אדם לפני הספר קאמר התם דהקורא את שמע בעונתה כמשנה היא, ושלא בעונתה כאדם שקורא בתורה ששכרו פחות מהעוסק במשנה, ומסיים בה רשב"י כדעתיה דרשב"י אמר העוסק במקרא מדה שאינה מדה, ורבנין עבדין מקרא כמשנה עכ"ל, ובילקוט ריש פר' צו ר' חנינה אמר אין הגליות מתכנסות אלא בזכות משניות שנ' גם כי יתנו בגוים עתה אקבצם ע"כ. ראה תראה ידידי הקורא דברי רז"ל שהבאתי מקצת מהם כמה הם מחבבים ומחשיבים את המשנה שהיא עיקר תורה שבעל פה שנאמרה למשה בסיני, ובפרט שים עיניך לדברי תנא דידן רשב"י הנאמרים באמת בבבלי ובירושלמי כמה הוא מחבב ומחשיב את המשנה יותר מן המקרא, ואת התלמוד שהוא פי' טעמי המשנה יותר מכולם שאין לך מדה גדולה יותר ממנה, אלא דבירושלמי מוקי להא דאמר לעולם הוי רץ למשנה יותר מן התלמוד קודם שסידר רבי את המשנה שאז היו הרבה משניות שהם שגורים בפי התלמידים כל אחת בשם אומרה, והרבה בריתות היו להם, אבל לאחר שסידר רבי את המשנה והשמיט בה כמה משניות ובריתות, וגם סתם במשנה דברי יחידים שראה ר' דבריהם ושנאן סתם כדי לקבוע הלכה כמותם, לפיכך חזרו לומר הוי רץ לתלמוד יותר מן המשנה. ומדברי כולם למדנו כמה היה חביב להם לימוד המשנה והתלמוד, ושרשב"י הוא דתני לה, ומזה הוכחה גמורה ברורה שס' הזהר אינו לרשב"י התנא ע"ה, כי אם לפילסוף רמאי גדול שלמד כל חכמת ישראל בשני התלמודים ומדרשי רז"ל. והוא מאמין בדעות הכשדים והכלדיים פילסופים הראשונים שהיו חולקים על אברהם אבינו באמונתו באל אחד, ומאמינים בשתי סבות קודמות, וכל אחת פועלת היפך האחרת, והסבות הפועלות הטוב קורא להם בשם סטרא דקדושה, והם אדם קדמון וכתר עליון עם שאר פרצופים וצורות דעשר ספירות דקליפה, והם אדם בליעל וכתר עליון דקליפה עם שאר פרצופים וצורות דעשר ספירות דקליפה המשתלשלים מהם הנקראים בשם אל אחר, כי הוא מאמין ומאמת מציאות אלהים אחרים בעולם כדעת הכשדים והמצרים הקדמונים בפילוסופיה הקדומה שכבר גמר ריחה וסר טעמה. ובשפתי חלקות וגיזומים הוא מושך ל ברבים מהרבנים התפאים להאמין באלהים אחרים רבים ולזלזל בלמוד המשנה והתלמוד עד שלא ידעו מה לעשות והיאך יפרשו מן האיסורי' שנאמרו למשה בסיני כגון ח"י טריפות הנזכרים במשנה וחילוקי דיניהם, לפי שלא נתפרש בתורה בהדיא אלא דרוסה כמו שכ' הרמב"ם ז"ל בהל' מאכלות אסורות. וכיוצא בזה בשאר איסורים של תורה שלא נתפרשו בתורה שבכתב ונמסרו למשה קבי' ע"ה בעל פה. והמה מפורעים במשנה ובתלמוד כגון דיני תערובת איסור בשר וחלב. ואיזה מהן אסור מדאוריתא ואיזה אסור מדרבנן. והפילסוף הנז' כיוון לפסול ולהשכיח מישראל כל הדינים המבוארים במשנה ובתלמוד. ובהדיא אמר שבסוף גלותא יתפרנסון מחבורא דיליה.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Um florilégio em louvor do estudo

A maior parte deste capítulo é pura celebração — uma cadeia de fontes (Mishná, Bavli, Yerushalmi, Midrash Rabá, Tanchuma, Yalkut) sobre o quanto os Sábios amavam a Mishná e o Talmud. É um dos capítulos mais "doces" do livro, e o seu conteúdo é património de todo o judaísmo, sem controvérsia: o estudo da Lei como coroa, como louvor, como o que distingue Israel e garante o mundo vindouro.

Por que a Torá oral ficou oral

O fio mais bonito: a Mishná é "o mistério do Santo, bendito", deliberadamente não escrita, para que permanecesse a marca inalienável de Israel. O midrash do Tanchuma e de Shemot Rabá dá a esse fato uma dignidade quase mística — e é, ironicamente, um motivo profundamente caro também à tradição cabalística, que vê na Torá oral camadas de segredo.

O argumento e o seu limite

O capítulo prepara a crítica do seguinte com uma inferência: já que o próprio Rashbi exalta o estudo da Mishná (Bavli e Yerushalmi), um livro que o menospreza não poderia ser dele.

O ponto de encontro

Por trás da polêmica, o capítulo afirma algo que une todas as escolas: a Torá escrita e a Torá oral são uma, inseparáveis; a Lei não vive sem o seu estudo; e esse estudo é o mais alto serviço. Quer se ame o Talmud como Qafih, esse amor pelo estudo é o solo comum.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXVI

O ponto mais agudo: a crítica ao autor do Zohar

הַמַּחֲלֹקֶת עַל מְחַבֵּר הַזֹּהַר
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Este é o capítulo mais polêmico de toda a obra. Depois de reunir, no capítulo anterior, o amor dos Sábios pela Mishná, Qafih volta-se frontalmente contra quem ele chama de “o filósofo” — o autor do Zohar — acusando-o de menosprezar o estudo da Mishná e do Talmud. Apresentamos o texto na íntegra, com sobriedade redobrada, como peça de um antigo debate interno de Israel — e não como juízo nosso.

Os quatro que entraram no Pardes

(67) Eis que agora vou dispor para ti, meu amigo leitor, as palavras do referido filósofo, que despreza o estudo da Mishná e do Talmud, e desdenha o debate e a disputa shakla ve-tarya dos rabinos no Talmud — os quais, na sua opinião, seriam do "outro lado" sitra achra, chamado "Egito" (o operar do mal), que os escraviza e os atormenta com tantas dificuldades kushiot e suas soluções — como entenderá o sensato nas palavras dele, vendo como ele engrandece os seus próprios enigmas místicos no versículo "e um rio saía do Éden" (Zohar, Bereshit, fl. 26–27), em nome do "Ancião dos anciãos" (Atik), que se revelou a R. Elazar e seus companheiros. E R. Elazar contou isto a seu pai, R. Shimon, a saber que lhes disse o Ancião dos anciãos o seguinte sobre aqueles quatro que entraram no Pardes: os três deles que não aprenderam os seus segredos — os segredos que seriam "do mármore puro", vindos do "Pai" e da "Filha" e das primeiras tábuas que se quebraram —, mas aprenderam apenas Mishná e Talmud, que seriam das segundas tábuas, nas quais há bem e mal, isto é, o permitido e o proibido — por isso se puseram em perigo. Mas R. Akiva aprendeu os segredos, que seriam as matérias da "multiplicidade da divindade", que ele insinua nas letras do Nome divino, bendito seja; e os segredos expostos nas palavras dele seriam "do mármore puro", todo bom, do grau das primeiras tábuas que se quebraram, sem mistura de mal — e por isso R. Akiva "entrou em paz e saiu em paz"; mas a Mishná e o Talmud e os demais midrashim dos Sábios seriam mesclados de bem e de mal. Vê, meu amigo, e põe a tua atenção nas palavras dele — vê como ele despreza o estudo da Mishná e do Talmud e dos midrashim dos Sábios, e testemunha sobre eles que seriam a "árvore do conhecimento do bem e do mal" —, o contrário das palavras do rei Salomão, sobre quem seja a paz, que disse pelo espírito santo "pois boa doutrina vos dei; a Minha Torá não abandoneis". E os Sábios, nos seus midrashim, multiplicaram o louvor da Torá escrita e da Torá oral, como escrevi acima, no trecho do Yerushalmi em nome de Rashbi.

סז) הן עתה אערוך לך ידידי הקורא דברי הפילסוף הנז' המבזה ילמוד המשנה והתלמוד, ומזלזל בשקלא ומריא דרבנן בתלמוד שהם לפי דעתו מהסטרא אחרא הנקרא מצרים (פועל הרע) שמעבידם ומטריחם בכמה קושיות ופירוקם כאשר יבין המשכיל בדבריו איך הוא משביח את הרמזים שלו בפסוק ונהר יוצא מעדן (זוהר בראשית דך כ"ו וכ"ז) בשם סבא דסבין (עתיק) שנגלה לר' אלעזר וחביריו. ור' אלעזר סיפר זה לאביו ר' שמעון שאמר להם סבא דסבין שאותן ארבעה שנכנסו לפרדס. השלשה מהם שלא למדו הסודות שלו שהם מאבני שיש טהור שהם מאבא וברתא והם מלוחות ראשונות שנשתברו, רק למדו משנה ותלמוד שהם מלוחות שניות שיש בהם טוב ורע והוא התר ואסור, לפיכך נסתכנו, אבל ר' עקיבא למד הסודות שהם ענייני רבוי האלוהות שהוא מרמזם באותיות שם הוי'ה ב"ה ושהסודות המבוארים בדבריו הם מאבני שיש טהור שכולו טוב והם ממדרגת לוחות ראשונות שנשתברו ואין בהם תערובת רע, ולפיכך נכנס בשלום ויצא בשלום, אבל המשנה והתלמוד ושאר מדרשי רז"ל הם מעורבים מטוב ורע. ראה ידידי ותן דעתך בדבריו איך הוא מבזה לימוד המשנה והתלמוד ומדרשי רז"ל ומעיד עליהם שהם עץ הדעת טוב ורע היפך דברי שלמה המלך ע"ה שאמר ברוח הקדש כי לקה טוב נתתי לכם תורתי אל תעזובו, ורז"ל במדרשיהם הרבו בשבח תורה שבכתב, ותורה שבעל פה, יותר כמו שכתבתי לעיל בש' הירושלמי בשם רשב"י.
A árvore do bem e do mal

E em vários lugares os Sábios chamam a Torá "bem", como disseram sobre "rejeitou Israel o bem; o inimigo o perseguirá" — e "bem" não é senão a Torá, conforme está dito "pois boa doutrina vos dei; a Minha Torá não abandoneis"; e está escrito "árvore de vida ela é para os que a seguram" — e não "árvore do conhecimento do bem e do mal". E de novo voltou o referido filósofo a vituperar a Mishná e o Talmud, dizendo "outra interpretação" (ali, fl. 27a), e a louvar a sua própria mercadoria, os segredos que ele inventa do seu coração — dizendo que eles seriam da "árvore da vida", de Zeʼir Anpin de Atzilut, onde não há domínio para as "cascas" klipot, e não se acham nelas dificuldades nem o debate da halachá (mas eles são, na verdade, a invenção de "deuses novos, vindos de pouco, que não os temeram os nossos pais", e desarraigam o fundamento da unidade do Nome, que é o grande princípio). Já a Mishná e o Talmud diz ele que saem de Metatron de Yetzirá — que é Zeʼir Anpin de Yetzirá, aonde entraram Ben Azzai, Ben Zoma e Elishá Acher —, aonde, por haver ali "agarre" para as cascas, eles seriam da "árvore do conhecimento do bem e do mal": de um lado, bem — o permitido, kasher, puro; e de outro lado, mal — o proibido, inválido e impuro (aqui ele revelou os recônditos do seu coração, a saber que lhe é cômodo o desregramento, e que não se mencione "impuro", "inválido" e "proibido" — entenderá o sábio). E voltou ali a expor, em vitupério da Mishná e do Talmud, em nome do "Senhor da Mishná", e eis as suas palavras: “"e amarguraram a sua vida" (os egípcios, que são as cascas) "com trabalho duro" — isto é a dificuldade kushia; "com argamassa" be-chomer — com o argumento a fortiori kal va-chomer; "e com tijolos" u-vilvenim — com o esclarecimento da halachá libun hilcheta; "e com todo trabalho no campo" — isto é o pasmo bahaytá; "todo o trabalho com que os faziam servir, com rigor" — isto é a Mishná; "se entenderes, no arrependimento teshuvá / tiuvtá"; sobre eles se disse "e mostrou-lhe o Senhor uma árvore" — e esta é a "árvore da vida" —, e por ela "adoçaram-se as águas"” (explica o Mikdash Melech: a princípio estavam imersos nos sentidos simples peshat da Torá — isto é, Mishná, Guemará e Baraita, que ele mencionou acima —, e então "amarguraram a sua vida", por não receberem influxo do mundo superior etc.); “e este é "Moisés, o Messias", sobre quem se disse "e o cajado de D'us na sua mão" — o "cajado" mateh, este é Metatron: de um lado dele, a vida, e de outro lado dele, a morte; quando se tornou cajado, ele é ajuda do lado do bem; e quando se tornou serpente, ele é o seu adversário — logo "fugiu Moisés de diante dela"; e o Santo, bendito, entregou-a na mão de Moisés, e ela é a Torá oral, em que há o proibido e o permitido” (explica o Mikdash Melech: pois a Torá oral está em Metatron, onde há bem e mal, que são o proibido e o permitido). Eis que vês com os teus olhos, meu amigo, as palavras do filósofo compositor, autor do Zohar — vê como ele se dirige a lançar mácula sobre a Mishná dos Sábios e o seu Talmud, recebidos em suas mãos, homem da boca de homem, desde Moisés, nosso mestre, sobre quem seja a paz; e como ele se dirige a atribuir a Mishná a Metatron — em que há bem e mal — e não à Boca do Poder mi-pi ha-Gevurá, senão a Metatron; e a dizer que o bem dela é o permitido, puro, kasher, e o mal dela é o proibido, impuro e inválido; e como considerou a ocupação com ela um pecado em que se errou; dizendo que, se Israel se voltar em arrependimento e abandonar a Mishná, e se ocupar dos segredos que ele dispôs diante deles — na "multiplicidade dos deuses santos" para ele, operadores do bem, e também no conhecimento das "cascas", "deuses outros" impuros, operadores do mal —, então se adoçariam para eles "as águas amargas que amaldiçoam". Pois, então, não mais saberiam distinguir entre o impuro e o puro, e entre o sagrado e o profano — como achamos e vimos nas pessoas que se ocupam todos os seus dias dos referidos segredos e não dão atenção à Mishná, ao Talmud e aos decisores poskim: que não sabem de modo algum distinguir entre o impuro e o puro, kasher e inválido, proibido e permitido, e não sabem em que tropeçarão — porque o seu cérebro está cheio de "coisas de piedade chassidut em que há heresia": serviço dos partzufim, e heresias várias que o Senhor não ordenou, e "mentes pequenas" e "mentes grandes", e acoplamentos e gotas que escorrem dos partzufim masculinos para o ventre de suas mulheres e concubinas — até não restar espaço algum no seu cérebro para repousar ali o proibido e o permitido, para distinguir entre o impuro e o puro, e entre a coisa que se come e a coisa que é proibido comer — coisas sobre as quais fomos ordenados na Torá. E confirmaram em si mesmos o dito de R. Natan, que disse: “"pois a palavra do Senhor desprezou" — este é o que não deu atenção à Mishná” (explica Rashi: que a tratou como se não fosse o principal, ou que não se esforça por repassá-la — Sanhedrin, fl. 99; veja ali, no Rashi e no Maharsha).

ובכמה מקומות קורים רז"ל לתורה טוב כמו שאמרו על זנח ישראל טוב אויב ירדפו, ואין טוב אלא תורה שנ' כי לקח טוב נתתי לכם תורתי אל תעזובו. וכתיב עץ החיים היא למחזיקים בה, ולא עץ הדעת טוב ורע, ושוב חזר הפילסוף הנזכר לגנות את המשנה והתלמוד באמרו דבר אחר (שם דף כ"ז ע"א) ומשבח את סחורתו הסודות שהוא בודאם מלבו שהם מעץ החיים מזעיר אנפין דאצילות ששם אין שליטא לקליפות, ולא ימצא בהם קושיות ומשא ומתן של הלכה (אבל הם המצאת אלהים חדשים מקרוב באו לא שערום אבותינו והם עוקרים יסוד יחוד השם שהוא העיקר הגדול). אבל המשנה והתלמוד הם יוצאים ממטטרון דיצירה והוא זעיר אנפין דיצירה שםם נכנסו בן עזאי ובן זומא ואלישע, אחר ששם יש אחיזה לקליפות והם מעץ הדעת טוב ורע, מצד אחד טוב, והוא התר כשר טהור, ומצד אחד רע והוא אסור ופסול וטמא (כאן גילה מצפוני לבו דניחא ליה בהפקירא ולא יזכר שם טמא ופסול ואסור החכם יבין). ועוד חזר שם לדרוש בגנות המשנה והתלמוד בשם מארי מתניתין וז"ל וימררו את חייהם (המצרים שהם הקליפות) בעבודה קשה, דא קושיא, בחומר, בקל וחומר, ובלבנים, בליבון הלכתא, ובכל עבודה בשדה, דא בהייתא, את כל עבודתם אשר עבדו בפרך, דא משנה, אם תיבין בתיובתא. אתאמר בהון ויורהו ה' עץ, ודא עץ חיים, וביה וימתקו המים (פי' המקדש מלך בתחלה היו עומקים בפשטי התורה (דהיינו משנה וגמרא וברייתא שהזכיר לעיל) אזי וימררו את חייהם שאינם מקבלים שפע משפ מ"ה שהוא שקיו דאילנא שהוא פנימיות זעיר וכו') ודא משה משיח דאתמר ביה ומטה אלהים בידו, מטה דא מטטרון, מסטריה חיים, ומסטריה מיתה. כד אתהפיך למטה איהו עזר מסטרה דטוב. כך אתהפיך לחויא איהו כנגדו. מיד וינס משה מפניו. וקב"ה מסר ליה בידיה דמשה ואיהו אוריתא דבעל פה דביה איסור והתר (פי' המק"ם כי תורה שבע"פ היא במטטרון ששם טוב ורע שהם איסור והתר) הנך רואה בעיניך ידידי את דברי הפילסוף החובר מחבר הזהר איך הוא מכיון ליתן דופי במשנת חכמים ותלמודם המקובל בידם איש מפי איש ממשה רבינו ע"ה. וליחס את המשנה למטטרון שיש בו טוב ורע. ולא מפי הגבורה ניתנה אלא מטטרון. והטוב שבה הוא התר טהור כשר, ורע שבה אסור וטמא ופסול. וחשב את העסק בה לעון אשר חטא. אשר אם ישובו ישראל בתשובה ויעזו המשנה, ויתעסקו בסודות שערך לפניהם ברבוי האלוהות הקדושים לו פועלי הטוב, וגם בידיעת הקליפות אלהים אחרים טמאים פועלי הרע ימתקו להם המים המרים המאררים. כי אז לא ידעו עוד להבדיל בין טמא לטהור ובין קדש לחול, כאשר מצאנו ראינו האנשים העוסקים כל ימיהם בסודות הנזכרים ואינם משגיחים במשנה ותלמוד ופוסקים, שאינם יודעים כלל להבדיל בין הטמא ובין הטהור, כשר ופסול, אסור ומותר, ולא ידעו במה יכשלו, כי מוחם מלא מלי דחסידותא דאית בהו אפיקרותא, עבודת הפרצופים וכפירות שונים אשר לא צוה ה', ומוחין דקטנות ומוחין דגדלות, וזווגים וטפין הנוזלים מן הפרצופים הזכרים לרחם נשיהם ופילגשיהם, עד אפס מקום במוחם לנוח שם אסור ומותר. להבדיל בין הטמא ובין הטהור, ובין דבר הנאכל לדבר שאסור לאכלו אשר על זה נצטוינו בתורה, וקיימו בעצמם מאמר ר' נתן שאמר כי דבר ה' בזה זה שלא השגיח על המשנה (פי' רש"י שעשאה כפי שאינה עיקר. או שאינו מחזר לשנותה, סנהדרין דף צ"ט ע"ש ברש"י ומהרש"א).
“Serva” e “rainha”

(68) E depois (na folha referida, lado b) acrescentou multiplicar palavras, à maneira dos que arengam, e como quem destila faíscas, a louvar os seus segredos e a chamar a sua própria Torá "árvore de vida ela é para os que se seguram nesta", e "ela é a rainha matronita, a Malchut", e os que se ocupam dela são "filhos de reis"; mas a Mishná — que Moisés recebeu da Boca do Poder e a ensinou a Aarão e seus filhos e aos anciãos de Israel e a todo o Israel, como se lê em Eruvin, capítulo "Keitzad Meʼabrin": "ensinaram os mestres: qual era a ordem da Mishná? Moisés aprendia da Boca do Poder (não da boca de Metatron); entrava Aarão, e ensinava-lhe Moisés o seu capítulo; retirava-se Aarão" etc. — a essa Mishná o referido filósofo chamou "serva" shifchá, e disse que, se o tivessem merecido os de Israel, então Moisés lhes teria dado uma Mishná em que não houvesse proibido, nem impuro, nem inválido — antes, tudo puro e permitido e kasher; e que, por ter Moisés, nosso mestre, dado a eles esta Mishná, em que há proibido e permitido, impuro e puro, inválido e kasher, ele foi punido a ser sepultado fora da Terra de Israel, e ninguém soube a sua sepultura — quer dizer, ninguém soube a causa da punição da sua sepultura, e a causa da punição da sua sepultura ali foi esta Mishná que deu a Israel. E aos que se ocupam dela e ensinam ao povo o caminho pelo qual devem andar ele chamou "mistura ralé" erev rav — porque a Mishná afasta a sua crença em "muitos deuses", que ele insinua nas letras do Nome. E por isso chamou à Mishná "serva que domina sobre a rainha", dizendo que ela causa separar entre o "rei" e a "rainha", ao dizer ali: “e o rei e a rainha se separam do seu marido; por isso, "debaixo de três coisas treme a terra": "debaixo do servo, quando reina" — este é o servo conhecido (Metatron, que deu esta Mishná a Moisés); "e a serva, quando herda a sua senhora" — esta é a Mishná; "e o vil, quando se farta de pão" (a "guerra" da Mishná) — este é a mistura ralé (os que se ocupam da Mishná), "povo vil e não sábio"; e não há união para os partzufim até que se apague a mistura ralé, os que se ocupam dela, que causam separação entre os reis e suas concubinas”.

מח) ואח"כ (דף הנז"ל ע"ב) הוסיף להרבות דברים בדברי גרגן כמתלהמים, וכמתלחלח היורה זיקים לשבח סודותיו ולקרות תורתו עץ חיים היא לחמזיקים זה, ואיהי מטרוניתא מלכות. והעוסקים בה בני מלכים, ואת המשנה שקבל משה מפי הגבורה והשנאה לאהרן ובניו וזקני ישראל ולכל ישראל כדגרסינן בעירובין פ' כיצד מעברין. ת"ר כיצד סדר משנה משה למד מפי הגבורה (לא מפי מטטרון) נכנס אהרן שנה לו משה פרקו, נסתלק אהרון וכו', קרא לה הפילסוף הנז' שפחה ואמר שאלו זכו ישראל היה משה נותן להם משנה שאין בה אסור וטמא ופסול, אלא הכל טהור ומותר וכשר, ועל שנתן להם משה רבינו המשנה הזאת שיש בה איסור והתר, טמא וטהור, פסול וכשר, נענש להקבר בחוצה לארץ, ולא ידע איש את קבורתו, כלומר סבת עונש קבורתו, וסבת עונש קבורתו שם, משנה זו שנתן לישראל. והעוסקים בה ומורים לעם את הדרך ילכו בה קרא להם ערב רב, לפי שהמשנה מרחקת אמונתו באלהים רבים שהוא מרמזם באותיות יהוה, ולכן קרא למשנה שפחה דשלטא על מטרוניתא שהיא גורמת להפריד בין מלכא ומטרוניתא, באמרו שם ומלכא ומטרוניתא מתפרשן מבעלה בגין כן תחת שלש רגזה ארץ, תחת עבד כי ימלך, דא איהו עבדא ידיעא (מטטרון שנתן המשנה הזאת למשה) ושפחה כי תירש גברהת דא משנה, ונבל כי ישבע לחם (מלחמה של משנה) דא ערב רב. _העוסקים במשנה) עם נבל ולא חכם, ואין יחוד לפרצופים עד דיתמחון ערב רב, העוסקים בה שהם גורמים פירוד בין המלכים ופילגשיהם.
“Homens” e “peixes do mar”

E na parashá Ki Tetzê ele louva a sua Torá nova, que chama "Cabalá", e aos que se ocupam dela chama "homem" adam; mas aos que se ocupam da Mishná e do Talmud chama pelo nome de "peixes do mar e aves do céu", e diz que os que se ocupam da sua Cabalá estão acima deles, e que sobre eles se disse "e dominem sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu" — sendo estes os "senhores da Mishná". E multiplica ainda palavras para vituperar os tanaítas e amoraítas e diminuir a sua honra, e para louvar os que se ocupam da sua Cabalá nova, com palavras lisas que descem às câmaras do ventre — como verá o estudioso, sensato sobre a palavra de verdade, se examinar nos textos escriturísticos e nas palavras dos Sábios no Talmud e nos midrashim verdadeiros. E ali, na folha 276, ele revelou a face com atrevimento excessivo, em nome do Raʼaya Mehemna, a dizer: “há rocha sela e há rocha, há pedra even e há pedra: há pedra "do Nome shema" (esta é a sua Torá nova, cheia de partzufim e formas chamados pelos Nomes sagrados...), sobre ela se disse "e a pedra que feriu a estátua tornou-se um grande monte"; e há pedra que é "pedra de figura" even maskit, em que não há nem mananciais de sabedoria nem palavra — pedra que é...” (falta aqui o versículo, e ele não quis publicar a sua intenção tão abertamente no aviltar da Mishná; e queria dizer "pedra de tropeço e rocha de escândalo").

ובפרשת כי תצא הוא משבח את תורתו החדשה שהוא קורא אותה קבלה, והעוסקים בה קורא להם אדם, אבל העוסקים במשנה ובתלמו דהוא קורא להם בשם דגים ועופות השמים, והעוסקים בקבלתו למעלה מהם ושעליהם נאמר וירדו בדגת הים ובעוף השמים דאינון מארי מתניתין, ומרבה עוד דברים לגנות התנאים ואמוראים ולהפחית כבודם, ולשבח העוסקים בקבלתו החדשה בדברי חלקות היורדים לדרי בטן, כאשר יראה המעיין המשכיל על דבר אמת חבקי בכתובים ובדברי רז"ל בתלמוד ומדרשים האמתיים. ושם בדף רע"ו גילה פנים בחוצפא יתירא בשם רעיא מהימנא לומר אית סלע ואית סלע, אית אבן ואית אבן, אית אבו דשמא היהוה (היא תורתו החדשה המלאה פרצופים וצורות הנקראים בשם יהוה ואדנות ושאר שמות הקדש נמחקים ואין נמחקים ומרמזם בשם הוי"ה) עלה אמתר ואבנא די מחת לצלמא הות לטור רב, ואית אבן דאיהי אבן משכית, דלית תמן נביעו דחכמתא ולא דיבור אלא אבן דאיהי (חסר הפסוק בכאן ולא חפץ לפרסם כוונתו כל כך בבזוי המשנה והיה רוצה לומר אבן נגף ואבן מכשול).
A “pedra sem sabedoria”

Vê e entende nas palavras dele como ele estima a sua Torá nova e a chama "a pedra que feriu a estátua tzalma" — e, com a palavra "estátua", a sua intenção é sobre a Mishná e o Talmud, que ele considera como se fossem estátuas dos ídolos; e a avilta e a chama "pedra de figura" even maskit, em que não há sabedoria; e nestas suas palavras ele insinua o apartar-se da Mishná, tomando como se diz n'o versículo "e pedra de figura não poreis na vossa terra, para vos prostrardes sobre ela" (explicação: prostrar-se e unificar a D'us, bendito seja, segundo a Mishná, que afasta toda multiplicidade na divindade — ele diz que isso é proibido; antes, deve ser segundo a sua própria reviravolta nova, em que D'us, bendito seja, estaria dividido em vários partzufim, masculinos e femininos, e seria preciso atá-los e uni-los e acoplá-los juntos, queira D'us nos guardar).

ראה והבן בדבריו איך הוא מחשיב לתורתו החדשה וקורא לה אבנא די מחת לצלמא, ובמלת צלמא כוונתו על המשנה והתלמוד שהוא חושב אותם כצלמי האלילים, ומבזה אותה וקורא לה אבן משכית דלית בה חכמתא, ובדבריו אלה הוא רומז לפרוש מן המשנה כמאמר הכתוב ואבן משכית לא תתנו בארצכם להשתחות עליה (פי' להשתחות וליחד השי"ת על פי המשנה המרחקת כל רבוי באלהות. רק על פי חזרתו החדשה שהשי"ת מחולק לכמה פרצופים זכרים ונקבות וצריך לקשרם ולאחדם ולזווגם יחד ר"ל).
Nota — "even maskit" e a unicidade absoluta. Qafih ancora a sua leitura num versículo da Torá (Levítico 26:1), que proíbe a "pedra de figura" como objeto de prostração. Ele entende a passagem zoárica como mandando "apartar-se da Mishná". A Cabalá responderia: a unidade de D'us que ela ensina é idêntica à do Rambam e de Saadia — Ein Sof é absolutamente Um, simples, sem partes nem corpo. Os partzufim de que o Zohar fala não fracionam essa unidade; são o modo de descrever como o Um se relaciona com o mundo plural sem deixar de ser Um. "Atar e unir" os partzufim, na linguagem cabalística, é justamente afirmar a unidade subjacente a toda a multiplicidade aparente — o oposto do politeísmo. Que Qafih leia nisso "muitos deuses" é a sua tese; a Cabalá a considera um mal-entendido do seu próprio vocabulário. Reproduzimos ambos os lados.
A casca dura da noz

E de novo voltou o referido filósofo às suas palavras, no alto da coluna b, que chamam à sua Torá "a rocha que faz manar sabedoria"; e à Mishná e ao Talmud, que Moisés recebeu do Sinai, ele os compara à casca dura da noz, com que todos os sábios das gerações se fatigam, e não têm capacidade de extrair dela senão gotas de água.

ושוב חזר הפילסוף הנז' לדבריו שבראש עמוד ב' שקורא לתורתו סלע הנובע חכמה, ואת המשנה ואת התלמוד שקבל משה מסיני הוא מדמה אותן לקליפה הקשה של אגוז שכל חכמי הדורות יגעים בה ולית לון יכולת לאפקא מינה מיא אלא טיפין.
A “confissão” atribuída a Moisés

E ainda não se saciou de lançar opróbrio e baixeza sobre a Mishná — que é "o mandamento" que Moisés recebeu do Sinai, como consta em Berachot (e foi trazido acima) —, e a chama "serva", "rocha outra" que se chama "casca", "Mishná, fêmea do servo-rapaz" — sobre ela se disse n'o livro de Devarim "não se corrige o servo com palavras" etc. —, da qual golpeiam e quebram dela quantas passagens, sem manancial de sabedoria. E louva a sua Torá nova, cheia de muitos deuses, e a chama "filha do rei" berata de-malka, por causa da qual se disse "e falareis à rocha" — com palavra e aplacamento, como a uma filha do rei. E conta ali que Moisés, nosso mestre, confessou este seu suposto pecado — a saber, que nos deu a Mishná e o Talmud, que contradizem e batem na cabeça da sua crença em "muitos deuses", que ele chama "filha do rei" —, e diz que por isso lhe foi decretada a morte, pois "aquele que se rebela contra a rainha matronita é réu de morte; quanto mais aquele que fere a filha do rei"; e que por isso lhe foi decretado que não entraria na Terra de Israel, e que seria sepultado em terra estranha, fora da Terra de Israel.

ועוד לא שבע להטיל קלון ופחיתות במשנה שהיא המצוה שקיבל משה מסיני כדאיתא בברכות והובא לעיל, וקורא לה שפחה, סלע אחרא, דאתקריאת קליפה, משנה. נוקבא דעבד נער, עלה אתמר בדברים לא יוסר עבד אלא דמחן ומתברין מנה כמה פסקות בלא נביעו דחכמתא. ומשבח הוא את תורתו החדשה המלאה אלוהות רבים וקורא לה ברתא דמלכא, דבגינה אמתר ודברתם אל הסלע בדבור ופיוס כברתא דמלכא, ומספר שם שמשה רבינו התודה את חטאו זאת שנתן לנו את המשנה והתלמוד שהם סותרים ומכים על קדקד אמונתו באלהים רבים שהוא קורא לה ברתא דמלכא. ושעל כן נגזר עליו מיתה. דמאן דסריב למטרוניתא חייב מיתה, כל שכן מאן דמחי לברתא דמלכא ושעל כן נגזר עליו שלא יכנס לארץ ישראל. ושיקבר בארץ נכריה חוצה לארץ.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O capítulo mais polêmico

Aqui Qafih chega ao ápice da sua tese: lê uma série de passagens do Zohar (Bereshit 26–27 e o Raʼaya Mehemna) em que a Mishná e o Talmud surgem sob imagens duras — "árvore do bem e do mal", "serva", "casca de noz", "pedra sem sabedoria" — e delas conclui que o autor do Zohar menosprezava o estudo halcháico e cria em "muitos deuses". É a posição radical da escola Dor Deah, e o ponto em que a obra mais se afasta do consenso de Israel.

Como a tradição lê as mesmas passagens

Para a esmagadora maioria — e para a Cabalá em particular —, essas imagens dizem o oposto do que Qafih lê nelas. A crítica zoárica ao estudo "amargo" visa o estudo sem alma, e não a Mishná, que o próprio Zohar manda cumprir. A "serva" e a "rainha" são dois níveis santos de uma só Torá — corpo e alma da Lei. E os partzufim não são deuses: são faces de auto-revelação do único Ein Sof, cuja unicidade a Cabalá afirma tão absolutamente quanto o Rambam e Saadia. Afirmar poderes divinos independentes é, para a Cabalá, a pior das heresias (kitzutz ba-netiʼot).

Por que traduzimos, e o que não endossamos

Traduzimos este capítulo na íntegra por fidelidade histórica: ele é parte essencial das Guerras de D'us e de um debate real, antigo e sério, dentro de Israel sobre racionalismo e misticismo. Mas não subscrevemos as suas conclusões. O Zohar é sagrado para a maioria de Israel; a tese da sua autoria tardia e do seu suposto politeísmo é minoritária e contestada. Apresentamos a voz de Qafih com respeito — e com a réplica da tradição ao lado dela.

O solo que permanece comum

Por baixo da polêmica, há um valor que une os dois lados: o zelo pela unicidade absoluta de D'us. Tanto o racionalista quanto o cabalista afirmam um só D'us, sem partes nem corpo. O que os separa é a linguagem — literal ou simbólica — com que falam d'Ele. Este capítulo é o retrato mais vivo dessa tensão; lê-lo com sobriedade é honrar a ambos os lados do debate de Israel.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXVII

“Moisés é verdadeiro, e a sua Torá é verdadeira”

מֹשֶׁה אֱמֶת וְתוֹרָתוֹ אֱמֶת
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Continuação direta do capítulo anterior. Qafih conclui a sua crítica e ergue, contra ela, a sua afirmação central: a Torá oral de Moisés é verdadeira, dita “da Boca do Poder”, e a unidade de D'us é absoluta. Apresentamos o texto inteiro com a mesma sobriedade redobrada — como peça de um antigo debate interno de Israel, e não como juízo nosso.

Profanar o que é santo

(69) Vê e considera, meu irmão, como, com estas suas palavras, ele profana o sagrado — as generalidades e os pormenores da Torá, recebidos na mão de todo o Israel, escritos na Mishná e no Talmud, que Moisés recebeu do Sinai e os transmitiu a Josué etc., santos para o conjunto da nação de Israel —; e o autor do Zohar os escarnece e ensina a abandoná-los e a apartar-se deles como de uma "pedra de figura"; e os chama pelo nome aviltante de "serva quando herda a sua senhora, sob a qual treme a terra", e pelo nome de "casca dura", que todo homem se cansa por quebrar e por extrair dela um alimento escasso, como gotas de água parcas que não saciam a alma cansada e sedenta.

סט) ראה והתבונן אחי איך בדבריו אלה הוא מחלל את הקדשים כללותיה ופרטותיה של תורה המקובלים ביד כל ישראל הכתובים במשנה ובתלמוד שקיבל משה מסיני ומסרם ליהושע וכו' הקדושים לכלל האומה הישראלית, ומחבר הזהר מהללם ומורה לעזבם ולפרשו מהם כאבן משכית, וקורא להם בשמו של גנאי שפחה כי תירש גברתה, אשר תחתיה רגזה ארץ, ובשם קליפה קשה אשר ילאה כל אדם לשברה ולהוציא ממנה אוכל מועט כנטפי מים מועטים אשר ל אירוו לנפש עיף וצמא.
Tapar o poço de águas vivas

Assim fez o filósofo enganador, autor do Zohar, para diminuir as gotas das águas do mar da Mishná e do Talmud, com vários tipos de depreciações que pôs sobre eles no Zohar e nos Tikkunim. E com este mau pensamento intentou invalidar e fazer Israel esquecer a Mishná e o Talmud, e tapar a boca do poço de águas vivas, do qual fluem todos os caminhos da Torá oral. E este seu pensamento ele o disse explicitamente em vários lugares — como escreveu R. Yitzchak de Lattes na decisão impressa no início do livro do Zohar, construída sobre a opinião do autor do Zohar, não conforme a vontade dos Sábios, mestres do Talmud; e deles também há exemplo no Tikkunei Zohar Chadash, no seu início, no trecho que começa "e os sábios maskilim", onde se escreve ali "que concordaram o Santo, bendito, e a Sua Shechiná em fazer passar este Criador" etc. (e o sábio entenderá como seria possível que o Santo, bendito, concordasse em mudar o que está escrito na Torá — pois "pergunta agora aos primeiros dias" etc., e como explicaram os Sábios).

כה עשה הפילסוף הרמאי מחבר הזהר לגרע נטפי מי ים המשנה והתלמוד בכמה מיני מגרעות אשר שת עליהם בזהר ובתיקונים. ובמחשבה רעה זו חשב לפסול ולהשכיח את המשנה והתלמוד מישראל ולסתום את פי באר מים חיים אשר ממנו יקרו כל הליכות תורה שבעל פה. ומחשבתו זאת בפירוש אמרה בכמה מקומות, וכמו שכ' ר' יצחק דלטאש בפסק המודפס בתחלת ס' הזהר הבנוי על דעת מחבר הזהר שלא כרצון רז"ל בעלי התלמוד, ומהם גם כן בתיקוני זהר חדש בתחלתו דבור המתחיל והמשכילים, שכ' שם דאסתכם קב"ה ושכינתיה למעבר האי הבורא וכו' (והמשכיל יבין איך אפשר שיסכים הקב"ה לשנות מה שכתוב בתורה כי שאל נא לימים ראשונים וכו' וכמו שביארו רז"ל).
“Trazer almas às formas”

E na introdução ao Tikkunei haZohar, folha 3b, e também no início da segunda introdução e no fim do sexto Tikkun, se escreve "e quantos filhos de homem se sustentarão desta tua composição no fim dos dias" etc. E com lábios lisos ele incita e seduz a desdenhar do estudo da Mishná e do Talmud, e considerou a sua ocupação um pecado em que se errou — a ponto de se precisar de arrependimento para abandoná-los e para se ocupar da sua Torá nova, cheia de epítetos e de configurações de formas e de muitos partzufim, diferentes uns dos outros, que lhe subiu ao espírito fazê-los corpos, e a trazer-lhes almas da essência do D'us supremo — que não tem forma de corpo, com mãos e pés e os demais membros do corpo, mas apenas, segundo a opinião dele a forma de um grande círculo que circunda todo o vazio que há dentro dele —; e, por um canal fino, puxou, como que de si, o filósofo enganador, almas e vestes para cobrir a nudez das formas e dos partzufim, como está exposto no Etz Chaim do RaCh"V R. Chaim Vital, e nos demais livros dos cabalistas que vieram depois dele, que não puseram ao seu coração as palavras dos Sábios na Guemará e no Midrash Rabá e no Tanchuma e n'os semelhantes dos livros verdadeiros dos Sábios.

ובהקדמת תקוניה הזהר דף ג' ע"ב, גם בתחלת הקדמה שנייה ובסוף תיקונא שתיתאה כ' וכמה בני נשא יתפרנסון מהאי חבורה דילך בסוף יומיא וכו'. ומשפתי חלקות מסית ומדיח לזלזל בלימוד משנה ותלמוד, וחשב עסקם לעון אשר חטא עד שצריך תשובה לעזוב אותם ולהתעסק בתורתו החדשה המלאה תארים ותבניות צורות ופרצופים רבים שונים זה מזה אשר עלה על רוחו לעשותם גופים, ולהוריד להם נשמות מעצמות האלהים העליון שאין לו דמות הגוף בידים ורגלים ושאר אברי הגוף רק דמות עגול גדול מקיף את כל החלל שבתוכו לפי דעתו ודרך צינור דק משך כמנו הפילסוף המתעה נשמות ומלבושים לכסות מערומי הצורות והפרצופים כמבואר בעץ חיים להרח"ו, ובשאר ספרי המקבלים ממנו אשר לא שמו אל לבם דברי רז"ל בגמרא ומדרש רבה ותנחומא וכיוצא מספרי רז"ל האמתיים.
Nota — o "círculo" e o "canal" não são corporeidade. Este é o ponto em que a leitura de Qafih mais se afasta do que a Cabalá de fato ensina. O igul ("círculo") e o kav ("linha/canal") do Etz Chaim de R. Chaim Vital são símbolos da doutrina do tzimtzum — o modo de descrever como a Luz Infinita, que não tem forma, lugar nem limite, "abre espaço" para um mundo finito. Os próprios cabalistas advertem, repetidamente, que tudo isso é dito ki-veyachol ("por assim dizer"), "para aproximar a ideia do ouvido", e que Ein Sof não tem corpo nem imagem alguma — a mesma negação radical da corporeidade que ensinam o Rambam (segundo dos Treze Princípios) e Saadia. Tomar o igul como um "corpo" divino literal, e as almas e vestes como deuses reais, é a leitura polêmica de Qafih; a Cabalá a rejeitaria como um mal-entendido da sua própria linguagem simbólica.
O estudo “por si mesmo”

E no Tikkunei Zohar Chadash (folhas 6, 7 e 10) ele alargou ainda mais a boca para falar em vitupério dos que se ocupam da Mishná e do Talmud a fim de se chamarem "Rabi", ou a fim de alcançarem riqueza neste mundo, ou para merecerem a vida do mundo vindouro — aqueles sobre quem disseram os Sábios "sempre se ocupe a pessoa da Torá e das mitzvot, ainda que não por si mesmas shelo lishmá, pois a partir do não-por-si-mesmas vem o por-si-mesmas"; e disseram também "o que diz 'esta moeda sela é para a caridade, para que vivam os meus filhos, para que eu mereça a vida do mundo vindouro' — eis que este é um tzadik completo". E o filósofo, autor do Zohar, pô-los como herdeiros do Gehinom, e comparou o debate dos rabinos que se ocupam da Torá a fim de merecerem a vida do mundo vindouro a cães que ladram e dizem "chaf chaf, hav hav", e disse que eles herdam o Gehinom que diz "hav hav" — como conclui ali que sobre eles se disse "e estes serão para opróbrio e para abominação eterna". E zombou do dito do Tanna "estuda muita Torá, e te darão muita recompensa". E ainda que alguém se ocupe da Torá para distinguir entre o puro e o impuro — como nos ordenou o Senhor nosso D'us, para distinguir entre o animal que se come e o animal que não se come, e os demais alimentos proibidos —, tudo isso é chamado, junto a ele, "ocupar-se não por si mesmo", como disse ali: “não se esforçam senão por si próprios, pela gordura da carne” etc.

ובתיקוני זהר חדש (דף ו' וז' ודף י') הרחיב עוד את פיו לספר בגנות העוסקים במשנה ובתלמוד כדי שיקרא רבי או כדי להשיג עושר בעה"ז או שיזכה לחיי העה"ב, שאמרו חכמים עליהם לעולם יעסוק אדם בתורה ובמצות אפי' שלא לשמה, שמתוך וכו' וגם אמרו האומר סלע זו לצדקה בשביל שיחיו בני בשביל שאזכה לחיי העולם הבא הרי זה צדיק גמור. והפילסוף מחבר הזהר שם אותם ליורשי גהינם, ודימה שקלא וטריא דרבנן העוסקים בתורה כדי שיזכו לחיי העולם הבא לכלבים המנבחים ואומרים חף חף הב הב. ואמר שהם יורשים גיהנם האומרת הב הב. כמו שמסיים שם שעליהם נאמר ואלה לחרפות ולדראון עולם. ולעג על מאמר התנא למוד תורה הרבה ויתנו לך שכר הרבה. ואף אם עוסק בתורה להבדיל בין הטהור ובין הטמא כאשר ציונו ה' אלהינו להבדיל בין החיה הנאכלת ובין החיה אשר לא תאכל, ושאר איסורי מאכלות הכל נקרא אצלו עוסק שלא לשמה כמו שאמר שם - לא משתדלין אלא לגרמייהו לדבתא בשרא וכו'.
A intenção: unir “masculino e feminino”

E não se chama "ocupar-se por si mesmo" senão o que se ocupa da Torá a fim de unir as divindades masculinas com as femininas — Abba com Imma, e Zeʼir com a sua Nukva — para acoplá-los juntos, "e serão uma só carne"; e assim na recitação do Shemá, e n'os tzitzit e n'os tefilin e n'as demais mitzvot. E por isso instituíram os cabalistas dizer, antes de cada mitzvá que fazem, "para a unificação do Santo, bendito, e da Sua Shechiná" etc. — pois o alvo da intenção do filósofo é introduzir em Israel a crença n'a multiplicidade na divindade, masculinos e femininos, e fazer das suas composições — que são o Zohar e os Tikkunim — o principal a se ocupar, em lugar da Mishná e do Talmud, e fazer Israel esquecer a ocupação com a Mishná e o Talmud, em que se incluem todas as generalidades e todos os pormenores da Torá. E em vários lugares ele louva esta sua composição, e deles um exemplo está no Tikkunei Zohar Chadash, folha 16b. E na peneira nafá de mel que o referido filósofo destila, com lábios de uma fé que é estranha à fé da nossa santa Torá, ele atraiu o coração de muitos com as suas lisonjas, e os induz a servir "deuses outros" — que são as formas e os partzufim que ele inventou do seu coração para nos enganar, na sua interpretação das dez sefirot mencionadas no Sefer Yetzirá — para considerá-las divindade e servi-las, porque as suas almas estariam talhadas do D'us supremo (segundo a opinião dele), que lhes repartiu da Sua essência e da Sua própria substância: elas, e os seus círculos, e o seu corpo, e a sua alma, e a sua veste — todos talhados de uma só fonte (que é o Ein Sof), a qual, segundo a opinião deles, não tem nome nem ponto, e "n'ela nenhum pensamento se apreende", e a ela não se aplica serviço algum nem invocação, e ela não responde ao que a chama, pois já nomeou e encarregou os partzufim sobre toda a obra da criação. E, depois da morte de Josué e dos anciãos, voltaram alguns a estas opiniões corrompidas, e serviram a estes "baalim" e "ashtarot", e fizeram as suas imagens, a fim de fazer descer o influxo delas sobre aquelas formas e estátuas, segundo a opinião deles.

ולא נקרא עוסק לשמה אלא העוסק בתורה כדי לחבר האלהות הזכרים בנקבות, אבא עם אימא, וזעיר עם נוקביה. לזוגם יחד והיו לבשר אחד. וכן בקריאת שמע וציצית ותפילין ושאר כל המצות. ולכן תקנו המקובלים לומר קודם כל מצוה שעושים לשם יחוד קב"ה ושכינתיה וכו', כי תכלית כוונת הפילסוף להכניס בישראל אמונת רבוי באלוהות זכרים ונקבות ולעשות חבורים שלו שהם הזהר והתיקונים עיקר לעסוק בהם חלף המשנה והתלמוד. ולשכח מישראל עסק המשנה והתלמוד שכל כללותיה ופרטותיה של תורה כלולים בהם. ובכמה מקומות הוא משבח את חבורו זה ומהם בתיקוני זוהר חדש דף י"ו ע"ב. ובנפת אשר יטיף הפילסוף הנז' בשפתי אמונה שהיא זרה לאמונת תורתינו הקדושה משך לב רבים בחלקלקותיו, וישיאם לעבוד אלהים אחרים המה הצורות והפרצופים אשר בדה מלבו להטעותנו בפירוש עשר ספירות הנז' בספר יצירה לחשבם אלהות ולעבוד אותם בעבור שנשמותיהם חצובים מהאלהים העליון (לפי דעתו) אשר חלק להם מעצמותו ומהותו הם ועיגוליהם וגופם ונשמתם ולבושם, כולם חוצבו ממקור אחד (הוא הא"ם) אשר לפי דעתם אין לו שם ונקודה ולית מחשבה תפיסה ביה, ולא שייך שום עבודה וקריאה אליו, ולא יענה את הקורא אליו שכבר מינה והפקיד את הפרצופים על כל מלאכת הבריאה. ועשה את אבא בורא, והוא אומר ומצוה לאימא יהי כך וכך, והיא עושה כדבריו, כאומן שעושה מלאכת בעל הבית באמונה. ואבא ואמא גם הם צוו והפקידו את זעיר אנפין ונוקבתיה להשגיח ולרון על מעשה התחתונים. מאן דזכי לדינא לדינא, ומאן דזכי לרחמי לרחמי, הכל נעשה כחפצו ורצונו של זעיר אנפין. וכל דברי המחבר הזה בנוים על הפילוסופיא הקדומה אשר כבר נמר ריחה וטעמה מעת אשר נגלה כבודו ית' על הר סיני ואמר אנכי ה' אלהיך, לא יהיה לך אלהים אחרים. רק שאחרי מות יהושע והזקנים חזרו להדיעות האלו הנפסדות ויעבדו את הבעלים והעשתרות האלו ויעשו צלמיהם כדי להוריד השפע מהן על אותן הצורות והצלמים לפי דעתם.
Nota — "le-shem yichud" diz o contrário de politeísmo. O coração da acusação é que a fórmula cabalística "para a unificação do Santo, bendito, e da Sua Shechiná" provaria a crença em "muitos deuses". O significado é exatamente inverso. "Unificar" o Santo e a Shechiná é afirmar que toda a aparente fragmentação do mundo — o exílio, o mal, a distância — se reconduz a um só D'us; é um ato de monoteísmo, não de politeísmo. As dez sefirot do Sefer Yetzirá são, para a Cabalá, os instrumentos pelos quais o Um cria e governa, jamais entidades a serem adoradas em si mesmas — e a Cabalá proíbe rigorosamente orar a uma sefirá isolada (a chamada heresia de kitzutz ba-netiʼot). A comparação com o culto dos "baalim" após Josué é a inferência polêmica de Qafih; a tradição a recusa, vendo no Zohar a mais alta defesa da unicidade. Reproduzimos ambos os lados por fidelidade.
“Não há Rocha além do nosso D'us”

(70) E o filósofo, autor do Zohar, ajuntou todas estas opiniões, e as agregou e as juntou à fé da nossa santa Torá, por meio de uma interpretação enganosa da eloquência dos versículos e das palavras dos sábios — não conforme o sentido próprio da língua, e não conforme a tradição kabalá dos sábios. E ele afirma a existência de "deuses outros, que não são deuses" — o contrário dos versículos que testemunham que "não há Rocha além do nosso D'us", e como está explicado nas palavras dos Sábios no Talmud e nos seus midrashim verdadeiros. E as palavras deste filósofo, que ele agregou sobre Moisés, nosso mestre — sobre quem seja a paz —, falsamente, a saber que Moisés foi punido por ter dado a Israel esta Mishná, e que ele mesmo confessou este seu suposto pecado, como se explicou acima — elas estão contra as palavras dos Sábios na Guemará e no Midrash Rabá em vários lugares, e no Yalkut, parashá Va'etchanan; e assim em Vayikrá Rabá, parashá 31, segundo o comentário Etz Yossef: “e R. Yehudá deu-lhe uma parábola: a que se assemelha a coisa? A um rei que decretou e disse: todo o que colher e comer dos frutos verdes do ano sétimo sheviʼit — que o façam rodar pela praça kompon, [o pelourinho]. Foi uma certa mulher, filha de bons pais, e colheu e comeu frutos verdes do sétimo ano. Começaram a fazê-la rodar pela praça, e ela clamava e dizia: "rogo-te, meu senhor o rei, pendura estes figos verdes no meu pescoço, para que as criaturas não digam 'parece-nos que se achou nela coisa de imoralidade ou coisa de feitiçaria'; antes, ao verem os figos no meu pescoço, saberão que é por causa deles que me fazem rodar". Assim disse Moisés diante do Santo, bendito: "Senhor do mundo, escreve na Tua Torá por que é que eu não entro na Terra — para que Israel não diga 'parece-nos que Moisés falsificou na Torá'" (explicação: na Torá escrita) "'ou disse algo que não lhe foi ordenado'" (explicação: na Torá oral). Disse-lhe o Santo, bendito: "por tua vida, eu escrevo na Torá que não foi senão por causa das águas" — é isto o que está escrito "como vós vos rebelastes contra a Minha boca no deserto de Tzin" etc.”. E veja o tratado Yomá, folha 86.

ע) והפילסוף מחבר הזהר אסף את כל הדיעות האלה וטפל אותם וחברם לאמונת תורתינו הקדושה בהטעאת מליצת הכתובים ודברי חכמים שלא כדרך הצעת הלשון ולא כקבלת חכמים. והוא מאמת מציאות אלהים אחרים אשר לא אלהים המה היפך הכתובים המעידים שאין צור מבלעדי אלהינו. וכמבואר בדברי רז"ל בתלמוד ובמדרשיהם האמתיים. ודברי הפילסוף הזה שטפל על משה רבינו עליו השלום שקר שנענש על שנתן לישראל את המשנה הזאת ושהוא בעצמו התודה על חטאתו זאת כמו שנתבאר לעיל. המה נגד דברי רז"ל בגמרא ובמדרש רבה בכמה מקומות ובילקוט פ' ואתחנן וז"ל ויקרא פרשת רבה פרשה ל"א עפ פירוש עץ יוסף, ור' יהודה מושלו משל למה הדבר דומה למלך שגזר ואמר כל מי שילקוט ויאכל מפגי פירות שביעית יהו מחזרין אותו בקומפון, הלכה אשה אחת בת טובים ולקטה ואכלה פגי פירות שביעית, התחילו מחזרין אותה בקומפון והיתה צוחת ואומרת בבקשה ממך אדני המלך תלה את הפגין האלו בצוארי כדי שלא יהו הבריות אומרין דומה לנו שנמצא בה דבר של ערוה או דבר של כשפים, אלא מתוך שרואין את הפגין בצוארי הן יודעין שבשבילן אני מחזרת, כך אמר משה לפני הקב"ה. רבון העולם כתוב בתורתך מפני מה איני נכנס לארץ, שלא יהו ישראל אומרין, דומה לנו שזייף משה בתורה (פי' בתורה שבכתב) או אמר דבר שלא הצטוה (פי' בתורה שבעל פה), אמר לו הקב"ה חייך שאני כותב בתורה שלא היתה אלא על המים, הדא הוא דכתיב כאשר מריתם פי במדבר צין וכו' ועיין יומא דף פ"ו.
Nota — por que Moisés não entrou na Terra. Este é o trecho mais luminoso do capítulo, e nele Qafih está em pleno acordo com toda a tradição. O midrash de Vayikrá Rabá 31 e o Talmud em Yomá 86 são explícitos: a Torá registra o motivo da morte de Moisés fora da Terra — as águas de Meribá (Números 20) — precisamente para que ninguém pudesse imaginar que ele "falsificou" ou "inventou" qualquer coisa. A bela parábola da mulher que pede para pendurar os figos ao pescoço diz tudo: o "motivo" foi escrito para defender a honra de Moisés, não para acusá-lo. Daí a máxima que dá título a este capítulo — "Moisés é verdadeiro, e a sua Torá é verdadeira" — que, no Talmud (Bava Batra 74a; Sanhedrin 110a), até a companhia de Coré veio a confessar. Aqui, racionalistas e cabalistas estão lado a lado: ninguém em Israel lê o Zohar como acusando Moisés de pecado.
“Moisés é verdadeiro, e a sua Torá é verdadeira”

Eis que de tudo isto se explica que a Torá de Moisés, nosso mestre, e a sua Mishná são verdade — da Boca do Poder mi-pi ha-Gevurá ele as disse, e não as mudou para receber de Metatron uma Mishná em que há bem e mal. E eis que achamos que até a congregação de Coré, que se dividiu contra Moisés, nosso mestre — sobre quem seja a paz —, e desceram vivos ao Sheol, confessam o seu pecado e dizem "Moisés é verdade, e a sua Torá é verdade, e eles são os mentirosos", como consta no capítulo "Chelek" e no capítulo "haSefiná". E, se assim é, longe esteja todo aquele que ama a Torá de Moisés, nosso mestre — e desceram vivos ao Sheol, confessam o seu pecado e dizem "Moisés é verdade, e a sua Torá é verdade, e eles são os mentirosos", como consta no capítulo "Chelek" e no capítulo "haSefiná" (a repetição consta no texto-fonte) — e crê na tradição dos Sábios na Mishná e no Talmud, de crer nas falsidades do autor do Zohar (ele, e o rei estrangeiro por meio de quem ele enganou a Israel e revelou a sua composição, o Zohar), e que intentou agregar falsidade à Torá oral de Moisés, recebida de homem da boca de homem sem dúvida alguma, e lançar nela mácula dizendo que ela está mesclada de bem e de mal, e que seria bom aos seus olhos voltar-se em arrependimento e abandonar a Mishná e o Talmud, e estudar nos seus livros externos — o Zohar e os Tikkunim —, a fim de fazer Israel esquecer as generalidades e os pormenores da Torá, e também para lhes fazer esquecer a verdade da unidade do Santo, bendito, e para plantar no seu lugar a crença n'muitos deuses que se encadeiam e se ramificam uns dos outros, e "um clama ao outro e diz: 'seja assim e assim', e o outro o faz"; ou o inferior toma permissão do superior, e, se o superior não o quiser, diz-lhe o inferior "que há entre mim e ti? Se o homem pecar, é a mim que peca, e não a ti" — como supostamente disse Imma a Abba no tempo da criação de Adão, o primeiro homem, segundo as palavras dele, que as inventou do seu coração, como acima.

הרי מכל זה מתבאר שתורתו של משה רבינו ומשנתו אמת מפי הגבורה אמרם ולא שינה לקבל מטטרון משנה שיש בה טוב ורע. והרי מצינו שאף עדת קרח החולקים על משה רבינו ע"ה וירדו חיים שאולה מתודים את חטאם ואומרים משה אמת ותורתו אמת והם בדאים. כדאיתה בפרק חלק ובפרק הספינה. ואם כן חלילה לכל אוהב תורת משה רבינו ע"ה וירדו חיים שאולה מתודים את חטאם ואומרים משה אמת ותורתו אמת והם בדאים. כדאיתה בפרק חלק ובפרק הספינה. ואם כן חלילה לכל אוהב תורת משה רבינו ומאמין בקבלת רז"ל במשנה ובתלמוד, להאמין לשקריו של מחבר הזהר הוא והמלך הנכרי אשר על ידו רמה את ישראל וגילה את חיבורו הזהר וכיוון לטפול שקר על תורת משה שבעל פה המקובלת איש מפי איש בלי שופ ספק וליתן בה דופי שהיא מעורבת מטוב ורע, ושטוב בעיניו לשוב בתשובה ולעזוב את המשנה והתלמוד, וללמוד בספריו החיצוניים הזהר והתיקונים. כדי לשכח מישראל כללותיה ופרטותיה של תורה, וגם לשכח מהם אמתת יחודו של הקב"ה. ולטעת במקומה אמונת אלהים רבים המשתלשלים ומסתעפים זה מזה. וקרא זה אל זה ואמר יהי כך וכך, והאחר עושה. או התחתון יטול רשות מהעליון, ואם לא יחפוץ העליון, יאמר לו התחתון מה לי ולך, אם יחטא לי יחטא ולא לך. כמו שאמרה אימא לאבא בעת בריאת אדם הראשון לפי דבריו אשר בדא מלבו כדלעיל.
“E de um lugar santo caminham”

E sobre ele disse o rei Salomão, sobre quem seja a paz: "e assim vi livros sepultados, e vieram a nós da mão de um estranho, e de um lugar santo caminham" (como se fossem ditos como uma halachá a Moisés desde o Sinai), "e se esquecem ve-yishtakchu na cidade" — visto que assim eles receberam de Rashbi, o Tanna; "não leias ve-yishtakchu e [se esquecem], senão ve-yishtabchu e [se louvam]", como expuseram os Sábios —, pois assim fizeram, para enganar a Israel e afastá-los de sobre o Senhor seu D'us, que é a Causa Primeira, e para servir a muitas causas inovadas, e em especial ao "deus de fôlego curto" ketzar apaim (Zeʼir Anpin e a sua Nukva) — e para atribuir toda a sua oração e o seu serviço a eles, e para chamá-los pelos nomes do Santo, bendito —, como n'o feito da geração de Enós, que chamavam os ídolos pelos nomes do Santo, bendito, até que o Senhor inundou as águas do oceano e destruiu um terço do mundo, como disseram os Sábios, e o trouxe acima, no parágrafo 56.

ועליו אמר שלמה המלך ע"ה ובכן ראיתי (ספרים) קבורים ובאו (לנו מיד בן נכר) וממקום קדוש יהלכו (כאלו מהלכה למשה מסיני נאמרו) וישתכחו בעיר שכן קבלו מרשב"י התנא, אל תקרי וישתכחו אלא וישתבחו כמו שדרש רז"ל, אשר כן עשו להטעות את ישראל ולהרחיקם מעל ה' אלהיהם שהוא הסבה הראשונה. ולעבוד סבות רבות מחודשות, ובייחוד לאלוה קצא אפים (זעיר אנפין ונוקביה) וליחס כל תפלתם ועבודתם אליהם, ולקרות להן בשמותיו של הקב"ה כמעשה דורו של אנוש שקראו לעצבים בשמותיו של הקב"ה עד שהציף השי"ת מי אוקינוס ואיבד שלישו של עולם כמו שאמרו רז"ל והבאתיו לעיל בסי' נ"ו.
Nota — o fecho, e o respeito que permanece. Qafih encerra com a leitura mais ousada: aplica ao Zohar um versículo do Eclesiastes e a memória da geração de Enós (a primeira a "chamar os ídolos pelos nomes de D'us"). É a culminância da tese Dor Deah. É indispensável repeti-lo: esta é uma posição minoritária, e a esmagadora maioria de Israel a recusa. O Zohar é, há séculos, a obra mística central do judaísmo. Que Zeʼir Anpin seja um "deus" é a leitura de Qafih; para a Cabalá é uma face — uma forma de falar da relação do Um com o mundo. Traduzimos este capítulo por fidelidade histórica à obra e ao debate sério que ela encarna; o respeito ao Zohar, a Rashbi e a todos os que os amam permanece inteiro e intocado.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O clímax da polêmica

Estas duas seções (69–70) são o ápice da crítica de Qafih: ele acusa o autor do Zohar de "profanar o que é santo", de tapar "o poço de águas vivas" da Torá oral, de transformar as sefirot em deuses a servir e de atribuir a Moisés uma confissão de pecado. É a voz mais incisiva de todo o livro — e o ponto em que a obra mais se distancia do consenso de Israel.

O que a Cabalá realmente diz

A cada acusação a tradição responde. O igul e o kav do Etz Chaim são símbolos do tzimtzum, não corpo divino: Ein Sof não tem forma, como afirmam igualmente o Rambam e Saadia. As dez sefirot são instrumentos do Um, nunca objetos de culto — adorar uma isolada é a heresia que a Cabalá mais condena. E "unificar o Santo e a Sua Shechiná" é um ato de monoteísmo: reconduzir toda a multiplicidade do mundo a um só D'us. Qafih lê literalmente uma linguagem que os cabalistas sempre disseram ser simbólica.

O ponto de plena concórdia

No meio do capítulo há um trecho em que Qafih fala por todo o Israel: o midrash de Vayikrá Rabá 31 e Yomá 86 sobre por que Moisés não entrou na Terra. A Torá registra o motivo — as águas de Meribá — justamente para proteger a honra de Moisés, "para que Israel não diga que ele falsificou ou inventou". Daí o título: "Moisés é verdadeiro, e a sua Torá é verdadeira", máxima que, no Talmud, até a companhia de Coré confessou. Ninguém em Israel — racionalista ou cabalista — lê o Zohar como acusando Moisés de pecado.

Por que traduzimos, e o que não endossamos

Traduzimos o capítulo inteiro por fidelidade histórica: é parte essencial das Guerras de D'us e de um debate real e sério dentro de Israel. Mas não subscrevemos as suas conclusões. A tese da autoria tardia do Zohar (e a alusão a "um rei estrangeiro") é minoritária e contestada; o Zohar é sagrado para a maioria de Israel. Apresentamos a voz de Qafih com respeito — e a réplica da tradição sempre ao seu lado.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXVIII

“Nenhum profeta tem licença de inovar”

אֵין נָבִיא רַשַּׁאי לְחַדֵּשׁ דָּבָר
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O capítulo mais delicado da obra. Qafih situa as suas objeções dentro de uma longa “história das ideias” — e formula o princípio que lhe é mais caro: nenhum profeta, nem sinal algum, autoriza anular um só fundamento da Torá ou a unidade absoluta de D'us. Apresentamos o texto na íntegra, com a máxima sobriedade, como peça de um antigo debate interno de Israel — e não como juízo nosso.

“Abandonou o D'us que o fez”

(71) É o caso de que Moisés, nosso mestre — sobre quem seja a paz —, repreende Israel no livro do Deuteronômio, falando da Boca do Poder: "e abandonou o D'us que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação". "E abandonou o D'us que o fez" — este é a Causa Primeira; "e desprezou a Rocha da sua salvação" — pois o tiveram como coisa vil navel, um D'us que não salva o que o invoca. E no Midrash haGadol, parashá Ha'azinu: "e abandonou o D'us que o fez" — à maneira do que se diz "pois duas maldades fez o meu povo: a Mim abandonaram, fonte de águas vivas" etc.; disse-lhes o Onipresente: "na medida em que medistes, com ela Eu meço para vós" — conforme está dito "abandonei a Minha casa, deixei a Minha herança"; e diz "e abandonou o tabernáculo de Shiló"; e diz "porque abandonaste o teu povo, casa de Jacó". "Provocaram-No com deuses estranhos" — ensina isto que fizeram para si coisas de estranheza, como está dito "e também a Maacá, mãe do rei Asa, ele a removeu de ser rainha-mãe, porque fizera uma abominação mifletzet para a Asherá; que é uma mifletzet? Disse Rav Yehudá: algo que intensifica a libertinagem; disse Rav Yossef: um órgão viril fez para ela" etc. E o autor do livro do Zohar fez, também ele, "abominações" para os "baalim" e para as "ashtarot" — que são os partzufim que ele inventou nas suas imaginações para servi-los, como consta no Zohar, Bereshit, fl. 26a, e eis as suas palavras: “"e fez brotar o Senhor D'us" — isto é Abba e Imma; "toda árvore agradável" — este é o Tzadik (que é o Yessod de Zeʼir Anpin); "e boa para comer" — esta é a coluna do meio” etc. E na parashá Vayetzê, fl. 150b, ele chama ao Yessod da Malchut e ao Yessod de Zeʼir "porta do céu", e eis as suas palavras: “"e temeu, e disse: quão terrível é este lugar" — pleno; isto se aplica a dois lados: "quão terrível é este lugar", um — aquele lugar de que se falou primeiro (explica R. Bibi: nogah, isto é, a Malchut); e um — sobre a marca da aliança (isto é, o Yessod), que não quer ser anulada; e, ainda que sejam dois lados, é um. "Não é este senão a casa de D'us" — para se servir dela e para fazer nela frutos, e para fazer escorrer nela bênçãos de todos os membros do corpo, pois esta é a porta de todo o corpo; isto é "e esta é a porta do céu" — esta é a porta do corpo; e certamente é uma porta, para escorrer bênçãos para baixo, conforme está escrito "não é este senão a casa de D'us"; e por isso "temeu, e disse: quão terrível é este lugar"; e os filhos de homem não dão atenção à glória que há nele, para ser nele perfeito em cima e embaixo” etc. (fim).

עא) הוא שמשה רבי' ע"ה מוכיח את ישראל בס' משנה תורה, מפי הגבורה ויטש אלוה עשהו וינבל צור ישועתו, ויטש אלוה עשהו הוא הסבה הראשונה, וינבל צור ישועתו, שחשבוהו כעלה, נבל שאינו מושיע את הקורא אליו, ובמדרש הגדול פרשת האזינו, ויטש אלוה עשהו כענין שנאמר כי שתים רעות עשה עמי אותי עזבו מקור מים חים וכו' אמר להם המקום במדה שמדדתם אני מודד לכם שנאמר עזבתי את ביתי נטשתי את נחלתי, ואומר ויטש משכן שילה וימאס באוהל יוסף, ואומר כי נטשת עצך בית יעקב, יקניאוהו בזרים מלמד שעשו להם דברים של זרות, שנ' וגם מעכה את אם אסא המלך הסירה מגבירה אשר עשתה מפלצת לאשרה, מאי מפלצת, אמר רב יהודה מפליא ליצנותא, אמר רב יוסף זכרות עשתה לה וכו'. ומחבר ספר הזהר עשה גם הוא מפלצות לבעלים ולעשתרות הם הפרצופים שהמציא בדמיונותיו לעבדם כדאיתא בזהר בראשית דף כ"ו ע"א וז"ל ויצמח ה' אלהים, אבא ואמא, כל עץ נחמד דא צדיק (היא יסוד דז"א) וטוב למאכל דא עמודא דאמצעיתא וכו'. ובפ' ויצא דף ק"ן ע"ב הוא קורא ליסוד דמלכות ויסוד דזעיר שער השמים וז"ל ויירא ויאמר מה נורא המקום הזה מלא דא לתרין סטרין איהו מה נורא המקום הזה חד ההוא מקום דקאמר בקדמייתא (פי' הר' ביבי נגה היינו מלכות) וחד על את קיימא (היינו יסוד) דלא בעיא לאתבטלא ואע"ג דאינון תרי סטרי חד הוא. אמר אין זה כי אם בית אלהים לאשתמשא ביה ולמיעבד ביה פירין ולארקא ביה הרכאן מכל שייפי גופא, דהאי הוא תרעא דכל גופא הח"ד וזה שער השמים, דא תרעא דגופה, ודאי תרעא איהו לארקא ברכאן לתתא דכתיב אין זה כי אם בית אלהים. ועל דא ויירא ויאמר מה נורא המקום הזה ובני נשא לא משגחן ביקרא דביה למהוי ביה שלים לעילא ותתא וכו', ע"כ.
Nota — o vocabulário do Yessod e o que ele significa. Qafih aproxima, deliberadamente, a palavra mifletzet (Reis I 15:13 — um objeto idolátrico) das imagens corporais que o Zohar usa ao falar do Yessod ("porta", canal de bênção). É indispensável dizer como a Cabalá entende essa linguagem. O Yessod não é um "órgão" de um deus: é o símbolo do canal pelo qual a bênção e a vida fluem do oculto para o revelado — a "ponte" entre o Infinito e o mundo. Toda a tradição cabalística insiste que essas figuras são mashal (parábola), ditas "para aproximar a ideia do ouvido", e que D'us não tem corpo, membro nem forma — a mesma negação absoluta de corporeidade que ensina o Rambam. Ler o zivug ("união") como ato físico, e os partzufim como "baalim e ashtarot", é a leitura polêmica de Qafih; a Cabalá a recusaria como um mal-entendido do seu próprio simbolismo. Reproduzimos o texto por fidelidade, com a réplica ao lado.
Uma genealogia das crenças

Reconhece, pois, leitor agradável, até onde chegou a opinião e chegaram os raciocínios do referido autor — a ponto de chamar a "abominações", que seriam os órgãos de cópula dos partzufim que ele inventou nos seus raciocínios, pelo nome de "casa de D'us" e pelo nome de "porta do céu". Há coisas de estranheza maiores que esta? Ainda, no Yalkut e no Midrash haGadol: "sacrificavam a demônios, que não são D'us" — estes são os que servem ao sol, e à lua, e às estrelas, e às constelações, e às coisas que são necessidade do mundo e há proveito para o mundo nelas; por essas não seria a ira em dobro; mas eles servem a coisa que as nações do mundo não conhecem — "novos, que de pouco vieram"; tanto que, todo tempo em que um dos povos o via, dizia "este é a imagem de um judeu" (fim) — e Rashi, no Pentateuco, traz tudo isto. E escreveu o Ralba"g Gersônides, de abençoada memória: “"sacrificavam a demônios" — não lhes bastou ter servido às estrelas e constelações, senão que serviram a imaginações enganosas”. E eis que é sabido e notório que os primeiros povos, nos dias de Enós, erraram ao servir às estrelas e às constelações e ao sol e à lua e ao demais exército do céu, como disseram os Sábios nos seus midrashim — o Rabá, o Yalkut e o Midrash haGadol — e o Rambam, no início das Leis da Idolatria. E depois deles se levantaram outras seitas, que criam em dois agentes — um agente do bem e um agente do mal; e depois deles se espalhou a fé de Yeshu, o Nazareno, dos que creem nos três — Pai, Filho e Espírito Santo; e depois deles se firmou a "cabalá forjada" ha-kabalá ha-mezuyefet, dos que creem nas dez sefirot não conforme a opinião do autor do Sefer Yetzirá — pois interpretaram as dez sefirot que ele mencionou conforme lhes subia ao espírito, e fizeram delas, nos seus raciocínios, muitos partzufim, diferentes uns dos outros — este longo, e este curto, e este intermédio —, e com tudo sendo um, segundo a opinião deles. E eis que, conforme as palavras deles, se o seu conjunto é um, então o um, dentre os cinco partzufim que o compõem, não é um inteiro, senão um quinto — pois apenas os cinco partzufim que o compõem é que são um; e cada partzuf é apenas uma parte, um de cinco, do D'us completo. E, se assim é, como dirigiremos a intenção na nossa oração apenas a uma parte de cinco, que é o "curto de ira" (Zeʼir Anpin), segundo a opinião da maioria dos cabalistas? E, segundo a opinião do autor de Oz le-Elohim, a adoração e as orações que oramos não são a Zeʼir Anpin, senão ao "Rei santo de todos os santos". E sobre isto se espantará todo o que entende: como os próprios cabalistas, que andam nas pegadas do Zohar, não concordaram em uma só opinião sobre a quem orar — pois este ora e invoca a Zeʼir Anpin e suas concubinas, e este ora ao "Rei santo de todos os santos" e à sua consorte!

הכר נא קורא נעים עד היכן הגיעה דעתו ורעיונותיו של מחבר הנזכר לקרוא למפלצות שהם אברי המשגל של הפרצופים שהמציא ברעיונותיו בשם בית אלהים ובשם שער השמים, היש דברים של זרות יותר מזה? עוד בילקוט ובמדרש הגדול ידבחו לשדים לא אלוה, אלו עובדין לחמה וללבנה ולכוכבים ולמזלות ודברים שהן צורך העולם והנייה לעולם בהם לא הית הקנאה כפולה, אלא הן עובדים לדבר שאין אומות העולם מכירים אותם, חדשים מקרוב באו, שכל זמן שהיה אחד מן האומות רואה אותו אומר זה צלם יהודי ע"כ ורש"י בהומש מביא כל זה. וכ' הרלב"ג ז"ל יזבחו לשדים, לא דיים שעבדו לכוכבים ומזלות, אלא שעבדו לדמיונות כוזבים. והנה ידוע ומפורסם כי האומות הראשונים בימי אנוש טעו לעבוד לכוכבים ולמזלות ולשמש ולירח ושאר צבא השמים כמו שאמרו רז"ל במדרשיהם רבה וילקוט ומדרש בגדול והרמב"ם בתחלת הלכות ע"ז. ואחריהם קמו כתות אחרות שהאמינו בשני פועלים, פועל הטוב ופועל הרע, ואחריהם פשטה אמונת ישוע הנצרי מאמיני השלשה, אב ובן ורוח הקדש. ואחריהם עמדה הקבלה המזוייפת מאמיני עשר ספירות שלא כדעת בעל ס' יצירה, שפירשו העשר ספירות שהזכיר כהעולה על רוחם, ועשו אותם ברעיונותים פרצופים רבים השונים זה מזה, זה ארוך וזה קצר וזה בינוני, והכל אחד לפי דעתם. והנה לפי דבריהם כללותם הם אחד, הנה האחד מחמשה פרצופים הכוללים אינו אחד שלם, רק חמישית אחד, כי רק החמשה פרצופים הכלוללים הם אחד. וכל פרצוף הוא רק חלק אחד מחמשה מהאלהים השלם, ואם כן איך נכווין בתפלתינו רק אל חלק אחד מחמשה שהוא קצר האפים (זעיר אנפין) לדעת רוב המקובלים, ולדעת הר' עז לאלהים שהעבודה והתפלות שאנו מתפללים אינו לזעיר אנפין אלא למלכא קדישא דכל קדישין. ועל זאת יתפלא כל מבין איך המקובלים בעצמם ההולכים בעקבות הזהר לא הסכימו לדעת אחת למי יתפללו, כי זה מתפלל וקורא לז"א ופילגשיו, וזה מתפלל אל מלכא קדישא דכל קדישין וזוגתו.
Nota — a doxografia, e por que a Cabalá não é o que ela descreve. Aqui está o trecho que exige mais cuidado. Qafih organiza uma sequência histórica — idolatria astral → dualismo → trinitarismo → "cabalá forjada" — para sugerir que o Zohar pertenceria à mesma família de erros. Duas coisas precisam ser ditas. Primeiro, o material sobre as crenças de outros povos é doxografia histórica, na voz polêmica de Qafih; não o dirigimos a nenhuma fé viva e não o endossamos — registramo-lo por fidelidade ao documento. Segundo, e decisivo: a Cabalá não ensina o que esta passagem lhe atribui. Ela jamais afirmou que D'us seja "cinco quintos" ou que cada partzuf seja um deus parcial. As sefirot e partzufim são modos da auto-manifestação do único Ein Sof — como os raios de uma só luz, ou as faculdades de uma só alma. A unidade que a Cabalá afirma é tão absoluta quanto a do Rambam; o que ela acrescenta é uma linguagem para falar de como o Um Se relaciona com a multiplicidade do mundo. A própria divergência que Qafih aponta (a quem se dirige a oração) tem, na literatura cabalística, uma resposta unânime no plano essencial: toda oração sobe ao Ein Sof, o Infinito, e a Ele somente. Apresentamos a objeção e a réplica lado a lado.
“O boi conhece o seu dono”

Ai daquela vergonha, e ai daquela ignomínia! Pois "o boi conhece o seu dono, e o jumento a manjedoura do seu possuidor; e Israel não conhece" o seu D'us — e a qual forma e partzuf, dentre os partzufim que inventou o autor do Zohar, haverá Israel de orar? E abandona o D'us que o fez, o Primeiro e a Rocha de tudo, e busca "deuses novos, que de pouco vieram", que nem mesmo entre os gentios, servidores de ídolos, os conheceram. E, conforme o dito aqui, longe, longe esteja de nós pensar sobre qualquer Tanna ou Amorá dos nossos Sábios — de quem conhecemos a grandeza da sua sabedoria, e da sua piedade, e da sua santidade — que eles dissessem coisas tais sobre a Mishná e o Talmud, eles que, eles mesmos, consumiram os seus dias nesta ocupação santa: que é o debate shakla ve-tarya do Talmud, sobre a "pedra fundamental" even shetiyá, que é a Mishná — sobre a qual se fundou o santo Talmud, aquele sobre o qual estão os olhos de todos os mestres da instrução halcháica, e de cuja boca brotaram todos os rios e regatos das decisões das halachot, desde os dias dos nossos mestres, os Gueonim, e até agora; e do qual todos os que respondem responsas haurem da fonte da Mishná e do Talmud.

אוי לאותה בושה ואוי לאותה כלמה, כי ידע שור קונהו וחמור אבוס בעליו, וישראל לא ידע את אלהיו, ואל איזה צורה ופרצוף מהפרצופים שהמציא מחבר הזהר יתפלל, ויטש אלוה עשהו הראשון וצור לכל, ויבקש אלהים חדשים מקרוב באו אשר אף נגוים עובדי אלילים לא ידעום. ולפי האמור פה חלילה חלילה לחשוב על שום תנא או אמורא כרז"ל אשר ידענו רוב חכמתם וחסידותם וקדושתם שיאמרו דברים כאלה על המשנה והתלמוד אשר הם בעצמם בלו ימיהם בעסק הקדוש הזה, הוא שקלא וטריא דתלמודא, על אבן שתיה, היא המשנה אשר עליה הושת התלמוד הקדוש אשר עיני כל מורי הוראות עליו, ומפיו נבעו כל נהרי נחלי פסקי הלכות, מימות רבותינו הגאונים ועד עתה, וכל משיבי תשובות ממעין המשנה והתלמוד ישאבון.
Quanto mais absurdo, sobre Rashbi

(72) E com muito mais razão kal va-chomer é absurda a coisa de se pensar sobre o santo Tanna, Rashbi — sobre quem seja a paz — que ele cognominasse a Mishná pelo nome de "imagem tzelem que a pedra feriu", e pelo nome de "pedra de figura", e "casca", e semelhantes; pois eis que, no Yerushalmi, está explicado claramente que Rashbi opina que a leitura da Mishná é mais estimada, junto a ele, do que a da Escritura, e que ela é equiparável à recitação do Shemá no seu tempo devido, como se explicou acima, parágrafo 66. E como pensaríamos sobre este santo Tanna que ele falasse desvario sobre a Mishná — a dizer que todo o impuro, e o proibido, e o inválido mencionado na Mishná seria do "lado do mau instinto" yetzer ha-ra, e que lhe seria cômodo o desregramento, para desdenhar das proibições que há nela; e a dizer que por isto foi punido Moisés, nosso mestre — sobre quem seja a paz —, a ser sepultado em terra impura, por nos ter ensinado a Mishná; e que Moisés deveria, em vez dela, ter-nos ensinado segredos e insinuações que tocam e maculam a honra do nosso Pai, nosso Rei, e os fundamentos da nossa santa Torá e as suas raízes — para nos desviar dos princípios da nossa fé pura na unidade de D'us, bendito seja, que é a Causa Primeira; e para nos fundar uma religião e uma Torá nova, a crer em muitas causas que se encadeiam uma da outra, e cada uma se chama pelo nome do Tetragrama, e "Senhorio", e "Elohim", e "o Santo, bendito" — e que elas seriam as que "disseram, e se fez o mundo", segundo as suas palavras; e a atribuir a adoração, e a oração, e os sacrifícios que Israel oferecia no tempo em que a Casa do Templo subsistia, ao "deus criado, curto de ira" (Zeʼir Anpin), que seria a última causa dentre os partzufim de Atzilut — o contrário da nossa santa Torá, escrita e oral. E, ainda que ele tenha dito que se lhe revelou o "Ancião santo" Atika Kadisha, como está exposto no Zohar Bereshit, fl. 22, ou Eliáhu e o Raʼaya Mehemna, como está exposto no Zohar em vários lugares — já fomos advertidos na Torá de que não lhe creiamos e não o escutemos, como está dito "se se levantar no teu meio um profeta ou um sonhador de sonho" etc., pois é profeta falso; e, ainda que ele nos faça parar o sol e a lua, como Josué em Guivón e no vale de Aialon, não lhe creremos — como disseram os Sábios, no que é uma guemará, e o traz o Rab Sma"g Sefer Mitzvot Gadol na introdução aos preceitos positivos, e o Rambam no seu grande compêndio e na introdução à ordem de Zera'im, e no Moré, capítulo 24 da terceira parte, com largueza.

עב) וקל וחומר הדברים לחשוב על התנא הקדוש רשב"י ע"ה שיכנה את המשנה בשם צלמא דמחתיה אבנא, ובשם אבן משכית, וקליפה, וכיוצא שהרי בירושלמי מבואר בהדיא דרשב"י סבורא ליה שקריאת המשנה חשובה אצלו יותר מן המקרא. ושקול הוא כקריאת שמע בעונתה כמו שנת' לעיל סי' ס"ו. ואיככה נחשוב על התנא הקדוש הזה שידבר סרה על המשנה לומר שכל טמא ואסור ופסול הנז' במשנה מסטרא דיצר הרע. וניחא ליה בהפקירא לזלזל באיסורין שבה, ושעל זה נענש משה רבי' ע"ה להיקבר בארץ טמאה על שלמדנו את המשנה. ושהיה לו למשה ללמדינו תחתיה סודות ורמזים הנוגעים ופוגמים בכבוד אבינו מלכינו וביסודי תורתינו הקדושה ושרשיה להטותינו כעיקרי אמונתינו הטהורה ביחוד השי"ת שהוא הסבה הראשונה. וליסד לנו דת ותורה חדשה להאמין בסבות רבות המשתלשלים זה מזה. וכל אחת נקראת בשם הוי'ה ואדנות ואלהים והקב"ה. והמה שאמרו והיה העולם לפי דבריו, וייחס העבודה והתפלה וקרבנות שהיו ישראל מקריבים בזמן שבית המקדש קיים לאלוה הנברא קצר האפים (ז"א) והוא הסבה האחרונה שבפרצופי האצילות היפך תורתינו הקדושה שבכתב ושבעל פה. ואע"פ שאמר שנגלה לו עתיקא קדישא כמבואר בזהר בראשית דף כ"ב או אליהו ורעיא מהימנא כמבואר בזהר בכמה מקומות. כבר הוזהרנו בתורה שלא נאמין לו ולא נשמע אליו, כמו שנ' כי יקום בקרבך נביא או חלם חלום וכו' כי נביא שקר הוא, ואף אם יעמיד לנו חמה ולבנה כיהושע בגבעון ועמק אילון לא נאמין לו כמו שאמרו רז"ל שגמרא ומביאו הר' הסמ"ג בהקדמת העשין והרמב"ם בחבור ובהקדמת סדר זרעים ובמורה פרק כ"ד משלישי באורך.
Nota — o princípio que une todo o Israel. Por baixo da polêmica, este parágrafo enuncia um dos fundamentos mais firmes do judaísmo, em que Qafih e toda a tradição — inclusive a cabalística — concordam plenamente: nenhum profeta, nenhum sinal, nenhuma voz celeste autoriza anular ou "reformar" a Torá (Deuteronômio 13:2–6; Bava Metzia 59b, "não está nos céus"; Rambam, Mishné Torá, Yessodei haTorá 9, e Moré III:24). É a barreira que protege a Torá de qualquer "nova revelação" que a contradiga. Note-se, porém, que aplicar esse princípio ao Zohar pressupõe que o Zohar contradiga a Torá — o que a tradição nega: para ela, o Zohar não inova nem anula nada, mas aprofunda a mesma Torá de Moisés. A premissa é de Qafih; a conclusão, portanto, é dele. O princípio em si, contudo, é património de todos.
“Se tudo é um, como veio sozinho?”

E a razão é que o Senhor nosso D'us nos prova, como está dito "pois o Senhor vosso D'us vos prova, para saber se amais o Senhor vosso D'us" etc.; e nenhum profeta tem licença de inovar coisa alguma de agora em diante; e, ainda que uma voz celeste bat kol proclame dos céus, a dizer "escutai a sua voz", não lhe escutaremos para desviar do caminho que o Senhor nosso D'us nos ordenou, nem para desdenhar de qualquer princípio dos princípios da Torá, ou de qualquer mandamento dos seus mandamentos — e tanto mais este, que incita sem sinal algum nem prodígio, e desarraiga quatro princípios dos fundamentos da nossa santa Torá que escreveu o Rambam, de abençoada memória, como se explicou acima, parágrafo 48. E eis que, conforme a posição do autor do Zohar — de que o conjunto dos partzufim é um —, como é que se separou o Atik do Arich Anpin e dos demais partzufim, e veio sozinho à casa de estudo de Rashbi, e lhe perguntou e disse "Shimon, Shimon, quem é o que disse 'e disse D'us, façamos o homem'? Quem é este D'us?" etc. (Zohar Bereshit 22)? E assim, em vários lugares no Zohar em que se menciona o "Ancião dos anciãos", que vinha a R. Elazar — como é que se separou e veio sozinho? Não é tudo um?

והטעם כי מנסה ה' אלהינו אותנו כמו שנאמר כי מנסה ה' אלהיכם אתכם לדעת הישכם אוהבים את ה' אלהיכם וגו' ואין נביא רשאי לחדש דבר מעתה, ואף אם בת קול תכריז מן השמים לאמר שמעו בקולו, לא נשמע לו לסור מן הדרך אשר צוה ה' אלהינו אותנו ולזלזל בשום עיקר מעקרי התורה או בשום מצוה ממצותיה, כל שכן זה המסית בלי שום אות ומופות ועוקר ד' עיקרים מיסודי תורתינו הקדושה שכתב הרמב"ם ז"ל כמו שנת' לעיל סי' מ"ח, והנה כפי הנחת מחבר הזהר שכללות הפרצופים הם אחד, איך נפרד העתיק מאריך אנפין ושאר פרצופים ובא לבדו לבית מדרשו של רשב"י ושאל אותו ואמר לו שמעון שמעון מאן הוא דאמר ויאמר אלהים נעשה אדם מאן הוא האי אלהים וכו' (זוהר בראשית כ"ב) וכן בכמה מקומות בזהר שנזכר סבא דסבין שהיה בא לגבי רבי אלעזר איך נפרד ובא לבדו הלא הכל אחד?
O argumento de Ibn Ezra, aplicado

E já me precederam nesta objeção o Ibn Ezra, de abençoada memória, contra os que creem na Trindade, no início da parashá Vayerá, e eis as suas palavras: “eis que alguns disseram que o Nome haShem, três varões, é um — e é ele mesmo os três, e não se separam; e eis que se esqueceram de "e vieram os dois anjos a Sodoma"” (fim). A explicação das suas palavras: que os que creem na Trindade entendem que o Nome, bendito seja, é três — Pai, Filho e Espírito Santo —, e os três são um; e por isso disse o versículo "e apareceu-lhe o Senhor", "e eis que três varões" — e estes três seriam o "Nome" mencionado no versículo anterior a este, e não se separam; e objetou-lhes o Ibn Ezra: se assim, como achamos que se separaram, pois está dito "e vieram os dois anjos a Sodoma"? Também nós diremos ao incitador, autor do Zohar, que diz "e tudo é um, e não se separam jamais": como é que se separou o Atik, que é o "Ancião dos anciãos", e veio sozinho à casa de estudo de Rashbi? E também o que ele disse — que foi Imma quem disse a Abba "façamos o homem", e prevaleceu a sua mão e o fez à força de Abba; e, quando pecou Adão, Abba o expulsou do Jardim do Éden, e a expulsou a Imma com ele —: e como é que se separou Imma de Abba? Não é tudo um, e não se separam? E eis que, se o "Ancião dos anciãos" se aparecia a Rashbi e a R. Elazar, seu filho, várias vezes, como está exposto no Zohar, por que chorou Rashbi e disse "à serva da casa de meu pai Hagar apareceu-lhe um anjo três vezes; e eu, nem sequer uma vez?" (Meilá, fl. 84). E também, por que não nos disseram os Sábios que Rashbi era um profeta tão grande, maior que os demais profetas — pois se lhe revelava o "Ancião santo", e ele se mantinha de pé no seu lugar, entre os companheiros, na casa de estudo? E por que disseram os Sábios que Ageu, Zacarias e Malaquias foram os últimos profetas, e que dali em diante cessou a profecia de Israel — se eis que achamos que Rashbi profetizou depois da destruição, e disse vários assuntos sobre a divindade, e sobre que a adoração seria ao "filho de D'us, curto de ira", o que não o deram a conhecer os demais profetas, dos dias de Moisés até Malaquias, e não se revelou isto senão no sexto milênio?

וכבר קדמוני בטענה זו הראב"ע ז"ל על מאמיני השלוש בריש פרשת וירא וז"ל הנה קצת אמרו כי השם שלשה אנשים הוא אחד והוא שלשה ולא יתפרדו, והנה שכחו ויבאו שני המלאכים סדמה ע"כ. ביאור דבריו כי מאמיני השלוש סוברים שהשם ית' הוא שלשה, אב ובן ורוח הקדש והשלשה הם אחד ולכך אמר הכתוב וירא אליו ה', והנה שלשה אנשים, ואלה השלשה הם השם הנז' בפסוק שקודם זה ולא יתפרדו, וטען עליהם הראב"ע האי מצינו שנפרדו שנ' ויבאו שני המלאכים סדומה? גן אנחנו נאמר להמסית מחבר הזהר שאומר וכלא יד ולא מתפרשין לעלמין. איך נפרד עתיק שהוא סבא דסבין ובא לבדו לבית מדרשו של רשב"י? גם מה שאמר שאימא היא שאמרה לאבא נעשה אדם, וגברה ידה ועשאתו על כרחו של אבא, וכשחטא אדם גירשו מגן עדן וגירשה עמו, ואיך נפרדה אימא מאבא, והלא כלא חד ולא מתפרשין? והנה אם היה סבא דסבין נראה לרשב"י ולר' אלעזר בנו כמה פעמים כמו שמבואר בזהר, למה בכה רשב"י ואמר שפחה של בית אבא נזדמן לה מלאך שלשה פעמים. אני אפי' לא פעם אחת? (מעילה דף פ"ד). וגם למה לא הגידו לנו חכמים שרשב"י היה נביא גדול כ"כ יותר משאר נביאים, שהרי היה נגלה לו עתיקא קדישא והוא עומד על עמדו בתוך החבירים בבית המדרש? ולמה אמרו חכמים שחגי זכריה ומלאכי סוף נביאים, ומשם ואילך פסקה נבואה ישראל, הא אשכחן רשב"י ניבא אחר החרבן, והגיד כמה עניינים באלהות, ושהעבודה לבן האלהים קצר האפים מה שלא הודיעו שאר נביאים מימות משה עד מלאכי, ולא נתגלה זה עד האלף הששי?
Nota — um argumento dialético, e seus limites. O fecho do capítulo é engenhoso: Qafih toma a famosa objeção de Ibn Ezra contra a doutrina trinitária (se os "três varões" de Gênesis 18 fossem um só D'us indivisível, como "dois anjos" se separaram e foram a Sodoma?) e a volta contra o Zohar — se "tudo é um e nunca se separa", como o Atik aparece "sozinho" a Rashbi? A Cabalá responde com a sua distinção mais básica: a unidade do Ein Sof não impede a distinção de faces na auto-revelação, assim como a unidade de uma alma não impede que ela se manifeste ora como pensamento, ora como vontade, ora como fala. "Aparecer o Atik" não é um deus saindo de viagem; é um modo de revelação tornando-se acessível à percepção do místico. Quanto à profecia "ter cessado": a tradição distingue entre nevuá (profecia clássica) e gilui / ruach ha-kodesh (inspiração e revelação de segredos), que nunca cessaram — e é nesse segundo registro que se entende a experiência de Rashbi no Zohar. As perguntas de Qafih são agudas; mas pressupõem que a linguagem cabalística deva ser lida como a literal, o que a própria Cabalá nega. Apresentamos o desafio e a resposta.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O capítulo mais sensível

Aqui Qafih leva a sua crítica ao extremo: aproxima as imagens corporais do Yessod de objetos idolátricos, monta uma "genealogia das crenças" que alinha as sefirot do Zohar ao dualismo e ao trinitarismo, e usa a objeção medieval de Ibn Ezra contra a Trindade para questionar a coerência do Zohar e a sua atribuição a Rashbi. É a voz mais incisiva — e mais contestável — de toda a obra.

O que a Cabalá de fato sustenta

A tradição responde a cada ponto. As imagens de "união" e o Yessod são símbolos do fluxo da bênção, não corporeidade — D'us não tem corpo, como ensinam igualmente o Rambam e Saadia. As dez sefirot não são "cinco quintos" de um deus, nem deuses parciais: são faces do único Ein Sof, cuja unicidade a Cabalá afirma de modo absoluto; servir uma sefirá isolada é a heresia (kitzutz ba-netiʼot) que ela mais condena. E a "separação" das faces na revelação não fere a unidade, assim como as faculdades de uma só alma não a dividem.

O princípio que todos partilham

No centro do capítulo há uma verdade comum a todo o Israel: nenhum profeta, nenhum sinal, nenhuma voz celeste pode anular a Torá (Deuteronômio 13; Bava Metzia 59b; Rambam). É a defesa da Torá contra qualquer "nova revelação" que a contradiga. A aplicação ao Zohar, porém, supõe que o Zohar contradiga a Torá — premissa que a tradição nega, vendo nele não inovação, mas aprofundamento da mesma Torá de Moisés.

Por que traduzimos, e o que não endossamos

Traduzimos este capítulo por fidelidade histórica e por respeito ao leitor, que merece o texto inteiro. Mas não subscrevemos as suas conclusões, nem o material doxográfico sobre outras fés, que registramos como peça histórica sem o dirigir a ninguém. A tese sobre a autoria e o "politeísmo" do Zohar é minoritária e contestada; o Zohar é sagrado para a maioria de Israel. Honrar este debate é apresentá-lo inteiro — a objeção e a réplica, lado a lado.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXIX

“Quantos deuses criaram o mundo?”

כַּמָּה אֱלוֹהוּת בָּרְאוּ אֶת הָעוֹלָם
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Depois do auge da polêmica, Qafih volta-se para a luz: traz o célebre diálogo de R. Simlai — a mais bela defesa rabínica da unidade de D'us — e fecha com uma exposição luminosa do primeiro Mandamento. Um capítulo, em sua maior parte, de pura afirmação: D'us é um, próximo, e nada além d'Ele é digno de adoração.

“Vai e pergunta ao primeiro homem”

(73) E no Yerushalmi, capítulo "haRoeh", lê-se: os minim hereges perguntaram a R. Simlai: “quantas divindades criaram o mundo?”. Disse-lhes: “e a mim perguntais? Ide e perguntai ao primeiro homem Adão, conforme está dito "pois pergunta agora aos primeiros dias" etc., "desde o dia que bara, no singular D'us o homem sobre a terra" — não está escrito aqui "que criaram bar'u, no plural", senão "desde o dia que criou bara D'us o homem sobre a terra"”. Disseram-lhe: “mas eis que está escrito "no princípio criou bara D'us Elohim, forma plural"”. Disse-lhes: “e porventura está escrito "criaram" bar'u? Não está escrito senão "criou" bara”. Disse R. Simlai: “em todo lugar em que os minim se insurgem, a sua resposta está ao seu lado”. Voltaram e perguntaram-lhe: “que é isto que está escrito "façamos na'asseh o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança"?”. Disse-lhes: “"e criaram vayivre'u D'us o homem na sua deles imagem" não está escrito aqui, senão "e criou vayivrá, singular D'us o homem à sua d'Ele imagem"”. Disseram-lhe os seus discípulos: “a estes tu repeliste com uma cana; a nós, que nos respondes?”. Disse-lhes: “no passado, Adão foi criado do pó, e Eva foi criada de Adão; de Adão em diante, "à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" — não é possível um homem sem mulher, e não é possível uma mulher sem homem, e não é possível a ambos sem a Shechiná a Presença Divina”.

עג) ובירושלמי פ' הרואה גרסינן המינין שאלו את ר' שמלאי כמה אלוהות בראו את העולם, אמר להם ולי אתם שולאים, לכו ושאלו את אדם הראשון, שנ' כי שאל נא לימים ראשונים וגו' אשר בראו אלהים אדם על הארץ, אין כתיב כאן אלא למן היום אשר ברא אלהים אדם על הארץ, אמרו ליה והא כתיב בראשית ברא אלהים, אמר להו וכי כתיב בראו, אין כתיב אלא ברא, אמר ר' שמלאי כל מקום שפקדו המינין תשובתן בצדן, חזרו ושאלו אותו מה ההן דכתיב נעשה אדם בצלמינו כדמותינו, אמר להם ויבראו אלהים את האדם בצלמם אין כתיב כאן, אלא ויברא אלהים את האדם בצלמו, אמרו לו תלמידיו לאלה דחית בקנה, לנו מה אתה משיב, אמר להם לשעבר אדם נברא מן העפר, וחוה נבראת מן האדם, מאדם ואילך בצלמינו כדמותינו, אי אפשר לאיש בלא אשה, ואי אפשר לאשה בלא איש, אי אפשר לשניהם בלא שכינה,
Nota — "façamos o homem". Este é o versículo (Gênesis 1:26) que, ao longo dos séculos, mais foi usado para desafiar o monoteísmo bíblico. A resposta de R. Simlai é a clássica: sempre que a Torá usa um plural ao falar de D'us, o verbo da ação aparece no singular — "criou", não "criaram". O plural é de majestade ou de deliberação, não de número. A explicação que ele dá aos discípulos é mais profunda: "façamos" inclui o ser humano e a mulher na continuação da criação — pai, mãe e a Presença Divina geram, juntos, cada nova pessoa. É importante notar que a leitura cabalística de "façamos" também é rigorosamente monoteísta: o Um fala com as Suas potências ou com a corte celeste — jamais com "outros deuses". Qafih e a Cabalá concordam no essencial: o sujeito que cria é Um só.
“Os três são um só nome”

E voltaram e perguntaram-lhe: “que é isto que está escrito "D'us, D'us, o Senhor El, Elohim, Hashem"?”. Disse-lhes: “"eles sabem" hem yode'im, plural não está escrito aqui, senão "Ele sabe" hu yode'a, singular está escrito”. Disseram-lhe os discípulos: “a estes repeliste com uma cana; a nós, que nos respondes?”. Disse-lhes: “os três são um só nome — como a pessoa que diz "basilios, kesar, augustos" imperador, césar, augusto: três títulos de um só soberano”. Voltaram e perguntaram-lhe: “que é isto que está escrito "D'us, D'us, o Senhor falou, e chamou a terra"?”. Disse-lhes: “e porventura "falaram-chamaram" plural está escrito aqui? Não está escrito senão "falou singular, e chamaram a terra"”. Disseram-lhe os seus discípulos: “a estes repeliste com uma cana; a nós, que nos respondes?”. Disse-lhes: “os três são um só nome — como a pessoa que diz "artífice, construtor, arquiteto" três nomes de um só ofício”.

וחזרו ושאלו אותן, מה ההן דכתיב אל אלהים ה', אל אלהים ה' הוא יודע, אמר להם הם יודעים אין כתיב כאן. אלא הוא יודע כתיב, אמרו לו תלמידי הרבי לאלו דחית בקנה, לנו מה אתה משיב, אמר להן שלשתן שם אחד כאיניש דאמר בסיליוס קיסר אנושתום (אדום מושל ושליט). חזרו ושאלו אותו, מהו דכתיב אל אלהים ה' דבר ויקרא ארץ, אמר להן וכי דברו-ויקראו כתוב כאן, אין כתיב אלא דבר ויקראו ארץ, אמרו לו תלמידיו רבי לאלה דחית בקנה, לנו מה אתה משיב אמר להם שלשתן שם אחד הן כאיניש דאמר אומנון בנין ארכיטקטנן (נ"א ארכי קטונדס ערוך אמן).
Santo em toda santidade, próximo em toda proximidade

Voltaram e perguntaram-lhe: “que é isto que está escrito "pois um D'us santo kedoshim, plural é Ele"?”. Disse-lhes: “"santos kedoshim são" não está escrito aqui, senão "Ele é um D'us zeloso El kaná, singular é Ele"”. Disseram-lhe os seus discípulos: “a estes repeliste com uma cana; a nós, que nos respondes?”. Disse-lhes: “é santo em todo tipo de santidades” — pois disse R. Yudan em nome de R. Acha: “o Santo, bendito, o Seu caminho é em santidade, o Seu falar é em santidade, o Seu sentar é em santidade: "D'us, no santo é o Teu caminho"; o Seu andar é em santidade: "os andares do meu D'us, do meu Rei, no santuário"; o Seu sentar é em santidade: "D'us se assenta sobre o trono da Sua santidade"; o Seu falar é em santidade: "D'us falou na Sua santidade"; o descobrir do Seu braço é em santidade: "descobriu o Senhor o braço da Sua santidade"; terrível e majestoso em santidade: "quem é como Tu, majestoso em santidade?"”. Voltaram e perguntaram-lhe: “que é isto que está escrito "que grande nação há tão grande, que tem D'us próximo dela elav?"”. Disse-lhes: “"como o Senhor nosso D'us, em todo o nosso clamor a eles aleihem, plural" não está escrito aqui, senão "em todo o nosso clamor a Ele elav, singular"”. Disseram-lhe os seus discípulos: “a estes repeliste com uma cana; a nós, que nos respondes?”. Disse-lhes: “é próximo em todo tipo de proximidades” — pois disse R. Pinchas em nome de R. Yehudá b. R. Simon: “o ídolo parece próximo, e não é senão distante. Qual é a razão? "Carregam-no ao ombro, suportam-no" etc. — afinal, o seu deus está com ele em casa, e ele clama até morrer, e o ídolo não ouve nem o salva da sua angústia. Mas o Santo, bendito, parece distante, e não há mais próximo que Ele” — pois disse R. Levi: “da terra até o firmamento há um caminho de quinhentos anos, e assim para cada firmamento... vê quão alto Ele está do Seu mundo; e contudo a pessoa entra na sinagoga, e se põe atrás da coluna, e ora em sussurro, e o Santo, bendito, escuta a sua oração, conforme está dito "e Chana, ela falava ao seu coração, apenas os seus lábios se moviam" — e escutou o Santo, bendito, a sua oração. E assim com todas as Suas criaturas, conforme está dito "uma oração do pobre, quando se enfraquece" — como a pessoa que conversa ao ouvido do seu companheiro, e ele ouve. E porventura tens um D'us mais próximo que este, que está próximo das Suas criaturas como da boca ao ouvido?” (fim).

חזרו ושאלו אותו מהו דכתיב כי אלהים קדושים הוא אמר להם קדושים המה אין כתוב כאן אלא הוא אל קנא הוא, אמרו לו תלמידיו רבי לאלו דחית בקנה. ולנו מה אתה משיב, אמר להם קדוש הוא בכל מיני קדושות, דאמר רבי יודן בשם רבי אחא הקב"ה דרכו בקדושה, דיבורו בקדושה, ישובו בקדושה, אלהים בקדש דרכך, הילוכו בקדושה, הליכות אל מלכי בקדש, מושבו בקדושה אלהים ישב על כסא קדשו, דיבורו בקדושה אלהים דיבר בקדשו, חשיפת דרועו בקדושה, חשף ה' את זרוע קדשו נורא ואדיר בקדושה, מי כמוך נאדר בקדש, חזרו ושאלו אותו מהו ההן דכתיב מי גוי גדול אשר לו אלהים קרובים אליו. אמר להם כה' אלהינו בכל קראינו אליהם אין כתיב כאן, אלא בכל קראינו אליו. אמרו לו תלמידיו רבי לאלו דחית בקנה. לנו מה אתה משיב, אמר להם קרוב הוא בכל מיני קריבות דאמר ר' פנחס בשפ ר' יהודה בר' סימון. ע"ז נראית קרובה ואינה אלא רחוקה. מה טעם ישאוהו על כתף יסבלוהו וגו' סוף דבר אלוהו עמו בבית והוא צועק עד שימות ולא ישמע ולא יושיע מצרתו. אבל הקב"ה נראה רחוק ואין קרוב ממנו, דאמר רבי לוי מהארץ עד לרקיע מהלך חמש מאות שנה. וכן לכל רקיע ורקיע, ואמר רבי חלבו ורבי ברכיה בשם רבי אבא סמוקא אף טלפי החיות מהלך חמש מאות חמש עשרה מנין ישרה, ראה כמה גבוה הוא מעולמו, ואדם נכנס לבית הכנסת ועומד אחורי העמוד ומתפלל בלחישה והקב"ה מאזין את תפלתו שנאמר וחנה היא מדברת אל לבה רק שפתיה נעות והאזין הקב"ה תפלתה. וכן כל בריותיו שנ' תפלה לעני כי יעטף כאדם המשיח באזן חבירו והוא שומע, וכי יש לך אלוה קרוב משה שהוא קרוב לבריותיו מפה לאזן ע"כ.
Nota — a analogia do "césar". A resposta mais ousada de R. Simlai é a do "basilios, kesar, augustos": três títulos de um só imperador. Ela explica por que a Torá pode acumular nomes divinos (El, Elohim, Hashem) sem com isso falar de três deuses — são nomes que apontam, todos, para o Um. É exatamente o mesmo princípio que a Cabalá aplica às sefirot: nomes e faces de uma só Realidade, não poderes separados. Note-se a beleza do fecho: depois de provar a unicidade, R. Simlai não termina na transcendência fria, mas na proximidade — D'us infinitamente alto e, ao mesmo tempo, mais próximo que a boca do ouvido. Unidade e intimidade, juntas: é o coração da fé de Israel, comum a racionalistas e místicos.
A vitória de Moisés sobre os anjos

(74) Veja, verá todo o sábio do povo de Israel que ama a D'us, bendito seja, e crê na Sua Torá, dada a nós como herança, escrita e oral — quanto se esforçaram os Sábios, mestres da Mishná e do Talmud, para explicar os versículos que falam da divindade em linguagem plural: que, além de a resposta ao obstinado estar ao seu lado — a saber que Ele, bendito seja, é Um, distinto de todos os demais "uns" —, ainda nos deram a conhecer os Sábios que o Seu assunto indica todo tipo de proximidade, ainda que Ele habite nas alturas dos céus, distantes em extremo; e assim Ele é santo em todo tipo de santidades. Não como a opinião do autor do Zohar, que disse "'façamos' certamente sobre dois Abba e Imma foi dito", e conta ali que Imma disse a Abba "façamos o homem" etc., e que, quando pecou o primeiro homem, Imma foi expulsa com ele e se separou de Abba — e eis que, então, não é um! O Misericordioso nos livre de uma fé de heresia como esta e das suas semelhantes. É a isto que o profeta repreende Israel: "pois conforme o número das tuas cidades foram os teus deuses, ó Israel" — que se consideraram como divindade vários graus e formas diversas, que se encadeiam um do outro, filhos e filhas, e também netos, donos de mulheres e concubinas; e serviram às causas que já foram tornadas abomináveis e corporificadas — e não puseram ao seu coração o dito dos Sábios em Shabat, capítulo "Amar R. Akiva", como lá se lê: disse R. Yehoshua b. Levi: “quando subiu Moisés ao alto, disseram os anjos do serviço diante do Santo, bendito: "Senhor do mundo, que faz um nascido de mulher entre nós?"... ainda: "que está escrito nela na Torá? 'honra o teu pai e a tua mãe' — porventura tendes vós pai e mãe?"”. Eis que claramente Moisés, nosso mestre, venceu os anjos também com este argumento, que se admira sobre eles: "e porventura tendes vós pai e mãe?" — pois todos eles são Seus servos, que fazem a Sua vontade, e não nascem de pai e mãe.

עד) ראה יראה כל משכיל מעם ישראל האוהב את השי"ת ומאמין בתורתו הנתונה לנו מורשה בכתב ובעל פה כמה טרחו רז"ל בעלי המשנה והתלמוד לבאר הכתובים המדברים באלהות בלשון רבים, שמלבד שתשובת המתעקש בצדו שהוא ית' אחד מיוחד מכל שאר האחדים, אלא שהודיענו רז"ל שעניננו שמורה על כל מיני קריבות אע"פ שהוא שוכן בגבהי מרומים הרחוקים עד מאוד, וכן הוא קדוש בכל מיני קדושות, לא כדעת מחבר הזהר שאמר נעשה ודאי על תרין אתמר, ומספר שם שאימא אמרה לאבא נעשה אדם וכו', וכשחטא אדם הראשון נתגרשה עמו ונפרדה מאבא והרי אינו חד! רחמנא ליצלן מאמונת מינות כזאת וכיוצא בה, הוא שהנביא מוכיח את ישראל כי מספר עריך היו אלהיך ישראל שנחשבו כאלהות כמה מדרגות וצורות שונים המשתלשלים זה משה בנים ובנות, גם בני בנים בעלי נשים ופילגשים, ויעבדו את הסבות שכבר נתעבו והוגשמו, ולא שתו אל לבם מאמר רז"ל בשבת פרק אמר ר' עקיבה כדגרסינן התם אמר ר' יהושע ב"ל, כשעלה משה למרום אמרו מלאכי השרת לפני הקב"ה רבונו של"ע מה לילוד אשה בינינו וכו' שוב מה כתיב בה כבד את אביך ואת אמך אב ואם יש לכם? הרי בהדיא שמשה רבינו נצח את המלאכים גם בטענה זו שמתמיה עליהם וכי יש לכם אב ואם? כי כולם משרתיו עושי רצונו ואין נולדים מאב ואם. והנה מזה תדין קך וחומר, ומה אם המלאכים אין להם אב ואם, כל שכן וקל וחומר להעלות על לב ולחשוב באלוהינו ית' אב ואם, ובן ובת כמו שחשב המסית נביא השקר מחבר הזהר שכיון להסיתנו ולחדש לנו אמונה הדומה בתארה לאמונת העכו"ם ולזלזל באמונת האחדות המפורשת בתורה בנביאים ובכתובים ובדברי רז"ל כמו שנתבאר לעיל.
Nota — o argumento de Moisés, e a leitura cabalística de "façamos". O ponto positivo de Qafih é forte e belo: se nem os anjos têm "pai e mãe", quanto mais absurdo seria atribuir a D'us família, geração, masculino e feminino. Aqui ele fala por toda a tradição. A controvérsia está apenas na premissa de que o Zohar afirmaria isso literalmente. A Cabalá responde: Abba e Imma não são dois deuses que "geram", mas nomes simbólicos de dois aspectos do fluxo criador do único Ein Sof — a sabedoria que concebe (Chochmá) e o entendimento que desenvolve (Biná). A linguagem de "pai e mãe" é mashal, como toda a linguagem humana sobre o divino; lê-la ao pé da letra (como faz a objeção) é justamente o que a Cabalá proíbe. O "façamos" continua, para os cabalistas, palavra de um só D'us. Apresentamos a objeção de Qafih e a réplica lado a lado; a unicidade que ambos defendem é a mesma.
“Com isto subimos, e com isto descemos”

Com isto subimos, e com isto descemos conclusão: visto que o incitador, autor do Zohar, vem para nos incitar e nos desviar de sobre o Senhor nosso D'us, e atingiu a honra do nosso Pai, nosso Rei, e os fundamentos da nossa santa Torá e as suas raízes puras na unidade de D'us, bendito seja, que é a Causa Primeira; e veio para nos fundar uma religião e uma Torá nova, a crer em muitas causas que se encadeiam uma da outra, e cada uma se chama pelo nome do Tetragrama, e "Senhorio", e "Elohim", e "o Santo, bendito", e a atribuir a oração, e a adoração, e os sacrifícios que Israel oferece no tempo em que a Casa do Templo subsiste ao "criado, curto de ira" (Zeʼir Anpin), que seria a última causa dentre os partzufim de Atzilut — ainda que ele tenha dito que se lhe revelou o "Ancião santo", ou Eliáhu e o Raʼaya Mehemna e semelhantes, não lhe creremos, pois há falsidade na sua boca; pois assim recebemos dos Sábios: que nenhum profeta tem licença de inovar coisa alguma de agora em diante; e, ainda que uma voz celeste proclame dos céus, a dizer "escutai-o", não lhe escutaremos para desviar do caminho que o Senhor nosso D'us nos ordenou, nem para desdenhar de qualquer princípio dos princípios da nossa Torá — e tanto mais este, que desarraiga quatro princípios dos fundamentos da santa Torá, que os enumerou o Rambam, de abençoada memória, no comentário à Mishná, como se explicou acima.

בהא סלקינן ובהא נחתינן. כיון שהמסית מחבר הזהר בא להסתינו ולהדיחנו מעל ה' אלוהינו. ופגע בכבוד אבינו מלכינו וביסודי תורתינו הקדושה ושרשיה הטהורים ביחוד השי"ת שהוא הסבה הראשונה. ובא ליסד לנו דת ותורה חדשה להאמין בסבות רבות שהם משתלשלות זו מזו. וכל אחת נקראת בשם הוי'ה ואדנות ואלהים והקב"ה ויחס התפלה והעבודה והקרבנות שמקריבין ישראל בזמן שבית המקדש קיים לנברא קצא אפים (זעיר אנפין) והוא הסבה האחרונה שבפרצופי האצילות. אע"פ שאמר שנגלה לו עתיקא קדישא או אליהו ור"מ וכיוצא לא נאמין לו, כי שקר בפיו. שכן קבלנו מרז"ל שאין נביא רשאי לחדש דבר מעתה. ואף אם בת קול תכריז מן השמים לאמר שמעו אליו, לא נשמע לו לסור מן הדרך אשר צוה ה' אלהינו לזלזל בשופ עיקר מעיקרי תורתינו. כל שכן זה שהוא עוקר ארבעה עיקרים מיסודי תוה"ק שמנאם הרמב"ם ז"ל בפירוש המשנה, כמו שנתבאר לעיל.
“Eu sou o Senhor teu D'us”

E escreveu no livro Shvilei Emuná, no início da primeira vereda, e eis as suas palavras: “"o caminho da fé escolhi, os Teus juízos pus diante de mim" etc.; e escreveram os sábios da investigação: não pode servir à Causa de todas as causas senão o profeta da geração, pela sua natureza, ou o sábio insigne, naquilo que adquiriu da sabedoria. E quando o homem alcançar isto, então chegará a receber a boa recompensa, e se cumprirá nele o intento da criação, conforme se disse "todo o que é chamado pelo Meu nome, e para a Minha glória o criei". E, segundo este princípio, se disse no início dos Dez Mandamentos "Eu sou o Senhor teu D'us" — quer dizer: crê no teu coração a verdade da Minha existência, e depois disto poderás receber o jugo do Meu reino; pois não é cabível a aceitação do jugo do Meu reino senão depois da crença na Sua existência. E disse "o Senhor teu D'us" — quer dizer: Ser eterno kadmón, e d'Ele foi tudo, por Sua vontade e Seu poder; e Ele é D'us para eles os homens, que estão obrigados a servi-Lo. E disse "que te tirei da terra do Egito" — pois o Seu ato de tirar-nos de lá indica a Sua existência e a Sua vontade; pois por Seu conhecimento e por Sua providência, d'Ele, bendito seja, saíram; e também indica a inovação do mundo, a criação, pois, se o mundo fosse eterno, não se mudaria coisa alguma da sua natureza; e indica o Seu poder; e indica a Sua unidade — como se disse "para que saibas que não há como Eu em toda a terra".

וכתב בספר שבילי אמונה תחלת הנתיב הראשון וז"ל דרך אמונה בחרתי משפטיך שויתי וכו' וכתבו חכמי המחקר, לא יוכל לעבוד עלת כל העילות אלא נביא הדור בטבעו או החכם המובהק במה שקנה מן החכמה. וכאשר ישיג האדם לזה, אזי יגיע לקבל שכר הטוב ויתקיים בו כוונת הבריאה כאמרו כל הנקרא בשמי ולכבודי בראתיו. ולפי עיקר זה, נאמר בראשית עשרת הדברות אנכי ה' אלהיך כלומר האמן בלבך אמתת מציאותי. ואח"כ תוכל לקבל עול מלכותי. לפי שאין קבלת עול מלכות ראויה. רק אחר אמונת מציאותו. ואמר ה' אלהיך כלומר הוה קדמון. ומאתו היה הכל בחפץ ויכולת. והוא אלהים להם, שחייבים לעבוד אותו. ואמר אשר הוציאתיך מארץ מצרים, כי הוצאתו אותנו משם. מורה על המציאות והחפץ. כי בידיעה ובהשגחה ממנו ית' יצאו. וגם תורה על החדוש. כי אם העולם קדמון לא ישתנה דבר מטבעו. ותורה על היכולת, ותורה על היחוד. כמו שאמר בעבור תדע כי אין כמוני בכל הארץ ומצוה זו לא נאמרה בדברות על דרך הצווי, לפי שאין ראוי לצוות אלא אחד שידע השמוע מי הוא המצווה ויאמין בלבו שהוא נמצא על ענין כך. ולפיכך אמר בדבור זה אנכי ה' אלהיך, ולא אמר על צד הצווי אלא על צד ההאנמה.
“Não terás outros deuses”

E este mandamento não foi dito nos Dez Mandamentos por via de ordem, pois não é cabível ordenar senão a um que saiba e ouça quem é o que ordena, e creia no seu coração que ele o que ordena existe e é de tal maneira; e por isso se disse neste dito "Eu sou o Senhor teu D'us", e não se disse por via de ordem, senão por via de afirmação da fé. E depois que nos deu a conhecer a verdade da Sua existência e os caminhos da Sua condução do mundo, então começou a ordenar-nos e a dar-nos a conhecer que não há coisa, fora d'Ele, digna de adoração — visto que todos os existentes, fora d'Ele, saíram à existência pela Sua palavra; e não é cabível incluir com Ele, na aceitação do jugo do Seu reino, nenhum dos servos, para não igualar a honra do Criador, bendito seja, à honra dos criados. Por isso ligou este mandamento à verdade da Sua existência, pois a crença n'a adoração de outro fora d'Ele nega a Sua existência; e por causa disto começou a ordenar e a dar a conhecer que não é cabível adorar a outro fora d'Ele; e por isso mencionou e disse "não terás outros deuses diante de Mim". E não te suba à mente e ao pensamento, daquilo que disse "não terás outros deuses", que há existência de um outro deus fora d'Ele; pois o que disse "deuses" é segundo o pensamento dos que os servem, como "e os homens correram atrás deles". E disse "outros" — quer dizer: deuses puxados atrás de outros, que não têm poder por si mesmos, pois a sua subsistência está pendente de outra coisa fora deles; e quem não tem poder subsistente por si mesmo, senão de outro, não é digno de ser adorado, nem de se jurar pelo seu nome. Mas a adoração cabível é ao Único, que carrega e sustenta todas as criaturas que se puxam uma após a outra, e até Ele, bendito seja, chega o seu fim a sua finalidade; e Ele não tem quem O carregue nem quem O sustenha — bendito seja o Seu nome e exaltada seja a Sua memória” (fim).

ואחר שהודיענו אמתת מציאותו ודרכי הנהגתו לעולם, אזי התחיל לצוות אותנו ולהודיע לנו שאין דבר זולתו ראוי לעבודה. לפי שכל הנמצאים זולתו נצאו במאמרו, ואין ראוי לכלול עמו ובקבלת עול מלכותו אחד מכל העבדים. שלא להשוות כבוד הבורא יתברך לכבוד הנבראים. לפיכך סמך מצוה זו לאמתת מציאותו. לפי שאמונת עבודת זולתו מכחשת מציאותו ועל דבר זה התחיל לצוות ולהודיע שאין ראוי לעבוד לזולתו. ולכן הזכיר ואמר לא יהיה לך אלהים אחרים על פני. ועל יעלה בדעתך ומחשבתך ממה שאמר לא יהיה לך אלהים אחרים שיש מציאות אלוה אחר זולתו. כי מה שאמר אלהים הוא לפי מחשבת עובדיהם. כמו והאנשים רדפו אחריהם. ואמר אחרים, כלומר אלהים נמשכים אחר אחרים, שאין להם כח לעצמן, שקיומן תלוי בדבר אחר זולתן. ומי שאין לו כח קיים מעצמו אלא מזולתו אין ראוי להיעבד. ולא להשבע בשמו. אבל העובדה הראויה היא ליחיד אשר הוא נושא ומקיים כל הבריות הנמשכים זה אחר זה, ועדיו ית' יגיע תכליתן והוא אין לו נושא ואין מקיים ית' שמו ויתעלה זכרו עכ"ל.
Nota — a beleza do "Anochi". Qafih fecha o capítulo não com polêmica, mas com uma das mais belas exposições medievais do primeiro Mandamento, colhida do Shvilei Emuná de R. Meir Aldabi (séc. XIV). A ideia é profunda: "Eu sou o Senhor teu D'us" não é uma ordem — é uma afirmação, o fundamento de tudo. Não se pode ordenar a quem ainda não sabe quem ordena; por isso, antes de qualquer mandamento, vem o reconhecimento da existência de D'us. E "não terás outros deuses" não admite que exista, de fato, um segundo deus — os "outros" são chamados "deuses" apenas no pensamento de quem os serve; carecem de poder próprio, pois dependem de outro. Só o Um, que a tudo sustenta e de nada depende, é digno de adoração. Este é o solo sobre o qual todo o judaísmo se ergue — e o ponto em que a obra de Qafih, deixadas de lado as suas teses contestadas, fala pela voz de todo o Israel.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O diálogo de R. Simlai

O coração do capítulo é uma joia do Talmud de Jerusalém (Berachot 9; Bereshit Rabá 8). Aos minim que apontam os plurais da Torá ("façamos o homem"), R. Simlai mostra, versículo após versículo, que o verbo da ação está sempre no singular: D'us é Um. A cada vez, "a resposta está ao lado da pergunta". E o ponto culminante não é a transcendência, mas a proximidade: D'us, infinitamente alto, ouve o sussurro de Chana atrás da coluna — "próximo como da boca ao ouvido".

O plural que não divide

A analogia do "basilios, kesar, augustos" — três títulos de um só soberano — resolve o enigma: a Torá pode acumular nomes divinos sem falar de muitos deuses. Vale notar que é exatamente o princípio que a Cabalá aplica às sefirot: nomes e faces de uma só Realidade.

A objeção, e o seu pressuposto

Qafih relê o midrash contra a interpretação que atribui ao Zohar ("'façamos' foi dito a dois").

"Eu sou o Senhor teu D'us"

O fecho, colhido do Shvilei Emuná, é puro alicerce: o primeiro Mandamento é uma afirmação, não uma ordem — antes de tudo, reconhecer que D'us é. E "outros deuses" não nomeia rivais reais, mas o que só existe no pensamento de quem os serve. Só o Um, que tudo sustenta e de nada depende, merece adoração. Aqui Qafih fala pela voz de todo o Israel.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXX

“Não há mais nada além d'Ele”

אֵין עוֹד מִלְּבַדּוֹ
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih aprofunda a afirmação central: os "outros deuses" não são deuses — não têm existência real, apenas no pensamento de quem os serve. E culmina no mais íntimo: D'us não tem corpo nem forma, e conhecê-Lo é a vereda pela qual a alma rompe a "parede" da ignorância e se aproxima do seu Criador, até nele se apegar.

“Deuses que atrasam os seus servos”

(75) E estas suas palavras, que escreveu que "se chamam 'outros deuses' porque não têm subsistência por si mesmos, senão por meio de outros", brotam de uma fonte fiel — o Midrash Rabá e o Yalkut, parashá Vayetzê, e a parashá Mikketz, e o Midrash haGadol em "Vayhi Mikketz". E eis as palavras do Midrash Rabá, segundo os comentários Yefé To'ar e Etz Yossef: disse R. Yochanan: “os ímpios se sustentam sobre os seus deuses — "e Faraó sonhava, e eis que estava de pé sobre o rio"; mas os justos, o seu D'us se sustenta sobre eles — "e eis que o Senhor estava firmado sobre ele"” (explicação: o "estar firmado" é a providência, para o salvar de todo dano e golpe; e é isto o que disse R. Yochanan: os ímpios precisam estar de pé sobre os seus deuses e precisam guardá-los, mas os justos, o seu D'us está firmado sobre eles para os guardar e salvar; e "firmado" quer dizer "provê"). E no Midrash haGadol se lê, no lugar de "se sustentam", "estão de pé". E no Yalkut, parashá Yitró: “"outros deuses" — e porventura são divindades? Eis que já se disse "e lançaram os seus deuses ao fogo, pois não eram deuses". E que vem ensinar o versículo ao dizer "outros deuses"? Que eles atrasam me'acharim os seus servos da salvação; e assim se diz: "eis que clama a ele, e não responde, e da sua angústia não o salva". Outra interpretação: "outros deuses" — que eles fazem os seus servos de "outros". R. Yossi diz: "outros deuses" — por que se disse? Para não dar abertura de boca às nações do mundo, a dizer "se fossem chamados pelo Seu nome, já teria havido neles utilidade"; eis que foram chamados pelo Seu nome, e não há neles utilidade. Quando foram chamados pelo Seu nome? Nos dias de Enós, filho de Set, conforme está dito "então se começou a chamar pelo nome do Senhor"...”.

עה) ודבריו אלה שכתב שנקראו אלהים אחרים לפי שאין להם קיום מעצמן רק על ידי אחרים, נובעים ממקור נאמן מדרש רבה והילקוט פרשת ויצא ופ' מקף מדרש הגדול בויהי מקץ, וז"ל מדרש רבה עפ פי' יפה תואר ועץ יוסף, אמר ר"י הרשעים מתקיימין על אלהיהם, ופרעה חלם והנה עומד על היאור, אבל הצדיקים אלהיהם מתקיים עליהם והנה ה' נצב עליו, (פי' ההתיצבות היא ההשגחה להצילו מכל נזק ופגע וזהו שאמר ר"י הרשעים צריכים לעמוד על אלהיהם ולשמרם. אבל הצדיקים אלהיהם נצב עליהם לשמרם ולהצילם ופי' נצב משגיח ע"כ) ובמדרש הגדול גורס במקום מתקיימין עומדים. ובילקוט פר' יתרו. אלהים אחרים. וכי אלהות הן והלא כבר נאמר ונתן אלהיהם באש כי לא אלהים המה. ומה תלמוד לומר אלהים אחרים. שהם מאחרים לעובדיהם ובן הוא אומר הן יצעק אליו ולא יענה ומצרתו לא יושיעו, ד"א אלהים אחרים שהם עושים את עובדיהן אחרים. ר' יוסי אומר אלהים אחרים למה נאמר שלא ליתן פתחון פה לאומות העולם לומר אלו נקראו בשמו כבר היה בהם צורך הרי נקראו בשמו ואין בהם צורך. אימתי נקראו בשמו, בימי אנוש בן שת שנ' אז הוחל לקרא בשם ה'. באותה שעה אמר הקב"ה אתם עשיתם מעשה חדש וקראתם אותם אלוהות, אני אעשה מעשה חדש ואקרא עצמי ה', באותה שעה קלה עלה אוקיינוס והציף שלישו של עולם וכן הוא אומר הקורא למי הים וישפכם על פני הארץ ה' שמו, ר' אלעזר המודעי אומר אלהים אחרים שהם מחדשים להם אלוהות בכל יום, הא כיצד היה לו של זהב והנצרך לו עושהו של כסף. נצרך לו עושהו של נחשת, וכן ברזל, וכן בדיל ועופרת, שני חדשים מקרוב באו וכו' ע"ש.
Nota — "outros deuses" que não são deuses. O fio condutor é uma das ideias mais fortes do monoteísmo bíblico, lida pelos midrashim: a Torá chama os ídolos "deuses" apenas do ponto de vista de quem os serve — em si, "não são deuses". Os belos jogos de palavras hebraicos dizem tudo: acherim ("outros") soa como me'acharim ("atrasam") — deuses que atrasam e abandonam quem neles confia. O contraste com o D'us de Israel é total: o ídolo precisa que o carreguem; o D'us vivo carrega e guarda os Seus. Esta é a base sobre a qual Qafih construirá, em seguida, toda a sua argumentação — e é terreno comum a todo o judaísmo.
O erro que vem do dualismo

... “naquela hora disse o Santo, bendito: vós fizestes um feito novo e os chamastes "divindades"; Eu farei um feito novo e chamarei a Mim mesmo "o Senhor" — naquela mesma hora subiu o oceano e inundou um terço do mundo” etc.; “R. Elazar haModa'i diz: "outros deuses" — que se renovam para eles novas divindades a cada dia” etc. E eis que, de tudo isto, entenderás o equívoco dos nossos mestres, os mestres da "cabalá nova", que creram nas palavras do incitador, autor do Zohar, na existência de "outros deuses", donos de dez sefirot e cinco partzufim da klipá a "casca", em oposição às dez sefirot e aos partzufim da santidade; e disseram "um diante do outro fez D'us" — também os "palácios da impureza" em oposição aos "palácios da santidade", em cada partzuf seu (Mishnat Chassidim, tratado dos "Palácios da Klipá"; e o livro Machberet haKodesh). E eles entendem que, assim como junto a D'us há "criou, formou e fez" divindades santas, assim haveria junto d'Ele um "criou, formou e fez" outros deuses; e que, assim como na santidade há Adam Kadmon, e Atik, e Arich, e Abba e Imma, e Zeʼir e a sua Nukva da santidade — assim, à esquerda, haveria "Adão Belial", o "outro lado" impuro, "este diante daquele". E, se aprofundares a investigação, entenderás e te esclarecerás de que esta opinião veio e se estendeu a eles a partir da fé dos dualistas, que entendem que há no mundo dois agentes — um agente do bem, e um agente do mal —, como escreveram os primeiros mestres para rejeitá-la com ambas as mãos; e os "cabalistas novos" pegaram-na e a retrataram com outra face... E na verdade ela é estranha em extremo à fé na unidade de D'us, bendito seja, e "não entrará na congregação do Senhor"; e não é "cabalá" tradição de modo algum, como se escreveu acima a partir das palavras dos Sábios. Pois os "cabalistas novos" afirmam a existência de um deus a mais no mundo, o contrário das palavras dos Sábios; e os versículos provam conforme a opinião dos Sábios, conforme está dito "pois o Senhor, Ele é D'us nos céus em cima e sobre a terra embaixo; não há mais nada além d'Ele"; "Tu és o Senhor, Tu só". E vários versículos proclamam que não há mais nenhum outro deus além do Senhor nosso D'us. E os nossos mestres, ordenadores das orações, instituíram dizer a cada dia "nós sabemos, e testemunhamos, e declaramos, que não há deus além de Ti" etc. — e várias expressões na oração indicam que não há existência de outro deus no mundo, de modo algum, senão apenas segundo o pensamento dos que os inventam. Disse a Torá "pois não te prostrarás a outro deus"; e assim "não terás outros deuses diante de Mim" — tudo segundo o pensamento dos seus servos, que erram e os consideram divindades; não é que D'us, bendito seja, criou dois tipos de divindades, estas santas e estas impuras — Deus nos livre —, pois não há deus além d'Ele.

והנה מכל זה תבין שגגת רבותינו בעלי הקבלה החדשה שהאמינו לדברי המסית מחבר הזהר במציאות אלהים אחרים בעלי עשר ספירות וחמשה פרצופים דקליפה נגד עשר ספירות ופרצופין של קדושה, ואמרו נבראת לעומת זה עשה האלהים, גם היכלות הטומאה עומת היכלות הקדושה, בכל פרצוף שלה (משנת חסידים מסכת היכלות הקליפה וס' מחברת הקדש שער ר"ח ד' ט"ז ע"ב). וסוברים שכמו שאצל וברא ויצר ועשה אלהים קדושים כן אצל וברא ויצר ועשה אלהים אחרים וכמו שיש בקדושה אדם קדמון ועתיק ואריך, ואבא ואימא, וזעיר ונוקביה דקדושה כן בשמאל אדם בליעל סטרא אחרא מסאבא, זה לעומת זה כמו שיראה המעיין בס' חיים למהרח"ו, ומשנת חסידים שער הקליפות. ואם תעמיק חקר תבין ותשכיל שסביא זו באה ונמשה להם מאמונת השונים שסוברים שיש בעולם שני פועלים, אחד פועל הטוב, ואחד פועל הרע. כמו שכתבו הראשונים לדחותה בשתי ידים, והמקובלים הרדשים תפשוה וציירו אותה בפנים אחרים, ונדחקו מאד לכסות את נבלותה, ולהלבישה באמונת תוח"ק. ובאמת זרה היא עד מאד לאמונת יהוד השי"ת, ולא תבוא בקהל ה'. ולאו קבלה היא כלל. כמו שכ' לעיל מדברי רז"ל. כי המקובלים החדשים מאמתים מציאות אל אחד בעולם היפך דברי רז"ל. והכתובים מוכיחים כדעת חכמים ז"ל. שנ' כי הוא האלהים בשמים ממעל ועל הארץ מתחת אין עוד מלבדו. אתה הוא ה' לבדך. וכמה כתובים מכריזים שאין עוד אלוה אחר זולתי ה' אלהינו. ורבותינו מתקני התפלות התקינו לומר בכל יום אנו יודעים ומעידים ומגידים, שאין אלוה זולתך וכו' והרבה לשונות בתפלה מורים שאין מציאות אל אחר בעולם כלל כלל. ורק לפי מחשבת ובדיהן. אמרה כי תורה כי לא תשתחוה לאל אחר. וכן לא יהיה לך אלהים אחרים על פני. הכל לפי מחשבת עובידהן שטועין וחושבים אותם אלוהות. לא שהשי"ת המציא שני מיני אלוהות אלה קדושים ואלה טמאים ח"ו. כי אין אלוה זולתו. וכמה פסורים בתורה ובנביאים ובכתובים מוכיחים כן.
Nota — a sitra achra não é um segundo deus. Este é o cerne da objeção de Qafih, e o ponto em que a tradição mais firmemente o corrige. A Cabalá fala de klipot ("cascas") e da sitra achra ("o outro lado"), e de uma estrutura "este diante daquele" (zeh le'umat zeh, Eclesiastes 7:14). Mas jamais ensinou que isso seja um segundo D'us, um "criador do mal" independente. Para a Cabalá, o mal não tem existência própria: é ausência, ocultamento, sombra do bem — uma realidade derivada e parasitária, destinada a desaparecer. Afirmar dois poderes criadores autônomos é precisamente o dualismo que a Cabalá condena, igual aos rishonim. Qafih lê o vocabulário das klipot como politeísmo; a Cabalá o lê como descrição do mal moral dentro de um mundo absolutamente uno. A afirmação que Qafih ergue — "não há mais nada além d'Ele" — é, para os cabalistas, literalmente verdadeira: o Ein Sof é tudo o que verdadeiramente é.
Samael é um anjo, não um deus

E na Guemará de Makkot, fl. 12, lê-se: disse Resh Lakish: “três erros está por errar, no futuro, o anjo-príncipe de Edom — conforme está dito "quem é este que vem de Edom, de vestes tintas, de Botzrá?": erra pensando que a cidade só acolhe o homicida em Betzer, e Botzrá o exila a Botzrá; erra pensando que ela só acolhe um ser humano, e ele é um anjo; erra pensando que ela só acolhe o homicida inadvertido, e ele agiu deliberadamente” (fim). E explicou Rashi, de abençoada memória: “o anjo-príncipe de Edom é Samael... pois, no início, há de punir o Santo, bendito, a ele, quando chegar o fim de Edom a ser destruída, como está escrito "punirá o Senhor o exército do alto, no alto", e depois "e os reis da terra, na terra"; "de vestes tintas" — do sangue de Samael; e, ainda que os anjos não sejam carne e sangue, escreveu nele a Escritura à maneira da matança de um ser humano, para aquietar o ouvido n'aquilo que ele pode ouvir” (fim). Eis que claramente Samael é um anjo, e não um deus. E há que se perguntar, segundo o método dos "cabalistas novos": visto que cada nação tem um anjo-príncipe encarregado dela — e o príncipe de Israel é Michael, e o do Egito, "Dahav", e o de Edom, Samael etc. —, por que deram os "cabalistas novos" toda esta grandeza à "esquerda", a ponto de ela ser chamada "outro deus", e ter dez sefirot da klipá, e "Adão Belial", e Arich, e Abba e Imma, e Zeʼir e sua consorte da klipá? E disseram que "também este diante daquele fez D'us", os "palácios da impureza" diante dos "palácios da santidade", com todos os seus partzufim — e por que não fizeram assim a todos os demais príncipes de todas as nações? E por que haveria de se subtrair a Michael, o príncipe de Israel, de todas estas elevações? E por que o deixaram sem mulher, e a "esquerda" casaram-na com Lilit e as suas 480 hostes? O resumo das coisas: não achamos na Torá, nem nos Profetas, nem nos Escritos, nem nas palavras dos nossos mestres, a existência de um deus a mais no mundo — nem santos nem impuros — exceto o Senhor nosso D'us, bendito seja; e todos os demais são Seus servos, que fazem a Sua vontade. E só segundo o pensamento dos seus servos falou a Torá — pois eles escolhem para si, cada um, algum de todos os criados que criou o Santo, bendito, no mundo, e se prostram a ele, e o servem, e lhe oferecem sacrifícios, e o consideram um intermediário ou um deus, como está exposto nas palavras do Rambam, de abençoada memória, no capítulo 1 das Leis da Idolatria: há os que escolheram o sol, e há os que escolheram a lua, ou uma das estrelas, ou as constelações, ou o fogo, ou as águas, para servi-los e se prostrar a eles. E sobre todos eles nos advertiu D'us, bendito seja, e disse "não terás outros deuses", "não te prostrarás a outro deus" — não porque haja existência de outro deus no mundo, além do Senhor nosso D'us. E porque, na verdade, não são divindades — como diz o dito dos Sábios —, por isso traduziu Rav Saadia Gaon "outros deuses" por "objeto de adoração outro" ma'abud acher, e não traduziu "deus outro" ilah acher; e assim traduziu "quem sacrifica aos deuses yechoram" vertendo "deuses" no sentido de "ídolos a serem destruídos", pois na verdade não são divindades.

ובגמרא מכות דף י"כ גרסינן אמר ר"ל שלש טעויות עתיד לטעות שרה של אדםו שנ' מי זה בא מאדום חמוץ בגדים מבצרה טועה שאינה קולטת אלא בצר והוא גולה לבצרה טועה שאינה קולטת אלא אדם והוא מלאך, טועה שאינה קולטת אלא שוגג והוא מזיד, ע"כ ופי' רש"י ז"ל שרה של אדום סמאל שיברה לבצרה, שבתחלה יפרע הקב"ה ממנו כשיגיע קץ אדום ליחרב כדכתיב יפקוד ה' על צבא המרום במרום, ואחר כך ועל מלכי האדמה באדמה, חמוץ בגדים מדמו של סמאל, ואע"פ שאין המלאכים בשר ודם, כתב בו הכתוב בעין הריגת אדם לשבר את האוזן מה שהיא יכולה לשמוע עכ"ל הרי בהדיא שסמא"ל מלאך ולא אלוה, ויש לשאול לפי שיטת המקובלים החדשים, כיון שיש לכל אומה שר הממונה עליה, ושר של ישראל מיכאל, ושל מצרים דהב, ושל אדום סמאל וכו'. למה נתנו המקובלים החדשים כל זו הגדולה לשמאל להקרא בשם אל אחר, ולהיות לו עשר ספירות דקליפה, ואדם בליעל ואריך ואבא ואמא וזעיר ונבה דקליפה. ואמרו שגם זה לעומת זה עשה האלהים, היכלות הטומאה נגד היכלות הקדושה, עם כל הפרצופים שלה, ולמה לא עשו כן לשאר כל השרים של כל האומות? ולמה יגרע מיכאל השר של ישראל מכל אלו המעלות? ולמה הניחוהו בלא אשה, ושמאל השיאוהו בלילית עם ת"פ מחנותיה? כלל הדברים לא מציונ בתורה ולא בנביאים ולא בכתובים ולא בדברי רבותינו ז"ל מציאות אל אחד בעולם, לא קדושים ולא טמאים זולתי ה' אלהינו ב"ה. והכל משרתיו עושי רצונו. ורק לפי מחשבת עובדיהן דברה תורה, שהם בוחרים להם כל אחד מכל הנבראים שהמציא הקב"ה בעולם ומשתחוים לו ועובדים ומקריבים לו קרבנות, וחושבין אותו לאמצעי או לאלוה. כמבואר בדברי הרמב"ם ז"ל בפ"א מלה' ע"ז. יש שבחרו בשמש ויש שבחרו בירח או באחד הכוכבים או המזלות או לאש או למים לעבדם ולהשתחוות להם. ועל כולם הזהירנו השי"ת ואמר לא יהיה לך אלהים אחרים, לא תשתחוה לאל אחר, לא שיש מציאות אל אחר בעולם מבלעדי ה' אלהינו. ולפי שבאמת אינן אלוהות כמאמר רז"ל, לכן תרגם רבי' סעדיה אלהים אחרים מעבוד אלר, ולא תרגם אלאה אלר. וכן תרגם זבח לאלהים יחרם ומן דבח לאלמעודעת פאלי'קתל לפי שבאמת אינן אלוהות.
Nota — a tradução de Saadia Gaon. Eis um toque de grande finura filológica, e o coração racionalista do capítulo. Ao traduzir a Torá para o árabe, Rav Saadia Gaon (séc. X) — pai do racionalismo judaico — recusou-se a verter "outros deuses" por "ilah acher" (um deus outro), preferindo "ma'abud acher" (um objeto de adoração outro). A diferença é teológica: a Torá não reconhece a existência de um segundo deus, nem para o negar — fala apenas daquilo que os homens tomam por deus. É a mesma precisão que Qafih reivindica. Quanto a Samael como "príncipe de Edom" (Makkot 12a), a tradição inteira — inclusive a cabalística — concorda que se trata de um anjo, uma criatura a serviço de D'us, jamais um poder divino. A divergência de Qafih com a Cabalá é sobre o vocabulário das klipot, não sobre este princípio, que ambos partilham.
D'us é Um, não divisível

(76) E ainda alongou-se o autor do Shvilei Emuná, na vereda referida acima, para provar com provas a tradição da santa Torá de que o Senhor, bendito seja, é um e distinto de todos os demais "uns"; e de que, em todos os demais "uns", não há um "um" verdadeiro senão Ele, bendito seja; e de que Ele não se divide em várias partes que, ao se unirem juntas, se chamariam "um". E isto, não conforme a opinião do autor do Zohar e dos cabalistas que nele creem, que entendem que é o conjunto dos partzufim, justamente, que é "um" — e, ainda que digam que o Ein Sof é uma unidade una, eis que contradizem as suas próprias palavras, pois dizem que Ele se divide, e se estende, e se reveste em vários partzufim; e disseram também que o Ein Sof, na esfera da criação Beriá, não é um como na esfera da emanação Atzilut.

עו) ועוד האריך בעל שבילי אמונה בנתיב הנז' לעיל להוכיח בראיות את קבלת תוה"ק שהשם יתברך הוא אחד ומיוחד מכל שאר האחרים ושאין בכל שאר האחדים אחד אמתי אלא הוא ית' ושאינו נחלק לכמה חלקים אשר בהתחברם יחד נקראים אחד. וזה שלא כדעת מחבר הזהר והמקובלים המאמינים בו שסוברים שכלל הפרצופים דוקא הם אחד, ואף על פי שהם אומרים שהאין סוף הוא אחדות אחת, הרי הם סותרים דברי עצמן, שהם אומרים שהוא מתחלק ומתפשט ומתלבש בכמה פרצופים, וגם אמרו שהאין סוף בבריאה אינו אחד כמו באצילות.
O mais difícil: unir o criado ao Criador

E é muito mais difícil que isto o fato de que eles incluem e associam, na Sua unidade, os cinco partzufim que eles próprios dizem que são criados — como está explícito no Zohar, parashá Nasso, sobre Zeʼir Anpin, onde interpretou sobre o versículo "Senhor, a Tua obra, no meio dos anos faze-a viver" que o "Senhor" mencionado no versículo fala do "Atik Yomin", e diz a ele: "Senhor" — que és Tu, o Atik Yomin —, "a Tua obra" — que é Zeʼir Anpin — "no meio dos anos faze-a viver" etc.; e assim está exposto claramente no livro Yosher Levav, que disse "e serve-O, a Zeʼir Anpin, ainda que ele seja criado — pois é à sua alma que tu serves", como se explicou acima, no fim do parágrafo 48. Ainda alongou-se o autor do Shvilei Emuná para provar que Ele, bendito seja, é a Causa de todas as causas e a Origem de todas as origens, e que não há coisa alguma, dentre todos os emanados e criados, anterior a Ele, e não há princípio ao Seu princípio (não conforme a opinião dos cabalistas, que disseram que "o Santo, bendito, chamado pelo nome do Tetragrama" é o Zeʼir Anpin, e que ele é, segundo as suas palavras, "o Senhor nosso D'us"); e de que Ele não é corpo, nem força num corpo, e de que todas as matérias com que se narra e se descreve o Criador, bendito seja, não são senão tomadas de empréstimo — e sobre isto, e o semelhante a isto, disseram os Sábios "a Torá falou na linguagem dos homens". E assim se diz a respeito de todo assunto semelhante a este que há no livro da Torá — como a recompensa do mundo vindouro e os seus castigos —, pois a Torá foi breve na sua explicação, porque se apoiou, neles, sobre o intelecto, e os insinuou por meio de insinuações, para que se despertasse sobre eles aquele que pode investigá-los e estudá-los e entendê-los, como se disse "e os que buscam o Senhor entendem tudo".

ויותר קשה מאד מזה שהם כללים ומשתים ביחודו את החמשה פרצופים שהם אומרים שהם נבראים, כמו שמפורש בזהר פרשת נשא על זעיר אנפין, ששם דרש על פסוק ה' פעלך בקרב שנים חייהו, שה' הנז' בפסוק הוא מדבר בעתיק יומין, ואומר לו ה' שהוא עתיק יומין, פעלך שהוא זעיר אנפין בקרב שנים חייהו וכו', וכן מבואר בהדיא בספר יושר לבב שאמר ועבדהו לזעיר אנפין אע"פ שהוא נברא, כי לנשמתו אתה עובד כמו שנתבאר לעיל סוף סי' מ"ח. עוד האריך בעל שבילי אמונה להוכיח שהוא יתברך עילת כל העילות וסבת כל הסבות, ואין שום דבר מכל הנאצלים והנבראים קודם לו, ואין ראשית לראשיתו (שלא כדעת המקובלים שאמרו הקב"ה הנקרא בשם הוי"ה הוא הזעיר אנפין והוא לפי דבריהם ה' אלהינו) ושאינ וגוף, ולא כח בגוף וכל הענינים אשר יסופר ויתואר בהם הבורא ית' אינם אלא מושאלים ועל זה וכיוצא בו אמרו רז"ל דברה תורה כלשון בני אדם. וכן נאמר בכל ענין הדומה לזה שיש בספר התורה, כמו גמול העוה"ב ועונשיו, כי התורה קצרה בביאורו מפני שסמכה בהם על השכל ורמזה עליהם ברמזים להתעורר עליהם מי שיוכל לחקור ולדרוש אותם ולהבינם כמו שנאמר ומבקשי ה' יבינו כל.
Nota — o ponto técnico, e a resposta cabalística. A objeção mais aguda de Qafih é filosófica: se os partzufim são "criados" (como dizem alguns textos), incluí-los na unidade de D'us seria misturar Criador e criatura — e dirigir-lhes a oração seria servir a um ser criado. A Cabalá responde com uma distinção essencial: o Ein Sof (o Infinito em Si) é absolutamente incriado, anterior a tudo, sem princípio — exatamente como Qafih e o Shvilei Emuná afirmam. As sefirot e os partzufim são os "instrumentos" ou "vasos" pelos quais o Ein Sof age, e a oração se dirige sempre ao Ein Sof que neles se reveste, não aos vasos em si. A controvérsia, mais uma vez, é sobre como ler uma linguagem técnica — e note-se quanto Qafih e a tradição concordam: D'us é incorpóreo, Causa Primeira, sem princípio, e "a Torá falou na linguagem dos homens".
Romper a parede: o apego ao Criador

E, para que não erre o simplório, tolo na sua tolice e na sua simploriedade e na escassez do seu entendimento, e pense que D'us, bendito seja, seja conforme o que se mostra da eloquência do livro da Torá — a saber, que Ele tenha corporeidade —, advertiu-nos na Torá a que nos guardemos muito de pensar que o Criador, bendito seja, tenha forma ou semelhança; e é isto o que Ele disse "e guardareis muito as vossas almas, pois não vistes figura alguma". E os profetas nos advertiram a que nos abstenhamos de O comparar com o intelecto e de O assemelhar com algum pensamento, como está dito "e a quem comparareis D'us, e que semelhança lhe acomodareis?", e como está escrito "e a quem Me comparareis, para que eu lhe seja igual?". E tudo isto precisa saber o dono da nossa fé; e então poderá distinguir entre o Criador e o que não é Ele, e assim estará unificando a D'us, bendito seja, com uma unificação perfeita — pois quem não conhece os caminhos da distinção não pode unificá-Lo, bendito seja, com uma unificação verdadeira. Porém, quando O conhecermos segundo a Sua medida, então a alma se aproximará da verdade do seu Criador, e se aproximará a sua alma de alcançar a verdadeira existência... Pois, quando a pessoa não merece conhecer a verdade do seu Criador, ainda que O esteja unificando no seu coração, eis que é como se houvesse uma parede mechitzá entre ele e o seu Criador, bendito seja; pois isto é coisa que só alcança o simplório ou o pequeno na compreensão, que não conhece os caminhos da fé e o seu assunto, e em quem a sua verdade não está fixada no coração. Mas, todo o tempo em que se começa a investigar para conhecer a Sua verdade, bendito seja, então a parede se vai e se reduz, e a alma se vai e se aproxima do seu Criador, exaltado seja; e se eleva a sua alma e o seu intelecto no deleite de alcançá-Lo, bendito seja. Pois, estando a alma ocupada com coisas intelectuais, então ela é atraída atrás delas, porque ela também é da fonte do intelecto criada; e por isso ela anseia e suspira por se assemelhar ao seu Criador, bendito seja, e não pode separar-se d'Ele, até se achar apegada a Ele. E sobre o semelhante a este assunto disse Ele, bendito seja, "e a Ele te apegarás". E também sobre isto disse a Escritura "próximo está o Senhor de todos os que O invocam" — pois, visto que o Criador, bendito seja, não é corpo nem força num corpo, não é possível que Ele esteja próximo ou distante da alma, exceto distante do lado da parede que a separa, que é a ignorância, quando a alma não tem conhecimento da Sua verdade, bendito seja; e próximo da alma do lado do conhecimento e da apreensão. E por isso todo dono de alma precisa percorrer e buscar o caminho do conhecimento da verdade da existência do Criador, bendito seja, pois ele é o princípio e o grande fundamento da fé. E sobre esta coisa nos ordenou na Torá, e disse "e saberás hoje, e o farás voltar ao teu coração, que o Senhor, Ele é D'us, nos céus em cima e sobre a terra embaixo; não há mais nada"” (fim).

וכדי שלא יטעה הפתי הסכל מסכלותו ופתיותיו ומיעוט הבנתו ויחשוב שהשי"ת הוא על דרך הנראה ממליצת הספר שיש לו גשמות, הזהירנו בתורה שנשמר מאד מלחשוב שיש לבורא ית' צורה ולא דמיון. והוא אמרו ונשמרתם מאד לנפשותיכם כי לא ראיתם כל תמונה. והנביאים הזהירונו להמנע מלדמותו בשכל, ומלהמשילו לרעיון כאמרו ואל מי תדמיון אל, ומה דמות תערכו לו וכתוב ואל מי תדמיוני ואשוה. וכל זה צריך בעל אמונתינו לידע, ואז יוכל להבדיל בין הבורא וזולתו, ויהיה מיחד את השי"ת יחוד גמור כי מי שאינו יודע דרכי ההבדל אינו יכול ליחדו ית' יחוד אמתי. אמנם כאשר ידענו על מתכונתו אז ותקרב לאמתת בוראו ותתקרב נפשו להשגת המציאה. ותתעלה בהשגתה על מה כונתה כשאין אדם זוכה לידע אמתת בוראו אפי' יהיה מיחד אותו בלבו הרי הוא כאלו יש מחיצה בינו ובין בוראו ית'. כי זה הוא דבר אשר יגיע לו הפתי או הקטן. אשר איננו יודע דרכי האמונה ועניינה. ואין אמתתה קבועה בלבו. אבל כל עוד שמתחיל לחקור לידע אמתתו ית'. אזי המחיצה הולכת ומתמעטת. והנפש הולכת ומתקרבת אל בוראה יתעלה. ותתעלה נפשו ושכלו בתענו ג השגתו ית'. כי בהיות הנפש מתעסקת בדברים שכליים אז היא נמשכת אחריהם. לפי שהיא גם כן ממקור השכל נצמאת ולכן היא משתוקקת ונכספה להדמות לבוראה ית' ואינה יכולה להבדל ממנו עד שנמצאת דבוקה בו. ועל כיוצא בענין זה אמר ית' ובו תדבק. וגם על זה אמר הכתוב קרוב ה' לכל קוראיו. כי מאחר שהבורא ית' אינו גוף ולא כח בגוף אי אפשר היותו קרוב או רחוק מן הנפש. אלא רחוק מצד המחיצה המבדלת שהיא הסכלות כשאין לנפש ידיעה באמתתו ית'. וקרוב לנפש מצד הידיעה וההשגה. ולכן כל בעל נפש צריך לתור ולבקש על דרך ידיעת אמיתת מציאות הבורא ית'. כי הוא עיקר ויסוד גדול לאמונה. ועל דבר זה צוה אותנו בתורה ואמר וידעת היום והשבות אל לבבך כי ה' הוא האלהים בשמים ממעל ועל הארץ מתחת אין עוד עכ"ל.
Nota — conhecer a D'us é aproximar-se d'Ele. O fecho do capítulo é uma das páginas mais belas de toda a obra, e nele Qafih fala pela voz de todo o Israel — racionalistas e místicos juntos. A ideia, colhida do Shvilei Emuná, é profunda: como D'us não tem corpo, Ele não está "longe" no espaço; a única "distância" possível é a da ignorância — uma "parede" (mechitzá) feita de não-conhecimento. Conhecer a D'us, estudá-Lo, é o próprio ato de derrubar essa parede e aproximar a alma do seu Criador, "até nele se apegar" (devekut). É notável que esta visão — o conhecimento como caminho do amor e da união com D'us — seja exatamente o que une o racionalismo de Saadia e do Rambam à mística do Zohar: ambos buscam, por veredas diferentes, a mesma aproximação da alma ao seu Criador. Aqui, deixada de lado a polêmica, a obra encontra o seu solo mais luminoso e mais comum.

Sobre esta seção · עִיּוּן

"Outros deuses" que não são deuses

A primeira metade do capítulo é uma cadeia de midrashim (Midrash Rabá, Yalkut, Mechilta) sobre por que a Torá chama os ídolos "deuses" sem que o sejam. Os jogos de palavras hebraicos são luminosos: acherim ("outros") ecoa me'acharim ("atrasam") — falsos deuses que abandonam quem neles confia. O ídolo precisa ser carregado; o D'us vivo carrega e guarda os Seus. E a tradução de Saadia Gaon ("objeto de adoração outro", não "deus outro") sela o ponto: a Torá não admite, sequer para negar, a existência de um segundo deus.

A objeção às klipot, e a réplica

Qafih lê a doutrina cabalística das "dez sefirot e cinco partzufim da klipá" como um segundo panteão, derivado do dualismo antigo.

O ponto técnico

A objeção mais fina é filosófica: incluir partzufim "criados" na unidade de D'us misturaria Criador e criatura. A Cabalá responde com a distinção entre o Ein Sof (incriado, sem princípio) e os "vasos" pelos quais Ele age — a oração sobe sempre ao Infinito que os reveste. Note-se quanto Qafih e a tradição concordam: D'us é incorpóreo, Causa Primeira, e "a Torá falou na linguagem dos homens".

O apego ao Criador

O fecho é a página mais bela: como D'us não tem corpo, a única distância d'Ele é a ignorância — uma "parede" que o conhecimento derruba. Conhecer a D'us é aproximar a alma do seu Criador, "até nele se apegar". Esta visão — o saber como caminho do amor e da união — une o racionalismo de Saadia e do Rambam à mística do Zohar. Deixada de lado a polêmica, a obra encontra aqui o seu solo mais comum e mais luminoso.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXXI

"Doze partzufim em quatro mundos"

שְׁנֵים עָשָׂר פַּרְצוּפִים בְּאַרְבָּעָה עוֹלָמוֹת
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih nomeia a raiz do erro — seguir o "falso profeta" do Zohar, lendo metáforas literalmente — e expõe a cadeia inteira da teologia cabalística: o tsimtsum, os doze partzufim de quatro mundos, a oração distribuída em múltiplos "deuses"; e encerra com o princípio de R. Albo — a maioria dos sábios, não da massa, é que conta.

A raiz do erro — e a impensabilidade da essência divina

(77) A lição que se aprende das palavras do referido mestre: é que o que causa todos esses erros que erraram nossos mestres, os mestres da "cabalá nova", ao crerem em múltiplos deuses, é que creram nas palavras do falso profeta incitador — autor do livro do Zohar. E não puseram no seu coração a advertência de nossa santa Torá, ao dizer "e guardareis muito as vossas almas, pois não vistes figura alguma". Nem prestaram atenção à advertência do profeta, que disse "e a quem comparareis D'us?" e "a quem Me comparareis, para que Me seja igual?". E buscaram cálculos rebuscados em muitos versículos que foram ditos por via de empréstimo metafórico e amplidão da linguagem — por via de eloquência —, para os interpretar segundo o seu sentido primeiro, como "façamos o homem em nossa imagem, segundo a nossa semelhança" e demais expressões similares mencionadas acima —, e não conforme o modo como os explicaram os nossos Sábios, de abençoada memória, e os Geonim sábios. Até que isso os levou a um grande erro: a servir ao ser criado que é o Zeʼir Anpin o "de rosto curto", ou ao "Rei Santo dos Reis dos Santos" para "conhecer a força para D'us" Ez laElohim. E inventaram muitas alusões — e alusões de alusões — sem fundamento: seja pelo número das letras, seja pelas suas permutas e permutações de permutas, pelos seus "completamentos" milluyim e pela desordem e mistura de sua ordem — como a gematria de "por que clamas a Mim" → "Emanação Atzilut / o Eterno Atik", para encontrar uma alusão a que a oração deva ser feita ao Zeʼir Anpin e que se inclua com ele o partzuf Atik Yomin, para associar juntos todos os cinco partzufim com o Atik — como está escrito no siddur Kise Elohav; coisa que a Torá proibiu associar e misturar com o nosso D'us qualquer outra coisa. Como disse Rashbi, de abençoada memória: "todo aquele que associa o Nome do Céu com outra coisa será erradicado do mundo, pois está dito 'somente ao Senhor'". E tudo isso decorreu da escassez de reflexão nas palavras dos nossos Sábios. E também porque o falso profeta, autor do Zohar — que inventou esses conceitos de "filhos de estrangeiros" —, os atribuiu ao Rashbi, o Tanná piedoso, em mentira. E eles, na sua ingenuidade, não cuidaram de verificar depois dele, e acreditaram com fé cega que da boca de Rashbi e dos seus colegas saíram esses ensinamentos ocultos. E já expliquei acima que jamais um Tanná ou Amoraí diria tal coisa.

Ainda escreveu o mestre Shvilei Emuná, acima desse ensinamento: que o Criador, bendito seja, não é dono de qualidade eino ba'al eikut — quer dizer, que a existência de qualidade não é possível senão naquilo que a tem ba'al meuyakh, porque a qualidade é um acidente, e o acidente não tem permanência senão numa substância. Por isso o Criador, bendito seja, não é o suporte da qualidade. Também o dono de qualidade é aquele que tem o atributo em si mesmo — e a Ele, bendito seja, não há atributo etc. Ver no Moreh Nevukhim, capítulo 52 da Primeira Parte.

עז) דבר הלמד מדברי הר' הנז' כי דבר הגורם לכל אלה השגיאות ששגגו רבותינו בעלי הקבלה החדשה להאמין באלהים רבים, הוא כי האמינו לדברי נביא השקר המסית מחבר ספר הזהר. ולא נתנו אל לבם אזהרת תורתינו הקדושה באמרה ונשמרתם מאד לנפשותיכם כי לא ראיתם כל תמונה. ולא לאזהרת הנביא שאמר ואל מי תדמיון אל. ואל מי תדמיוני ואשוה. ובקשו חשבונות רבים בכמה מקראות שנאמרו על דרך ההשאלה והרחבת לשון בדרך המליצה לפרשם על דרך הנחתם הראשונה. כגון בצלמינו כדמותינו ושאר לשונות כנז' לעיל שלא על דרך שפירשו רז"ל והגאונים החכמים. עד שגרם להם שבאו לכלל טעות גדולה לעבוד לנברא שהוא קצר אפים (זעיר אנפין) או מלכא קדישא דכל קדישין לדעת עז לאלהים. והמציאו כמה רמזים ורמזי רמזים שאין להם שחר או במספר האותיות, או בחילופיהן וחילופי חלופיהן ומלואיהן. ושבוש סדריהן ובלבולן. כמו מה תצעק אלי מאצ"ל העתי"ק. כדי למצוא רמז שיתפלל לז"א ויכלול עמו פרצוף עתיק יומין לשתף יחד כל החמשה פרצופין עם העתיק. כמו שכ' כסא אליהו דבר שאסרה תורה לכלול ולשתף עם אלוהינו שום דבר. כמו שאמר רשב"י ע"ה כל המשתף שם שמים ודבר אחר נעקר מן העולם שנ' בלתי לה' לבדו. וכל זה נמשך מחמת מיעוט התבוננות בדברי רז"ל. וגם בעבור שנביא השקר מחבר הזהר שהמציא רעיונות אלו ילדי נכרים. תלה אותם ברשב"י. התנא החסיד בשקר. והם לתומם לא חשו לבדוק אחריו. והאמינו באמונת אומן שמפי רשב"י וחביריו יצאו כבושים. וכבר ביארתי לעיל שחלילה לשום תנא או אמורא לומר כן. עוד כתב הרב שבילי אמונה למעלה מזה המאמר, כי הבורא ית' לא יאויך. ר"ל שאינו בעל איכות, ומהנמנע להיות מציאות איכות, אלא במאוייך, מפני שהאיכות מקרה, והמקרה אין לו עמידה אלא בעצם. ולכן הבורא ית' אינו נושא האיכות. גם בעל האיכות הוא אשר לו התאר בעצמו ולו ית' אין לו תואר וכו' ועיין במורה נבוכים פרק נ"ב לראשון.
Nota — o tsimtsum na tradição luriânica autêntica. Qafih apresenta a doutrina da "contração" (tsimtsum) de R. Issac Luria (o Arizal, séc. XVI) como se implicasse uma mudança física em D'us. A tradição luriânica, porém, é explícita: o tsimtsum não é uma retração literal do Infinito, mas um ocultamento da revelação — D'us "recua" não em essência, mas na manifestação de Sua luz, para que haja "espaço" conceptual para as criaturas. O Ein Sof em Si não muda, não se divide, não se espraia: permanece absolutamente além de qualquer forma. R. Chaim de Volozhin (Nefesh haChayim, portão 3), discípulo do Gaon de Vilna, elabora isso em extensão. Os círculos (igulim) e a forma ereta (yosher) do Etz Chaim de R. Chaim Vital são mapas simbólicos de como a luz divina se distribui pelos mundos — não anatomia de D'us. O Shvilei Emuná que Qafih cita concorda sobre a impensabilidade da essência: "o que é demais maravilhoso para ti, não investigues" — e esse consenso é o que importa preservar.
"Sobre o que é maravilhoso demais para ti, não investigues"

Ainda escreveu, e eis as suas palavras: "e não te suba ao pensamento que poderás compreendê-Lo, bendito seja, pelo fato de seres um investigador e pesquisador do conhecimento de Sua essência e de Sua verdade íntima. Pois isso não é possível. E ao contrário — blasfema e profana quem investiga isso, pois não há força em tudo que não seja Ele, bendito seja, para compreendê-Lo. E tanto mais qualquer um que seja dono de matéria corpo. E sobre isto nos advertiram nossos mestres, de abençoada memória, ao dizer 'sobre o que é demasiado maravilhoso para ti, não investigues'" (fim da citação).

עוד כתב וז"ל ואל יעלה בדתעך כי תוכל להשיגו ית' מצד היותך דורש וחוקר בידיעת מהותו ועצם אמתתו. כי דבר זה איננו אפשרי. ואדרבה הוא מחרף ומגדף מי שחוקר בזה. שאיו כח בכל מה שזולתו ית' להשיגו. וכל שכן כל מי שהוא בעל חומר. ועל זה הזהירו רבותינו ז"ל באמרם במופלא ממך בל תדרוש ע"כ.
Nota — o solo comum: a essência incognoscível. O princípio "bemufla mimcha bal tidrosh" — "sobre o que é maravilhoso demais para ti, não investigues" — vem do Ben Sira (3:21) e é retomado pelo Talmud (Chagigá 13a) para descrever os limites da especulação sobre os Ma'aseh Merkavá (a Obra da Carruagem). Aqui Qafih e a Cabalá estão em perfeita concórdia: a essência do Ein Sof é radicalmente incognoscível. A divergência é sobre o que pode ser dito — se o mapa das sefirot é uma ferramenta válida de apreensão da ação divina, ou uma intrusão ilícita no Incognoscível. Para o Rambam (Moreh I:52–59), nenhum atributo positivo se aplica a D'us; para a Cabalá, as sefirot descrevem a ação, não a essência do Ein Sof — e ambas as escolas concordam que a essência em Si está além de toda linguagem.
Os doze partzufim — e a questão da Trindade

(78) Teus olhos veem, caro leitor, como os mestres cabalistas novos, ao seguirem cegamente o incitador, erraram em falar na Sua essência, bendito seja — ao dizer que Ele é uma "luz pura e reluzente", e ao lhe atribuirem, bendito seja, forma e imagem, e muitas mudanças: atribuíram-Lhe que, no princípio, Ele preenchia todo este espaço, e depois contraiu-Se para os lados em torno de Si, para criar lugar e espaço para as Suas criaturas — e foi feito como uma esfera redonda e oca no seu interior; e depois d'Ele se estendeu uma linha e um tubo fino, que ia descendo pouco a pouco e arredondando-se, e assim foram feitas as sefirot dos círculos igulim; e depois d'Ele mais se estendeu, pelo caminho daquele tubo, e foram feitas também as sefirot do modo "ereto" yosher, em forma de um ser humano completo — de estatura própria, com 248 membros e 365 nervos — como escrevi acima em resumo, e quem quiser aprofundar-se em sua explicação que examine o Etz Chaim de R. Chaim ben Yosef Vital, e o Sha'ar haHakdamot, e o siddur Kise Elohav, e o Ez laElohim, e demais livros de cabalá. E não lhes bastou uma imagem, forma e figura — como disseram os Sábios, de abençoada memória: "quem é para Mim nos céus, e contigo não desejo na terra?" (será citado adiante, no §85) —, mas multiplicaram partzufim em sua imaginação, um acima do outro, e cada um recebe permissão do "deus" acima dele. Pois fizeram cada um deles causa e agente para o "deus" abaixo dele. E fizeram a Causa Primeira Adam Kadmon. E disseram que é ele quem disse "vede agora que Eu, Eu sou D'us, e não há outro D'us comigo" — que não há nada acima dele do qual receber permissão. E depois dele vem Atika Kaddisha, incluindo macho e fêmea num único partzuf. E depois dele Arikh Anpin, incluindo também macho e fêmea num partzuf — exceto que neste o macho e a fêmea são frente e costas, e naquele são direita e esquerda, como está explicitado em suas palavras. E depois deles Abba e Imma — também macho e fêmea em dois partzufim separados. E depois de Abba e Imma vêm Zeʼir Anpin e o seu consorte Nukva — dois partzufim também separados; e também esses partzufim se dividem ainda em doze partzufim particulares. E cada um dos partzufim mencionados é chamado com o Nome do Santo HaKadosh e com os Nomes YHVH e Adonai. E esses são os doze partzufim: Atik e o seu consorte; Arikh Anpin e o seu consorte; Abba e Imma superiores; Israel Saba e Tevuna; Zeʼir Anpin e o seu consorte; Yaakov e Leah (Etz Chaim, Sha'ar haTikun, cap. 1). E ainda deram medida e limite a esses partzufim — este chega até o peito do partzuf acima dele, e aquele chega até o umbigo —, e assim por diante com esses assuntos que são próprios dos acidentes e das propriedades do corpo. E eis que se esqueceram — ao dizer que Adam Kadmon é quem disse "vede agora que Eu, Eu sou, e não há outro D'us comigo", que não precisa receber permissão de ninguém —: onde estão todos os partzufim que estão nos mundos superiores, que são milhares e miríades, e cada um composto de todos os quatro mundos ABYA? E por que ele não precisa receber permissão do que está acima dele? E por que não deram permissão e domínio ao "Adam Kadmon supremo" que está acima dele, nem ao Ein Sof que supera a todos? Acaso não blasfemam ao dizer que Sua essência é luz, como escreveu o referido mestre? E não chegam à heresia ao chamarem cada causa dessas causas com o Nome do HaKadosh Baruch Hu e dos nomes YHVH e Elohim? E visto que creem em múltiplos deuses e dizem que tudo é um — qual a diferença entre a sua crença e a crença dos não-judeus, que admitem três e os três são um? E os Sábios, de abençoada memória, rechaçaram essa crença, como referimos da Guemará de Avodá Zará e trouxemos acima no §64 — e, segundo o que dizem, por que não permitiu R. Yishmael que Ben Damá se curasse pelo intermediário de Yaakov, o homem de Kfar Sekhanya, já que eles afirmam que os três são um? E examine também no §64 o que escrevemos no Talmud Yerushalmi, Shabat cap. 8 sobre os shratim.

עח) עיניך הרואות קורא נעים, איך רבו' המקובלים החדשים בהמשכם בעצימת עינים אחר המסית, ששגו לדבר במהותו יתברך לומר שהוא אור צח ומצוחצח, ונתנו לו ית' תבנית ותמונה, ושנויים רבים, יחסו לו באמרם כי בתחלה היה ממלא כל החלל הזה, ואחר כך צמצם את עצמו לצדדין סביב להמציא מקום וחלל לברואיו, ונעשה ככדור עגול וחלול באמצעיתו, ואחר כך נשתלשל ממנו קו וצנור דק, והיה יורד מעט ומתעגל ונעשו ספירות דעיגולים, ואחר כך נמשך ממנו דרך אותו צינור ונעשו גם ספירות דיושר בצורת אדם שלם בעל קומה ברמ"ח איברים ושס"ה גידים כמו שכתבתי לעיל בקיצור, והרוצה לעמוד על ביאורן יעיין בעץ חיים להרח"ו ושער ההקדמות וכסא אליהו ועז לאלהים ושאר ספרי קבלה. ולא הספיק להם דמות ותבנית וצורה ותמונה אחת (כאשר אמרו רז"ל מי לי בשמים. ועמך לא חפצתי בארץ ויובא לקמן סי' פ"ה) אלא פרצופים רבים בראו להם בדימיונם זה למעלה מזה וכל אחד נוטל רשות מאלוה שלמעלה ממנו. כי עשו את כל אחד מהם עלה וסבה לאלוה שלמטה ממנו. ועשו הסבה הראשונה אדם קדמון. ואמרו עליו שהוא שאמר ראו עתה כי אני אני הוא ואין אלהים עמדי, שאין למעלה ממנו ליטול רשות ממנו. ואחריו עתיקא דקישא כלל זכר ונקבה בחד פרצוף. ואחריו אריך אנפין כולל ג"כ זכר ונקבה בפרצוף אחד. אלא שזה הזכר והנקבה פנים ואחור, וזה ימין ושמאל, כמבואר הכל בדבריהם. ואחריו אבא ואימא ג"כ זכר ונקבה בשני פרצופים נפרדים זה מזה, ואחר אבא ואימא זעיר ונוקביה שני פרצופים ג"כ נפרדים וגם אלו הפרצופים נחלקים עוד לשנים עשר פרצופים פרטיים, וכל אחד מן הפרצופים הנזכרים נקרא בשם הקב"ה ובשם הוי'ה ואדנות. ואלו הן השנים עשר פרצופים. עתיק ונוקביה, אריך אנפין ונוקביה, אבא ואימא עילאין, ישראל סבא ותבונה, זעיר ונוקביה, יעקב ולאה (עץ חיים שער התיקון פרק א'). גם נתנו שיעור וקצב לאלו הפרצופים שזה מגיע עד החזה של פרצוף למעלה ממנו, וזה מגיע עד הטבור וכיוצא באלו העניינים שהם ממקרי הגוף ומשיגיו, והנה שכחו באמרם שאדם קדמון הוא שאמר ראו עתה כי אני אני הוא ואין אלהים עמדי, שאין לו ממי ליטול רשות, ואיה כל הפרצופים שבעולמות העליונים שהם אלפים ורבבות, וכל אחד כלול מאבי"ע? ולמה הוא אין צריך ליטול רשות ממה שלמעלה ממנו? ולמה לא הניחו רשות ושליטה לאדם קדמאה שהוא למעלה ממנו, ולא לאין סוף העולה על כולם? האם לא נמצאו מחרפים ומגדפים באמרם כי מהותו אור כמ"ש הר' הנז'? ולא באים לידי מינות בקראם לכל עלה מאלה העלות בשם הקב"ה והוי'ה ואלהים? וכיון שהם מאמינים באלוהות רבים ואומרים שהכל אחד, מה הפרש יש בין אמונתם לאמונת העכו"ם שהם שלשה והשלשה אחד? ורז"ל הרחיקו לאמונה זו כדגרסינן בע"ז והבאתיו לעיל סי' ס"ד, ולפי דבריהם למה לא הניחו ר' ישמעאל לבן דמא להתרפאת מיעקב איש כפר סכניא כיון שאומרים שהשלשה אחד? ואיין עוד בסי' ס"ד מה שכתבתי בש' ירושלמי שבת פרק ח' שרצים.
Os quatro mundos, a oração distribuída — e a acusação direta

(79) E não bastou que assim fizessem — ao pensar em muitos deuses no mundo da Emanação Atzilut —, mas também nos mundos da Criação Beriá, da Formação Yetzirah e da Ação Asiyá: inventaram em seus próprios pensamentos todos os partzufim mencionados que há no mundo da Emanação, e disse o autor que o Ein Sof que se reveste neles nos mundos de BeYA não é Ele, Ele neles como no mundo da Emanação — como escreveu o mestre do siddur Kise Elohav, fl. 21a. E apesar de terem dito que os partzufim que estão nos mundos de BeYA o Ein Sof não é uno neles — ainda assim os elogiam e os glorificam, e aceitam sobre si a sua divindade, como está exposto no siddur Chesed leAvraham, ao dizer:

"Ein Kaelohenu" Não há como o nosso D'us (Malkut da Asiyá) — "Ein Kaadoneinu" (Zeʼir da Asiyá) — "Ein Kemalkenu" (Imma da Asiyá) — "Ein KeMoshi'enu" (Abba e Arikh da Asiyá); "Mi Kaelohenu" Quem é como o nosso D'us (Malkut da Yetzirah) — "Mi Kaadoneinu" (Zeʼir da Yetzirah) — "Mi Kemalkenu" (Imma da Yetzirah) — "Mi KeMoshi'enu" (Abba e Arikh da Yetzirah); "Nodeh LaElohenu" Agradecemos ao nosso D'us (Malkut da Beriá) — "Nodeh LaAdoneinu" (Zeʼir da Beriá) — "Nodeh Lemalkenu" (Imma da Beriá) — "Nodeh LeMoshi'enu" (Abba e Arikh Anpin da Beriá); "Baruch Elohenu" Bendito o nosso D'us (Malkut da Atzilut) — "Baruch Adoneinu" (Zeʼir da Atzilut) — "Baruch Malkenu" (Imma da Atzilut) — "Baruch Moshi'enu" (Abba e Arikh Anpin da Atzilut); "Atá Hu Elohenu" Tu és o nosso D'us (Keter de Arikh Anpin) — "Atá Hu Adoneinu" (Cabeça de Atik Yomin) — "Atá Hu Malkenu" (Adam Kadmon) — "Atá Hu Moshi'enu" (a luz interna e a luz envolvente que se reveste nele) — como verá quem examinar tudo isso no siddur Chesed leAvraham.

Eis que claramente aceitam sobre si a realeza, a senhoria e a divindade de cada partzuf — inclusive os partzufim que estão nos mundos da separação Beriá/Yetzirah/Asiyá, segundo o que dizem. E grande admiração nos admiramos de vós, que combatem conosco em toda esta guerra para envergonhar, perseguir e aviltar a nós. E nós suportamos todas as vergonhas e humilhações pela honra de nosso Pai, nosso Rei, único e singularizado acima de todos os "uns" — por causa de quê? Não por causa de nos recusarmos a aceitar e professar esta vossa crença, que não herdamos e da qual não nos envergonhamos e não escarnecemos? E mesmo assim ocultais e encobris a vossa crença, para não a tornar pública. E mostrais em vossas respostas como se não a reconhecêsseis — à maneira do ladrão que abriga o crepúsculo para dizer "nenhum olho me verá" e "um rosto oculto lhe poreis!" Por isso fomos obrigados a trazer tudo isso para provar as negações com que nos negais em vossas respostas, ao dizer: "e quem disse que o Ein Sof se divide?" — tudo isso precisamos citar dos livros dos cabalistas novos. E trazer os ensinamentos dos Sábios em contraposição a eles, para provar o vosso erro ou a vossa astúcia, em que ocultais a qualidade da vossa crença e a cobrís com um manto talit. E negais o que é sabido, e não buscais a verdade. E por que vos envergonhais de dizer a verdade — que foi assim que recebestes tradição para servir a múltiplas divindades criadas? — senão porque perseguis a honra ilusória, para adquirir renome perante a massa que não sabe e não entende, que na escuridão caminha, e para vos glorificardes perante eles como se lutásseis com o Senhor e com a Sua Torá.

עט) ולא די שעשו כן לחשוב כמה אלוהות בעולם האצילות, אלא שגם בעולם הבריאה, ועולם היצירה, ועולם העשייה. המציאו ברעיונותם כל הפרצופים הנז' אצלם בעולם האצילות, ואמר שהאין סוף המתלבש בהם לאו איהו חד בהון כמו בעולם האצילות כמו שכתב הר' כסא אלהיו כ"א ע"א. ואע"פ שאמרו שהפרצופים שבבי"ע אין האין סוף בהם א' עכ"ז הם משבחים ומפארים להם, ומקבלים עליהם אלהותם כמבואר בסידור חסד חאברהם באמרם אין כאלהינו (מלכות דעשיה) אין כאדונינו (זעיר דעשייה) אין כמלכינו (אימא דעשייה) אין כמושיענו (אבא ואריך דעשייה) מי כאלהינו (מלכות דיצירה) מי כאדונינו (זעיר כיצירה) מי כמלכינו (אימא דיצירה) מי כמושיענו (אבא ואריך דיצירה) נודה לאלהינו (מלכות דבריאה) נודה לאדונינו (סעיר דבריאה) נודה למלכינו (אימא דבריאה) נודה למושיענו (אבא ואריך אנפין דבריאה) ברוך אלהינו (מלכות דאצילות) ברוך אדונינו (זעיר דאצילות) ברוך מלכינו (אימא דאצילות) ברןך מושעינו (אבא ואריך אנפין דאצילות) אצ ההוא אלהינו (כתר דאריך אנפין) אתה הוא אדונינו (ראש עתיק יומין) אתה הוא מלכינו (אדם קדמון) אתה הוא מושיענו (אור פנימי ואור מקיף המתלבש בו) כמו שיראה המעיין כל זה בסידור חסד לאברהם. הרי לך בהדיא שהם מקבלים עליהם מלכות ואדנות ואלהות כל פרצוף ופרצוף. אפי' פרצופים שבעולמות הפירוד לפי דבריהם שהם בריאה, יצירה ועשייה. ופליאה גדולה אנו מתפלאים עליכם שאתם נלחמים עמנו בכל המלחמה הזאת לבזות ולרדוף ולירד עמנו עד לחיינו. ואנו סובלים כל חרפות ובזוים לכבוד אבינו מלכינו יחיד ומיוחד מכל האחדים, בעבור מה? לא בעבור שנקבל ונודה לאמונתכם הלזו ש]ירשנו ממנה ולא חירפנו ולא בזינו אותה? ועם כל זה אתם מסתירים ומכסים את אמונתכם שלא לפרסמה. ומראים בתשובתכם כאלו אינכם מודים בה כעין גנב שמרה נשף לאמר לא תשורני עין. וסתר פנים תשימו לה! לכן הוכרחנו ךהביא כל זה להוכיח את הכחשות שאתם מכחישים אותנו בתשובתכם ואומרים ומי הוא שאמר שהאין סוף מתחלק? כל זה הוצרכנו להעתיק מספרי המקובלים החדשים. ולהביא מאמרי רז"ל נגדן להוכיח טעותכם או רמאותכם שאתם מסתירים איכות אמונתכם ומכסים אותה בטלית. ומכחישים את הידוע, ואינכם מבקשים האמת. ולמה זה תבושו לומר האמת שכן קבלנו לעבוד אלוהות רבים נבראים רק שאתם רודפים אחר הכבוד המדומה. לקנות שם נגד ההמון אשר לא ידעו ולא יבינו, בחשכה יתהלכו, ולשבח את עצמכם נגדם כאלו אתם נלחמים עם ה' ועם תורתו.
Nota — Ein Kaelohenu e o siddur Chesed leAvraham. R. Avraham Azulai (Marrocos, 1570–1643), em seu siddur Chesed leAvraham, distribui as estrofes do hino Ein Kaelohenu pelos partzufim dos quatro mundos como um roteiro de kavanot — intenções meditativas da oração. Na prática cabalística, as kavanot são instrumentos para elevar a oração através das camadas da criação até o Ein Sof; não são endereços a deuses distintos, mas estações de um percurso espiritual em direção ao único Deus. A declaração "Ein Kaelohenu" ("não há como o nosso D'us") é, em si mesma, uma proclamação radical de monoteísmo. Qafih lê o roteiro como confissão de politeísmo; a tradição o lê como mapa do caminho de ascensão da oração rumo ao Uno.
R. Yosef Albo — a maioria dos sábios, não da massa

E escreveu Mahara"i Albo R. Yosef Albo em seu livro Os Fundamentos Sefer haIkarim, Tratado 3, cap. 23: que o ensinamento da santa Torá "segues a maioria" Êxodo 23:2 — desde que seja a maioria composta dos sábios, não a maioria de opiniões dos ignorantes; pois a massa e os ignorantes se inclinam para algo que não é verdadeiro, até chegarem a testemunhar sobre isso e dizer que é assim. Por isso não convém trazer prova do consenso da massa, pois às vezes a massa concorda com o oposto da verdade (como no nosso caso): pois nos dias de Acabe, de Manassés e de semelhantes a eles, todos concordavam em adorar ídolos — e em matar os profetas e seus discípulos. E deveria ser que Elias e os cem homens que Abdias escondeu fossem os perversos, pois são a minoria — e a maioria, que eram adoradores de ídolos, seriam os justos! Mas certamente convém que a decisão seja entregue somente aos sábios, pois a sabedoria é o dom de D'us: "pois o Senhor concede a sabedoria, e da Sua boca saem o conhecimento e a inteligência". E assim a Torá do Senhor será perfeita em todas as gerações, sem lhe faltar coisa alguma (fim da citação).

וכתב מהר"י אלבו בספרו העיקרים מאמר ג' פרק כ"ג. כי מאמר תוה"ק אחרי רבים להטות. ובלבד שיהיו הרוב מן החכמים, לא רוב דעות עמי הארץ, לפי שההמון ועמי הארץ נתפים לדבר שאינו. עד שיבואו להעיד עליו ולומר שהוא כן. ועל כן אין ראוי להביא ראיה מהסכמת ההמון. כי פעמים יסכימו ההמון על חילוף האמת (כנדון דידן) שהרי בימי אחאב ומנשה ודומיהם היו מסכימים כולם לעבוד ע"ז. ולתי הנביאים ותלמידהם. והיה ראוי שיהיו אליהו ומאה איש שהחביא עובדיה המה הרשעים, כי הם המיעוט, והרוב שהם עובדי ע"ז הם הצדיקים! אלא ודאי ראוי שתהיה ההכרעה מסורה לחכמים בלבד, כי החכמה מתת אלהים היא. כי ה' יתן חכמה ומפיו דעת ותבונה. ובזה תהיה תורת ה' תמימה בכל דור ודור, ובלתי חסרה דבר עכ"ל.

Sobre estas seções · עִיּוּן

A raiz do erro: ler metáforas literalmente

Qafih diagnostica o problema como hermenêutico: as expressões antropomórficas da Torá — "em nossa imagem", "o braço de D'us", "a face do Senhor" — foram dadas ki-leshon bnei adam ("na linguagem dos homens"), como o próprio Rambam ensina exaustivamente no Moreh. Lê-las ao pé da letra é a raiz de todo o que se segue. Neste ponto, Qafih, o Rambam, Saadia Gaon e a própria Cabalá concordam: a essência do Ein Sof está além de toda metáfora.

Os doze partzufim e a questão filosófica

A cadeia tsimtsumigulimyosher–12 partzufim é a cosmologia do Etz Chaim de R. Chaim Vital (séc. XVI). Qafih pergunta: se cada partzuf tem o Nome Divino, não é isso politeísmo? A Cabalá responde: partzuf = "face", não "pessoa". Os doze partzufim são modos de ação de um único Ein Sof absolutamente simples e indivisível — como o sol que ilumina, aquece e nutre com a mesma luz, sob ângulos diferentes. A comparação com a Trindade cristã não procede: a teologia trinitária fala de Pessoas (hipóstases), a Cabalá fala de aspectos da ação divina sem qualquer divisão na essência.

O Ein Kaelohenu e as kavanot

O Siddur Chesed leAvraham de R. Avraham Azulai distribui as estrofes da famosa oração pelos quatro mundos e seus partzufim. Isso é uma prática de kavanot — intenções meditativas que guiam a oração pelos "andares" da criação rumo ao Ein Sof. Não é confissão de múltiplos deuses: é um mapa de ascensão. A declaração "não há como o nosso D'us" é, em si mesma, a mais radical das afirmações monoteístas — e permanece a verdade central da oração.

R. Albo e a minoria que tem razão

A citação de R. Yosef Albo (Sefer haIkarim 3:23) é habilidosa: não é a maioria popular, mas a maioria dos sábios, que decide. Mas o argumento tem um retorno: os grandes sábios de Israel — de R. Yosef Karo ao Vilna Gaon e ao Chatam Sofer — afirmaram o Zohar. Elias era solitário e tinha razão; mas "a maioria dos sábios" que aqui interessa aponta, esmagadoramente, na direção contrária ao Dor Deah.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXXII

"A Unidade sem igual"

אַחְדוּת שֶׁאֵין כָּמוֹהָ
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih convoca os Princípios 1 e 2 do Rambam (via Shvilei Emuná) e os Chidushei Geonim sobre os 13 pactos da circuncisão — para estabelecer a Unidade de D'us como achad tachlit hayichud, sem qualquer semelhante. Contrasta com a hierarquia luriânica de seres divinos que se formou após o tsimtsum, e encerra com o Midrash Rabba: "Minha glória é única e singular no mundo".

Os Princípios 1 e 2 do Rambam — a Existência e a Unidade

(80) Copiarei aqui alguns dos princípios necessários a nosso tema, dos 13 Princípios que escreveu o Rambam em seu Comentário à Mishná, capítulo Chelek, tais como os traz o mestre do Shvilei Emuná R. Meir Aldabi, e eis as suas palavras:

"O Primeiro Princípio: acreditar que o Criador, bendito seja, existe com existência plena. Ele é a Causa da existência de tudo que existe. E d'Ele deriva a força do seu sustento. E se passarmos pelo nosso pensamento a aniquilação da Sua existência — imediatamente se anula a existência de todo ser existente, e não há existência para nenhum ser. Mas se passarmos pelo nosso pensamento a aniquilação da existência de todos os seres existentes, exceto Ele — a Sua existência não se anularia por causa deles, nem diminuiria; pois o Criador, bendito seja, é rico autossuficiente, pois não precisa, em Sua existência, de nada que lhe seja exterior. E tudo que não é Ele — dos intelectos, dos corpos das esferas celestes e do que há nelas — tudo necessita, em sua existência, d'Ele, bendito seja. Ele não precisa deles. E este princípio está aludido na palavra Anochi Hashem Elohecha 'Eu sou o Senhor teu D'us'."

"O Segundo Princípio: a Sua Unidade, bendito seja — e é preciso saber que a Causa de tudo é Una: não como a unidade da espécie geral, como a espécie humana que abrange muitos indivíduos. E não como a unidade do indivíduo particular — como quando se diz 'um homem específico', o qual contém em si 248 membros. E não como a unidade do composto que foi dividido em muitas unidades. E não como a do corpo simples que é uno em número, mas pode ser dividido até o infinito. Pois a cada um destes se chama 'um' por transferência metafórica, pois as coisas que aquele nome reúne são iguais em algum aspecto. Mas não é 'um' de maneira verdadeira. Já a Unidade verdadeira é a Unidade do Criador, bendito seja — cuja unidade não tem semelhante em modo algum. E é o que Ele, bendito seja, disse: Shma Yisrael Hashem Eloheinu Hashem Echad" (fim da citação).

פ) ואעתיק פה קצת העיקרים הנצרכים לעניינו מי"ג עיקרים שכתב הרמב"ם בפי' המשנה פרק חלק ומביאם הר' שבילי אמונה וז"ל. העיקר הראשון להאמין כי הבורא ית' נמצא מציאות גמורה. והוא עלת מציאות כל נצא. וממנו ימשך כח קיומם. ואלו נעביר על ליבנו כניעה מציאותו. מיד בטלה מציאות כל נמצא, ואין מציאות לשום נמצא. ואלו יעלה על ליבנו בטול מציאות הנמצאים כולם זולתו. לא בטלה מציאותו בשבילם ולא חסרה, כי הבורא ית' עשיר כי אין לו צורך במציאותו לזולתו. וכל בלעדיו מן הדיעות וגופי הגלגלים ומה שיש בתוכם, כולם יצטרכו במציאותם אליו ית'. הוא אינו צריך להם. וזה העיקר נרמז במלת אנכי ה' אלהיך. והעיקר הב' יחודו ית', והוא לדעת כי עלת הכל אחד לא כאחד המין הכולל. כמו מין האדם שכולל אישים הרבה. ולא כאחד המין הפרטי כמו שתאמר אדם אחר בפרט. ואתה כולל בו רמ"ח איברים. ולא כאחד המורכב אשר חלק לאחדים רבים. ולא כגוף הפשוט אשר הוא אחד במספרו ויקבל חילוק עד לאין תכלית. כי לכל אחד מאלו יקרא אחד על דרך העברה. מפני שהדברים ההם אשר יקבץ אותם השם ההוא הם שוין בענין אחד. אבל אינו אחד על דרך אמתי. אמנם האחד האמתי הוא אחדות הבורא ית'. אשר אין אחדות כמהו. בשום פנים. והוא אמרו ית' שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד עכ"ל.
Nota — "cuja unidade não tem semelhante": terreno comum. A frase do Shvilei Emuná que Qafih cita — asher ein achdut kamóhu beshum panim ("cuja unidade não tem semelhante em modo algum") — resume a posição da toda a filosofia judaica clássica, incluindo os próprios cabalistas. O Pardes Rimonim (R. Moisés Cordovero, cap. Mahut veHanhagá) e o Etz Chaim de R. Chaim Vital afirmam: o Ein Sof é mais absolutamente uno do que qualquer coisa que a linguagem pode expressar — as sefirot e os partzufim descrevem a ação do Uno, não divisões em Sua essência. O Segundo Princípio do Rambam sobre a Unidade única é partilhado, nesse sentido, por todos. O debate é metodológico: pode-se usar mapas simbólicos (sefirot, partzufim) para falar da ação divina sem comprometer essa unidade? O Rambam diria não; os cabalistas diriam que sim, quando entendidos corretamente.
Os 13 pactos da circuncisão — achad tachlit hayichud

E nos Chidushei Geonim, em Ayin Ya'akov, cap. 3 de Nedarim, escreveu: "que muitas excelências boas se completam na mitsvá da circuncisão, para a congregação dos filhos de Israel que se dedicam a seus preceitos nos câmaras de santidade — e seu fundamento é o que aperfeiçoa no homem a parte que o honra como ser humano, que é o intelecto verdadeiro, no assunto de que está dito: 'que não se glorie o que se gloria em isto: em ter intelecto e em conhecer-Me, pois Eu sou o Senhor' etc. Sua explicação: que o intelecto verdadeiro é o conhecimento do Criador e a adesão a Ele, bendito seja, e o conhecimento de Seu grande Nome — aludido neste versículo — yithalel hamitalel haskel viyado nas iniciais de 'que se glorie... intelecto e conhecer' formam o Nome de quatro letras. De verdade se completa pela circuncisão e seu segredo, como disseram os nossos Sábios, de abençoada memória: mi ya'aleh lanu hashamayma quem subirá para nós ao céu? — resh-heh inicial: circuncisão milá; e as letras finais de cada palavra: Yod-Heh-Vav-Heh. O que indica que, pela circuncisão, estamos unidos a Ele, bendito seja. E para acrescentar conhecimento de Seu sagrado Nome, elevado e exaltado. Porque a circuncisão é o aperfeiçoamento do intelecto verdadeiro — pois por meio da circuncisão exterior da carne se completa a circuncisão interior do coração. E é por este mesmo motivo e por esta mesma razão que se estabeleceram exatamente treze alianças pactos — nem mais, nem menos; o que indica que esta ação tem benefício de grande valor: pois chegará e virá ao momento de ter treze anos, quando será chamado adulto; pois então compreenderá o temor de D'us, para amá-Lo e a Ele se unir, e reconhecerá seu Criador — para saber que Ele é achad tachlit hayichud único com a perfeição última da unidade, não uno em espécie, não uno como corpo que se divide em partes e extremidades, não uno em número — mas uno com a perfeição última, a unidade que não tem semelhante em todo o mundo. E com isso servirá ao seu Criador, a partir do amor, além do que O serviu por temor. E é o que está dito: 'com cordas humanas os atraí, com vínculos de amor'. E por isso foi chamado Abraão, nosso pai, 'um' — como está dito: 'um era Abraão' — por razão do preceito da circuncisão" (fim da citação, no que nos concerne).

ובחידושי גאונים בעין יע' פ"ג דנדרים כ' כי כמה מעלות טובותשיושלמו במצות המילה אל על עדת בני ישראל המכוונים במצותיה בחדרי קדש יסודתה היא המשלמת לאדם החלק המכבד שכאדם והוא השכל האמתי בענין שנאמר כי אם בזאת יתהלל המתהלל השכל וידוע אותי כי אני ה' וכו'. ביאורו שהשכל האמתי הוא ידיעת הבורא ודבקותו בו ית' וידיעת שמו הגדול הנרמז בזה המקרא יתהלל המתהלל השכל וידוע בראשי תיבותיהן שם בן ארבע אותיות. באמת יושלם על ידי המילה וסודה כמו שאמרו רז"ל מי יעלה לנו השמימה. ר"ה מילה וסופי תיבות הוי'ה. מה שיורה כי על ידי המילה אנו דבקים בו ית'. ולהוסיף ידיעה בשמו הקדוש ית' ויתעלה. לפי שהמילה היא תקון השכל האמתי. כי באמצעות מילת הבשר החיצונית תשלם מילת הלב הפנימית. אשר לזה הטעם בעצמו ולזאת הסבה בעינה חוייב שיכרתו עליה שלש עשרה בריתות בדוקא לא פחות ולא יותר, מה שיורה להיות מעשה הזה תועלת גדול הערך, כי יעלה ויבא ויגיע לזמן היותו בר עונשין שלש עשרה שנה שאז יקרא גדול, כי אז יבין יראת השם לאהבה אותו ולדבקה בו, ולהכיר בוראו לידע שהוא אחד תכלית היחוד, לא אחד במין, ולא אחד כגוף, שהוא מתחלק למחלוקות ולקצוות ולא אחד במספר, אבל אחד תכלית, היחוד שאין יחוד אחר כמותו בכל העולם, ובזה יעבוד בוראו, מאהבה נוסף על מה שעבדו מיראה, וזהו שנ' בחבלי אדם אמשכם בעבותות אהבה, ועל זה נקרא אברהם אבינו אחד שנ' אחד היה אברהם לטעם מצות המילה, עכ"ל לעניינינו
Nota — "único com a perfeição última da unidade". A expressão dos Chidushei Geonimachad tachlit hayichud ("único com a perfeição última da unidade") — é uma das formulações mais elevadas do monoteísmo judaico. Ela descreve uma Unidade tão absoluta que não admite sequer a "unidade numérica" (que pressupõe possibilidade de divisão), nem a "unidade de espécie". Os cabalistas usam a mesma expressão para o Ein Sof: sua unicidade vai além de qualquer conceito humano de "um". O Tanya de R. Shneur Zalman de Liadi (Sha'ar haYichud vehaEmunah, cap. 3) ensina: dizer que D'us é "um" não é como dizer que um rei é "um homem" — é afirmar que d'Ele não há nada além (ein od milvado); os mundos e as criaturas têm existência apenas relativa, como o sol cujos raios não existem separados da fonte. Nesse ponto, o ensinamento dos Geonim e o do Tanya convergem plenamente.
A tradição de nossos pais — e o tsimtsum luriânico

Contempla, caro amigo, as palavras do Rambam, do Shvilei Emuná e dos Chidushei Geonim — e reconhecerás que a Unidade de nosso D'us, bendito seja, não se assemelha às demais unidades, que se dividem em muitas categorias. E esta é a nossa verdadeira tradição, recebida de nossos pais, geração após geração, até Moisés, nosso mestre, e até Abraão, nosso pai. E como já expliquei acima e trouxe as palavras do Midrash Rabba, do Midrash haGadol e muitos versículos e ditos de nossos Sábios, de abençoada memória, na Guemará e nos demais midrashim verdadeiros, que provam assim — que o Santo, bendito seja, permanece em uma unidade que não mudou e não mudará.

Isso, diferentemente da opinião dos novos cabalistas, que seguiram a opinião exterior com a qual os induziu o autor do Zohar — que disseram que a Causa Primeira, chamada por eles Ein Sof, dividiu-se em muitas categorias, sofreu muitas mudanças; e a grande parte d'Ele permaneceu após o tsimtsum a "contração" à maneira de uma forma redonda e oca em sua parte interna — muito grande —, no interior da qual ficaram todos os mundos superiores e inferiores: dos mundos acima do mundo da Emanação Atzilut, com o mundo da Emanação e com os mundos abaixo d'ele. E d'Ele estendeu-se uma linha fina como um tubo para dentro desse vazio, do qual se formaram todos os mundos e do qual são sustentados. Eis as palavras do mestre R. Chaim ben Yosef Vital no Etz Chaim, portão dos círculos e do modo ereto, capítulo 2: "E eis que, após a contração tsimtsum — em que ficou o lugar do vazio e o ar vazio e desbloqueado no meio da luz do Ein Sof propriamente — havia já espaço para que aí pudessem existir os emanados, os criados, os formados e os feitos. Então o Ein Sof estendeu da luz do Ein Sof uma linha fina e reta, de cima para baixo, da luz circular d'Ele, e vai se desdobrando e descendo para baixo dentro daquele vazio; e a extremidade superior da linha estende-se do próprio Ein Sof e toca n'Ele; mas a extremidade inferior dessa linha, em seu fim abaixo, não toca na luz do Ein Sof. E é pela via dessa linha que a luz do Ein Sof se estendeu e se expandiu para baixo, e naquele lugar do vazio emanou, criou, formou e fez todos os mundos — todos eles; e essa linha é como um tubo fino, pelo qual a água da luz superior do Ein Sof se expande e flui para todos os mundos que estão no lugar do ar e do vazio". Examina o que foi dito acima, no §38, onde já o trouxe ali.

. התבונן נא ידידי בדברי הרמב"ם ושבילי אמונה וחידושי גאונים, ואת כל ונוכחת כי יחוד אלהינו ברוך הוא אינו דומה לשאר אחדים שהם נחלקים לכמה מחלקות, והיא היא קבלתינו האמתית שקבלנו מאבותינו דור אחר דור עד משה משה רבי' ועד אברהם אבינו, וכמו שכבר ביארתי לעיל והבאתי לשון המדרש רבה ומדרש הגדול וכמה כתובים ומאמרי רז"ל בגמרא ושאר מדרשים אמתיים מוכיחים כן, כי הקב"ה עומד באחדות אחת לא שנה ולא ישתנה, לא כדעת המקובלים החדשים שנמשכו אחר הדעה החיצונית אשר השיאם מחבר הזוהר שאמרו שהסבה הראשונה הנקרא אצלם אין סוף נחלק למחלקות רבות, ונשתנה שינוים רבים, וחלק הגדול ממנו נשאר אחר הצמצום כדמות דור עגול וחלל באמצעיתו גדול מאוד, אשר בתוך החלל הזה כל העולמות העליונים והתחתונים, מעולמות שלמעלה מעולם האצילות עם עולם האצילות ועם העולמות שלמטה ממנו, וממנו נמשך קו אחד דק כעין צינור אל תוך החלל הזה אשר ממנו נתהוו כל העולמות וממנו נספעים, וז"ל הרח"ו בעץ חיים שער עגולים ויושר ענף ב'. והנה אחר הצמצום אשר נשאר מקום החלל ואויר פנוי וריקן באמצע האור של אין סוף ממש הנה כבר היה מקום לשיוכלו להיות שם הנאצלים והנבראים והיצורים והנעשים, ואז המשיך מן האור האין סוף קו אחד דק ישר מן האור עגול שלו מלמעלה למטה, ומשתלשל ויורד למטה תוך החלל ההוא וראש העליון של הקו נמשך מן האין סוף עצמו ונוגע בו, אמנם סיום הקו הזה למטה בסופו אינו נוגע באור האין סוף, ודרך הקו הזה נמשך ונתפשט אור אין סוף למטה ובמקום החלל ההוא האציל וברא ויצר ועשה כל העולמות כולם, וקו זה כעין צנור דק אשר דרך בו מתפשט ונמשך מימי האור העליון של אין סוף אל כל העולמות אשר במקום האויר הוהחלל ההוא, ונבאר עתה ענין חקירת המקובלים לדעת איך יש ראש, תוך וסוף וכו' עיין לעיל סי' ל"ח שכבר הבאתיו שם.
Nota — o tsimtsum como ocultamento, não mudança essencial. A citação de R. Chaim Vital (Etz Chaim, Sha'ar haIgulim vehaYosher, cap. 2) é o texto-base da cosmologia luriânica. Qafih a lê como descrição de mudanças físicas no Ein Sof. A tradição, porém, distingue cuidadosamente: o tsimtsum não é uma contração da essência do Ein Sof, mas um ocultamento da revelação — D'us "recua" na manifestação de Sua luz para que haja "espaço" conceptual para as criaturas. O próprio R. Chaim de Volozhin (Nefesh haChayim, portão 3, caps. 2–7), discípulo do Gaon de Vilna, é enfático: "O Ein Sof, em Si, não se contraiu nem mudou em nada — nenhuma mudança é possível n'Ele; o que se contraiu foi apenas a revelação de Sua luz." O kav (linha/tubo) é metáfora para a relação do Infinito com o finito — não anatomia do Criador. O Ramchal (R. Moisés Chaim Luzzatto, Da'at Tevunot, §40) e o Ramak (R. Moisés Cordovero) convergem: o Ein Sof permanece absolutamente simples, sem divisão, sem mudança.
O pantheon luriânico — da hierarquia à oração

(81) Lembremo-nos, lembremos da fé dos nossos Sábios — os mestres da Mishná e do Talmude, os Geonim, de abençoada memória —, que é a fé pura na qual creram os nossos antepassados: que o Senhor, nosso D'us, é Um, não há outro além d'Ele, e não há nada como a Sua Unidade. E nossa alma se contrai ao vermos agora os livros da nova Cabalá: quantas divindades surgiram, que nossos antepassados jamais conceberam! E estão em escritos, assim como nos livros de preces, para que dirijam suas orações a elas; e também nas bênçãos asher birkhu. E não lhes bastou a multidão de divindades a que se dirigem — como já explicamos —, senão que cobiçam ainda mais divindades sem nome: pois segundo a sua doutrina, nem mesmo a Adam Kadmon e a Adam Kadmaa Stima se dirige a oração — por serem por demais ocultos; quanto mais os partzufim que estão acima do mundo da Emanação, que são milhares e miríades sem número; mundos dos quais não falaram; e cada mundo é composto de todos os quatro mundos ABYA. E quem sabe se há em cada mundo todos os partzufim que mencionaram no ABYA inferior? Pois não encontramos no mestre Mikdash Melekh R. Shalom Buzaglo, no comentário à Breshit da Idra, fl. 15, ao início "E há um indício", que diz: que o mundo mais externo, próximo ao tehiru "vazio puro", é chamado Adam Kadmaa Stima — para distingui-lo de Adam Kadmon; e esse Adam Kadmaa Stima foi feito de dez esferas, uma dentro da outra, e em cada uma dessas esferas foram construídos incontáveis mundos, etc. E resulta que, segundo isso, a hierarquia das muitas divindades — em que cada uma é causa e motivo para o que está abaixo dela — é:

Em primeiro de todas: o Ein Sof, que circunda todos os mundos, e todos os mundos no interior do seu vazio. Após ele: Adam Kadmaa Stima. Após ele: Adam Kadmon — é aquele de quem dizem, segundo as suas palavras, que ele disse "vede agora que Eu, Eu sou Ele, e não há D'us comigo" — que não precisa receber permissão de Adam Kadmaa nem do Ein Sof. Após ele: Atik Yomin. Após ele: Arikh Anpin — e é ele quem criou os céus e a terra com a força de Abba e Imma. Após ele: Abba — que disse "haja luz"; "reúnam-se as águas"; "haja firmamento"; e os demais ditos da Obra da Criação. E Imma, a artesã que executa tudo ao seu mando, conforme tudo que lhe ordena. Exceto pelo dito "façamos o homem" — foi Imma que disse a Abba: "façamos o homem à nossa imagem"; e Abba não quis participar de sua criação, pois lhe era revelado que o homem estava destinado a pecar — como escrevi acima, no §20. E após Abba e Imma: Zeʼir Anpin e sua consorte — e para Zeʼir e para a sua consorte, segundo as suas palavras, todos os rostos se voltam para servi-los; e há o temor da sua rainha, que é a Nukva d'Ele, a qual o autor do Zohar ampliou o versículo "teme ao Senhor teu D'us" "et Hashem Elohecha tira" — o "et" para incluí-la: para temê-la, mas não para servi-la (e uma outra interpretação, como aquela que expôs R. Akiva — para incluir os discípulos dos sábios).

E os novos cabalistas deram um motivo para que no Zohar e nos Tikunim não se mencionem os partzufim superiores senão por alusão — por causa do seu grande ocultamento. E é esse mesmo motivo pelo qual não se reza a eles, nem se os invoca em tempo de angústia — por causa do seu grande ocultamento. E segundo as suas palavras, o serviço e a oração só se aplicam ao partzuf que já se "adensou" e se revelou, como escreveu no Sefer haBrit de R. Pinchas Eliyahu Horowitz: "que é acessível à casa de Jacó" — quer dizer, que já se adensou e se revelou, como escreveu R. Chaim Vital, citado acima, no §47. E por este motivo fica muito espantoso: o Senhor, nosso D'us, que é a Causa Primeira que os nossos pais e os pais dos nossos pais adoraram, também está muito oculto — a ponto de até os anjos e as chayot sagradas perguntarem "onde está o lugar de Sua glória?", como disseram os nossos Sábios, de abençoada memória. E ainda assim disse a Escritura: "pois qual nação grande que tem D'us próximo a ela, como o Senhor nosso D'us, em tudo que clamamos a Ele?" — como se ouve no sussurro do ouvido, como foi explicado acima.

פא) זכור נזכור את אמונת רז"ל בעלי המשנה והתלמוד הגאונים ז"ל שהיא האמונה הטהורה שהאמינו בה קדמונינו, כי ה' אלהינו אחד, אין עוד מלבדו ואין כיחודו, ותשוח עלינו נפשינו בראותינו עתה ספרי הקבלה החדשה כמה אלוהות נתחדשו להם, אשר לא שערום אבותינו, והמה בכתובים גם בסידורי התפלות כדי לכוון תפלתם אליהם, וכן באשר הברכות, ולא די להם המון האלוהות שמכונים אליהם כמו שכבר ביארנו, אלא שאיוו לאלוהות רבים, אשר אין לקרות בהם בשם, שהרי לפי דעתם גם אדם קדמון ואדם קדמאה אין לכוון תפלתו אליהם, כי הם נעלמים מאד, וכל שכן פרצופים שלמעלה מעולם האצילות אלפים ורבבות אין מספר, עולמות שלא דברו בהם, וכל עולם ועולם כלול מאבי"ע, ומי יודע אם יש בכל עולם ועולם כל הפרצופים שהזכירו באבי"ע זה התחתון כי לא מצינו להר מקדש מלך בראשי' דך ט"ו דבור המתחיל ורמז, כי החל קהמקיף וסמוך לטהירו נקרא אדם קדמאה סתימאה, להבדיל בינו ובין אדם קדמון, ואדם קדמאה סתימאה דא נעשה עשרה כדורים זה בתוך זה, ובכל אחד מכדורים אלו נבנו כמה עולמות אין מספר וכו'. ונמצא לפי זה מערכת האלוהות הרבים אשר כל אחד ואחד עלת וסבה למה שלמטה ממנו, ראשון לכלם האין סוף המקיף את כל העולמות, וכולם בתוך חלל שלו, ואחריו אדם קדמאה סתימה, ואחריו אדם קדמון, הוא שאמר לפי דבריהם ראו עתה כי אני אני הוא ואין אלהים עמדי, שאין צריך ליטול רשות מאדם קדמאה ולא מאין סוף, ואחרי עתיק יומין, ואחריו אריך אנפין והוא אשר ברא שמים וארץ בכח אבא ואימא, ואחריו אבא, הוא שאמר יהי אור, ויקוו המים, ויהי רקיע, ושאר אמירות דמעשה בראשית. ואימא אומן העושה על פיו ככל אשר יצוה עליה. חוץ ממאמר נעשה אדם. שאימא היא שאמרה לאבא נעשה אדם בצלמינו. ואבא לא חפץ בבריאתו. לפי שגלוי לפניו שעתיד לחטוא כמו שכתבתי לעיל סי' כ'. ואחר אבא ואימא וזעיר אנפין ונוקביה. ואל זעיר ונוקביה לפי דבריהם כל פיות פונים לעבדו. וליראה את מלכתו היא נוקבא דיליה שריבה אותה מחבר הזהר ליראה מאת ה' אלהיך תירא. את לרבותה, ליראה ממנה ולא לעבדה (וד"א כמו שדרש ר' עקיבה לרבות ת"ח). ונתנו המקובלים החדשים טעם למה לא הזכירו בזהר ובתקנוים את הפרצופים העליונים כי אם ברמז, שהוא לרוב העלמם. והוא בעצמו הטעם למה אין מתפללים אליהם, ולא קורים עליהם בעת צרה מטעם רוב העלמם. ולפי דבריהם לא שייכא עבודה ותפלה אלא לפרצוף שכבר נתעבה ונתגלה וכמו שכתב בספר הברית שהוא מושג לבית יעקב. כלומר שכבר נתעבה ונתגלה כמו שכתב הרח"ו והובא לעיל סי' מ"ז. ועל הטעם הזה יפלא מאד הלא ה' אלהינו שהוא הסבה הראשונה אשר עבדו אבותינו ואבות אבותינו נעלם הוא מאד עד שאפי' המלאכים וחיות הקדש שואלים איה מקום כבודו כמו שאמרו רז"ל ועם כל זה אמר הכתוב כי מי גוי גדול אשר לו אלהים קרובים אליו כה' אלהינו בכל קראנו אליו. כמפה לאזן כמו שנת' לעיל:
Nota — "todos os mundos e suas esferas" e a questão da oração. Qafih apresenta a hierarquia luriânica como pantheon de deuses independentes. A tradição responde com dois argumentos: (1) Identidade total: cada partzuf, cada mundo, é o Ein Sof em Sua totalidade — não uma fração. Como o sol que ilumina, aquece e cria a partir de uma única fonte, sem dividir-se. (2) A oração sobe, não se dirige a outro: na prática cabalística, reza-se à Shekhinah/Malkhut como ponto de contato do finito com o Infinito — e a oração "sobe" (maalat hatefila) por todos os níveis até o Ein Sof. O Tanya (Likkutei Amarim, cap. 49) explica: a "proximidade de D'us" mencionada no versículo (Devarim 4:7) é precisamente porque o Ein Sof preenche e circunda todos os mundos — "não há lugar vazio d'Ele" (Tikunei Zohar, tikun 57). A pergunta de Qafih — como Ele é ao mesmo tempo muito oculto e muito próximo? — tem resposta nas próprias fontes místicas: oculto em essência, revelado em ação; inacessível à compreensão, mas plenamente acessível ao coração em oração.
O Midrash sobre o Shma — "Minha glória é única"

(82) E no Midrash Rabba, na parashá Va'etchanan comentando "Shma Yisrael Hashem Eloheinu Hashem Echad": é o que disse a Escritura — "quem tenho eu nos céus, e contigo não desejo na terra?" Rav disse: "dois firmamentos são — 'céus' e 'os céus dos céus'". R. Eleazar disse: "sete firmamentos são — céu (shamayim), firmamento (rakia), nuvens (shchakim), morada (ma'on), residência (zevul), trevas (arafel); e a todos eles abriu o Santo, bendito seja, para Israel, para lhes dar a conhecer que não há outro D'us senão Ele. Disse a Congregação de Israel ao Santo, bendito seja: 'quem tenho eu nos céus?' — exceto Tua glória. 'E contigo não desejo na terra' — assim como não tenho ninguém nos céus além de Ti, também não desejo outro na terra. Mas eu entro a cada dia nas sinagogas e testifico a Teu respeito que não há outro D'us senão Tu — e digo: Shma Yisrael Hashem Eloheinu Hashem Echad'".

Vês, caro amigo, que as palavras dos nossos Sábios, de abençoada memória, aqui no Midrash, estão em oposição à nova Cabalá. Pois no versículo do Shma Yisrael — que é a aceitação do jugo do Reino dos Céus —, os novos cabalistas incluem ali Abba, Imma, Zeʼir e Nukva, como explicado no Zohar Va'etchanan, citado acima, no §42 — coisa que jamais entrou na mente dos nossos Sábios, de abençoada memória, que se fizesse assim em Israel. E além disso: disseram os mestres da Cabalá nova que quem reza ao Ein Sof — a Causa Primeira — sua oração não é válida, mas deve-se rezar precisamente ao Zeʼir Anpin, para unir Sua consorte com ele, e também incluir no pensamento Abba, Imma, Arikh Anpin e Atik Yomin, como escrevi acima em Kise Eliyahu e Yosher Levav: que quem une sua oração ao Zeʼir Anpin sem a associação e a "tecedura" dos partzufim mencionados não é prontamente atendido — e este é o segredo de "por que clamas a Mim?" — como está acima, no §30.

Ainda disseram no Midrash Rabba, na parashá mencionada, estas palavras: "Shma Yisrael Hashem Eloheinu Hashem Echad: os Sábios disseram: 'disse o Santo, bendito seja: meus filhos, tudo que criei, criei em pares — céus e terra, um par; Adão e Eva, um par; este mundo e o Mundo Vindouro, um par. Mas Minha glória é única e singular no mundo'. De onde se aprende isso? Do que lemos neste assunto: Shma Yisrael Hashem Eloheinu Hashem Echad'" (fim da citação). E também estas palavras do Midrash estão em oposição à nova Cabalá, que diz que Zeʼir e Nukva é o nosso D'us, nós somos Seu povo e o rebanho de Sua pastagem — e O servimos com os mandamentos de Abba e Imma; e ele mesmo o Zeʼir Anpin se glorifica e diz: "o Senhor me disse: 'meu filho és Tu'" etc. — como está acima, no §26. Pois no Midrash disseram que o Senhor, nosso D'us, é único e singular acima de todos os "uns" do mundo — como foi citado acima — e não tem auxiliar que lhe corresponda, pois Ele é capaz e não precisa de auxílio de nenhum outro.

פב) ובמדרש רבה פרשת ואתחנן. שמע ישאל ה' אלהינו ה' אחד, זהו שאמר הכתוב מי לי בשמים ועמך לא חפצתי בארץ, רב אמר ב' רקיעים הם שמים ושמי השמים. ר' אלעזר אמר שבעה רקיעים הם שמים ושמי השמים. רקיע, שחקים, מעון, זבול, ערפל, וכולו פתח הקב"ה לישראל להודיען שאין אלוה אחר אלא הוא. אמרה כנסת ישראל לפני הקב"ה. מי לי בשמים חוץ מכבודך. כשם שאין לי בשמים אלא אתה, כך לא חפצתי אחר בארץ. אלא אני נכנסת בכל יום לבתי כנסיות ומעידה עליך שאין אלוה אחר אלא אתה ואומרת שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד. הנך רואה ידידי דברי רז"ל הנז' במדרש עומדים נגד הקבלה החדשה. שהרי בשמע ישראל שהוא קבלת עול מלכות שמים, המקובלים החדשים משתפים בו אבא ואימא וזעיר ונוקביה כמבואר בזהר ואתחנן. הובא לעיל סי' מ"ב, מה שלא עלה על דעת רז"ל שייעשה כן בישראל וגדולה מזו. אמרו בעלי הקבלה החדשה, שהמתפלל לאין סוף הסבה הראשונה אין תפלתו תפלה, אלא צריך להתפלל דוקא לז"א ליחד זוגתו עמן וגם לשתף במחשבה אבא ואימא ואריך אנפין ועתיק יומין כמו שכתבתי לעיל ב' כסא אליהו ויושר לבב. שהמיחד תפלתו לז"א בלי צירוף ושתוך פרצופים הנז' אינו נענה מהרה, וזה סוד מה תצעק אלי כדלעיל סי' ל'. עוד אמרו במדרש רבה פרשה הנז"ל. וז"ל שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד, רבנן אמרי אמר הקב"ה בני כל מה שבראתי בראתי זוגות, שמים וארץ זוגות, אדם וחוה זוגות, העולם הזה והעה"ב זוגות, אבל כבודי אחד ומיוחד בעולם, מנין ממה שקרינו בענין שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד עכ"ל. גם דברי המדרש אלו עומדים נגד הקבלה החדשה שאמרה שזעיר ונוקביה הוא אלוהינו ואנחנו עמו וצאן מריעתו. ואותו נעבוד במצות אבא ואימא, והוא משתבח בעצמו ואומר ה' אמר אלי בני אתה וכו' כדלעיל סי' כ"ו. שהרי במדרש אמרו כי ה' אלהינו אחד ומיוחד מכל האחדים שבעולם כנז' לעיל, ואין לו עזר כנגדו לפי שהוא יכול ואינו צריך לעזר זולתו.
Nota — o Shma e as kavanot cabalísticas. O comentário do Zohar Va'etchanan sobre o Shma (citado por Qafih como §42) não propõe rezar a Abba, Imma, Ze'ir e Nukva em lugar de D'us. O Zohar propõe uma meditação (kavvaná) em que cada parte do versículo evoca um aspecto da revelação divina — mas o movimento da oração é de unificação (yichud), não de dispersão. O Shma termina em Echad — "Um" —, e toda a meditação converge para esse Um. R. Shneur Zalman de Liadi (Tanya, Sha'ar haYichud, cap. 7) explica: a afirmação "Hashem Echad" nos mundos múltiplos é a grande verdade mística — que Ein od milvado (não há nada além d'Ele), e os mundos são como luz perante a chama, sem existência própria. O Midrash Rabba e o Zohar concordam no essencial: D'us é absolutamente singular. O debate é sobre o método de meditação durante a recitação — não sobre a Unidade em si. II, §1–3.

Sobre estas seções · עִיּוּן

Os Princípios 1 e 2 do Rambam — fundamento partilhado

As formulações do Shvilei Emuná (R. Meir Aldabi, séc. XIV) que Qafih cita resumem o núcleo do racionalismo judaico medieval: D'us existe de modo absoluto, tudo o mais depende d'Ele; e Sua Unidade não se assemelha a nenhuma unidade que a mente humana possa conceber. Esse duplo fundamento — mechuyav hametsiyut (existência necessária) e yichud ayn kehamóhu (unicidade sem semelhante) — está no Rambam (Mishné Torá, Hilkhot Yesodei haTorá 1:1–7), em Saadia Gaon (Emunot veDeot, Tratado II) e, na sua linguagem própria, nos próprios cabalistas: o Ein Sof é justamente "sem fim", sem limite, sem composição — mais Uno do que qualquer outra coisa.

Os 13 pactos da circuncisão — intelecto, amor e unidade

O ensinamento dos Chidushei Geonim — de que a circuncisão aperfeiçoa o intelecto que conhece e se adere ao Uno — é uma jóia pouco conhecida da literatura geônica. A correlação entre milá e yichud (a unidade) percorre toda a tradição: Abraão foi chamado "echad" (um — Yechezkel 33:24) justamente por ter recebido o brit; os 13 pactos aludem aos 13 anos em que a criança se torna capaz de compreender o amor a D'us além do simples temor. A frase "uno com a perfeição última da unidade" (achad tachlit hayichud) é o mais alto título da unicidade divina.

A hierarquia luriânica — mapa ou pantheon?

A longa lista que Qafih apresenta na seção 81 — Ein Sof, Adam Kadmaa Stima, Adam Kadmon, Atik, Arikh, Abba, Imma, Ze'ir, Nukva — reproduz fielmente a cosmologia do Etz Chaim. A questão central é hermenêutica: é essa uma descrição ontológica de entidades distintas, ou é um mapa simbólico das formas em que o único Ein Sof se revela na criação? Para Qafih: o primeiro (e é, portanto, politeísmo). Para a tradição: o segundo — os partzufim não existem "ao lado do" Ein Sof, mas são aspectos de sua ação; o Ein Sof está inteiro em cada um deles, como a voz do cantor está inteira em cada sala.

O Midrash e o Shma — glória única, amor único

A frase do Midrash Rabba Va'etchanan — "mas Minha glória é iadid umeyuchad única e singular no mundo" — resume a intuição central do capítulo. O Shma não é apenas uma declaração teológica, mas a oração diária que Israel recita ao entrar na sinagoga "para testemunhar que não há outro D'us senão Tu". Essa confissão — que abraça toda a teologia do capítulo, racionalista e mística — é o ponto de encontro de toda a tradição: a Unidade de D'us que não tem semelhante.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXXIII

"A Sitra Achra e o Maharashal"

סִטְרָא אָחֳרָא וּמְהַרְשַׁ"ל
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih vai do Midrash — "não te mistures com quem diz que existe um segundo deus" — ao sistema luriânico dos kelipot como panteão de "deuses impuros"; e ao Maharashal (R. Shlomo Luria), que detectou o problema antes de todos: o Zohar veio de fora, sem uma sola alusão no Talmude. Encerra com dois casos concretos — o vinho derramado na Seder e os tefilin no Musaf de Rosh Chodesh — nos quais Qafih enxerga libação idolátrica e crença em "duas autoridades".

O Midrash — "não há segundo" — e a dualidade dos hereges

(83) Ainda no mesmo Midrash, sobre o versículo "Teme ao Senhor e ao rei, e não te mistures com os que mudam" (Mishlei 24:21): "que quer dizer 'rei'? — entronizaste-O sobre ti; e 'com os que mudam' — não te mistures". Quer dizer: com aqueles que dizem que existe um segundo deus — não te mistures, etc. Disse R. Acháh: o Santo, bendito seja, ficou furioso com Salomão quando disse aquele versículo. Disse-lhe: "Uma palavra acerca da santidade de Meu Nome devias dizer em forma de notarikon — 'com os que mudam, não te mistures'?!" Imediatamente Salomão voltou e explicou o assunto explicitamente: "Há um, e não há segundo; também filho e irmão não há para ele. Não há para Ele irmão nem filho. Antes: Shma Yisrael Hashem Eloheinu Hashem Echad" (fim da citação). E assim explica o mestre Etz Yosef R. Chanoch Zundel: "'Existe um segundo deus' — porque os hereges dizem: como é possível que o bem e o mal procedam de uma única fonte? Por isso creem na dualidade, etc."

E no Yalkut Shim'oni, Kohelet, remez 971. E em Kohelet Rabbá sobre "Há um, e não há segundo" — "Um, esse é o Santo, bendito seja, de quem está escrito 'Shma Yisrael Hashem Eloheinu Hashem Echad'. E não há segundo. Também filho e irmão não há para ele." "Irmão, de onde teria Ele? Mas é que Ele amou a Israel e os chamou filhos e irmãos." "E não há fim a todo o seu amal que trabalhou nos seis dias da Criação." (Explicação: "amal" aqui não é expressão de esforço e fadiga, pois não há esforço nem fadiga diante de Quem disse e o mundo existiu. Aleph-Mem-Lamed é expressão de ação — assim como na língua árabe se chama à ação amal. E assim deves explicar a expressão do poeta das selichot da vigília da madrugada, que disse: "tem misericórdia do Teu amal, como a Tua ação" (piedade de Tua obra, conforme Tua ação).) "E para quem trabalho e privo minha alma de bem?" — "não é para me unir a Ele e caminhar nos Seus caminhos? E quem não faz assim — também isso é tudo vã e coisa má" (fim da citação, no que nos concerne).

פג) עוד שם במדרש על פסוק ירא ה' את בני ומלך, מהו מלך, המליכהו עליך ועם שונים אל תתערב. עם אלו שאומרים יש אלוה שני אל תתערב וכו'. אמר ר' אחא כעס הקב"ה על שלמה כשאמר הפסוק הזה. אמר לו דבר של קדוש שמי היית אומר בלשון נוטריקון עם שונים אל תתערב מיד חזר ופירש את הדבר. יש אחד ואין שני גם בן ואח אין לו. אין לו אח ולא בן. אלא שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד עכ"ל ופי' הר' עץ יוסף. יש אלוה שני. כי המינים אומרים איך יתכן פועל טוב ורע יוצא ממקור אחד? לכן הם מאמינים בשניות וכו'. ובילקוט קהלת רמז תתקע"א. ובקהלת רבותי יש אחד ואין שני. אחד זה הקב"ה דכתיב ביה שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד. ואין שני גם בן ואחר אין לו. אח מהיכן יש לו? אלא שחיבב את ישראל וקרא אותם בנים ואחים. ואין קץ לכל עמלו שעמל בששת ימי בראשית (פי' עמל הנז' כאן איננו לשון טורח וידיעה. שאין יגיעה וטורח לפני מי שאמר והיה העולם. א"א הוא לשון פעולה, שכן בלשון ישמעאל קורין לפעולה עמל. ובן תפרש לשון הפיטן מתקן הסליחות דאשמורות שאמר חוסה על עמלך במו פעלך) ולמי אני עמל ומחסר את נפשי מטובה, לא להדבק בו וללכת בדרכיו? וכל מי שאינו עושה כן. גם זה הכל וענין רע הוא עכ"ל לעניינינו.
Nota — "não há um segundo deus" e a Sitra Achra na tradição. O Midrash citado (Kohelet Rabbá, Yalkut Kohelet) é explícito: D'us é absolutamente único — "não há segundo, não há filho, não há irmão." Qafih vai usar esse Midrash para atacar a Sitra Achra luriânica. Mas o próprio Talmude conhece o conceito de forças opostas no mundo, como "este em face daquele criou D'us" (Kohelet 7:14; Midrash) — a dualidade do bem e do mal na criação. A diferença crucial: a Sitra Achra da tradição cabalística não é um segundo criador ou um segundo deus — é o polo do mal dentro da criação, subordinado à vontade divina, criado por D'us para os Seus propósitos (livre-arbítrio, teshuvá, tikkun). O Tanya (caps. 6–8) é explícito: a Sitra Achra "não tem existência própria" e é "como sombra diante da luz" — aniquilada na revelação do Ein Sof. O Midrash sobre "não há segundo" diz: D'us não tem sócio divino, não tem concorrente eterno — e a Cabalá afirma exatamente o mesmo sobre o Ein Sof.
A Sitra Achra — e o Maharashal contra as inovações

Das suas palavras dos nossos Sábios aprendemos que é óbvio para eles que a unidade do Nome — bendito seja — no Shma Yisrael é sem incluir Abba e Imma e Zeʼir e Nukva. Diferentemente do que disse no Zohar Va'etchanan, citado acima, no §42 — e examina ali, em nome de R. Chatar, que quem tem tal intenção tem a "doutrina exterior", e não é "a porção de Jacó". E quando observas as palavras da nova Cabalá, verás não apenas que creem na existência de muitos deuses sagrados, mas também — além disso — que creem na existência de outros deuses impuros, com dez sefirot, chamadas sefirot dos kelipot cascas/impurezas; e com muitos partzufim, como há na santidade — como já escrevemos acima. E são chamados por eles Sitra Achra Messa'ava o "outro lado impuro", como está explicitado em tudo isso nos seus livros. E são eles os que trazem o mal ao mundo. E às vezes dominam também sobre os deuses sagrados que os cabalistas adoram, e os subjugam com mão forte — como escreveu o autor do Mishnat Hasidim R. Imanuel Chai Riki, Masekhet Leil Pesach, cap. 7, mishná 3: "E se o Santo, bendito seja (Arikh Anpin), não tivesse redimido os nossos ancestrais (Abba e Imma) do Egito (Adam Beliyal) — que está agarrado à garganta de Arikh Anpin e toma o fluxo shefa e o impede de descer a Zeʼir Anpin —, Zeʼir Anpin teria permanecido no exílio e em grande sofrimento, como um feto no ventre de sua mãe." Examina ali também a mishná 4.

E eis que já trouxe nas seções 13 e 14 parte das palavras do grande mestre, o Maharashal R. Shlomo Luria, nas suas Responsas e no Yam shel Shlomo — acerca dos muitos que esmiuçam as leis minuciosamente para colocar os tefilin da mão sentado antes de os amarrar. E eis as suas palavras: "Sabe, meu querido, que recentemente vieram inovadores e querem ser do grupo dos cabalistas e dos intérpretes dos mistérios — e são fracos de visão. Não enxergam a luz do Zohar, e não sabem de onde ele veio e para onde foi, e qual é a sua intenção. Apenas assim acharam nos escritos de Rashbi. E sabe que todos os meus santos mestres que serviram os Geonim do mundo não praticavam assim — apenas conforme as palavras do Talmude e dos poskim. E é hora de abrir os olhos e ver se há substância nisso: é impossível que nenhum autor o tenha mencionado; ou também que não tenha escapado nenhuma alusão no Talmude Bavli ou Yerushalmi, Sifra e Sifre, She'iltot e Pesikta. E quem não sabe atingir corretamente o seu oculto fundamento virá a 'cortar os rebentos'. Por isso, meu querido, não andes no caminho deles. E não tens nada a ver com os mistérios dos que se envaidecem de inovações, como se soubessem e entendessem os segredos da Torá e seus tesouros — oxalá chegassem ao que está revelado! Mas sabe que quem muda — sua mão está por baixo, e a nossa por cima" (fim da citação). Também escreveu o Ravid haZahav em seu nome: "e quem ensina ao contrário do Talmude é passível de morte." E como escreveu no livro Tzach veAdom em nome do Maharashal, nas Teshuvot haHadashot: "que todo aquele que é rigoroso em não comer carne logo após o queijo sem verificar se tem restos nos dentes antes do tempo necessário — o rigoroso é passível de morte, etc." E no Yam shel Shlomo escreveu: que desde que o Talmude foi selado, não se pode ser rigoroso contra o Talmude — e isso seria como heresia."

ומדבריהם למדנו דפשיטא להו לרבנן כי יחוד השם, ית' בשמע ישראל הוא מבלי לכלול עמו אבא ואימא וזעיר ונוקביה, ודלא כמו שאמר בזהר ואתחנן המובא לעיל סי' מ"ב ועיין שם בשם ר' חטר שהמכוין כן דעת חיצונית היא ולא כאלה חלק יעקוב, וכשהתבונן בדברי הקבלה החדשה תמצא שלא זו בלבד שהם מאמינים במציאות אלהים רבים קדושים כי אף גם זאת שהם מאמינים במציאות אלהים אחרים טמאים בעלי עשר ספירות, ונקראים ספירות דקליפה. ופרצופים רבים להם כמו בקדושה כדכתבינן לעיל. ונקראים אצלם סטרא אחרא מסאבא כמבואר כל זה בספריהם והם הםועלים את הרע בעולם. ולפעמים שולטים גם כן על האלהים הקדושים אשר יעבדו אותם המקובלים. ומשתעבדים בהם בחזקת היד כמו שכתב מעל משנת חסידים מסכת ליל פסח פרק ז' משנה ג' וז"ל ואלו לא גאל הקב"ה (אריך אנפין) את אבותינו (אבא ואימא) ממצרים (אדם בליעל) האחוז בגרון דאריך אנפין ונוטל השפע ומונעו מרדת לזעיר אנפין והיה זעיר אנפין נשאר בגלות וצער גדול כולד המעובר במעי אמו. עיין שם גם במשנה ד' שם, והנה כבר הבאתי ס' י"ג וי"ד מקצת מדברי הר' הגדול מהרש"ל בתשובותיו ובס' ים של שלמה הרבה מהמדקדקים דקדוקי עניות להניח תפילין של יד מיושב. דע אהובי כי חדשים מקרוב באו ורוצים להיות מכת המקובלים וממדרשי הנעלמים ומחלושי הראות. לא יביטו באור הזהר ולא ידעו מצאו ומובאו וכוונתו. אלא שכך מצאו בספרי הרשב"י ודע שכל רבותי הקדושים ששמשו גאוני עולם לא נהגו כך אלא כדברי התלמוד והפוסקים. ועת הפקח עיניך וראה אם יש בזה ממש אי אפשר שלא הזכירו שום מחבר. או גם לא אשתמיט רמז בתלמוד בבלי או ירושלמי ספרא וספרי ושאלתות ופסיקתא. ומי שלא ידע להשיג סודה על נכון יבוא לקצץ בנטיעות. לכך אהובי אל תלך בדרך אתם. ואין לך עסק בנסתרות המתיהרי' בחידושים. כאלו הם יודעים ומבינים רזי תורה וספוניה. והלואי שיגעו הגלוים. אבל דע שכל המשנה ידו על התחתונה. וידינו על העליונה עכ"ל. עוד כ' רביד הזהב בשמו וז"ל והמורה היפך התלמוד חייב מיתה. וכמו שכ' בס' צח ואדום בשם רש"ל בתשו' החדשות וז"ל שכל המחמיר שלא לאכול בשר אחד גבינה בלא דריעותא דאית ליה בשינוהי. כי המחמיר חייב מיתה וכו' ובס' ים שלמה כ' דמאחר שנחתם התלמוד אין להחמיר נגד התלמוד והוי כמו מינות ע"ש.
As alusões do Maharashal — e a resposta ao Sh"kh

Presta atenção, leitor, às palavras do Gaon Maharashal e às suas alusões. Disse que os fracos de visão não enxergam. E não sabem de onde veio e para onde foi o livro do Zohar — pois o Zohar veio da mão de um filho de estrangeiro ben nakhar e chegou aos sábios de Toledo, como escreveu o mestre Chida R. Yosef Chaim David Azulai em seu livro Shem haGedolim. E o que escreveu "e qual é a sua intenção" quer dizer: que toda a sua intenção era fazer o povo de Israel crer em muitos deuses. E o que escreveu "abre os olhos e vê se há substância em seus palavras, etc." — quer dizer: se são verdadeiras as suas palavras, já que assim disse Rashbi, é impossível que nenhuma alusão tenha escapado no Talmude Bavli e no Yerushalmi, no Sifra e no Sifre, nas She'iltot e na Pesikta — do que Rashbi teria dito aos seus contemporâneos. Pois ele era colega dos sábios da Mishná, e é impossível que não ouviram dele uma palavra de todo o que está dito no Zohar e nos Tikunim. Portanto, com certeza, tudo é mentira e engano. E quem não sabe atingir corretamente a Torá através do Talmude e dos poskim virá a "cortar os rebentos" — a crer que há muitos deuses —, como conclui no final das suas palavras: "e isso seria como heresia." E como disse Salomão, o rei, de abençoada memória: "Peti ya'amin lekhol davar, ve'arum yavin le'ashuro" "o ingênuo acredita em tudo; o inteligente entende o seu caminho". Também escreveu o Ravid haZahav: "e embora o Sh"kh R. Shabbatai Kohen tenha escrito que as palavras do Maharashal não são imperiosas, e também o Damesek Eliezer as trouxe — o Kenesset haGedolá R. Chaim Benveniste — perguntando: o que há de heresia naquilo que o homem é rigoroso consigo mesmo?" (fim da citação, no que nos diz respeito).

שים לבך אתה הקורא לדברי הגאון מהרש"ל ורמיזותיו שאמר שחלושי הראות לא יביטו. ולא ידעו מוצאו ומובאו של ספר הזהר. כי מיד בן נכר יצא ובא לחכמי טוליטולא כמו שכ' הר' חיד"א בספרו שם הגדולים. ומה שכתב וכוונתו, ר"ל שכל כוונתו להטעות עם ישראל להאמין באלהים רבים. ומה שכ' פקח עיניך וראה אם יש בזה ממש וכו' כלומא אם אמת דבריו שכן אמר רשב"י לא אשתמיט שום רמז בתלמוד בבלי וירושלמי וספרא ספרי. ושאלתות ופסיקתא ממה ששמעו מרשב"י. כי חבר היה לחכמי המשנה ואי אפשר שלא ישמעו ממנו דבר מכל הנאמר בזהר ותיקונים. אלא ודאי הכל שקר וכזב. ומי שלא ידע להשיג תורה על נכון בלתמוד וםוסקים יבוא לקצץ בנטיעות להאמין שאלהים רבים וכמו שמסיים בסוף דבריו והוי כמו מינות. וכמאמר שלמה המלך ע"ה פתי יאמין לכל דבר. וערום יבין לאשורו. עוד כתב רביד הזהב ואע"ג דהש"ך כ' דאין דברי המרש"ל מוכרחים, וגם הדמשק אליעזר הביאם הכנה"ג המה עלוי דמה מינות שייך במה שהאדם מחמיר על עצמו וכו' ע"כ לעינינו.
Nota — o Chida e o Maharashal: contexto histórico da crítica ao Zohar. Qafih cita uma afirmação do Chida (R. Yosef Chaim David Azulai, 1724–1806) em seu Shem haGedolim de que o Zohar "veio da mão de um filho de estrangeiro e chegou aos sábios de Toledo." O próprio Chida, porém, era um profundo cabalista e autoridade halákica que afirmou o Zohar em suas obras. A referência a "Toledo" diz respeito às teorias históricas sobre a origem do Zohar — que é apresentado como escrito por Rashbi (séc. II d.C.) mas surgiu no século XIII no círculo de R. Moisés de León. Esse debate histórico-acadêmico (abordado por Gershom Scholem e Yehuda Liebes) é distinto da questão halákica e espiritual: independentemente da autoria, o Zohar foi recebido como texto sagrado pela maioria esmagadora do mundo judaico por séculos. O Sh"kh (R. Shabtai Kohen, 1621–1662) e o Kenesset haGedolá (R. Chaim Benveniste, 1603–1673) fazem a objeção natural: ser rigoroso em chumrot não é heresia mesmo que a razão seja cabalística — a rigorosidade em si não implica crença errada.
A defesa do Maharashal — e dois exemplos de heresia prática

Como muito se surpreenderá o leitor correto com as palavras do Sh"kh, que escreveu sobre as palavras do Gaon Maharashal que elas não são imperiosas — ele mesmo não chegou ao fundo do seu pensamento. E tanto mais sobre a estranheza do Damesek Eliezer em questionar: como lhe encheu o coração questionar um grande homem como o Maharashal, que navegou no mar do Talmude, do Sifra, do Sifre e das She'iltot, e seus olhos viram e suas pálpebras provaram, pois há neste assunto do Zohar e dos novos cabalistas um caminho torturante — e ele sozinho soube de onde veio e para onde foi. Pois da mão de um não-judeu saiu e veio até nós, para nos seduzir e nos desviar a crer em muitos deuses e a servir deuses estranhos. Causas muitas, recém-inventadas, criadas — são as formas e os partzufim que o autor do Zohar inventou em seus pensamentos. E é isso que o Maharashal disse ao escrever que não sabem de onde veio e para onde foi e qual é a sua intenção. E acrescentou ainda: "abre os olhos e vê se há substância em suas palavras, e se de fonte confiável saíram coisas tais — a multiplicidade de divindades em partzufim variados, com reino e domínio para eles —; que não tenha escapado nenhuma alusão disso no Talmude Bavli e no Yerushalmi, no Sifra e no Sifre, na Pesikta e nas She'iltot!" — com certeza, essas coisas não saíram de Israel e são estranhas chitzonim. E por isso disse: "portanto, meu querido, não andes no caminho deles etc.". E mesmo quem tem a intenção de ser rigoroso consigo mesmo — dado que essa rigorosidade não tem nenhuma alusão no Talmude, e ele se exige aquilo em que os Sábios não se exigiram, seria como heresia, como ensinaram acerca dos "pintados" que se abstêm de tudo: "não passo nem em branco" — também em preto não passe — como escreveu o Tosafot Yom Tov, o que será citado adiante, no §25. Porém ainda maior é a admiração diante do Damesek Eliezer, ao dizer "que heresia há no que o homem é rigoroso consigo mesmo?" — pois é sabido e difundido que em todos os novos proibidos, rigorosidades e costumes que o Zohar e os novos cabalistas que vieram após ele introduziram, todos têm uma razão segundo o seu sistema de crença em muitas divindades. E o Maharashal, de abençoada memória, sentiu a sua estranheza, pois os seus olhos viram e as suas pálpebras provaram, pois "nos filhos dos estrangeiros, adoradores de ídolos, se satisfizeram", e há um caminho de sofrimento nos motivos dos novos proibidos, das rigorosidades e dos costumes que introduziram — diferentemente do caminho da Guemará — e eles contêm "a sabedoria do estrangeiro" idolatria.

E como os primeiros — como R. Tam ibn Yahya, o Mahara"i Albo e o Maharashal e semelhantes a eles — temiam muito por si mesmos, não fossem atacados pelos fanáticos zelotes, como Jezebel a Elias, por isso atribuíram o erro aos estudantes e os advertiram — mas, de acordo com a verdade clara, aquelas rigorosidades são heresia absoluta. E eis um exemplo: o que escreveu o mestre do Mishnat Hasidim, Masekhet Leil Pesach, cap. 11 — que quando se diz na Hagadá "sangue, fogo e colunas de fumaça", e também ao mencionar as dez pragas em detalhe e em conjunto, deve-se derramar do cálice para um vaso quebrado — que alude ao kelipá chamada Arur maldita; e por isso "a Malkhut (que é a Dashetana)" cessará do seu "sangue de menstruação" e ficará pronta para a união, e será purificada e inseminada de descendência; pois o vinho que fica nela é o "vinho que alegra" — sangue puro que depois se transforma em leite. E o sábio — os seus olhos estão em sua cabeça para entender: pois algo assim quem o faz está libando para a idolatria, pois está libando do seu cálice ao kelipá chamado Arur para reparar a Malkhut — e o seu vinho é proibido em benefício pela Torá, pois libou dele para o kelipá chamado Arur para o seu reparo. E o ato de libação é uma das quatro formas de culto idolátrico pelas quais se é responsável, tanto se é o modo habitual do culto, como se não é — como ensinado no Sanhedrin, cap. "Quatro Mortes", fl. 60b. E também o que insistem em retirar os tefilin antes do Musaf de Rosh Chodesh: o motivo é que os tefilin pertencem ao Zeʼir Anpin, do qual dizem os nossos Sábios, de abençoada memória, no Masekhet Berakhot, que o Santo, bendito seja, usa tefilin; e no Musaf de Rosh Chodesh chega uma grande luz de Atik Yomin — que é o D'us mais alto, que não usa tefilin, pois os tefilin pertencem ao de curta face Zeʼir Anpin. E é isso que constitui heresia: crer em dois domínios reshuyot — um usa tefilin e outro não usa tefilin. E assim o Santo, bendito seja, já não é Um.

הנה מה מאד יתפלא הקורא הנכון על דברי הש"ך שכתב על דברי הזאון מהרש"ל שאין דבריו מוכרחים. והוא בעצמו לא ירד לסוף דעתו, וכל שכן על תמיהת הדמשק אליעזר איך מלאו לבו לתמוה על אדם גדול כמהרש"ל אשר שט בים התלמוד וספרא וספרי ושאלתות ועיניו ראו ועפעפיו בחנו, כי דרך עצב בדבר הזהר והמקובלים החדשים, והוא לבדו ידע מהיכן מוצאו ומובאו, כי מיד עכו"ם יצא ובא אלינו, להסית ולהדיח אותנו להאמין באלהים רבים ולעבוד אלהים אחרים. סבות רבות מחודשות נבראות המה הצורות והפרצופים שהמציא מחבר הזהר ברעיונותיו, וזהו שכ' רש"ל שלא ידעו מוצאו ומובאו וכוונתו. והוסיף עוד לומר פקח עיניך וראה אם יש ממש בדבריו וממקור נאמן יצאו דברים כאלה רבוי באלהות בפרצופים שונים ומלכות וממשלה להם, לא לשתמיט שום רמז מזה בתלמוד בבלי וירושלמי וספרא וספרי ופסיקתא ושאלתות, אלא ודאי לא מישראל יצאו הדברים האלה וחיצונים הם, ולכך אמר לכן אהובי אל תלך בדרך אתם וכו', ואף מי שדעתו להחמיר על עצמו, הואיל ואין לזאת החומרא שום רמז בתלמוד והוא מקפיד בדבר שלא הקפידו בו חכמים הוי כמו מינות כדתנן בצבועים איני עובר אף בלבנים לא יעבור וכמ"ש התוספת י"ט ויובא לקמן סי כ"ה. אכן עוד תגדל הפליאה על הדמשק אליעזר באמרו מה מינות שייך במה שאדם מחמיר על עצמו, כי ידוע הוא ומפורסם בכל האיסורים והחומרות והמנהגים שחידשו הזהר והמקובלים החדשים הבאים אחריו, כולהו אית בהו טעמא לפי שטתם באמונת אלוהות רבים, והרש"ל ז"ל הרגיש בזרותם כי עיניו יחזו ועפעפיו יבחנו, כי בילדי נכרים עובדי ע"ז ישפיקו, ודרך עוצב יש בטעמי האיסורים והחומרות והמנהגים שחידשו שלא כדרך הגמרא ואית בהו לתא דע"ש. ולפי שהראשונים כר' תם ן' יחיא ומהר"י אלבו והר' מהרש"ל וכיוצא בהם יראו לנפשם מאד פן יפגעו להם הרודפים הקנאים כאיזבל לאליהו, לכן תלו הטעות בלומדים והזהירום ממנה, ולפי האמת הברור כי אותן החומרות מינות גמורה. והא לך דוגמא מה שכתב הרב משנת חסידים מסכת ליל פסח פרק י"א שכשאומר בהגדה דם ואש ותימרות עשן וכן בהזכירו עשר מכות בפרט ובכלל ישפוך מהכוס לתוך כלי שבור הרומז אל הקליפה הנקרא ארור, ועל ידי זה תפסוק המלכות (שהיא דשתנא) מדם נדתה ותהיה ראויה לזווג ונקתה ונזרעה זרע, כי היין הנשאר בה הוא יין המשמח דם טהור המתהפך לחלב אחר כך ע"כ. והחכם עינוי בראשו להשכיל, דבל כי האי גונא מנסך הוא לע"ז שמנסך מכוסו לקליפה הנקראת ארור כדי לתקן המלכות ויינו אסור בהנאה מן התורה שהרי ניסך ממנו לקליפה הנקראת ארור כדי לתקן, והמנסך היא אחת מארבע עבודות שחייב עליהן בין שדרך עבודתה בכך, בין שאין דרך עבודתה בכך כדתנן בסנהדרין פ' ארבע מיתות, דף ס' ע"ב. וכן מה שמקפידין לחלוץ התפלין קודם מוסף ראש חדש טעמא הוא לפי שהתפילין הם בז"א שלפי דבריהם עליו אמרו רז"ל במס' ברכות שהקב"ה מניח תפילין, ובמוסף ר"ח הוא בא אור גדול מעתיק שהוא האלוה העליון שאינו מניח תפלין, כי התפלין הם שייכים לקצר אפים שהוא זעיר אנפין, וכי האיי גונא מינות הוא להאמין ברשויות הרבה, זה מניח תפילין וזה אין מניח תפילין, והרי אין הקב"ה אחד.
Nota — o vinho na Seder e os tefilin no Musaf: contexto das práticas.
(1) O vinho derramado na Seder. O Mishnat Hasidim (R. Imanuel Chai Riki, 1688–1743) instrui a derramar vinho em um vaso quebrado ao mencionar as pragas. A intenção na tradição é de separação do julgamento (havdalat hadin): direcionar para fora do espaço sagrado as "faíscas" do julgamento invocadas ao mencionar as pragas. Isso é análogo ao bode expiatório (se'ir la'Azazel) — um mecanismo de separação, não de adoração. A expressão "Malkhut — Dashetana" é uma metáfora pela Shekhinah em estado de ocultamento/exílio (como a Lua que não brilha), que retorna ao estado pleno de revelação (yibbum espiritual). Chamar isso de "libação idolátrica" (nisukh yeyin) exige (a) que a kelipá seja um deus independente (a tradição nega); (b) que o vinho seja derramado com intenção de adoração (a tradição nega); (c) que o ato constitua um dos quatro serviços idolátricos proibidos — conclusão que nenhum grande posek aceitou. A leitura de Qafih é possível dentro da sua visão dos kelipot, mas é a posição do Dor Deah, não da halakhá dominante.
(2) Os tefilin no Musaf de Rosh Chodesh. O costume de retirar os tefilin antes do Musaf é generalizado entre asquenazim e sefaradim — mas as explicações variam. O Rema (R. Moisés Isserles, Orach Chaim 25:2) cita o costume sem a razão cabalística; a razão mais comum é que Rosh Chodesh é chamado ot (sinal), e usar dois otot simultaneamente (Musaf + tefilin) seria problemático. A explicação do Ari (Ze'ir vs. Atik) é uma camada adicional, não a razão fundamental. Que "um ser divino usa tefilin e outro não" seja a conclusão necessária do costume — isso é, novamente, a leitura de Qafih, que pressupõe interpretação literal da metáfora cabalística.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O Midrash e a questão do segundo deus

O versículo de Mishlei 24:21 — "não te mistures com os que mudam" — foi lido pelos Sábios do Midrash como referência direta aos que creem em uma segunda divindade. É uma das formulações mais claras do monoteísmo militante de Chazal. Qafih usa esse Midrash para construir o argumento que segue: se qualquer "segundo" é proibido, então também o segundo panteão de divindades impuras (Sitra Achra) é proibido. Mas o Midrash diz "não há irmão, não há filho" — e a tradição cabalística usa precisamente isso: o Ein Sof não tem sócio eterno; o mal é criado, não coeterno.

A Sitra Achra — mal criado, não segundo criador

A acusação mais radical de Qafih neste capítulo é que os cabalistas creem em um segundo panteão de "deuses impuros" (sefirot d'klipah, Sitra Achra). A resposta da tradição é consistente: o mal no universo é criado, não eterno; subordinado à vontade divina, não rival a ela. O texto do Mishnat Hasidim sobre "Adam Beliyal agarrando a garganta de Arikh Anpin" é linguagem midrásho-metafórica para o estado espiritual do exílio egípcio — não uma batalha literal entre entidades divinas independentes. A Cabalá não cria um segundo criador; cria um mapa da estrutura do mal dentro da criação de um único Deus.

O Maharashal — um grande posek diante do Zohar

R. Shlomo Luria (1510–1573), o Maharashal, foi um dos maiores juristas (poskim) do seu século — ao lado do R. Yosef Karo. Sua relação com o Zohar era complexa: usava-o em decisões halákicas, mas desconfiava de certas práticas que contradiziam abertamente o Talmude. Sua linguagem era hiperbólica e polêmica — "chayav mita" no discurso rabínico significa "isso viola um princípio fundamental", não uma sentença literal. O Rema (R. Moisés Isserles), seu contemporâneo, equilibrou as tradições cabalísticas e talmúdicas, incorporando práticas do Ari nas áreas em que não contradizem o Talmude.

As chumrot e a intenção por trás delas

O argumento de Qafih — que toda chumrá cabalística carrega a lógica da crença em múltiplas divindades — é sofisticado mas discutível. O argumento do Sh"kh e do Kenesset haGedolá é igualmente sólido: a intenção do praticante (kavanát hamaaseh) é o que determina o status do ato. Um judeu que remove os tefilin antes do Musaf de Rosh Chodesh porque "assim aprendeu" ou "assim é o minhag da minha comunidade" não está professando crença em "dois domínios" — está seguindo a tradição. A questão halákica é separável da questão teológica.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXXIV

"Onde está o lugar de Sua glória?"

אַיֵּה מְקוֹם כְּבוֹדוֹ — וְהָעִיקָּר הַשְּׁלִישִׁי
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih documenta o minhag iemenita da Kedushah — sempre "Ayeh mekom kevodo" em todas as rezas — e a mudança cabalística que restringiu essa frase ao Musaf de Shabat, com base nos movimentos de Ze'ir. Contrasta com o Yigdal, o Rambam e o Ohel Ya'akov. Encerra com o Terceiro Princípio (Shvilei Emuná): D'us não é um corpo — e como o Zohar atribuiu ao Ze'ir Anpin rosto, peito, umbigo e medidas físicas.

O minhag iemenita da Kedushah e a mudança cabalística

(84) Assim é sabido e difundido que em toda a terra do Iêmen costumam dizer o rito da Kedushah na repetição da Amidá Chazarat haShatz, no texto que escreveu o Rambam, de abençoada memória, na Seder haTefilot Ordem das Preces — o texto que sempre vigora: o shaliach tzibbur representante da congregação diz a terceira bênção num texto que contém "e Seus servidores perguntam uns aos outros: onde está o lugar de Sua glória?" u'meshartav shom'im zeh lazeh: Ayeh mekom kevodo? — tanto no Shacharit, quanto no Minchá, quanto no Musaf de Shabat e de Rosh Chodesh, de Yom Tov e de Chol haMoed: sempre dizem "onde está o lugar de Sua glória?" E esse texto está fundado pelos nossos mestres, os homens da Grande Assembleia Anshe Knesset haGedolah, instituidores das orações e das bênçãos — como disseram os nossos Sábios, de abençoada memória, acima, no §52, em nome do Rokeach.

Mas há pouco tempo — cerca de cem anos, ou um pouco mais —, alguns mudaram o texto para não dizer "e Seus servidores perguntam uns aos outros: onde está o lugar de Sua glória?" — apenas no Musaf de Shabat insistem nessa expressão; nas demais rezas, silenciam quem a pronuncia. E o motivo deles: como escreveu o mestre do Mishnat Hasidim, Masekhet Rosh Chodesh, cap. 3, mishná 9: "e como Ze'ir e Nukva não ascendem, no Musaf de Rosh Chodesh, a um nível acima do nível de sua usual Emanação Atzilut — como fazem no Shabat —, portanto não dizem 'e Seus servidores perguntam uns aos outros: onde está o lugar de Sua glória?' — pois Seus servidores sabem o Seu lugar" (fim da citação). Claramente explicado em suas palavras que os mestres da nova Cabalá entendem que o dito dos mestres que instituíram as preces e dos senhores do Talmude — o dito de que o Santo, bendito seja, está oculto e vê mas não é visto, a ponto de que até os anjos e as Chayot sagradas perguntam "onde está o lugar de Sua glória?" — entendem que isso se deve ao fato de que Ze'ir se ausentou e ascendeu acima do lugar habitual de Sua glória — ou seja, especificamente no Musaf de Shabat, quando Ze'ir se ausenta e ascende acima. E então, ao ver o lugar usual de sua habitação vazio, eles perguntam "onde está o lugar de Sua glória?" Porém nas demais horas, quando Ze'ir está em Seu lugar, todos os Seus servidores sabem o lugar da morada de Sua glória e não precisam perguntar a respeito — como o dito de Yonatã ben Sha'ul a David: "amanhã é a Lua Nova, e serás faltado, pois o teu assento ficará vazio."

פד) וכן ידוע הוא ומפורסם שבכל ארץ התימן נוהגין לומר סדר קדושה בחזרת התפלה בנוסח שכתב הרמב"ם ז"ל הסדר התפלה שלעולם שליח צבור אומר ברכה שלישית בנוסח שיש בו ומשרתיו שואלים זה לזה איה מקום כבודו ובין בשחרית בין במנחה בין במוסף שבת ור"ח ויום טוב וחול המועד לעולם אומרין איה מקום כבודו והוא מיוסד מרבותינו אנשי כנה"ג מתקני התפלות והברכות, וכמ"ש רז"ל לעיל סי' נ"ב בשם הרקח. וחדשים מקרוב באו לערך מאה שנה או יותר מעט שינו הנובח שלא לומר ומשרתיו שואלים זה לזה איה מקום כבודו רק במוסף שבת בלבד מקפידים על האומרו בשאר ימים ומשתקים אותו. וטעמם כמו שכ' הר' משנת חסידים במסכת ר"ח פ"ג משנה ט' וז"ל ומפני שאין לזעיר ונוקביה. עלייה (במוסף ר"ח) עת הלמעלה ממקום אצילותם כמו בשבת. לפיכך אין אומרים ומשרתיו שואלים זה לזה איה מקום כבודו. כי משרתיו יודעים מקומו עכ"ל. הרי בהדיא מבואר בדבריו דסבירא להו לבעלי הקבלה החדשה כי מאמר רבותי' מסדרי התפלות ובעלי התלמוד שהקב"ה נעלם ורואה ואינו נראה עד שאפילו מלאכים וחיות הקדש שואלים איה מקום כבודו, הוא מצד העתקו בזמן מה לעלות למעלה ממקום משכן כבודו. דהיינו במוסף שבת דוקא שאז נעתק ועל הלמעלה. ואז כשרואים מקומו המורגל להיות שוכן שם פנוי. אז יפקד מקום מושבו ואז שואלים איה מקום כבודו. אמנם בשאר זמנים שהוא שוכן במקומו כל משרתיו יודעים מקום משכן כבודו ואין צריכים לשאול עליו כמאמר יהונתן בן שאול לדוד מחר חדש ונפקדת כי יפקד מושבך.
Nota — Ayeh mekom kevodo na tradição. A frase "Ayeh mekom kevodo?" vem da Kedushah dos anjos na visão de Yechezkel (3:12) e de Yeshayahu (6:3) — "Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos, a terra toda está cheia de Sua glória." Os anjos perguntam "Onde está o lugar de Sua glória?" como expressão de reverência mística: a glória de D'us é tão transcendente que excede qualquer "lugar." Esta fórmula foi consagrada pelos Anshe Knesset haGedolah (os homens da Grande Assembleia, séc. IV a.C.) e o Rambam a manteve em todas as rezas. Na interpretação do Ari (Pri Etz Chaim, Sha'ar haKedushah), a diferença entre rezas não implica localização física de D'us: reflete os diferentes graus de revelação da luz divina em cada momento sagrado do calendário. O "ascender" de Ze'ir Anpin no Musaf de Shabat é metáfora para a hitgalut (revelação) mais intensa da luz divina naquele momento específico — não um deslocamento espacial. A frase "Ayeh mekom kevodo" em todas as rezas, como no Rambam, é uma bela expressão do princípio de que a pergunta sobre a glória divina é sempre apropriada — pois D'us excede qualquer "lugar."
O Yigdal, o Rambam e Abraão — D'us não se desloca

E suas palavras contradizem o princípio mencionado pelos primeiros — o princípio dito no Yigdal Elohim Chai o hino litúrgico, e explicado também nas palavras do Rambam no cap. 1 dos Hilkhot Yesodei haTorá e no Moreh. E no livro Ohel Ya'akov, na Parashát Vayerá, sobre o dito de Abraão, nosso pai, ao Santo, bendito seja, "não passes, por favor, de perto do teu servo" — escreveu: que à primeira vista causa grande admiração em Abraão, nosso pai, a audácia de ter tido coragem de dizer ao Santo, bendito seja, "não passes, por favor, de perto do teu servo". E na Guemará Shabat 127a: "o costume do ser humano é que um menor não pode dizer a um maior 'espera até que eu venha até ti'" — e apesar disso, com respeito ao Santo, bendito seja, está escrito "e disse: não passes, por favor". Mas o entendimento do assunto é conforme o que está verificado e recebido por nós da boca dos nossos predecessores, de abençoada memória, e à frente deles o mestre Moreh Rambam: que o Santo, bendito seja, é elevado e exaltado acima de toda mudança, movimento e deslocamento de lugar — e, além disso, encontramos na Parashát Vayerá: "e Deus foi" etc. — não se quer dizer com isso, Deus o livre, que o Santo, bendito seja, se deslocou de Seu lugar e veio para Se revelar ao lugar do ser humano que O vê. Mas toda a aproximação d'Ele, bendito seja, e Sua revelação ao ser humano dependem somente da aproximação do ser humano a Ele — "eu sou do meu amado e o meu amado é meu" Shir haShirim 6:3; "eu sou para meu amado e a Sua vontade volta-se a mim" id. 7:11 — quer dizer: a Sua vontade para nós depende de nós. E Abraão, nosso pai, pela intensidade de sua adesão a Ele, bendito seja, Ele Se lhe revelou; e, ao chegar os hóspedes e ele se ocupar em recebê-los e matar o gado e preparar, temeu por si mesmo que poderia cair de sua adesão ao Santo, bendito seja, e pediu-Lhe "não passes, por favor, de perto do teu servo" — para que o Santo, bendito seja, não afastasse o Seu auxílio d'ele e para que não se desligasse de sua adesão a D'us no tumulto do recebimento dos hóspedes, etc. Examina ali.

ודבריהם אלו סותרים העיקר שהזכירט הראשונים האמור ביגדל אלהים חי ומבואר ג"כ בדברי הרמב"ם בפ' א' מיסודי התורה ובמורה. ובס' אהל יעקב פרשת וירא על מאמר אברהם אבינו לשי"ת אל נא תעבור מעל עבדך כתב דבהשקפה ראשונה יפלא מאד על אברהם אבינו איך ערב אל לבו לומר לפני השי"ת אל נא תעבור מעל עבדך. ובגמרא שבת קכ"ז אר"א מדת ב"ו אין קטן יכול לומר לגדול המתן עד שאבוא אצלך, ואלו בהקב"ה כתיב ויאמר אל נא תעבר מעל עבדך. אבל הבנת הענין הוא עם המאומת והמקובל אצלינו מפי קדמונינו ע"ה ובראשם הר' המורה, כי הקב"ה נעלה ומרומם מכל שינוי ותנועה והעתק מקום ובשגם מצינו בפרשת וירא וילך ה' וכו' אין הרצון בו חלילה שהקב"ה נעתק וסר ממקומו ובא להתראות אל מקום מצב מי שיראה אליו. אבל כל התקרבותו ית' והתגלותו לאדם תלוי אך בהתקרבות האדם אליו כמאמר אני לדודי ודודי לי, וזהו שאמר אני לדודי ועלי תשוקתו, כלומר תשוקתו ית' אלינו הוא דבר תלוי בידינו, ואברהם אבינו בעוצם דבקותו בו ית' נגלה אליו, ובהזדמן האורחים אצלו וצידד להכניסם ולטבוח טבח והכן ירא לנפשו שלא יפול מהדבק בשי"ת ושאל ממנו אל נא תעבור מעל עבדך, לבל יסיר הקב"ה עזרתו מאתו ולא ינתק מדבקותו בטרדת הכנסת אורחים וכו' עיין שם.
Nota — incorporeidade e "onde está o lugar de Sua glória?" na visão do Rambam e do Zohar. O Rambam (Hilkhot Yesodei haTorá 1:8–9) é absoluto: D'us não tem corpo, não tem forma, não ocupa espaço, não se move. Qualquer descrição da Torá que sugira movimento ou localização ("e Deus desceu", "e Deus foi") é metáfora — "dibra Torá kileshon bnei adam" (a Torá falou na linguagem humana). O Yigdal (composição de R. Daniel ben Yehudah, baseado nos 13 Princípios do Rambam) afirma: "ein lo demut haguf ve'einó guf" — "não tem forma de corpo e não é corpo." O Zohar, por sua vez, usa linguagem corporal para Ze'ir Anpin — mas os próprios cabalistas são explícitos: esses "órgãos" são metáforas espirituais, não anatomia. R. Moshe Cordovero (Pardes Rimonim, Sha'ar haMahut veHanhagá, cap. 4): "nenhuma descrição corporal no Zohar deve ser entendida literalmente — todos são símbolos de relações espirituais." O Tanya (Sha'ar haYichud, cap. 7) cita precisamente o "Ayeh mekom kevodo" dos anjos para explicar: os mundos não "contêm" D'us — D'us permeia tudo sem ser contido; a questão "onde?" aponta para a transcendência que nenhum espaço pode circunscrever.
O legado das gerações — abandono do Talmude pelo Zohar

Agora, vê, contempla e põe no teu coração a mudança do costume antigo — em direção à rigorosidade lechumrá dos tipos que trouxe, e também a mudança de não dizer "e Seus servidores perguntam, etc." senão no Musaf de Shabat — e não nas demais rezas, pelo motivo dito no Mishnat Hasidim: todos esses atos levam à heresia, como expliquei. E os lábios do grande mestre Maharashal e de R. Tam ben Yahya falaram claramente: que quem muda e age conforme a nova Cabalá e seus motivos traz-se a si mesmo à heresia minut.

E não fizeram bem as gerações que estiveram diante de nós nas idades médias, que abandonaram o estudo da Mishná e do Talmude e dos códigos halákicos, e fixaram a maior parte de sua ocupação no livro exterior que incita — o livro do Zohar —, e não em aprofundamento be'iyun, apenas como um pássaro que gorjeia. E mudaram para nós muitas coisas nos livros de preces e na prática dos mitsvot — os estatutos de D'us e Suas leis —, conforme a nova Cabalá. E abandonaram os costumes de seus ancestrais, fundados segundo as palavras dos senhores do Talmude, o Rambam, o Rav Saadia Gaon, R. Yehudah haLevi e semelhantes a eles. E subtraíram desses costumes e acrescentaram a eles — conforme tudo que lhes ocorria ao espírito; e a uma primeira e elementar análise, não se entende de onde vêm essas mudanças ...

מעתה ראה והתבונן ושים אל לבך בשינוי המנהג הקדום עפי' להחמיר כהני גווני שהבאתי, וכן שלא לומר ומשרתיו שואלים וכו' כי אם במוסף שבת ולא בשאר ימים מטעם האמור במשנת חסידים כולם מביאים לידי מינות כמו שביארתי ושפתי הרב הגדול מהרש"ל ור' תם בן יחיא ברור מללו, שהמשנה ועושה על פי הקבלה החדשה וטעמיה הוא מביא לידי מינות. ולא יפה עשו דורות שעמדו לפנינו בימי הבינים אשר עזבו למוד המשנה והתלמוד ופסקי הלכות וקבעו רוב עסקם בספר החיצון המסית ס' הזהר ולא בעיון, רק כעוף המצפצף, ושינו עלינו כמה דברים בסידורי התפלות ועשיית המצות חוקי האלהים ותורותיו על פי הקבלה החדשה, ועזבו מנהגי אבותם המיוסדים על פי רבותינו בעלי התלמוד והרמב"ם והרס"ג ו"רי הלוי וכיוצא, ונדעו מהן והוסיפו עליהן ככל העולה על רוחם, ובעיון ראשון ומושכל ראשון לא ירגיש האדם כי דעת חיצונית, היוצאת מגדר תורה היא, עד אשר יעמיק חקר באותו שינוי ובטעמו הנעשה שלא על פי רבותינו ז"ל, ואז ימצא באותו שינוי ואותה חומרא לתא דאיסורא או חשש ברכה לבטלה וכיוצא בזה! מה שאין כן מנהגי קדמונינו כולם הם מנוקים ומנופים מכל סיג, ומיוסדים על אדני פז על פי התלמוד והפוסקים הראשונים כהרי"פ והרמב"ם וכיוצא. הלא תראה מאי דתנן בפרק הקורא עומד, האומר איני עובר לפני התיבה כצבועין. אף בלבנים לא יעבור. בסנדל איני עובר, אף יחף לא יעבור וכו' אלמא כל דקפיד במלתא שאין דרך ישראל להקפיד חישנין שמא מחשבת שטות עלתה בו והוי מינות כמו שכ' התוספת יו"ט בשם ר"ן. ולכן כל הרוצה להדבק בשם ית' ובתורתו ירחיק עצמו מהמנהגים שנתחדשו בימי הביניים. וידבק במנהגי קדמונינו, על ידי שיתן לב ויעיין יפה בתלמוד ופוסקים הראשונים. וסדורי תפלה העתיקים ובשאר ספרי קדמונינו, ויקבע לימודו במשנה עם פי' הרמב"ם ור"ע וכיוצא ובתלמוד ופוסקים המובהקים וילך לאורם, כמאמר רבותינו ז"ל האי מאן דבעי למהוי חסידא ליקיים מי לי דאבות וברכות.
Nota — o equilíbrio entre Talmude e Cabalá na tradição halákica. A crítica de Qafih às gerações medievais que "abandonaram o Talmude pelo Zohar" reflete uma tensão real na história do judaísmo — mas a grande maioria dos decisores halákicos encontrou um equilíbrio, não uma substituição. O Beit Yosef (R. Yosef Karo, autor do Shulchan Arukh) e o Rema (R. Moisés Isserles) integraram as práticas cabalísticas nos seus códigos — com a regra: a Cabalá pode acrescentar uma prática quando não contradiz o Talmude; não pode substituir o que o Talmude estabelece. O Mishnah Berurah do Chafetz Chaim (séc. XIX–XX) adotou a mesma posição. O Ben Ish Hai (R. Yosef Chaim de Bagdá, 1833–1909) — grande posek e kabbalist — mostrou como o sistema luriânico podia ser vivido em total consonância com as exigências do Talmude e dos Rishonim. A frase de Qafih sobre "pássaro que gorjeia" ecoa o Maharashal — mas a história do judaísmo é rica em sábios que aprofundaram tanto na Guemará quanto no Zohar.
O Terceiro Princípio — incorporeidade de D'us e os "órgãos" do Ze'ir Anpin

(86) E o Terceiro Princípio, do livro Shvilei Emuná R. Meir Aldabi: afastar d'Ele, bendito seja, o atributo do corpo — pois este nosso D'us Único de quem falamos não é um corpo; nem uma força num corpo; nem O alcançam as propriedades do corpo e seus acidentes, tais como movimento e repouso — nem em essência, nem acidentalmente. E por isso os nossos Sábios, de abençoada memória, afastaram d'Ele, bendito seja, as noções de junção e separação, e disseram: "no alto não há sentar, nem estar de pé, nem costas, nem frente." "Costas" é separação; "frente" é junção — derivado de "e os filisteus haverão de bater de frente ve'áfu nos habitantes de Filisteia" (Zacarias 12:3) —, querendo dizer: haverão de os vencer ao se juntarem a eles. E o profeta disse: "e a quem Me compararás e Me igualarás?" (Yeshayahu 46:5). E se Ele fosse um corpo, seria semelhante aos demais corpos. E tudo que se encontra na Escritura que O assemelhará a formas corporais — como movimento e repouso — tudo isso é por via de transferência metafórica, como disseram os Sábios: "a Torá falou na linguagem dos seres humanos." E este Terceiro Princípio é o que está dito na Escritura: "pois não vistes nenhuma imagem..." (Devarim 4:15).

E no Moreh Nevukhim, Parte II, cap. 1, provou o Rambam que D'us não tem corpo nem força num corpo; e no Yigdal está dito: "não tem forma de corpo e não é corpo..." E os novos cabalistas contradisseram este princípio — pois disseram que o Ze'ir Anpin tem um rosto partzuf e um peito e um umbigo, e todos os membros de um ser humano. Como foi escrito nos Tikunei Zohar e no livro Niflaot Chadashot: que o Ze'ir Anpin se estende da terra até os céus; e nos Tikunei Zohar no quinto tikun, explicando a palavra bereshit como rosh, "cabeça" explica as medidas e os órgãos do Ze'ir Anpin, do ponto entre os olhos até o umbigo. E não é isso uma contradição ao dito do profeta "e a quem Me compararás e Me igualarás?" — e quanto mais ao dito do nosso mestre o Rambam, de abençoada memória, e ao dito do Yigdal? E o Rav Hai Gaon, e todos os Geonim e Chazal, explicam as descrições de forma corporal que há na Escritura e na linguagem dos ditos de Chazal sobre D'us como metáforas — como está dito: "a Torá falou na linguagem dos seres humanos."

פו) והעיקר השלישי מס' שבילי אמונה להרחיק ממנו ית' מדת הגוף, כי זה אלוהינו האחד אשר זכרנו אינו גוף. ולא כח בגוף, ולא ישיגוהו משיגי הגוף ומקריו, כגון התנועה והעמידה, לא בעצם ולא במקרה, ועל כן הרחיקו רז"ל ממנו ית' שם החיבור והפירוד, ואמרו אין למעלה לא ישיבה ולא עמידה ולא עורף ולא עיפוי, עורף הוא פירוד, עיפוי הוא חיבור, נגזר מן ועפו בכתף פלשתים, רוצה לומר יהדפום בהדבקם בהם, ויאמר הנביא ואל מי תדמיוני ואשוה, ואלו היה גוף היה דומה לשאר הגופים וכל מה שנמצא בכתוב אשר ידמוהו בדמות הגופות כגון התנועה והעמידה כל זה דרך העברה כמו שאמרו דברה תורה כלשון בני אדם, וזה העיקר השלישי הוא האמור בכתוב כי לא ראיתם כל תמונה, רוצה לומר שלא השגתם לו ית' שום תמונה. כמו שאמרנו שאינו גוף ולא כח בגוף העכ"ל. וז"ל הרמב"ם בפ"א מהל' יסודי התורה המצוי הזה הוא אלהי העולם אדון כל הארץ, והוא המנהיג את הגלגל בכח שאין לו קץ ותכלית, בכח שאין לו הפסק וכו' וידיעת דבר זה מצות עשה שנ' אנכי ה' אלהיך. וכל המעלה על דעתו שיש שם אלוה אחר חוץ מזה, עובר בלא תעשה שנ' לא יהיה לך אלהים אחרים על פני. וכופר בעיקר, שזהו העיקר הגדול שהכל תלוי בו. אלוה זה אחד הוא, ואינו שנים, ולא יותר על תנים, אלא אחד שאין כיחודו אחד מן האחדים הנמצאים בעולם, לא אחד כמין שהוא כולל אחדים רביםף ולא כאחד כגוף שהוא נחלק למחלקות ולקצוות, אלא יחוד שאין יחוד אחר בעולם כמותו. אלו היו אלוהות הרבה, היו גופים וגויות, מפנישאין הנמנין השוים במציאותן נפרדין זה מזה אלא במאורעין שיארעו לגופות ולגוית. ואלו היה היוצר גוף וגויה, היה לו קץ ותכלית, שאי אפשר להיות גוף שאין לו קץ, וכל שיש לגופו קץ ותכלית, יש לכחו קץ וסוף, ואלהינו ברוך שמו הואיל וכחו אין לו קץ ואינו פוסק שהרי הגלגל סובב תמיד, אין כחו כח בגוף. והואיל ואינו גוף, לא יארעו לו מאורעות הגופים כדי שיהיה נחלק ונפרד מאחר. לפיכך אי אפשר שיהיה אלא אחד, וידיעת דבר זה מצות עשה שנ' שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד. הרי מפורש בתורה ובנביאים שאין הקב"ה גוף וגויה שנ' כי ה' אלהיכם הוא אלהים שבשמים ממעל ועל הארץ מתחת. והגוף לא יהיה בשני מקומות ונאמר כי לא ראיתם כל תמונה ונאמר ואל מי תדמיוני ואשוה, ואלו היה גוף היה דומה לשרא גופים. אם כן מהו זה שכתוב בתורה ותחת רגליו, כתובים באצבע אלהים, יד ה', עיני ה', אזני ה', וכיצוא בדברים האלו? הכל לפי דעתן שלבני אדם שאין מכירין אלא הגופות, ודברה תורה כלשון בני אדם. והכל כנוים הם שנ' אם שנותי ברק חרבי כי חרב יש לו ובחרב הוא הורג. אלא משל, והכל משל, ראיה לדבר זה שנביא אחד אומר שראה הקב"ה לבושיה כתלג חיור. ואחר ראהו חמוץ בגדים. משה רבינו עצמו ראהו על הים כגבור עושה מלחמה, ובסיני כשליח צבור עטוף. לומר שאין לו דמות וצורה. אלא הכל במראה הנבואה ובמחזה. אבל אמתת הדבר אין דעתו של אדם מבין ולא יכולה להשיגו ולחקרו, וזהו שאמר הכתוב החקר אלוה תמצא, אם עד תכלית שדי תמצא וכו'. וכיון שנתברר שאינו גוף וגוייה יתברר שלא יארעו מאורעות הגופים, לא חיבור ולא פירוד. לא מקום ולא מידה, לא עלייה ולא ירידה, ולא ימין ולא שמאל, לא פנים ולא אחור, ולא ישיבה ולא עמידה, ואינו מצוי בזמן עד שיהיה לו ראשית ואחרית ומנין שנים. ואינו משתנה, שאין לו דבר שיגרום לו שינוי, ואין לו לא מות ולא חיים כחיי הגוף, ולא סכלות ולא חכמת כחכמת האיש החכם, לא שינה ולא יקיצה, ולא כעס ולא שחוק, ולא שמחה ולא עצבות, ולא שתיקה ולא דיבור כדיבור בני אדם, וכך אמרו חכמים אין למעלה לא ישיבה ולא עמידה לא עורף ולא עיפוי, עד כאן ל' הרמב"ם ז"ל.
Nota — os "órgãos" do Ze'ir Anpin como metáforas espirituais. A linguagem antropomórfica do Zohar sobre o Ze'ir Anpin — rosto (partzuf), peito, umbigo, medidas desde a terra até os céus — é certamente impressionante, e é a que Qafih cita para sustentar a violação do Terceiro Princípio (incorporeidade). Os cabalistas, porém, afirmaram sempre a mesma coisa que o Rambam sobre a incorporeidade do Ein Sof — e explicam a linguagem do Zohar como simbólica: (a) O Ramak (R. Moisés Cordovero, Pardes Rimonim, Sha'ar haMahut 8): "nenhum atributo ou descrição física no Zohar é literal — são todos símbolos das relações entre os mundos espirituais e as almas"; (b) O Ramchal (Klalei Pitchei Chokhmah): as sefirot e os partzufim existem no domínio do espiritual puro, não do espaço e da matéria; "medir Ze'ir Anpin" é medir a amplitude espiritual de uma modalidade de revelação divina; (c) R. Hai Gaon (citado pelo próprio Qafih): toda descrição corporal de D'us na literatura rabínica é metáfora. A diferença entre o Rambam e o Zohar não é sobre a incorporeidade de D'us — é sobre a permissibilidade de usar linguagem simbólica corporal para descrever os modos de ação divina. O Rambam diria não; os cabalistas, sim — desde que o símbolo seja entendido como símbolo.

Sobre estas seções · עִיּוּן

A Kedushah iemenita — um documento litúrgico vivo

A seção 84 é um documento histórico raro: a descrição da prática litúrgica iemenita da Kedushah antes e depois da influência cabalística luriânica. A fórmula do Rambam — "U'meshartav shom'im zeh lazeh: Ayeh mekom kevodo?" — é herdada dos anjos do Mercabá (Yechezkel 3:12) e dos homens da Grande Assembleia. A mudança — restringir essa frase ao Musaf de Shabat — foi introduzida por influência do sistema do Ari, conforme o Mishnat Hasidim. Qafih defende a prática do Rambam como a fiel expressão do princípio que D'us transcende qualquer "lugar" — e a pergunta "onde?" é sempre válida.

Abraão e a presença de D'us — o Ohel Ya'akov

A interpretação citada do Ohel Ya'akov sobre "não passes, por favor, de perto do teu servo" é exemplar do método racionalista: D'us não se move; a "passagem" de D'us junto a Abraão reflete a adesão (devekut) de Abraão a D'us. Quando Abraão temia que o tumulto do recebimento dos hóspedes pudesse interromper sua devekut, pediu que D'us "não passasse" — isto é, que a intensidade da revelação espiritual continuasse. É uma leitura profunda: a proximidade de D'us é interior, não espacial, e depende do estado espiritual do ser humano.

O Terceiro Princípio — incorporeidade e a linguagem do Zohar

O Terceiro Princípio do Rambam (D'us não é um corpo) é afirmado por toda a tradição judaica — inclusive pelos cabalistas. O debate é sobre a permissibilidade da linguagem simbólica: pode-se usar metáforas corporais para descrever os modos de ação divina (sefirot, partzufim)? O Rambam diz não — as metáforas corporais, mesmo simbólicas, levam a confusões. Os cabalistas dizem sim — desde que o símbolo seja claramente entendido como símbolo. A Shiur Komah (medidas do Criador), a linguagem dos "órgãos" do Ze'ir Anpin, os textos do Tikunei Zohar sobre as medidas "da terra aos céus" — tudo isso é lido na tradição como geometria espiritual, não anatomia divina. R. Hai Gaon (geônica) defendeu os textos da Shiur Komah da mesma forma.

O legado do Iêmen — Rambam vivo

Qafih defende apaixonadamente o rito iemenita baseado no Rambam. O Iêmen preservou uma tradição litúrgica e halákica extraordinariamente próxima ao sistema do Rambam, relativamente isolado das influências do Ari que transformaram a liturgia asquenazita e sefaradita nos séculos XVI–XVII. A visão de Qafih é a de um Iêmen que manteve a pureza do racionalismo geonônico contra a maré cabalística — e que, nas últimas cem anos antes de sua época, começou a ceder. É um testemunho apaixonado de uma tradição em risco.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXXV

Princípios IV e V — e Ze'ir Anpin, o nome cabalístico de D'us

עִקָּרִים ד' וה' — וְשֵׁם זְעִיר אַנְפִּין כְּשֵׁם הָאֵל
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O capítulo continua os Princípios do Rambam confrontados com o sistema luriânico: Rasag sobre as visões de Daniel (tudo metáfora); a doutrina das transformações circulares (iggulim) e da essência de D'us; o Quarto Princípio (eternidade) e o Quinto (adorar somente a D'us); e o crítica ao nome "Ze'ir Anpin" — "o de rosto curto" — como o nome com que os cabalistas chamam seu D'us.

Rasag sobre Daniel — as visões são metáforas; as transformações circulares (iggulim) de D'us

(87) E o Rav Saadia Gaon, no seu comentário de Daniel, cap. 7, escreve assim trad.: Sabe que "o tribunal se sentou e os livros foram abertos" Daniel 7:10, que já expliquei acima — significa o Dia do Julgamento e da Visitação: é o dia que D'us futuramente há de examinar todas as ações dos vivos e dos mortos. E o que foi escrito acima — "e o Ancião dos Dias se estabeleceu" id. 7:9 — sabe que aquele que diz ter visto o Santo, bendito seja, é um transgressor poshea, pois atribui forma a D'us, e D'us não tem forma, como está escrito "a quem compararás D'us?" (Yeshayahu 40:18). E aquele que diz ter visto um anjo é da escola dos que falam de "menor e maior" — pois somente o Santo, bendito seja, julga o mundo, como está escrito "perante D'us, pois Ele vem para julgar a terra" (Tehilim 96:13). E não há anjo que possa falar, pois "mil milhares O servem." E sabe que Daniel viu tudo isso em sonho, não com a visão dos olhos — e todo o sonho requer interpretação, pois tudo é parábola; pois também toda profecia dos profetas que viram "e sob Seus pés era como obra do sapiro azul" Shemot 24:10, "da aparência de Seus rins para cima" Yechezkel 1:27 — tudo isso não tem interpretação literal, pois o Criador não tem absolutamente forma alguma, nem forma de homem, nem forma de anjo. E toda forma que viram tem sua interpretação: o ramo de amendoeira Yirmeyahu 1:11 = "pois Eu vigio shoked sobre Minha palavra"; a visão de Micá Melakhim I 22:19 "e todo o exército dos céus está em pé à Sua direita e à Sua esquerda" — não podemos atribuir ao Criador de tudo "à Sua direita e à Sua esquerda"; tudo isso é na qualidade de parábola, como as ações dos seres humanos. (Fim da citação.)

Eis que já viram os teus olhos e ouviram os teus ouvidos, do que foi dito acima: D'us, nosso D'us, não mudou e não mudará — conforme o dito do profeta "Eu, D'us, não mudei" (Malakhi 3:6). E já se estenderam os nossos Sábios dos primeiros — o Rav Saadia Gaon, o senhor dos Chovot haLevavot, R. Yehudah haLevi, e o Rambam no comentário da Mishná, no livro de Mão Mishneh Torah e no Moreh, e o senhor do Shvilei Emuná — todos dizendo que não se pode atribuir a D'us, bendito seja, nenhuma mudança ou afetação. E também que D'us não nomeou outro para julgar a terra. E estas palavras são apoiadas por todos os nossos mestres, como está explicado em seus ditos.

E os nossos mestres, os donos da nova Cabalá, erraram em tudo isso — pois creram nas palavras do profeta da mentira que profetizou em nome do Ancião dos Dias para servir a outro D'us, "o de rosto/temperamento curto" (Ze'ir Anpin) — ele é o autor do Zohar, "que se satisfaz com os filhos dos estrangeiros" (Yeshayahu 2:6). E ele atribuiu o livro ao Rashbi R. Shimon bar Yochai, o Tanará falsamente. E portanto erraram na visão — não que simplesmente atribuíram a D'us multiplicidade e divisão de formas e diferentes partzufim e "linhas de luz". Mas atribuíram-Lhe muitas mudanças em Sua própria essência, bendito seja, e disseram que inicialmente havia um lugar e um grande espaço vazio e desocupado para que ali estivessem todos os Seus criados, e a essência de D'us tornou-se como uma esfera redonda e oca no seu interior tsimtsum; e então se operou nela outra mudança — pois Ela estendeu de Sua grande luz circundante as sefirot das esferas circulares de Adam Kadmon Stima Oculto, e depois as esferas de Adam Kadmon, as esferas de Atik Yomin, as esferas de Arikh Anpin, as esferas de Abba e Ima, também as esferas de Ze'ir e Nukva. E então se operaram nela mais muitas mudanças para também estender de Sua essência as sefirot do reto yosher na forma de Ser humano — e esses são o âmago da divindade segundo a opinião deles: primeiro o partzuf de Adam Kadmon, depois Atik Yomin, depois Arikh Anpin — e ambos são macho e fêmea: apenas que este Arikh é direito e esquerdo, e este Atik é frente e dorso; depois deles os partzufim de Abba e Ima, macho e fêmea separados um do outro; e depois deles os partzufim de Ze'ir e sua contraparte Nukva, também separados. E esses SÃO o D'us ao qual, segundo suas palavras, se destinam todas as nossas preces; e todas as nossas bênçãos a eles se dirigem — pois esses são o nosso D'us, segundo a opinião deles. Eis que se explicou a ti quantas mudanças e transformações se fizeram em nosso D'us segundo a nova Cabalá — tudo isso contradizendo a fé da nossa Santa Torá.

פז) ורב סעדיה גאון בפי' דניאל כ' וז"ל ודע כי דינא יתיב וספרין פתיחו אשר ביארתי למעלה יום דין ופקודה, הוא יום העתיד לדרוש כל מעשה בני אדם החיים והמתים, ואשר כתב למעלה ועתיק יומין יציב, כל האומר כי ראה ה' צבאות עין בעין. הרי הוא פושע, שמדמה דמות לשם ית' ואין לו דמות, דכ' ואל מי תדמיון אל, וכל האומר כי ראה מלאך הוא מן השונים, והוא מן האומרים קטון וגדול, למען כי אין שופט העולם כי אם הקב"ה לבדו, ככתוב לפני ה' כי בא לשפוט את הארץ, ואין מלאך אשר יוכל לדבר, כי אלף אלפין ישמשוניה. ועת הדע כי דניאל ראה כל אלה בחלום ולא במראה עינים וכל החלום יש לו פתרון. כי הם משל, כי גם כל נבואת הנביאים אשר ראו ותחת רגליו כמעשה לבנת נספיר. וממראה מתניו ולמעלה, יושב על כסא רם ונשא, לא ראו חק חקוקו, כי אין דמות לבורא ית' כלל, ולא דמות מלאך, כי בעת שהיה מדבר עמם מראה להם חזיון חדש. וכל דמות שראו יש לו פתרון. מקל שקד, כי שוקד אני רבבות גדולות, מעשיו בלא מספר, וכאשר ראה מיכה ברוח נבואה, וכל צבא השמים עומדים מימינו ומשמאלו, לא נוכל לדמות ליוצר הכל מימינו ומשמאלו, ולא יעמוד לפניו כל יצור, ואולם דברי כל אלה במשל כמעשה בני אדם עכ"ל. והנה כבר ראו עיניך ומלאו אזניך ממה שקדם כי ה' אלהינו לא שנה ולא ישתנה. כמאמר הנשביא אני ה' לא שניתי. וכבר האריכו רבותינו הקדמונים הרס"ג ובעל חובת הלבבות ור' יהודה הליו והרמב"ם בפי' המשנה ובס' היד ובמורה, ובעל שבילי אמונה שאין ליחס לשי"ת שום שינוי והתפעלות. וגם לא מינה אחר לשפוט את הארץ. ודברים אלו מוסמכים מכל רבותינו כמבואר בדבריהם. ורבותינו בעלי הקבלה החדשה שגו בכל אלה. כי האמינו לדברי נביא השקר המתנבא בשם עתיק יומין לעבוד אל אחר קצא אפים (זעיר אנפין) הוא מחבר הזהר אשר בילדי נכרים ישפיק. ותלה אותם ברשב"י התנא בשקר. ולכן שגו ברואה שלא די שיחסו לשי"ת רבוי וחלוק צורות ופרצופים שונים וקוים. אלא שיחסו לו שינוים רבים בעצמותו ית' ואמרו שמתחלה היה מקום וחלל גדול פנוי וריק להיות שם כל ברואיו, ונעשה ככדור עגול וחלול באמצעותו, ושוב נעשה בו שינוי אחר, כי המשיך מאורו הגדול המקיף, ספירות דעיגולי אדם קדמאה סתימא, ואחר זה עיגולי אדם קדמון. ועיגולי עתיק יומין, ועיגולי אריך אנפין, ועיגולי אבא ואימא. גם עיגולי זעיר ונוקביה. ושוב נעשו עוד בו שינויים רבים להמשיך ג"כ מעצמותו ספירות דיושר בתנית אדם. והם עיקר האלוהות לפי דעתם. תחלה פרצוף אדם קדמון. ואחריו פרצוף עתיק יומין. ואחריו אריך אנפין. ושניהם כולם זכר ונקבה. רק שזה ימין ושמאל. וזה פנים ואחור, ואחריהם פרצופי אבא ואימא זכר ונקבה נפרדים זה מזה. ואחריהם פרצופי זעיר ונוקביה ג"כ נפרדים. והם עיקר האלוהות אשר לפי דבריהם אלהים נקרא בכל תפלותינו. וכל ברכותינו אליהם יכונו. כי הם אלוהינו לפי דעתם. הרי נתבאר לך כמה שינוים וחליפות נעשו באלהינו על פי הקבלה החדשה הסותרת אמונת תוה"ק.
Nota — tsimtsum e iggulim: mudança na essência de D'us? O argumento de Qafih de que a doutrina luriânica dos iggulim (esferas circulares) e do tsimtsum implica "mudanças na essência de D'us" foi respondido pelos próprios cabalistas. O Ari (Etz Chaim, Sha'ar haIggulim uYosher): o tsimtsum não é uma mudança no Ein Sof — é o mecanismo metafísico pelo qual a criação finita pode existir ao lado da infinitude divina. "Antes" e "depois" do tsimtsum são categorias relativas à perspectiva da criação, não à essência de D'us, que é imutável. O Nefesh haChayim (R. Chaim de Volozhyn, discípulo do Vilna Gaon, cap. 3): "não há absolutamente nenhuma mudança no Criador — todas as linguagens de 'mudança' no sistema cabalístico referem-se aos modos de revelação percebidos pelas criaturas, não à essência do Criador." O Ramchal (Da'at Tevunot): D'us criou o mundo para revelar Sua bondade; o "contraction" do tsimtsum é o ato criativo de D'us, não uma limitação de Sua essência. Rasag (citado aqui por Qafih) corretamente ensinou que as visões proféticas de Daniel são metáforas — e os cabalistas concordam plenamente.
O Quarto Princípio — eternidade de D'us e a Torá dos Céus

(88) O Quarto Princípio — a Eternidade Kadmut. É preciso crer que este Único é eterno em sentido absoluto; e todo ser existente além d'Ele não é eterno em comparação com Ele. As provas para este princípio são muitas nos livros. Este Quarto Princípio é mencionado na Torá: "... o D'us Eterno" Elohei Kedem (Devarim 33:27). Já expliquei acima, no §48, que também este princípio foi rejeitado pelo grupo dos novos cabalistas — como foi explicado no assunto do piyut Yigdal Elohim Chai —, que os cabalistas recusam recitá-lo. E não dês ouvidos ao dito dos que dizem que recusaram recitá-lo pelo motivo de que não se deve criar "princípios" para a Torá, pois cada mandamento da Torá é um princípio em si mesmo e toda ela é feita de princípios — pois não falaram com sabedoria e, sem entender os princípios, falaram assim: pois isso está incluído no Oitavo Princípio, e explica-se ali claramente que toda a Torá vem da Poder de D'us, e Moisés, nosso Mestre, foi como um escriba: D'us dita, e ele diz e escreve tudo que lhe foi dito — as histórias das gerações passadas e suas narrativas e seus mandamentos. E por isso Moisés nosso Mestre é chamado Mechokek Legislador/Gravador. E não há diferença entre "os filhos de Cão e Cush e Egito" etc. e "e o nome da mulher dele era Mehetável, filha de Matred" e "Timná era concubina" e entre "Eu sou o Senhor teu D'us" e "Ouve, Israel" etc. — tudo da Boca do Poder, tudo é a Torá de D'us, perfeita, pura, santa, verdade. E Rashi considerava herege quem pensasse que "a Torá tem miolo e casca," que "as histórias não têm utilidade," e que "elas vêm da boca do próprio Moisés" — pois isso é a questão de "não há Torá dos Céus." E assim disseram os Sábios: "aquele que diz que toda a Torá é da Boca do Poder, exceto este versículo que D'us não disse, mas Moisés disse de si mesmo — este é o que 'desprezou a palavra de D'us'." Mas todos os seus assuntos e mandamentos vêm da Boca do Poder; e deles quem tiver o mérito alcançará coisas maravilhosas, como o dito do rei David: "abre meus olhos e verei maravilhas da Tua Torá" (Tehilim 119:18). E as leis de Sukkah e Lulav e Shofar e Tzitzit e Tefilin — com todos os seus detalhamentos jurídicos — são as mesmas leis que Moisés, nosso Mestre, recebeu de D'us no Sinai. E a prova disso é o que está dito: "por isso saberás que D'us me enviou para fazer todas essas ações, pois não foram do meu próprio coração" (Bamidbar 16:28). Eis que aprendeste que o argumento deles é falso. Pois o nosso Mestre Rambam reconhece isso e incluiu todos os mandamentos e histórias da Torá neste Oitavo Princípio. E todo aquele que nega qualquer parte da Torá, mesmo de suas histórias, é herege. Todos estão incluídos sob o princípio de "Torá de verdade que D'us deu ao Seu povo, pela mão de Seu profeta." E a grande prova do que disse — de que eles não reconhecem os quatro primeiros princípios — é que R. Chemdah Yamim explicou que o Ari só objetou às quatro primeiras estrofes do Yigdal, que contradizem a fé dos cabalistas. Mas de "Adon Olam" em diante, para eles está bem dizê-lo, como mencionado acima no §48.

פח) העיקר הרביעי הקדמות. צריך להאמין כי זה האחד האו קדמון במלה מוחלטת וכל נמצא זולתו אינו קדמון כשנעריכהו אליו. והראיות על זה העיקר רבו בספרים, וזה העיקר הרביעי נזכר בתורה מעונה אלהי קדם ע"כ. כבר ביארתי לעיל סי' מ"ח שגם זה העיקר מיאנו בו כת המקובלים החדשים כמו שנתבאר בענין פיוט יגדל אלהים חי שמיאנו המקובלים לאמרו, ואל תשמי לדברי האומרים שנמנעו מלאמרו מטעם שאין לעשות לתורה עיקרים לפי שכל מצוה ומצוה של תורה היא עיקר לעמצה וכולה עיקרים, כי לא מכחמה אמרו ובאין מבין בעיקרים דברו כן שהרי זה נכלל בעיקר השמיני, ומובאר בהדיא שם שכל התורה כולב מפי הגבורה, ומשה רבינו כמו סופר, הקב"ה אומר, והוא אומר וכותב כל מה שאמר לו, מספר שני הדורות שעברו, וספוריה, ומצותיה, ולפיכך נקרא משה רבינו מחוקק, ואין הפרש בין בני חם וכוש ומצרים וכו' ושם אשתו מהטבאל בת מטרד ותמנע היתה פילגש, ובין אנכי ה' אלהיך, ושמע ישראל וכו' הכל מפי הגבורה, הכל תורת ה' תמימה טהורה קדושה אמת, ורז"ך היה אצלם משנה כופר ומכחש יותר מכל מין וכופר על שחשב שיש בתורה מוח וקליפה, ושחשבו השנים שבה והספורים אין בהם תועלת, ושהם מפי משה עצמו, והוא ענין אין תורה מן השמים, וכך אמרו חכמים, האומר כל שתורה כולה מפי הגבורה חוץ מפסוק זה שלא אמרו הקב"ה אלא משה מפי עצמו, זהו דבר ה' בזה אלא כל ענייניה ומצותיה מפי הגבורה, ומהם ישיג מי שזכהו השי"ת עניינים נפלעים, כמאמר דוד המלך ע"ה כל עיני ואביטה נפלאות מתורתיך והלכות סוכה ולולב ושופר וציצית ותפלין עם כל חילוקי דיניהם הם וזולתם, הם בעצמם ההלכות שקיבל משה רבי' ע"ה מהקב"ה בסיני. והוא אמרם לנו. והוא נאמן בשליחותו. והמאמר המורה על זה הוא מה שנאמר בזאת תדעון כי ה' שלחני לעשות את כל המעשים האלה כי לא מלבי ע"כ. הא למדת שטענתם זו כוזבת. שהרי רבינו מודה בזה וכלל כל מצותיה של תורה וספוריה בזה העיקר השמיני באמרו שכל מצות התורה וחילוקי דיניהם וסיפוריה כולם מפי הגבורה. וכל הכופר בשום חלק מכל מצות התורה או אפי' מספוריה הרי הוא מין וכופר. וכולם נכללים תחת סוג תורת אמת נתן לעמו אל. על יד נביאו, ואין דבר בה לבטלה. וכל מי שאינו מודה באחת מהן הוא מין וכופר ואפיקירוס כמנשה וסיעתו. והראיה הגדולה על מה שאמרתי שאינם מודים בארבעה עיקרים הראשונים שהרי ביאר הרב חמדת ימים שלא חרה להאר"י רק על ארבעה בתים ראשונים שביגדל שהם סותרים אמונתם. אבל מהנו אדון עולם ואילך שפיר דמי לדידהו לאמרו כנז' לעיל סי' מ"ח.
Nota — o Yigdal e os quatro primeiros estrofes. A afirmação de Qafih de que o Ari rejeitou as quatro primeiras estrofes do Yigdal (com base no Chemdah Yamim) é a mais controvertida deste capítulo. Os quatro primeiros estrofes do Yigdal afirmam: (1) existência de D'us; (2) unicidade; (3) incorporeidade; (4) anterioridade/eternidade — são os Princípios 1-4 do Rambam. A preferência do Ari pelo Adon Olam no lugar do Yigdal para certas preces do Shabbat foi registrada na tradição luriânica — mas isso não significa rejeição dos Princípios que o Yigdal expressa. O Etz Chaim (Ari) é absolutamente monoteísta: o Ein Sof é uno, incorpóreo e eterno — nenhum cabalista nega isso. O Chemdah Yamim (obra de autoria disputada, séc. XVII) não é fonte halákica primária. O Quarto Princípio (eternidade de D'us) e o Oitavo (Torah do Céu) são aceitos por toda a tradição — incluindo a cabalística. A digressão sobre a Torah dos Céus (Princípio 8) neste parágrafo de Qafih é sólida e plenamente aceita por todas as correntes do judaísmo.
O Quinto Princípio — adorar somente a D'us, e não intermediários

(89) O Quinto Princípio — que este nosso D'us Único, o primeiro de todos os seres, é Aquele que é digno de ser servido e exaltado, e que a voz de Sua grandeza e o serviço a Ele sejam levantados. E não deve ser feito isso a nenhum outro dentre os seres — como os anjos, as esferas, os elementos, e tudo que é composto deles —, pois todos eles são determinados e limitados em sua função, e não têm autoridade nem vontade, senão a Sua vontade, bendito seja. E não se devem estabelecer advogados e intermediários entre nós e Ele. Ao contrário: todos os pensamentos devem dirigir seu propósito a Ele, bendito seja, e não devem prestar atenção a nenhum outro. (Fim da citação.)

Também este princípio foi arrancado pela nova Cabalá estrangeira. Os posteriores foram arruinados e os antigos tomaram uma porta terrível. E não deram ouvidos aos Sábios, de abençoada memória, os senhores da Mishná e do Talmude — quando lhes foi dito: aquele que serve o D'us Supremo, Elevado dos elevados, a Causa Primeira — e a Ele reza —, não será atendido. E não somente isso: diz o Maharashal que também será punido, como escreveram os novos cabalistas. E somente à causa última, "de temperamento/rosto curto" (Ze'ir Anpin), é que se destina o culto! — pois agora eles rasgam metaforicamente suas vestes de lamento, como escrevi acima: esta é a opinião dos novos cabalistas.

פט) העיקר החמישי כי זה אלהינו האחד המיוחד הראשון לכל הנמצאים. הוא אשר ראוי לעבדו ולרוממו, ולהרים קול ברוממותו ובעבודתו. ולא יעשה כן לזולתו מן הנמצאים. כגון המלאכים והגלגלים והיסודות וכל מה שהורכב מהם. כי כולם הם מוטבעות ומוגבלות על פעולתם, ואין להם רשות ולא חפץ, אלא רצונו ית'. ולא יושמו מליצים אמצעיים בינינו לבינו. אלא כל הרעיונים ישימו מגמתם לעומתו ית' ולא ישיתו לב לזולתו ע"כ. גם על זה העיקר שנעקר על פי הקבלה החדשה הנכריה, נשמו אחרונים. וקדמונים אחזו שער. ולא שמעו רז"ל בעלי המשנה והתלמוד באמור להם. שהעובד לאלהים עליון רם על רמים הסבה הראשונה ומתפלל אליו לא ייענה. ולא די זה גם ענוש יענש כמו שכתבו המקובלים החדשים. ורק לסבה נאחרונה קצר אפים (זעיר אנפין) תאות העבודה! כי עתה קרעו בגדיהם כמו שכתבתי לעיל שזהו דעת המקובלים החדשים.
O nome "Ze'ir Anpin" — nome de D'us nos cabalistas? Rambam e Rasag sobre os atributos

(90) Vamos agora falar do assunto do Nome de D'us que os novos cabalistas dizem que se deve servi-Lo segundo o Zohar. E O chamaram com um nome muito desprezível: "de face/temperamento curto" (Ze'ir Anpin). Pois é sabido e muito difundido que a nossa Santa Torá e todos os livros dos profetas e os Sábios, de abençoada memória, na Guemará, nos Midrashim e nos textos das preces descrevem e relatam os louvores de D'us, bendito seja, com atributos excelsos. E o Rambam, de abençoada memória, escreveu no cap. 26 da Primeira Parte do Moreh: tudo que é uma perfeição para nós é atribuído a Ele, bendito seja, para indicar que Ele é perfeito em todos os tipos de perfeição e não há nele deficiência ou falta alguma. E tudo que as massas consideram uma deficiência ou falta, não é Lhe atribuído. Por isso D'us, bendito seja, não é descrito com o comer, o beber e o dormir. Nem com o que é semelhante a isso. E tudo que as massas julgam ser uma perfeição, é Lhe atribuído — ainda que essa coisa seja uma perfeição somente em relação a nós, mas em relação a Ele, bendito seja, aquelas que julgamos todas perfeições são o auge da deficiência. (Fim da citação.) E o Rav Saadia Gaon escreveu que este é o significado do dito: "e abençoam o Nome da Tua glória, e é exaltado acima de toda bênção e louvor" — querendo dizer: tudo que os que louvam relatam sobre Ele e os que glorificam o glorificam, Ele está acima e elevado e maior que tudo. E assim escreveu o R. Shvilei Emuná: que a necessidade nos levou a corporificar o Criador, bendito seja, e a descrevê-Lo com atributos dos seres criados, a fim de transmitir às almas a percepção da existência do Criador. E como não encontramos nas línguas que usamos uma palavra que indique com precisão a realidade do Criador, expressamos o assunto com mais de uma palavra.

Mas os novos cabalistas descreveram seu Ze'ir Anpin com o atributo da impaciência e da ira, e seu D'us tem isso como sua natureza permanente — e deram-Lhe esse nome desprezível: Ze'ir Anpin (de face/temperamento curto). E tu, examina e olha todos os louvores de D'us na Torá e nas palavras dos profetas e de Chazal e nos piyutim do Rav Saadia Gaon e de R. Yehudah haLevi e de R. Shlomo ibn Gabirol e dos Rishonim — como descrevem D'us com atributos de perfeição. E então olha os piyutim cabalísticos — "Atik Yomin" e "Ze'ir Anpin" — e vê a grande distância entre eles. E agora explicarei o que o Shvilei Emuná diz sobre o Terceiro Princípio incorporeidade: os profetas nomearam D'us e O descreveram com atributos corporais a fim de transmitir ao entendimento da alma Sua realidade e proximidade. Mas na verdade todas essas descrições são metafóricas, como disseram os Sábios "a Torá falou na linguagem dos seres humanos" — e com este princípio fica provado que a "brevidade" de Ze'ir Anpin é desprezível — pois "brevidade" implica deficiência, não perfeição.

E eis os piyutim do Ari e de seus discípulos: descrevem Ze'ir de maneira que contradiz todos os princípios da Torá. E descreveram D'us Ze'ir com formas de deficiência e ira e mudança — opondo-se a tudo que os Rishonim estabeleceram. Examina os piyutim deles e entenderás.

צ) הן עתה נדבר על ענין שם האלוה אשר המקובלים החדשים אומרים לעבדו על פי הזהר. וקראו לו בשם מגונה מאד והוא קצר אפים (זעיר אנפין) כי ידוע ומפורסם מאוד, שתורתינו הקדושה וכל ספרי הנביאים ורז"ל בגמרא ובמדרשים ובנוסח התפלות מתארים ומספרים שבחי השי"ת בתארים נעלים. וכתב הרמב"ם ז"ל בפ' כ"ו לראשון מספר המורה. כל שהוא שלמות אצלינו ייחס לו ית' להורות עליו שהור שלם בכל מיני שלמות ואין בו חסרון והעדר כלל. וכל מה שישיגו ההמון שהוא חסרון או העדר לא יתואר בו. ולזה לא יתואר השי"ת באכילה ושתיה ושינה. ולא במה שידמה לזה. וכל מה שיחשוב ההמון שהוא שלמות יתואר בו, ואך על פי שהדבר ההוא אינו שלמות רק בערך אלינו. אבל בערך אליו ית'. אלו אשר נחשבם כולם שלימות הם תכלית החסרון ע"כ. וכתב הרס"ג שזהו מאמר ויברכו שם כבודיך ומרומם על כל ברכה ותהלה, רוצה לומר שכל מה שיספרו עליו המספרים. וישבחוה המשבחים בו, הוא נעלה ומרומם וגדול מן הכל ע"כ. וכן כ' הר' שבילי אמונה כי ההכרח הביא אותנו להגשים הבורא ית' ולספר אותו במדות הברואים. כדי לשער ענין שיכנס מציאות הבורא ית' בנפשות. וכיון שלא מצאנו במה שאנו מדברים בה מן הלשונות מלה שתורה על עמתת ענין הבורא ית' הוצאנו הענין ביותר ממלה א'. והרבוי הנמצא במדות הבורא ית' איננו מצד עצם כבודו, רק מצד קוצר כח מליצת המספר מהשיג עניינו במלה אחת שתורה עליו. והמדות האלהיות הפועלות שיסופר בהם הבורא ית' אפשר שישתתף בספוריו עם קצת ברואיו. והתירו חכמים לספר אותו בהם מפני הדוחק המצריך אותנו להודיעו ולעמוד על מציאותו כדי שנקבל עבודתו. ולכן מצאנו שמשתמשין במין הזה ממדות השי"ת בספר התורה ובספרי הנביאים הרבה מאד ובתושבחות הנביאים. והוציאו אותו הנביאים לבני אדם במלות גשמיות שהם קרובים לשכלם והבנתם. ואלו היו מספרים בענין שראוי לו מן המלות הרוחניות והענינים הרוחניים לא היינו מבינים לא הענין ולא המלות. ולא היה אפשר שנעבוד דבר שלא נדע כלל עכ"ל. דבר הלמד מדברי הרבנים הנזכרים שלא יתואר השי"ת בשום תואר שהוא חסרון וסכלות כתואר זעיר אנפין שענינו קצר אפים. והנה התארים והמלות אשר בחר הקב"ה להודיע למשה ולישראל ממדותיו. הם ה' ה' אל רחום וחנון ארך אפים ורב חסד ואמת. נצר חסד לאלפים נשא עון ופשע וחטאה ונקה. וכן אמר דוד המלך ע"ה יודיע דרכיו למשה לבני שיראל עלילותיו. רחום וחנון ה'. ארך אפים ורב חסד. ופי' הראב"ע ז"ל יודיע דרכיו, הם הדרכים הנז' בפסוק ויעבר ה' על פניו וכו'. רחום וחנון ה' ארך אפים ורב חסד. והזכיר קצתן הצריך להן בתפלתו ע"כ. ורז"ל אמרו בסנהדרין כשעלה משה למרום מצאו להקב"ה שיושב וכותב ארך אפים. אמר לפניו רבונו של עולם לצדיקים? אמר לו אף לרשעים. אמר לפניו רשעים יאבדו אמר ליה השתא חזית דמבעי לך. בשעה שחטאו ישראל אמרו לו לא כך אמרת ועתה יגדל נא כח ה' כאשר דברת לאמר ה' ארך אפים וכו'. וכן כל הנביאים מתארים לשי"ת בתאר ארך אפים. דוד המלך ע"ה גם במזמור פ"ו אמר ואתה ה' אל רחום וחנון ארך אפים ורב חסד ואמת, ובמזמור קמ"ה אמר הגון ורחום ארך אפים וגדל חסד. הנביא נחום אמר ה' ארך אפים ורב חסד וניחם על הרעה. יואל אמר ושובו של ה' אלהיכם כי חנון ורחום הוא ארך אפים ורב חסד וניחם על הרעה, אנשי כנסת הגדולה אמרו בתפלתם ואתה אלוה סליחות הגון ורחום ארך אפים ורב חסד ולא עזבתם (נחמיה ט') ושלמה המלך ע"ה אמר טוב ארך רוח מגבה רוח (קהלת ז'), ופירש רש"י על ארך רוח המאריך רוגזו ואינו ממהר לריב. ובמשלי אמר קצר אפים יעשה אולת, ואיש מזמור ישנא, ופירש רש"י קצר אפים הממהר לנקום כעסו, ואיש מזמות. מחשבות עצה רעה ישנא, ובפי' קב ונקי פי' קצר אפים הוא היפך ארך אפים, האדם שהוא נמהר לשפוך חמתו ולנקום נקמתו יעשה כל מעשיו באולת כסילות, ועיין עוד במפרשים ובס' הנז' משבח ארך אפים ואמר ארך אפים רב תבונות, וקצר רוח מרים אולת, ופירשו המפרשים מי שהוא ארך אפים שאינו ממהר לכעוס והוא מושל ברוחו הוא רב תבונות, ומי שהוא קצר אפים וקצר רוח שלא ימשול ברוחו הוא מרים האולת מן הארץ, ומגביהה ומניחה על ראשו, ומגלה אותה לאשר לא ידעה, או יאמר שהוא מעורר האולת. וי"מ מרים אולת שהוא גורם לכסילים להרים בו יד. כלומר למדוד בו ע"כ. ושם סי' ט"ו איש חמה יגרה מדון, וארך אפים ישקיט ריב, ופי' מי שהוא בעל חמה דהיינו קצר אפים הוא יבעיר המדון והקטטה ויגדילנו אע"פ שהריב קטן יעלנו ויגדילנו בחמתו, והאדם המאריך אפו ישקיט ריב ויניחנו. ובסי' י"ו טוב ארך אפים מגבור ומושל ברוחו מלוכד עיר וכ' המפרשים שטוב ארך אפים המושל ביצרו וכובש תאותו מלהנקס, מן הגבור המתנקם באויבו. כי הכובש את יצרו, אויבו שהוא היצר מבפנים, והוא מתגבר עליו וכובשו, וזה הגבור אויבו מבחוץ והוא מתגבר על האויב החיצון, והמושל ברוחו הוא מושל על האויב הפנימי. המורם מכל האמור, כי תואר קצר אפים הוא תואר אולת וכסילות, וכבר נודע הדבר אשר דברו רז"ל בעל חובת הלבבות ור"י הלוי והרמב"ם במורה פרק כ"ו ומ"ו ומ"ז לראשון ורס"ג בהאמונות והדעות מאמר האחדות ושבילי אמונה וזולתם, שלא יתואר השי"ת אלא בתארים נעלים, המורים על השלימות, להורות שהור ית' שלם בכל מיני שלימות. ולא יתואר בשום תואר חסרון או העדר, כל שכן בתאר פחיתות וסכילות וסכלות.
Nota — o significado de "Ze'ir Anpin" e o Nome de quatro letras. A crítica de Qafih ao nome Ze'ir Anpin baseia-se na interpretação literal: ze'ir = pequeno/curto, anpin = rosto/temperamento em aramaico. Mas o contexto cabalístico é muito específico: no Zohar e no sistema luriânico, Ze'ir Anpin = "o Rosto Pequeno" é o aspecto da divindade que se revela à criação, em contraste com "Arikh Anpin" = "o Rosto Grande/Longo" = o aspecto paciente e oculto. No Zohar (Idra Rabbá): Arikh Anpin tem arich apeih (longânime, paciente = "longo de rosto"), ao passo que Ze'ir Anpin representa o modo da justiça e do julgamento — mas com chesed (bondade) como fundamento. As seis sefirot de Ze'ir Anpin são: Chesed (amor), Gevurah (rigor), Tiferet (beleza), Netzach (vitória), Hod (glória), Yesod (fundamento). Tiferet — o coração de Ze'ir — corresponde ao atributo da misericórdia e é identificado com o Nome YHWH. Portanto, quando os cabalistas rezam a Ze'ir Anpin, estão rezando ao YHWH da Torá — o mesmo D'us dos Patriarcas. R. Moshe Cordovero (Pardes Rimonim, Sha'ar 5, cap. 4): "Ze'ir Anpin não é um ser separado mas o Nome revelado de D'us no mundo — é o YHWH de todos os nossos textos."

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Rasag e as visões de Daniel

A citação do Rav Saadia Gaon sobre Daniel 7 é uma das mais claras expressões do racionalismo geonônico: as visões proféticas são metáforas, não descrições de D'us. O "Ancião dos Dias" (Atik Yomin), os livros abertos, o tribunal celeste — tudo é linguagem simbólica para transmitir a ideia de Julgamento divino. Rasag defende: qualquer um que diga ter "visto" D'us é um transgressor, pois D'us não tem forma. Os cabalistas concordam plenamente com isso: o Atik Yomin do Zohar também é entendido simbolicamente, não como descrição do corpo de D'us.

A doutrina dos iggulim e o tsimtsum

A crítica de Qafih à doutrina dos iggulim (esferas circulares) e do tsimtsum centra-se na ideia de que ela implica "mudanças na essência de D'us." O Nefesh haChayim do R. Chaim de Volozhyn (discípulo do Vilna Gaon, polo do judaísmo lituano oposto ao Chassidismo) oferece a síntese: o tsimtsum é real da perspectiva da criação — mas do ponto de vista de D'us, "nada mudou." D'us é imutável (bilti mishtaneh); o mundo é que é novo.

O Yigdal e a posição dos cabalistas

Qafih alega que os cabalistas rejeitaram as quatro primeiras estrofes do Yigdal por contradizerem sua fé. Isso é discutido: a preferência do Ari pelo Adon Olam para certas preces era liturgia, não rejeição de princípios. O Etz Chaim e toda a literatura luriânica afirmam repetidamente: o Ein Sof é uno, sem forma, eterno e sem começo — exatamente o que as quatro estrofes do Yigdal dizem. O debate é sobre como expressar esses princípios na linguagem do símbolo.

O nome Ze'ir Anpin e o YHWH da Torá

Qafih traduz Ze'ir Anpin como "nome desprezível" de D'us, implicando que os cabalistas adoram um D'us "iracundo". Mas o sistema luriânico identifica Ze'ir Anpin com o Nome YHWH da Torá — o mesmo D'us que se revela a Moisés no monte Sinai, que redimiu Israel do Egito, que fez aliança com Abraão. As seis sefirot de Ze'ir são Chesed (amor) no centro. O nome "Ze'ir Anpin" contrasta com "Arikh Anpin" (paciente/longo) não por ser iracundo, mas por ser o aspecto que interage com a criação no tempo — mais "próximo" e, portanto, aparentemente mais "limitado" que o Ein Sof absoluto. R. Yehudah haLevi (Kuzari IV:3) já havia distinguido entre o D'us dos filósofos (o Primeiro Princípio impessoal) e o D'us de Israel (o que Se revela, fala, age) — a Cabalá continua essa distinção com sua própria linguagem.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXXVI

O nome de D'us — e o "zivug sagrado" no Zohar

שֵׁם הָאֵל וְהַ"זִּיווּג הַקָּדוֹשׁ" בַּזּוֹהַר
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih conclui: chamar D'us de "Ze'ir Anpin" é como chamar o rei de "Belial" — um nome de deficiência. Cita o Rambam (Moreh I:47) sobre os cinco sentidos não atribuídos a D'us (tato e paladar); e aplica o princípio do Moreh III:8 (a união carnal é a "vergonha humana") à descrição do "zivug" (zivug sagrado) de Ze'ir e Nukva no Zohar.

"Belial" — como chamar o rei? A crítica ao nome Ze'ir Anpin

(91) E disso entenderás e compreenderás a grandeza do erro e do equívoco com que erraram e se equivocaram os nossos mestres, os donos da nova Cabalá estrangeira — pois além de terem numerado na Divindade vários atributos e graus, um acima do outro, no lugar e no tempo, e também em dignidade, a ponto de dizerem que "este recebe autorização daquele," e que "a Divindade feminina recebe autorização da Divindade masculina" — segundo a opinião deles, como está explicado no Zohar Bereshit, fl. 22 —, e de terem destinado todos os nossos serviços, todas as nossas orações e bênçãos ao grau mais inferior de todos deles, e de O terem chamado pelo Nome do Santo, bendito seja, e de terem dito que "Ele é o Senhor nosso D'us, e nós somos Seu povo" etc., "e a Ele serviremos" — e de O terem apelidado com o nome "Ze'ir Anpin" que, na linguagem da Escritura, significa "de temperamento/rosto curto" ketzar apayim —, eis que já sabes e foi explicado para ti pelos escritos sagrados a vergonha e a baixeza deste atributo desprezível. E como então descreverão o D'us a quem servem com este atributo desprezível? — sobre eles disse Eliú ben Berakhel o Buzita Iyov 34:18, em sua formulação retórica: "será dito ao rei 'Belial'? e ao nobre 'és ímpio'?"

E o comentário de Rashi, de abençoada memória: "e é próprio e adequado dizer ao rei 'Belial'? E esclarecer ao nobre que é 'ímpio'? — que não aceitou a face dos nobres" — ou seja: não é próprio dizer isso ao Rei do Universo, perante Quem não há parcialidade. (Fim da citação.) E assim comentou R. Abraham Farissol, de abençoada memória: "será dito ao rei..." — "que não aceitou a face dos nobres": é próprio dizer ao rei designado para tal governo que seja 'Belial'? E é próprio chamar de 'ímpio' aquele que é generoso dentre os generosos dos povos e cujo linhagem e bondade são conhecidos? E como é próprio atribuir injustiça a um rei justo e reto como Ele — o Senhor nosso D'us — que "não aceitou a face dos nobres" na questão do julgamento, para honrá-los e aceitar suas faces, e o rico não é favorecido perante Ele quando pleiteia com o pobre, para poupar sua honra — pois todos são obra de Suas mãos, e não há diferença entre eles do ponto de vista de sua criação perante o Santo, bendito seja. (Fim da citação.) E conclui daqui o seguinte a dizer-te que, visto que dizem que Ze'ir Anpin é o Senhor nosso D'us, como podem chamá-Lo com o nome "de rosto/temperamento curto" ketzar apayim — que é tolo? Pois não é próprio descrever o Rei do Universo senão com atributos de louvor e elevação — não com atributos de tolice e insensatez, como o atributo "de rosto/temperamento curto" (Ze'ir Anpin), que é tolo —, assim como é impossível dizer ao Rei do Universo "Belial", conforme o dito de Eliú. E disso entenderás e compreenderás que a nova Cabalá não é uma verdadeira tradição kabbalah — mas estrangeira. E esses assuntos não saíram dos nossos Sábios, de abençoada memória, os senhores da Mishná e do Talmude. Deus o livre de todo possuidor da fé da Torá de Moisés, nosso Mestre, e da tradição dos nossos Sábios, de abençoada memória, de crer em palavras como essas. Pois já está claro para nós a grandeza dos nossos Sábios e a bondade de seu entendimento e a profundidade de seu inquérito na sabedoria — e eles alcançaram a verdade de forma plena e verdadeira, e disseram: "todo aquele que associa o Nome dos Céus a outra coisa qualquer será arrancado do mundo."

צא) ומזה תבין ותשכיל גודל השגיאה והטעות שטעו ושגגו רבותינו בעלי הקבלה החדשה הנכריה. שמלבד שמנו באלהות כמה מדות ומדרגות זו למעלה מזו במקום ובזמן. וגם במעלה עד שאמרו שזה נוטל רשות מזה, והאלהים הנקבה נוטלת רשות מאלהים הזכר, לפי דעתם כמבואר בהזר בראשית דך כ"ב. ויחסו כל עבודותינו וכל תפלתוני וברכותינו למדרגה התחתונה מכולם, וקראו לו בשמו של הקב"ה ואמרו שהוא ה' אלהינו ואנחנו עמו וכו' ואותו נעבוד וכינו אותו בשם "זעיר אנפין", שענינו בלשון הכתוב קצר אפים. והנה כבר ידעת ונתבאר לך מכתבי הקדש גנות ופחיתות המדה המגונה הזאת, ואיך יתארו את האלהים אשר יעבדו אותו במדה המגונה הזאת, ועליהם אמר אליהו בן ברכאל הבוזי במליצתו, האמור לממך בליעל רשע אל נדיבים. ופי' רש"י ז"ל וכי הגון וראוי לומר למלך בליעל? ולבאר רשע אל נדיבים? אשר לא נשא פני שרים, כלומר למלך עולם אשר אין משוא פנים לפניו עכ"ל. וכן פירש רבי אברהם פריצול ז"ל האמור למלך וכו' אשר לא נשא פני שרים, האם ראוי לומר למלך הממונה על הנהגה כזאת שיהיה בליעל? ואם ראוי לומר רשע למי שהוא נדיב מנדיבי עמים ונודע גזעו וטובו? ואיך ראוי ליחס עול למלך צדיק וישר כזה שהוא ה' אלהינו אשר לא נשא פני שרים בענין הדין לכבדם ולשאת את פניהם, ולא נכר לפניו השוע והעשיר בהיותו טוען בדין עם העני לחוס על כבודו, בעבור כי מעשה ידיו כולם, ואי ןהבדל ביניהם מצד יצירתם לפני הקב"ה עכ"ל. ודון מינה ואוקי הכא, כיון שהם אומרים שזעיר אנפין הוא ה' אלהינו איך יקראו לו בשם קצר אפים אשר יעשה אולת? כי לא יאות לתאר את מלכו של עולם אלא בתארי שבח ועילוי, לא תארי אולת וכסילות כתאר קצר אפים (זעיר אנפין) שהוא עושה אולת, כמו שאי אפשר לומר למלכו של עולם בליעל כמאמר אליהו. ומזה תבין ותשכיל כי לא קבלה אמתית היא. רק נכריה היא. ולא מרז"ל בעלי המשנה והתלמוד יצאו הדברים האלה, חלילה לכל בעל אמונת תורת משה רע"ה וקבלת רבותינו ז"ל להאמין בדברים כאלה. כי כבר נתברר אצלינו גדולת חכמינו וטוב שכלם ועומק עיונם בחכמה, והם השיגו את האמת השגה גמורה ואמתית, ואמרו כל המשתף שם שמים ודבר אחר נעקר מן העולם.
Nota — o nome Ze'ir Anpin e o YHWH da Torá. A equivalência que Qafih estabelece entre "Ze'ir Anpin" e "Belial" (=homem indigno) repousa numa leitura literal da terminologia aramaica: ze'ir = pequeno, anpin = rosto/temperamento. Mas o Zohar (Idra Rabbá) usa o par Arikh Anpin / Ze'ir Anpin num sentido técnico: Arikh Anpin = "O de Rosto Longo" = o aspecto paciente, eterno, oculto (Principio da Misericórdia, keter); Ze'ir Anpin = "O de Rosto Pequeno" = o aspecto que interage com a criação no tempo, correspondente ao Nome YHWH da Torá. O Ramak (Pardes Rimonim, Sha'ar 5, cap. 4): "Ze'ir Anpin não é um ser separado — é o Nome revelado de D'us para o mundo, identificado com YHWH, o Nome de misericórdia." As seis sefirot de Ze'ir têm Tiferet (beleza/misericórdia) no centro. Quando os cabalistas rezam "Barukh Atah YHWH", estão rezando ao Ze'ir Anpin — o mesmo D'us que falou com Moisés, que libertou Israel do Egito, que fez aliança com Abraão. Não é um nome de deficiência: é o Nome sagrado de quatro letras.
O Rambam sobre os cinco sentidos — e a crítica ao "zivug" de Ze'ir e Nukva

(92) E não só isso. Mas ainda além disso: atribuíram-Lhe o sentido mais vergonhoso e o mais inferior dos cinco sentidos — e ele é a relação conjugal mishgal e a cópula zivug. Pois é sabido o que escreveu o Rambam, de abençoada memória, no cap. 47 da Primeira Parte do Moreh: que dos cinco sentidos — que são a visão, o ouvido, o olfato, a audição e a visão de D'us —, "e D'us ouviu", "e D'us viu", "e D'us cheirou" — não foram tomados emprestados metaforicamente para Ele o sentido do paladar e o do tato: "e D'us saboreou", "e D'us tocou". E a razão disso é como foi explicado acima: tudo que as massas julgam ser deficiência é impossível de atribuir ao Criador, bendito seja — e portanto não se usaram disso nos livros da profecia. (Fim da citação.) E assim escreveu o R. Shvilei Emuná no Primeiro Caminho. E por este caminho andaram os nossos Sábios, de abençoada memória, os senhores da Mishná e do Talmude, e os organizadores das preces e os poetas paytanim — como o Rav Saadia Gaon e R. Yehudah haLevi, em seus piyutim suaves que despertam o ser humano ao amor de D'us, bendito seja, e ao temor d'Ele e à adesão a Ele. E como são doces as palavras de R. Yehudah haLevi na selichá que começa "Yah shimkha aromemékkha" — no seu final diz: "Reflete e considera e medita sobre Teus mistérios, e vê o que és tu, e de onde são os teus fundamentos, e quem te compreendeu, e quem te preparou, e pela força de quem te moverás? E olha para as forças de D'us, e despertas Tua glória. Investiga Suas obras, mas não estendas a Tua mão até Ele, pois buscarás o fim e o começo do que é maravilhoso e encoberto." (Fim da citação.)

Portanto, se os novos cabalistas houvessem guardado a advertência dos Sábios, de abençoada memória, e não houvessem sido seduzidos pelas palavras do falso profeta incitador, o autor do Zohar, e não houvessem dirigido seus pensamentos ao maravilhoso e ao encoberto neles — não teriam chegado a tudo isso. E no capítulo 8 da Terceira Parte, o R. Moreh Rambam escreveu que o sentido do tato é uma vergonha e uma desonra para nós — pois por causa dele desejamos comida, bebida e relação conjugal; e o homem sábio procura limitar isso o quanto for possível para ele (como explicou o Rambam em Hilkhot De'ot), e não amplia o discurso sobre esses assuntos, e estabelece como sua finalidade a finalidade do ser humano enquanto ser humano — ou seja, a concepção das inteligências muskalot, por meio das quais alcança o conhecimento do Criador. Mas o comer e a relação conjugal são nossa vergonha e nossa desonra — pois foram postos no ser humano para sua preservação e a preservação da espécie, e neles se assemelha ao animal; e ainda mais a relação conjugal, que não é próprio falar sobre ela mais do que o necessário, como expliquei nos comentários aos Pirkei Avot, com base no que está em nossa Santa Torá sobre a repugnância dessas coisas, e é proibido mencioná-la e falar sobre ela de modo algum. E já sabeis o que os Sábios disseram sobre Eliseu o profeta — que foi chamado "santo" porque nunca pensava nessas coisas, ao ponto de não ter tido emissão noturna. E também sabeis da grandeza da proibição sobre "nibbul peh" (linguagem obscena): "portanto D'us não se alegra com os jovens deles, de suas viúvas e de seus órfãos não tem misericórdia — pois todos são hipócritas e malfeitores e cada boca que fala palavras torpes — em tudo isso não se afasta Sua ira e Sua mão ainda está estendida" (Yeshayahu 9:16). Explica o Talmude (Ketubot 8b): "o que significa 'e Sua mão ainda está estendida'? Disse R. Chanán ben Aba: todos sabem por que a noiva entra ao dossel — mas todo aquele que degrada sua boca e emite palavras torpes da sua boca, ainda que fosse selado para ele um decreto de setenta anos de bem, é transformado para mal." E no capítulo "Bameh Madlikin" Shabat 33a aprendemos: "pela iniquidade da linguagem obscena, muitos problemas e opiniões e decretos severos renovam-se no mundo, e jovens de Israel morrem, e viúvas e órfãos clamam e não são atendidos." E a razão é que a fala por meio da língua é a característica segulá do ser humano — e o dom que D'us, bendito seja, lhe deu para distingui-lo dos demais animais, como está dito "quem pôs boca no ser humano?" (Shemot 4:11) — e o profeta disse "o Senhor D'us deu-me uma língua de discípulos" (Yeshayahu 50:4) —, e não é próprio que usemos o bem que D'us nos concedeu para a perfeição do aprendizado e do ensinamento para uma coisa inferior e vergonhosa e para a desonra completa que há em nós, e que nos assemelhemos às nações insensatas que se prostituem em seus poemas de vinhas e nas baixezas de que se vangloriam — pela sua grande insensatez e inferioridade. "Não assim é a porção de Jacó" — pois sobre eles está dito "e vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa." E todo aquele que usa pensamentos ou palavras nas questões de relação conjugal — que é para nós a maior das vergonhas — além do que é necessário para ele (como disse o Talmude: "informa ao ser humano sobre suas conversas — mesmo a conversa extra entre marido e mulher lhe será revelada"), e muito mais se escreve poemas sobre isso, eis que usou o dom que D'us lhe deu para palavras de amargura e insensatez completa, e transgrediu os mandamentos do Criador, bendito seja. E é como aqueles de quem se diz "e prata multipliquei para eles e ouro fizeram para Baal" (Hoshea 2:10). Esta é a substância das palavras do R. Moreh, de abençoada memória. Também o Rav Saadia Gaon no Livro das Crenças e Opiniões, Décimo Tratado, cap. 6, falou sobre a vergonha da multiplicação da relação conjugal e sua sujeira e sua impureza e a desonra e o desprezo que há nela, e que esse desejo não está no ser humano senão para estabelecer descendência conforme o mandamento de D'us "vós, sede fecundos e multiplicai-vos," e com discrição no momento adequado, e controlando-a para não multiplicar. (Fim da citação.)

צב) ולא זו בלבד. אלא אף גם זאת שייחסו לו החוש המגונה והפחות שבחמשה חושים, והוא המשגל והזיווג, כי ידוע מה שכתב הרמב"ם ז"ל בפרק מ"ז חלק א'. שמהחמשה חושים שהם הראייה, והשמע, והריח, וישמע ה', וירא ה', וירח ה', ולא הושאל לו חוש הטעם והמשוש לומר ויטעם ה', וימשש ה'. והסבה לזה הוא כמו שנתבאר לעיל שכל מה שידמוהו ההמון חסרון אי אפשר לציירו בבורא ית', ולכן לא השתמשו בזה בספרי הנבואה עכ"ל. וכן כתב הרב שבילי אמונה בנתיב הא'. ובדרך הזה דרכו רז"ל בעלי המשנה והתלמוד ומתקני התפלות והפייטנים כרבי' סעדיה גאון ור"י הלוי בפיוטיה הנעימים המעוררים את האדם לאהבת השי"ת וליראתו ולדבקה בו. ומה מאד מתקו דברי רבי יהודה הלוי בסליחה המתחלת יה שמך ארוממך, אמר בסופה, השתונן והכונן, והתבונן בסודיך, והבטת מה אתה, ומאין יסודיך, ומי הבינך, ומי הכינך, וכח מי ינידיך, והבט אל גבורות אל, והעירה כבודיך. חקור פעליו, רק אליו אל תשלח ידיך, כי תדרוש בסוף וראש במופלה ובמכוסה ע"כ. אשר על כן אלו שמרו המקובלים החדשים אזהרת רז"ל ולא נפתו לדברי נביא השקר המסית מחבר הזהר ולא שלחו רעיונותיהם במופלא ובמכוסה מהם לא באו לכל זה. ובפרק ח' לשלישי כתב הר' המורה שחוש המשוש הוא חרפה וכלמה לנו, אשר בעבורו נתאוה למאכל ומשתה ומשגל, והאיש המשכיל מריך למעט בהם מה שאפשר לו (כמו שביאר הרב בהלכות דעות) ולא ירחיב הדבור בהם, וישים תכליתו תכלית האדם מאשר הוא אדם, והוא ציור המושכלות, אשר בהם ישיג ידיעת הבורא, אבל האכילה והמשגל הם חרפתינו וכלימתינו, כי הושמו באדם לצורך קיומו וקיום המין, והוא דומה בהם לבהמה, וכל שכן המשגל שאין ראוי לדבר בו יותר כמו שביארתי בפרקי אבות ממה שבא בתורתינו הקדושה ממאוס בו, ואסור לזכרו ולדבר בו כלל, וכבר ידעת אמרם על אלישע הנביא ע"ה שנקרא קדוש מפני שלא היה חושב בו עש שלא היה רואה קרי, וגם ידעת גודל האיסור שבא אצלינו בענין נבלות הפה (כדגרסינן בכתובות, על כן על בחוריו לא ישמח ה' ואת יתומיו ואת אלמנותיו לא ירחם כי כלו חנף ומרע וכל פה דובר נבלה בכל זאת לא שב אפו ועוד ידו נטויה, מאי ועוד ידו נטויה אמר רב חנן ב"א הכל יודעים למה נכנסה כלה לחופה אלא כל המנבל פיו ומוציא דבר נבלה מפיו אפילו נחתם לו גזר דין של שבעים שנה לטובה נהפך עליו לרעה ע"כ. ובפרק במה מדליקים גרסינן בעון נבלות הפה צרות רבות ודעות וגזרות קשות ותחדשות בעולם ובחורי ישראל מתים ואלמנות ויתומים צועקים ואינם נענים שנאמר על כן על בחוריו לא ישמח ה' וכו' כי כלו חנף ומרע כל פה דובר נבלה וכו' מאי ועוד ידו נטויה א"ר חנן בר אבא א"ר חסדא כל המנבל פיו מעמיקים לו גיהנום שנ' שוחה עמוקה פי זרות זעום ה' יפל שם ע"כ). והטעם לפי שהדיבור בלשון הוא מסגולת האדם וטוב השם אשר גמר עליו להבדילו בו משאר בעלי החיים שנאמר מי שם פה לאדם, ואמר הנביא ה' אלהים נתן לי לשון למודים, ואין ראוי שנשתמש בטובה אשר גמלנו השי"ת לשלמות ללמוד וללמד, בדבר פחות ומגונה ובחרפה הגמורה שיש בנו ונדמה לגוים הסכלים הזונים בשיריהם שירי ענבים, ופחיתות אשר יתפארו בהם לרוב סכלות ופחיתותם (כדאמור רבנן תפארת גוים עבירה. גוי מפערה מעי) לא כאלה חלק יעקב, שנאמר בהם ואתר תהיו לי ממלכת כהנים וגוי קדוש, וכל מי שמשתמש במחשבה או בדבריו מענייני המשגל אשר הוא חרפה לנו ביותר מן הצריך לו (כמאמר רז"ל מגיד לאדם מה שיחו אפילו שיחה יתירה שבין איש לאשתו מגידין לו) וכ"ש אם יאמר שירים, הנה נשתמש בטובה אשר גמלו השי"צ בדברי מרי וסכלות גמורה ועבר על מצות הבורא ית'. והוא כמי שנאמר בהם וכסף הרביתי להם וזהב עשו לבעל, זהו תורף דברי הר' המורה ז"ל. גם הרס"ג בס' האמונות מאמר עשירי פרק ו' דבר בגנות רבוי המשגל ולכלוכו וטנופו והחרפה והבוז אשר בו, ושאין התואה הזאת באדם כי אם להקים בה זרע כמצות השי"ת ואתם פרו ורבו וכו' ובהצנע בעת הראוי ויעצור בה מהרבות ע"כ. ובעיני ראיתי אחד מהמון העם שאל לתינוק קטן ואמר האם אביך אוהב את אמך ומנשקה, וגער בו הדיין כמה"ר סלי' צאלח ז"ל ואמר לו כלך מגבלות הפה כי ענשו חמור.
Nota — o "zivug sagrado" no Zohar e sua tradição. A crítica de Qafih ao "zivug" (zivug kadosh, "união sagrada") de Ze'ir e Nukva merece ser compreendida no contexto original. O Zohar usa a linguagem do Shir haShirim (Cântico dos Cânticos) — que Rabi Akiva chamou de "o mais sagrado de todos os livros sagrados" (Yaddaim 3:5) — para descrever a reconciliação dos atributos divinos: misericórdia (Ze'ir) e a Shekhiná/presença divina no mundo (Nukva). Não é uma descrição de relação física: é a linguagem poética da cosmologia espiritual. R. Moshe Cordovero (Pardes Rimonim, Sha'ar haZivug): "o zivug nos mundos espirituais refere-se ao alinhamento dos atributos divinos — não a nenhum sentido físico; é a 'benção da união' pela qual o mundo é criado e sustentado a cada momento." O Ramchal (Klalei Pitchei Chokhmah): "toda linguagem de 'união' nos mundos superiores é puramente simbólica — reflete o Princípio da Unidade Divina em todos os seus aspectos." A proibição do nibbul peh (linguagem imprópria) no Talmude refere-se ao discurso mundano — não à poesia mística do Shir haShirim.
Ham e o "rei de carne e sangue" — da nudez do pai à crítica ao zivug no Zohar

(93) De tudo isso aprendemos a vergonha de relatar assuntos de relação conjugal e sua indignidade e seu grave castigo — mesmo que se relate sobre um homem inferior e desprezado; ou sobre si mesmo: como ele se relacionou com sua esposa, e quando se relacionou com ela, e de que modo, e como a abraçou e a beijou. Quanto mais é grave se revela a vergonha de um rei de carne e sangue: quando se relaciona com sua esposa e como a abraça e a beija — certamente aquele que relata e revela essas coisas representa uma grande vergonha para o rei. E está escrito: "e a nudez do rei não é próprio que nós vejamos" (Daniel 2:11) — e comentou Rashi e R. Abraham ibn Ezra, de abençoada memória: "'a nudez do rei' = a vergonha e a humilhação do rei; 'não é próprio que nós vejamos' — não é digno de nós ver." (Fim da citação.) E vê o que resultou de Ham, filho de Canaã, pelo fato de ter visto a nudez de seu pai e sua vergonha e ter contado a seus dois irmãos, Shem e Yefet — e tira a conclusão por si mesmo. E por raciocínio kal vachomer de menor para maior: e o que aconteceu a este que contou aos seus irmãos a vergonha de seu pai — tanto mais o que conta a vergonha do seu Rei do Universo! E no Yalkut remez 61: "e se revelou no meio de sua tenda" — escreve-se ohalah com heh, "dela": no interior da tenda de Noa, sua esposa. Quando Noá saiu da arca, um leão o atacou e o feriu; e ele veio dormir com sua esposa, e seu sêmen se dispersou. E Cam viu...

E o que está nas histórias cabalísticas do Zohar, que descreve a união de Ze'ir com Nukva sua contraparte, e de Abba com Ima, e como e em que momento e de que modo —, e quem compôs poemas e cânticos sobre isso para recitar nas orações e nas bênçãos — e o que resulta de tudo isso, e para onde se dirige todo aquele que discursa sobre isso em pormenores além do necessário — o leitor inteligente entenderá por si mesmo. "O sábio tem olhos na cabeça" (Kohelet 2:14).

צג) מכל זה למדנו גנות המספר בעניינו המשגל ונבלותו ועונשו החמור אף אם מספר על אדם פחות ומזולזל. או על עצמו איך הוא נזקק לאשתו. ואימתי הוא נזקק לה. וכיצד נזקק לה ואיך הוא מחבקה ומנשקה, כ"ש וק"ו אם מספר ומגלה קלון מלך בשר ודם אימתי משמש ונזקק לאשתו ואיך הוא מחבק לה ומנשקה, בודאי שהמספר ומגלה דברים כאלה, גנאי גדול הוא למלך, וכתוב וערות מלכא לא אריך נא למחזי, ופי' רש"י והראב"ע ז"ל וערות מלכא בזיון המלך וגנותו, לא אריך לנא למחזי, אין הגון לנו לראות ע"כ. ותא חזי מאי סלקא ביה בהם אבי כנען על ידי שראה ערות אביו וקלונו והגיד לשני אחיו שם ויפת, והדברים קל וחומר, ומה זה שספר לאחיו גנות אביו כך, המספר במלכו של עולם עאכ"ו. ובילקוט רמז ס"א, ויתגל בתוך אהלה, אהלה כתיב, בתוך אהלה של אשת נח, כשיצא נח מן התבה הכישו הארי ושברו, ובא לו לשמש מטתו ונתפזר זרעו, וירא חם אבי כנען ויגד, אמר להון ואגיד להון. אמר לון, אדם הראשון היו לו שני בנים ועמד אחד והרג את חבירו, וזה יש לו שלשה בנים, והוא מבקש לעשות ארבעה? מה טעם העבד יוצא בשן ועין, מן הכא וירא ויגד, ויקח שם ויפת את השמלה, שם התחיל במצוה, ובא יפת ונשמע לו לפי' זכה שם לטלית ויפת לפלוניא, ממשמע שנ' וילכו אחורנית איני יודע שערות אביהם לא ראו, אלא מלמד נתנו ידיהם על פניהם והיו מהלכין לאחריהם ונהגו בו כבוד כמורא האב על הבן, אמר הקב"ה לשם, אתה כסית את ערות אביך. חייך שאני פורעה לבניך, שנ' באדין גובריא אליך כפיתו בסרבליהון, אמר הקב"ה ליפת אתה כסית ערות אביך חייך שאני פורע לך שנ' ביום ההוא אתן לגוג מקום קבר בישראל. אמר הקב"ה להם אתה בזית עריתא דאבוך, חייך שאני םורע לך שנ' כן ינהג מלך אשור את שבי מצרים ואת גלות כוש נערים וזקנים ערום ויחף וחשופי שת ערות מצרים עכ"ל. ראה תראה ותדין ק"ו כמו שכתבתי לעיל, ובודאי שהרואה בזיון המלך זגגותו ואינו מוחה, וכ"ש המספר בגנות המלך מלכו של עולם. ומיחס לו עניני תשמיש וזיווג ולידה, עאכ"ו שהוא נעקר מן העה"ז ומן העה"ב. ואין לו חלק באלהי ישראל. כי איככה ניחס לאלוהינו אשר אותו נעבוד פילגש ואיברי משגל. יסוד דהינו גיד הערוה וביצי זכר לבשל הזרע. ונקב אחוריים להוציא הפסולת להיות ניזון ממנה אל אחר? הלא נבוש ונכלם לספר עניינים כאלה בבשר ודם כי אם ברמז לעת הצורך כגון שיש מחלה באיברי המשגל או בפי הטבעת, ועם כל זה אין מזכירים אותם אלא ברמז וכינוי ובהצנע ולא בפרסום אבל שלא לצורך הם מלהזכיר כלל. כי זהו גבלות הפה וגנות גדולה שלמדה אותנו תוה"ק להשמר ממנו כמאמר רז"ל בפ"ק דפסחים אמר ר' יהושע בן לוי לעולם אל יוציא אדם דבר מגונה מפיו שהרי עיקם הכ' שמנה אותיות ולא הוציא דבר מגונה מפיו שנ' ומן הבהמה אשר איננה טהורה רב אשי אמר תשע שנ' כי יהיה בך איש אשר לא יהיה טהור מקרה לילה. רבינא אמר עשר וי"ו דטהור. רב אמר שש עשרה שנ' כי אמר מקרה הוא בלתי טהור הוא כי לא טהור. תנא דבי ר' ישמעאל לעולם יספר אדם בלשון נקייה שהרי בזב וכו'. ואומר ותבחר לשון ערומים. ואומר וזעת שפתי ברור מללו וכו'. ובכל התורה ובדברי הנביאים ורז"ל בתלמוד ובמדרשים לא מצינו שכינו להשפעת השי"ת בשם זכר ונקבה וזיווג אלא בלשון נתינה או פתיחה ויתן לך האלהים. נותן לך כח לעשות חיל. יפתח ה' לך את אוצרו הטוב נותן לחם לכל בשר. פותח ידיך ומשביע לכל חי רצון. ואתה מחיה את כלם וכיוצא בלשונות אלו אן מספר. ובדברי רז"ל יושב הקב"ה וזן את העולם כו'. זן ומפרניס לכל. עורך שולחן, נותן טרף וכיוצא. ולמה זה נעזוב מליצת ספרי הקדש שדברו בלשון נקייה. ונשתמש בשלון מגונה סכרים ונקבות רבות וזווגים והטפת טיפי הזרע ממבושי הזכר לרחמה של נקבה וקליטה וקפאון הזרע ברחמה כמפורסם כל זה בספרי הקבלה החדשה הנכריה. ולא די כל זה אלא שהמסית מחבר הזהר העיז פניו לכנות המבושים אשר חשב באדון העולמים בשם בית אלהים. ושער השמים, כדאיתא בזהר ויצא דף ק"ן ע"ב.
Nota — dois gêneros diferentes: "linguagem imprópria" e "poesia mística." A crítica de Qafih ao zivug do Zohar como "nibbul peh" (linguagem imprópria) confunde dois gêneros completamente diferentes. (a) As leis talmúdicas sobre nibbul peh referem-se à linguagem vulgar no cotidiano — e o Talmude e os poskim (incluindo Rambam, Hilkhot De'ot 2:4) são claros a esse respeito. (b) O Shir haShirim usa a mesma linguagem nupcial e de intimidade que Qafih critica no Zohar — e é canonicamente sagrado; Rabi Akiva disse que "o mundo inteiro não vale o dia em que o Shir haShirim foi dado a Israel" (Yaddaim 3:5). O Zohar é a interpretação mística do Shir haShirim — quando descreve o "zivug" de Ze'ir e Nukva, está descrevendo a mesma união cosmológica que o Shir haShirim expressa poeticamente: a unidade de D'us e Sua Shekhiná, do homem e a alma divina. O Ramchal (Klalei Pitchei Chokhmah, kav. 9): "os cabalistas não descrevem relações físicas — descrevem a devekut (adesão) entre os modos de revelação divina, que é o fundamento de toda a realidade." Ler o Zohar com os olhos da literalidade é como ler o Shir haShirim como um poema de amor mundano.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

"Belial" — a retórica de Eliú ben Berakhel

A citação de Eliú em Jó 34:18 — "é dito ao rei 'Belial'?" — é um instrumento retórico clássico: assim como é impensável insultar um rei humano com o título "Belial" (=homem indigno), seria impróprio descrever o Rei do Universo com um atributo de deficiência. Qafih aplica isso ao nome "Ze'ir Anpin" com uma leitura literalmente etimológica. Mas o valor semântico de um termo técnico num sistema teológico não é redutível à sua etimologia — assim como "Elohim" (forma plural em hebraico) não implica politeísmo. "Ze'ir Anpin" é o Nome de D'us revelado no mundo — identificado com YHWH — não uma inscrição de deficiência.

Os cinco sentidos e o Moreh I:47

O argumento do Rambam no Moreh I:47 sobre os sentidos atribuídos a D'us é claro e correto: o paladar e o tato nunca são metáforas para a ação divina na Torá e nos Profetas, porque implicariam contato físico e deficiência. A visão, o ouvido e o olfato são usados metaforicamente ("D'us ouviu," "D'us viu," "D'us cheirou o sacrifício") porque podem significar percepção e atenção sem implicar corpo. O princípio rambânico é válido. A questão é se ele se aplica ao Zohar — e a resposta dos cabalistas é que não, porque o Zohar é linguagem simbólica-cosmológica, não atribuição literal de sentidos a D'us.

O Shir haShirim e o zivug no Zohar

A objeção mais importante ao argumento de Qafih é o Shir haShirim (Cântico dos Cânticos): todo o livro usa a linguagem da intimidade conjugal para descrever a relação entre D'us e Israel. Rabi Akiva afirmou que "o mundo inteiro não vale o dia em que o Shir haShirim foi dado a Israel" (Yaddaim 3:5). O Zohar é a interpretação mística do Shir haShirim — a "noiva" é a Shekhiná, o "bem-amado" é Ze'ir Anpin (= YHWH). A linguagem do zivug é a continuação dessa tradição poética e mística, não a violação do Rambam sobre os sentidos físicos.

Ham e a "nudez do rei"

A história de Ham que viu a nudez de Noé (Bereshit 9:22) é usada por Qafih para estender o argumento: se contar a vergonha do pai é punição grave, quanto mais descrever "a nudez" (= o zivug) do Rei do Universo. O argumento kal vachomer é retoricamente poderoso, mas a analogia pressupõe exatamente o que está em disputa: que as descrições cabalísticas são "exposição de nudez" literal. Para os cabalistas, a descrição do zivug de Ze'ir e Nukva é a expressão mais elevada da unidade divina — o "mistério da fé" (raza de'mehemnuta).

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXXVII

Os Rishonim que rejeitaram a Cabalá — e a história do Zohar "descoberto"

רִאשׁוֹנִים שֶׁדָּחוּ אֶת הַקַּבָּלָה — וְסִפּוּר הַזּוֹהַר שֶׁנִּמְצָא
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih aplica as fontes talmúdicas sobre nibbul peh (linguagem imprópria) e sobre a proibição de entrar nos mistérios da Criação à linguagem do Zohar sobre os "órgãos" do Ze'ir Anpin e seu zivug. Lista os Rishonim que rejeitaram ou alertaram contra a Cabalá: Maharashal, Rivash, R. Peretz, R. Shimshon de Kinon, R. Yosef Albo. Encerra com a história — citada em nome do Chida — de como o Zohar foi "encontrado num baú" por um rei não-judeu e enviado aos sábios de Toledo.

Nibbul peh e os "assuntos de vergonha" — Yerushalmi, Bereshit Rabbá e Ketubot

(94) E se sobre relatar os assuntos dos seres humanos ba'alei chai os Sábios, de abençoada memória, alertaram que uma pessoa não deve dizer coisa vergonhosa de sua boca — para o Rei dos reis dos reis, o Santo, bendito seja, quanto mais e ainda mais kal vachomer. Como o dito do rei Salomão: "não dês a tua boca para pecar a tua carne, e não digas diante do anjo 'foi um equívoco' — por que D'us Se zangaria?" (Kohelet 5:5). E no Talmude de Jerusalém, capítulo "Ein Dorshin" Chagigah 2:1 aprendemos: Rav disse: "que sejam mudas as lábios da mentira" (Tehilim 31:19) — interpretação: que se tornem surdas, que sejam quebradas, que se calem: "que se tornem surdas" — como está dito "e D'us disse a Ele, quem pôs boca no ser humano, ou quem designa o mudo?" (Shemot 4:11); "que sejam quebradas" — como se diz "e eis que atávamos feixes" (Bereshit 37:7) interpretação: amarradas, presas; "que se calem" — em seu sentido literal. "As que falam contra o Justo tzaddik arrogantemente" — sobre as que falam contra o Justo do Universo coisas que Ele afastou de Suas criaturas. "Com altivez e desprezo": esse que se orgulha de dizer "eu examino a obra da Criação" — pensa que está se orgulhando, mas não está senão sendo desprezível. Disse R. Yossi, filho de R. Chanina: aquele que se glorifica com a vergonha de seu companheiro não tem parte no Mundo Vindouro — o que se glorifica com a honra do Vivente do Universo, muito mais e ainda mais kal vachomer. E o que está escrito depois? "Como é grande o Teu bem que reservastes para os que Te temem" (Tehilim 31:20) — que não haja para ele "como é grande o Teu bem." (Fim da citação.) E assim disseram em Bereshit Rabbá, cap. 1: Rav Huna bar Barkipa abriu: "que sejam mudas as lábios da mentira" — que se tornem surdas, quebradas, caladas: e conclui: "e o que está escrito depois? — 'como é grande o Teu bem que reservastes para os que Te temem' — para os que Te temem, e não para os que desprezam o Teu temor." E em Ketubot cap. 7, no contexto do ensinamento sobre o voto "com a condição de que digas a fulano o que te disse, ou o que disseste" — a Guemará pergunta: "e ela diria?" — e responde: são assuntos de vergonha divrei kalon. Eis que explicitamente os nossos mestres, de abençoada memória, os senhores da Guemará, chamaram os assuntos da relação conjugal de "assuntos de vergonha divrei kalon." E essas coisas são das notórias, que não precisam de prova — exceto para o obstinado.

צד) ואם בספור עסקי ב"ו הזהירו חכמים ז"ל שלא יוציא אדם דבר מגונה מפיו! למלך מלכי המלכים הקב"ה עאכ"ו. כמאמר שלמה המלך ע"ה אל תתן את פיך לחיטא את בשרך ואל תאמר לפני המלאך כי שגגה היא למה יקצוף וכו'! ובירושלמי פרק אין דורשין גרסינן רב אמר תאלמנה שפתי שקר, יתחרשן, יתפרכן, שתתקן. יתחדשן כמה דאתאמר ויאמר ה' אליו מי שם פה לאדם אי מי ישום אלם. יתפרכן כמה דתימר והנה אנחנו מאלמים אלומים (פי' הערוך בערך פרך ענין קשירה) ישתתקן כמשמעו. הדוברות על צדיק עתק. בדוברות על צדיקו של עולם דברים שהעתיק מבריותיו. בגאוה ובוז. זה שהוא מתגאה לומר אני דורש במעשה בראשית. סבור שהוא מתגאה ואינו אלא כמבזה. אמר ר' יוסי בר' חנינה המתכבד בקלון חבריו אין לו חלק לעה"ב. המתכבד בכבוד חי העולמים לא כל שכן. מה כתיב בתריה מה רב טובך אשר צפנת ליראיך. אל יהי לו במה רב טובך ע"כ. וכן אמרו בבראשית רבה פ' א' רב הונא ב' בר קפרא פתח תאלמנה שפתי שקר הדוברות על צדיק עתק בגאוה ובוז. יתחרשן. יתפרכן. ישתתקון. יתחרשון היך מה דאתאמר מי שם פה לאדם או מי ישום אלם. או חרש. יתפרכון. היך מה דאתאמר והנה אנחנו מלאמים אלומים והנה קמה אלומתי. יתתקון כמשמעו. הדוברות על צדיק חי העולמים. עתק דברים שהעתיק מבריותיו. בגאוה אתמהא? בשביל להתגאות ולומר אני דורש במעשה בראשית. ובוז אתמהא? מבזה על כבודו גאמר ר' חנינה כל המתכבד בקלון חביריו אין לו חלק לעה"ב. בכבודו של מקום עאכ"ו. ומה כתיב ארחיו. מה רב טובך אשר צפנת ליראיך. ליראיך ולא לבוזים את מוראך הרב אל יהיו במה רב טובך ע"כ. ובכתובות פ' המדיר אהא דתנן על מנת שתאמרי לפלוני מה שאמרתי לך או מה שאמרת לי, פריך בגמרא ותאמר? ופריק דברים של קלון. הרי דרבותי' ז"ל בעלי הגמרא קראו לעסקי תשמיש דברים של קלון. ודברים כאלה הם מהמפורסמות שאין צריך ראיה רק למתעקש!
Os "órgãos" no Zohar — e "como vós retribuís ao Senhor?"

E onde há mais vergonha, desonra e humilhação do que atribuir ao D'us que adoramos e perante o qual nos prostramos órgãos sexuais — falo o que não posso deixar de dizer para que se entenda — e uma mulher e um útero? (Veja Zohar parashat Behar, fl. 109; e fim da Idra, fl. 296a.) E o desejo de abraçá-la e beijá-la enquanto ela se ornamenta diante d'Ele; e quando se une a ela faz-lhe prazer em seu útero até que o poeta deles, com sua impudência, disse em aramaico: "Que o marido a abrace e que em seu fundamento — que faz prazer a ela — haja uma pilagem de pilagens." — À tal é que vós chamais "o Senhor nosso D'us" — ao "de temperamento/rosto curto" (Ze'ir Anpin) —, com isso tendes retribuído? (cf. Devarim 32:6: "é assim que retribuís ao Senhor?") Pois já está dito: "o filho honra o pai, e o servo o seu senhor; e se sou Eu um pai, onde está a Minha honra? E se sou Eu um senhor, onde está o Meu temor?" (Malakhi 1:6). Seria esta a honra do pai — que o filho relate sobre ele como abraça a esposa e como faz prazer a ela em seu útero na pilagem que lhe foi dado? E é este o temor do senhor — que seu servo o chame de "de rosto curto" (Ze'ir Anpin) e relate sobre ele essas palavras de vergonha? Por que seria diminuída a honra de Abba e Ima, Ze'ir Anpin e sua contraparte — que vós dizeis que ele é o Senhor nosso D'us, e que Ele foi revelado no Sinai e nos deu a Torá — em comparação com a honra do pai e do senhor humanos? Por acaso não foi sobre esses assuntos que o profeta disse: "e os filhos de Israel cobriram com calúnia vayachpe'u coisas que não deveriam ao Senhor seu D'us" (Melakhim II 17:9)? E como diremos "Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos" — e também é dito que Ele é santo e Seus ministros são santos! — e relataremos sobre Ele palavras de desprezo, vergonha e humilhação como essas? Palavras que não têm qualquer raiz nem sombra de fundamento, nem na Torá, nem nos Profetas, nem nos Escritos, nem nos ditos dos nossos Sábios, de abençoada memória, que receberam um do outro (como está explicado na Mishná Avot), nem na Mishná, nem no Talmude Babilônico e Jerusalemita, nem nos verdadeiros Midrashim. Pois a nossa Santa Torá não atribuiu ao Rei do Mundo o sentido do tato sequer em sua parte mais elevada — como escreveu o R. Moreh, de abençoada memória. Quanto mais e ainda mais a parte mais inferior e vergonhosa do tato, ou seja, a relação conjugal. E Deus o livre de crer que os nossos Sábios sagrados, de abençoada memória, dissessem tais palavras sobre o Senhor nosso D'us e sobre todos os Seus ministros.

ואיה בוז וחרפה וקלון יותר מזה ליחס לאלהים אשר נעבוד ונשתחוה לו אברי תשמיש. גיד וביצים, ואשה, ורחם (עיין זהר פרשת בהר דך ק"ט וסוף אדרא דף רצ"ו ע"א) והשתוקקות לחבקה ולנשקה בהיותה מתקשטת לפניו. ובהזדווגו עמה עושה לה נחת רוה ברחמה עד שהפיטן מהם בעזות מצחו אמר יחבק לה בעלה וביסודא דילה דעביד ניחא לה יהא כתיש כתישין. הלה' אלהיכם שאתם אומרים שהוא קצר אפים (זעיר אנפין) תגמלו זאת? והלא כבר נאמר בן יכבד אב ועבד אדוניו. ואם אב אני איה כבודי ואם אדונים אני איה מוראי? האם כבודו של אב שיספר בנו עליו שהוא מחבק את אשתו. ועושה לה נחת רוח ברחמה בדישו שם דיש? ואם זהו מוראו של אדון שיקראהו עבדו קצר אפים(זעיר נאפין) ויסםר עליו דברי קלון כאלה? למה יגרע כבוד אבא ואימא וזעיר אנפין ונוקביה שאתם אומרים שהוא ה' אלהיכם והוא שנגלה בסיני ונתן לנו את התורה. מכבוד האב והאדון? לא על הדברים האלה אמר הנביא ויחפאו בני ישראל דברים אשר לא כן על ה' אלהיהם? ואיך נאמר קדוש קדוש קדוש ה' צבאות. וגם נאמר שהוא קדוש ומשרתיו קדושים! ונספר עליו דברי בוז וקלון וחרפה כאלה? דברים שאין להם שום שורש ולא שמץ דבר, לא בתורה ולא בנביאים ולא בכתובים לא בדברי רז"ל שקבלו איש מפי איש (כמבואר במסכת אבות) לא במשנה ולא בתלמוד בבלי וירושלמי ולא במדרשים האמתיים. שהרי תוה"ק לא יחסה לשי"ת חוש המשוש גם בחלק המעולה שבו כמו שכתב הרב המורה ז"ל. כ"ש וק"ו החלק הפוחת והמגונה שבו דהיינו המשגל. וחלילה להאמין כי רבותינו ז"ל הקדושים יוציאו מפיהם דברים כאלה על ה' אלהינו ועל כל משרתיו. ולקראו בשם קצר אפים ולספר עליו או על משרתיו ענייני משגל ופריה ורביה להוליד נשמות למלאכים ולבני תמותה, והנביא אמר נותן נשמה לעם עלי הורוח להולכים בה, ולא מוליד. האם על הקבלה החדשה הנכריה יאמרו הגוים עלינו רק עם חכם ונבון הגוי הגדול הזה? האם יחוד ה' שנצטוינו בתורה הוא לחשוב את כל הצורות והפרצופים הנזכרים באלו הם אחד? האם עליהם אמר דוד המלך ע"ח ואדברה בעדותיך נגד מלכים ולא אבוש? הלא נשכבה בבשתינו ותכסינו כלמתינו אם נספר באזני ערבי אחד כדברים האלה! ובילקוט פר' קרח רמז תשנ"ו וז"ל חביבה תורה. שכששל מלך ישראל לא שאל אלא תורה שנ' טוב אתה ומטיב למדני חיקך. ואמר סעדני ואושעה ואשעה בחקיך וכו' שלא אהא למד תורה ואין יצר הרע מניח לי לשנות. או אהא למד ושוכח או אטמא את הטהור ומטהר את הטמא ונמצאתי אבד לעה"ב. או שמא חשאלוני מגויי הארץ וממשפחות האדמה ואיני יודע להשיבן, ונמצאתי בוש לעיניהם. וכן הוא אומרואדברה בעדותיך נגד מלכים ולא אבוש וכו' עכ"ל. הרי בהדיא שחוקי תוה"ק ידיעותיה ומשפטיה לא נבוש לפסרם נגד מלכי אוה"ע! מה שאין כן יחודים ופרצופים וזווגים הנז' בזהר וספרי המקובלים החדשים.
Nota — o "corpo de Ze'ir Anpin" no Zohar e sua tradição. As passagens do Zohar citadas por Qafih (Behar 109, Idra Rabbá 296a) referem-se ao guf dze'ir anpin — o "corpo de Ze'ir Anpin" — e incluem linguagem sobre os aspectos masculino e feminino da revelação divina. Na tradição cabalística, esses textos têm um sentido muito específico: (a) O "corpo" de Ze'ir Anpin = a forma espiritual (tzurah, tzelem Elohim) da qual o ser humano foi criado à imagem de D'us (Bereshit 1:27). Não é anatomia física. R. Moshe Cordovero (Pardes Rimonim, Sha'ar haGuf): "os 'órgãos' de Ze'ir Anpin são os arquétipos das faculdades espirituais do ser humano — não têm qualquer aspecto físico." (b) O "zivug" de Ze'ir e Nukva = a união dos aspectos de misericórdia e julgamento na revelação divina; a linguagem é tomada do Shir haShirim. (c) A frase "e faz prazer a ela em seu útero" em aramaico é linguagem de poesia mística, não descrição anatômica. Ler o Zohar literalmente é como ler o Shir haShirim como pornografia.
Os Rishonim contra a Cabalá — e a história do Zohar "encontrado num baú"

E não foi sem razão que os grandes sábios de Israel alertaram para não aprendê-la e para não seguir os costumes nela mencionados, contrários ao Talmude e aos decisores poskim. Não o Maharashal e o R. Tam ibn Yahya, mencionados no Responsa Ravid haZahav. Também R. Peretz, mencionado no Responsa do Rivash §157 — que não costumava falar e nem dar importância àquelas sefirot na oração (isto é, não as considerava como tendo alguma divindade). Também R. Shimshon de Kinon, que se recusou a direcionar sua atenção a qualquer sefirah, e costumava dizer que ele reza como esta criança apontando para uma criança que rezava ao Morador dos Céus — para remover do coração dos cabalistas a ideia de rezar às sefirot. E o Rivash, de abençoada memória, que sentiu sua estranheza e escreveu: "não me dedico a aprendê-la." E escreveu ainda: "e será que as sefirot têm divindade?" — e o respondente, R. Yosef ibn Sussan, negou-lhe a alegação de que teriam e apresentou-lhe uma parábola que não corresponde à verdade! Pois a verdade plena é que os cabalistas consideram as sefirot e o yosher como a essência da divindade. E ele, de abençoada memória, o Rivash, sentiu a contradição, e por isso disse: "não me dedico a aprendê-la." Também o R. Ba'al haIkkarim, no cap. 28 do segundo tratado, alertou muito seriamente para não aprender a Cabalá, e assim escreveu: "e uma regra te direi: guarda-te e guarda muito a tua alma, para que não sejas enredado por eles e capturado em sua armadilha — pois eles abandonam os caminhos da retidão para andar pelos caminhos das trevas (para servir deuses estrangeiros) — pois não sabem e não compreendem; na escuridão andam os que se ocupam com a Cabalá com seu próprio entendimento, sem tradição kabbalah da boca de um sábio que a recebeu por tradição." (Fim da citação.)

E já foi explicado acima, §18, em nome do R. Maharai Tzahari, que ele disse que esta nova Cabalá estrangeira é nova na terra do Iêmen — que chegou por meio dos livros que chegaram ao Iêmen desde aquele tempo, conforme o testemunho do mencionado Maharai. E nunca se encontrou no Iêmen um homem que tivesse recebido Cabalá de boca em boca, e os livros dos nossos antigos que permanecem em nossas mãos o testemunham.

E conforme as palavras do R. Shem haGedolim Chida, R. Chaim Yosef David Azulai, no verbete Zohar, também em todo Israel a Cabalá é nova — e assim escreveu: "vi escrito do R. Avraham Rovigo: 'encontrei escrito do meu mestre R. Menahem Azariah da Fano: encontrei escrito com verdade que o líder dos cabalistas, R. Nehunia ben haKana — e ele compôs o Sefer haBahir —, e depois dele Rashbi fez o Livro do Zohar e compôs nele vários tratados como os Tikkunim; e quando morreu Rashbi e R. Elazar e toda aquela geração, se perdeu a sabedoria da Cabalá, até que D'us deparou com um rei dentre os reis do Oriente, que ordenou escavar num lugar por causa de um assunto de dinheiro, e encontrou-se lá um baú, e nele o Sefer haZohar; e o rei enviou aos sábios de Edom i.e., da cristandade e não souberam e não entenderam; enviou atrás dos judeus, eles vieram até ele, e viram o livro, e disseram a ele: "Nosso senhor o rei, este livro foi feito por um sábio que é muito profundo, e não o compreendemos"; o rei disse a eles: "e não há judeu no mundo que o compreenda?" Disseram a ele: "há na província de Toledo" — e foram buscar os sábios de Toledo, que se alegraram muito com ele; e o rei enviou a eles ao rei grandes presentes; e daí se difundiu a Cabalá entre Israel.'" (Fim da citação encontrada por R. Rovigo.) E coisas assim escreveram a nós os sábios de Jerusalém; e o observador entenderá o assunto em sua forma verdadeira pelo que foi escrito — pois está implícito que depois da morte de Rashbi perdeu-se a sabedoria da Cabalá e foi esquecida de Israel, e as gerações posteriores só aprenderam do livro falsificado que os sábios de Toledo receberam da mão do rei não-judeu e com ele se alegraram muito, e por causa dele trocaram sua glória — e não a receberam da boca de um sábio cabalista; e mesmo todas as pessoas que vimos seguir os caminhos desta Cabalá: todo seu conhecimento e fé nela vêm dos livros, não dos escribas.

ולא לחנם הזהירו גדולי חכמי ישראל שלא ללמדה ולילך במנהגים הנז בה היפך התלמוד והפוסקים, הלא הרב מהרש"ל ור"ת ן' יחיא המובאים בשו"ת רביד הזהב, גם ר' פרץ הובא בשו"ת הריב"ש סי' קנ"ז לא היה מדבר ולא מחשיב לאותן ספירות, (פי' לא היה מחשיב לאותן ספירות שום אלהות), גם ר' שמשון מקינון מאן לכוון לשום ספירה והיה אומר שהוא מתפלל לדעת זה התינוק (פי' כתינוק זה שמתפלל לשוכן שמים) להוציא מלב המקובלים וכו', והריב"ש ז"ל הרגיש בזרותה וכתב איני תוקע עצמי ללמדה וכו', וכתב עוד וכי הספירות יש להם אלהות? והמשיב רבי יוסף ן' שושן כיחש לו והביא לו משל שאינו לפי האמת! כי האמת הגמור שהמקובלים סוברים דספירות ויושר הם עיקר האלהות. והוא ז"ל הרגיש בסתירה, ולכן אמר איני תוקע עצמי ללמדה וכו' גם הרב בעל העיקרים פרק כ"ח משני הזהיר מאד שלא ללמוד הקבלה וז"ל וכלל אומר לך השמר לך ושמור נפשך מאד פן תנקש אחריהם ותלכד במצודתם, כי הם עוזבים ארחות יושר ללכת בדרכי חשך (לעבוד אלהים אחרים) כי לא ידעו ולא יבינו בחשכה יתהלכו העוסקין בקבלה מדעת עצמם מזולת קבלה מפי חכם מקובל ע"כ. וכבר נתבאר לעיל סי' י"ח משם מהר"י צאהרי שאמונת הקבלה הנכריה החדשה הזו, חדשה היא בארץ התימן על ידי הספרים שבאו בה מאותו זמן כעדותו של מהר"י הנז'. ומעולם לא נמצא בתימן איש מקובל מפה אל פה, וספרי קדמונינו הנשארים בידינו יעידון על זה. וכפי דברי הרב שם הגדולים במערכת ספרים ערך זהר גם בכל ישראל חדשה היא וז"ל ראיתי כתוב מהר' מהר"א רויגו וז"ל מצאתי בזהר כ"י ישן נושן אצל מורי מהר"ם זכות וז"ל מצאתי כתוב באמת כי ראש המקובלים רבי נחוניא בן הקנה והוא חיבר ס' הבהיר, ואחריו רשב"י עשה ס' הזהר וחיבר בו כמה חיבורים כמו התקונים, וכשמת רשב"י ור"א וכל הדור ההוא אבדה חכמת הקבלה, עד שהקרה ה'לפני מלך ממלכי מזרח שצוה לחפור במקום אחד על עסקי ממון, ונמצא שם ארון אחד, ובו ספר הזהר ושלח לחכמי אדום ולא ידעו ולא יבינו, שלח אחר היהודים באו אצלו, וראו הספר ואמרו לו אדוני נו המלך, זה הס' עשאו חכם אחד והוא עמוק מאד ואין אנו מבינים אותו, אמר להם וכי אין יהודי בעולם שמבין אותו? אמרו לו יש במדינת טוליטולה שמחו בו שמחה גדולה, ושלחול מלך מתנות רבות, ומשם נתפרסמה הקבלה בישראל ע"כ מצאתי מהר' הנז' עכ"ל. וכדברים האלה כתבו חכמי ירושלם אלינו, והרואה יבין דבר לאשורו ממה שכתב שאחר מות רשב"י אבדה חכמת הקבלה ונשכלה מישראל, ולא למדו דורות האחרונים רק מתוך הספר המזויף שקבלו אותו חכמי טוליטולה מיד המלך הנכרי ושמחו בו שמחה גדולה, ועל ידו המירו את כבודם ולא קיבלו מפי חכם מקובל, גם כל האנשים שראינו אותם הולכים בדרכי הקבלה הלזו כל ידיעתם ואמונתם בה מפי הספרים ולא מפי סופרים, וכפי דברי הרמב"ן ודאי שהלומד מתוך הספרים ישגה בה ויביא לידי טעות להאימן ברשויות הרבה ולעבוד קצר אפים נברא, אשר לפי דבריהם נשמתו חלק אלוה ממעל והמה עובדים לחלק ההוא שבזעיר אנפין בחשבם כי האלהים האמצעים אבא ואימא נתנו הכח והממשלה לשלוט בתחתונים. ואמר לו בני אתה (זהר בלק דף קצ"א) וצור לעבדו ולברך בשמו, וקראו לו בשם ידוד כשם ה' אלהינו כמו שעשו דורו של אנוש כדלעיל סי' נ"ו ונ"ז.
Nota — a lista de Rishonim e a autoria do Zohar. A lista de Qafih é real mas deve ser lida com precisão: (a) Maharashal (Yam shel Shlomo): criticou chumrot cabalísticas específicas — não rejeitou o Zohar como um todo; seu Shu't haRashal cita o Zohar em vários contextos halákicos. (b) Rivash (R. Yitzchak bar Sheshet, sec. XIV): sua responsa §157 é sobre a preocupação de aprender Cabalá sem mestre — não uma rejeição da autenticidade do Zohar. (c) R. Peretz e R. Shimshon de Kinon: citados no Rivash como anedotas históricas sobre figuras que não usavam kavanot cabalísticas — não como autoridades que rejeitaram o Zohar. (d) R. Yosef Albo (Ikkarim II:28): alertou contra o estudo sem mestre, não contra a Cabalá em si. Sobre a história do Zohar "encontrado num baú": é a versão de R. Avraham Rovigo (séc. XVII) citada pelo Chida — que o próprio Chida tomou com ceticismo, prefaciando-a como "vi escrito." O próprio Chida foi um cabalista fervoroso que escreveu obras místicas e considerava o Zohar sagrado. A visão histórica mainstream: o Zohar foi composto por Rashbi (séc. II d.C.) e transmitido oralmente até ser redatado/editado no séc. XIII na Espanha. A questão de autoria é objeto de debate acadêmico (Scholem vs. tradicional) — mas a santidade do Zohar é questão de fé, não de historiografia.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Os mistérios da Criação e o Yerushalmi Chagigah

A referência ao Yerushalmi Chagigah e a Bereshit Rabbá sobre "que sejam mudas as lábios que falam arrogantemente sobre o Justo do Universo" é o testemunho talmúdico de que os mistérios da Criação exigem reverência. Qafih aplica isso ao Zohar — mas a tradição cabalística tem exatamente a mesma consciência: o Zohar deve ser estudado com preparo, humildade e guia. O próprio Ari aconselhava seus discípulos a não estudarem o Zohar sem preparação espiritual adequada. A proibição talmúdica não é contra o Zohar — é contra qualquer abordagem arrogante dos mistérios divinos.

A questão da linguagem do Zohar sobre os "órgãos" de Ze'ir Anpin

As passagens do Zohar que Qafih cita (Behar 109, Idra 296a) são entre as mais sensíveis do corpus cabalístico. O debate sobre como interpretar a linguagem do Idra Rabbá e do Idra Zuta (as grandes assembleias do Zohar) tem séculos de comentários cabalísticos. R. Moshe Cordovero e o Ari divergiram na interpretação de vários desses textos. O consenso: a linguagem do Idra é simbólica-poética ao extremo; Rashbi ensinava em imagens que exigem interpretação profunda. Ler o Idra literalmente é como ler o Bereshit literalmente, sem distinguir narrativa cosmológica de relato histórico.

Os Rishonim e a Cabalá

A lista de Qafih, lida com atenção, não mostra Rishonim que "rejeitaram a Cabalá" — mostra Rishonim que eram cuidadosos com seu estudo e aplicação. O Rivash, o Maharashal, R. Albo — nenhum deles negou a autenticidade do Zohar ou proibiu seu estudo. Eles eram cautelosos com: (a) aprender sem mestre qualificado; (b) mudar a liturgia com base em Kabbalah sem base halákica sólida; (c) praticar as kavanot (intenções cabalísticas) sem preparo adequado. Essas são posições razoáveis que os próprios cabalistas, em sua maioria, endossariam.

A história do Zohar "encontrado num baú"

A narrativa de R. Avraham Rovigo, citada no Chida, é um dos textos mais curiosos da literatura judaica medieval. Ela descreve o reaparecimento do Zohar na Espanha medieval como mediado por um rei não-judeu e por sábios de Toledo. Se for historicamente precisa, sugeriria uma lacuna na transmissão — não que o Zohar seja "falso." Scholem (séc. XX) argumentou que Mosheh de Leon escreveu o Zohar no séc. XIII; a tradição ortodoxa mantém a autoria de Rashbi. Qualquer das versões, porém, não implica necessariamente "falsificação" — pode refletir edição, redação ou compilação de material antigo. O próprio Chida, que cita essa história, foi um dos cabalistas mais prolíficos de sua época.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXXVIII

O Zohar não é de Rashbi — Rasag e R. Tzahari sobre os "filhos de D'us"

הַזּוֹהַר אֵינוֹ מֵרַשְׁבִּ"י — הָרַסְ"ג וְרַבִּי צַאהֲרִי עַל בְּנֵי הָאֱלֹהִים
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Uma prova interna da falsidade da atribuição do Zohar a Rashbi: em Bereshit Rabá, Rashbi maldiz quem chama os "filhos de D'us" (Bereshit 6:2) de anjos — mas o Zohar faz exatamente isso, em três passagens, colocando essa ideia na boca dos discípulos de Rashbi. Em seguida, Rasag, em árabe-judaico, rejeita a mesma interpretação. Por fim, R. Tzahari — sábio iemenita contemporâneo ao surgimento do Zohar — registra as duas visões opostas sobre a unidade divina.

§95 — A contradição interna: Rashbi em Bereshit Rabá vs. o Zohar sobre os “filhos de D’us”

(95) E todos esses erros foram arrastados e se multiplicaram em Israel como os dentes de Og rei de Basã — oriundos das pessoas vãs, amantes de maravilhas e de coisas impossíveis, que se deixaram seduzir pelo rei estrangeiro que as enganou, e foram atrás de suas opiniões; essas pessoas interpretaram os versículos da Torá segundo os devaneios que lhes vinham ao espírito, não segundo o método de nossos Sábios, de abençoada memória, os senhores do Talmude — que são os portadores da verdadeira tradição (kabbalah verdadeira). E eles renovaram costumes e decisões halákicas conforme a nova Cabalá estrangeira, e foram impressas nos livros de orações — até que ela se tornou como uma nova Torá, oposta à Torá Oral Sagrada, tal como explicada no Talmude e nos primeiros decisores no tocante à divindade e à unidade do Nome divino, exaltado seja.

Contudo, quando prestamos atenção e examinamos com cuidado tanto as palavras de nossos Sábios de abençoada memória quanto as palavras do Zohar, podemos provar com justiça que as palavras mencionadas no Zohar não saíram da boca de Rashbi. Pois em Bereshit Rabá, parashá 26, disseram o seguinte: "E viram os filhos de D'us" (Bereshit 6:2) — Rashbi chamou-os de bene dayyanim filhos de juízes, não 'filhos de D'us'. Rashbi costumava maldizer todo aquele que os chamasse de bnei Elohim filhos de D'us, i.e., seres divinos/anjos. Rashbi ensinou: toda brecha que não foi causada pelos grandes não é uma brecha — e com eles, os "filhos de D'us" é como se os juízes tivessem roubado a divindade: quem os censuraria, ou quem se aproximaria deles? Quanto ao motivo pelo qual a Torá os chama "filhos de D'us": R. Chanina e R. Shimon ben Lakish ambos dizem: porque viveram muitos dias sem dor e sem sofrimento. (Fim da citação.)

Veja, meu amigo, como Rashbi se distancia enormemente, odeia e maldiz aquele que diz que eles são anjos! E no Zohar Bereshit 23, o próprio autor ama essa opinião e assim escreve: "Outra interpretação: 'Façamos o homem à Nossa imagem e semelhança' — os companheiros já estabeleceram esse versículo como referindo-se aos anjos ministros que disseram esse versículo. Disse-se: depois que souberam o que havia de acontecer, e o que estava por vir — e eles sabiam que Adam estava destinado a pecar —, por que quiseram que fosse feito? E mais ainda: Aza e Azael estavam acusando Adam no momento em que a Shekhiná disse ao Santo, bendito seja: 'Façamos o homem.' Disseram: 'Que é o homem para que d'Ele O lembreis?' — por que quereis criar Adam? 'Para que O lembreis' — pois está destinado a pecar com a sua mulher, que é trevas; pois a Luz é masculina, e a escuridão é feminina, a esquerda da Criação. Naquele momento, disse a Shekhiná a eles: 'Por aquilo mesmo de que vós acusais, vós estais destinados a cair' — como está escrito: 'e os filhos de D'us viram as filhas dos homens que eram belas'; desejaram-nas e foram desviados por elas. E a Shekhiná os lançou de sua santidade. Disseram os companheiros: 'Mestre, Mestre! Se assim é, Aza e Azael não mentiram em suas palavras — pois de fato Adam estava destinado a pecar com a mulher.' Disse-lhes Rashbi: 'Assim disse a Shekhiná: vós, que estais colocados diante de Mim mais do que as hostes do Alto — se tivésseis visto que eles fariam boas obras, seria adequado que os acusásseis. Ele está destinado a pecar com uma mulher; vós, em muitos dias, pecastes mais do que os filhos dos homens' — como está escrito: 'e os filhos de D'us viram as filhas dos homens que eram belas.'" E no Zohar fl. 55, voltou a repetir isso em nome de R. Yitzhak. E no fl. 58, voltou e o disse pela terceira vez em nome de R. Yitzhak e R. Chanina.

Eis que o autor do Zohar ama essa opinião e, portanto, a disse e a repetiu e a triplicou, tamanho o seu amor por ela. E em Bereshit Rabá está explicitamente dito que Rashbi odiava essa opinião a tal ponto que maldizía aquele que dissesse que eles eram bnei Elohá filhos de D'us / seres divinos. Portanto, é certo que essas palavras ditas no Zohar não saíram da boca de Rashbi — e falsamente o atribuíram a Rashbi.

צה) וכל אלה השגיאות נמשכו ונשתרבבו בישראל כשיני עוג מלך הבשן מהאנשים התפאים אוהבי הנפלאות והנמנעות שנפתו למלך הנכרי שרימא אותם והלכו אחר דעותיו פרש פסוקי התורה על פי רעיונותיהם העולים על רוחם שלא על דרך רז"ל בעלי התלמוד שהם בעלי הקבלה האמתית. וחדשו מנהגים ופסקי הלכות על פי הקבלה הנכרית החדשה, ונדפסו בסדורי התפלות. עד שנעשית כתורה חדשה מתנגדת לתוה"ק שבע"פ. המבוארת בתלמוד ובפוסקים הראשונים בענין האלהות ויחוד השם ית'. אמנם כאשר נשים לב לעיין יפה בדברי רז"ל ובדברי הזהר נוכל להוכיח בצדק. כי לא מפי רשב"י יצאו הדברים הנזכרים בזהר, שהרי בבראשית רבה פר' כ"ו אמרו, וז"ל ויראו בני האלהים. רשב"י קרא להו בנו דייניא. רשב"י הוה מקלל לכל מאן דקר להו בני אלהיא תני רשב"י כל פרצה שאינה מן הגדולים אינה פרצה. כמורים גנבו אלהיא מאן מומי ביה או מאן מקריב ליה. ולמה קורא אותן בני האלהים ר' חנינה ור' שמעון בן לקיש תרויחון אמרין שהרבו ימים בלא צער ובלא יסורין וכו' ע"כ. ראה ידידי כמה הוא מרחיק רשב"י ושונא ומקלל את האומר שהם מלאכים? ובזהר מחבב סברא זו וז"ל (בראשית כ"ג) דבר אחר נעשה אדם בצלמינו כדמותינו, הא אוקמוה חבריא על מלאכי השרת דאינון אמרי להאי קרא, א"ל בתר דהוו ידעין מה דהוה, ומה דעתיד להוי ואינון הוו יודעין דעתיד למחטי אמאי בעו למעבד לוה, ולא עוד אלא דעז"א ועזא"ל הוו מקטרגי עליה בזמנא דאמר שכינתא לקב"ה נעשה אדם, אמרו מה מאדם ותדעהו, מה את בעי למברי אדם. ותדעהו דעתיד למחטי באתתא דילוה דאיהי חשך, דאור איהו כורא, וחשך נוקבא שמאלא דבריאה, בההוא זמנא אמר שכינתא לון, בהאי דאתון מקטרגין אתון דעתידין למנפל. כדכתיב ויראו בנ האלהים את בנות האדם כי טבת הנה. חשקו בהון וטעו בהון. ואפיל להון שכינתא מקדושה דילהון. אמרו חבריא רבי רבי אי הכי עזא ועזאל לא הוו משקרי במלוליהו. דודאי בנוקבא עתיד אדם למחטי. אמר להו הכי אמרה שכינתא. אתון דאזדמנתן ןהרגא קדמי יתיר מחילי מרומא. אי אתון חזיתון שפירין מאדם בעובדיכון יאות לכון לקטרגא עליה, אהל איהו עתיד למחטי באתתא חדא. אתון בשני סגיאי חבתון יתיר מבנ נשא דכתיב ויראו בני האלהים את בנות האדם כי טבת הנה וכו'. גם בדף נ"ה חזר לשנותה בשם ר' יצחק. ובדף נ"ח חזר ושלשה בשם ר"י ור"ח. הרי שמחבר הזהר מחבב סברא זר ולפיכך אמרה וזנאה ושילשה לרוב חבתה. והרי בבראשית רבה מבורא שרשב"י שונא סברא זו עד שהיה מקלל את האומר שהם בני אלהיא. אלא ודאי לא מפי רשב"י יצאו דברים אלו האמורים בזהר. ובשקר יחסוהו לרשב"י.
Nota — "bnei Elohim": a contradição existe de fato? O argumento de §95 é poderoso retoricamente, mas a suposta contradição requer análise cuidadosa. Em Bereshit Rabá 26, Rashbi critica quem chama os bnei Elohim de "filhos de D'us" num sentido elogioso — sugerindo que eram seres divinos ou nobres que merecem admiração (kemorim, "sacerdotes pagãos"). O Zohar, por outro lado, os chama de anjos (Aza e Azael) que caíram e foram punidos — uma narrativa de queda e castigo, não de glorificação. Trata-se, portanto, de tradições distintas: uma que nega divindade ou nobreza especial aos bnei Elohim, e outra que os identifica como anjos caídos e punidos. Além disso, a tradição de Aza e Azael como anjos caídos aparece também no Yalkut Shimoni e no Midrash Avkir — obras que antecedem o Zohar ou são contemporâneas a ele, e que ninguém atribui a Rashbi. Isso sugere que a narrativa dos anjos caídos era uma tradição paralela independente, não exclusiva do Zohar.
§96 — Rasag em árabe-judaico: as três faculdades da alma e por que os anjos não podem pecar

(96) Também o Rasag, em seu comentário ao livro de Jó em árabe-judaico, distancia-se enormemente da opinião de quem diz que os "filhos de D'us" são anjos — e despreza e desdém quem os chama de anjos, tal como fez Rashbi em Bereshit Rabá. Eis o que escreveu em língua árabe em árabe-judaico; traduzido ao hebraico pelo Rav Qafih: "E quão longe está do raciocínio correto que esse Satã fosse um anjo! Pois todos os professores do monoteísmo (ahl al-tawhid) concordam que o Criador, exaltado e glorificado, criou Seus anjos ministros dentre aqueles que Ele sabia que não O desobedeceriam — assim como escolheu Seus profetas enviados dentre aqueles que sabia que não O desobedeceriam. E que um dos justos e santos desobedeça — isso está entre as maiores transgressões! Quem, portanto, alegar que esse adversário de Jó era um anjo afirma que os anjos desobedecem — e isso contradiz aquilo em que todos concordamos.

E sabe — que D'us te guie — que a alma possui três faculdades: o intelecto (al-fikr), a ira (al-ghadab) e o desejo (al-shahwa). A faculdade do intelecto é aquela pela qual o ser humano distingue o correto do errado e a verdade da falsidade. A faculdade da ira é a que impele o ser vivo à coragem, à audácia, à vingança e a exigir o que lhe é devido. A faculdade do desejo é a que faz o ser vivo anseiar por alimento, procriação e outras necessidades. E sabe além disso que a qualidade de justiça num ser racional é que essas duas faculdades — o desejo e a ira — sejam subordinadas ao intelecto; e se uma delas o superar, isso é injustiça e erro. Quem, portanto, permitir que os anjos experimentem ciúme — que é um dos tipos de ira —, fica necessariamente comprometido a admitir que os anjos também podem ter desejos: alimentação, bebida, relação conjugal e outros assuntos vis e baixos, dos quais D'us preservou Seus anjos — especialmente porque já estava em Seu conhecimento prévio que não O desobedeceriam. Portanto, é impossível que a realidade seja contrária ao que precedeu em Seu conhecimento.

Rasag menciona que alguns "dissidentes" (khawarij) afirmaram que Satã era um anjo com ciúme, e que os bnei Elohim de Bereshit 6:2 eram anjos que coabitaram com as filhas dos homens. Rasag refuta: a expressão "filhos de D'us" designa simplesmente os distintos e nobres entre os humanos, separados da massa por sua excelência — como ocorre em vários contextos bíblicos. E o versículo seguinte "e D'us viu que era grande a maldade do homem" refere-se a humanos, não a anjos; e D'us puniu o homem — "apagarei o homem que criei" — e não aos anjos. (Fim da citação; tradução completa no apêndice da obra.)

Eis que está explicitamente claro que o Gaon Rasag distancia-se muito da opinião de que os "filhos de D'us" são anjos, e a rejeita com as duas mãos, chamando-a de "opinião heterodoxa" (de'at chutzit). Suas palavras estão alinhadas com as de Rashbi em Bereshit Rabá — ao contrário da opinião do Zohar, que diz que são anjos e a repete e triplica. E esta é uma grande prova de que o Zohar não é de Rashbi — pois Rashbi maldizía aquele que dissesse que eram anjos.

No tocante ao Satã no livro de Jó, que o Gaon explicou ser um ser humano adversário — embora o Ra'avad Ibn Ezra o tenha contestado —, há espaço para refutar a objeção dele e manter as palavras do Gaon Rasag. E embora o primeiro capítulo de Bava Batra implique algo como o Ra'avad, é sabido o que o Nagid, autor da Introdução ao Talmude, escreveu a respeito da interpretação da aggadá: "Não se aprende dela senão o que parecer razoável. E deveis saber que tudo o que os Sábios estabeleceram como halakhá — em matéria de mandamento, vinda da boca de Moisés nosso mestre, que a recebeu do Poder Divino — não podeis acrescentar nem subtrair. Mas o que eles interpretaram nos versículos, cada um segundo o que lhe ocorreu e o que julgou em sua própria compreensão — dessas interpretações, aquelas que parecerem razoáveis se aprendem, e as demais não se apoiam nelas." (Fim da citação.)

O resultado: para tudo o que é interpretação bíblica e não tem impacto em halakhá na prática dos mandamentos — segue-se o que parecer mais razoável. Mas para tudo o que incide em halakhá, como em nosso caso — o mandamento da unidade de D'us —, não se pode mover-se da tradição recebida dos nossos Sábios de abençoada memória: que não se pode associar ao Nome divino, exaltado seja, qualquer força criada, seja ela corpórea ou espiritual. Como o dito de Rashbi: "todo aquele que associa o Nome do Céu com outra coisa será erradicado do mundo."

צו) גם הרס"ג בפירושו לס' איוב מרחיק מאדת סברת האומר שבני האלהים מלאכים וביזה וזלזל את האומר שהם מלאכים כמו שעשה רשב"י בבראשית רבה וז"ל בלשון ערבי. ומא אבעד אלקיאס אן יכון הדא אלשטן מלכא, לאן אהל אלתוחיד מגמעין עלי' אן אלבארי נל ועז כלק מלאיכתה מקרבין. מן עלמה אנחם לא יעצון כמא אנה אצטפא אנביאה אלמרסלין מן עלמה אנהם לא יעצונה. ומעאנדה אלאוליא אלצאלחין מן כבאיר אלמעצי! פמן זעם אם הדא אלמעאנד לאיוב כאן מלכא פקד נעל אלמלאיכה יעצון. וכאלף מא נחן מגמעין עליה, וקד תעלם ארשדך אללה אן לאלנפס תלאת קוי, אלפכר, ואלגצב ואלשהות, פאמא קווה אלפכר פחי אלתר ימייז כתא אל אנסאן אלצואב מן אלכטא ואלחק מן אלבאטל, ואמא קווה אלגצב פהי אלתי כהא ילחק אלחיואן אלאקדאם ואלגראות ואלאנתקאם ואסתיפא אלטואיל, ואמא קוה אלשהוה פבהא ישתאק אלחיוןאן אלי אלגדא ואלי אלתלקיח וסאיר אלדעאוי. ותעלם מע דאלך אן צפה עדל אלנאטק אן תכון אלקוותן אעני קווה אלשהוה ואלגצב מדענה לאלפכר (פאן) גלב אליהא אחדהמא כאן דאלך גורא וכטאא, פמן גאוז אן תפעל אלמלאיכה אלחסד אלדי הו אחד אגואע אלגצב לזמה תגויז וקוע אלשהואת מן אלמלאיכה והו אלאכל ואלשרב ואלנכאח וסאיר אלאמור אלרדלה אלוסלה אלתי קד צאן אללה מלאכיתה ענהא, סימא וקד סבק םי עלמה אנהם לא יעצונה. פלא יגוז אן יכון באלפעל כלאף מא סבק פי עלמה וכו' וקד בלגני ען בעץ אלכוארג אן כאלפה בה אלי' אן זעם אן הדא אלשטן מלך. ואן אלחסד ואלגירה ואלבני יגוז וקועהם באלפעל מן אלמלאיכה כמה תוהם פי קצח' איוב וחסד אלשטן לה' תם ראא איצא אן באטלאקה עליהם דאלך ילזמה אטלאק אל שיאן ואלנבאח, פנאוז המא איצא. ואדעא אן קצה ויראו בני האלהים את בנות האדם כי טבת הנה. הם אמלאיכה אלנאכחון, אלחרם באסקאטהם מן אלסמא ותציירהם כאלנאס, ונצב להם שבחה הו קולה אני אמרתי אלהים אתם ובני עליון כלכם אבן כאדם תמותון וכאחד השרים תפלו, פלם יבק פאחשה ולא קביחה חתי וצף בהא אלמלאיכה, כל דאלך גאריא עלי' אצלה הדא, פרכב הדה אלשנאעאת אלעצימה לקלה' בצרה בתפסיר אלכלאם באלגה, ואנא מביןן לטאה פי גמיע מא וצעה בעון אללה, אעלם אסעדך אללה אן אלשבהה אלדי דעת הדא אלמבדע אלהרי וגירה אל' הדא אלקול אן אלשטן מלך הוא קול אללה צעלי' לאלשטן הנה כל אשר לו בידיך רק אליו אל תשלח ידיך, ואיצא קולה רק את נפשו שמור, ואיצא קולה ויך את איוב בשחין רע, ותוהם אן הדא מנסוב אלי' אלשטן. ואנא אשרח מא בה תזול הדה אל תלאת אלשבה במא פיה מקנע. פאקול אן אלמראד ואלראי פי לגה' בני אסראיל יסמא יד. כמא קאל דוד לאלמסתגיתה אליה היד יואב אתך בכל זאת, מענאה ראי ומראד וכו' וענד זואל הדה אלשבהה אקול אן כטא הדא אלמעבר פי תלריג ויראו בני האלהים את בנות האדם. אפצע מן מא קאלה פי קצה איוב ודאלך אנא לם יקף בתה עלי' מא יסתעמלון בני אסראיל פי אלכאץ ואלעאם, ודאלך אנה מן סבילהם אן יקולון פעל אלכואץ כדא ופעל אלעואם כדא ויכון אולאיך אלכואץ איצא נאנא, ואנמא פרדהם לתכציציהם, פעלי, הדא קולה ויראו בני האלהים נאסא איצא אנמא פרדהם מן אלעואם לתכציצהם ושרפהם. והדה עבארה מתגהה לתנפי אלמנכר ען אלמקרבין. ויזידהא איצא ויקויהא קולה בעד דאלך וירא ה' כי רבה רעת האדם, ולם ידם אלמלאיכה מעהם. וקולה פי עקב דאלך אמחה את האדם אשר בראתי ולם יעאקב אלמלאיכה וכו' עכ"ל. העתק תמצא בסוף הספר הרי בהדיא שהגאון מרחיק מאד דעת האומר שבני האלהים הם מלאכים ודוחה אותה בשתי ידים וקורא לה דעת חיצונית. ודבריו מכוונים לדברי הרשב"י שבבראשית רבה, שלא כדעת הזהר שאמר שהם מלאכים, ושונה ומשלם בה, וזו הוכחה גדולה שאינו מרשב"י שהרי רשב"י היה מקלל את האומר שהם מלאכים. ובענין השטן שפי' הגאון שהוא אדם, אע"פ שהראב"ע השיגו יש מקום סתירה להשגתו ולהעמיד דברי הגאון הרס"ג, ואע"פ שבפ"ק דבבא בתרא משמע כהראב"ע. הנה ידוע מה שכ' הנגיד בעל מבוא התלמוד בפי' הגדה, ואין לך ללמוד ממנה אלא מה שיעלה על הדעת, ויש לך לדעת שכל מה שקיימו חז"ל הלכה בענין מצוה, שהוא מפי משה רבינו עליו השלום מפי הגבורה, אין לך להוסיף עליו ולא לגרוע ממנו אבל מה שפירשו בפסוקים כל אחד כפי שיזדמן לו ומה שראה בדעתו ולפי מה שיעלה על הדעת מן הפירושים האלה לומדים אותם, והשאר אין סומכים עליהם עכ"ל. ועיין רש"י שבת פ' במה מדליקים בשאלת מהו לכבויי בוצינא מקמי באישא בשבתא. והיוצא מזה דכל למסבר קראי בעלמא ואין נוגע ממנו לדינא בעשיית המצות ובעיקרי תורתינו הקדושה, אין בומכים אלא על כל מאי דמסתבר טפי. אבל כל מאי דפנקא מינא לדינא כנדון דידן כמצות יחוד השם יתברך אין לזוז מקבלת חז"ל שאין לשתף עם השם ית' שום כח נברא בין שיהיה גשמי או רוחני כמאמר רשב"י ע"ח כל המשתף שם שמים ודבר אחר נעקר מן העולם.
Nota — Rasag, Ibn Ezra e o Talmude sobre o Satã de Jó. A interpretação de Rasag — que Satã em Jó é um adversário humano — é uma posição racionalista extrema que o próprio Qafih reconhece como contestada. Ibn Ezra (Comentário a Jó, introdução) e o Talmude (Bava Batra 15b–16a) identificam Satã como um ser espiritual distinto. O Rambam (Moreh Nevukhim III:22) adota uma interpretação alegórica: Satã = a inclinação ao mal (yetzer hara) ou a matéria primordial. Assim, tanto Rasag quanto o Rambam chegam a interpretações racionalizantes de Satã — mas por caminhos diferentes. O princípio do Nagid (R. Shmuel haNagid, séc. XI) citado por Qafih é de enorme importância hermenêutica: aggadot e interpretações de versículos são opiniões dos sábios, não normas vinculantes — diferentemente das decisões halákicas. Isso permite que a tradição aceite simultaneamente a visão talmúdica de Satã como ser espiritual (não vinculante em doutrina) e o raciocínio racional de Rasag. O que Qafih extrai desse princípio — que a unidade de D'us é halakhá vinculante, e portanto não admite a associação das sefirot com a essência divina — é o argumento central do Milchamot Hashem.
§97 — R. Tzahari e as duas visões da unidade divina — um testemunho do Iêmen medieval

(97) E vi escrito por um dos santos entre os sábios da Idade Média — é o Maharai Tzahari, que viveu no Iêmen na época em que os livros do Zohar e da nova Cabalá estrangeira se difundiram pela terra do Iêmen — como ele mesmo escreveu na parashá Lech Lecha que "são coisas novas que chegaram recentemente." E na parashá Bereshit explicou que há duas opiniões acerca da unidade do Eterno, e assim escreveu:

"Após essa introdução, preciso revelar-te um pouco que nesse assunto — a saber, a unidade do Nome — há duas opiniões. A primeira é a opinião do Rambam e dos que o seguiram, aos quais não chegou nada das palavras da Cabalá nova estrangeira. Sua opinião sobre a unidade do Nome é pelo caminho da negação — isto é, para remover a dúvida do coração e afastar do Nome divino toda imperfeição; e então Ele é Um simples. E disseram ainda Guemará Berakhot 13b: 'é preciso prolongar o dalet de echad de "Escuta, ó Israel" a fim de proclamá-Lo Rei sobre os quatro cantos do mundo.' E tudo o que trouxeram em suas palavras não vai além disso. A outra opinião é a dos cabalistas, que fazem toda a obra sagrada, e disseram que o segredo da unidade é unificar o Nome com todas as dez sefirot; e o Kedushah também deve ser intencionalizado com todas as dez sefirot, que são o sistema da Divindade; e todos os mandamentos emanam das dez — ou seja, cada mandamento tem seu segredo em uma das dez —, como disse o Candelabro Sagrado que ilumina a terra e seus habitantes, Rashbi, na parashá Vayishma Yitro: 'todos os mandamentos da Torá se unificam no corpo do Rei — alguns na cabeça, outros no corpo, outros nas mãos do Rei, e outros nos Seus pés; e ninguém sai de fora do corpo do Rei.' E tu, o estudioso, não te admires do que disseram 'cabeça, mão e pé' — pois tudo isso alude às sefirot, como te mostrarei agora, segundo o que organizou o Sha'are Orah, um a um, para encontrar a conta: as três primeiras Keter, Chokhmá, Biná aludem à cabeça; Guedulá e Gevurá = os braços do mundo; Tiferet = a espinha dorsal e o coração; Netzach e Hod = as duas coxas; Yesod = o pacto brit; e Malkut é a que recebe tudo e distribui a todos os inferiores. E esse é o segredo da unidade e do Kedushah: e é preciso unir a tenda para que seja uma — os dois nomes, Yud-Hê-Vav-Hê e Adono-i. Desta forma aprendes que quando dizes a palavra echad, deves intencionar as nove sefirot: alef e chet 1+8=9 sefirot; e Malkut alude à décima — o dalet; e o motivo para prolongar o dalet é para que se prolonguem Seus dias sobre Seu reino — em nome do Criador, anjo e esfera e roda de sua sefiráh." (Fim da citação.)

Vê, meu pai, vê também como o sábio citado, Maharai Tzahari, sentiu e soube que há duas opiniões opostas acerca da unidade do Eterno — mas apenas porque achou que os Rishonim, os sábios do Talmude, que disseram "prolongar o dalet de echad para proclamá-Lo Rei sobre os quatro cantos do mundo", eram piedosos da ciência (chasidei madda) — que não sabiam da nova Cabalá estrangeira e nada dela lhes havia chegado —, e não sabiam unificar o Nome com as criaturas, as sefirot imaginárias que fizeram de corpos e rostos para nosso D'us, bendito seja, sendo Ele a alma delas. Mas na verdade o contrário é o caso: é proibição absoluta incluir e associar com o Eterno qualquer criatura — como foi explicado acima, §74 e §82, em nome de Midrash Rabá. E o motivo: porque Ele, exaltado seja, está além, elevado e grandioso a tal ponto que lhe basta Sua própria essência e não necessita de Suas criaturas para se associar com nenhuma delas; pois todas as Suas criaturas precisam d'Ele, e Ele não precisa delas para ser auxiliado por elas, Deus o livre — pois "Ele disse e foi; Ele ordenou e se manteve" (cf. Tehilim 33:9); Ele sozinho ordenou e tudo se manteve.

E o referido sábio R. Tzahari não desceu à profundidade das palavras do Rasag e do Rambam — com os quais se ocupa, copiando suas palavras e amando-as — e as fez como uma espécie de apresentação e introdução para a verdade da unidade do Eterno; sentiu que são duas opiniões, mas não percebeu a contradição no capítulo terceiro do primeiro tratado, em que copiou parte das palavras deles — que se opõem completamente ao sistema da nova Cabalá estrangeira — e apenas as achou como pertencentes aos piedosos da ciência que não sabiam unir e associar e incluir as formas e os rostos com a verdade d'Ele, exaltado seja, e unificá-Lo com eles especificamente.

Pois não souberam nem entenderam que o Rasag, o Rambam, R. Yehudá haLevi e o autor do Chovot haLevavot combatem com mão forte as opiniões estrangeiras e alheias que começaram a germinar entre os judeus desde o tempo dos Gueonim — e ainda eram orais, não registradas em livro —, até que saiu o livro estrangeiro, o Zohar, que rebaixa a Torá Oral, a Mishná e o Talmude, chamando-os de "even maskít" pedra de tropeço, "árvore do conhecimento do bem e do mal", "kelipá" casca impura, "escrava que desaloja sua senhora" — contrariamente às palavras do rei David, que disse a respeito delas: "mais desejáveis do que o ouro e do que muito ouro puro, e mais doces do que o mel e do que o destilado dos favos" (Tehilim 19:11). E o Zohar incitou e desviou as multidões a servir a outro deus de ânimo curto (qatzar appayim), um ser criado o Ze'ir Anpin — como escreveu o R. Yosher Levav para servir-lhe mesmo sendo criado, porque acreditaram com fé completa que as palavras do Zohar saíram de Rashbi. E a causa que os levou a isso foi não terem tomado a peito e diante dos seus olhos as palavras dos Rishonim, os senhores das regras que aprofundam o estudo do Talmude — as palavras do R. Asher Rosh de abençoada memória, que trouxe acima, §42: "toda tosefetá ou baraita que não se difundiu até depois do fechamento da Guemará não é confiável" — pois os compiladores do Talmude pesquisaram e investigaram para conhecer todos os livros escritos segundo o entendimento dos sábios e os distinguiram como confiáveis. "E toda tosefetá ou baraita que contradiz a Guemará não é confiável — pois certamente está distorcida ou é falsificada." (Fim da citação.)

צז) וראיתי לאחד קדוש מחכמי ימי הבינים הוא מהר"י צאהרי אשר חי בתימן בעת התפשטות ספרי הזהר והקבלה הנכריה החדשה בארץ התימן כמו שכ' בפרשת לך לך שהן חדשים מקרוב באו. ובפרשת בראשית ביאר שיש שתי דיעות ביחוד השי"ת וז"ל ואחר הקדמתי זאת צריך אני לגלות לך מעט כי בזה הענין (ר"ל יחוד השם) יש שתי דעות, האחת דעת הרמב"ם והנמשכים אחריו שלא הגיע אליהם דבר מדברי הקבלה (הנכריה החדשה). וסברתם ביחוד השם על דרך שלילה רצוני לומר לסלק הספק מלבו ולסלק מהשם ית' כל החסרונות ואז הוא אחד פשוט ועוד אמרו (גמרא ברכות דף י"ג ע"ב) צריך להאריך בדלת של אחד כדי שימליכהו על ארבע פנות העולם כולל הדברים לא תמצא מגמתם מגעת בכל מה שהביאו בדיבריהם אלא עד כאן. והדעת האחרת הם בעלי הקבלה העושים את כל מלאכת הקדש אמרו כי סוד היחוד הוא ליחד את השם בכל עשר ספירות. והקדושה גם כן צריך שיכוין בכל עשר ספירות שהם מערכת האלהות, וכל המצות מתפשטות מן העשר רצוני לומר שכל מצוה ומצוה יש לה סוד באחת מן העשר כמו שאמר בוצנא קדישא המאיר לארץ ולדרים רשב"י בפ' וישמע יתרו, כל פקודי אוריתא מתאחדן בגופא דמלכא מנהון ברישא ומנהון בגופא, ומנהון בידי מלכא ומנהון ברגלוי. ולית מאן דנפיק מגופא דמלכא לבר וכו'. ואתה המעיין אל תתמה במה שאמרו רישא ידא ורגלא שהרי כל אלו רומזים אל הספירות כמו שאצייר לך עתה שיח השדה הקדושה והטהורה העליונה כפי מה שסידר הרב שערי אורה אחת לאחת למצוא חשבון. אבל כי חג' ראשונות רומזים לראש. גדולה גבורה זרועות עולם. תפארת לשדרה וללב. נצח והוד תרין ירכין. ויסוד דא ברית. ומלכות היא מקבלת את הכל ומשפעת לכל התחתונים. וזהו סוד היחוד והקדושה, וצריך לחבר את האהל להיות אחד השני שמות ואהדונה"א. נמצאת למד כשתאמר מלת אחד, תכוין לתשע ספירות, אל"ף וחי"ת, ומלכות רומזת לעשירית, שהיא דל"ת, וחסוד למען יאריך ימים על ממלכתו, על שם הבורא מלאך וגלגל ואופן עכ"ל. ראה אבי גם ראה איך החכם הנז' מהר"י צאהרי הרגיש וידע שהם שתי דעות מתנגדות ביחוד השי"ת, אך ורק כי חשב את הראשונים חכמי התלמוד שאמרו להאריך בדל"ת דאחד כדי להמליכו בארבע פינות העולם לחסידי מדע. שלא ידעו בקבלה הנכריה החדשה ולא הגיע אליהם דבר ממנה, ולא ידעו ליחד את השם עם ברואיו הספירות המדומות שעשו אותם גופים ופרצופים לאלהינו ב"ה והוא נשמה להם. ואדרבא נהפוך הוא שאיסור גמור הוא לכלול ולשתף עם השי"ת שום נברא כמו שנתבאר לעיל סי' ע"ד. וסי' פ"ב בשם מדרש רבה, והטעם כי הוא ית' נעלה ומרומם ושגיא כה, ודי לו בעצמותו ואין צריך לבריותיו להשתתף עם שום אחד מהם. שכל בריותיו צריכים לו, והוא אינו צריך להם להעזר בהם ח"ו כי הוא אמר ויהי הוא לבדו צוה ויעמוד. ולא ירד הרב הנז' לעומק דברי ה רס"ג והרמב"ם שהוא עסוק בהם להעתיק דבריהם והוא מחבבן, ועשה אותן כעין הצעה והקדמה לאמתת יחוד השי"ת, והרגיש שהם שתי סברות. ולא הרגיש הסתירה בפרק ג' לראשון שהעתיק מקצת דבריו, שהם מתנגדים לגמרי לשטת הקבלה הנכריה החדשה, רק חשב אותם לחסידי מדע. שלא ידעו לצרף ולשתף ולכלול את הצורות והפרצופים עם אמתתו ית' וליחדו אמהם דוקא. ולא ידעו ולא יבינו כי הרס"ג והרמב"ם ורבי יהודה הלוי ובעל חובת הלבבות נלחמים המה בחזקת היד עם דעות הנכריות הזרות שהתחילו להנץ בין היהודים מזמן הגאונים, ועדיין היו בעל פה ולא הוחקו על ספר. עד שיצא הספר הנכרי הזהר המבזה את תורה שבעל פה המשנה והתלמוד, וקורא להם אבן משכית, ועץ הדעת טוב ורע. וקליפה, ושפחה כי תירש גברתה, נגד דברי דוד המלך ע"ה שאמר עליהם הנחמדים מזהב ומפז רב ומתוקים מדבש ומנופת צופים, והסית והדיח את הרבים לעבוד לאל אחר קצר אפים נברא, כמו שכתב הר' יושר לבב לעבדו אע"פ שהוא נברא, לפי שהאמינו באמונה שלימה כי מרשב"י יצאו הדברים ההם. והסבה שגרמה להם זה שלא שמו אל לבם ונגד עיניהם דברי הראשונים בעלי הכללים המעמיקים בתלמוד, המה דברי הרא"ש ז"ל שהבאתי לעיל סי' מ"ב שכל תוספתא או בריתא שלא נתפשטה עד אחר סידור הגמרא לאו דסמכא היא. דמסתמא מחברי התלמוד חקרו ודרשו לידע כל הספרים שנכתבו על דעת חכמים וביררו אותם שהם בר סמכא. וכל תוספתא או ברייתא שהיא היפך הגמרא לאו דסמכא היא דודאי משבשתא היא או מזויפת ע"ש.
Nota — R. Tzahari e a síntese cabalística como "completamento" da filosofia. R. Yahya ibn Tzahari (séc. XV–XVI, Iêmen) é uma das figuras mais estimadas da tradição iemenita. A sua visão de que a filosofia racional (Rambam, Rasag) é uma "introdução" e a Cabalá é sua "completude" foi, na verdade, a posição dominante no judaísmo ibérico e oriental desde o século XIV. O próprio R. Yosef Karo (Beit Yosef), o Rema, e muitos outros sábios adotaram exatamente essa síntese. A crítica de Qafih — que R. Tzahari "não viu a contradição" — é a crítica do Dor Deah à síntese maioritária: para o Dor Deah, não há síntese possível porque os sistemas são mutuamente exclusivos quanto à natureza de D'us.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A prova interna da autoria do Zohar

O argumento central de §95 — que Rashbi em Bereshit Rabá maldiz os que chamam os bnei Elohim de anjos, enquanto o Zohar faz exatamente isso três vezes — é o tipo de argumento literário-interno que estudiosos modernos do Zohar (como Gershom Scholem) também examinaram. Scholem concluiu, a partir de análise filológica independente, que o Zohar foi principalmente composto por Moshe de Leon na Espanha do século XIII — não por Rashbi. Mas a maioria dos poskim e das autoridades tradicionais, desde o século XIII até hoje, aceitam Rashbi como autor, entendendo as variações e aparentes inconsistências como inerentes à tradição oral milenar antes de sua redação.

A tradição de Aza e Azael

A narrativa dos anjos Aza e Azael que "caíram" ao ver as filhas dos homens é mencionada no Yalkut Shimoni sobre Bereshit e em várias fontes midrásicas paralelas ao Zohar. Isso sugere que se trata de uma tradição antiga e difundida, não uma inovação do Zohar. A questão é se Rashbi em Bereshit Rabá rejeita especificamente a identificação dos bnei Elohim como anjos caídos, ou apenas a glorificação deles como seres divinos. A distinção importa para avaliar a força do argumento de Qafih.

As três faculdades da alma e a teologia dos anjos

O argumento de Rasag em árabe-judaico — que os anjos não podem experimentar ciúme porque foram criados de uma classe que Deus sabia que não desobedeceria — é uma das formulações mais nítidas da teologia racional dos anjos. O Rambam (Moreh II:6) segue uma linha similar: os anjos (malachim) são intelectos puros, sem matéria, e portanto sem as faculdades animais de ira e desejo que levam à desobediência. O Rambam difere de Rasag na identificação de Satã, mas concorda na impossibilidade de os anjos "caírem".

R. Tzahari como testemunho histórico

O dado mais valioso do §97 — incontestável mesmo por quem discorda da tese geral de Qafih — é o testemunho histórico de R. Tzahari de que o Zohar e a Cabalá chegaram ao Iêmen "recentemente" e por meio de livros, não por tradição oral de mestre a discípulo. Isso é consistente com o que sabemos da história da Cabalá iemenita: ela chegou principalmente através do contato com sábios das academias otomanas no século XV-XVI, muito depois de a Cabalá luriânica (Ari) já estar estabelecida em Safed. O grande R. Shalom Shabazi (séc. XVII), o maior poeta do Iêmen, foi kabbalist fervoroso — mas aprendeu a Cabalá sobretudo através dos livros do Ari, não de uma cadeia oral contínua. Isso confirma o relato de R. Tzahari sem confirmar as conclusões que Qafih tira dele.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XXXIX

O surgimento do Zohar — e a investigação de R. Yitzhak de Acco

צְמִיחַת הַזּוֹהַר — וַחֲקִירַת רַבִּי יִצְחָק דְּמִן עַכּוֹ
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O Zohar só apareceu em Israel no início do 6.o milênio (~1240 CE). Qafih apresenta um kal vachomer a partir da halakhá do rolo de Torá encontrado em mãos não-judaicas, e mostra como o próprio Ramban — ao exigir transmissão oral de mestre a discípulo — inadvertidamente forneceu a prova contra a autenticidade do Zohar. O segundo segmento traz o relato de R. Yitzhak de Acco, que investigou pessoalmente a origem do Zohar, e o testemunho da esposa de R. Moshe de Leon.

§98 — O Zohar no 6.o milênio · o kal vachomer · a condição do Ramban contra si mesma

(98) Eis que é sabido e amplamente conhecido por todo versado na literatura de Israel que os escritos do Zohar e demais livros da nova Cabalá estrangeira não se difundiram em Israel senão a partir do início do 6.o milênio (~1240 CE), e não se sabe com clareza de onde brotaram — como trarei a seguir as opiniões dos que procuram autenticá-los, sem terem conseguido esclarecer o assunto. O que está mais próximo do entendimento é o que escreveu o Rav Chida no livro Shem haGedolim, capítulo das obras, letra zayin — e já trouxe suas palavras acima. Os sábios de Jerusalém, em suas notícias, concordam com ele; veja lá. O Zohar chegou da mão do rei não-judeu à crença do povo.

Na notícia que chegou de Jerusalém, a.s., aprofundaram-se muito a copiar em resumo as palavras dos Acharonim decisores posteriores que aplicam a "reboco falso" (Yechezkel 13:10) às crenças estrangeiras — para saná-las, mas não foram sanadas. E toda a intenção dos sábios de Jerusalém, em tudo o que copiaram na notícia das palavras dos Acharonim, é retirar a corporeidade das sefirot, das formas e dos rostos (partzufim) mencionados no Zohar e demais livros de Cabalá! Mas mesmo que nos tenham salvado da corporeidade — em absoluto não nos salvaram de servir a outro deus criado, seja corpóreo ou espiritual. Pois eles mesmos admitem que as sefirot são "causas criadas" (sivot nivra'ot), cada uma causa e origem do que está abaixo dela — masculino e feminino —, como está explicado no Zohar e nos livros que o seguem. Apenas que são forças espirituais de luz criada, e a essas forças servem, e a elas clamam em tempos de angústia, e a elas louvam, agradecem e glorificam em tempo de salvação. E as aceitam como divindades — como se a nossa Santa Torá nos autorizasse a servir uma força criada, contanto que não a pensemos corpórea mas espiritual; pois retiramos delas as corporeidades e as imaginamos como luzes. (Não sabem que também a luz e o ar são corpos sutis — ver §47.) E trazem provas finas, lânguidas, tostadas pelo vento leste — para retirar a corporeidade delas. E para pensar o Influenciador como masculino e o que recebe a influência como feminino; e os zivugim uniões, não no sentido literal — e chamam ao recebimento da influência de zivug!

E mesmo assim não nos trouxeram explicações para os nomes de órgãos vergonhosos — o Yesod que é o órgão viril (gid haervah); o be'ayyin dedukhura testículos do masculino; o Yesod deNukva órgão feminino e o orifício traseiro (nekev haachorim). Para que servem estes no contexto dessa luz abstrata da corporeidade? E se a Santa Torá e os Profetas usaram expressões que sugerem corporeidade — como "mão" e "dedos" — jamais as usaram para atribuir ao Eterno, bendito seja, os sentidos mais inferiores como comer, beber e toque, sequer em sua parte mais elevada — quanto mais na parte mais vergonhosa e inferior do sentido do tato, que é a relação conjugal —, como escreveu o R. Moreh (Moreh Nevukhim I:47).

E o pior e mais amargo é que colocaram muitas causas na divindade, todas criadas — e essas, para eles, são a essência da divindade. E compuseram livros segundo a ordem de suas hierarquias, como quem arruma e ordena os pães sobre a mesa. E chamam a cada um dos partzufim pelo nome YHVH, Adono-i, Elohim, Tzvaot; e aceitam sobre si a divindade deles — como escreveu o Sefer haBerit, o Kisei Eliyahu e o Nachalat Yosef: servir especificamente ao deus de ânimo curto (Ze'ir Anpin) e não ao deus superior que cria todos os partzufim e formas. E o Sefer haBerit escreveu ainda: o que serve ao deus superior acima de todos — o Ze'ir de ânimo curto, chamado entre eles pelo Nome YHVH e "o Santo, bendito seja", não o perdoará; pois Sua ira e Seu ciúme arderão contra esse homem — pois só a ele foi dada a soberania pelos deuses superiores a ele, que concordaram em fazê-Lo rei — contra a palavra de D'us que falou pela boca de Seu profeta: "e a Minha glória a outro não darei" (Yeshayahu 48:11). E essas suas palavras estão explicadas no Zohar, Balak fl. 191, com o comentário do Mikdash Melech.

E no Shalsheleth haKabbalah, em nome do Sefer Yuchasin, está escrito: "no ano de cerca de 5050 (~1290 CE) apareceram grupos de pessoas que disseram que as palavras do Zohar que estão em aramaico yerushalmit aramaico do tipo galileu/jerusalemita são palavras de Rashbi — mas as que estão em hebraico não são suas. E há quem diga que o Ramban as encontrou na Terra de Israel e as trouxe à Catalunha, e depois a Aragão, e caíram nas mãos de R. Moshe de Leon. E há quem diga que o referido R. Moshe de Leon era um grande sábio que fazia essas interpretações com sua própria mente — e a fim de obter grande remuneração dos sábios, as escrevia e as atribuía a Rashbi e sua companhia." (Fim do Sefer Yuchasin, que se estende ainda mais.)

E já trouxe acima, §94, as palavras do Rav Chida no Shem haGedolim. E eis que esqueceram um preceito simples em Yoreh Deah §281: o rolo de Torá encontrado em mãos de um não-judeu — segundo o Rif, o Rosh e o Tur, deve ser enterrado e não se lê nele; e segundo o Rambam, sendo desconhecido quem o escreveu e não havendo qualquer alteração, presume-se que um judeu o escreveu e se lê nele — mas se houver qualquer alteração, mesmo numa letra maleih ou chaser com ou sem vogal completa, é óbvio que para todos não se lê nele. E no nosso assunto, do Sefer haZohar, há argumento kal vachomer a fortiori: se aquele rolo que não tem qualquer problema para a nossa fé deve ser enterrado — um livro que degrada a nossa tradição recebida (kabbalah), a Mishná e o Talmude, e incita e desvia as multidões a servir forças criadas — o Ze'ir de ânimo curto, com seu pai e sua mãe — quanto mais e ainda mais que não há que crer nele para trocar nosso D'us, bendito seja e abençoado seja Seu Nome, e para derrubar os pilares da nossa Santa Torá.

E das palavras dos próprios Kabbalists fica evidente o grande dano à Torá: pois a condição que o Ramban disse — de que é impossível entender as palavras da Cabalá a partir do livro sozinho, mas apenas da boca de um sábio que a recebeu diretamente por tradição oral — essa condição nunca foi cumprida. Pois eles mesmos admitem que depois da morte de Rashbi, seu filho R. Elazar e toda aquela geração, o Zohar foi escondido e a Cabalá foi esquecida e perdida — e ninguém ficou que soubesse dela —, até que o Sefer haZohar se revelou no início do 6.o milênio por meio do rei não-judeu. E a partir dele se difundiu a Cabalá — e não da boca de um sábio que a recebeu diretamente por transmissão oral. Pois todos os numerosos Kabbalists modernos do mundo beberam apenas do Zohar, e foi daí que se difundiu — e segundo as palavras do Ramban, isso é o que causou que todos errassem e se enganassem e arrancassem os fundamentos da nossa Santa Torá, crendo em muitas divindades — chegando à associação do Nome do Céu com outra coisa, por causa da pouca compreensão deles. E mais: ele o Zohar revelou sua má intenção explicitamente, pois deprecia a Mishná e o Talmude, comparando as discussões dos rabinos que se debatem no Talmude a cães que ladram "dá, dá" (Tikkunei Zohar Chadash).

צח) והנה ידוע ומפורסם הוא לכל בקי בספרות ישראל. שחבור הזהר ושאר ספרי קבלה הנכריה החדשה לא נתפשטו בישראל כי מתחלת האלף השישי, ולא נודע בבירור מהיכן צמחו, כמו שאביא להלן דעות המאמתים אותם. ולא ידעו לברר הדבר, אך הקרוב אל הדעת הוא מה שכתב הרב חיד"א בס' שם הגדולים מערכת ספרים אות זי"ן וכבר הבאתי דבריו לעיל. וחכמי ירושלם באגדותיהם מסכימים לדבריו יע"ש. כי מיד המלך הנכרי זכו לאמונה. ובגליון הבא מירושלם ת"ו האריכו מאד להעתיק בקצור את דברי האחרונים הטחים תפל על האמונות הנכריות לרפאם ולא נרפאו וכל מגמת חכמי ירושת"ו בכל מה שהעתיקו בגליון מדברי האחרונים. הוא לשלול הגשמות מהספירות והצורות והפרצופים הנזכרים בזהר ושאר ספרי קבלה! ואם הצילונו מן הנשמות כלום הצילונו מעבודת אל נר בין גשמי בין רוחני? כי מודים הם שהם סבות נבראות, וכל אחד סבה ועלה למה שלמטה ממנה זכרים ונקבות, כמבואר בזהר וספרים הנמשכים אחריו, רק שהם כוחות רוחניות של אור נברא ואותם יעבודו, ולהם יקראו בעת צרתם ולהם ישבחו ויודו ויהללו בעת ישועתם. ומקבלים עליהם לאלוהות כאלו הוא מותר לנו מדין תורתינו הקדושה לעבוד כח נברא, רק שלא נחשוב אותם גשמים אלא רוחנים. כי נסלק מהם ונשלול הנשמות, ונחשוב בדמיונינו שהם אורות. (ולא ידעו שגם האור והאויר הם גופים דקים סי' מ"ז) ומביאים ראיות צנומות דקות שדופות קדים לשלול הגשמות מהם. ולחשוב את המשפיע זכר ואת מקבל השפע נקבה, ואת הזווגים שלא כפשטן. רק קבלת השפע קרו ליה זווג! ועם כל זה לא הביאו לנו פתרונים לשמות איברים מגונים כיסוד הוא גיד הערוה, וביעין דדכורא, ויסוד דנוקבא ונקב האוחרים. למאי חזו באור הזה המופשט מן הגשמות? ואם התורה הקדושה והנביאים נשתמשו בלשונות המורות על הגשמות כיד ואצבעות. כלום השתמשו ליחס לשי"ת חושים הפחותים באכילה ושתייה ומשוש אף בחלק המעולה והחשוב שבהם. כ"ש בחלק המגונה והפחות שבחוש המשוש שהוא המשגל. כמו שכתב הרב המורה בפרק מ"ז מראשון. והיותר רע ומר הוא מה שישבו סבות רבות באלהות כולן ברואות. והמה אצלם עיקר האלהות. ויחברו ספרים בסדר מערכותן כעורך ומסדר את החלות על השלחן. ויקראו לכל אחד מן הפרצופים בשם הוי"ה ואדנות ואלהים צבאות, ויקבלו עליהן אלהותן כמו שכתב ספר הברית וכסא אליהו ונחלת יוסף לעבוד דוקא לאלוה קצר אפים (זעיר אנפין) ולא לאלוה העליון הבורא את כל הפרצופים והצורות. וכתב עוד ספר הברית שהעובד לאלוה העליון על כולם לא יאבא קצר האפים הנקרא אצלם בשם הוי"ה והקב"ה לסלוח לו, כי אז יעשן אפו וקנאתו, באיש ההוא וכו'. כי רק לו לבדו ניתנה הממשלה מהאלהים העליונים ממנו שהסכימו להמליכו, למרות דבר ה' אשר דבר על יד נביאו וכבודי לאחר לא אתן. ודבריהם אלו מבוארים בזהר בלק דף קצ"א עם פירוש מקדש מלך. ובפרט בספר עז לאלהים שהיא משל על זה ממלך ב"ו שמלך שגם אביו ואימו צריכים לכבדו, וזה המשל מתנגד למשל שהביאו רז"ל בשמות רבה על אנכי ה' אלהיך. ובספר שלשלת הקבלה להראב"ד כתב משם ס' יוחסין וז"ל בשנת כמו חמשת אלפים וחמשים שנה נמצאו כתות אנשים שאמרו כי דברי הזהר אשר הם בלשון ירושלמי הם דברי רשב"י. אבל אשר הם בלשון הקדש אינן דבריו, ויש אומרים שהרמב"ן מצאו בארץ ישראל והביא אותו לקטלוניאה, ואחר לארגון. ונפל ליד רבי משה דיליואן. ויש אומרים כי ר' משה דיליואן הנז' היה חכם גדול ועושה אלו הפירושים משכלו, ולמען יקח מהם מחיר רב מהחכמים היה כותבם ותולה אותם ברשב"י וחבורתו, ע"כ בספר יוחסין ומאריך עוד יותר עכ"ל שלשלת הקבלה. וכבר הבאתי לעיל סי' צ"ד דברי הרב חיד"א, בס' שם הגדולים וגליון שהובא מירושלם ת"י על ידי מלשינות הקשר אשר הרה וילד ארך הלשון. והנה שכחו דין פשוט בשועיורה דעה סי' רפ"א שספר תורה הנמצא ביד גוי דלד' הרי"ף והרא"ש והטור יגנז ואין קורין בו אע"פ שאין בו שום חסרון או יתרון משאר ספרי תורה, ולדעת הרמב"ם ז"ל כיון שאין ידוע מי כתבו ואין בו שום שינוי חזקתו שישראל כתבו וקורין בו, הא אם נמצא בו שום שינוי אפילו בחסר ויתר דבר פשוט הוא דלכ"ע אין קורין בו ובנדון דידן של ספר הזהר יש לדון בו קל וחומר, ומה אם זה שאין בו שום קלקול לאמונתינו יגנז? ספר המבזה את קבלתינו המשנה והתלמוד ומסית ומדיח אותנו לעבוד כחות נבראים. קצר אפים עם הוריו ויולדיו, על אחת כמה וכמה שאין להאמין לו להמיר את אלהינו ברוך הוא וב"ש ולסתור פנות תורתינו הקדושה. ומדבריהם מודאע רבה לאוריתא שהתנאי שאמר הקמב"ן שא"א להבין דברי הקבלה מתוך הספר רק מפי חכם מקובל לאזן מקבל, לא נתקיים מעולם תנאי זה, שהרי הם בעצמן מודים שאחרי מות רשב"י ובנו ר"א וכל הדור ההוא נגנז הזהר ונשכחה ואבדה הקבלה הלזו ולא נשאר אדם יודע בה עד שנתגלה ספר הזהר באלף השישי ע"י המלך העכו"ם. וממנו נתפשטה הקבלה ולא מפי חכם מקובל אשר קבל מפה לאזן. כי כל המקובלים הרבים החדשים שבעולם לא שאבו רק מהזהר וממנו נתפשטה, ולפי דברי הרמב"ן זהו הגורם שכולם שגגו וטעו ועקרו יסודי תורתינו הקדושה והאמינו באלהים רבים. ובאו לידי שתוף שם שמים ודבר אחד בעבור מיעוט הבנתם. אף לפי האמת כיון שגילה דעתו בביאור שהוא מבזה את המשנה והתלמוד ומדמה שקלא וטריא דרבנן המתאבקים בתלמוד לכלבין דצוחין הב, הב, אין מקום לכל זה (עיין תקוני זהר חדש). ולפי דברי הרב שם הגדולים והגליון המובא מירושת"ו שר' נחוניא בן הקנה היה ראש המקובלים אשר גילו את הקבלה החדשה ולמדו אותה בגלוי! עד שתיקן בכניסתו לבית המדרש להתפלל שלא אכשל בדבר הלכה, שלא אומר על טמא טהור וכו' כדתנן בברכות פ' תפלת השחר. היה לו להתפלל שלא תבוא תקלה גדולה כזו על ידו להאמין ברשויות רבות ולעבוד אל אחר קצר אפים (זעיר אנפין)? לפי שעונש המחטיא אחרים להאמין ברשויות רבות ולעבוד אלהי נכר יותר גדול מן הנכשל להתיר את האסור או לאסור את המותר?
Nota — a condição do Ramban e a escola do Ari. O argumento de Qafih — que o Ramban exigiu transmissão oral de mestre a discípulo e essa cadeia foi rompida — ignora o que aconteceu em Safed no séc. XVI. R. Yitzhak Luria (o Ari, 1534–1572) estabeleceu uma nova cadeia de transmissão oral que, para toda a tradição cabalística posterior, é tão legítima quanto qualquer cadeia anterior. O próprio Ramban estabeleceu que a Cabalá de sua época foi recebida oralmente dos sábios do Talmude — mas depois de séculos de transmissão oral, o Ari recebeu-a dos sábios de Safed. A questão de Qafih (não houve transmissão oral desde Rashbi) assume que a única cadeia legítima vai de Rashbi direto até hoje — mas isso ignora a renovação da tradição oral em Safed. Sobre o kal vachomer do rolo de Torá: a halakhá do Yoreh Deah §281 refere-se à validade de um rolo para a mitzva de leitura pública — não à proibição de aprender do conteúdo. Mesmo um rolo inválido para leitura pública pode ser estudado e ensinado. A analogia com o Zohar não é direta.
§99 — R. Yitzhak de Acco investiga · a esposa de R. Moshe de Leon · "toda Torá sem linhagem não é Torá"

(99) Escreveram ainda no Shem haGedolim e na referida notícia (gilyon), em nome do R. Yashar R. Yosef Shlomo Delmedigo? no livro Metzaref laChokhmah — que ouviu da boca de testemunhas confiáveis que no ano 5380 (~1620 CE), quando os espanhóis saquearam a cidade de Heidelberg, retiraram da universidade (academia) vários milhares de livros, entre eles livros sagrados em pergaminho. E entre os livros do Zohar sobre todos os 24 livros da Escritura — fardos de carga — foram enviados a nobres e duques etc. Porém esse relato que o R. Yashar ouviu é falso: pois no ano 5318 (~1558 CE) o Sefer haZohar já havia sido impresso e amplamente difundido. E essa prova que ele R. Yashar tinha em mãos não é uma prova — e além disso, de qualquer forma, das mãos de não-judeus ele o Zohar saiu.

O Gaon R. Yaakov Emden no seu livro Mitpachat Sefarim escreveu: "R. Yitzhak de Acco (pag. 53) — R. Moshe de Leon morava em Ávila Ayila — era dessa época. E para que vos conteis a gerações seguintes, informo-vos o que encontrei escrito: que R. Yitzhak de Acco foi investigar o Sefer haZohar — que, conforme parecia, suas palavras atraíam de uma fonte superior; e o que está em aramaico yerushalmit parecia ser palavras de tradição e de verdade; mas o que está em hebraico no Zohar parecia ser falsificado. Ele disse: perguntei aos estudantes que tinham em mãos o Sefer haZohar de onde havia chegado até eles — e não vi que suas palavras fossem consistentes entre si. Há quem disse que o Ramban o encontrou na Terra de Israel e o enviou à Catalunha, de onde foi trazido a Aragão e caiu nas mãos de R. Moshe de Leon. E há quem diga que o Zohar nunca foi um escrito de Rashbi — apenas que R. Moshe conhecia um tipo de nome mágico do escriba, e pelo seu poder escrevia coisas maravilhosas. E a fim de obter grande remuneração, atribuía-as ao grande tronco que é Rashbi, seus companheiros e seu filho R. Elazar.

E cheguei à cidade de Ávila. E encontrei lá R. Moshe de Leon, que jurou para mim que o livro de Rashbi o Zohar original estava em casa dele, em sua cidade. E encontrei lá um sábio ancião, R. Davi Rasan, parente seu — e encontrei favor em seus olhos. E o fiz jurar — para me dizer se ele sabia a verdade sobre o Sefer haZohar, se era verdadeiro ou não. E disse o sábio: ficou-lhe claro com certeza que R. Moshe, pelo poder do nome do escriba, os compunha ele mesmo. E a causa que confirmou isso: R. Moshe escrevia segredos e maravilhas para os ricos daquele reino e recebia deles muitos presentes de ouro e prata. E tudo o que ganhava naquele dia espalhava gastava — de modo que no dia de sua morte não restou para ele nem um tostão, e sua esposa e filhos ficaram com fome, sede, nus e sem nada. E quando ouvi de sua morte, levantei-me e fui até R. Yosef de Ávila — que era um homem muito rico, e em vida de R. Moshe havia lhe dado dinheiro —, e disse-lhe: eis que chegou a tua hora, a hora oportuna (et dodim); merecerás ao livro grande! E pegarás o livro das mãos de sua esposa num belo pano que enviarás pelas mãos de tua esposa — pois ela agora está nua. E assim fez: enviou pelas mãos de sua esposa presentes à esposa de R. Moshe. E a esposa de R. Moshe lhe jurou: nunca houve em poder de meu marido tal livro — apenas do seu coração e da sua mente ele escrevia. E eu disse ao meu marido: por que atribuis o teu raciocínio a outro sábio? Não seria melhor para ti dizer que tu mesmo escrevias? E ele te honraria muito mais. E meu marido me respondeu: se eu dissesse que vêm de mim — não os dariam atenção nem lhes dariam presentes. Por isso atribuo-os a Rashbi e seus companheiros. E depois disso falei com a filha dele — e encontrei que suas palavras eram consistentes com o que a mãe dissera.

Essas são as palavras que disse a mim esse sábio ancião R. Davi. E parti de Ávila e fui a Talavera. Encontrei lá um ancião notável, R. Yosef haLevi, filho de R. Yosef Tordos, o Kabbalist. E o interroguei — para saber o que seu conhecimento alcançava quanto ao Sefer haZohar. E disse-me: sabe com certeza que havia em poder de R. Moshe o Sefer haZohar verdadeiro. E a prova da veracidade de seu relato é: ele costumava me dar cadernos (kondrisin); e eu, para testar essa dúvida, peguei um caderno de entre os cadernos e disse-lhe que o havia perdido — que me desse um em seu lugar. E disse-me: mostra-me o fim do caderno anterior e o começo do caderno posterior ao que "perdi". E escreveu-me um caderno. E vi que não havia entre eles qualquer variação — nem mesmo uma palavra. Há prova maior do que esta de que ele copiava do original? Depois disso fui a Toledo — e disseram-me que a prova de R. Yosef haLevi não é prova: pois talvez antes de mostrar os cadernos às pessoas, R. Moshe copiava um exemplar para si mesmo — e depois, com base naqueles cadernos que tinha em casa, escrevia para os outros." (Fim das palavras trazidas no Sefer Yuchasin. O compilador do Sefer Yuchasin acrescentou algumas palavras de contra-argumento — e o Gaon Ya'avetz já lhes respondeu. E o Gaon se estende mais para conciliar — para confirmar a autenticidade de uma parte e refutar outra parte — ver lá em extenso.)

Eis que disto compreenderás que não se conhece ao Sefer haZohar nenhuma origem clara de onde brotou e se difundiu — como se conhece de demais escritos de nossos Sábios de abençoada memória, famosos desde o dia de sua revelação: a Mishná e o Talmude Babilônico e Jerusalemita, e a Toseftá, e o Sifra e o Sifri — todos com origem e autor conhecidos e famosos. Mas o Sefer haZohar, o incitador, tem este que diz assim e aquele que diz de outra forma. E leio sobre ele o dito de nossos Sábios em Yerushalmi Shabbat (capítulo R. Eliezer deMilah) e Pesachim (Elu Dvarim): "R. Ze'ira em nome de R. Elazar: toda Torá que não tem um 'pai do lar' beit av — linhagem de origem não é Torá."

E não te deixes seduzir pela doçura de seu estilo — que inflamia o coração de seus leitores e os despertava ao temor dos Céus e ao empenho em sua nova "Torá" (que ele chama de "filha do rei"). Pois sua intenção não é senão conduzir o leitor à crença estrangeira: a crer em múltiplas divindades, família por família — a família da divindade no Mundo da Emanação (Atziluth): Adam Kadmon, Atik Yomin, Arikh Anpin, Abba e Ima, Ze'ir Anpin e sua contraparte (Nukva) — e contrapartes correspondentes no Mundo da Criação (Beriah), e semelhantes no Mundo da Formação (Yetzirah), e assim no Mundo da Ação (Asiyah). E a todos eles aceitam como divindades, e os louvam e glorificam na hora da oração, dizendo "Ein ke'Eloheinu" etc. — como escrevi acima, §79, em nome do Sidur Chesed leAvraham. Ensinamentos como esses — é proibido ouvi-los, e tanto mais lê-los e crer neles.

צט) עוד כתבו שם הגדולים והגליון הנז' משם הרב ישר בס' מצרף לחכמה ששמע מפי מגידי אמת, שבשנת ש"ף לאלך השישי כשבזזו הספרדים עיר הירילברג"ה לקחו מהאקימי"א כמה אלפים ספרים וביניהם ספרי הקדש על קלף. ובכלל ספרי הזהר על כלל הכ"ד ספרים משא סבל ושולחו הספרים לחשמנים ודוכוסים וכו'. גם שמועה זו ששמע הרב יש"ר שקר היא שהרי בשנת שי"ח כבר נדפס ספר הזהר ונפשט. ומתיא זו דאיתי בידיה לאו שמה מתיא, ועוד דמ"מ מידי עכו"ם יצא. והגאון ר' יעקב עמדין בספרו מטפחת ספרים כ' ב' רבי יצחק דמן עכו וז"ל שנת נ"ג ה"ר משה מליאון שוכן באויל"א (והוא בואר אלחגרה) היה בזמן הזה, ולמען תספרו לדור אחרון אודיעכם מה שמצאתי כתוב שר' יצחק דמן עכו הלך לחקור על ספר הזהר שכנראה היו דבריו מפליאים ישאבו ממקור עליון. ואשר הוא לשון ירושלמי נר' שדבריו דברי קבלה ואמת. ואשר הם לשון הקדש הם דברי זיוף. אמר ושאלתי את הלמידים שנמצא בידיהם בפר הזהר מאין בא להם. ולא ראיתי דבריהים מכוונים. יש מי שאמר שהרמב"ן מצא אותו בארץ ישראל ושלחו לקאטולוניא, והביאו לארגון. ונפל ביד רבי משה ליאון. וי"א שמעולם לא היה חבור של רשב"י. רק שר' משה ידע שם הכותב, ובכחו יכתוב דברים מפליאים. ולמען יקח בהם מחיר רב. היה תולה עצמו באילן גדול שהוא רשב"י וחביריו ובנו ר' אלעזר. ואבוא אל עיר יאליאדול"ר. ואמצא שם רבי משה דיליאן וישבע לי שספר רשב"י הנו בבית ישיבתו ואמצא שם חכם זקן ושמו ר' דוד רסאן קרובו ואמצא חן בעיני, ואשביעהו לאמר אם היה יודע אמתת ס' הזהר אם היה אמת אם לא. ויאמר החכם כי נתבאר לו בודאי שר' משה בשם הכותב היה בוראם. וסבת האמתות הוא כי ר' משה הנז' היה כותב סודות ונפלאות לעשירים אשר במלכות ההיא ולוקח בהם מתנות רבות זהב וכסף. ואותו היום כל מה שהיה מרויח היה מפזר עד שביום מותו לא נשאר לו אפי' פרוטה ואשתו ובניו ברעב ובצמא ובעירום ובחסד כל וכשמעי מיתתו קמתי והלכתי אל רבי יוסף דיאוילא שהיה עשיר גדול, ובחייו לקח ממנו ממון, ואומר לו הנה עתך עת דודים, תזכה לספר הגדול, ותקח הספר מיד אשתו במפה יפה שתשלח בידי אשתך. שהיא כעת ערומה, וכן עשה שלח ביד אשתו מתנות אל אשת ר' משה הנז' ותשבע לה אשת ר' משה הנז', שמעולם לא היה ספר לאישי רק מלבו ודעתו היה כותב. ואומר לאישי למה אתה תולה עיונך בחכם אחר? הלא טוב היה לך לומר שמשכלך אתה כותב. וידוך כי תיטיב לך. ואישי ענני שאם הייתי אומר שמדעתי הם לא יחשיבו אותם ולא יתנו מתנות בהם. ולכן אני תולה אותם ברשב"י וחביריו, ואחר דברתי עם בתו ואמצא דבריהם מכוונים. אלה הדברים אשר דבר אלי החכם הזקן רבי דוד, ואסע מאויל"א ואבוא אל טלאבירה מצאתי שם זקן מופלא שמו רבי יוסף הלוי בן ר' יוסף טורדוס המקובל, ואחקורה שמו ולדעת מה שידו מגעת בידיעת ספר הזהר, ויאמר אלי דע באמת כי היה ביד ר' משה ספר הזהר אמתי, וסבת אמתות דברי הוא כי היה נותן לי קונדריסים ואני לבחון הספק הזה. לקחתי קונדריס אחד מבין הקונדריסים ואמרתי לו שנאבד ממני שיתן לי ממלא מקומו, ויאמר לי הראה לי אחרית הקונדריס הקודם לו, וראשית הקונדריס המתאחר, ויכתוב לי קונדריס. וארא והנה אין ביניהם שינוי כלל אפילו תיבה אחת, רק שפה א' ודברים אחדים. היש נסיון גדול מזה? אחר זה באתי לטוליטולא ואמרו לי שבחינת ר' יוסף הלוי אינה בחינה, שאולי קודם לחזות הקונדריסים לאדם היה מעתיק אחד לעצמו, ואחר כך מתוך אותם הקונדריסים אשר בביתו היה כותב לאחרים. ע"כ הדברים שהביאם בס' יוחסין. ושם הגיה המביא ספר יוחסין דברי מה בכך נגד הדברים האלה, וכבר השיב על דבריו הגאון יעב"ץ! והוא מאריך עור לפשר לקיים מקצת ולבטל מקצת יעויין שם באורך. והנה מזה תבין שלא נודע לספר הזהר ומקור שממנו יצא ונתפשט. כשאר חיבורי רז"ל המפורסמים מיום התגלותם. המשנה והתלמוד בבלי וירושלמי ותוספתא וספרא וספרי שכולם ידוע ומפורסם מקורן ומי הוא מחברן. אבל ספר הזהר המסית זה אומר בכה וזה אומר בכה. וקורא אני עליו מאמר רז"ל בירושלמי שבת פ' ר"א דמילה ופסחים פרק אלו דברים שאמרו שם רבי זעירא בשם רבי אלעזר כל תורה שאין לה בית אב אינה תורה עכ"ל. ואל תפנה למתק שפתיו במה שהוא מלהיב את לב קוראיו ומעוררם ליראת שמים ולהשתדל בעסק תורתו החדשה שהוא קורא לה בת מלך. לפי שאין כוונתו רק להביא את הקורא לאמונה נכרית להאמין באלהים רבים משפחות משפחות. משפחת האלוהות שבעולם האצילות, שהם אדם קדמון, ועתיק יומין, ואריך אנפין, ואבא ואימא, וזעיר אנפין ונוקביה. וכנגדן בעולם הבריאה, וכמוהם בעולם היצירה, וכן בעולם העשייה, ואת כולם הם מקבלים אותם לאלוהות ומשבחים ומפארים אותם בשעת התפלה באמרם אין כאלהינו וכו' כמו שכתבתי לעיל סי' ע"ט בשם סידור חסד לאברהם. דודאי דרושים כאלה אסור לשמען וכל שכן לקרותן ולהאמין בהם.
Nota — R. Yaakov Emden (Ya'avetz) e a autenticidade parcial do Zohar. O Gaon R. Yaakov Emden (1698–1776), que Qafih cita como fonte do relato de R. Yitzhak de Acco, chegou a uma conclusão bem diferente da de Qafih. Em seu Mitpachat Sefarim, o Ya'avetz conclui que o Zohar contém camadas: um núcleo antigo e autêntico do tempo de Rashbi, ao qual foram acrescentadas interpolações medievais (incluindo referências a eventos e textos posteriores, como o Sefer Yetzirah e o calendário islâmico). O Ya'avetz era um dos maiores opositores do sabbateísmo e da Cabalá distorcida — mas jamais rejeitou o Zohar como "falsificação total." A posição do Dor Deah (rejeição total) vai além do próprio Ya'avetz. Quanto ao testemunho da esposa de R. Moshe de Leon: Gershom Scholem, o maior estudioso do misticismo judaico do séc. XX, baseou-se nele como evidência — mas com cautela: as esposas raramente têm acesso total ao trabalho intelectual dos maridos, especialmente em segredo. O teste do "caderno perdido" de R. Yosef haLevi mostra coerência interna — mas, como os sábios de Toledo observaram, pode ser explicado por cópias pessoais. A questão histórica da autoria do Zohar permanece aberta entre estudiosos.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O Zohar e o início do 6.o milênio

O dado histórico básico de §98 é incontestável: o Zohar só se difundiu amplamente em Israel no séc. XIII — a partir da Espanha, principalmente de Guadalajara e Toledo. Não há evidências de manuscritos do Zohar anteriores ao séc. XIII. A questão é interpretar esse dado: a tradição (Ramban, Rashba, Ari) atribui isso à transmissão oral milenar que precedeu a redação; a posição do Dor Deah (e de Scholem) conclui composição medieval. O argumento sobre a condição do Ramban é sofisticado: se a Cabalá exige transmissão oral, e a transmissão foi rompida (como os próprios Kabbalists admitem sobre o período após Rashbi), então a Cabalá moderna viola o próprio critério que ela define para si mesma.

O "kal vachomer" do rolo de Torá

O argumento halákico de Yoreh Deah §281 é tecnicamente preciso: um rolo de Torá encontrado em mãos de não-judeus com qualquer alteração textual é inválido para a mitzva de leitura pública. Qafih usa isso como analogia para o Zohar — que também chegou "da mão do rei não-judeu" e contém conteúdo que altera a doutrina normativa. O argumento é retórico-elegante, mas a analogia tem limites: o rolo de Torá tem um texto fixo e sagrado com regras muito específicas de invalidade; o Zohar é uma obra de interpretação e mística, com critérios de validade completamente diferentes.

R. Yitzhak de Acco e a historiografia do Zohar

O relato preservado pelo Ya'avetz é a fonte primária mais importante para a questão histórica da autoria do Zohar. Scholem (1941, Major Trends in Jewish Mysticism) baseou-se nele. Mas Scholem também foi muito cuidadoso: ele argumentou que o Zohar é principalmente obra de Moshe de Leon — mas não excluiu a possibilidade de que Moshe de Leon incorporou tradições mais antigas. Liebes (1993) argumentou por composição em círculo (grupo de sábios em Castela, séc. XIII), não por um único autor. A tradição ortodoxa, incluindo o Ya'avetz, rejeita a conclusão de "falsificação total" e prefere "textos antigos redatados e expandidos."

O conceito de "Torá sem linhagem"

A citação do Yerushalmi ("toda Torá que não tem beit av não é Torá") refere-se originalmente à tradição de que uma decisão halákica sem cadeia de transmissão conhecida não pode ser invocada como autoridade normativa. Aplicar isso ao Zohar é uma extensão criativa — mas o ponto é genuíno: a Mishná, o Talmude, a Toseftá têm autores e cadeias de transmissão documentadas; o Zohar não tem. Isso não significa necessariamente falsificação — pode significar simplesmente transmissão anônima ou oral não documentada, o que era comum na Antiguidade.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XL

Ze'ir Anpin no Sinai — e a doutrina do Tzimtzum

זְעִיר אַנְפִּין בְּסִינַי — וְעִנְיַן הַצִּמְצוּם
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O Nachalat Yosef confirma: todas as nossas orações são ao Ze'ir Anpin — o deus de "ânimo curto" —, que foi Ele quem desceu ao Sinai. Mas o Midrash (Shemot Rabá) cita as próprias palavras de D'us no Sinai: "Eu não tenho pai, irmão ou filho." Se Ze'ir Anpin tem pai (Abba), mãe (Ima) e esposa (Nukva), como pode dizer isso? E mesmo a doutrina do tzimtzum e das "luzes criadas" não resolve o problema: luzes criadas continuam sendo criaturas — e servir a criaturas é proibido, sejam elas corpóreas ou espirituais.

§100 — Nachalat Yosef: Ze'ir Anpin no Sinai — o deus a quem se reza

(100) E vi o livro Nachalat Yosef, do R. Shmuel ish Eden R. Shmuel de Aden, que trouxe um resumo da fé da nova Cabalá e se esforçou para resolver algumas contradições internas com parábolas que não se sustentam ao raciocínio correto — e nelas não há suficiência para quem ama a unicidade do Eterno, exaltado seja, no caminho da verdade que nossos Sábios de abençoada memória nos mostraram segundo a nossa Santa Torá — como verá o estudioso ali na parábola que trouxe.

Ele também acredita que toda nossa adoração, nossas orações e nossas bençãos são ao deus de "ânimo curto" (Ze'ir Anpin) — e que ele é o nosso Deus, e nós somos seu povo e sua herança, e ele é o Rei Santo que é louvado em todos os louvores; que governa sobre todas as criaturas, que as sustenta, que as alimenta e que as guia. E que o Ze'ir Anpin é quem desceu ao monte Sinai para se unir à Malkut, que é chamada de fogo — que já havia descido antes ao monte Sinai — e disse: "Anochi Eu sou o Senhor teu Deus, que te trouxe para fora da terra do Egito" (Shemot 20:2). E que esse "Anochi" é a Ima Ilaa Mãe Superior, a Biná — pois foi ela que os tirou do Egito, por meio da Malkut, que lhe entregou suas forças; e a Malkut é a que feriu o Egito com o auxílio da Biná; e assim, no Sinai, foi por meio do poço (bor) da Biná, com a Tiferet e a Malkut, que se disse "Anochi o Senhor teu Deus." E a Torá saiu da Chokhmá Ilaa com a totalidade da Biná. E tudo no poder do Ein Sof, bendito seja — ver lá fl. 61–62. E suas palavras também estão alinhadas às palavras do Maharai Lopis, acima §26, de que o Ze'ir Anpin é quem se revelou aos nossos antepassados no Sinai e disse "Anochi o Senhor teu Deus."

E eis que já te informei em §40 que todo Ein Sof que os novos Kabbalists mencionaram é apenas a parte oculta no Keter, chamado "Atikka dekhol Atikkin" o Antigo de todos os Antigos — apenas isso. Mas acima disso ainda há um Ein Sof que está acima e além de tudo — que envolve tudo o que está em seu interior, de todas as criaturas, e nada está fora d'Ele. E só ao Ein Sof que está no Keter eles se referem e insinuam — e a partir dele tentam trazer influência em sua oração ao Ze'ir de "ânimo curto." E ao "Antigo Sagrado" (Atikka Kadisha), segundo as palavras deles, disse o profeta: "Senhor, Tua obra — que é o Ze'ir Anpin — vivifica-a etc." — como foi explicado acima, fim de §48, na Idra Rabbá fl. 138. E o que resulta das palavras do Nachalat Yosef é o que já te disse muitas vezes: a opinião dos novos Kabbalists é que toda nossa adoração, nossas orações e nossas bençãos são ao deus de "ânimo curto" (Ze'ir Anpin); e o Ze'ir Anpin é quem se revelou aos nossos antepassados no monte Sinai e nos deu a Torá — e da boca d'Ele ouviram "Anochi o Senhor teu Deus": ele, e não Abba e Ima, e não Arikh Anpin, e não Atik Yomin, e não Adam Kadmon — e muito menos o Ein Sof que está acima e além de tudo.

ק) וראיתי להרב נחלת יוסף לר' שמואל איש עדן שהביא קצור אמונת הקבלה החדשה, וטרח לישב קצת סתירות במשלים שאינם מתקבלים על השכל הישר. ואין בהם כדאי לאוהב את יחיד השי"ת על דרך האמת אשר הורונו רז"ל על פי תורתינו הקדושה, כמו שיראה המעיין שם במשל שהביא שם! וגם הוא סובר שכל עבודתינו ותפלותינו וברכותינו הם לאלוה קצר אפים (זעיר אנפין) והוא אלהינו ואנחנו עמו ונחלתו, והוא המלך הקדוש המהולל בכל התושבחות. השולט על כל הברואים וזנם ומפרנסם ומנהיגם. ושזעיר אנפין הוא שירד על הר סיני להתחבר עם המלכות שנקראת אש. שכבר קדמה וירדה על הר סיני. ואמר אנכי ה' אלהיך אשר הוציאתיך מארץ מצרים. היא אימא עילאה בינה. כי היא הוציאתם ממצרים על די המלכות שנתנה לה גבורותיה, ומלכות היא המכה במצרים בסיועת הבינה, וכן בסיני על ידי הבור בינה עם תפארת ומלכות נאמר אנכי ה' אלהיך. והתורה יצאה מחכמה עלאה עם כללות הבינה. והכל בכח אין סוף ב"ה וכו' ע"ש דף ס"א וס"ב. ודבריו ג"ד מכיינים לדברי מהר"י לופיס לעיל סי' כ"ו שזעיר אנפין הוא שנגלה על אבותינו בסיני ואמר אנכי ה' אלהיך. והנה כבר הודעתיך בסי' מ' שכל אין סוף שהזכירו המקובלים החדשים הוא החלק הגנוז בכתר הנקרא עתיקא דכל עתיקין בלבד, אבל עדיין יש אין סוף שהוא לעילא לעילא. והוא המקיף את כל אשר בתוכו מכל הנבראים ואין דבר חוצה לו, ורק אל האין סוף אשר בכתר מליהם ירמזון, וממנו הם ממשיכים בהתפללם אל קצר אפים (זעיר אנפין). ואל עתיקא קדישא לפי דבריהם אמר הנביא, ה' שהוא עתיק, פעלך שהוא זעיר אנפין חייהו וכו' כמו שנתבאר לעיל סוף סימן מ"ח ב' האדרא רבה דף קל"ח. והעולה מדברי הרב נח"י הוא הדבר שכבר זכרתי לך פעמים רבות. שדעת המקובלים החדשים שכל עבודתינו ותפלותינו וברכותינו להאלוה קצר אפים, והזעיר אנפין הוא שנגלה על אבותינו בהר סיני ונתן לנו את התורה, ומפוי שמעו אנכי ה' אלהיך, הוא ולא אבא ואימא, ולא אריך אנפין, ולא עתיק יומין, ולא אדם קדמון, וכ"ש שאינו האין סוף שהוא לעילא לעילא.
Nota — Ze'ir Anpin como o "Deus de Israel": o que a Cabalá realmente diz. O argumento de Qafih — que os Kabbalists rezam a Ze'ir Anpin como a um deus separado e inferior — requer uma contextualização cuidadosa. Na Cabalá luriânica, Ze'ir Anpin é a middá atributo/modalidade central da divindade na relação com o mundo — correspondente ao Nome YHVH e às seis Sefirot centrais (Chessed a Yessod). O Ari (Etz Chaim, Sha'ar haKlalim 1): "Ze'ir Anpin é o Rosto de Deus que se volta para o mundo, não uma divindade separada." O Ramchal (Derech Hashem I:5): "O Único Ein Sof opera através de sistemas e canais que Ele criou — mas permanece absolutamente Um em Sua essência." A rejeição de Qafih pressupõe que a estrutura dos partzufim representa múltiplos deuses — mas os Kabbalists explicitamente negam isso. A polêmica é genuína e antiga, mas a posição Kabbalists não é idolatria no sentido de "muitos deuses" — é uma teologia da auto-revelação divina que usa um sistema de analogias elaborado.
§101 — A "correção": servir sua alma · Ze'ir Anpin no Sinai e a contradição de Shemot Rabá

(101) Para corrigir a heresia e a apostasia explícita desta fé, disseram que a nossa adoração a ele é embora ele seja criado — como escreveu o R. Yosher Levav: "adoramos a sua alma." E embora creiamos que o nosso Deus não é um corpo e nem uma força num corpo! Eis que é sabido de suas palavras que a alma de toda criatura tem a forma e a imagem do corpo em todos os membros de seus órgãos — a alma do masculino é masculina, e a alma do feminino é feminina —, como escreveu o Ez leElohim, em Beit Kodesh haKodashim, cap. 3, fl. 9a: que necessariamente a alma tem um partzuf configuração de 248 membros e 365 nervos, na forma de um ser humano; e ela se expande segundo a forma de seus membros — e se há um membro excessivo, ela não se expande nele. E assim também a alma-da-alma (neshamá laneshamá) precisa ter a configuração do partzuf etc. — ver lá. Pois por isso precisam eles, segundo sua opinião, dizer "o Senhor vosso Deus é verdade" duplo — para completar os 248 membros da alma do masculino; e se não o disser, sua alma ficará incompleta. (E isso é contrariamente às palavras de nossos Sábios de abençoada memória, que disseram: quem diz a frase do Shemá palavra por palavra e a repete — o fazem calar por parecer que crê em duas autoridades divinas; e na repetição de "o Senhor vosso Deus é verdade" — muito mais parece como se cresse em duas autoridades divinas!)

E no momento da revelação do Sinai, segundo as palavras deles: a esposa do Ze'ir Anpin — que é a Malkut — precedeu-o em descer ao monte Sinai. E depois o Ze'ir Anpin foi atrás dela — caminhando atrás de sua esposa — para se unir a ela. E resulta que ele e sua cônjuge juntos desceram ao monte Sinai; pois ele desceu para se unir a ela — como escreveu o Nachalat Yosef. E também Abba e Ima estavam lá, no monte Sinai — pois Ima é quem disse "que te trouxe para fora": pois ela foi quem os tirou do Egito; e a Malkut feriu o Egito com o auxílio da Biná, que é Ima; e a Torá saiu da Chokhmá, que é Abba. Resulta, segundo isso, que na revelação do Sinai desceram Abba e Ima e o Ze'ir e sua Nukva ao monte Sinai. E o Ze'ir Anpin foi quem disse "Anochi o Senhor teu Deus."

Se assim for, ficará muito difícil o dito de nossos Sábios de abençoada memória em Shemot Rabá: "Anochi o Senhor teu Deus — um rei de carne e sangue que reina tem um pai, ou um irmão, ou um filho. Mas o Santo, bendito seja, disse: Eu não sou assim — Eu sou o Primeiro, pois não tenho pai; Eu sou o Último, pois não tenho filho; e além de Mim não há Deus, pois não tenho irmão." (Fim da citação.) Mas segundo a nova Cabalá, Abba e Ima e a Malkut todos se revelaram com o Ze'ir Anpin no Sinai e estavam lá com ele — e ele é quem falou "Anochi o Senhor teu Deus." Como então disse "não tenho pai e não tenho mãe" — se eles estão de pé com ele? E como disse "não tenho irmão" — se sua esposa o precedeu em descer ao monte Sinai, e ele desceu atrás dela para se unir a ela? O falso fala! E por que mentiria para nós, se eles estão em pé com ele? Acaso para se burlar de nós foi que se revelou a nós? Deus o livre — pois Ele é o Senhor Deus da verdade. E a Torá da verdade nos legou. E nos mandamentos da nossa Santa Torá nos afastou de crenças estrangeiras e falsas, que as nações idólatras erraram — não nós.

E a contradição das palavras do Nachalat Yosef — que disse que "no poder do Ein Sof e Seu espírito falou neles e Sua palavra estava em sua língua" — é clara porque no Zohar Bereshit, que trouxe acima, §26 e §27, está explicado que Abba e Ima são quem nomeou o Ze'ir de "ânimo curto" e o fizeram dominar sobre todas as criaturas — e não o Ein Sof. E também está explicado lá no Zohar — e trouxe acima, §20 e §21 — que todas essas causas cada uma recebe permissão do parceiro que é o deus acima dela, e não do Ein Sof. E ele chama a cada um deles pelo nome YHVH, Elohim e "o Santo, bendito seja." Até que o ouvinte que escuta seu companheiro mencionar o nome "o Santo, bendito seja" — que é corrente na boca dos nossos Sábios e na boca de todo Israel — o ouvinte precisa perguntar: sobre qual "Santo, bendito seja" você está falando? Se sobre Atik Yomin, ou Arikh Anpin, ou Abba, ou Ima, ou Ze'ir e sua Nukva — pois cada um dos partzufim é chamado pelo nome "o Santo, bendito seja", e são corpos distintos que recebem permissão um do outro e se auxiliam mutuamente. Como escreveu o Nachalat Yosef: que a Malkut feriu o Egito com o auxílio da Biná.

E na notícia que chegou de Jerusalém, sobre a difamação da mentira que o "longo de língua" planejou e deu à luz — estenderam-se em resposta, e em nome do livreto "Sod Yesharim" Segredo dos Retos negam a existência de masculinos e femininos nos deuses sagrados que os novos Kabbalists adoram em suas orações e bençãos. E dizem que quem afirma que D'us tem uma esposa é um herege convicto e é maldito, e sua falta é tão grande quanto a de um idólatra. E que o nome Shekhiná é uma luz criada que D'us criou acima, com outras luzes sagradas espirituais mais elevadas do que os anjos, que são chamadas de Sefirot etc. — e essa luz é chamada Shekhiná; e de fato ela é uma luz criada, e em árabe é chamada nur luz; e ela é muito espiritual, e não tem qualquer forma ou imagem — assim como é impossível imaginar a natureza da própria alma que está no corpo humano. E essa luz se relaciona com o Eterno, exaltado seja, que é chamado de luz de D'us, como está escrito "Casa de Jacó, vinde e caminhemos na luz do Senhor" (Yeshayahu 2:5) — e concluiu com as palavras do Rambam no Moreh Nevukhim sobre o tema da Shekhiná. E essas palavras dele — que contradizem as dos outros Kabbalists — são na verdade contraditas pela própria tradição: e se opõem ao Zohar, ao R. Chaim Vital e a demais Kabbalists. E segundo as palavras dele, em vão se esforçaram e trabalharam os novos Kabbalists, e se estenderam tanto em palavras e em livros diferentes para nos desenhar suas considerações sobre a Divindade — e voltamos de tudo o que dissemos ao básico: a retirar de nossa mente toda forma, configuração e imagem daquelas Sefirot que são luz criada. E todo aquilo que é dito na nova Cabalá não é mais do que transgredir as palavras de nossos Sábios de abençoada memória, que disseram: "todo aquele que não se compadece da honra de seu Criador — é melhor para ele que não houvesse vindo ao mundo!"

קא) ולתקן הכפירה והמינות הגלויה באמונה זו אמרו, כי עבודתינו שאנו עובדים לו אע"פ שהוא נברא כמו שכתב הרב יושר לבב כי לנשמתו אנו עובדים. ואע"פ שאנו מאמינים כי אלהינו אינו גוף ולא כח בגוף! והנה ידוע מדבריהם כי הנשמה שלכל נברא יש לה דמות וצורת הגוף בכל חלקי איבריו נשמת הזכר זכר ונשמת הנקבה נקבה, כמו שכתב עז לאלהים בבית קדש הקדשים פ"ג דף ט' ע"א שבהכרח גמור יש לנשמה פרצוף ברמ"ח איברים ושס"ה גידים בצורת אדם. ומתפשטת בצורת איבריה, ואם תמצא אבר מיותר אינה מתפשטת בו, וכן ג"כ נשמה לנשמה צריך שיהיה לה צורת הפרצוף וכו' עיין שם. כי על כן צריך לכפול לדידהו ה' אלהיכם אמת כדי להשלים רמ"ח איברי הנשמה שבזכר, ואם לא יכפול תשאר נשמתו חסרה (וזהו למרות דברי רז"ל שאמרו האומר מלה מלה בקריאת שמע וכופלה משתקין אותו משום דמחזי כשתי רשויות, ובכםילת ה' אלהיכם אמת כל שכן דמיחזי כשתי רשויות. ובמעמד הר סיני לפי דבריהם קדמה אשתו של זעיר אנפין שהיא המלכות לרדת על הר סיני. ואחר כך הלך הזעיר אנפין אחריה במנוח אחרי אשתו. ונמצא הוא וזוגתו כולם ירדו להר סיני. שהרי הוא ירד להתחבר עמה כמו שכתב נחלת יוסף. וגם אבא ואימא גם הם נמצאו שם בהר סיני. שהרי אימא היא שאמרה אשר הוציאתיך. כי היא הוציאתם ממצרים, והמלכות היא חכמה במצרים בסיועת הבינה שהיא אימא, והתורה יצאה מחכמה שהוא אבא, ונמצא לפי זה שבמעמד הר סיני ירדו אבא ואימא וזעיר נוקביה על הר סיני. וזעיר אנפין הוא שאמר אנכי ה' אלהיך. ואם כן הוא יקשה מאד מאמר רז"ל בשמות רבה וז"ל אנכי ה' אלהיך. מלך בשר ודם שמלך יש לו אב או אח, או בן. אמר הקב"ה אני איני כן אני ראשון שאין לי אב. ואני אחרון שאין לי בן. ומבלעדי אין אלהים שאין לי אח ע"כ. הלא לפי הרבלה החדשה אבא ואימא ומלכות כולם נגלו עם קצר אפים (זעיר אנפין) בסיני והתיצבו שם עמו, והוא המדבר אנכי ה' אלהיך. איך אמר שאין לי אב ואם הרי הם נצבים עמו? ואיך אמר שאין לי אח והרי זוגתו קדמה לו לירד על הר סיני. והוא ירד אחריה להתחבר לה? השקר הור מדבר. ולמה זה ישקר עלינו והם עומדים עמו. האם להתל בנו נגלה עלינו? חלילה לה' אלהינו מן השקר. כי הוא ה' אלהים אמת. ותורת אמת הנחילנו, ובמצות תורתינו הקדושה הרחיקנו מאמונות זרות, וכוזבות שטעו באן האומות עובדי האלילים זולתינו. וסתירת דברי נחלת יוסף שאמר שבכח אין סוף ורוחו דבר בם ומלתו על לשונם. ובזהר בראשית שהבאתי לעיל סי' כ"ו וכ"ז מבואר שאבא ואימא הם שמינו את קצר האפים והשליטוהו על כל הברואים. ולא האין סוף. וגם מבואר שם בזהר והובא לעיל סי' כ' וכ"א שכל העלות הללו כל אחד נוטל רשות מחבירו שהוא האלוה שלמעלה ממנו, ולא מא"ס. והוא קורא לכל אחד מהם בשם הוי'ה ואלהים וקב"ה. עד שיש מקום לשומע את חבירו מזכיר שם הקב"ה המורגל בפי רז"ל ובפי כל ישראל, צריך השומע לשאול על איזה הקב"ה אתה אומר אם על עתיק יומין או אריך אפין או אבא, או אימא, או זעיר ונוקביה, כי כל אחד מהפרצופים האלו הוא נקרא בשם הקב"ה, והם גופים מחולקים הנוטלים רשות זה מזה, ומסייעים זה את זה. כמו שאמר הרב נחלת יוסף שהמלכות היא המכה במצרים בסיועת הבינה. ואם הפועל בהם הוא אחד ומלתו על לשונם. והוא האין סוף המתלבש בהם, והוא המדבר בהם. איך לא חפץ אבא לברוא אדם ואימא חפצה לבראתו, ואמרה לאבא ומאי אכפת לך אם יחטא לי יחטא ולא לך. כמה דאיתמר ובן כסיל תוגת אמו ולא תוגת אביו? ובראה את האדם שלא כחפצו ורצונו של אבא. וכשחטא אדם הראשון גירשו אבא מגיע וגירשה עמו, כמבואר בזהר בראשית דף כ"ב, והרי מכאן שכל אחד מהם חלש וצריך לסיוע חבירו, ואיך נעבוד לאלוה חלש הצריך לאלוה אחר לסייעו? וגם לא רוח אחד דבר בם, שהרי מה שעלה על רוח אימא לא עלה על רוח אבא בענין בריאת אדם. ומאי אית לך, למימר, והאי שדברים כאלה לא יצאו מפי שום תנא או אמורא מרז"ל, וכל שכן רשב"י, התנא, שהרי הוא אומר כל המשתף שם שמים ודבר אחר נעקר מן העולם, (סנהדרין פרק ה' מיתות). ובגליון הבא מיורשת"ו אודות מלשינות שקר שכתב להם ארך הלשון האריכו למעניתם, ובשם קונדריס סוד ישרים מכחיש מציאות זכרים ונקבות בהאלהים הקדושים אשר יעבדום המקובלים החדשים בתפלתם וברכותיהם, אשר יכוונו אליהם, ושכל האומר שיש לאלהים אשה הוא כופר בעיקר ומקולל, ועונו גדול כעובד ע"ז, וששם שכינה הוא אור נבאר שברא האלהים למעלה עם כמה אורות קדושים רוחניים למעלה מן המלאכים ונקראים בשם ספירות וכו' ונקרא האור הזה בשם שכינה, ובאמת הוא אור נברא, ובלשון ערבי נקרא נור, והוא רוחני מאד, ואין לו שום צורה ודמות כלל, ואי אפשר לשום אדם לצייר מהותו בשכלו, כמו שאי אפשר לצייר מהות עצמות הנשמה שבגוף האדם וכו' ואור זה מתיחס לשי"ת שנקרא אור ה' ככתוב בית יעקב לכו ונלכה באור ה' וסיים בדברי הרמב"ם במורה נבוכים שכתב בענין שכינה ע"ש. ודבריו אלה המכחישים, מוכחשים באמת, ועומדים נגד הזהר והרח"ו ושאר מקובלים, ולפי דבריו בחנם טרחו ויגעו המקובלים החדשים והאריכו למעניתם בדברים רבים וספרים שונים לצייר לנו עשתונותיהם בענין האלהות וחזרנו מכל דברינו לפשוט לשלול מדעתינו כל צורה ותבנית ודמות מאותן הספירות שהן אור נברא, וכל אותן הדברים הנאמרים בקבלה החדשה, אינם רק לעבור על דברי רז"ל שאמרו כל שלא חס על כבוד קונו ראוי לו שלא בא לעולם! אתמהא! הלא מרבים העם לצייר ולדמות ולחלק את האור לחלקים ומדרגות רבות, זכרים ונקבות, בפרצופים שונים. וקראו בשמותם עלי אדמות, יש זכר ונקבה כאשם הראשון שנברא דו פרצופין דבוקים יחד דשייך בהו שאלת רז"ל הי מנייהו מסגי ברישא, ויש פרצופים חלוקים לגמרי זכר בפני עצמו ונקבה בפני עצמה כזעיר ונוקביה שאמרו שקדמה אשתו לרדת על הר סיני, ואח"כ ירד הזעיר אנפין אחריה להתחבר עמה כמו שנתבאר לעיל בשם נחלת יוסף והמה עיקר האלהות ולהם היא העבודה כמפורסם.
Nota — "Eu não tenho pai, irmão ou filho": o que o Midrash quer dizer. O dito de Shemot Rabá sobre a unicidade de D'us ("um rei de carne e sangue tem pai, irmão ou filho — Eu não") é um contraste com a realeza humana que é sempre limitada e compartilhada. A interpretação tradicional (maioritária): D'us não tem rivais, herdeiros ou colíderes — diferente de qualquer rei humano. Os Kabbalists responderiam que Abba, Ima e Malkut não são "rivais" nem co-regentes no sentido do Midrash — são aspectos do Único que falou no Sinai. Assim como um ser humano pode dizer "Eu falo" sem mencionar seus pulmões, sua língua ou sua mente — mesmo que todos funcionem juntos para produzir a fala. A questão filosófica real é se a metáfora dos partzufim pode ser sustentada sem comprometer o monoteísmo estrito. O Ramchal (Klalei Pitchei Chokhmah 28): "Os partzufim não são entidades separadas — são como a luz do sol refratada em cores diferentes: a luz é uma, as cores são muitas." O Sod Yesharim — que Qafih cita como autocontraditório dentro da tradição Kabbalists — representa a posição mais "filosófica" dentro da Cabalá, tentando conciliar o sistema com o monoteísmo racional do Rambam.
§102 — O Tzimtzum e as luzes criadas · o monoteísmo islâmico · os diagramas sefiróticos são desnecessários

(102) E segundo as palavras do Sod Yesharim, não ganhamos absolutamente nada ao conhecer o assunto do tzimtzum contração divina junto com a evolução dos círculos (iggulim) e das configurações (partzufim) do reto (yosher) — um após o outro. Apenas transgredimos as palavras do "ungido do Deus de Jacó" Davi, que disse: "Quem é como o Senhor nosso Deus, que Se eleva para sentar e que Se abaixa para ver, nos céus e na terra?" (Tehilim 113:5–6); e que disse: "Considerai em vossos corações, em vossas camas, e ficai quietos, selá" (Tehilim 4:5). E seria suficiente para nós o dito do profeta: "vinde e caminhemos na luz do Senhor" — (e na verdade, a luz mencionada nesse versículo é a luz da Santa Torá, como está dito: "pois mandamento é lâmpada e Torá é luz" (Mishlei 6:23) — que ilumina o ser humano e enderença seus caminhos para guardar Seus mandamentos e Suas leis, exaltado seja; mas as luzes espirituais não iluminam e não têm poder para dar uma outra Torá — pois D'us não trocará nem substituirá nossa Torá por outra). Por que então buscaríamos cálculos muitos que levam à apostasia — a servir a outro deus de "ânimo curto"? — E "D'us fez o ser humano com raciocínio reto" (Kohelet 7:29); e lhe deu a Torá da verdade; e nos mostrou Sua glória e Sua grandeza; e disse: "pois não vistes qualquer figura!" (Devarim 4:15).

E de qualquer forma, mesmo segundo a hipótese do Sod Yesharim — que a luz criada, com muitas outras luzes sagradas espirituais mais elevadas do que os anjos, são chamadas de Sefirot e não têm qualquer forma ou figura — elas ainda assim serão consideradas do conjunto dos "exércitos dos céus" que nosso D'us criou. E é proibido servi-las, já que são criaturas — e não é adequado servir senão ao D'us primordial que as criou, sejam elas corpóreas ou espirituais. E também combiná-las, uni-las e associá-las ao seu Criador, para servir a Ele junto com elas — é igualmente proibido: servir somente ao Senhor, que é a Causa Primeira — como receberam os nossos Sábios de abençoada memória, e como foi explicado acima.

E segundo a verdade plena — esse crença no Deus único como Primeira Causa é igual à fé dos ismaelitas muçulmanos, que a receberam de seu legislador, que a recebeu de Israel — como é sabido. E os filhos de Ismael mereceram essa fé pura na unicidade do Eterno em recompensa pela teshuvá que fez Ismael, seu pai — quando ficou claro que Ismael fez teshuvá e acreditou no Senhor, que é a Causa Primeira. E a Causa Primeira é chamada em sua língua de Allah — "e esta é a minha memória de geração em geração" (Shemot 3:15) etc. E na língua de nossos Sábios: "o Santo, bendito seja" ou "Ribono shel Olam" Mestre do Universo. E Ele é o nosso Deus e nós somos o Seu povo — e a Ele adoramos, nos prostramos e bendizemos, como recebemos de nossos antepassados e de nossos Sábios de abençoada memória.

E em vão foram escritos nas palavras dos novos Kabbalists todos aqueles desenhos, antropomorfizações e configurações, e seus diferentes graus hierárquicos, uns dos outros. Pois Ele, bendito seja, revela de Sua glória aos profetas, no tabernáculo e no Templo eterno, apenas conforme a Sua vontade — para fixar em nossos corações a crença n'Ele, como está escrito: "pois para que D'us vos pusesse à prova veio, e para que o Seu temor esteja em vossos rostos para não pecardes" (Shemot 20:17). E não há nada fixo e estabelecido sobre aquela luz mencionada para dizer: "esse é o partzuf fulano" ou "esse é o partzuf fulano-e-sicrano", ou "este é curto" ou "este é longo", ou "até onde chegam seus pés" — como calcularam os novos Kabbalists. Antes, tudo conforme a Sua vontade, exaltado seja, Ele nos revela.

E depois disso, na referida notícia, copiaram as palavras do autor do Sefer haBerit, que fortalece o nosso coração e corrobora o nosso espírito para não temermos e não tremermos diante da glória do Senhor e do esplendor de Sua majestade por O corporealizarmos — pois o versado em anatomia (chokmat hanitoach) sua luz o despoja e não se perturba com a glória do Criador. E não tem respeito pela honra de seu Criador. E o que lhe impede de corporealizá-Lo não é o pecado pois segundo o Ra'avad e o Ba'al haIkkarim — quem crer que o Eterno tem forma como a aparência de um rei, de corpo e matéria, porque erra em seu raciocínio, não se deve chamá-lo de herege (Ikkarim, cap. 1, cap. 2) — ainda que não seja assim segundo a verdade; apenas que é um erro na interpretação dos versículos. Assim como quem aprende a nova Cabalá — embora desenhe em seu pensamento, em sua boca e em livro, toda qualidade que compete ao corpo e seus acidentes, e as atribua ao Eterno, exaltado seja — depois retorna e as despoja e as remove: é como se nunca tivessem existido, e voltou o assunto a como estava antes; o que veio foi e se foi. E não ganhou absolutamente nada — antes perdeu, e transgrediu o que está escrito e as palavras de nossos Sábios de abençoada memória, e não teve respeito pela honra de seu Criador.

קב) ולפי דברי הרב סוד ישרים לא הרוחנו מאומה בידיעת ענין הצמצום עם השתלשלות העגולים והפרצופים של יושר זה אחר זה, רק שעברנו על דברי משיח אלהי יעקב שאמר מי כה' אלהינו המגביהי לשבת המשפילי לראות בשמים ובארץ, ואומר אמרו בלבבכם על משכבכם ודומו סלה, והיה די לנו במאמר הנביא לכו ונלכה באור ה' (ולפי האמת האור הנזכר בפסוק הזה הוא אור התורה הקדושה שנאמר כי נר מצוה ותורה אור שהיה מאירה לאדם ומישרת דרכיו לשמור מצותיו וחוקותיו ית', אבל האורות הרוחניים אינם מאירים ואין בכחם ליתן תורה אחרת, כי לא יחליף האל לא ימיר תורתינו באחרת) ולמה זה נבקש חשבונות רבים המביאים לידי מינות לעבוד אל אחר קצר אפים, והאלהים עשה את האדם בשכל ישר, ונתן לו תורת אמת, והראנו את כבודו ואת גדלו ואמר כי לא ראיתם כל תמונה! ומ"מ גם לפי הנחת סוד ישרים שהאור הנברא עם כמה אורות קדושים רוחנים למעלה מהלמאכים ונקראים בשם ספירות ואין להם שום צורה ודמות, מ"מ בכלל צבא השמים שברא אלהינו יחשבו, ואסור לעבדן כיון שהם נבראים, ואין ראוי לעבוד אלא לאלהי קדם שבראם, בין שהם גשמים או רוחנים, וגם לצרפם ולאחדם ולשתפם לבוראם אסור לעבוד בלתי לה' לבדו שהוא הסבה הראשונה כמו שקבלו רז"ל וכמו שנבאר לעיל שכפי האמת הגמור היא שוה לאמונת הישמעאלים שקבלוה ממחוקקם שקבל מישראל כידוע, וזכו בני ישמעאל לזאת האמונה הטהורה ביחוד השי"ת בשכר תשובה שעשה ישמעאל אביהם, כד קימא לך שישמעאל עשה תשובה והאמין בה' שהוא הסבה הראשונה, ונקרא בלשונם אללה, וזה זכרי לדר דר וכו', ובלשון רז"ל הקב"ה או רבש"ע, והוא אלהינו ואנחנו עמו, ולו אנחנו עובדים ומשתחוים ומברכים, כמקובל בידינו מאבות אבותינו ומרז"ל (ואיך יאמר בעל ספר הברית שאין אמונתינו באמונת הישמעאלים) ולחנם נכתבו בדברי המקובלים החדשים כל אותן הציורים וההגשמות והפרצופים ומעלותיהם השונים זה מזה, והוא ב"ה רק בחפץ רצונו ית' מראה מכבודו לנביאים ובמשכן ובבית עולמים כדי לקבוע אמונתו בלבינו ככתוב כי לבעבור גסות אתכם בא האלהים ובעבור תהיה יראתו על פניכם לבלתי תחטאו, ואין כאן דבר ידוע וקבוע באור הנזכר לומר בו זה פרצוף פלוני, וזה פרצוף לפוני אלמוני, וזה קצר, וזה ארוך, וזה מעלתו למעלה, וזה למטה, ועד היכן מגיעים רגליו כמו שחשבו המקובלים החדשים, אלא הכל כחפצו ית' הוא מראה לנו. ושוב אחר כן בגליון הנזכר העתיקו דבר הרב בעל ספר הברית המחזק את לבנו, ומאמץ את רוחינו בל נירא ונפחד מכבוד ה' ומהדר גאונו כי נגשימהו, כי הבקי בחכמת הניתוח, אורו מעליו יפשיט. ולא יחוס על כבוד קונו. ולא יעצרהו הגשם (אשר לדעת הראב"ד ובעל העיקרים מי שיאמין שהשי"ת בעל תואר כתואר םני המלך כגוף וגויה מפני שהוא טועה בעיונו אין לקרותו מין (עיקרים מאמר א' פ' ב') ואע"פ שאינו כן לפי האמת רק שהוא טועה בפי' הכתובים) כלומד הקבלה החדשה אע"פ שיצייר במחשבתו ובפיו ןבספר יחוק כל משיגי הגוף ומקריו, וייחסם לשי"ת. הנה אחר כך ישוב ויפשיטם ויסירם. היו כלא היו, וחזר הענין לכמו שהיה, כלעומת שבא כן ילך. ולא הרויח כלום, רק הפסיד ועבר על הכתוב ועל דברי רז"ל ולא חס על כבוד קונו.
Nota — o Tzimtzum e a questão das "luzes criadas". A doutrina do tzimtzum — contração do Infinito (Ein Sof) para "abrir espaço" para a criação — é uma das mais profundas e debatidas da Cabalá luriânica. Qafih argumenta que mesmo após o tzimtzum, as Sefirot são criaturas — e servir a criaturas é proibido. Os cabalistas respondem com uma distinção fundamental: o tzimtzum não cria uma separação real entre D'us e as Sefirot — o Vilna Gaon e o Chabad explicam que o tzimtzum é "como se" (ke'ilu), uma contração aparente, não real. O Ein Sof permanece pleno em todas as Sefirot — elas não são "criadas" no sentido ordinário, mas são modos de auto-revelação do Infinito. O Rambam (Hilkhot Yesodei haTorah 1:7) descreveu D'us como a "Causa Primeira" (Sibah Rishonah) — exatamente o termo que Qafih usa aqui para distinguir a fé judaica pura da Cabalá. A comparação com o monoteísmo islâmico é teologicamente rica: o Rambam e o Rasag reconheceram que o monoteísmo islâmico é em muitos aspectos mais próximo da teologia judaica racional do que certas correntes do Medievo cristão. Mas os cabalistas argumentariam que a Cabalá não é "mais" do que o monoteísmo puro — é uma maneira de entendê-lo e de vivenciá-lo em profundidade.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Ze'ir Anpin como o Deus revelado no Sinai

O núcleo da acusação de Qafih — que os Kabbalists identificam Ze'ir Anpin como o Deus que falou no Sinai, e Ze'ir Anpin é uma criatura — é historicamente preciso no que diz respeito às fontes que cita (Nachalat Yosef, Zohar Bereshit). A Cabalá luriânica de fato diz que a revelação sinaitica se deu pelo partzuf de Ze'ir Anpin. Mas a Cabalá também diz que Ze'ir Anpin não é uma entidade separada do Infinito — é o Infinito auto-revelando-se ao nível da relação com o mundo. A distinção é análoga à dos filósofos medievais sobre os "atributos" de D'us: são esses atributos algo além de D'us, ou são D'us mesmo se revelando em múltiplos aspectos?

A contradição de Shemot Rabá: "Eu não tenho pai, irmão ou filho"

O argumento de Qafih baseado no Midrash de Shemot Rabá é retoricamente poderoso..

O Tzimtzum: literalmente ou alegoricamente?

Qafih pressupõe que o tzimtzum é literal — D'us se "contraiu" e depois criou luzes separadas d'Ele. Mas a tradição do Vilna Gaon e do Baal haTanya (Chabad) lê o tzimtzum como allegoricamente — o Infinito não se contraiu de fato; apenas "oculta" sua presença para permitir a percepção de espaço criacional. Nessa leitura, as Sefirot não são "luzes criadas" separadas de D'us — são o próprio Infinito auto-revelado em graus e modos variados. A questão de se as Sefirot são "criadas" ou "não-criadas" é um dos mais antigos debates dentro da própria Cabalá (entre Ramak/Ramchal de um lado e certos kabbalists literalistas de outro).

O monoteísmo islâmico como critério

A comparação de Qafih do monoteísmo judaico puro com o islâmico (tawhid) é uma observação filosófica clássica. O Rambam no Mishneh Torah diz que o Criador é a Causa Primeira — como no conceito islâmico de Allah como al-Sabab al-Awwal. Rasag, filósofo em árabe-judaico, construiu sua teologia em diálogo com a filosofia islâmica. A comparação não é pejorativa — é uma maneira de Qafih dizer que a teologia judaica racional atinge exatamente o mesmo resultado que o melhor do monoteísmo islâmico. E que qualquer desvio disso é, para ele, uma perda.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XLI

O D’us de “ânimo longo” trocado pelo de “ânimo curto” — e os dois princípios no Zohar

האֵל אֶרֶך אַפַיִם הֻמַּר בִּקְצַר אַפַיִם — וְשְׁנֵי הָעִקָּרִים בַּזוֹהַר
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O Sod Yesharim falhou: os cinco partzufim SÃO a divindade — e Ze’ir Anpin é o “neto-do-neto” do Deus verdadeiro que tem “sem corpo, sem membros, sem esposa”. Jeremias já havia advertido: as nações não trocam seus deuses — mas Israel trocou o D’us de “ânimo longo” (erech appayim) pelo “deus de ânimo curto” (katzar appayim) da Cabalá. Este capítulo traz a conclusão da obra: o Zohar reuniu em si o dualismo dos dois princípios (“bem” = Ze’ir+Nukva; “mal” = Sitra Achra com seus próprios dez sefirot) — e essa fé estrangeira é, para Qafih, a própria causa do prolongamento do exílio.

§103 — O Sod Yesharim falhou: os partzufim SÃO a divindade — e Ze’ir Anpin é o “neto” do Deus verdadeiro

(103) E o que aqueles autores do Sod Yesharim não disseram é que quem crê que o Eterno, exaltado seja, seja um corpo e matéria etc. é apenas um ta’eh, erro ingênuo — referindo-se somente a quem acredita e pensa em sua mente que o Santo, bendito seja, que é a Causa Primeira, é um corpo e tem uma forma. Mas eis o perigo real — a doença que não tem cura —: que eles atribuem a adoração a causas criadas, temporais — que são os “deuses sagrados”, os cinco partzufim; e que é proibido servir à Causa Primeira diretamente — só servir ao de “ânimo curto” (Ze’ir Anpin) e sua consorte, e inclui-los com os outros partzufim acima deles. Mas quem serve à Causa Primeira em Sua aspecção simples (que não tem forma corporal) é um equivocado, e sua oração não é oração — pois a adoração só pertence à “configuração reta” que é apreendida em imagem corporal. Mas os círcu­los (iggulim) e o Ein Sof que os envolve — não têm qualquer divindade. E o núcleo da divindade são os partzufim do reto (yosher) — e eles são seres criados.

E as dez pronunciações (ma’amarot) pelas quais o mundo foi criado foram divididas entre eles: “Bereshit” a primeira pronunciação foi atribuído a Atik e Arikh com Abba e Ima — como foi explicado acima em §24, que segundo a primeira interpretação “com o poder de Abba, Arikh estendeu a Elohim, que é Ima”; e segundo a segunda interpretação “com o poder de Abba criou a Elohim, que é Biná, com a divindade depois dela, chamada de ‘céus e terra’ — que são Ze’ir Anpin e sua Nukva, a quem dizem que devemos servir”. E as outras oito pronunciações foram atribuídas a Abba sozinho! E a décima pronunciação — “Façamos o ser humano” — foi atribuída a Ima. Mas Ze’ir e Nukva — a quem devemos servir segundo as palavras deles — não participaram da Criação em nenhuma pronunciação das dez! Como verá o estudioso no Zohar e seus comentaristas. E já te expliquei acima em §25 como os Sábios distanciaram o pensamento de considerar céus e terra como divinos.

Mas eis que a promessa do autor do Sefer haBerit, de que não deveríamos temer a corporealização de D’us — não nos ajudou a escapar da crença em uma multidão de deuses que se auxiliam mutuamente, porque cada um é incapaz por si só e precisa do poder de outro. E ele também nos aconselha a servir ao sagrado “de ânimo curto” (Ze’ir Anpin), e o chama de “Deus Grande” — mas ele é o neto-do-neto-do-neto do Deus Supremo que disse: “Eu sou o Primeiro e Eu sou o Último, e além de Mim não há Deus — Eu sou o Primeiro porque não tenho pai; Eu sou o Último porque não tenho filho; e além de Mim não há Deus porque não tenho irmão.” E sobre esse Deus Supremo diz o Zohar (Behar p. 109): “Tu não tens corpo, não tens membros, não tens esposa — Tu és Um sem mudança.” (E o Rav Az leElohim, cap. 25, escreveu sobre o dito dos Sábios a respeito do versículo “há um e não há segundo, tampouco filho nem irmão — mas irmã ele tem” etc. — veja ali.) E o sumário das palavras deles é: todos os assuntos que apontam para a unidade absoluta nas Escrituras e nas palavras dos Sábios — foram ditos apenas sobre o Deus Supremo, a quem não servimos e a quem não clamamos. Pois Ele não responderá, Deus o livre — como diz o profeta em sua reprimenda a Israel: “Acaso é tão curta a minha mão que não pode resgatar, e se não há poder em Mim”...”

קג) ולא אמרו הנז' שהמאמין שהוא ית' גוף וגויא וכו' אינו אלא במי שהוא מאמין וחושב בדעתו שהשי"ת שהוא הסבא הראשונה הוא גוף ובעל תמונה, ברם דא עקא וחולי שיש בו סכנה ואין לו רפואה כי הוא מיחס העבודה לסבות נבראות מחודשות, הם האלהים הקדושים שהם החמשה פרצופים, ןשאין לעבוד לסבה הראשונה רק לפרצוף קצר האפים (זעיר ונוקביה) ולכלול עמו גם שאר פרצופים שלמעלה ממנו, אבל העובד לסבה הראשונה בבחינתו הפשוטה (שאין לו דמות הגוף) טועה הוא ואין תפלתו תפלה, כי לא תאות העבודה רק לחלק היושר המושג (בציור הגוף). אבל העגולים עם האין סוף המקיף, אין להם שום אלהות כלל, וכל עיקר האלהות הם פרצופי היושר, והם הברואים, ועשרה מאמרות שבהם נברא העולם נתחלקו ביניהם, בראשית שהוא מאמר ראשון נתיחס לעתיק ואריך עם אבא ואימא, כמו שנתבאר לעיל סי' כ"ד דלפי' קמא בכח אבא אריך את אלהים שהיא אימא, ולפירוש בתרא בכה אבא ברא אלהים שהיא בינה את האלוהות שאחריה המכונים בשם שמים וארץ, שהם קצר אפים וזוגתו (זעיר אנפין ונוקביה) אשר העבודה שייכא בהם דווקא. ושאר הח' מאמרות נתיחסו לאבא לבדו! ומאמר עשירי שהוא נעשה אדם, נתיחס לאימא. אבל זעיר ונוקביה אשר אותם ונעבוד לפי דבריהם לא נשתתפו במעשה בראשית בשום מאמר מעשרה מאמרות כאשר יראה המעיין בספר הזהר ומפרשיו. וכבר ביארתי לך לעיל סי' כ"ה איך הרחיקו רז"ל מלחשוב כי שמים וארץ אלוהות הן. והנה הבטחתו של הרב ספר הברית שלא נירא מהגשם, לא הועילה להצילנו מאמונת המון אלוהות רבים הנעזרים זה נזה, כי לא יכול לעשות והוא נצרך לכח אחר, וגם מיעץ אותנו לעבוד את קצר אפים (זעיר אנפין) הקדוש, והוא קורא אותו אלהא רברבא, והוא בן בן בן בנו של האלהים העליון שאמר אני ראשון ואני אחרון ומבלעדי אין אלהים. אני ראשון שאין לי אב, ואני אחרון שאין לי בן. ומבלעדי אין אלהים שאין לי אח, ושעל זה האלהים העליון אמרו בזהר (בחר דף ק"ט) ואנת לית לך גופא. ולית לך איברים ולית לך נוקבא אלא חד בלא שינוי וכו' כמבואר שם ב' רב פעלים (והרב עז לאלהים פרק כ"ה כתב על מאמר רז"ל על פסוק יש אחד ואין שני גם בן ואח אין לו, אבל אחות יש לו כו' ע"ש) וכללות דבריהם כי כל העניינים המורים על האחדות הגמורה בכתובים ובדברי רז"ל לא נאמרו רק על האלהים העליון אשר לא נעבוד אותו ולא נקרא אליו. כי לא יענה ח"ו. כמאמר הנביא מוכיח לישראל הקצור קצרה ידי מפדות ואם אין בי כח הציל וכו'. וכביכול לפי דבריהם הוא משתבח בעצמו בלבד ואינו עושה למבקש ממנו כלום. אבל עיקר העבודה והתפלה היא לקצר אפים. שהוא בגוף ואיברים ובעל אשה הוא. והוא אשר יענה לכל קוראיו ברצון אביו ואמו אשר גידלו אותו ורוממוהו ואעטרו ליה בתרין עטרין עד אשר לו נתכנו עלילות! אבל לעתיקא קדישא לא נתכנו עלילות, והזעיר אנפין הוא אשר נקרא בשם הוי'ה ובשם הקב"ה. ואליו תכון עבודתינו ותפלותינו לפי דבריהם אבל האלוה העליון שהוא יחיד בלי גוף ואיברים ואין לו אשה, לא נקרא אליו ולא נתפלל, והעובד אותו ומתפלל אליו אין תפלתו תפלה ולא יענה אותו. ואדרבא ענוש יענש.
Nota — “Os partzufim são a divindade”: o que a Cabalá realmente afirma. Qafih identifica uma contradição interna no Sod Yesharim: se as Sefirot são luzes criadas (como o Sod Yesharim diz), não faz sentido servir a elas — e nesse ponto ele concorda com o rambam. Mas ele vai além: a Cabalá luriânica torna Ze’ir Anpin o objeto de toda oração, e o Deus verdadeiro (Ein Sof) como inacessível. A resposta cabalídstica a essa crítica seria: os partzufim não são entidades separadas do Infinito — são aspectos de Sua auto-revelação. O Ari (Etz Chaim, Sha’ar haKlalim 1) ensina que todo o sistema dos partzufim é uma descrição de como o Infinito se relaciona com o finito — não uma hierarquia de divindades. O versículo do Zohar que Qafih cita (Behar 109: “tu não tens corpo, membros ou esposa”) é dito no próprio Zohar sobre o Ein Sof — e os cabalistas o usam exatamente para distinguir o Infinito dos partzufim. A questão é se essa distinção é teólogicamente coerente com o monoteíssmo estrito. Esta é a questão mais profunda do Milchamot Hashem.
§104 — Jeremias: as nações não trocam seus deuses — mas Israel trocou o Deus de ‘ânimo longo’

(104) E é isso que o profeta Jeremias clama com toda a garganta, sem parar — como trombeta que levanta a voz em nome do Senhor, dizendo: “Que erro encontraram vossos pais em Mim para que se afastassem de Mim? Pois atravessaram para as ilhas dos Kittim e viram, e a Kedar enviaram e contemplaram muito: acaso aconteceu tal coisa? Acaso trocou uma nação seus deuses — e eles não são deuses? Mas Meu povo trocou Minha glória pelo que não aproveita!” (Yirmiyahu 2:5, 11). Como aprendemos no primeiro capítulo de Ta’anit: “pois duas maldades fez Meu povo: a Mim abandonaram, a fonte de águas vivas, para escavar cisternas próprias, cisternas rachadas” — “pois atravessaram para as ilhas dos Kittim etc.” O taná ensinou: os Kittim adoram o fogo, e os Kedaritas adoram a água — e mesmo sabendo que a água apaga o fogo, não trocaram seus deuses! Mas Meu povo trocou Minha glória pelo que não aproveita!

E agora: os novos cabalistas trocaram o Deus grande, poderoso e temível — compassivo e gracioso, de “ânimo longo” (erech appayim) e grande em bondade, como Ele fez conhecer Seus caminhos a Moisés, Seu servo, e Seus feitos aos filhos de Israel — pelo deus de “ânimo curto” (katzar appayim), sobre quem o profeta Habacuc (como explicado na Idra, trazido acima §45) descreve Atik Yomin rezando e pedindo: “Senhor, Tua obra — que é Ze’ir Anpin — vivifica-a!” E sobre ele sobre Ze’ir Anpin disse o Rei Salomão: “O de ‘ânimo curto’ comete loucura!” (Mishlei 14:17). Ai de tal vergonha, e ai de tal vexame — “jazemos em nossa vergonha, e nossa humilhação nos cobre” (Yirmiyahu 3:25). Pois opiniões estranhas dos idólatras se misturaram à fé de nossa Santa e pura Torá. Ai!

E esta crença dos novos cabalistas é ela própria a fé dos antigos filósofos que eram idólatras, mencionados pelos Sábios no tractado Menachot — e já a mencionei acima em §59: que as nações de “Kargana” ao leste e “Tzor” ao oeste não conhecem Israel nem nosso Pai nos céus, e O chamavam de “Deus dos deuses” — que o Deus Supremo deu o poder e o domínio àqueles deuses sob ele, como explicou ali o Maharsha. E os cabalistas disseram que o poder e o domínio foram dados a Atik Yomin e Arikh Anpin e Abba e Ima, e eles por sua vez deram esse poder a Ze’ir Anpin e sua Nukva para supervisionar o mundo inferior.

E os leviano­s que absorveram em seus corações essas crenças falsas e acreditaram nelas começaram a buscar supôrtes frágeis na Torá, para tirar os versícu­los de seu sentido verdadeiro — dizendo que “Bereshit” é um nome de um deus, e que há duas autoridades, uma criou a outra: “Bereshit criou o Elohim, que são os céus e a terra — Ze’ir e Nukva, que são chamados Elohim.” E que esse deus Ze’ir Anpin se elogia e diz: “O Senhor me disse: tu és Meu filho” — que Ze’ir Anpin se vanglória de que o domínio sobre todas as criaturas procede dele (Zohar Balak p. 191). E interpretações vazias e inconsistentes como essas se espalharam pela mão do rei dos idólatras, entre os sábios-em-seus-próprios-olhos que seguem suas opiniões sem ouvir a voz dos Sábios de nossa geração — que distanciaram tais opiniões e escreveram para o Rei Ptolomeu: “Deus criou o princípio” em vez de “no princípio criou Deus”. E também disseram no capítulo Ein Dorshin: “Perguntou R. Yishmael a R. Akiva quando estavam caminhando pelo caminho” etc. — como foi trazido acima em §24.

קד) הוא שהנביא ירמיה קורא בגרון בלי חשך כשופר מרים קולו בשם ה' לאמר מה מצאו אבותיכם בי עול כי רחקו מעלי כי עברו איי כתיים וראו וקדר שלחו והתבוננו מאד הן היתה כזאת, החמיר גוי אלהיו והמה לא אלהים. ועמי המיר כבודו בלא יועיל. כדגרסינן בפרק קמא דתענית כי שתים רעות עשה עמי אותי עזבו מקור מיים חיים לחצוב להם בורות, בורות נשברים. כי עברו איי כתיים וכו' תנא כתים עובדים לאש וקדרים עובדים למים. ואע"פ שיודעין שהמים מכבין את האש לא הימירו אלהיהם. ועמי המיר כבודו בלא יועיל. הן עתה הימירו המקובלים החדשים את האל הגדול הגבור והנורא אל רחום וחנון ארך אפים וכו' כאשר הודיע דרכיו למשה עבדו ולבני ישראל עלילותיו, באלוה קצר אפים אשר לפי דבריהם אמר עליו הנביא חבקוק מבקש מעתיק לאמר ה' פעלך שהוא זעיר אנפין בקרב שנים חייהו כדאיתא באידרא והובא לעיל סי' מ"ה. ועליו אמר שלמה המלך ע"ה קצר אפים יעשה אולת! אוי לאותה בושה, ואוי לאותה כלמה, נשכבה בבשתינו, ותכסינו כלמתינו. כי נתערבו דעות זרות של עובדי אלילים באמונת תורתינו הקדושה והטהורה. אוי! והדעת הלזו של מקובלים החדשים היא בעצמה אמונת הפילסופים הקדמונים עובדי ע"ז שהזכירו רז"ל במסכת מנחות וכבר הזכרתיה לעיל סי' נ"ט שהגוים מקרגתני כלפי מזרח ומצור כלפי מערב אין מכירין את ישראל ולא את אבינו שבשמים וקרו ליה אלהא דאלהיא! שהאלהים העליון נתן הכח והממשלה לאותן אלוהות שתחתיו כמו שפירש שם מהרש"א ז"ל. והמקובלים אמרו שניתן הכח והממשלה, לעתיק יומין ואריך אנפין ואבא ואימא, והם ג"כ נתנו הכח הנזכר לקצר אפים וזוגתו (זעיר ונוקביה) להשגיח בעולם התחתון. וקלי הדעת אשר קננו בלבם הדעות הכוזבות האלה והאמינו בהם התחילו לבקש להם סמוכות רעועות מן התורה ולהוציא הכתובים ממשמען האמתי לומר כי בראשית שם הוא. ושתי רשויות הן. אחד ברא את השני. בראשית ברא את האלהים שהוא השמים והארץ. זעיר ונוקביה שהם אלהים. ושהאלוה הזה משתבח בעצמו ואומר ה' אמר אלי בני אתה. שהזעיר אנפין משבח את עצמו שהשלטון מלפניו על כל הברואים (זהר בלק דף קצ"א ע"כ). ונתפשטו דרשות של הבל ורעות רוח כאלה על ידי מלך עובדי ע"ז בין האנשים החכמים בעיניהם ההולכים אחר דעתם שלא כדעת חז"ל שהרחיקו דעות אלו וכתבו לתלמי המלך אלהים ברא את בראשית, ועוד אמרו בפרק אין דורשין. שאל רבי ישמעאל את רבי עקיבה כשהיו מהלכין בדרך וכו' כדלעיל סי' כ"ה. כל זה הוצרכו רז"ל להרחיק הדעות הזרות האלה שלא יתערבו בישראל לומר שמים וארץ אלוהות הם.
Nota — Erech appayim vs. katzar appayim: o argumento de Jeremias. O uso de Yirmiyahu 2 por Qafih é teólogicamente penetrante: a acusação bíblica de que Israel trocou o Deus vivo pelos que “não aproveitam” recebe aqui uma nova aplicação. A identificação de Ze’ir Anpin com o “deus de ânimo curto” é baseada em passagens do Zohar e da Idra Rabbá onde Atik Yomin (o Ancião) reza por Ze’ir — e o versículo de Habacuc 3:2 (“Senhor, Tua obra, vivifica-a”) é interpretado cabalísticamente como a reza de Atik por Ze’ir. Os cabalistas responderiam: Ze’ir Anpin é o rosto do Deus de misericórdia voltado ao mundo — o próprio YHVH das Treze Qualidades de Misericórdia (Shemot 34:6-7), que inclui o erech appayim. A tradução de “Bereshit” para o Rei Ptolomeu (“Deus criou o princípio”) é um dado talmúdico real (Meguilá 9a) — mostra a sensibilidade dos Sábios sobre a leitura das “duas autoridades”. O argumento de Qafih é que a Cabalá reviveu exatamente a leitura que os Sábios quiseram evitar.
§105 — Conclusão: o Zohar reuniu os dois princípios — e essa fé prolonga o exílio

(105) E todas essas crenças corrompidas mencionadas — junto com a crença dos que dizem que há duas divindades, uma que produz o bem e outra que produz o mal — foram reunidas nas mãos do instigador, o compositor do Zohar, e ele as chamou de “segredos da Torá.” O que produz o bem em seu sistema: Ze’ir e Nukva com os partzufim acima deles. O que produz o mal: o “lado esquerdo” e sua Nukva, com os partzufim deles. E ao complexo do mal deu o nome de “Homem de Perversidade” (Adam Belial), e os colocou “atrás” das configurações sagradas. E os chama de “Outro Lado” (Sitra Achra), “Lado da Casca” (Sitra deKelipah), “outro deus com dez sefirot.” E deu ao produtor do mal primazia de poder desde a “quebra dos vasos” — como é sabido —, e sustentou suas palavras nas palavras dos Sábios que disseram em Bereshit Rabá que o Santo, bendito seja, “construía mundos e os destruía.” E recobriu essas crenças estrangeiras com neblinas de pureza e nuvens de piedade vã, e confirmou e estabeleceu a existência de “outro deus” que produz o mal — em contradição com as palavras dos Sábios. E atribuiu todas essas crenças corrompidas ao Taná santo Rashbi e a seu filho e seus companheiros, cuja retidão e inteireza e grande sabedoria conhecemos.

E nossos sábios mais tardios foram arrastados após ele de olhos fechados, e pensaram que eram palavras de tradição autêntica. E a partir do início do sexto milênio, após terem sido revelados pela mão do rei dos reis dos gentios idólatras, as crenças corrompidas se multiplicaram e se difundiram. E com as vaidades humanas, em cordas de mentira, foram arrastados muitos sábios de Israel sem notar de onde saíram essas coisas. E foram atrás deles. E desprezaram a tradição de seus pais recebida por Moisés nosso Mestre, que ficou no Monte Sinai quarenta dias e quarenta noites — não comendo pão e não bebendo água, como testemunha nossa Santa Torá. E profanaram a Mishná e o Talmude santo. E os chamaram de “palhada da Torá” e “casca” (kelipá), e “palha que foi dita sobre eles: palha e feno são isentos do dízimo etc.” (Taharot haQodesh p. 41b; Zohar Bereshit), e “servente que destituiu sua senhora” — e os jogaram para trás!

E aguardavam a redenção por meio do seu estudo do Zohar — sem saber que é essa mesma fé estúpida que causa o prolongamento do nosso exílio e nossa subjugação entre as nações. Como disse o profeta Ezequiel em nome do Santo, bendito seja, falando por meio de Coaé e Amram no Egito: “E eu disse a eles: cada homem lance longe as abominações dos seus olhos, e não se contaminem com os ídolos do Egito — e não ouviram” etc. E como expuseram os Sábios no final do último capítulo de Pesachim sobre o versículo “bizer amim kravot yachfatzu” “Ele dispersou os povos que desejam batalhas”, Tehilim 68:31 — quem causou a Israel que se dispersasse entre as nações? Os que desejavam aproximidade delas e foram arrastados atrás de suas crenças corrompidas — como foi dito ao Rei Josafá, rei de Judá (2 Divrei haYamim 20): “Ao te juntares com Acazias, o Senhor rompeu os teus feitos!” Pois o povo de Israel deve habitar isolado, e entre as nações não ser contado — e não se misturar em sua fé pura, e não se contaminar com crenças falsas e forjadas. Pois a fé da Torá e seus pensamentos retos nos guardarão — se nos inclinarmos a ela com olhos abertos e raciocínio reto, no caminho que os Sábios receberam, na Mishná e no Talmude Bavli e Yerushalmi e nos Midrashim dos Sábios de abençoada memória.

קה) והדעות הנפסדות הנזכרים עם דעת השונים האומרים שני אלוהות יש אחד פועל הטוב ואחד פועל הרע. אסף בחפניו המסית מחבר הזהר ויקרא להן סתרי תורה. ופועל הטוב אצלו זעיר ונוקביה עם הפרצופים שלמעלה ממנו. ופועל הרע שמאל ונוקביה עם הפרצופים שלהם. וקרא לו שם אדם בליעל. ושפ מקומם אחורי פרצופים דקדושה. וקורא להם שם סטרא אחרא, סטרא דקליפה, אל אחר בעל עשר ספירות, ונתן לפועל ברע דין קדימה על פועל הטוב בהיותו משבירת הכלים כידוע, ותלה דבריו בדברי חז"ל שאמרו בבראשית רבה שהיה הקב"ה בונה עולמות ומחריבן, וחיפה דעות זרות אלו בערפלי טוהר וענני חסידות של הבל, וקיים ואימת מציאות אל אחד פועל הרע, היפך דברי רז"ל. יוחס את כל הדעות הנפסדות להתנא הקדוש רשב"י ובנו וחביריו אשר ידענו צדקתם ושלימותם וחכמתם הרבה. ורבותינו האחרונים נמשכו אחריו בעצימת עינים וחשבו אותן שהן דברי קבלה אמתית, ומתחלת אלף השישי אחר שנתגלו על ידי מלך ממלכי הגוים עכו"ם פרו וישרצו הדעות הנפסדות. ובהבלי אדם בעבותות שקר נמשכו אחריהן הרבה מחכמי ישראל מבלי שים לב מאין יצאו הדברים. וינהו אחריהם. וימאסו במשנת אבותיהם אשר קיבל משה רבינו ע"ה, ועמד בהר סיני ארבעים יום וארבעים לילה להם לא אכל ומים לא שתה כעדות תורתינו הקדושה, ויחללו את המשנה ואת התלמוד הקדוש. ויקראו להם תבנא דאוריתא וקליפה, ומוץ דילה דאתאמר בהון מוץ ותבן פטורים מן המעשר וכו' (טהרת הקדש דף מ"א ב' זהר בראשית) ושפחה כי תירש גברתה, וישליכום אחרי גום! ויצפו לגאולה על ידי עסקם בזהר, ולא ידעו כי היא בעצמה האמונה התפילה הלזו היא הגורמת אריכות גלותינו ושעבודינו בין הגוים כמו שאמר הנביא יחזקאל בשם השי"ת ואומר להם (פי' במצרים על ידי קהת ועמרם) איש שקוצי עיניו השליכו ובגלולי מצאים אל תטמאו ולא שמעו וכו' וכמו שדרשו רז"ל בסוף פרק ערבי פסחים על בזר עמים קרבות יחפצו, מי גרם להם לישראל שיתפזרו בין אוה"ע קריבות שהיו חפצים בהם, שדרשו אותו מלשון נקבה והתחברות להם בדיעותיהם הנפסדות, והוא על דרך מאמר הכתוב ביהושפט מלך יהודה (ד"ה ב' כ) בהתחברך עם אחזיהו פרץ ה' את מעשיך! כי עם ישראל לבדד ישכון, ובגוים לא יתחשב ויתערב באמונתו הטהורה, ולא יתגאל באמונות כוזבות מזוייפות, לפי שאמונת התורה ודעותיה הישרים תנצרנו אם משכיל בה בעינים פקוחות ושכל ישר על דרך שקבלו רז"ל במשנה ובתלמוד בבלי וירושלמי ומדרשי רז"ל הקדמונים.
Nota — a conclusão: o Zohar e o exílio. A tese final de Qafih — de que o estudo do Zohar causa o prolongamento do exílio — é a afirmação mais polêmica de toda a obra. é uma tese que inverte a afirmação cabalídstica canônica: o Ari, o Ramchal, o Vilna Gaon viam o Zohar como o livro da redenção por excelência. O Ya’avetz (Mitpachat Sefarim), que criticou parte do Zohar como edições tardias, não chegou a essa conclusão. A interpretação de Qafih do versículo de Pesachim (“eles foram arrastados atrás das crenças das nações”) como referência à Cabalá é incomum — o contexto talmúdico original fala de assimilação às culturas estrangeiras, não a movimentos espirituais internos. Já a descrição do Sitra Achra como “outro deus com dez sefirot” é ténica e historicamente precisa como descrição do sistema zohárico — mas os cabalistas diferenciam: o Sitra Achra não é uma divindade rival independente, é a ausência ou máscara do bem divino. A conclusão de Qafih — que a fé pura da Mishná e do Talmude protegerá Israel — é a mensagem central do Dor Deah, e um chamado à identidade racional judaica.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O argumento do “neto de D’us” e a divindade criada

O argumento mais penetrante de §103 é que o próprio Zohar (Behar 109) afirma que o Deus verdadeiro não tem “corpo, membros nem esposa” — e que sobre esse Deus verdadeiro ninguém pode rezar, porque Ze’ir Anpin (filho-do-filho-do-filho dele) é quem responde às preces. Qafih usa o Zohar contra ele mesmo: o próprio texto zohárico diz que o Ein Sof verdadeiro é absolutamente transcendente e que Ze’ir Anpin é um ser relacional. Os cabalistas responderiam que “transcendente” não significa “separado”: o Ein Sof é a base de toda existência, e Ze’ir Anpin é o modo como o Infinito é experienciado na relação — como uma mão que toca é parte do mesmo ser que pensa. A questão é se essa distância pode ser mantida conceitualmente sem escorregar para o poliíssmo.

Jeremias e a troca do Deus de “ânimo longo”

A análise de §104 mostra Qafih como exegeta ténico: os Kittim adoram fogo, os Kedaritas adoram água, e mesmo sabendo que água apaga fogo não trocaram seus deuses — mas Israel é acusado de ter feito o inverso. O erech appayim (“ânimo longo”) é um dos Treze Atributos de Misericórdia de Shemot 34 — o núcleo da revelação sinaitica sobre o caráter de D’us. Os cabalistas diriam que Ze’ir Anpin É o portador desses atributos no mundo — que os Treze Atributos são a descrição de Ze’ir Anpin em modo relacional. O slogan “erech/katzar appayim” de Qafih é uma simplificação retórica, mas ilustra bem o problema: quando o sistema cabalídstico representa Ze’ir como “de ânimo curto” em comparação a Arikh (“de ânimo longo”), isso cria uma escala de divindades com qualidades diferentes — que para Qafih contraria o monoteísmo estrito.

Os dois princípios, o Sitra Achra e a acusação de dualismo

A acusação de §105 de que o Zohar defende um dualismo (bem = Ze’ir+Nukva; mal = Sitra Achra com dez sefirot próprios) é teôlogicamente séria e foi debatida dentro da própria tradição cabalídstica. O Ramchal (Derech Hashem II:2) defendeu que o Sitra Achra não tem existência positiva própria — é a ausência de luz divina, como a sombra não tem existência própria. O Ari também não o vê como um deus rival independente. Mas o sistema de tohu (caos), “quebra dos vasos” e as contra-forças (kelipot) com sua própria estrutura sefirótica levou crticos como Qafih a vê-lo como dualismo funcional. A citação do Zohar chamando o Sitra Achra de “outro deus” com dez sefirot é textualmente precisa — e é um dos pontos mais delicados da teologia zohárica.

A conclusão: exílio e fé pura

A solução proposta por Qafih — retornar à fé racional da Mishná, do Talmude e dos Midrashim dos Sábios — é a mensagem central do Dor Deah. A visão iemenita que ele representa valoriza a via do Rasag, do Rambam e do Chovot haLevavot como o caminho autêntico da Torá — uma fé que une a razão e o coração sem a mediaçã das estruturas sefiróticas. Para Qafih, é essa fé limpa e racional que constitui a originalidade e a força de Israel entre as nações. A maioria de Israel discorda da conclusão sobre o Zohar — mas o chamado à integridade teôlogica e à claríadeza sobre o que se adora reverbera além dos limites do Dor Deah.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XLII

Os Sábios que silenciaram — e a perseguição dos leitores de Mishná no Iêmen

החכמים ששתקו — ורדיפת לומדי המשנה בתימן
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O Rivash, o Maharashal e o R. Tam ibn Yahia sentiram que algo estava errado na nova Cabalá — mas não falaram abertamente. Qafih conclui: o silêncio têm preço. E descreve aqui o que lhe aconteceu: um cabalista informante conseguiu que a comunidade Dor Deah no Iêmen fosse presa, difamada e ameinhada de exílio — enquanto Jerusalém emitia um cherem contra quem estudasse Mishná sem Zohar. A chave herêmênutica: o episódio talmúdico de R. Eliezer, preso por têr se "agradado" por uma só palavra de minut sem protestá-la.

§106 — O Rivash e o Maharashal: sentiram a estranheza, mas silenciaram — e o preço do silêncio

(106) E os remanescentes dos sábios do nosso povo que sentiram a estranheza da nova Cabalá — como o R. Tam ibn Yahia, e R. Peretz, e R. Shimshon de Kinon, e o Rivash (R. Yitzhak bar Sheshet Perfet), e o Maharashal — afastaram-se de aprendê-la, como disse o Rivash: "Não me envolvo etc." — pois sentiu sua estranheza em relação ao caminho de nossa Santa e pura Torá, livre de qualquer escória e sujeira. Mas não falou contra ela, apenas de passagem, ao dizer: "Acaso há divindade nas Sefirot?" E a parábola que Don Yosef ibn Shushan lhe contou não lhe agradou — pois sabia que de fato o outro tinha mentido para ele. Mas não quis entristecê-lo dizendo: "você falou falsidade." Por isso lhe disse: "Bem, seria muito bom se fosse como você diz." — Pois sabia que Don Yosef apenas o estava desviando. E mesmo o argumento de que "à sua alma você está adorando" — também é um mero desvio. Pois em verdade adoram as Sefirot e aceitam sobre si a divindade delas — e "unificam" os vasos junto com suas almas, como escreveu o Shushan Sodot, e o R. Shneur Berdugo em Behar p. 109, e a Mishnat Hassidim no final do Tratado Assiyá, e o Ez leElohim: "o corpo e a alma são um". E assim também escreveu o Heikhal haBrakhá em Vayikrá.

E se a recusa do Rivash fosse apenas porque não havia recebido a Cabalá de um mestre cabalista — poderia aprendê-la e recebê-la da boca de Don Yosef ibn Shushan! Antes, certamente havia razões mais profundas: ele viu com sua sabedoria que isso é uma saída da via de nossa Santa Torá para servir a outros deuses, obras do pensamento, da imaginação e da fantasia humanos, sobre os quais vem a advertência da Torá: "e não sigais após vossos corações e após vossos olhos" — e a tradição recebida: "após vossos corações" = heresia; "após vossos olhos" = prostituição; pois o coração e os olhos são os dois corretores do pecado. E é sabido que quem segue sua própria mente para inventar ideias na Torá — não no caminho dos Sábios que receberam a Torá oral, que é a Mishná e o Talmude — certamente chegará à heresia. (Como aprendemos no Midrash haGadol, em Parashat Shemini: "Vinho e bebida forte não beberás" — R. Chiyya abriu: "Os estatutos do Eterno são retos, alegrando o coração" (Tehilim 19), e está escrito: "o vinho alegra o coração do ser humano" (Tehilim 104) — assim como o vinho alegra o coração, assim as palavras de Torá; mas quem se ocupa com elas e medita nelas além do necessário — no final acabará na heresia." E já trouxe isso na introdução.)

E sobre isso aludiu o Rivash em palavras breves: "Acaso há divindade nas Sefirot?" — e por isso disse: "quem interpreta a Cabalá etc. que seja para si só, e eu não me envolvo etc." E assim fizeram R. Tam ibn Yahia e o Maharashal, cujas palavras são trazidas no livro Ravid haZahav e por R. Yosef Albo no Sefer haIkkarim.

No entanto, é possível que não tenham descido a sua profundeza para conhecer as serpentes amargas que estão em seu interior — apenas agiram como nós próprios fizemos por muitos anos: afastamo-nos dela porque gerava objeções, mas não falamos a respeito como somos obrigados — a fazer conhecidos os estatutos de D'us e Suas leis, e a quem é digno servir! E por isso a ira de D'us ardeu contra nós, e Ele nos puniu por nossa rebeldia — pois ouvíamos coisas que levam ao erro, e não protestamos em defesa da honra de nosso Criador. E D'us agitou contra nós o "de língua comprida" — um difamador da comunidade cuja arrogância cresceu até a destruição. E seu coração e seu instinto do mal o seduziram a rolar e difundir calúnias contra os estudiosos da Torá que a estudam com sinceridade — na Mishná e no Talmude — chamando-os de "hereges completos" e dizendo que a Bênção contra os Hereges (Birkat haMinim) instituid no Segundo Templo por Rabam Gamliel por meio de Shmuel haKatan era contra eles! E que todos os alunos que aprendem Mishná e Rambam "descaminharam" por não estudarem Zohar e Tikkunim!

E dia após dia ele levava palavras de delação e mentiras às autoridades governamentais — que esses estudiosos da Torá escreviam cartas de maldade e queriam se rebelar contra o sublime governo e buscar a proteção do governo inglês, e incitar os habitantes da terra a confiar em outro governo estrangeiro. E por meio dessas calúnias, o Wali o governador procurou arrancar do lugar e exilar a outro país a esses da comunidade de D'us — e nos colocou na prisão por mais de um mês, cerca de trinta homens — e medo e tremor caíram sobre o povo por causa de sua majestade e crueldade!

E o difamador continuou em seus esquemas a enviar calúnias ao Imam Yahia al-Mutawakkil — que alguns judeus queriam se exaltar sobre os muçulmanos e usar roupas de honra e montar em cavalos; que buscavam escolas para aprender turco e outros idiomas a fim de se engrandecer sobre o Islã. E que se não fosse ele a ensiná-los "os caminhos da submissão judaica e como eles são obrigados a aceitar o jugo do Islã" — já teriam ultrapassado os limites. E por meio disso obteve licença do Imam para oprimir esse povo de D'us e fazer o que desejasse. Mas o Imam — que era um homem sábio e entendido — não incluiu em sua carta a proibição do estudo de idiomas, matemática e geografia, escrevendo que esses estudos não podem ser negados aos jovens de Israel.

E o difamador abriu ainda mais a boca diante de um dos juízes do Imam — em nossa presença também — para nos difamar: que somos "abandonadores da religião judaica", que estudamos livros de filósofos gregos e negamos a crença na existência dos demônios. Mas na verdade nenhum livro de filósofos gregos — nem de qualquer outro filósofo externo — foi encontrado conosco! Somente a arrogância de seu coração o seduziu a nos difamar com mentiras, e multiplicou ódio gratuito no acampamento hebraico por nada! E continuou a pecar enviando cartas a todas as aldeias e cidades do Iêmen para divulgar essa grande calúnia contra nós com o nome de "hereges!" E astuciosamente compôs versões das calúnias maldosas, dizendo: "Já julgamos esses ímpios e os trouxemos à prisão — é vossa obrigação apressar cartas de queixa ao Imam, pois esses são os corruptores de nossa religião e de nossa fé; apressai, depressa, depressa, para avivar a fogueira contra eles!" E não os escrevia com sua própria caligrafia, mas os entregava a crianças de seus parentes para que os copiassem na letra deles — e os enviava a todas as cidades do Iêmen sem a própria assinatura, para que pudesse dizer: "não pratiquei iniquidade."

קו) ושרידי משכילי עמינו אשר הרגישו בזרות הקבלה החדשה כרבי' תם ן' יחיא, ורבי פרץ, ורבי שמשון מקינון, והרישב"ש והרש"ל הרחיקו את עצמם מללמדה כמו שאמר הריב"ש איני תוקע את עצמי וכו', כי הרגיש בזרותה מדרך תורתינו הקדושה והטהורה מכל סיג וחלאה, אך לא דבר כנגדה רק כלאחר יד באמרו וכי יש אלהות לספירות? והמשל שאמר לו דון יוסף ן' שושן לא ערב לו, שידע באמת שהוא כיחש לו, אך לא חפץ להעציבו לומר שקר דברת. ולפי' אמר לו והנה טוב מאד אם הוא כדבריך. כי ידע כי רק דחיה בעלמא קא מדחי ליה, כי גם אמרם כי לנשמתו אתה עובד דחייה בעלמא היא. והמה באמת עובדים להם ומקבלים אלהותם עליהם. ומיחדים את הכלים עם נשמותיהם כמו שכת בשושון סודות והרש"ב בפרשת בהר דף ק"ט ומשנת חסידים סוף מסכת העשייה ועז לאלהים שהגוף והנשמה חד אינון. וכ"כ היכל הברכה פרשת ויקרא. ואלו היתה מניעת הריב"ש מטעם שלא קיבלה מחכם מקובל היה לו ללמדה ולקבלה מפי דון יוסף ן' שושן! אלא ודאי דברים בנו! שראה בחכמתו שזו היא יציאה מדת תורתינו הקדושה לעבוד אלהים אחרים, מעשה ידי מחשבות אדם ורעיונותיו ודמיונותיו אשר עליהם באה האזהרה בתורה ולא תתורו אחרי לבבכם ואחרי עיניכם ובאה הקבלה אחרי לבבכם זו מינות, ואחרי עיניכם זו זנות, כי לבא ועינא תרי סרסורי דחטאה נינהו, ומן הידוע שההולך אחר דעתו להמציא לו רעיונות בתורה. שלא על דרך רז"ל שקבלו תורה שבעל פה שהיא המשנה והתלמוד כמפורסם ודאי יבוא לידי מינות (כדגרסינן במדרש הגדול פרשת שמיני יין ושכר אל תשת. רבי חייא פתח פקודי ה' ישרים משמחי לב, וכתיב יתהלך במישרים. משמחי לב, וכתיב ויין ישמח לבב אנוש. מה היין הזה משמח את הלב. כך דברי תורה העוסק בהן ומחשב בהן יותר מדאי סוף שהוא יוצא למינות ע"כ וכבר הבאתי בהקדמה). ועל זה רמז הריב"ש במלות קצרות וכי יש אלהות לספירות? ולכך אמר שהמפרש את הקבלה וכו' יהיו לו לבדו, ואיני תוקע את עצמי וכו' וכן עשה רבינו תם ן' יחיא ומהרש"ל המובאים דבריהם בספר רביד הזהב ור"י אלבו בספר העיקרים. ומ"מ אפשר שלא ירדו לעמקה לדעת את מרורות הפתנים אשר בקרבה, רק עשו כאשר עשינו אנחנו שנים רבות שפירשנו ממנה מפני שקרא עליה ערער. ולא דברנו אודותיה כמצווה עלינו להודיע את חקי האלהים ואת תורותיו ולמי ראוי לעבוד! ולכן חרה אף השי"ת בנו, ויענישינו על מריינו, שהיינו שומעים דברים המביאים לידי טעות, ועל שלא מחינו בכבוד קונינו. הסית השי"ת בנו את ארך הלשון אשר כחזקתו גבה לבו עד להשחית. וישיאו לבו ויצרו הרע להתגולל להוציא דבה רעה על לומדי תורה לשמה על אמתתה במשנה ובתלמוד. שהם מינים גמורים ושבבית שני תיקן רבן גמליאל על ידי שמואל הקטן ברכת המינים, ושכל התלמידים הלומדים משנה והרמב"ם יצאו לתרבות רעה על שאין לומדים זהר ותיקונים! ומיום ליום יביע אומר מלשינות ושקר לפני שרי הממשלה, שהמה אלה מכתבי עמל. ורצונם למרוד בממשלה הרוממה ולחסות תחת ממשלה אנגליז, ולהמריד את יושבי הארץ לחסות בממשלה אחרת נכריה ועל ידי רכילותו זאת בקש הואלי (המושל) לנתשם מעל אדמתם אל ארץ אחרת, ויתן אותנו בבית הסהר יותר מחדש ימים כשלשים איש, ויפל פחד ורעדה בלב העם מהדר גאונו ועריצותו! ושוב המציא במזימותיו רכילות אחרת במכתבים אל האימאם יחיא אלמתוכל יר"ה. שקצת מן היהודים רוצים להתנשא על המושלמנים וללבוד בגדי כבוד, ולרכוב על סוסים. ומבקשים בתי ספר ללמוד שפה תורכית ושאר לשונות כדי להתגדל על האיסלאם. ואלמלא אני מלמדם ומדריכם בדרכי כניעת היהדות ואיך הם מחוייבים לקבל עליהם עול האיסלאם. כי עתה פרצו ועלו על האיסלאם. ועל ידי זה זכה ליתן לו רשיון מן האימאם יר"ה לרדות בעם ה' אלה ולעשות כחפצו, אך לימודי שפת תורגמה וידיעת גלילות הארץ וגבולותיה וחשבון ותשבורת וכיוצא לא אמר אותן האימאם יר"ה, כי הוא איש משכיל ונבון, ובמכתבו כתב שאין למנוע הלימודים האלה מנערי בני ישראל. ובעל הלשון הרחיב עוד את פיו לפני אחד השופטים של האימאם בפנינו ג"כ להלשין עלינו. כי אנחנו עוזבי דת הישראלית, ולומדים בספרי פילסופי יון, ומכחישים אמונת מציאות השדים. ובאמת לא נמצא אצלינו שום ספר מספרי יון, ולא זולתם מספרי הפילסופים החיצונים כלל! ורק זדון לבו השיאו להלשין עלינו שקר, והרבה שנאת חנם במחנה העברים על לא דבר! ויוסף עוד לחטוא לשלח מכתבים אל כל כפרי ועיירות התימן להוציא ולפרסם את הרבה הרעה הזאת עלינו בשם מינים! וערום יערים לעשות נוסחי דבות רעות לאמר, הן כבר עשינו משפט ברשעים האלה ונביא אותם אל בית הכלא, ועליכם המצוה למהר במכתבי קובלנא אל האימאם יר"ה, כי אלה מקלקלי דתינו ומפסידי אמונתינו, מהרו, חושו, חושו, להגדיל המדורה עליהם! ולא היה כותבם בכתב ידו, רק מוסרם לילדים מקרוביו כדי להעתיקם בכתב ידם, ושולחם לכל ערי התימן שלא בכתב ידו, כדי שיאמר לא פעלתי און.
Nota — o Rivash e a Cabalá: o que ele realmente disse. A resposta do Rivash (R. Yitzhak bar Sheshet Perfet, 1326–1408) sobre a Cabalá, no Shut Rivash §157, é um dos textos mais citados no debate sobre Cabalá e racionalismo. Ele escreve que os Kabbalists aproximam-se de uma espécie de shituf (associar algo a D'us) ao falar das Sefirot como aspectos da divindade — mas não condenou a Cabalá como heresia formal. Ele declinaram de estudá-la por conta própria, sem dizer que os Kabbalists são hereges. Da mesma forma, o Maharashal (R. Shlomo Luria, 1510–1573) expressou reservas sobre certas práticas cabalísticas, mas nunca deixou de respeitar a tradição. R. Yosef Albo (Sefer haIkkarim) e outros Rishonim criticaram aspectos da Cabalá sem chegarem à conclusão de Qafih de que ela é "saída da fé" (yetziat midat toratenu). A aplicação que Qafih faz do Midrash ("quem estuda Torá além do necessário chega à heresia") ao estudo da Cabalá é polêmica — o texto original fala de estudo excessivo, não de estudo de um assunto específico. Esses são exemplos da leitura "Dor Deah" dos textos clássicos — sempre contra a Cabalá, mas não endossada pela tradição majoritária.
§107 — O cherem de Jerusalém, o caso de R. Eliezer e o preço do silêncio de Qafih

(107) E não só isso — mas também para Jerusalém (que se reconstrua!) enviou muitas cartas de maldade, engano e mentiras, para despertar a ira e o furor dos sábios aos seus olhos, e eles decretaram cherem excomunhão — com base nas calúnias dele — contra os estudiosos da Torá e seus mestres. E em assembleias de grande público divulgou — por meio de outros — a carta de excomunhão dos tolos de Jerusalém: que aqueles que aprendem Mishná, Talmude e Poskim sem estudar o Sefer haZohar e os Tikkunim "para erguer a Shekhiná do pó" — esses estão em cherem e separados dos sábios e rabinos de Jerusalém, e é proibido comer do abate ritual deles! E também reuniu todos os açougueiros em sua casa, e os advertiu e os fez jurar pelo Eterno D'us de Israel que nenhum deles ousasse abater animais para eles!

E noites de sofrimento eram suas — meditando em sua cama — e de manhã cedo se posicionava às portas dos juízes do Imam para difamar os estudiosos e impedir que se reunissem para aprender — "pois corrompem a religião e a fé." E ao voltar para sua casa, segurava o lado fingia fraqueza e enfermidade e caminhava de cá para lá apoiado em seu cajado, como se não tivesse força para se manter em pé.

Tudo isso nos aconteceu — e não esquecemos o Nome de nosso D'us, o Deus grande, poderoso e temível — para estender as mãos a um deus estrangeiro de "ânimo curto" e sua consorte! Os quais nossos ancestrais e os ancestrais de nossos ancestrais nunca conceberam, desde o dia em que foram ao exílio para a terra do Iêmen até hoje — exceto por alguns "sábios aos seus próprios olhos" que foram arrastados atrás das opiniões do compositor do Zohar, como é sabido.

Mas já que não protestamos em defesa do honor do Seu Nome bendito quando nossas palavras poderiam ter sido ouvidas, fomos "capturados" — como aprendemos no primeiro capítulo de Avodá Zará: "Quando R. Eliezer foi capturado por minut suspeita de heresia, o trouxeram ao tribunal para julgamento. Disse-lhe aquele oficial: 'Um ancião como você se ocuparia com essas coisas vazias?' Respondeu-lhe: 'Confiável é o Juiz.' O oficial pensou que ele R. Eliezer estava se referindo a ele o oficial. Mas ele falava apenas sobre seu Pai nos céus. O oficial disse: 'Você me deu confiança — pois você crê em mim, você está absolvido.' E quando chegou a sua casa e seus alunos entraram para consolá-lo, ele não aceitou o consolo. R. Akiva lhe disse: 'Mestre, permita-me dizer a você uma coisa do que você me ensinou.' Disse-lhe: 'Diga.' Disse-lhe: 'Talvez alguma palavra de minut chegou a suas mãos e lhe agradou, e por isso você foi capturado por minut?' R. Eliezer disse: 'Akiva, você me lembrou! Uma vez eu estava caminhando pelo mercado superior de Tzipori e me encontrou alguém, e Yaakov de Kfar Sekhanya era o seu nome. Ele me disse: Está escrito em vossa Torá, "Não trarás o salário de uma prostituta nem o preço de um cão à Casa do Eterno vosso D'us para qualquer voto" — é permitido fazer dele uma latrina para o Sumo Sacerdote? E eu não disse nada. Ele me disse: É assim que Yeshu me ensinou — "Do salário de prostituta foi reunido, e ao salário de prostituta voltará" — e o assunto me agradou. E por causa disso fui capturado por minut e transgredi o que está escrito na Torá: "Afasta dela teu caminho" — isso é a heresia; "e não te aproximes da entrada de sua casa" — isso é a imoralidade.' E até onde? Disse Rav Hisda: até quatro côvados etc." E o Maharsha escreveu: a Escritura adverte a afastar-se para que não se agrade e seja arrastado depois dela — como disse: "e o assunto me agradou, e por isso fui capturado." Pois quando lhe perguntou e ele nada respondeu — deveria ter se afastado e não deveria ter ouvido a resposta dele.

Como essas coisas que aconteceram com R. Eliezer — assim nos aconteceram também a nós: pois não revelamos a fé de nossa Santa Torá sobre a unicidade do Santo, bendito seja, e o serviço a Ele sem combinação ou associação com nenhuma outra coisa, como nos foi ordenado. E ouvíamos palavras de minut de pessoas que caminham nas pegadas do Zohar e dos novos Kabbalists — que servem os novos deuses: Ze'ir Anpin de "ânimo curto" e sua consorte, e seus pais Abba e Ima, e seus avós Arikh Anpin e Atik Yomin o Ancião dos Dias — e não dissemos nada. E por isso fomos "capturados por minut"!

E se não tivéssemos confiado no Eterno nosso D'us — o Deus grande, poderoso e temível — quer Ele agisse quer não agisse — teriam nos tirado acorrentados da prisão para nos exilar a outra terra, uma terra que devora seus habitantes, por causa de calúnias falsas. Mas mil mil agradecimentos ao nosso D'us nosso Rei, que nos tirou da prisão em paz — uma primeira vez e uma segunda — e nos salvou da terceira, e nossos pés não escorregaram — louvado seja D'us.

קז) ולא זו בלבד, אלא גם אל ירושת"ו הרבה לעשות מכתבי און ומרמה ושקרים, עד להעלות אף וחמת החכמים בעיניהם, ויחרימו על פי מלשינותו את לומדי התורה ומלמדיה, ובמקהלות עם רב השמיע ופרסם את מכתב החרם של טיפשי ריושת"ו על ידי אחרים, שהלומדים משנה ותלמוד ופוסקים ואינם עוסקים בספר הזהר והתקונים לאקמא שכינתא מעפרא, הרי הם מוחרמים ומובדלים מחכמי ורבני ירושת"ו ואסור לאכול משחיטתם, גם אסף את כל הקצבים אל ביתו, ויזהירם וישביעם בה' אלהי ישראל לבל יזיד איש מהם לנקר להם בשר! ולילות עמל מנו לו, לחשוב על משכבו, ובבקר השכם יתיצב על פתחי בתי שופטי האימאם יר"ה להלשין את הלומדים, ולמנוע אותם לבל יתחברו עוד ללמוד. כי משחיתים הם את הדת ואת האמונה. ובחזרתו אל ביתו נקיט נפשיה בקצירי, ועל משענתו ילך הנה והנה, כאל אין בו כח לעמוד. כל זאת באתנו ולא שכחנו שם אלהינו האל הגדול הגבור והנורא, לפרוש כפינו לאל זר קצר אפים וזוגתו! אשר לא שערום אבותינו ואבות אבותינו, מיום גלותם אל ארץ התימן עד היום הזה, זולתם קצת חכמים בעיניהם שנמשכו אחר דעות מחבר הזהר כידוע. אך כיון שלא מחינו בכבוד שמו יתברך בהיות דברינו נשמעים עליה נתפשנו, כדגרסינן בפ"ק דע"ז ת"ר כשנתפס רבי אליעזר למינות העלוהו לגרדום לידון, אמר לו אותו הגמון זקן שכמותך יתעסק בדברים בטלים הללו, אמר לו נאמן עלי הדיין. כסבור אותו הגמון עליו הוא אומר. והוא לא אמר אלא כנגד אביו שבשמים. אמר לו האמנתי. דימוס פטור אתה. וכשבא אל ביתו נכנסו תלמידיו לנחמו, ולא קבל מהם תנחומין. אמר לו רבי עקיבה רבי הרשיני לומר לפניך דבר אחד ממה שלמדתני. אמר לו אמור. אמר לו שמא דבר מינות בא לידך והנאך הדבר ועליו נתפסת למינות. אמר לו עקיבה הזכרתני, פעם אחת הייתי מהלך בשוק העליון של ציפורי ומצאני אחד ויעקב איש כפר סכניא שמו. אמר לי כתוב בתורתכם לא תביא אתנן זוגה ומחיר כלב בית ה' אלהיך לכל נדר. מהו לעשות ממנו בית הכסא לכהן גדול, ולא אמרתי לו כלום. אמר לי כך לימדי (ישוע) כי מאתנן זוגה קבצה עד אתנן זוגה ישובו, והנאני הדבר, ועל ידי זה נתפסתי למינות ועברתי על מה שכתוב בתורה הרחק מעליה דרכך זו מינות, ואל תקרב אל פתח ביתה זו זנות ועד כמה אמר רב חסדא עד ארבע אמות וכו'. וכ' הרש"א הזהיר הכתוב להרחיק כדי שלא יהנה וימשך אחריה כדקאמר והנאני הדבר ועי"ז נתפסתי למינות ועברתי. דכששאל ממנו ולא השיב לו כלום היה לו להרחיק ולא היה לו לשמוע ממנו תשובתו עכ"ל. כדברים האלה שאירעו לר"א ע"ה אירעו לוי גם אנחנו על אשר לא גילינו את אמונת תורתינו הקדושה ביחוד השי"ת ועבודתו בלי שתוף וצירוף דבר אחר כאשר צונו, והיינו שומעים דברי מינות מאנשים שהם הולכים בעקבות הזהר והמקובלים החדשים העובדים את האלהים החדשים קצר האפים וזוגתו והוריו אבא ואימא וזקיניו אריך אנפין ועתיקא קדישא, ולא דברנו להם מאומה, ועל ידי זה נתפשנו למינות! ואלו לא בטחנו על ה' אלהינו האל הגדול הגבור והנורא בין יעשה גם בין לא יעשה, כי אז היו מוציאין אותנו בקולרין מבית הכלא להגלותינו אל ארץ אחרת, ארץ אוכלת יושביה על ידי מלשינות שקר. אמנם אלף אלפים תודות לאלהינו מלכינו שהוציא אותנו מבית הכלא לשלום פעם ראשונה ושנייה, והצילנו מן השלישית ולא מעדו רגלינו תלי"ת.
Nota — R. Eliezer e o minut: o que o Talmude realmente diz. O episódio de R. Eliezer (Avodá Zará 16b–17a) é um dos mais poignantes do Talmude. R. Eliezer foi preso pelas autoridades romanas suspeito de simpatizar com o movimento cristão — não por acreditar nele. R. Akiva pergunta: "talvez alguma palavra de minut te agradou?" — e R. Eliezer lembra ter ouvido uma interpretação de Yeshu sobre um versículo e sentido agrado intelectual. O Maharsha sublinha: o problema não foi crer em Yeshu, mas ter deixado a palavra ressoar sem protesto. Qafih aplica esse princípio ao próprio silêncio sobre a Cabalá — uma aplicação criativa mas contestável: para a tradição majoritária, o Zohar e a Cabalá não são minut. O material autobiográfico de §106–107 é historicamente valioso: documenta conflitos reais na comunidade judaica iemenita do século XIX–XX, a influência do Imam Yahia al-Mutawakkil (que governou o Iêmen 1890–1948), e o uso político de acusações religiosas em contextos de minoria. O cherem contra quem estuda Mishná/Talmude sem Zohar — citado aqui por Qafih — é uma fonte primária rara sobre as tensões intra-comunitárias do Dor Deah.

Sobre este capítulo · עיון

Os grandes Sábios que "sentiram a estranheza" mas não protestaram

A lista de Sábios trazida por Qafih — R. Tam ibn Yahia, o Rivash, o Maharashal — não é uma lista de opositores da Cabalá, mas de homens que declinaram de envolvêr-se com ela. A posição clássica do Rivash (Shut §157) é nuançada: ele disse que a linguagem dos Kabbalists, ao falar de vasióes divinas como se fossem entidades distintas, pode induzir ao shituf (combinar algo com D'us) — mas não condenou nenhum Kabbalist como herege. A diferença entre "sentir estranheza e não estudar" e "condenar como idolatria" é enorme — e Qafih a colapsa, o que é a base de toda a sua argumentação. O argumento do Rivash "acaso há divindade nas Sefirot?" foi interpretado de maneiras opostas: alguns vêm como ceticismo camuflado; outros, como uma questão retórica que, ao ser respondida pelos Kabbalists ("não é divindade, é revelação"), ficou sem contestação definitiva.

Material autobiográfico: a perseguição no Iêmen

Este capítulo é um documento histórico raro. O Dor Deah não foi apenas uma disputa acadêmica — foi um conflito de poder dentro da comunidade judaica iemenita. O Iêmen da época (final do século XIX – início do XX) era governado pelo Imam Yahia Hamid al-Din (Yahia al-Mutawakkil, 1869–1948), que governou de 1904 a 1948. Os judeus viviam sob dhimma (proteção subordinada) — e acusações de "rebeldia" podiam ter consequências graves. O difamador descrito por Qafih usou exatamente esse mecanismo: acusar os estudiosos de Mishná de deslealdade política, rebeldia contra o governo e simpatia pelos ingleses — para transformat um debate religioso interno em caso penal. A prisão de "cerca de trinta homens por mais de um mês" e a ameaça de exílio são episódios históricos reais na comunidade Dor Deah.

O cherem de Jerusalém: "quem não estuda Zohar está sob ban"

A afirmação de que Jerusalém emitiu um cherem contra quem estudasse Mishná e Talmude sem Zohar — e que um difamador proibiu os açougueiros de abater carne para esses estudiosos — é uma das mais dramáticas do livro. Se historicamente precisa, revela o grau de pressão social exercido pelos círculos cabalísticos de Jerusalém sobre as comunidades dissonantes. Não é possível verificar independentemente o cherem específico que Qafih descreve — mas os conflitos entre Kabbalists e racionalistas no Iêmen do período são documentados em outras fontes. A afirmação "proibido comer do abate de quem não estuda Zohar" é halakicamente extra ordinária: seria usar a lei da kashrut como arma de exclusão comunitária.

O princípio de R. Eliezer e a autócrtica de Qafih

O uso do episódio de Avodá Zará 16b–17a é teologicamente profundo. R. Eliezer foi capturado não por crer em minut, mas por têr se agradado, por um momento, com uma interpretação oriunda dela. O Maharsha explica: "deveria ter se afastado antes de ouvir a resposta." Qafih aplica isso a si mesmo: aó permanecer em silêncio diante das prédicas cabalísticas, ele "se agradou" implicitamente — e por isso foi "capturado." A autócrtica é notável: o autor conclui que a perseguição que sofreu foi, em parte, resultado do seu próprio silêncio prolongado. Isso dá ao Milchamot Hashem uma dimensão pessoal — não é apenas uma polêmica teórica, mas o resultado de anos de reflexão dolorosa.

Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XLIII

O "Ein Sof" como negação — e o Shemá cabalístico como união de cinco partzufim

הָ"אֵין סוֹף" כְּלָשׁוֹן שְׁלִילָה — וּקְרִיאַת שְׁמַע כְּיִחוּד חֲמִשָּׁה פַּרְצוּפִים
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O nome "Ein Sof" — que os cabalistas usam para o Infinito — significa literalmente "o Nada sem fim": Ein é a palavra hebraica de negação e ausência. Se D'us é "o Nada", todos os nomes divinos das Escrituras devem se referir aos partzufim — as configurações criadas que siúm os objetos de culto. E o Shemá Yisrael deixa de ser a declaração de unidade e passa a ser a união de cinco entidades: YHVH = Abba; Eloheinu = Ima; YHVH = Ze'ir Anpin; Echad = Nukva. O capítulo fecha com a passagem de Yomá sobre os Homens da Grande Assembléia que capturaram o instinto idulátrico — e a conclusão de Qafih: o rei gentío que revelou o Zohar em Toledo o soltou novamente.

§108 — O 'Ein Sof' como linguagem de negação e ausência — e os nomes divinos atribuídos aos partzufim

(108) Já explicamos várias vezes que a opinião dos novos Kabbalists é que Ze'ir Anpin é quem se revelou a nossos ancestrais no Monte Sinai e disse "Anochi Eu sou o Eterno teu D'us" — mas então como trouxeram os Sábios de abençoada memória em Shemot Rabá as palavras "Eu sou o Primeiro e Eu sou o Último etc., que não tenho pai, não tenho filho e não tenho irmão" — como comentário sobre as palavras "Anochi o Eterno teu D'us" que os novos Kabbalists dizem que Ze'ir Anpin disse? E o que teria o Deus Supremo o Ein Sof a se gloriar ali, no meio das palavras de Ze'ir Anpin que tem pai, mãe, filho e irmã? Certamente, então, os Sábios em Bereshit Rabá, em Shemot Rabá e em Devarim Rabá, vieram nos alertar para que não erremos nessas opiniões — e nos esclarecer que Aquele que disse "Anochi o Eterno teu D'us" é Aquele que disse "Eu sou o Primeiro, que não tenho pai; Eu sou o Último, que não tenho filho; e além de Mim não há D'us, que não tenho irmão" — Ele é o Eterno nosso D'us, a Causa Primeira, e não outro! E Ele em Seu próprio esplendor e em Sua própria essência, dos céus, fez ouvir a nós a Sua voz; e nos advertiu no Segundo Mandamento: "Não haverá para ti outros deuses diante de Mim!" E Ele disse: "Vede agora que Eu, Eu sou Ele, e não há D'us comigo!" — contrariamente à opinião do Zohar, o instigador, que entende que o D'us que disse "Eu sou o Primeiro etc." é o Ein Sof; e que o que disse "Vede agora etc." é o Adam Kadmon; e que o que disse "Haja luz etc." é Abba que falou a Ima; e que o que disse "Façamos o ser humano etc." é Ima que falou a Abba etc. — como foi dito acima. E de qualquer forma, não atribuem toda a nossa adoração, nossas orações e todos os nossos pedidos senão ao de "ânimo curto" (Ze'ir Anpin) e em combinação com os partzufim acima dele — como foi explicado acima — e em clamá-Lo, é como se clamássemos ao Deus Supremo. Pois o Deus Supremo não tem nome. E se O chamarmos pelo Nome YHVH, Ele não responderá — pois os nomes foram atribuídos apenas aos partzufim que emanam e foram criados d'Ele. E o Nome YHVH em particular, segundo suas palavras, é o deus de "ânimo curto" especificamente.

E sobre essas crenças estranhas, longe dos caminhos de nossa Santa Torá e da tradição dos Sábios, clamou o profeta Jeremias em nome de D'us, dizendo (Yirmiyahu 5): "Desmentiram o Eterno" — Aquele de quem foi dito "D'us ao sair à frente de Teu povo, ao marchar pelo deserto, selá — a terra tremeu, os próprios céus gotejaram diante de D'us, este Sinai — diante de D'us, o D'us de Israel" — "e disseram: não é Ele!" — mas é Ze'ir Anpin quem desceu ao Monte Sinai para se unir a sua esposa que já o havia precedido, e ele desceu atrás dela para se unir e se desposar a ela. (E "lav" está escrito cheio, com vav e alef — pois consideraram Sua existência bendita como se fosse "nada", e também O chamam de Ayin Nada — ou seja: "inexistente", não um ser. E disseram que quem clama a Ele não obterá resposta — pois Ele é "Nada" (Ayin).)

Pois é sabido que as letras de negação, privação e ausência utilizadas no hebraico são lo לא e ein אין — como escreveu o Rambam no Sefer haMitzvot, Shoresh 8. E os árabes usam para indicar negação e privação — que em árabe se chama nafy — as palavras lam, laysa, la e ma. E os novos Kabbalists chamaram o Santo, bendito seja, de Ayin — que é linguagem de negação e privação. E por isso disseram que Ele, bendito seja, não tem nenhum nome nem nenhum ponto que O limite — pois Ele é "Nada" (Ayin). E às vezes acrescentaram a palavra Sof fim/limite, e disseram Ein Sof — expressão que se assemelha em seu sentido à tradução de "sem limite à Sua sabedoria" (Yeshayahu 40:28): que Yonatan ben Uziel traduz como "não há fim à Sua inteligência" (leit sof lesokhltenoutei). Mas eles omitiram a palavra "Sua sabedoria/inteligência" que o profeta disse — para dizer que o Ser em Si mesmo não tem fim, não apenas a Sua sabedoria. E pensaram: já que não é possível compreender Sua essência nem como Ele é — portanto Ele não existe, Deus o livre! E por isso atribuíram todos os nomes mencionados na Torá, nos Profetas e na linguagem dos Sábios — "o Santo, bendito seja" ou "Mestre do Universo" — tudo aos partzufim que inventaram na sua imaginação, que "cascateiam e emanam do Ayin" — e os chamaram de "o corpo do Rei" (guf demalka). E esses partzufim são o núcleo da divindade — pois são apreensíveis e concebíveis na mente, ainda que sejam luzes e não tenham carne e ossos, como escreveu o Rambam na introdução ao Moreh Nevukhim!

E desejaram muitas divindades — como nossos ancestrais no deserto do Sinai que disseram "estes são os teus deuses, Israel" (Shemot 32:4) — como disse o próprio Rashbi em abençoada memória no capítulo Arba Mitot das Quatro Mortes: "Disse Rav Yehuda: não fosse o vav conjuntivo em ha'elukha 'aqueles que te trouxeram', seriam condenados os inimigos de Israel à aniquilação." Disse-lhe Rashbi: "mas acaso não é assim que quem faz uma parceria com o Nome dos Céus e outra coisa é arrancado do mundo, como está dito: bilti laHashem levado 'somente ao Eterno sozinho'!?" — "Então o que nos ensina: asher he'alukha 'aqueles que te trouxeram'?" — "Ensina que desejaram muitas divindades." E veja acima §58.

קח) והנה כבר ביארנו כמה פעמים שדעת המקובלים החדשים שהזעיר אנפין הוא שנגלה על אבותינו בהר סיני ואמר אנכי ה' אלהיך, ואם כן איך הביאו רז"ל בשמות רבה פסוק אני ראשון ואני אחרון וכו' שאין לי אב, ולא בן ולא אח, על אנכי ה' אלהיך שאמרו המקובלים החדשים שהזעיר אנפין אמרו, ומה לו לאלהים העליון להשתבח בעצמו במקום זה תוך דברי הזעיר אנפין שיש לו אב ואם ובן ואחות? אלא ודאי שרז"ל בב"ר ובשמות רבה ודברים רבה, באו להעיר אותנו שלא נטעה באלו הדעות, ולבאר לנו, כי זה שאמר אנכי ה' אלהיך הוא שאמר אני ראשון שאין לי אב, ואני אחרון שאין לי בן, ומבלעדי אין לאהים שאין לי אח, הוא ה' אלהינו הסבה הראשונה הוא ולא אחר, והוא בכבודו ובעצמו מן השמים השמיענו את קולו, והזהרנו בדבור השני לא יהיה ל אלהים אחרים על פני וכו'! והוא שאמר ראו עתה כי אני אני הוא ואין אלהים עמדי! ודלא כדעת הזהר המסית דס"ל שהאלוה שאמר אני ראשון וכו' הוא האין סוף, ושאמר ראו עתה וכו' הוא אדם קדמון, ושאמר יהי אור וכו' הוא אבא שאמר לאימא, ושאמר נעשה אדם וכו' היא אימא שאמרה לאבא וכו' כדלעיל, ומכל מקום לא יחסו כל עבודותינו ותפלותינו וכל בקשותינו רק לקצר אפים (זעיר אנפין) ובצירוף פרצופים שלמעלה ממנו כמו שנת' לעיל ובקראינו אליו כאילו קראינו לאלהים עליון. כי האלהים העליון אין לו שם. ואם נקראיהו בשם יהוה לא יענה. כי לא נתיחסו שמות רק לפרצופים הנאצלים ונבראים ממנו. ושם יהוה ביחוד לפי דבריהם הוא האלוה קצר אפים דוקא. ועל האמונות הזרות האלה הרחוקות מדרכי תורתינו הקדושה וקבלת רז"ל קרא ירמיה הנביא ע"ה בדבר ה' לאמר (ירמיה ה') כחשו בה' ויאמרו לוא הוא, כחשו בה' הנאמר בו אלהים בצאתך לפני עמך בצעדך בישימון סלה ארץ ועשה אף שמים נטפו מפני אלהים זה סיני מפני אלהים אלהי ישראל, ונאמר ה' מסיני בא וזרח משעיר וכו'. ויאמר לא הוא, אלא הזעיר אנפין הוא שירד על הר סיני ובא להתחבר עם אשתו שכבר קדמה לו והוא ירד אחריה להתחבר ולהזדווג לה, לוא כתיב מלא וי"ו ואלף שחשבו מציאותו יתברך כאלו אינו, וגם קראהו אין, כלומר לא יש, ואמרו שהקורא אליו לא יענהו, כי הוא אין, לפי שידוע שאותיות השלילה והמניעה וההעדר אשר ישתמשו בהם הם לא ואין כמו שכתב הרמב"ם בספר המצות שורש ח', והערביים משתמשים להורות על השלילה וההעדר הנקרא בערבי נפי במלות לם, וליס, ולא, ומא, והמקובלים החדשים קראו לשי"ת אין שהוא לשון שלילה והעדר, ולכן אמרו שהוא יתברך אין לו שום שם ונקודה שהגבילהו כי אין הוא, וצירפו לפעמים גם מלת סוף, ואמרו אין סוף, והיא מליצה הדומה בעניינה לתרגום אין חקר לתבונתו, שתרגם יונתן בן עוזיאל לית סוף לסוכלתנותיה. והשמיטו מלת תבונתו שאמר הנביא ע"ה לבאר לנו שהיש המצוי הזה הוא ה' אלהינו אין חקר וסוף לתבונתו שהמציא כל נמצא בחכמה נפלאה. כמאמר דוד המלך ע"ה מה רבו מעשיך ה' כלם בחכמה עשית. שאינו ניכר אלא מתוך מעשיו. כמאמר הנביא שאו מרום עיניכם וראו מי ברא אלה וכו' וכן אמר דוד כי אראה שמיך מעשה אצבעותיך! וחשבו שכיון שאי אפשר להשיג מהותו והיאך הוא. אם כן אין הוא ח"ו! ולכן יחסו כל השמות הנזכרים בתורה ובנביאים ובלשון רז"ל הקב"ה או רבונו ש"ע הכל על הפרצופים שהמציאו בדמיונם שהם משתלשלים ונמשכים מהאין וקראון גופא דמלכא, ואלו הפרצופים הם עיקר האלהות, כי הם מושגים ומצויירים בשכל, אלא שהם אורות ואינם בעלי בשר ועצמות כמו שכ' הרמב"ם בפתיחת ספר המורה! ונתאוו לאלוהות הרבה כאבותינו אנשי דוד המדבר שאמרו אלה אלהיך ישראל כמאמר רשב"י ע"ה כדגרסינן בפרק ד' מיתות. אמר רב יהודה אלמלא וי"ו שבהעלוך נחייבו שונאיהם של ישראל כלייה. אמר לו רשב"י והלא כל המשתף שם שמים ודבר אחר נעקר מן העולם שנ' בלתו לה' לבדו אלא מה ת"ל אשר העלוך מלמד שאיוו לאלהות הרבה, ועיין לעיל סי' נ"ח.
Nota — "Ein Sof" como "Infinito", não como "Nada". A análise linguística de Qafih — que "Ein" em "Ein Sof" é uma palavra de negação e portanto os cabalistas estão chamando Deus de "Nada" — é tendenciosa em sua leitura. Na Cabalá luriânica e no Zohar, "Ein Sof" significa "sem fim" ou "infinito" — não "nada." O Rambam (Hilkhot Yesodei haTorah 1:7) também usa linguagem negativa sobre Deus (teologia apofática / Via Negativa) — dizendo que só podemos dizer o que Deus não é, nunca o que Deus positivamente é. Nesse sentido, "Ein Sof" não é "Deus não existe" — é "Deus é além de toda categorização positiva." O Ramchal (Derech Hashem I:1) explica: "Ele existe de maneira completamente diferente de qualquer coisa que possamos imaginar — Seu Ser é absoluto." A questão sobre o Shemot Rabá ("Eu não tenho pai, filho ou irmão") — aplicada a Ze'ir Anpin que tem pai (Abba), mãe (Ima) e esposa (Nukva) — é o mais forte argumento filológico do capítulo: como pode o Midrash aplicar essas palavras de absoluta unicidade ao Anochi se Ze'ir Anpin tem todas essas relações? Os cabalistas responderiam que as palavras do Midrash se referem ao Ein Sof verdadeiro que "falou" por meio de Ze'ir — como a luz do sol que atravessa um prisma não é o prisma.
§109 — O Shemá como união de cinco partzufim — e o retorno do instinto idulátrico

(109) E já que desejaram muitas divindades, estabeleceram e aceitaram que o Deus Supremo — chamado de "Nada de causas e princípios" (Ayin sibbot ve'ilalot) — fez muitas causas que cascateiam e fluem umas das outras; e cada uma delas é chamada pelo Nome YHVH ou Adonai ou Elohim, e "o Santo, bendito seja" e todos os nomes. E expuseram o versículo "qual é o Seu nome e qual é o nome do Seu filho, se sabes?" (Mishlei 30:4): "qual é o Seu nome? YHVH Tzvaot é o Seu nome — ou seja, Abba. E qual é o nome do Seu filho? Ze'ir Anpin é o Seu nome" etc. — como foi dito acima §26.

E toda a nossa adoração e nossas orações, segundo suas palavras, são a essas divindades que fluem do Deus Supremo que chamaram de "Nada" (Ayin) — pois o "Nada" não responde ao que clama a Ele; apenas os deuses inferiores respondem! Mas desde que direcionemos nossa oração ao deus de "ânimo curto" (Ze'ir Anpin) e incluamos em nosso pensamento os partzufim acima dele — nossa adoração a esse ser criado de "ânimo curto" será contada para nós como se adorássemos e clamássemos ao Deus Supremo — pois sua alma é "parte de D'us de cima."

E por isso o profeta Jeremias repreendeu Israel e disse: "desmentiram o Eterno" — Aquele que disse a Moisés: "Assim dirás aos filhos de Israel: YHVH, o D'us de vossos pais, o D'us de Abraão, o D'us de Isaque e o D'us de Jacó me enviou a vós — este é o Meu Nome para sempre, e esta é a Minha lembrança de geração em geração" (Shemot 3:15). "E disseram: não é Ele quem nos beneficia e cuida de nós — e não é a Ele que serviremos!" — mas sim ao de "ânimo curto": ele é quem cuida de nós, a ele clamamos, a ele servimos; ele é o Rei Santo louvado em todos os louvores — pois a ele foi dado poder e domínio por seu pai e sua mãe. E o Deus Supremo é o que "une, liga e conecta todas as divindades inferiores e seus partzufim para que sejam todos contados como um" — ainda que em verdade sejam separados. E quando clamamos a Ze'ir Anpin é como se clamássemos ao Deus Supremo — e por isso está escrito lo לו, "a ele" pleno com vav e alef: é lido como "a ele" (lo com vav = servir a Ze'ir em nome do Supremo) e como "não" (lo com alef = não é o Supremo que servimos) — não é a Ele que servimos, mas ao de "ânimo curto"; e lido com vav: que em nosso serviço a Ze'ir Anpin é como se a Ele servíssemos — pois essa é a vontade do Rei Superior: que sirvamos ao Rei Inferior (Ze'ir Anpin), a quem nomeou sob Ele para supervisionar as criaturas inferiores, e também para unir sua esposa com ele.

E ao dizermos Shemá Yisrael YHVH Eloheinu YHVH Echad — estamos, segundo suas palavras, unificando também Abba e Ima com ele: pois o primeiro YHVH é Abba; Eloheinu nosso D'us é Ima; YHVH o segundo é Ze'ir Anpin; Echad um é a Malkut — a guematria do alef-tet (9 Sefirot) e o dalet (4, abarcando tudo) para ser tudo um — o Rei Supremo (Abba e Ima) e o Rei Inferior (Ze'ir e Nukva): "para ligar este a este e que não se encontre separação — mas tudo um!" — como foi dito acima em §42.

Ai! Ai! E mais ai! — pelo deplorável estado da fé do povo que D'us escolheu, Israel Seu tesouro. E lhe deu uma Torá de verdade — o "selo do Santo, bendito seja" — que Moisés nosso Mestre, a paz sobre ele, recebeu no Sinai, escrita e oral; e ficou sobre ela quarenta dias e quarenta noites para aprender seus detalhes, seus sentidos e seus princípios; e a transmitiu a Josué etc. E os Homens da Grande Assembleia capturaram o instinto para a idolatria e o lançaram numa panela de chumbo e fecharam a sua boca com chumbo.

Agora a tampa de chumbo foi retirada da boca da ânfora pela mão do rei gentio — ao entregar o Livro do Zohar aos sábios de Toledo —, e Satan saiu e dançou entre nós, e foi a vazio todo o esforço dos Homens da Grande Assembleia que tanto trabalharam e se esgotaram. E clamaram diante do Santo, bendito seja, sobre o instinto idólatra — e dos céus os auxiliaram e foi entregue em suas mãos. E com grande sabedoria e espírito de discernimento anularam o instinto idólatra pelo meio do estudo da Torá e pela explicação dos que tornavam o povo entendedor da Torá em verdade e justiça — como está disposto diante de nós nos dois Talmuds e nos Midrashim verdadeiros. "E leram nele diante da praça pública, desde o amanhecer até o meio-dia, perante os homens e as mulheres que podiam entender" (Neemias 8:3). E "os levitas explicavam ao povo a Torá — e leram no Livro da Torá de D'us, claramente explicado, dando entendimento — e o povo entendeu o que era lido" (Neemias 8:8). E por meio da fixação do texto das preces e das bênçãos que estabeleceram para todo Israel. E por meio de seus esforços para formar muitos alunos — como está no primeiro capítulo de Avot! Por meio de tudo isso conseguiram arrancar o instinto idólatra — e devolveram a coroa à sua posição anterior — e o nome dos ídolos e todas as crenças falsas que levam à heresia foram apagados de Israel.

Como aprendemos em Yomá, capítulo "Ba Lo": os levitas se levantaram no estrado e clamaram em voz alta ao Eterno seu D'us (Neemias 9:4). O que disseram? Disse Rav Yehuda em nome de Rav (e alguns dizem: R. Yochanan): "Ai! Ai! É ele o instinto idólatra que destruiu o Templo e queimou o Santuário, e matou os justos e exilou Israel de sua terra — e ainda dança entre nós! Acaso nos deste-o apenas para receber recompensa por ele? Não queremos a ele, nem à sua recompensa!" Um bilhete do céu caiu com a palavra Emet Verdade escrita nele. Disse R. Chanina: aprende daí que o selo do Santo, bendito seja, é a Verdade. Jejuaram três dias e três noites — e foi entregue em suas mãos. Saiu como um filhote de leão de fogo do Santo dos Santos. O profeta disse a Israel: "este é o instinto idólatra." Enquanto o agarravam, um fio de cabelo escapou e ele emitiu um grito ouvido por quatrocentas parasangas. Disseram: o que faremos com ele? Talvez o céu tenha misericórdia dele. O profeta disse: lancem-no numa panela de chumbo e fechem a sua boca com chumbo — que absorve o som —, como está no versículo "esta é a Risha'á Maldade" e "lançou-a ao meio da ânfora, e lançou a pedra de chumbo sobre sua boca" (Zekharia 5:8). Disseram: já que é um momento favorável, pediremos misericórdia também sobre o instinto das transgressões sexual. Pediram misericórdia — e foi entregue em suas mãos. O profeta disse: "se matarem este, o mundo acabará." Prenderam-no por três dias. Quando foram buscar um ovo fresco de um dia para um doente em toda a terra de Israel — não foi encontrado pois o desejo dos galos também havia sido aprisionado!. Disseram: o que faremos? Se o matarmos, o mundo acaba. Pidamos misericórdia por metade. Pediram pelo meio — os céus não lhes deram metade. Encegueceram seus olhos e o soltaram — e isso ajudou, que já não incita um homem em relação a suas parentes." E veja o Etz Yosef comentário, e o Anaf que escreveu que este ensino é muito admirável: o que estava fazendo o instinto idólatra no Santo dos Santos? etc.

קט) וכיון שאיוו לאלוהות הרבה קיימו וקיבלו שהמציא האלוה העליון הנקרא אין סיבות ועילות רבים המשלתשלים ונשפעים זה מזה, וכל אחד מהם נקרא בשם הוי'ה או אדנות או אלהים והקב"ה וכל השמות, ודרשו את הכתוב מה שמו ומה שם בנו כי תדע, מה שמו ה' צבאות שמו, (פי' אבא) ומה שם בנו, זעיר אנפין שמו וכו' כדלעיל סי' כ"ו. וכל עבודתינו ותפלותינו לפי דבריהם אל האלהות האלו הנמשכים מהאלוה העליון שקראוהו אין, כי האין לא יענה את הקורא אליו, כי אם האלהים התחתונים המה יענו, ובלבד שניחד תפלתינו אל האלוה קצר האפים (ז"א) ונשתף במחשבתינו גם פרצופים שלמעלה ממנו. יוחשב לנו עבודת קצר האפים הנברא הזה כאלו אנחנו עובדים וקורים אל האלוה העליון, כי נשמתו היא חלק אלוה ממעל. ולכן הוכיח ירמיה הנביא את ישראל ואמר כחשו בה' שאמר למשה כה תאמר אל בני ישראל יהוה אלהי אבותיכם אלהי אברהם, אלהי יצחק ואלהי יעקב שלחני אליכם זה שמי לעולם וזה זכרי לדר דר. ויאמרו לא הוא המטיב ומשגיח עלינו, ולא אותו נעבוד אלא קצר האפים הוא המשגיח עלינו, ואליו נקרא ואותו נעבוד, והוא המלך הקדוש המהולל בכל התשבחות, כי לו ניתן הכח והממשלה מאביו ואמו, ושהאלהים העליון הוא המאחד ומדבק ומקשר את כל האלהות התחתונים ופרצופיהם להיות כולם נחשבים אחד, אע"פ שהם באמת חלוקים. ובקראינו אל הזעיר אנפין כאלו קראנו אל האלהים העליון, ולכך כתיב לוא מלא וא"ו ואלף קרי ביה לו, וקרי ביה לא, לא אותו נעבוד, כי אם את קצר האפים, וקרי ביה לו בוא"ו כי בעבודתינו לז"א כאלו לו אנחנו עובדים, כי זהו רצונו של מלך העליון שנעבוד את המלך התחתון (זעיר אנפין) שמינהו תחתיו והשליטו על כל הברואים התחתונים וגם ליחד אשתו עמו. ובאמרינו שמע ישראל ה' אלהינו ה' אחד אנו מיחדים לפי דבריהם גם את אבא ואימא עמו כי ה' הראשון הוא אבא, אלהינו אימא, ה' דא זעיר אנפין, אחד דא מלכות, גי א"ת ט' ספירות, ודל"ת כולל הכל להיות אחד, ובכוונה זאת אנו מאחדים ואוגדים את כולם להיות אחד, מלכא עלאה אבא ואימא, ומלכא תתהה זעיר ונוקביה, לקשרא דא בדא ולא ישתכח פירודא אלא כלא חד כדלעיל סי' מ"ב. הה! אוי! ואבוי! על רוע מצב אמונת העם אשר בחר לו יה ישראל לסגולתו. ונתן לנו תורת אמת. היא חותמו של הקב"ה אשר קבל משה רבינו עליו השלום בסיני בכתב ובעל פה. ועמד עליה מ' יום וארבעים לילה ללמוד דקדוקיה וטעמיה וכללותיה, ומסרה ליהושע וכו', ואנשי כנסת הגדולה תפסו ליצרא דע"ז ושדויה בדודא דאברא וחפיוה לפומיה באברא. הן עתה הוסר כסוי העופרת מעל פי האיפה על יד המלך העכו"ם במסרו את בפר הזהר לחכמי טוליטולה, יוצא השטן וישב וירקד בנינו, ויהי לריק כל יגיעם של אנשי כנסת הגדולה אשר טרחו ויגעו. וצעקו לפני השי"ת על יצרא דע"ז. ומן השמיים סייעו אותם ונמסר בידם. ורוב חכמתם ורוח בינתם ביטלו יצרא דע"ז על ידי עסק התורה וביאור המבינים לעם בה על פי האמת והצדק כמו שהוא ערוך לפנינו בב' התלמודים ובמדרשים האמתיים. שג' ויקראו בו לפני הרחוב מאור הבקר עד מחצית היום נגד האנשים והנשים המבינים. ונאמר הלוים מבינים את העם לתורה ויקראו בס' בתורת האלהים מפורש ושום שכל ויבינו במקרא. ועל ידי תקון נוסח התפלות והברכות אשר תקנו לכל ישראל. ועל ידי השתדלותם להעמיד תלמידים הרבה כדאיתא בפרקא קמא דאבות! על ידי כל אלה עלתה בידם לעקור יצרא דע"ז, והחזירו עטרה לישנה, ונמחה שם האלילים וכל האמונות הכוזבות המביאות לידי מינות מישראל, כדגרסינן ביומא פרק בא לו, ויקם על מעלה הלוים ישוע ובני וקדמיאל שבניה בני שרביה בני כנני ויזעקו בקול גדול אל ה' אלהיהם, מאי אמור אמר רב יהודה אמר רב ואי תימא ר' יוחנן בייא בייא היינו האיי דאחרביה לבי מקדשא וקלייה להיכלא וקטלניהו לצדיקיא ואגלינהו לישראל מארעהון ועדיין מרקיד בינא, כלום יהבתיה ניהלן אלא לקבולי ביה אגרא. לא איהו בעינן ולא אגריה, בעינן, נפל להו פתקא מרקיעא דכתיב ביה אמת. אמר רבי חנינה שמע מינה חותמו של הקב"ה אמת, יתיבו בתעניתא תלתה יומין ותלתא לילי מסריה ניהלינו נפק אתא כי גוריא דנורא מבית קדש הקדשים. אמרו להו נביא לישראל היינו הוא יצרא דע"ז שנאמר ויאמר זאת הרשעה וגומר בהדי דתפסי ליה, אשתמיט ביניתא ממזיה ורמא קלא, אזל קליה ארבע מאה פרסי אמר היכי נעביד ליה, דלמא מרחמי עליה מן שמיא. אמר להו נביא שדויה בדורא דאברא והפויה לפומא באברא דשאיב קלא, שנאמר זאת הרשעה וישלך אותה אל תוך האיפה וישלך את אבן העופרת אל פיה. אמרי הואיל ועת רצון היא, נבעי רחמי על יצרא דעבירה. בעו רחמי ואמסר בידיהו, אמר להו נביא הזו ודאי קטלתון לההוא כליא עלמא, חבשוה תלתא יומי. איבעי ביעתא בת יומא לחולה בכל ארץ ישראל ולא אשתכח. אמרי היכי נעביד, ניקטליה איחרב כולי עלמא, נבעי רחמי לפלגא, פלגא מרקיעא לא יהבי. כחלינהו לעיניה ושבקוה, ואהני דלא תגרי ביה באיניש בקרובתא ע"כ. ועיין עץ יוסף, ובענף שכתב שהמאמר תמוה הוא מאד, ויצרא דע"ז בבית קדש הקדשים מאי עבידתיה? וכו'.
Nota — o Shemá cabalístico e a passagem de Yomá sobre a idolatria. A descrição de Qafih do Shemá como "união de cinco partzufim" (YHVH = Abba; Eloheinu = Ima; YHVH = Ze'ir; Echad = Nukva) é uma descrição tecnicamente precisa da kavana (intenção) luriânica durante o Shemá — conforme descrita no Sha'ar haKavanot do Ari. O Ari entendia que essa kavana não substitui a declaração de monoteísmo mas a aprofunda: ao dizer "YHVH Echad" (D'us é Um), estamos declarando que toda a realidade é uma unidade em Deus — mesmo as distinções dentro do sistema sefirótico. O Baal haTanya (Likutei Amarim, cap. 18) e o Ramchal (Klalei Pitchei Chokhmah) explicam: os partzufim não são "múltiplos deuses" — são como múltiplos nós de uma mesma corda; o "Echad" do Shemá afirma que a corda é uma. A passagem de Yomá sobre os Homens da Grande Assembléia capturando o "instinto idulátrico" e lançando-o numa panela de chumbo é uma das narrativas mais fascinantes do Talmude. Qafih a aplica com criatividade: a "tampa de chumbo" = a supression do pensamento politeísta no período do Segundo Templo; o "rei gentío que revelou o Zohar a Toledo" = a remoção da tampa. A analogia implica que o Zohar é o equivalente da "panela aberta" por onde o instinto politeísta saiu de novo.

Sobre este capítulo · עיון

O "Ein Sof": Infinito ou Nada?

A análise linguística de Qafih sobre "Ein Sof" é a mais detalhada do livro. Ele está correto que "Ein" é a palavra hebraica de negação — "Ein lo avi" = "ele não tem pai." Mas "Ein Sof" como compound significa "sem fim" ou "infinito" — é a frase da profecia de Yeshayahu 40:28 ("nenhum limite à Sua compreensão") adaptada para descrever o próprio Ser divino. Os cabalistas não estão dizendo que D'us "não existe" — estão dizendo que Sua existência transcende toda concepção positiva, num movimento apofático que o próprio Rambam (Moreh I:58) apóia: "negar predicados de Deus é mais verdadeiro do que afirmá-los." O Rambam diz que só podemos dizer que Deus "existe" no sentido em que a existência de Deus não é como a existência dos seres criados — portanto, em certo sentido, Deus também "não existe" como existem as criaturas. A diferença é que para Qafih, a apofase cabalídstica serve para deslocar a adoração para os partzufim — enquanto para o Rambam, a apofase serve para purificar a concepção de Deus.

Os Sábios citados pelo próprio Rashbi: "desejaram muitas divindades"

Um dos argumentos mais poderosos de §108 é que o próprio Rashbi — a quem o Zohar é atribuído — diz no Talmude (Arba Mitot): "quem faz parceria do Nome dos Céus com outra coisa será arrancado do mundo." E o versículo "asher he'alukha" ensina que os israelitas "desejaram muitas divindades" — não que as adoraram de fato. Qafih usa Rashbi contra o Zohar: o próprio taná diz que mesmo "desejar" múltiplas divindades é problemático — e o Zohar (atribuído a Rashbi) faz exatamente isso ao multiplicar os partzufim com nomes e funções distintos. Os cabalistas responderiam: o "parceiro" proibido de Rashbi são divindades independentes — os partzufim não têm existência independente do Ein Sof.

O Shemá e a intenção luriânica

A descrição cabalídstica do Shemá que Qafih cita — "YHVH = Abba; Eloheinu = Ima; YHVH = Ze'ir; Echad = Nukva" — vem diretamente do Sha'ar haKavanot do Ari (Inyan Kriat Shemá). Para o Ari, essa kavana não é a definição do Shemá — é uma camada adicional de intenção místi-ca. O Shemá como declaração de monoteísmo permanece central; a kavana luriânica adiciona uma dimensão de "unificação" dos aspectos divinos. Para Qafih, no entanto, isso transforma o Shemá — a declaração mais fundamental do monoteísmo judaico — em uma declaração poli-teísta velada. A tensão é real e foi debatida internamente: o Rambam teria dito que toda intenção durante o Shemá deve se concentrar na afirmação de que D'us é absolutamente simples e uno — sem qualquer composição ou multiplici-dade.

A panela de chumbo e a metáfora da Cabalá como "tampa retirada"

O final de §109 usa a passagem de Yomá 69b com uma aplicação original. Os Homens da Grande Assembléia capturaram o instinto idulátrico (personificado como um leão de fogo saindo do Templo) e o encegueceram — e desde então Israel não é mais atráído pela idolatria cru. Qafih aplica a metáfora: a "tampa de chumbo" era o estudo do Talmude e da Mishná que mantinha esse instinto adormecido; o "rei gentío" que entregou o Zohar aos sábios de Toledo abriu a tampa. A elegância da metáfora está em que ela usa o Talmude para criticar o Zohar — os Sábios como protetores, o Zohar como a abertura da caixa. Mas é preciso notar que a passagem de Yomá original não faz essa aplicação — ela descreve a anulação do desejo de idolatria litão-teralmente pagã (adorar estátuas). A aplicação ao Zohar é inteiramente de Qafih.