Talmud Yerushalmi · Massechet Bikurim · Perek Guimel · Halachá 4
בִּכּוּרִים

O rei leva o cesto, a declaração dos bikurim e os cestos de ricos e pobres

Perek Guimel, Halachá 4, no Talmud Yerushalmi, Massechet Bikurim

Quarta halachá do Perek Guimel de Massechet Bikurim, o terceiro e último capítulo. A Mishná acompanha o cortejo dos bikurim desde o Monte do Templo: até o rei Agripas carrega o cesto sobre o ombro; na azará os leviim cantam (Tehilim 30:2); o dono recita a declaração (Devarim 26:3-10), o cohen move o cesto com ele, e o cesto é depositado ao lado do altar. Antigamente só quem não sabia ler repetia depois do cohen; depois instituíram que todos repetissem. A guemará lê a Mishná à luz de Devarim 26:4, explica onde se penduravam os pombinhos, discute a repetição de “Declaro hoje”, o depósito de frutos trazidos antes do tempo, o lugar exato junto ao altar e a recitação individual, e termina com as traduções aramaicas da Torá que devem ser corrigidas.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הֶחָלִיל מַכֶּה לִפְנֵיהֶם עַד שֶׁמַּגִּיעין לְהַר הַבָּיִת. הִגִּיעוּ לְהַר הַבָּיִת אֲפִילוּ אַגְרִיפַּס הַמֶּלֶךְ נוֹטֵל הַסָּל עַל כְּתֵיפוֹ וְנִכְנָס עַד שֶּׁהוּא מַגִּיעַ לָעֲזָרָה. הִגִּיעַ לָעֲזָרָה וְדִבְּרוּ הַלְּוִיִּם בַּשִׁיר אֲרוֹמִמְךָ יי כִּי דִילִיתָנִי וְלֹא שִׂמַּחְתָּ אוֹיְבַי לִי. הַגּוֹזְלוֹת שֶׁעַל הַסַּלִּים הָיוּ עוֹלוֹת וּמַה שֶׁבְּיָדָם נוֹתְנִין לַכֹּהֲנִים. עוֹדֵינוּ הַסַּל עַל כְּתֵיפוֹ קוֹרֵא מֵהִגַּדְתִּי הַיּוֹם לַיי אֱלֹהֶיךָ עַד שֶׁהוּא גוֹמֵר כָּל הַפָּרָשָׁה. רִבִּי יוּדָה אוֹמֵר עַד אֲרַמִּי אוֹבֵד אָבִי. הִגִּיעַ לַאֲרַמִּי אוֹבֵד אָבִי מוֹרִיד הַסַּל מִן כְּתֵיפוֹ וְאוֹחֲזוֹ בִּשְׂפָתָיו וְכֹהֵן מַנִּיחַ יָדוֹ תַּחְתָּיו וּמְנִיפוֹ. וְקוֹרֵא מֵאֲרַמִּי אוֹבֵד אָבִי עַד שֶׁהוּא גוֹמֵר כָּל הַפָּרָשָׁה. וּמַנִּיחוֹ בְּצַד הַמִּזְבֵּחַ וְהִשְׁתַּחֲוָה וְיָצָא. בָּרִאשׁוֹנָה כָּל מִי שֶׁהוּא יוֹדֵעַ לִקְרוֹת קוֹרֵא וְכָל מִי שֶׁאֵינוֹ יוֹדֵעַ לִקְרוֹת מַקְרִין לְפָנָיו. נִמְנְעוּ מִלְּהָבִיא הִתְקִינוּ שֶׁיְּהוּ מַקְרִין אֶת מִי שֶׁהוּא יוֹדֵעַ וְאֶת מִי שֶׁאֵינוֹ יוֹדֵעַ. הָעֲשִׁירִים מְבִיאִין אֶת בִּיכּוּרֵיהֶן בְּקָלָתוֹת שֶׁלְכֶּסֶף וְשֶׁלְזָהָב וְהָעֲנִיִים מְבִיאִין אוֹתָן בְּסַלֵּי נְצָרִים שֶׁלְעֲרָבָה קְלוּפָה וְהַסַּלִּים וְהַבִּיכּוּרִים נוֹתְנִים לַכֹּהֲנִים.

Mishná: A flauta toca diante deles até que chegam ao Monte do Templo. Quando chegaram ao Monte do Templo, até mesmo o rei Agripas toma o cesto sobre o seu ombro e entra, até que chega à azará (o pátio do Templo). Quando chegou à azará, os leviim (os levitas) falaram com o cântico: “Exaltar-Te-ei, Eterno, porque me tiraste do fundo e não alegraste os meus inimigos por minha causa” (Tehilim 30:2). Os pombinhos que vinham sobre os cestos eram oferecidos como olot (holocaustos), e o que levavam nas suas mãos eles dão aos cohanim.

Enquanto o cesto ainda está sobre o seu ombro, ele lê desde “Declaro hoje ao Eterno, teu Deus” (Devarim 26:3) até que termina toda a passagem. Rabi Yudá diz: lê assim até “Um arameu queria destruir meu pai” (Devarim 26:5). Quando chegou a “Um arameu queria destruir meu pai”, desce o cesto do seu ombro e o segura pelas suas bordas, e o cohen põe a sua mão debaixo dele e o move no gesto da tenufá (o balançar ritual). E então lê desde “Um arameu queria destruir meu pai” até que termina toda a passagem, e o deposita ao lado do altar, prostra-se e sai.

Antigamente, todo aquele que sabe ler, lê por si mesmo; e todo aquele que não sabe ler, fazem-no recitar repetindo diante dele, palavra por palavra. Quando as pessoas deixaram de trazer os bikurim, por vergonha de não saber ler, instituíram que se fizesse recitar assim tanto aquele que sabe como aquele que não sabe.

Os ricos trazem os seus bikurim em kelatot (cestos) de prata e de ouro, e os pobres os trazem em cestos de vime de salgueiro descascado; e tanto os cestos quanto os bikurim são dados aos cohanim.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01Rav Huna: o cohen toma o cesto da tua mão
Yerushalmi · Bikurim 3:4
רַב הוּנָא אָמַר כֵּינִי מַתְנִיתָא וְלָקַח הַכֹּהֵן הַטֶּנֶא מִיָּדֶיךָ.

Rav Huna disse: assim se deve entender a Mishná, à luz do versículo: “E o cohen tomará o tene (o cesto) da tua mão” (Devarim 26:4), isto é, é o cohen quem recebe o cesto da mão do próprio dono, e por isso até o rei o carrega pessoalmente.

02Dádiva junto de dádiva: a ordem trocada da Mishná
Yerushalmi · Bikurim 3:4
אִית תַּנָּיֵי תַנֵּי מַחֲלִף. כְּדֵי לִסְמוֹךְ מַתָּנָה לְמַתָּנָה.

Há tannaim (mestres da época da Mishná) que ensinam a Mishná com a ordem trocada, a fim de juntar uma dádiva a outra dádiva, isto é, logo depois de “o que levavam nas suas mãos dão aos cohanim” colocam “os cestos e os bikurim são dados aos cohanim”.

03Os pombinhos pendurados do lado de fora dos cestos
Yerushalmi · Bikurim 3:4
תַּנֵּי רִבִּי יוֹסֵי. לֹא הָיוּ נוֹתְנִין אֶת הַגּוֹזְלוֹת עַל גַּבֵּי הַסַּלִּין שֶׁלֹּא יְנַבְּלוּ הַבִּיכּוּרִין אֶלָּא תוֹלֶה אוֹתָן חוּץ לַסַּלִּים.

Rabi Yossi ensinou: não punham os pombinhos em cima dos cestos, para que não sujassem os bikurim; antes, cada um os pendura do lado de fora dos cestos.

04Volta-se a “Declaro hoje”? Já declarei
Yerushalmi · Bikurim 3:4
תַּנֵּי חַד סָב קוֹמֵי רִבִּי זְעִירָא. חוֹזֵר לְהִגַּדְתִּי הַיּוֹם. וְכִי יֵשׁ אָדָם מַגִּיד חוֹזֵר וּמַגִּיד. קִיַימּוּנָהּ כְּבָר הַגַּדְתִּי.

Um ancião ensinou diante de Rabi Zeirá: depois de baixar o cesto, a pessoa volta a ler desde “Declaro hoje”. Objetaram: e por acaso há alguma pessoa que declara e volta a declarar? Os sábios sustentaram-na explicando que ele diz: “Já declarei”, isto é, a repetição não é uma declaração nova, mas a lembrança da que já foi feita.

05Depositar os frutos antes do tempo, ou à noite
Yerushalmi · Bikurim 3:4
הוּנָא בָּעֵי. הֲנָחָה מַהוּ שֶׁתַּתִּיר לִמְחוּסְּרֵי זְמָן. אָמַר רַב מַּתַּנְיָיה הָדָא דְּתֵימַר בְּשֶׁחָזַר וּנְטָלָן. אֲבָל אִם הָיוּ בִּמְקוֹמָן כֶּהִנִּיחָן הֵן. רִבִּי יוֹנָה בָּעֵי. הִנִּיחָן בַּלַּיְלָה.

Huna perguntou: o depositar os bikurim ao lado do altar, o que dizer? Será que permite os frutos daqueles a quem falta tempo, isto é, que foram trazidos antes de Shavuot, quando ainda não é tempo da declaração? Rav Matanyá disse: isto que dizes vale quando ele voltou e os tomou de lá; mas se ficaram no seu lugar, eles são como se ele agora os tivesse depositado, quando o tempo chega. Rabi Yoná perguntou: e se os depositou à noite, quando não se faz o serviço do Templo?

06Onde se depositam: o canto sudoeste do altar
Yerushalmi · Bikurim 3:4
מַנִּיחָן בְּקֶרֶן דְּרוֹמִית מַעֲרָבִית. לִפְנֵי יי. יָכוֹל בְּמַעֲרָב. תַּלְמוּד לוֹמַר אֶל פְּנֵי הַמִּזְבֵּחַ. אִי לִפְנֵי הַמִּזְבֵּחַ יָכוֹל בְּדָרוֹם. תַּלְמוּד לוֹמַר לִפְנֵי יי. הָא כֵּיצַד. מַגִּישָׁן עַל קֶרֶן דְּרוֹמִית מַעֲרָבִית וּמַנִּיחָהּ בִּדְרוֹמָה שֶׁלְקֶרֶן.

A pessoa os deposita no canto sudoeste do altar. Pois o versículo diz: “Diante do Eterno” (Devarim 26:10); poderia ser no oeste, diante do santuário? O ensinamento diz: “Para a face do altar” (Devarim 26:4). Se é diante do altar, poderia ser no sul, onde fica a rampa? O ensinamento diz: “Diante do Eterno”. Como assim? A pessoa os aproxima do canto sudoeste e deposita o cesto no sul do canto, cumprindo assim os dois versículos.

07“E responderás e dirás”: a recitação de cada um
Yerushalmi · Bikurim 3:4
תַּנֵּי. אֵין עֲנִיָיה אֶלָּא מִפִּי אֶחָד. וְלֹא עוֹד אֶלָּא שֶׁסָּמְכוּ לְמִקְרָא וְעָנִיתָ וְאָמַרְתָּ.

Foi ensinado: não há aniyá (o “responder” da declaração) senão da boca de um, isto é, cada um recita a declaração individualmente. E não só isso, mas apoiaram-se para fazer todos repetirem depois do cohen no versículo: “E responderás e dirás” (Devarim 26:5), pois responder é repetir o que outro disse.

08Trazer os bikurim em travessas de prata?
Yerushalmi · Bikurim 3:4
רִבִּי יוֹנָה בָּעֵי מַהוּ לַהֲבִיאָן בְּתַמְחוּיִין שֶׁלְכֶּסֶף.

Rabi Yoná perguntou: o que dizer de trazê-los em tamchuyin (grandes travessas) de prata, em vez de cestos?

09Traduções que se corrigem: mana, yarkonin e torin
Yerushalmi · Bikurim 3:4
רִבִּי יוֹנָה וְרִבִּי יִרְמְיָה. חַד אָמַר מְחַזֵּר מָנָא. וֶחָרָנָה אָמַר מְחַזֵּר פַּטִּירִין עִם יַרְקוֹנִין. דְּאַתְּ אָמַר פַּטִּירִין עִם מְרוֹרִין. וְלָא יָדְעִינָן מָאן אָמַר דָּא וּמָאן אָמַר דָּא. מִן מַה דְּאָמַר רִבִּי יוֹנָה מַהוּ לַהֲבִיאָן בְּתַמְחוּיִין שֶׁלְכֶּסֶף. הֲוֵי הוּא דְּאָמַר דִּמְחַזֵּר מָנָא. דִּי אָמַר סַלָּה. (דִּ)רִבִּי פִינְחָס אָמַר. מְחַזֵּר פַּטִּימִין בְּנֵי תוֹרִין. דִּי אָמַר תּוֹרִין וּבְנֵי תוֹרִין.

Rabi Yoná e Rabi Yirmiyá divergiram sobre traduções aramaicas da Torá que devem ser corrigidas. Um disse: o tradutor que diz mana (vaso) para o cesto dos bikurim é feito voltar atrás. E o outro disse: quem diz patirin im yarkonin (ázimos com verduras) para “matzot e merorim” (Bamidbar 9:11) é feito voltar atrás, pois tu deves dizer patirin im merorin (ázimos com ervas amargas). E não sabemos quem disse isto e quem disse aquilo. Pelo que disse Rabi Yoná: “O que dizer de trazê-los em tamchuyin de prata?”, conclui-se que é ele quem disse que quem diz mana é feito voltar atrás, pois para ele o tipo de recipiente importa; e o tradutor deve dizer salá (cesto). Rabi Pinchas disse: quem diz patimin benei torin (engordados, filhos de bois) para “novilho, filho de gado” (Vayikra 4:3) é feito voltar atrás, pois deve dizer torin uvenei torin (bois e filhos de bois).

Nota

Esta é a quarta halachá do Perek Guimel de Massechet Bikurim, o terceiro e último capítulo. A halachá anterior terminou com o lamento sobre Rabi Yochanan e as nomeações dos sábios (“Abahu, o calçado, foi nomeado; Shimon, o do pó, não foi nomeado!”); esta Mishná retoma o cortejo dos bikurim desde o Monte do Templo: o rei Agripas carrega o próprio cesto, os leviim cantam Tehilim 30:2, os pombinhos são oferecidos como holocaustos, e o dono recita a declaração de Devarim 26:3-10 com o cesto sobre o ombro e depois o deposita ao lado do altar. Fala ainda da instituição de fazer todos repetirem a declaração depois do cohen e dos cestos dos ricos e dos pobres. Corresponde às Mishnayot Bikurim 3:4, 3:5, 3:6, 3:7 e 3:8 da Mishná avulsa, inteiras.

A guemará lê a Mishná à luz de Devarim 26:4, explica a ordem trocada que alguns tannaim dão às frases, e como se penduravam os pombinhos. Discute se, segundo Rabi Yudá, se volta a dizer “Declaro hoje”, se o depósito dos frutos trazidos antes do tempo os torna permitidos e onde exatamente se depositam (Devarim 26:4 e 26:10). Termina com a recitação de cada um, a pergunta de Rabi Yoná sobre as travessas de prata e a lista de traduções aramaicas da Torá que devem ser corrigidas.

Observações de leitura. Na seção 06, o hebraico cita Devarim 26:4 com a forma “para a face do altar” (אֶל פְּנֵי הַמִּזְבֵּחַ), enquanto o versículo diz “diante do altar” (לִפְנֵי מִזְבַּח); e o último verbo está no feminino singular (מַנִּיחָהּ), traduzido aqui como referindo-se ao cesto. Na seção 07, o hebraico diz “da boca de um” (מִפִּי אֶחָד); Guggenheimer observa que o Sifrei tem “da boca de outro” (מִפִּי אַחֵר), que daria o sentido de que só se responde ao que outro disse; aqui se traduziu o hebraico do Yerushalmi. Na seção 09, o verbo מְחַזֵּר, que Guggenheimer traduz como “repete”, foi traduzido literalmente como “faz voltar”, isto é, corrigir a tradução. Ainda na seção 09, Guggenheimer indica aqui Vayikra 1:14 e entende “pombinhos”; mas em aramaico תּוֹרִין são bois, e o próprio Guggenheimer, no lugar paralelo (Yerushalmi Meguilá 4:1), remete a Vayikra 4:3, “novilho, filho de gado” (פַּר בֶּן בָּקָר), que Onkelos traduz por “boi, filho de bois”; seguiu-se esta última referência. O lugar principal desta seção é Meguilá 4:1, e ela aparece aqui por causa da pergunta de Rabi Yoná na seção 08. Na seção 05, o hebraico tem apenas “Huna”, sem título. Na Mishná, o texto deste Yerushalmi tem pequenas diferenças em relação à Mishná avulsa (por exemplo, “Rabi Yudá” em vez de “Rabi Yehudá”, “fazem recitar diante dele” em vez de “fazem-no recitar”), sem mudança de sentido.