Quem lê a Torá com atenção depara-se com um aparente paradoxo. De um lado, ela proclama um D'us único, sem forma, que não se pode ver nem imaginar. De outro, fala d'Ele o tempo todo em termos humaníssimos: a "mão forte" de D'us, os Seus "olhos" que percorrem a terra, o Seu "rosto" que se ilumina, a Sua "ira" que se acende, o Seu "arrependimento", o Seu "descer" ao Sinai. Como conciliar as duas coisas? A resposta da tradição racionalista — de Saadia Gaon a Maimônides, passando pelo Targum de Onkelos — é um dos princípios mais importantes para ler bem a Torá.
O problema: um D'us com mãos e ira?
Se levássemos cada uma dessas expressões ao pé da letra, teríamos um D'us com corpo, membros e paixões — exatamente o que a própria Torá proíbe imaginar. Pois é a Torá quem adverte, no momento mais solene:
E é a Torá, pela boca dos profetas, quem insiste: "a quem, pois, comparareis D'us? que semelhança lhe apontareis?" (Yeshayahu 40:18); e "Eu, o Senhor, não mudo" (Malachi 3:6). Um corpo tem forma, ocupa lugar, divide-se em partes; as paixões mudam quem as sente. Atribuir tudo isso a D'us seria contradizer o fundamento da fé — e, no limite, abrir a porta à idolatria, que sempre começa por imaginar o divino à imagem do humano.
A chave: "a Torá fala na língua dos homens"
A solução dos Sábios é uma frase que se tornou regra de leitura:
O sentido é este: a Torá foi dada a todos — sábios e simples, crianças e anciãos — e por isso veste as suas verdades mais altas em imagens tangíveis, que qualquer mente alcança. Dizer "a mão forte do Senhor" comunica o Seu poder a quem jamais entenderia uma definição abstrata de "potência infinita". A imagem é uma ponte: leva o ouvinte do que ele conhece (mãos, olhos, braços) ao que não consegue conceber (um agir sem corpo).
Por isso o Targum de Onkelos — a tradução aramaica clássica, lida ao lado da Torá há quase dois mil anos — desfaz sistematicamente os antropomorfismos: onde o texto diz "a mão de D'us", Onkelos verte "a força que vem de diante de D'us"; onde diz "D'us desceu", verte "D'us revelou-Se". E Maimônides abre o seu Guia dos Perplexos justamente com um longo "dicionário": capítulo após capítulo mostrando que "mão", "pé", "olho", "descer", "sentar-se", ditos de D'us, são sempre figurados. Saadia Gaon faz o mesmo no Emunot veDeot. Não é uma leitura forçada nem moderna — é a leitura da própria tradição.
Atenção a um limite importante: este princípio não é um passe livre para reinterpretar à vontade o que nos desagrada na Torá. Ele se aplica onde a razão exige a leitura figurada — e a razão exige, porque um D'us corpóreo ou mutável é uma impossibilidade. Maimônides é claro: lê-se figuradamente o que não pode ser literal (D'us tem corpo? impossível), não o que simplesmente preferiríamos que fosse diferente. A chave abre uma porta precisa, não todas as portas.
Emoções não são "acidentes" em D'us
O caso mais delicado são as emoções: a Torá fala da "ira", da "compaixão", do "ciúme", do "arrependimento" de D'us. Aqui a tradição racionalista é firme: essas palavras descrevem o que D'us faz, não um estado que Ele sente. São, na expressão de Saadia, "nomes de ação". Quando se diz que D'us "Se irou", quer-se dizer que Ele agiu como age um rei justo diante do mal; quando "Se arrependeu", que mudou o Seu agir para com o homem — não que uma paixão O tenha comovido por dentro. Pois em D'us não há mudança nem "acidentes": Ele é perfeito e imutável.
O próprio versículo nos dá a régua: quando lermos, noutro lugar, que D'us "Se arrependeu" (como em Bereshit 6:6), saberemos que não é um arrependimento à maneira humana — porque a Torá mesma declara que "D'us não é homem… para que Se arrependa". Uma passagem ilumina a outra: a regra geral (D'us é imutável) ensina como ler a imagem particular (o "arrependimento").
Por que, então, usar essas imagens?
Se tudo isso é figurado, por que a Torá não fala "diretamente", em termos abstratos? Porque a verdade abstrata, dita a frio, não toca o coração nem alcança a maioria. "O braço estendido de D'us" move um povo de escravos como nenhuma proposição filosófica moveria; "D'us tem compaixão de vós como um pai tem do filho" (cf. Tehillim 103:13) ensina sobre a providência divina de um modo que entra na alma. A imagem é uma escada: o sábio sobe por ela e segue além, até o sentido; o simples fica firme num degrau seguro. O erro — o único erro — é confundir a escada com o alto, tomar a imagem pela realidade.
E é exatamente aí que mora o perigo contra o qual a Torá tanto adverte. Toda idolatria nasce de literalizar o divino: de fazer do "rosto" de D'us uma face, da Sua "força" um braço, e por fim uma estátua. Ler a Torá "na língua dos homens" — sabendo que é língua dos homens — é o antídoto: preserva a ousadia poética do texto e a pureza da ideia de D'us. Recusar o princípio, e literalizar, é trair as duas.
Assim, ler bem a Torá não é nem achatá-la (despindo-a das suas imagens vivas, como se fossem um defeito) nem rebaixá-la (lendo as imagens como descrições literais de um D'us-corpo). É reconhecer que a Torá fala na língua dos homens para que os homens se elevem à língua da verdade — do D'us que não tem mão, mas tudo faz; que não tem olhos, mas tudo vê; que não muda, e por isso é a rocha sobre a qual tudo se firma.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha de Saadia Gaon e do Rambam (Maimônides). As fontes clássicas são citadas ao longo do texto: a Torá (Devarim 4:15; Bamidbar 23:19; Bereshit 6:6) e os Profetas/Escritos (Yeshayahu 40:18; Malachi 3:6; Tehillim 103:13); o princípio "a Torá falou na língua dos homens" é talmúdico (Berachot 31b); a leitura figurada dos antropomorfismos segue o Targum de Onkelos, o Guia dos Perplexos (Parte I) do Rambam e o Sefer haEmunot vehaDeot (Tratado II) de Saadia Gaon. A redação é original.