Talmud Yerushalmi · Massechet Bikurim · Perek Bet · Halachá 6 (última do perek)
בִּכּוּרִים

O koy entre a chayá e a behemá: o sangue, o chelev, as dádivas do cohen e o voto de nazir

Perek Bet, Halachá 6, no Talmud Yerushalmi, Massechet Bikurim — encerramento do capítulo

Sexta e última halachá do Perek Bet de Massechet Bikurim. A Mishná ensina que o koy, animal de classificação duvidosa, é em alguns caminhos igual à chayá, o animal selvagem, em outros igual à behemá, o animal doméstico, em outros igual a ambas e em outros diferente de ambas. A guemará traz a disputa entre Rabi Elazar e os rabanim sobre o que é o koy; o primogênito do jumento resgatado com um koy; o asham talui pelo seu chelev e o ensino de Rav; o dinheiro do maasser e a carne de desejo; as dádivas do cohen; a consagração, segundo Rabi; o voto de nazir; e a pergunta de Rabi Chagai a Rabi Yossi.

A Mishná · מַתְנִיתִין

כּוֹי יֵשׁ בּוֹ דְרָכִים שָׁוֶה לַחַיָּה וְיֵשׁ בּוֹ דְרָכִים שָׁוֶה לַבְּהֵמָה וְיֵשׁ בּוֹ דְרָכִים שָׁוֶה לַבְּהֵמָה וְלַחַיָּה וְיֵשׁ בּוֹ דְרָכִים שֶׁאֵינוֹ שָׁוֶה לֹא לַבְּהֵמָה וְלֹא לַחַיָּה. כֵּיצַד שָׁוֶה לַחַיָּה. דָּמוֹ טָעוּן כִּיסּוּי כְדַם חַיָּה וְאֵין שׁוֹחֲטִים אוֹתוֹ בְּיוֹם טוֹב. וְאִם שְׁחָטוֹ אֵין מְכַסִּין אֶת דָּמוֹ. וְחֶלְבּוֹ מִטַּמֵּא בְּטוּמְאַת נְבֵילָה כַחַיָּה. וְטוּמְאָתוֹ בְּסָפֵק וְאֵין פּוֹדִין בּוֹ פֶּטֶר חֲמוֹר. כֵּיצַד שָׁוֶה לַבְּהֵמָה. חֶלְבּוֹ אָסוּר כְּחֵלֶב בְּהֵמָה וְאֵין חַיָיבִין עָלָיו כָּרֵת. וְאֵינוֹ נִלְקָח בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר לֶאֱכוֹל בִּירוּשָׁלֵם וְחַיָיב בִּזְרוֹעַ וּבִלְחָיַיִם וּבַקֵּיבָה. רִבִּי לָעְזָר פּוֹטֵר שֶׁהַמּוֹצִיא מֵחֲבֵירוֹ עָלָיו הָרְאָיָה. כֵּיצַד אֵינוֹ שָׁוֶה לַחַיָּה וְלַבְּהֵמָה. אָסוּר מִשּׁוּם כִּלְאַיִם עִם הַחַיָּה וְעִם הַבְּהֵמָה. הַכּוֹתֵב חַיָיתוֹ וּבְהֵמָתוֹ לִבְנוֹ לֹא כָתַב לוֹ אֶת הַכּוֹי. אִם אָמַר הֲרֵינִי נָזִיר שֶׁזֶּה חַיָּה אוֹ בְּהֵמָה הֲרֵי הוּא נָזִיר. וּשְׁאָר כָּל הַדְּרָכָיו שָׁוִים לַחָיָּה וְלַבְּהֵמִה וְטָעוּן שְׁחִיטָה כָּזְה וְכָזֶה. וּמְטַמֵּא מִשּׁוּם נְבֵלָה וּמִשּׁוּם אֵבֶר מִן הַחַי כָּזְה וְכָזֶה.

Mishná: O koy (animal de classificação duvidosa entre chayá e behemá) tem caminhos em que é igual à chayá (o animal selvagem), tem caminhos em que é igual à behemá (o animal doméstico), tem caminhos em que é igual à behemá e à chayá, e tem caminhos em que não é igual nem à behemá nem à chayá. Como é igual à chayá? O seu sangue requer kissui hadam (a cobertura do sangue com terra), como o sangue da chayá; e não se o abate no Yom Tov (o dia festivo), pois não se remove terra no Yom Tov para um caso de dúvida; e, se o abateu, não se cobre o seu sangue no Yom Tov. E o seu chelev (a gordura) se torna impuro com a impureza de nevelá (a carcaça), como o da chayá; e a sua impureza é apenas em dúvida. E não se resgata com ele o péter chamor (o primogênito do jumento). Como é igual à behemá? O seu chelev é proibido como o chelev da behemá, mas não se é culpado por ele da pena de karet (a extirpação); e não é comprado com o dinheiro do maasser (o segundo dízimo) para ser comido em Jerusalém; e está obrigado à zeroa (a pata dianteira), às lechayayim (as queixadas) e à keivá (o estômago), que se dão ao cohen. Rabi Elazar o isenta, pois quem reclama algo do seu companheiro, sobre ele recai a prova. Como não é igual nem à chayá nem à behemá? É proibido por causa de kilayim (a mistura de espécies) com a chayá e com a behemá. Quem escreve em doação a sua chayá e a sua behemá para o seu filho não lhe escreveu o koy. Se disse: eis que sou nazir (nazireu) se isto é chayá ou behemá, eis que ele é nazir. E todos os seus demais caminhos são iguais aos da chayá e da behemá: requer shechitá (o abate ritual), como esta e como aquela, e torna impuro por causa de nevelá e por causa de ever min hachai (o membro arrancado de um animal vivo), como esta e como aquela.

A Halachá · הֲלָכָה ו

01O que é o koy: híbrido ou espécie própria
Yerushalmi · Bikurim 2:6
אֵי זֶהוּ כּוֹי. אָמַר רִבִּי לָעְזָר עֵז שֶׁעָלָה עַל גַּבֵּי צְבִי וּצְבִי שֶׁעָלָה עַל גַּבֵּי עִיזָּה. וְרַבָּנִין אָמְרִין מִין הוּא עִיקָּרוֹ וְלֹא יָכְלוּ חֲכָמִים לַעֲמוֹד עָלָיו.

Qual é o koy? Disse Rabi Elazar: é a cria de um bode que montou sobre uma corça, ou de um cervo que montou sobre uma cabra. E os rabanim dizem: é uma espécie própria na sua origem, e os sábios não conseguiram determinar a sua natureza, se é chayá ou behemá.

02O primogênito do jumento resgatado com um koy
Yerushalmi · Bikurim 2:6
פָּדוּי בְּכוֹי חוֹזֵר וּפוֹדֶה בְשֶׂה. לְפִיכָךְ אִם מֵת אֶחָד מֵהֶן הַמּוֹצִיא מֵחֲבֵירוֹ עָלָיו הָרְאָיָה.

O primogênito do jumento que foi resgatado com um koy, volta-se e resgata-o de novo com um cordeiro ou cabrito. Por isso, se um deles morreu, o koy ou o primogênito, quem reclama algo do seu companheiro, sobre ele recai a prova.

03O chelev do koy, o asham talui e o ensino de Rav
Yerushalmi · Bikurim 2:6
מַתְנִיתָא דְלֹא כְרִבִּי לָעְזָר. דְּתַנֵּי רִבִּי לָעְזָר אוֹמֵר כּוֹי (אֵין) חַיָיבִין עַל חֶלְבּוֹ אָשָׁם תָּלוּי. מַתְנִיתָא דְּלֹא כְרַב. דְּרַב [אָמַר] כָּל שֶׁאֵיפְשַׁר לַעֲמוֹד עַל וַודָּאוֹ לֹא יְהוּ חַיָיבִין עַל סְפֵיקוֹ אָשָׁם תָּלוּי. פָּתַר לָהּ חֲלוּקִין עַל דִּבְרֵי רִבִּי לָעְזָר.

A Mishná não é segundo Rabi Elazar, pois se ensinou: “Rabi Elazar diz: pelo chelev do koy, é-se obrigado a trazer um asham talui (a oferta de culpa suspensa, trazida na dúvida).” E esse ensino não é segundo Rav, pois Rav disse: tudo aquilo cuja certeza não é possível apurar, não se é obrigado, pela sua dúvida, a trazer um asham talui. Rav o explica assim: os sábios divergem das palavras de Rabi Elazar, e ele segue os sábios.

04O dinheiro do maasser e a carne de desejo
Yerushalmi · Bikurim 2:6
וַאֲפִילוּ בַּשָּׁעָה שֶּׁהָיוּ לוֹקְחִין בְּהֵמָה לִבְשַׂר תַּאֲוָה אֵינוֹ נִלְקָח מַעֲשֵׂר לֵיאָכֵל בִּירוּשָׁלֵם.

E mesmo na época em que se compravam com o dinheiro do maasser animais para bessar taavá (a carne de desejo, isto é, a carne comum, não sacrificial), o koy não era comprado com o dinheiro do maasser para ser comido em Jerusalém.

05As dádivas do cohen: Rabi Elazar isenta, os rabanim obrigam
Yerushalmi · Bikurim 2:6
וְחַיָיב בִּזְרוֹעַ וּבִלְחָיַיִם וּבַקֵּיבָה. רִבִּי לָעְזָר פּוֹטֵר. רִבִּי לָעְזָר דּוּ אָמַר עַכְשָׁיו הוּא נִסְתַּפֵּק לוֹ דּוּ אָמַר פָּטוּר. וְרַבָּנִין דִּינוּן מָרִין מִין הוּא עִיקָּרוֹ. אִינּוּן אָמְרִין חַיָיב.

“E está obrigado à zeroa, às lechayayim e à keivá; Rabi Elazar o isenta.” Rabi Elazar, que diz que o koy é um híbrido e que só agora a sua condição se tornou duvidosa para ele, diz que está isento. E os rabanim, que ensinam que é uma espécie na sua origem, eles dizem que está obrigado.

06A consagração da chayá e da behemá: a opinião de Rabi
Yerushalmi · Bikurim 2:6
מַתְנִיתָא דְּלָא כְרִבִּי. דְּתַנֵּי הִקְדִּישׁ חַיָיתוֹ וּבְהֵמָתוֹ לֹא הִקְדִּישׁ אֶת הַכּוֹי. רִבִּי אוֹמֵר הִקְדִּישׁ אֶת הַכּוֹי.

A Mishná não é segundo Rabi (Rabi Yehudá HaNassi), pois se ensinou: “Se alguém consagrou a sua chayá e a sua behemá, não consagrou o koy. Rabi diz: consagrou o koy.”

07O voto de nazir sobre o koy
Yerushalmi · Bikurim 2:6
אָמַר הֲרֵינִי נָזִיר שֶׁזֶּה חַיָּה. נָזִיר. שֶׁזֵּה בְּהֵמָה. נָזִיר. שֶׁאֵין זֶה חַיָּה. נָזִיר. שֶׁאֵין זֶה בְּהֵמָה. נָזִיר. שֶׁזֶּה חַיָּה וּבְהֵמָה. נָזִיר. שֶׁאֵין זֶה לֹא חַיָּה וְלֹא בְּהֵמָה. נָזִיר.

Ensina-se: “Se alguém disse: eis que sou nazir se isto é chayá, é nazir. Se disse: se isto é behemá, é nazir. Se isto não é chayá, é nazir. Se isto não é behemá, é nazir. Se isto é chayá e behemá, é nazir. Se isto não é nem chayá nem behemá, é nazir.”

08A pergunta de Rabi Chagai: os demais caminhos do koy
Yerushalmi · Bikurim 2:6
רִבִּי חַגַּיי בָּעֵא קוֹמֵי רִבִּי יוֹסֵי. לָמָּה לֹא תַנִּינָן הָרוֹבַע וְהַנִּרְבַּע מִמֶּינּוּ חַיָיב. אָמַר לֵיהּ תַנֶיתַהּ בְּסוֹפָהּ וּשְׁאָר כָּל דְּרָכָיו שָׁוִין לַחָיָּה וְלַבְּהֵמָה.

Rabi Chagai perguntou diante de Rabi Yossi: por que não aprendemos na Mishná que quem se deita com ele e quem é coberto por ele é culpado, como com a chayá e a behemá? Disse-lhe: aprendemo-lo no seu final: “e todos os seus demais caminhos são iguais aos da chayá e da behemá”, o que inclui também essa proibição.

Nota

Esta é a sexta e última halachá do Perek Bet de Massechet Bikurim. Corresponde às Mishnayot Bikurim 2:8, 2:9, 2:10 e 2:11 da Mishná avulsa, inteiras.

A Mishná classifica as leis do koy: como a chayá, o seu sangue deve ser coberto (Vayikrá 17:13), e por isso, sendo caso de dúvida, não se o abate no Yom Tov; o seu chelev se torna impuro como carne de nevelá, e ele não serve para resgatar o primogênito do jumento, que se resgata com um cordeiro (Shemot 13:13). Como a behemá, o seu chelev é proibido (Vayikrá 7:23), mas sem karet; não é comprado com o dinheiro do segundo dízimo; e está obrigado às dádivas do cohen (Devarim 18:3), embora Rabi Elazar o isente. Não é igual a nenhuma delas quanto a kilayim (Vayikrá 19:19), à doação, que não o inclui, e ao voto de nazir; e é igual a ambas quanto ao abate e à impureza de nevelá (Vayikrá 11:39) e de membro de animal vivo. A guemará traz a disputa sobre a natureza do koy, a consequência dela para o resgate do primogênito do jumento e para as dádivas do cohen, a opinião de Rabi Elazar sobre o asham talui (Vayikrá 5:17–19) diante do ensino de Rav, a regra do dinheiro do maasser mesmo quando se comprava carne de desejo (Devarim 12:20), a opinião de Rabi sobre a consagração, a baraita do voto de nazir e a pergunta de Rabi Chagai sobre quem se deita com o koy (Vayikrá 18:23; 20:15–16).

Observações de leitura. Na Mishná, o hebraico traz “se isto é chayá ou behemá”; Guggenheimer traduz “se isto não é nem chayá nem behemá”, conforme a seção 07; seguimos o hebraico. Na seção 02, segundo Guggenheimer, se o koy morreu, o cohen não pode exigir outro animal, pois não pode provar que recebeu algo que não era cordeiro ou cabrito; se o koy vive, o cohen o devolve e recebe o cordeiro. Na seção 03, o hebraico traz a palavra “não” entre parênteses antes de “é-se obrigado”, marcada para supressão na edição de Guggenheimer; traduzimos sem ela, e a grafia do ensino de Rav é lida, com Guggenheimer, como “tudo aquilo cuja certeza não é possível apurar”. Guggenheimer lê a frase sobre Rav como pergunta, “a Mishná não segue Rav?”, e entende que o Tanna anônimo da Mishná diverge de Rabi Elazar, de modo que Rav segue os sábios. Na seção 04, segundo ele, mesmo quando era permitido comprar carne comum com o dinheiro do segundo dízimo, só se compravam animais aptos para o altar ou claramente selvagens. A baraita da seção 07 corresponde à Mishná Nazir 5:7; segundo Guggenheimer, como cada uma dessas afirmações é em parte verdadeira, o voto vale em todos os casos. Na seção 08, segundo ele, Rabi Chagai entendia que a lista da Mishná era exaustiva, e Rabi Yossi responde que os casos são só exemplos.

Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Bet de Massechet Bikurim.