Primeira halachá do Perek Guimel de Massechet Maasrot, abrindo o terceiro capítulo: a Mishná ensina que quem passa figos pelo seu pátio para que sequem, seus filhos e os membros da sua casa podem comer e estão isentos dos dízimos; e os trabalhadores que estão com ele, quando não têm sustento a cargo dele, podem comer e estão isentos, mas se têm sustento a cargo dele, não devem comer. Quem leva seus trabalhadores ao campo, quando não têm sustento a cargo dele, podem comer e estão isentos; mas se têm sustento a cargo dele, podem comer um a um da figueira, mas não do cesto, nem dos cestos grandes, nem do depósito (mukzeh, o local onde os frutos foram reunidos para venda ou processamento). Quem contrata o trabalhador para as oliveiras, sob a condição de comer azeitonas, come uma a uma e está isento, mas se as ajuntou, está obrigado; e o mesmo para quem capina entre as cebolas, sob condição de comer verduras. A guemará abre perguntando se o próprio dono pode comer do depósito — Rav proíbe, Rabi Lazar permite —, e concilia isso com as opiniões de Rabi Meir e de Rabi quanto ao mukzeh, discutido por Rabi Yossei ben Shaul e Rabi Yaakov bar Idi. Explica por que os filhos podem comer mas o próprio dono não, e estende a questão à manutenção e à moradia da esposa, com o ensino sobre sociedades feitas sem o conhecimento de uma das partes. Traz a mishná de Rabi sobre quem entra do campo para a cidade e fica sujeito a tevel, com a distinção entre agir por engano e deliberadamente; o episódio de Rabi e Rabi Yossei bar Rabi Yehudá levando o cesto atrás dos jardins, e a repreensão de Rabi Yudá bar Rabi Ilai lembrando o rigor de Rabi Akiva. Segue as posições encadeadas de Rabi Yochanan, Reish Lakish, Rabi Shimon bar Yochai e Rabi Eliezer sobre o pátio guardado, o rigor do Shabat, e a extensão progressiva da permissão de quem começou a comer por caminho lícito. Traz a explicação de Rabi Yitzchak equiparando o depósito ao ajuntado; a pergunta de Rabi Yoná sobre o trabalhador contratado para capinar entre as oliveiras; a discussão de Rabi Chaggai com os colegas sobre se a isenção do trabalhador se deve a comer ocasionalmente ou ao hefker (renúncia de propriedade), com o caso do cesto coberto de folhas; a pergunta de Rabi Yoná e de Rabi Maná sobre se o dinheiro pago em lugar do fruto fica sujeito a tevel como uma compra; o caso do cesto achado e a estipulação exigida por Rabi Shimon ben Yotzadak; a regra de que produto sem eira exige apenas a teruma do dízimo; e fecha perguntando de onde se tiram os dízimos — da casa ou do campo — com três provas trazidas por Rabi Chananiá, Rabi Chiya bar Aba e Rabi Aba Mari.
Mishná: Quem passa figos pelo seu pátio para que sequem, seus filhos e os membros da sua casa podem comer e estão isentos dos dízimos. E os trabalhadores que estão com ele, quando não têm sustento a cargo dele, podem comer e estão isentos; mas se têm sustento a cargo dele, eis que estes não devem comer. Quem leva seus trabalhadores ao campo, quando não têm sustento a cargo dele, podem comer e estão isentos; mas se têm sustento a cargo dele, podem comer um a um da figueira, mas não do cesto, nem dos cestos grandes, nem do depósito (mukzeh, o local designado para reunir os frutos). Quem contrata o trabalhador para trabalhar com ele nas oliveiras, e lhe disse: "com a condição de que comas azeitonas" — come uma a uma e está isento; mas se as ajuntou, está obrigado. E quem o contrata para capinar entre as cebolas, e lhe disse: "com a condição de que comas verduras" — arranca folha por folha e come; mas se as ajuntou, está obrigado.
Ele mesmo — o dono — pode comer do depósito? Disse Rav: ele está proibido de comer. Ulá bar Rabi Yishmael, em nome de Rabi Lazar: ele está permitido a comer. Rav segue Rabi Meir; Rabi Lazar segue os rabinos. Objetaram: Rav segue Rabi Meir? Se assim é, segundo Rabi Meir, até seus filhos e os membros da sua casa deveriam estar proibidos! Antes, Rav segue Rabi, e Rabi Lazar segue os rabinos — pois disse Rabi Simon em nome de Rabi Yehoshua ben Levi, Rabi Yossei ben Shaul em nome de Rabi: não se come sobre o depósito, senão no seu próprio lugar (onde os frutos foram inicialmente reunidos) — palavras dos sábios. Rabi Yaakov bar Idi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: come-se sobre o depósito, seja no seu próprio lugar, seja fora do seu próprio lugar. Rabi Yossei ben Shaul objetou a Rabi: mas não ensinamos — "as alfarrobas, antes de as ajuntar no alto do telhado..." (pode-se tirar delas para o animal e ficar isento)? Disse-lhe: não me objetes com alfarrobas; alfarrobas são alimento de animal (e não seguem a mesma regra).
Segundo a opinião de Rav, qual é a diferença entre ele mesmo e seus filhos? Ele, por estar vinculado ao depósito, está proibido; seus filhos, por não estarem vinculados ao depósito, estão permitidos. Isto está bem quanto a "seus filhos". E quanto a "os membros da sua casa" (inclui a esposa), que não tem sustento a cargo dele nos termos aqui exigidos — segue-se quem diz que a esposa não tem direito ao sustento por lei da Torá, como se ensinou: o tribunal não fixa o sustento da esposa a partir dos recursos do ano sabático, mas ela é sustentada por seu marido no ano sabático, e a tratam como um trabalhador cujo trabalho não vale sequer uma peruta (a menor das moedas). Isto ensina que não a devem tratar como um trabalhador cujo trabalho não vale uma peruta. Mesmo segundo quem diz que ela não tem direito ao sustento a cargo dele, ela não tem direito à moradia a cargo dele — como se ensinou: homens que se associaram sem o conhecimento das mulheres, a associação deles é válida; mulheres que se associaram sem o conhecimento dos homens, a associação delas não é válida.
Foi ensinado: todos estes, uma vez que entraram do campo para a cidade, ficam sujeitos a tevel (obrigação plena de dízimos). É a mishná de Rabi — pois se ensinou: se trouxe figos do campo para comê-los no seu pátio que não é guardado, e esqueceu e os levou para dentro da sua casa, ou as crianças os levaram — eis que os devolve ao seu lugar e come. Não disseram isso senão para quem agiu sem intenção; mas quem agiu deliberadamente está proibido. Quem ensinou isto? Rabi — pois se ensinou: se trouxe figos do campo e os transferiu ao seu pátio para comê-los no alto do seu telhado, Rabi obriga (nos dízimos), e Rabi Yossei filho de Rabi Yehudá isenta. Eis quem ensinou: "quem passa figos pelo seu pátio para secarem" — mas se não for para secarem, está obrigado.
Rabi Ulá bar Yishmael em nome de Rabi Lazar: Rabi e Rabi Yossei filho de Rabi Yehudá levavam o cesto para atrás dos jardins (a fim de tratá-lo como certo apenas ali). Viu-os Rabi Yudá filho de Rabi Ilai e disse-lhes: vede qual é a diferença entre vós e os antigos — Rabi Akiva comprava três espécies por uma peruta a fim de dizimar de cada espécie, e vós levais o cesto para atrás dos jardins? Que diferença faz atrás dos jardins — mesmo que os tivésseis levado ao vosso pátio para comê-los no alto do vosso telhado (seria o mesmo). E não é isso a opinião de Rabi Yossei filho de Rabi Yehudá que exige menos rigor? Foi por causa de Rabi, que estava com ele (e seguiu por deferência a ele). Viram um certo ancião; disse-lhes: dai-me dos frutos. Disseram-lhe: sim. Disse-lhes: ao vosso Pai que está nos céus não destes, e a mim destes?
Rabi Yochanan segue Rabi, e Rabi Shimon ben Lakish segue Rabi Yossei filho de Rabi Yehudá. Rabi Yochanan segue Rabi mesmo que se pudesse pensar que segue Rabi Yossei filho de Rabi Yehudá — ainda assim seria coerente, pois é um rigor quanto ao Shabat, já que até os frutos que caíram por si mesmos (sem intervenção humana) estão proibidos no Shabat, por serem mukzeh. Rabi Shimon ben Lakish segue Rabi Yossei filho de Rabi Yehudá mesmo que se pudesse pensar que segue Rabi — ainda assim seria coerente, pois é um rigor quanto ao pátio guardado, já que disse Rabi Yochanan: a aquisição num pátio no Shabat não vale por lei da Torá (não gera posse halachicamente válida). Rabi Imi em nome de Rabi Shimon: o mais claro entre todos estes fatores é este — o pátio guardado.
Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yochai: tinha ele dois pátios, um em Magdala e outro em Tiberíades; transferiu os figos daquele de Magdala para comê-los no de Tiberíades — visto que os transferiu por caminho permitido, é permitido. Isto segue a opinião de Rabi Shimon ben Yochai como a de Rabi Yossei filho de Rabi Yehudá, e vai além do que disse Rabi Yossei filho de Rabi Yehudá. O que disse Rabi Yossei filho de Rabi Yehudá é quanto a quem está num lugar isento; e o que disse Rabi Shimon ben Yochai é quanto a quem está num lugar obrigado — visto que os transferiu por caminho permitido, é permitido. E Rabi Eliezer vai além de ambos, pois Rabi Eliezer disse: visto que começou a comê-los por caminho permitido, permanece permitido mesmo depois.
Está bem entender "não do cesto, nem do cesto grande, nem do depósito" como se dissesse ali (no caso da figueira do pátio): colhe uma a uma e come, mas se as ajuntou, está obrigado — diz-se também aqui o mesmo. Disse Rabi Yitzchak: fizeram do depósito como algo já ajuntado.
Foi ensinado na escola de Rabi: come do seu jeito costumeiro e está isento. Rabi Yoná perguntou: em que caso estamos tratando? Se é quando o contratou para trabalhar com ele nas oliveiras (em geral), todos concordam que ele come do seu jeito costumeiro e está isento; e se é quando o contratou para trabalhar com as próprias azeitonas (processá-las diretamente), todos concordam que ele come uma a uma e está isento, mas se as ajuntou, está obrigado. Mas então, em que caso estamos tratando? Quando o contratou para capinar entre as oliveiras. Do que se segue: "para capinar entre as cebolas, e lhe disse: com a condição de que comas verduras — arranca folha por folha e come; mas se as ajuntou, está obrigado."
Rabi Chaggai perguntou aos colegas: qual é esta isenção que ensinamos aqui? Disse-lhe: por causa de comer ocasionalmente no campo, e por isso está isento. Disse-lhes: mas será que ensinamos aqui por causa de comer ocasionalmente no campo? Antes, por causa do hefker (renúncia de propriedade sobre o produto) — pois mesmo que o tivesse levado para casa, estaria isento. Como se ensinou: se alguém achou um cesto coberto de folhas, é proibido por causa de roubo, e obrigado nos dízimos. Proibido por causa de roubo, porque é coisa que tem sinais identificadores; e obrigado nos dízimos, porque até agora a intenção do dono ainda está sobre ele. Até quando isso vale? Até o momento em que ele o dono ainda poderia separar teruma do que foi declarado abandonado. Se já não pudesse separar teruma do que foi declarado abandonado, quem o achou avalia-o em dinheiro e come.
Rabi Yoná perguntou: o dinheiro (pago em substituição ao fruto) fica sujeito a tevel por meio de uma compra (como se fosse comprado)? Ou, visto que os donos já a retiraram de si (renunciaram a ela), não fica sujeita a tevel? Rabi Maná perguntou: imagina que o fruto já estivesse posto na sua boca — não é, como coisa repugnante, que ele ainda poderia devolvê-la de volta ao cesto? Se dizes que sim (que ainda poderia devolvê-la), não se encontraria ele comendo tevel retroativamente (pois ainda não teria decidido consumi-la de vez)? Isto ensina que o dinheiro é como uma compra.
Se alguém achou um cesto num lugar onde a maioria leva ao mercado, é proibido comer dele ocasionalmente, e conserta-o como demai. Num lugar onde a maioria leva às casas, é permitido comer dele ocasionalmente, e conserta-o como certo (tevel). Metade e metade — conserta-o como demai; se o levar para casa, conserta-o como certo. Rabi Yoná perguntou: pode o demai tornar-se sujeito a tevel certo ao ser levado para casa? Se dizes que sim, não se encontraria ele antecipando-se a um tratamento já concluído? Rabi Yossei filho de Rabi Bun, Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon ben Yotzadak: é preciso estipular e dizer: "se é daquele tipo de cesto que se leva ao mercado, o que fiz está feito; e se não, não fiz nada" — para que não seja daquele que se leva às casas, e se encontre a teruma do dízimo em estado de tevel quanto à grande teruma. Metade e metade no campo — conserta-o como demai; se o leva para casa, conserta-o como certo. E há receio de dizer que talvez seja daquele que se leva para casa, e se encontre a grande teruma em estado de tevel quanto à teruma do dízimo? Disse Rabi Matanya: resolve-se isso designando um nome (estipulação verbal prévia) sobre os seus dízimos.
Até agora, tratava-se de coisa que não tem eira (processamento agrícola formal); mas quanto a coisa que tem eira, separa-se apenas a teruma do dízimo, e não é necessário separar a grande teruma — como se ensinou: se alguém achou frutos já nivelados (prontos, empilhados após o processamento) no campo — se estavam ajuntados, é proibido por causa de roubo; se estavam espalhados, é permitido por causa de roubo. De um modo ou de outro, estão obrigados nos dízimos e isentos da grande teruma, pois é impossível que uma eira seja constituída, a não ser que já se tenha separado teruma dela.
De onde se tiram os dízimos — da casa ou do campo? Ouçamo-lo disto: um chaver (companheiro fiel na observância dos dízimos) que morreu e deixou um celeiro cheio de frutos, ainda que os tenha trazido para lá naquele mesmo dia, eis que se presumem consertados (já dizimados). Mas será possível que a sua mente não se tenha perturbado nem uma só hora antes de morrer? Disse Rabi Bun bar Chiyah: explica-se que morreu em plena serenidade (lúcido e consciente). Rabi Chananiá em nome de Rabi Pinchas ouviu-o disto: "um dízimo que hei de medir no futuro, dou-o a Akivá ben Yossef, para que ele o faça merecer aos pobres" — isto ensina que se tiram da casa. Rabi Chiya bar Aba ouviu-o disto: aquele cujos frutos estavam no celeiro, e deu uma seá ao filho de Levi (o levita) e uma seá ao pobre — isto ensina que se tiram da casa. Rabi Aba Mari ouviu-o disto: "da casa" refere-se à chalá (a oferenda da massa, lei distinta da dos dízimos) — isto ensina o oposto, que se tiram do campo.
Esta é a primeira halachá do Perek Guimel de Massechet Maasrot, abrindo o terceiro capítulo: a Mishná ensina que quem passa figos pelo pátio para secarem, seus filhos e os membros da sua casa podem comer isentos, e os trabalhadores também, salvo se têm sustento a cargo do dono; quem leva trabalhadores ao campo com sustento a seu cargo só come um a um da figueira, nunca do cesto, dos cestos grandes ou do depósito; e o trabalhador contratado sob condição de comer azeitonas ou verduras também só um a um, sob pena de ficar obrigado se ajuntar.
A guemará discute se o próprio dono pode comer do depósito — Rav proíbe, Rabi Lazar permite —, conciliando com Rabi Meir e Rabi quanto ao mukzeh; explica a diferença entre o dono e os filhos, estendendo a questão à manutenção e à moradia da esposa. Traz a mishná de Rabi sobre quem entra do campo para a cidade e fica sujeito a tevel; o episódio de Rabi e Rabi Yossei bar Rabi Yehudá levando o cesto atrás dos jardins, e a repreensão de Rabi Yudá bar Rabi Ilai lembrando o rigor de Rabi Akiva.
Segue as posições encadeadas de Rabi Yochanan, Reish Lakish, Rabi Shimon bar Yochai e Rabi Eliezer sobre o pátio guardado, o rigor do Shabat quanto ao mukzeh, e a extensão progressiva da permissão de quem começou a comer por caminho lícito — matéria que toca de perto os princípios do mukzeh centrais ao Talmud Bavli, Massechet Shabat, ainda que sem um paralelo textual direto e verificado nesta halachá. Traz a explicação de Rabi Yitzchak equiparando o depósito ao ajuntado; a discussão de Rabi Chaggai com os colegas sobre se a isenção se deve a comer ocasionalmente ou ao hefker; a pergunta de Rabi Yoná e de Rabi Maná sobre o dinheiro pago em lugar do fruto; o caso do cesto achado e a estipulação de Rabi Shimon ben Yotzadak; a regra do produto sem eira; e fecha perguntando de onde se tiram os dízimos — da casa ou do campo — com três provas e uma leitura em sentido contrário.
Com esta halachá, abre-se o Perek Guimel de Massechet Maasrot, que terá ao todo quatro halachot.