Talmud Yerushalmi · Massechet Sheviit · Perek Tet · Halachá 1 (abertura do capítulo)
הַפִּיגָם וְהָרִיבוֹזִין

Ervas silvestres isentas dos dízimos, e a caverna de Rabi Shimon bar Yochai

Perek Tet, Halachá 1 — abertura do capítulo, no Talmud Yerushalmi, Massechet Sheviit

Primeira halachá do Perek Tet de Massechet Sheviit — capítulo com seis halachot no total. A Mishná ensina que a ruta, o amaranto selvagem, a beldroega, o coentro-da-montanha, o aipo dos rios e a rúcula selvagem são isentos dos dízimos e podem ser comprados de qualquer pessoa no sétimo ano, pois não há semelhante a eles que seja guardado (por não serem cultivados comercialmente, o dinheiro pago por eles não adquire a santidade do sétimo ano). Rabi Yehuda diz que os brotos espontâneos (sfichin) de mostarda são permitidos, porque os transgressores não são suspeitos quanto a eles; Rabi Shimon diz que todos os brotos espontâneos são permitidos, exceto os de repolho, porque não há semelhante a eles entre as verduras do campo; e os sábios dizem que todos os brotos espontâneos são proibidos. A guemará traz a história de Rabi Chaggai e dos colegas que não sabiam o significado de certos termos e foram perguntar à casa de Rabi, sendo instruídos por uma serva a entrar de dois em dois, com o episódio da beldroega espalhada; identifica o aipo dos rios como petrosselinon (salsa); explica por que a sia, o ezov e a kornit não foram ensinados junto com essas ervas; discute se elas são proibidas como brotos espontâneos, com a prova trazida da mostarda de Rabi Yehuda, e a pergunta sobre a verdura e a semente. Traz o episódio de Reish Lakish em Chikok sobre a mostarda espontânea, e a longa disputa entre Rabi Yochanan e Rabi Chanina sobre os restos de pavio, fogueira e azeite apagados no Shabat, se podem ser acesos no Yom Tov, comparada à disputa sobre o eruv comido no primeiro dia e à pergunta de Rav Chisda sobre o método de Rav. Explica por que o repolho é proibido, por costumar crescer de touceiras-mãe; trata do luf e do kinaris (alcachofra), que não se é obrigado a arrancar no sétimo ano; traz o episódio de Rabi Shimon ben Yochai e o homem que colhia brotos espontâneos, mordido por uma serpente por ter "rompido a cerca"; e fecha com a célebre história de Rabi Shimon bar Yochai, escondido treze anos numa caverna de alfarrobeiras, e a purificação de Tiveria — história que tem paralelo genuíno no Talmud Bavli, Massechet Shabat 33b–34a, já traduzido nesta trilha.

Perek Tetפֶּרֶק תְּשִׁיעִי

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַפִּיגָם וְהָרִיבוֹזִין הַשּׁוֹטִין וְהַחֲלוֹגְלוּגוֹת כּוּסְבָּר שֶבְּהָרִים וְכַרַפְסְ שֶׁבַּנְּהָרוֹת וְגַרְגִּר שֶׁבַּנְּהָרוֹת שֶׁל אֶפֶר פְּטוּרִין מִן הַמַּעְשְׂרוֹת וְנִלְקָחִין מִכָּל אָדָם בַּשְּׁבִיעִית שֶׁאֵין כְּיוֹצֵא בָהֶן נִשְׁמָר. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר סְפִיחֵי חַרְדָּל מוּתָּרִין שֶׁלֹּא נֶחְשְׁדוּ עֲלֵיהֶן עוֹבְרֵי עֲבֵירָה. רִבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר כָּל הַסְּפִיחִין מוּתָּרִין חוּץ מִסְּפִיחֵי כְּרוּב שֶׁאֵין כְּיוֹצֵא בָהֶן בְּיַרְקוֹת שָׂדֶה וַחֲכָמִים אוֹמְרִים כָּל הַסְּפִיחִין אֲסוּרִין.

Mishná: A ruta (arruda), o amaranto selvagem, a beldroega, o coentro-da-montanha, o aipo dos rios e a rúcula selvagem dos rios são isentos dos dízimos e podem ser comprados de qualquer pessoa no sétimo ano, pois não há semelhante a eles que seja guardado (essas ervas não costumam ser cultivadas de modo guardado e vigiado, por isso o dinheiro pago por elas não adquire a santidade do sétimo ano, ainda que quem as venda não seja de confiança quanto às leis do sétimo ano). Rabi Yehuda diz: os brotos espontâneos (sfichin, que crescem sozinhos a partir de sementes caídas no ano anterior, sem terem sido semeados de propósito) de mostarda são permitidos, porque os transgressores não são suspeitos quanto a eles (não se costuma vender mostarda cultivada de propósito no sétimo ano, fingindo que é espontânea). Rabi Shimon diz: todos os brotos espontâneos são permitidos, exceto os brotos espontâneos de repolho, porque não há semelhante a eles entre as verduras do campo (o repolho não cresce silvestre, por isso todo repolho encontrado é suspeito de ter sido semeado de propósito no sétimo ano). E os sábios dizem: todos os brotos espontâneos são proibidos.

A Halachá · הֲלָכָה א

01Rabi Chaggai e os colegas que não sabiam o significado de certos termos: a serva da casa de Rabi
Yerushalmi · Sheviit 9:1
הַפִּיגָם וְהָרִיבוֹזִין וכו׳. אָמַר רִבִּי חַגַּיי סֵירוּגִין וַחֲלוֹגְלוּגוֹת וּמִי גָדוֹל בְּחָכְמָה וּבְשָׁנִים אַצְרַכְתְּ לַחֲבֵרַיָיא. אָמְרִין נִיסּוּק וְנִשְׁאַל לְאִילֵּין דִּבְבֵית רִבִּי. סָלְקוּן מִישְׁאוֹל וְיָצָאת שִׁפְחָה מִשֶּׁל בֵית רִבִּי וְאָמְרָה לָהֶן הִיכָּנְסוּ לִשְׁנַיִם. אָמְרִין יֵיעוֹל פַּלָּן קֳדָמַאי יֵיעוֹל פַּלָּן קֳדָמַאי שׁוֹרוּן עָלְלִין קְטָעִין קְטָעִין. אָמְרָה לָהֶן מִפְּנֵי מַה אַתֶּם נִכְנָסִין סֵירוּגִין סֵירוּגִין. חַד רִבִּי הֲוָה טְעִין פַּרְפָּחִינַיָּה בְגוֹלְתֵיהּ וְנָפלוּן מִינֵּיהּ. אָמְרָה לֵיהּ רִבִּי רִבִּי נִתְפָּזְרוּ חֲלוֹגְלֹגוֹתֶיךָ.

Halachá: "A ruta, o amaranto selvagem" etc. Disse Rabi Chaggai: quanto a sirugin e chalogluyot, e a "quem é maior — em sabedoria ou em anos" (termos e uma questão que apareciam noutra mishná e cujo sentido os colegas desconheciam), precisou-se recorrer aos companheiros (para esclarecer). Disseram: subamos e perguntemos àqueles da casa de Rabi (Yehuda HaNassi, cuja casa observava um hebraico cuidadoso). Subiram para perguntar, e saiu uma serva da casa de Rabi e disse-lhes: entrai de dois em dois. Disseram, cada um: que fulano entre antes de mim, que fulano entre antes de mim (por deferência mútua) — e ficaram entrando intermitentemente, um de cada vez. Disse-lhes ela: por que entrais intermitentemente (sirugin sirugin — usando ela mesma o termo que buscavam)? Um dos rabis estava carregando beldroegas em seu manto, e caíram dele. Disse-lhe ela: rabi, rabi, espalharam-se tuas beldroegas (chalogluyot — o segundo termo buscado, também esclarecido pela fala espontânea da serva).

02O que é o aipo dos rios: petrosselinon
Yerushalmi · Sheviit 9:1
מַהוּ כַּרַפְס שֶׁבַּנְּהָרוֹת. רִבִּי יוֹסָי בַּר חֲנִינָה אָמַר פֵּיטְרוֹסֵילִינוֹן.

Halachá: O que é o "aipo dos rios"? Disse Rabi Yosei bar Chanina: petrosselinon (salsa, do grego).

03Por que a sia, o ezov e a kornit não foram ensinados junto com essas ervas
Yerushalmi · Sheviit 9:1
וְלָמָּה לֹא תַנִּינָן הַסִּיאָה וְהָאֵזוֹב וְהַקּוֹרְנִית עִמְּהוֹן שֶׁלֹּא תֹאמַר אֵילּוּ נִשְׁמָרִין בֶּחָצֵר וְחַיָיבִין. וְאֵילּוּ נִשְׁמָרִין בֶּחָצֵר וּפְטוּרִין. אֶלָּא אֵילּוּ וְאֵילּוּ אִם הָיוּ נִשְׁמָרִין בֶּחָצֵר חַיָיבִין. אֵילּוּ נִשְׁמָרִין בְּגִינָּה וְחַיָיבִין. וְאֵילּוּ נִשְׁמָרִין בְּגִינָּה וּפְטוּרִין. אֶלָּא אֵילּוּ וְאֵילּוּ אִם נִשְׁמָרִין בֶּגִינָּה פְּטוּרִין. וְלָמָּה לֹא תַנִּינָן אֶלָּא אִילֵּין הוּא שֶׁלֹּא תֹאמַר הוֹאִיל וְרוֹב הַמִּינִין הַלָּלוּ נִזְרָעִין וּבָאִין מִן הָאָסוּר יְהוּ אֲסוּרִין לְפוּם כֵּן צָרַךְ מֵימַר מוּתָּרִין.

Halachá: E por que não ensinamos a sia, o ezov e a kornit junto com elas (as ervas da Mishná — já que também aparecem juntas em Sheviit 8:1)? Para que não digas: estas, se guardadas no pátio, ficam obrigadas (aos dízimos e à santidade do sétimo ano), e aquelas, se guardadas no pátio, ficam isentas — mas estas e aquelas, se guardadas no pátio, ficam obrigadas; estas, se guardadas na horta, ficam obrigadas, e aquelas, se guardadas na horta, ficam isentas — mas estas e aquelas, se guardadas na horta, ficam isentas! Por que então ensinamos apenas estas (e não a sia, o ezov e a kornit, já que o estatuto de ambos os grupos é idêntico quanto ao pátio e à horta)? Para que não digas: visto que a maioria dessas espécies (as da Mishná aqui) é semeada e provém de cultivo proibido (pois em geral se cultivam essas ervas de propósito), que sejam proibidas — por isso foi necessário dizer que são permitidas.

04Estão essas ervas proibidas como brotos espontâneos? A prova trazida da mostarda de Rabi Yehuda
Yerushalmi · Sheviit 9:1
מַהוּ שֶׁיְּהוּ אֲסוּרִין מִשּׁוּם סְפִחִין נִישְׁמְעִינָהּ מִן הָדָא. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר סְפֵחֵי חַרְדָּל מוּתָּרִין שֶׁלֹּא נֶחְשְׁדוּ עֲלֵיהֶן עוֹבְרֵי עֲבֵירָה. לֹא אָמְרוּ אֶלָּא שֶׁלֹּא נֶחְשְׁדוּ עֲלֵיהֶן עוֹבְרֵי עֲבֵירָה וְאֵלּוּ הוֹאִיל וְלֹא נֶחְשְׁדוּ עֲלֵיהֶן עוֹבְרֵי עֲבֵירָה יְהוּ מוּתָּרִין.

Halachá: Qual é o estatuto delas, para que sejam proibidas por serem brotos espontâneos (sfichin, já que as ervas da Mishná também podem crescer de sementes espontâneas)? Ouçamos disto: "Rabi Yehuda diz: os brotos espontâneos de mostarda são permitidos, porque os transgressores não são suspeitos quanto a eles." Não disseram senão que "os transgressores não são suspeitos quanto a eles" — e estas (as ervas da Mishná), visto que os transgressores não são suspeitos quanto a elas, hão de ser permitidas.

05Sua verdura e sua semente
Yerushalmi · Sheviit 9:1
עַד כְּדוֹן יַרְקוֹ זַרְעוֹ אֵיפְשַׁר מֵימַר זַרְעוֹ מוּתָּר יַרְקוֹ לֹא כָּל שֶׁכֵּן.

Halachá: Até aqui (falamos) de sua verdura (da mostarda) e de sua semente (quanto a Rabi Yehuda, que permite os brotos espontâneos de mostarda) — é possível dizer que, se sua semente é permitida, sua verdura não seria tanto mais razoável que fosse permitida?

06Reish Lakish em Chikok e a mostarda espontânea
Yerushalmi · Sheviit 9:1
רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ הֲוָה בְחִיקוֹק חָמְתוֹן מְגַלְגְּלִין בְּהָדֵין חַרְדְּלָא נְפַל מִינֵיהּ וְהוּא לָא נְסַב לֵיהּ. אֲמַר מָאן דְּמַיְיתֵי לִי חַרְדְּלָא אֲנָא מוֹרֵי כְרִבִּי יוּדָה. אָמַר רִבִּי בָּא בַּר זַבְדָּא הוֹרֵי רִבִּי חוֹנִיָּא דְמִן חַוְורָן בְּבֵית חַוְורָן כְּהָדָה דְרִבִּי יוּדָה. עָאַל רִבִּי יוֹחָנָן וְדָרַשׁ לוֹן כְּרַבָּנִין דְהָכָא וּכְרַבָּנִין דְּתַמָּן.

Halachá: Reish Lakish (Rabi Shimon ben Lakish) estava em Chikok. Viu que manipulavam essa mostarda (espontânea); caiu uma dela, e ele (um homem do lugar) não a pegou (por considerá-la proibida, seguindo a opinião dos sábios). Disse Reish Lakish: quem me trouxer mostarda, eu decidirei conforme Rabi Yehuda (que a permite). Disse Rabi Aba bar Zavda: Rabi Chonya de Chavran decidiu em Bet Chavran conforme Rabi Yehuda. Entrou Rabi Yochanan e ensinou-lhes conforme os sábios daqui e conforme os sábios de lá (reconhecendo que em cada lugar prevalecia um costume diferente).

07Por que Rabi Yochanan desceu de Tzipori a Tiveria: os restos de pavio, fogueira e azeite
Yerushalmi · Sheviit 9:1
רִבִּי אַבָּא בַּר זְמִינָא בְשֵׁם רִבִּי יַצְחָק מִן קוֹמוֹי אִילֵּין תַּרְתֵּין מִילַּיָיא נְחַת לֵיהּ רִבִּי יוֹחָנָן מִצִּיפּוֹרִין לְטִיבֵּרִיָּא. אָמַר מַה אֲתִיתוֹן לִי הָדֵין דַּיָינָא סַבָּא דְּאִי אֲנָא שָׁרֵי וְהוּא אָסַר אֲנָא אָסַר וְהוּא שָׁרֵי. אָמַר רִבִּי וָוא אֲתָא עוֹבְדָּא קוֹמֵי רִבִּי יָסָא וּבְעָא מֵיעֲבָד כְּרִבִּי יוֹחָנָן כַּד שָמַע דְּרַב וְרִבִּי חֲנִינָא מִתְפַּלְּגִין שְׁרַע מִינֵּהּ. דְּאִיתְפַּלְּגוּן שְׁיֵרֵי פְתִילָה שְׁיֵרֵי מְדוּרָה שְׁיֵרֵי שֶׁמֶן שֶׁכָּבוּ בְשַׁבָּת מַהוּ לְהַדְלִיקָן בְּיוֹם טוֹב. רַב וְרִבִּי חֲנִינָה תְּרֵיהוֹן אָמְרִין אָסוּר. וְרִבִּי יוֹחָנָן אָמַר מוּתָּר. אָמַר רִבִּי יוּדָן קוֹמֵי רִבִּי מָנָא מַפְכָּא לָהּ גַּבֵּי בֵּיצָה אָמַר לֵיהּ מִן מָה דַאֲנָן חָמֵיי רַבָּנִין מְדַמֵּיי לָהּ הָדָא אָמְרָה הִיא הָדָא הִיא הָדָא.

Halachá: Rabi Aba bar Zemina, em nome de Rabi Yitzchak: por causa destas duas coisas (o caso da mostarda e outro que se segue), Rabi Yochanan desceu de Tzipori para Tiveria. Disse: por que me trouxestes este juiz idoso (Rabi Chanina, referido com ironia ou respeito irônico), que, se eu permito, ele proíbe, e se eu proíbo, ele permite? Disse Rabi Va: chegou um caso diante de Rabi Yasa, e ele quis proceder conforme Rabi Yochanan; mas quando ouviu que Rav e Rabi Chanina discordavam (de Rabi Yochanan), absteve-se (de decidir). Pois discordaram sobre isto: os restos de um pavio, os restos de uma fogueira, os restos de azeite que se apagaram no Shabat — qual é seu estatuto, para acendê-los no Yom Tov (quando este cai no domingo)? Rav e Rabi Chanina, ambos dizem: é proibido. E Rabi Yochanan diz: é permitido. Disse Rabi Yudan diante de Rabi Mana: é invertido, em relação ao ovo (posto no mundo, comparando com a disputa sobre o ovo posto no Yom Tov, na Mishná de Beitzá 1:1)? Disse-lhe: pelo que vemos os sábios compararem, isso quer dizer que isto é como aquilo, isto é como aquilo (a mesma lógica rege ambos os casos).

08Em nome de quatro anciãos: o eruv comido no primeiro dia, e a pergunta de Rav Chisda
Yerushalmi · Sheviit 9:1
מִשּׁוּם אַרְבָּעָה זְקֵינִים אָמְרוּ כָּל הַנֶּאֱכַל עִירוּבוֹ בָּרִאשׁוֹן הֲרֵי הוּא כִבְנֵי עִירוֹ בַשֵּׁינִי. רַב הוּנָא בְשֵׁם רַב הֲלָכָה כְאַרְבָּעָה זְקֵנִים. רַב חִסְדָּא בְּעֵי מִחְלְפָה שִׁיטָּתֵיהּ דְּרַב. תַּמָּן הוּא עֲבַד לָהּ שְׁתֵי קְדוּשׁוֹת. וָכָא הוּא עֲבַד לָהּ קְדוּשָׁה אַחַת. דְּאִיתְפַּלְּגוּן שְׁיֵרֵי פְּתִילָה שְׁיֵרֵי מְדוּרָה שְׁיֵרֵי שֶׁמֶן שֶׁכָּבוּ בְשַׁבָּת מַהוּ לְהַדְלִיקָן בְּיוֹם טוֹב. רַב וְרִבִּי חֲנִינָא תְּרֵיהוֹן אָמְרִין אָסוּר. וְרִבִּי יוֹחָנָן אָמַר מוּתָּר. אָמַר רִבִּי מָנָא קוֹמֵי רִבִּי יוּדָן מַה אַפְּכָה לָהּ פְּתִילָה גַּבֵּי בֵּיצָה אָמַר לֵיהּ מִן מָה דַאֲנָן חָמֵיי רַבָּנִין מְדַמֵּיי לָהּ הָדָא אָמְרָה הִיא הָדָא הִיא הָדָא.

Halachá: Em nome de quatro anciãos disseram: todo aquele cujo eruv (de Yom Tov, colocado para permitir preparar no primeiro dia festivo para o segundo) foi comido no primeiro dia é como as pessoas de sua própria cidade no segundo dia (segue a regra local, sem o benefício do eruv). Rav Huna, em nome de Rav: a halachá é conforme os quatro anciãos. Rav Chisda perguntou: o método de Rav está invertido — lá (em Massechet Eruvin) ele o trata como duas santidades (dois dias festivos distintos), e aqui ele o trata como uma santidade única. Pois discordaram sobre isto: os restos de um pavio, os restos de uma fogueira, os restos de azeite que se apagaram no Shabat — qual é seu estatuto, para acendê-los no Yom Tov? Rav e Rabi Chanina, ambos dizem: é proibido. E Rabi Yochanan diz: é permitido. Disse Rabi Mana diante de Rabi Yudan: por que se inverte, quanto ao pavio, em relação ao ovo? Disse-lhe: pelo que vemos os sábios compararem, isso quer dizer que isto é como aquilo, isto é como aquilo.

09Por que o repolho é proibido: por costumar crescer de touceiras-mãe
Yerushalmi · Sheviit 9:1
שֶׁאֵין כְּיוֹצֵא בָהֶן בְּיַרְקוֹת הַשָּׂדֶה. וּמִפְּנֵי שֶׁאֵין כְּיוֹצֵא בָהֶן בְּיַרְקוֹת הַשָּׂדֶה יְהוּ אֲסוּרִין. רִבִּי חָמָא בַּר עוּקְבָּא בְשֵׁם רִבִּי יוֹסֵי בַּר חֲנִינָא מִפְנֵי שֶׁדַּרְכָּן לְגַדֵּל אִמָּהוֹת. וּמִפְנֵי שֶׁדַּרְכָּן לְגַדֵּל אִמָּהוֹת יְהוּ אֲסוּרִין. אָמַר רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר רַב יִצְחָק כָּל הַיֶּרֶק אַתְּ יָכוֹל לַעֲמוֹד עָלָיו אִם חָדָשׁ הוּא אִם יָשָׁן הוּא בְּרַם הָכָא שֶׁלֹּא יֵלֵךְ וְיָבִיא מִן הָאִיסּוּר וְיֹאמַר מִן הָאִמָּהוֹת הֵבֵאתִי.

Halachá: "Porque não há semelhante a eles entre as verduras do campo" (a razão de Rabi Shimon para proibir os brotos espontâneos de repolho). E porque não há semelhante a eles entre as verduras do campo, hão de ser proibidos (por que essa razão basta)? Rabi Chama bar Ukva, em nome de Rabi Yosei bar Chanina: porque costumam crescer de touceiras-mãe (imahot — rebentos que brotam de uma planta-matriz já existente, e não de sementeira nova). E porque costumam crescer de touceiras-mãe, hão de ser proibidos (por que essa razão, por si só, basta)? Disse Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak: quanto a toda outra verdura, podes verificar se é nova ou velha (recém-plantada no sétimo ano ou remanescente do ano anterior); mas aqui (quanto ao repolho crescido de touceira-mãe), teme-se que alguém traga do que é proibido e diga: trouxe das touceiras-mãe (pois um repolho crescido de touceira-mãe é indistinguível de um plantado de propósito no sétimo ano).

10O luf e o kinaris (alcachofra): não se é obrigado a arrancá-los no sétimo ano
Yerushalmi · Sheviit 9:1
אֵין מְחַיְיבִין אוֹתוֹ לַעֲקוֹר אֶת הַלּוּף בַּשְׁבִיעִית. אֲבָל מַנִּיחוֹ כְּמוֹת שֶׁהוּא אִם צִימַּח מוֹצָאֵי שְׁבִיעִית מוּתָּר. אֵין מְחַיְיבִין אוֹתוֹ לְשָׁרֵשׁ הַקִּינָּרִיס בַּשְׁבִיעִית. אֲבָל מְשַׁקֵּף בֶּעָלִים אִם צָמְחוּ מוֹצָאֵי שְׁבִיעִית מוּתָּר. וְלֹא נִמְצָא מְאַבֵּד אוֹכְלֵי בְהֵמָה. מֵאֵילֵיהֶן הֵן אֲבֵידִין.

Halachá: Não se obriga alguém a arrancar o luf (inhame ou aro, planta que sobrevive vários anos) no sétimo ano, mas deixa-o como está; se brotou no pós-sabático, é permitido. Não se obriga alguém a desenraizar o kinaris (alcachofra) no sétimo ano, mas retira-lhe as folhas (o suficiente para arruiná-lo como produto do ano corrente, sem desenraizá-lo); se brotaram no pós-sabático, é permitido. E não se constata que ele desperdiça alimento animal (ao deixar cair as folhas removidas) — elas se perdem por si mesmas (pois podem ainda servir de alimento ao animal que as encontrar, não sendo o dono responsável por seu destino final).

11Rabi Shimon ben Yochai e o homem que colhia brotos espontâneos: quem rompe a cerca
Yerushalmi · Sheviit 9:1
רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי הֲוָה עֲבַר בִּשְׁמִיטְּתָא וְחָמָא חַד מְלַקֵּט שְׁבִיעִית. אָמַר לֵיהּ וְלֵית אָסוּר וְלָאוּ סְפִחִין אִינּוּן. אֲמַר לֵיהּ וְלָא אַתְּ הוּא מַתִּירָן. אֲמַר לֵיהּ וְאֵין חֲבֵירַיי חֲלוּקִין עָלַי. קָרָא עָלָיו וּפוֹרֵץ גָּדֵר יִשְּׁכֶנּוּ נָחָשׁ וְכֵן הֲוָות לֵיהּ.

Halachá: Rabi Shimon ben Yochai estava passando durante o sétimo ano e viu um homem colhendo produto do sétimo ano. Disse-lhe: não é proibido? Não são eles brotos espontâneos? Disse-lhe o homem: não és tu mesmo quem os permite (seguindo a opinião de Rabi Shimon na Mishná)? Disse-lhe Rabi Shimon ben Yochai: mas os meus colegas não discordam de mim (e a halachá, na prática, segue a maioria, que proíbe)? Leu sobre ele (o homem) o versículo: "e quem rompe a cerca, a serpente o morderá" (Eclesiastes 10:8 — quem transgride uma restrição rabínica, mesmo invocando uma opinião permissiva isolada, expõe-se ao perigo). E assim lhe aconteceu (foi mordido por uma serpente).

12Rabi Shimon bar Yochai escondido treze anos na caverna, e a purificação de Tiveria
Yerushalmi · Sheviit 9:1
רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי עֲבַד טְמִיר בִּמְעַרְתָּא תְּלַת עָשָׂר שְׁנִין בִּמְעָרַת חָרוּבִין. עַד שֶׁהֶעֱלָה גוּפוֹ חֲלוּדָה לְסוֹף תְּלַת עָשָׂר שְׁנִין. אֲמַר לֵינָה נְפַק חָמִי מַה קָלָא בְּעָלְמָא. נְפַק וְיָתָב לֵיהּ עַל פּוּמָא דִמְעַרְתָּא. חָמָא חַד צַיָיד צְיַיד צִיפּוֹרִין. פְּרַס מְצוּדָתֵיהּ. שְׁמַע בְּרַת קָלָא אָמְרָה דִימוֹס וְאִישְׁתֵּיזְבַת. אֲמַר צִיפּוֹר מִבַּלְעֲדֵי שְׁמַיָּא לָא יִבְדָּא. כָּל שֶׁכֵּן בַּר נַשָּׁא. כַּד חָמָא דְשַׁדְּכָן מִילַּיָיא אֲמַר נִיחוֹת נִיחֲמֵי בַּהָדֵין דֵימוֹסִין דְּטִיבֵּרִיָא. אֲמַר צְרִיכִין אֲנָן לַעֲשׂוֹת תַּקָּנָה כְּמוֹ שֶׁעָשׂוֹ אֲבֹתֵינוּ הָרִאשׁוֹנִים וַיִּחַן אֶת פְּנֵי הָעִיר. שֶׁהָיוֹ עוֹשִׂין אִיטְלֵיסִן וּמוֹכְרִין בַּשּׁוּק. אֵמַר נִדְכֵי טִיבֵּרִיָּא וַהֲוָה נְסַב תּוּרְמוֹסִין וּמְקַצֵּץ וּמְקַלֵּיק וְכָל הֵן דַּהֲוָה מִיתָא הֲוָה טַיֵיף וּסְלַק לֵיהּ מִן לְעֵיל. חָמְתֵיהּ חַד כּוּתִי אֲמַר לֵינָה אֲזַל מַפְלֵי בְהוֹן סַבָּא דְיוּדָאֵי נְסַב חַד מִית אֲזַל וְאַטְמְרֵיהּ הֵן דְּדָכִי. אֲתָא לְגַבֵּיה רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי אֲמַר לֵיהּ לָא דְכִית אֲתַר פַּלָּן. אִיתָא וַאֲנָא מַפִּיק לָךְ מִן תַּמָּן. צִפָּה רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי בְרוּחַ הַקּוֹדֶשׁ שֶׁנְּתָנוֹ שָׁם. וְאָמַר גּוֹזֵר אֲנִי עַל הָעֶלְיוֹנִים שֶׁיֵּרְדוּ וְעַל הַתַּחְתוֹנִים שֶׁיַּעֲלוּ וְכֵן הֲוָות לֵיהּ. מִי עֲבַר קוֹמֵי מוּגְדָּלָא שְׁמַע קָלֵיהּ דְּסַפְרָא אֲמַר הָא בַּר יוֹחַי מַדְכֵּי טִיבֵּרִיָּא. אֲמַר לֵיהּ יָבוֹא עָלַי אִם לֹא שָׁמַעתִּי שֶׁטִּיבֵּרִיָּא עֲתִידָה לִיטָּהֵר. אֲפִילוּ כֵן לָא הֵימְנִין הָיִיתָ מִיַּד נַעֲשֶׂה גַּל שֶׁל עֲצָמוֹת.

Halachá: Rabi Shimon bar Yochai esteve escondido numa caverna treze anos, numa caverna de alfarrobeiras (cujos frutos lhe serviam de único alimento), até que seu corpo se cobriu de crostas (por causa das feridas causadas pelo terreno duro), ao fim de treze anos. Disse: vou sair e ver que voz há no mundo (se o decreto de perseguição contra ele ainda vigorava). Saiu e sentou-se à entrada da caverna. Viu um caçador caçando pássaros. Este estendia sua rede. Ouviu uma voz celestial que dizia "dimissus" (solto, absolvido), e o pássaro escapou. Disse: um pássaro não é capturado sem o Céu — quanto mais um ser humano! Quando viu que as palavras estavam conciliadas (que fora feita intercessão em seu favor no Céu), disse: desçamos e banhemo-nos nesses banhos de Tiveria. Disse: precisamos fazer algo de bom, como fizeram nossos antepassados, os primeiros: "e acampou diante da cidade" (Gênesis 33:18) — que faziam mercados isentos de taxas e vendiam no mercado (a preço de atacado, em benefício da população). Disse: purifiquemos Tiveria (construída sobre um antigo cemitério, e por isso, segundo a lei da pureza, interditada aos cohanim e aos que se cuidam da pureza). E pegou tremoços, cortou-os em pedaços e lançou-os na água; e todo lugar onde havia um morto, o pedaço flutuava e subia à superfície (marcando os locais impuros). Um samaritano o viu e disse: não hei de zombar deste velho judeu? Pegou um morto, foi e o escondeu num lugar já purificado. Veio a Rabi Shimon ben Yochai e disse-lhe: não purificaste tal lugar? Vem, e eu tirarei um morto dali (provando que Rabi Shimon errara). Rabi Shimon ben Yochai percebeu por inspiração divina (ruach hakodesh) que fora ele mesmo, o samaritano, quem o colocara ali. E disse: decreto sobre os de cima que desçam, e sobre os de baixo que subam — e assim lhe aconteceu (ao samaritano). Alguém que passava diante de Migdal ouviu a voz de um escriba que dizia: eis que bar Yochai purifica Tiveria (zombando, pois encontrara um cadáver ali). Disse-lhe Rabi Shimon: venha sobre mim (uma maldição) se eu não ouvi que Tiveria há de ser purificada (no futuro). Ainda assim não acreditaste em mim? Imediatamente ele se tornou um monte de ossos.

Nota

Esta é a primeira halachá do Perek Tet de Massechet Sheviit — capítulo com seis halachot no total. A Mishná ensina que a ruta, o amaranto selvagem, a beldroega, o coentro-da-montanha, o aipo dos rios e a rúcula selvagem são isentos dos dízimos e podem ser comprados de qualquer pessoa no sétimo ano, pois não há semelhante a eles que seja guardado, com a disputa entre Rabi Yehuda, que permite os brotos espontâneos de mostarda, Rabi Shimon, que permite todos os brotos espontâneos exceto os de repolho, e os sábios, que proíbem todos os brotos espontâneos.

A guemará traz a história de Rabi Chaggai e dos colegas que não sabiam o significado de certos termos e foram perguntar à casa de Rabi, sendo instruídos por uma serva a entrar de dois em dois; identifica o aipo dos rios como petrosselinon (salsa); explica por que a sia, o ezov e a kornit não foram ensinados junto com essas ervas; discute se elas são proibidas como brotos espontâneos, com a prova trazida da mostarda de Rabi Yehuda; traz o episódio de Reish Lakish em Chikok sobre a mostarda espontânea, e a disputa entre Rabi Yochanan e Rabi Chanina sobre os restos de pavio, fogueira e azeite apagados no Shabat, comparada à disputa sobre o eruv comido no primeiro dia e à pergunta de Rav Chisda sobre o método de Rav; explica por que o repolho é proibido, por costumar crescer de touceiras-mãe; trata do luf e do kinaris (alcachofra), que não se é obrigado a arrancar no sétimo ano; traz o episódio de Rabi Shimon ben Yochai e o homem que colhia brotos espontâneos, mordido por uma serpente; e fecha com a célebre história de Rabi Shimon bar Yochai escondido treze anos numa caverna, e a purificação de Tiveria.