Primeira halachá do Perek Alef de Massechet Shabbat, que abre o tratado e o Seder Moed. A Mishná ensina que as saídas do Shabat, os modos de transportar um objeto de um domínio a outro, são duas que são quatro: o pobre está fora, no domínio público, e o dono da casa dentro; quando um só deles levanta o objeto num domínio e o pousa no outro, ele é culpado; quando um levanta e o outro pousa, ambos são isentos. A guemará discute por que se diz “duas que são quatro”; aprende de Moshé no deserto e de Yirmeyahu que levar para fora é melachá; debate com Rabi Yochanan e Rabi Yossi se o trazer para dentro e o levar para fora se somam e se o que caminha é como o que pousa; analisa a karmelit com Rav Huna, Rav Yehudá e Ben Azai; aprende da kaporet e dos carros do deserto que acima de dez palmos é outro domínio; e termina com os quatro domínios do Shabat e a soleira diante da porta. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 2a.
Mishná: As saídas do Shabat, isto é, os modos de transportar de um domínio a outro, são duas que são quatro para quem está dentro e duas que são quatro para quem está fora. De que maneira? O pobre está de pé fora, no domínio público, e o dono da casa dentro, no domínio privado. Se o pobre estendeu a sua mão para dentro e deu um objeto na mão do dono da casa, ou tirou um objeto de dentro dela e o levou para fora, o pobre é culpado e o dono da casa é isento. Se o dono da casa estendeu a sua mão para fora e deu um objeto na mão do pobre, ou tirou um objeto de dentro dela e o trouxe para dentro, o dono da casa é culpado e o pobre é isento. Se o pobre estendeu a sua mão para dentro e o dono da casa tirou um objeto de dentro dela, ou deu um objeto para dentro dela, e o pobre o levou para fora, ambos são isentos. Se o dono da casa estendeu a sua mão para fora e o pobre tirou um objeto de dentro dela, ou deu um objeto para dentro dela, e o dono da casa o trouxe para dentro, ambos são isentos.
“As saídas do Shabat” etc. Que significa “duas que são quatro”? São duas para culpa e duas para isenção, ou quatro para culpa e quatro para isenção? Ouçamo-lo disto que foi ensinado na Mishná de Shevuot: “Os juramentos são dois que são quatro.” Disse Rabi Ba: lá, todos os casos são para culpa; mas aqui viemos ensinar culpa e isenção. Isto diz que são quatro para culpa e quatro para isenção. Disse Rabi Yossi: a Mishná também diz assim: “Os juramentos são dois que são quatro” não é para culpa? E, do mesmo modo, “as saídas do Shabat são duas que são quatro” é para culpa. Mas não foi ensinado: “As portas do Heichal (o santuário do Templo) eram duas que são quatro”? Tens como dizer ali que é para culpa ou para isenção? E, se a Mishná conta as isenções, ensinemos então doze casos de isenção! Não viemos ensinar senão a isenção que está em correspondência com a culpa. Disse Rabi Chiya bar Aba: que é esse “isento” que ensinamos aqui? Significa permitido. Disse Rabi Yossi: o pobre e o rico são um só caso, e os sábios os contaram como dois; o trazer para dentro e o levar para fora são um só caso, e os sábios os contaram como dois. Quando se diz “as saídas do Shabat”, o trazer para dentro não está incluído? Quando se diz “quem leva para fora de um domínio a outro domínio”, quem traz para dentro não está incluído? Ouçamo-lo disto que disse Rabi Yassa em nome de Rabi Yochanan: se trouxe para dentro o volume de meio figo seco e levou para fora o volume de meio figo seco, é culpado, pois ambos se somam como uma só melachá. De onde se aprende que o levar para fora, a hotzaá, é chamado melachá (trabalho proibido)? Rabi Shmuel bar Nachman, em nome de Rabi Yonatan, entendeu-o disto: “E ordenou Moshé, e fizeram passar uma proclamação pelo acampamento, dizendo: homem e mulher não façam mais trabalho para a oferta do santuário; e o povo foi impedido de trazer” (Shemot 36:6). O povo absteve-se de levar objetos para fora de suas casas e de entregá-los aos tesoureiros. Rabi Chizkiá, em nome de Rabi Ila: mesmo o trazer para dentro tu ouves daí: assim como o povo se absteve de levar para fora de suas casas e de entregar aos tesoureiros, assim os tesoureiros se abstiveram de receber da mão deles e de trazer para dentro da câmara do tesouro. Rabi Chizkiá, em nome de Rabi Acha, entendeu todos eles deste versículo: “Não leveis carga para fora de vossas casas no dia de Shabat, e nenhum trabalho fareis” (Yirmeyahu 17:22).
Rabi Yassa em nome de Rabi Yochanan: se trouxe para dentro o volume de meio figo seco e levou para fora o volume de meio figo seco, é culpado. O que disse Rabi Yochanan não é conforme Rabi Yossi, pois foi ensinado: “Se levou para fora meio figo seco e voltou e levou para fora outro meio figo seco num só esquecimento, isto é, num só período em que não se deu conta de que era Shabat, é culpado; em dois esquecimentos, é isento. Rabi Yossi diz: num só esquecimento e num só domínio, é culpado; num só esquecimento em dois domínios, ou em dois esquecimentos num só domínio, é isento.” E é difícil: se, segundo Rabi Yossi, uma saída e outra saída não se somam, não será com mais razão que não se somam o trazer para dentro e o levar para fora? Eis que o que disse Rabi Yochanan não é conforme Rabi Yossi.
Disse Rabi Ila: não somente quando há duas portas abertas para duas praças, mas mesmo quando estão abertas para uma só praça, também Rabi Yossi concorda que são domínios distintos, pois Rabi Yossi compara os domínios aos esquecimentos também para culpa. Assim como Rabi Yossi compara os domínios aos esquecimentos para isenção, assim compara os domínios aos esquecimentos para culpa: pois, se levou para fora o volume de um figo seco por esta porta e o volume de um figo seco por aquela porta num só esquecimento, porventura não é culpado de dois sacrifícios?
Disse Rabi Yudan: Rabi Yossi compara os domínios ao comer de peras (o tempo de comer meio pão). Pois, se comeu o volume de meia azeitona dentro do tempo de comer este peras e o volume de meia azeitona dentro do tempo de comer aquele peras, porventura não é isento? Se comeu várias azeitonas em vários peras num só esquecimento, não é culpado senão de um só sacrifício.
Os rabinos de Cesareia dizem: em vez de o comparares às gorduras proibidas, compara-o ao próprio Shabat. Pois, se teceu um fio dentro desta peça de roupa e um fio dentro daquela peça de roupa, porventura não é isento? Se teceu vários fios em várias peças de roupa num só esquecimento, não é culpado senão de um só sacrifício.
Rabi Yossi em nome de Rabi Yochanan: quem leva para fora não é culpado até que pouse o objeto no outro domínio. Rabi Yaakov bar Acha em nome de Rabi Yochanan: até que levante o objeto de um domínio e até que o pouse no outro. Rabi Zeira perguntou: é preciso que levante com a intenção de pousar? Se levantou para comer e depois mudou de ideia para pousar, não é culpado? Eis que o que disse Rabi Yochanan não é conforme Rabi Yossi, o tana, pois foi ensinado: “Se levou para fora meio figo seco e o pousou, e voltou e levou para fora outro meio figo seco: se o pousou dentro de quatro côvados do primeiro, é culpado; e, se não, é isento. Rabi Yossi diz: se o fez passar por cima dele, do primeiro, é culpado; e, se não, é isento.” Rabi Yossi faz o que caminha como o que pousa. Assim como Rabi Yossi faz o que caminha como o que pousa para culpa, assim faz o que caminha como o que pousa para isenção: uma vez que o levou para fora, é como se o tivesse pousado ali, e que seja isento! Explica-o no caso em que estava colocado dentro de quatro côvados da porta, como isto que foi ensinado: “e, se não, é isento”. Disse Rava, neto de Rav Papai: explica-o no caso em que a porta era larga de cinco côvados, e ele levou para fora um meio figo por aqui e um por ali; e eis que não levou para fora o segundo dentro de quatro côvados do primeiro.
Lá, na Mishná de Keritot, ensinamos: “Rabi Meir diz: se era Shabat e o levou para fora na sua boca, é culpado também por isso. Disseram-lhe: não é do mesmo nome.” Pois este é culpado por causa do caminhar, e aquele é culpado por causa do pousar. Quem são os que “disseram-lhe”? Rabi Yossi. A posição de Rabi Yossi se inverte de um lugar para o outro: lá, não faz o que caminha como o que pousa, e aqui, na baraita do meio figo, faz o que caminha como o que pousa! Disse Rabi Yudan: explica-o no caso em que ele estava deitado sobre a soleira, parte dele dentro e a sua boca para fora, e estendeu a sua mão, tomou-o e o comeu; e eis que não caminhou.
Disse Rabi Yanai: quem engoliu o volume de meia azeitona de gordura proibida, vomitou-a e voltou a engoli-la é culpado. Quem trouxe para dentro o volume de meio figo seco e voltou a levá-lo para fora é isento. Qual é a diferença entre este e o primeiro? Lá, o seu paladar desfrutou do volume de uma azeitona; mas aqui, não se ocupou com o volume de um figo seco inteiro. Disse Rabi Yossi: às vezes ele se ocupa com um figo seco inteiro e é isento. Como é isso? Levou para fora meio figo seco e o pousou, e voltou e levou para fora outro meio figo seco, e não chegou a pousá-lo antes que o primeiro fosse queimado. Eis que se ocupou com um figo seco inteiro e é isento. Porque Rabi Yanai o comparou às gorduras proibidas, ele, Rabi Yossi, fez assim.
Disse Rabi Yochanan: quem leva para fora do reshut hayachid (domínio privado) para o reshut harabim (domínio público) através de uma karmelit (domínio intermediário) é culpado. Aprende-se do que leva para fora às suas costas, disto que ensinamos: “Quem tinha a intenção de levar para fora à sua frente e o objeto lhe veio para trás é isento; se tinha a intenção de levar às suas costas e lhe veio para a frente, é culpado.” E é possível que não se forme entre ele e a parede uma karmelit? E, ainda assim, é culpado. Disse Rabi Yossi: explica-o no caso em que o seu rosto estava voltado para a parede e a sua carga às suas costas, e assim a sua carga saiu primeiro. Rabi Chiya bar Aba perguntou diante de Rabi Mana: mas esta não é maneira de levar para fora! Disse-lhe: é, sim, pois assim fazem os carregadores profissionais. E qual fonte diz isto? A que disse Rabi Acha, Rabi Maisha, em nome de Rabi Yochanan: “Quem leva para fora alimentos e os coloca sobre a soleira”; e a soleira não é karmelit? E pesou a Rabi Yossi não tê-lo dito por si mesmo.
Rav Huna em nome de Rav: todos concordam, quanto ao que lança do domínio privado ao público através da karmelit, que é culpado; pois é opinião de todos que o ar da karmelit não é como a sua substância, e o objeto não pousou nela. Em que discordam? No que leva para fora caminhando: Ben Azai isenta, e os sábios declaram culpado. Ben Azai faz o que caminha pela karmelit como o que pousa nela, e os rabinos não fazem o que caminha como o que pousa. Rav Chisda perguntou a Rav Huna: segundo a opinião de Ben Azai, nunca alguém se tornaria culpado por levar um objeto por quatro côvados no domínio público! Uma vez que os levou, é como se o tivesse pousado em cada côvado e côvado, e que seja sempre isento!
Rav Yehudá em nome de Rav: todos concordam, quanto ao que leva para fora caminhando através da karmelit, que é isento; pois é opinião de todos que o que caminha é como o que pousa. Em que discordam? No que lança através dela: Ben Azai isenta, e os sábios declaram culpado. Ben Azai faz o ar da karmelit como a sua substância, isto é, como se fosse o próprio chão, e os rabinos não fazem o ar da karmelit como a sua substância, e por isso declaram culpado.
Uma baraita apoia este amora, e outra baraita apoia aquele. Uma baraita apoia Rav Huna: “Se estava de pé no domínio público e lançou para um curral ou para um cercado através de uma karmelit, é culpado; e, se o levou caminhando, é isento.” Uma baraita apoia Rav Yehudá: “Quem leva para fora alimentos de dentro da casa e os coloca sobre a soleira, quer tenha voltado e os levado para fora, quer outro os tenha levado para fora, é isento, porque não fez o trabalho deles de uma só vez.” Daí se deduz que, se fez o trabalho deles de uma só vez, é culpado. Ben Azai diz: mesmo se fez o seu trabalho de uma só vez, é isento. Mas não ensinamos: “Rabi Meir diz: se era Shabat e o levou para fora. E disseram-lhe: não é do mesmo nome”? Pois este é culpado por causa do caminhar, e aquele é culpado por causa do pousar. Segundo a opinião de Rav Huna, essa Mishná não é conforme Ben Azai; segundo a opinião de Rav Yehudá, ela não é conforme Ben Azai nem conforme os rabinos. Disse Rabi Chinena: quem são os que “disseram-lhe”? Os sábios que estão no método de Ben Azai.
Rabi Yochanan perguntou: se estava de pé no domínio público, lançou, correu à frente e o apanhou, o que é a lei? E não é isto uma Mishná: “Se outro o apanhou, um cão o apanhou, ou foi queimado, é isento”? Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeira: assim é no caso do que arrebata; mas, se apenas o apanhou, é culpado. Pergunta-se: qual é a diferença entre ter pousado no chão e ter pousado na sua mão? Lá, por que é culpado? Lá, ele lançou e outro recebeu; mas aqui, ele lançou e ele recebeu. E que lhe fosse evidente que é isento! Mas, se lançou com a direita, levou para fora e apanhou com a esquerda, porventura não é culpado? Aprende-se disto: a sua boca. E a sua boca não é como outro? E aqui, a sua esquerda é como outro. Disse Rabi Yudan: é evidente para Rabi Yochanan que, se lançou com a direita e apanhou com a esquerda, é culpado. E qual era a sua dúvida? No que lança com a direita e apanha com a direita. Os rabinos de Cesareia, Rabi Shamai em nome de Rabi Acha: mesmo se lançou com a direita e apanhou com a esquerda, é dúvida para ele se é culpado. Se disseres “a sua boca”: a sua boca, uma vez que o comeu, é como outro; mas aqui, a sua mão é como outro? Rabi Mana perguntou: então, se levou para fora o volume de um figo seco com as suas duas mãos, que seja isento por serem como dois que fizeram uma só melachá! Disse-lhe Rabi Chiya bar Ada: e é isto o que diz o versículo “ao fazê-la” (Vayikra 4:27)? Não foi ensinado assim: “Um indivíduo que a fez é culpado; dois ou três que a fizeram são isentos”?
Disse Rabi Yochanan: se estava de pé no domínio público, apanhou chuva do ar das paredes de um domínio privado e a levou para fora, é culpado. Rabi Bun bar Chiya em nome de Rabi Zeira: assim é no caso do que arrebata; mas, se apenas a recebeu, é isento. Pergunta-se: qual é a diferença entre o caso em que outro lhe deu e o caso em que o céu lhe deu? Responde-se: vem conforme Rabi, isto é, Rabi Yehudá HaNasi, pois Rabi faz o ar das paredes como a sua substância.
“Se estava de pé dentro e a sua mão, cheia de frutos, estendida para fora, e o dia se santificou sobre ele, isto é, entrou o Shabat, é proibido trazê-la de volta.” Rabi Acha em nome de Rabi Ba: isto é conforme quem disse que é proibido usar o ar abaixo de dez palmos. Há tanaim que ensinam: é permitido. Queriam dizer: quem diz “permitido” fala quando há ali um espaço de largura de quatro palmos; e quem diz “proibido”, quando não há ali largura de quatro. Disse Rabi Yossi bei Rabi Bun: tanto num como noutro caso é proibido, conforme quem disse que é proibido usar o ar abaixo de dez. Como é então? Quem diz “proibido” fala de abaixo de dez palmos; e quem diz “permitido”, de acima de dez.
“O pobre é culpado e o dono da casa é isento.” Rav Yehudá em nome de Shmuel: e isso, quando a mão do pobre está dentro de dez palmos do chão. Disse Rabi Zeira: e quando está afastado da parede quatro palmos; mas, se não está afastado da parede quatro, é uma karmelit, e não há culpa. Rabi Elazar em nome de Rabi Shimon Karsana: quando o seu rosto estava voltado para a praça; mas, se o seu rosto estava voltado para a parede, é karmelit, e ele é isento.
Rabi Chisda em nome de Ashi: um caniço fincado no domínio público, alto de dez palmos: quem usa algo de dentro dele para o domínio público, e do domínio público para dentro dele, é culpado. Rav disse: um tarkos (recipiente de couro) que está no domínio público, alto de dez palmos e largo de quatro: quem usa algo de dentro dele para o domínio público, e do domínio público para dentro dele, é culpado. Rabi Hoshaia ensinou: “Um candelabro que está no domínio público, a sua altura de dez palmos e a sua flor de quatro: quem usa algo de dentro dele para o domínio público, e do domínio público para dentro dele, é culpado.” Disse Rabi Mana: não se disse isto somente de um candelabro, mas mesmo um caniço no domínio público, alto de dez palmos, com uma tábua de quatro palmos colocada no seu topo: quem usa algo de dentro dele para o domínio público, e do domínio público para dentro dele, é culpado.
De onde se aprende que acima de dez palmos é outro domínio? Rabi Abahu em nome de Rabi Shimon ben Lakish: “E Eu Me encontrarei contigo ali, e falarei contigo de cima da kaporet (a tampa da Arca), que está sobre a Arca do testemunho, de entre os dois querubins” (Shemot 25:22); e está escrito: “Vós vistes que dos céus falei convosco” (Shemot 20:19). Assim como a fala dita lá vem de outro domínio, também a fala dita aqui vem de outro domínio. E a Arca não é de nove palmos? Os da casa de Rabi Yanai dizem: e a kaporet tinha um palmo, somando dez. Rabi Zeira perguntou: de onde se sabe que a kaporet tem um palmo? Rabi Chanania bar Shmuel ensinou: de todos os utensílios que havia no santuário, a Torá deu a medida do seu comprimento e da sua largura e deu a medida da sua altura, exceto a kaporet, da qual a Torá deu a medida do seu comprimento e da sua largura e não deu a medida da sua altura. Aprende-a do menor utensílio que havia no santuário, a mesa: “E lhe farás uma moldura de um palmo ao redor” (Shemot 25:25); assim como aqui é um palmo, também aqui é um palmo. Ou talvez não seja senão como em “e farás uma coroa de ouro para a sua moldura ao redor” (Shemot 25:25): assim como aqui é qualquer medida, também aqui é qualquer medida? Como é então? Rav Acha bar Yaakov diz: está escrito “face” da kaporet (Vayikra 16:2), e não há face menor que um palmo.
Rabi Yossi perguntou: se um armário estivesse de pé dentro de uma casa, de qualquer altura, porventura não seria permitido usar algo de dentro dele para a casa e da casa para dentro dele? Mas tratamos do momento em que a Arca lhes delimitava os ventos, quando viajava diante do povo no deserto. Está bem segundo quem diz: a Arca foi medida com o côvado de seis palmos; mas, segundo quem diz: com o côvado de cinco, a Arca não teria sete palmos e meio? Rabi Yaakov bar Acha disse: os da casa de Rabi Yanai e Rabi Shimon ben Yotzadak: um o aprende da Arca e o outro o aprende dos carros, e não sabemos quem o aprende da Arca e quem o aprende dos carros. É razoável que os da casa de Rabi Yanai o aprendam da Arca, pois os da casa de Rabi Yanai dizem: e a kaporet tinha um palmo. Rabi Shimon ben Yotzadak o aprende dos carros. Rabi Zeira perguntou: de onde se sabe que os carros eram altos de dez palmos? Disse Rabi Yossi: e, mesmo que digas que eram altos de dez, não ensinou assim Rabi Nechemia: “tzav” (Bamidbar 7:3), os carros eram como uma espécie de kamarasta (cobertura abobadada)? E, se houvesse um buraco no domínio público, de dez de profundidade e quatro de largura, porventura não seria proibido usar algo de dentro dele para o domínio público e do domínio público para dentro dele? Mas, no momento em que passavam as tábuas de um carro para o outro, eles eram planos.
“Ambos são isentos.” Rabi Yaakov bar Acha em nome de Chizkiá, e os rabinos em nome de Rabi Yochanan: por causa de serem dois que fizeram uma só melachá. Rav perguntou a Rabi: se alguém lhe pôs um fardo sobre o seu ombro, e ele esqueceu que era Shabat e o levou para fora, o que é a lei? Na segunda rodada de estudo, disse-lhe: é culpado, porque não é semelhante àquele caso da Mishná. Rabi pensa: uma vez que levantou os seus pés, é como se tivesse levantado o objeto. Segundo a opinião de Rabi: se estava de pé no domínio público, lançou, correu à frente e o apanhou no domínio privado, o que é a lei? E não é isto evidente segundo Rabi, pois Rabi faz o ar das paredes como a sua substância? A pergunta não é necessária senão no caso em que estava de pé no domínio privado, lançou, correu à frente e o apanhou no domínio público: o que é a lei? Achou-se ensinado: Rabi isenta até o momento em que o objeto pouse.
Disse Rabi Avun: Rabi, Ben Azai e Rabi Akiva, os três disseram uma só coisa, cada um a respeito de um domínio. Rabi faz o ar cercado das paredes como a sua substância, isto é, como se fosse o próprio chão; Ben Azai faz o ar da karmelit como a sua substância; Rabi Akiva faz o ar do domínio público como a sua substância, a respeito do que lança dentro dele.
Foi ensinado: “Há quatro domínios para o Shabat: o reshut hayachid (domínio privado), o reshut harabim (domínio público), a karmelit e os becos que não são abertos dos dois lados. E qual é o domínio privado? Um fosso que tem dez palmos de fundo e quatro de largura, e uma cerca que tem dez de altura e quatro de largura: este é o domínio privado completo. E qual é o domínio público completo? Uma estrada, uma praça, o deserto e os becos abertos dos dois lados. Não se leva para fora do domínio privado para o domínio público, nem se traz para dentro do domínio público para o domínio privado; e, se levou para fora ou trouxe para dentro: por engano, é culpado de um sacrifício chatat (expiatório); deliberadamente, é culpado de karet (extirpação) e é apedrejado. É o mesmo quem leva para fora e quem traz para dentro, quem passa de mão em mão e quem lança. O mar, o vale, a colunata coberta, a soleira e a karmelit não são nem domínio público nem domínio privado; e não se carregam nem se transferem objetos neles; e, se carregou e transferiu neles, é isento.”
Disse Rav Yossef: também nós ensinamos todos eles na Mishná. O mar, como ensinamos lá, no capítulo do que lança: “Quem lança no mar quatro côvados é isento.” Não somente quatro côvados no mar, mas mesmo se lança por todo o mar é isento, pois todo o mar é chamado karmelit. O vale, como ensinamos na Mishná de Tahorot: “O vale, nos dias de verão, é domínio privado para o Shabat e domínio público para a impureza; e, nos dias de chuva, é domínio público para isto e para aquilo.” Se dizes que é domínio privado para isto e para aquilo, não precisaria de ser cercado com os apetrechos dos animais; e ensinamos na Mishná de Eruvin: “Se o cercaram com os apetrechos dos animais, carrega-se dentro dele.” A colunata, como ensinamos em Eruvin: “E também as pontes abertas dos dois lados, carrega-se debaixo delas no Shabat, palavras de Rabi Yehudá; e os sábios proíbem.” A soleira, como ensinamos neste tratado: “Quem leva para fora alimentos e os coloca sobre a soleira, quer tenha voltado e os levado para fora, quer outro os tenha levado para fora, é isento, porque não fez o seu trabalho de uma só vez.” Daí se vê que a soleira é karmelit, e se deduz que, se fez o seu trabalho de uma só vez, é culpado. Ben Azai diz: mesmo se fez o seu trabalho de uma só vez, é isento. A karmelit: Rabi Chiya ensinou: a palavra “karmel” vem de rach malé, macio e cheio: não é nem úmido nem seco, mas intermediário; e aqui, do mesmo modo, não é nem domínio público nem domínio privado, mas karmelit. Qual é a karmelit? Rabi Yassa em nome de Rabi Yochanan: como a loja de Bar Yustinei. Quanto a um pátio de muitos moradores e becos que não são abertos dos dois lados: se fizeram eruv (a junção dos domínios), são permitidos; e, se não fizeram eruv, são proibidos.
Rabi Zeira em nome de Rav Yehudá; Rabi Zeira em nome de Rav Chinena em nome de Rav Chanina: os corredores que ficam entre as colunas são julgados como karmelit. Rabi Shmuel bar Chiya bar Yehudá em nome de Rabi Chanina: as flores das colunas, isto é, as suas bases salientes, são julgadas como karmelit. Por isso, é necessário dizê-lo quando são altas de três palmos. Chiya, filho de Rav: tudo o que impede o pisar no domínio público é julgado como karmelit. Os rabinos de Cesareia dizem: mesmo espinhos, mesmo vidro. Por isso, é necessário dizê-lo quando não são altos de três palmos.
E disse Rabi Yossi: a soleira de que falaram é larga de quatro palmos e não é alta de dez. Se disseres que é alta de dez e larga de quatro, é um domínio por si mesma, um domínio privado. Se disseres que é alta de dez e não larga de quatro, isto é o que disse Rav Chisda em nome de Assi: um caniço fincado no domínio público, alto de dez palmos, é permitido usar dele para cá e para lá, contanto que não troque objetos de um domínio para o outro através dele. Mas assim tratamos da soleira: quando não é nem larga de quatro nem alta de dez.
“A soleira que está diante da porta: Acherim (outros sábios) dizem: todo o tempo em que a porta está aberta, ela toda é como dentro; trancada, ela toda é como fora.” De que caso estamos tratando? Se é coberta por um teto, mesmo trancada, ela toda é como dentro; se não é coberta, mesmo aberta, ela toda é como fora. Mas assim tratamos: quando metade dela é coberta e metade dela não é coberta. Que significa “trancada, ela toda é como fora”? É permitido usar algo de dentro dela para fora e de fora para dentro dela. Quando havia na porta trancada um buraco, é proibido usar algo de dentro dela para o buraco e do buraco para dentro dela. Rabi Natan diz: trancada, ela toda é como fora; aberta, metade dela é como dentro e metade como fora, conforme a parte coberta e a descoberta. E não pensávamos dizer assim: uma soleira de quatro palmos de largura, depois que se tranca a porta, é toda como fora; também quando a porta está aberta, metade dela é como dentro e metade como fora?
Esta é a primeira halachá de Massechet Shabbat, que abre o tratado: a Mishná ensina as quatro maneiras de transportar entre o domínio privado e o domínio público, duas para dentro e duas para fora, em que um só homem faz todo o trabalho e é culpado, e as quatro em que o trabalho se divide entre o pobre e o dono da casa e ambos são isentos. Corresponde exatamente à Mishná Shabbat 1:1 da Mishná avulsa.
A guemará discute o sentido de “duas que são quatro”, comparando a Mishná de Shevuot e as portas do Heichal; aprende de Shemot 36:6 e de Yirmeyahu 17:22 que levar para fora é melachá; debate se o trazer para dentro e o levar para fora se somam, se os domínios se comparam aos esquecimentos, e se o que caminha é como o que pousa; discute a karmelit entre Rav Huna, Rav Yehudá e Ben Azai, o que lança e apanha, a chuva tirada do ar das paredes e a mão estendida quando entra o Shabat; aprende da kaporet e dos carros do deserto que acima de dez palmos é outro domínio; e encerra com a baraita dos quatro domínios do Shabat, a explicação de Rav Yossef, os corredores entre as colunas e a soleira diante da porta.
Observações de leitura. Os versículos estão conferidos na numeração massorética: “dos céus falei convosco”, na seção 18, está em Shemot 20:19 (a edição de Guggenheimer dá 20:22, numeração das bíblias inglesas); a citação de Shemot 25:22 na mesma seção segue a ordem das palavras do Yerushalmi, que difere ligeiramente da do versículo; a palavra “face” da kaporet está em Vayikra 16:2 e 16:14; “ao fazê-la”, na seção 13, é Vayikra 4:27; “tzav”, na seção 19, é Bamidbar 7:3. As Mishnayot citadas são: Shevuot 1:1 (seção 01); Keritot 3:4 (seções 07 e 12); Shabbat 10:4, sobre quem leva às costas (seção 09); Shabbat 10:2, sobre a soleira (seções 09, 12 e 23); Shabbat 11:6 (seção 13); Shabbat 11:4, Tahorot 6:7, Eruvin 1:8 e Eruvin 9:4 (seção 23); a baraita dos quatro domínios, na seção 22, está na Tosefta Shabbat 1:1.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Na seção 01 e na seção 15, o hebraico tem “Rabi Ba”, que Guggenheimer lê “Rabi Abba”. Na seção 06, o hebraico tem “Rava, neto de Rav Papai” (literalmente, filho do filho de Rav Papai), onde Guggenheimer traduz “Rabi Abba, filho de Rabi Papeus”; e a palavra “culpado”, que o texto impresso traz entre parênteses no início da frase “eis que o que disse Rabi Yochanan”, é marcada pelos editores como supérflua e não foi traduzida. Na seção 17, o hebraico diz “Rabi Chisda em nome de Ashi”, e na seção 25 a mesma regra do caniço aparece como de “Rav Chisda em nome de Assi”. Na seção 23, o texto impresso da Mishná do vale diz “domínio privado para isto e para aquilo”, como a Mishná Tahorot 6:7; os editores corrigem para “domínio público”, e a tradução segue a correção. Na seção 24, o hebraico tem “Rav Chanina”, onde Guggenheimer lê “Rabi Chanina”. O sentido de tarkos, na seção 17, é incerto; segue-se Guggenheimer, “recipiente de couro”.