Talmud Yerushalmi · Massechet Bikurim · Perek Bet · Halachá 4
בִּכּוּרִים

O etrog, entre a árvore e a verdura: o dízimo pela colheita, o quinze de Shevat e o etrog de Rabi Akiva

Perek Bet, Halachá 4, no Talmud Yerushalmi, Massechet Bikurim

Quarta halachá do Perek Bet de Massechet Bikurim. A Mishná ensina que o etrog se iguala à árvore na orlá, no revai e no sheviit, e à verdura em que o seu dízimo se determina no momento da colheita, segundo Rabban Gamliel; Rabi Eliezer o iguala à árvore em tudo. A guemará pergunta como o etrog pode ser árvore e verdura ao mesmo tempo e traz a objeção de Rav Hamnuna à leitura babilônica; o ensino de Rabi Yochanan sobre os anos do ciclo sabático e a votação dos mestres; o quinze de Shevat como início do ano do etrog, mesmo no ano intercalado; e o episódio de Rabi Akiva, que observou as rigorosidades das duas opiniões.

A Mishná · מַתְנִיתִין

אֶתְרוֹג שָׁוֶה לָאִילָן בִּשְׁלֹשָׁה דְרָכִים וְלַיָּרָק בְּדֶרֶךְ אֶחָד. שָׁוֶה לָאִילָן בָּעָרְלָה וּבָרְבָעִי וּבַשְּׁבִיעִית. וְלַיָּרָק שֶׁבִּשְׁעַת לְקִיטָתוֹ אִישּׂוּרוֹ דִּבְרֵי רַבָּן גַּמְלִיאֵל. רִבִּי לִיעֶזֶר אוֹמֵר שָׁוֶה לָאִילָן בְּכָל דָּבָר.

Mishná: O etrog (a cidra) se iguala à árvore em três maneiras e à yarak (a verdura) em uma maneira. Iguala-se à árvore na orlá (a proibição dos frutos nos três primeiros anos da planta), no revai (os frutos do quarto ano, que se comem em Jerusalém) e no sheviit (o ano sabático); e à verdura se iguala em que é no momento da sua colheita que se determina o seu dízimo. Estas são as palavras de Rabban Gamliel. Rabi Eliezer diz: o etrog se iguala à árvore em todas as coisas, também quanto ao dízimo.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01Se é árvore, por que verdura? A objeção de Rav Hamnuna
Yerushalmi · Bikurim 2:4
אִם לָאִילָן לָמָּה לַיָּרָק. אִם לַיָּרָק לָמָּה לָאִילָן. תַּמָּן אָמְרִין נִכְנַס מִשִּׁשִּׁית לַשְּׁבִיעִית הֲרֵי הוּא לַבְּעָלִין כְּאִילָן וּפָטוּר מִמַּעְשְׂרוֹת כְּיָרָק. אָמַר לוֹן רַב הַמְנוּנָא. אָמְרִין דְּבַתְרָהּ. נִכְנַס מִשְּׁבִיעִית לַשְּׁמִינִית הֲרֵי הֶבְקֵר כְּאִילָן. וְחַיָיב בְּמַעְשְׂרוֹת כְּיָרָק. וְהֶבְקֵר חַיָיב בְּמַעְשְׂרוֹת.

Se o etrog é tratado como árvore, por que também como verdura? E se é tratado como verdura, por que também como árvore? Lá, na Babilônia, dizem: se o fruto passou do sexto ano para o sheviit, ele pertence aos donos, como o fruto da árvore, cujo ano se determina pela floração, e está isento dos maasserot (os dízimos), como a verdura, colhida no ano sabático. Disse-lhes Rav Hamnuna: dizei também o que vem depois: se o fruto passou do sheviit para o oitavo ano, eis que é hefker (sem dono), como o fruto da árvore, e está obrigado aos maasserot, como a verdura. E o hefker por acaso está obrigado aos maasserot?

02Verdura nos anos comuns, árvore no sheviit; a votação dos mestres
Yerushalmi · Bikurim 2:4
אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן בִּשְׁאָר שְׁנֵי שָׁבוּעַ אַתְּ מְהַלֵּךְ בּוֹ כְּיָרָק. וּבַשְּׁבִיעִית אַתְּ מְהַלֵּךְ בּוֹ כְּאִילָן. הֵיךְ עֲבִידָא. מֵחֲמִישִּׁית לְשִׁשִּׁית שִׁשִּׁית. מִשִּׁשִּׁית לַשְּׁבִיעִית שִׁשִּׁית. נִכְנַס מֵחֲמִישִּׁית לַשִּׁשִּׁית לַשְּׁבִיעִית. לְקָטָן בַּשְּׁבִיעִית שִׁשִּׁית. לְקָטָן מֵשִׁשִּׁית חֲמִישִּׁית. נִכְנַס מִשִּׁשִּׁית לַשְּׁבִיעִית לַשְּׁמִינִית. לְקָטוֹ בַּשְּׁמִינִית שְּׁמִינִית. רַבּוֹתֵינוּ חָזְרוּ וְנִמְנוּ אֶתְרוֹג בִּשְׁעַת לְקִיטָתוֹ עִיישּׂוּרוֹ לְמַעְשְׂרוֹת וְלַשְּׁבִיעִית.

Disse Rabi Yochanan: nos demais anos do ciclo sabático, tu o tratas como verdura; e no sheviit, tu o tratas como árvore. Como é isso? Se passou do quinto para o sexto ano, é do sexto. Se passou do sexto para o sheviit, é do sexto. Se o fruto passou do quinto para o sexto e para o sheviit: se os colheu no sheviit, são do sexto; se os colheu a partir do sexto, são do quinto. Se passou do sexto para o sheviit e para o oitavo: se o colheu no oitavo, é do oitavo. Nossos mestres voltaram a examinar a questão e votaram: no etrog, é no momento da sua colheita que se determina o seu dízimo, tanto para os maasserot quanto para o sheviit.

03O Rosh Hashaná do etrog: quinze de Shevat
Yerushalmi · Bikurim 2:4
רִבִּי יִרְמְיָה רִבִּי אִימִּי בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. רִבִּי סִימוֹן בְּשֵׁם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי. הַכֹּל מוֹדִין שֶׁרֹאשׁ הַשָּׁנָה שֶׁלֹּוֹ בְּט"ו בִּשְׁבָט. רִבִּי יוֹחָנָן שָׁאַל לְרִבִּי יוֹנָתָן. כְּסִדְרָן שֶׁלְּשָׁנִים אוֹ כְסִדְרָן שֶׁלִּתְקוּפוֹת. אָמַר לֵיהּ כְּסִדְרָן שֶׁלְּשָׁנִים וַאֲפִילוּ שָׁנָה מְעוּבֶּרֶת.

Rabi Yirmeya e Rabi Imi disseram em nome de Rabi Yochanan, e Rabi Simon disse em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: todos concordam que o seu Rosh Hashaná (o início do ano para o etrog) é no quinze de Shevat. Rabi Yochanan perguntou a Rabi Yonatan: o quinze de Shevat conta segundo a ordem dos anos do calendário ou segundo a ordem das tekufot (as estações do ano solar)? Disse-lhe: segundo a ordem dos anos, e mesmo num ano intercalado.

04O etrog de Rabi Akiva e as rigorosidades das duas escolas
Yerushalmi · Bikurim 2:4
מַעֲשֶׂה בְּרִבִּי עֲקִיבָה שֶׁלָּקַט אֶתְרוֹג וְנָהַג עָלָיו חוּמְרֵי בֵית שַׁמַּי וְחוּמְרֵי בֵית הִלֵּל. לָמָּה לִי [אֶתְרוֹג] אֲפִילוּ שְׁאָר כָּל הָאִילָן. תַּנֵּי כְּחוּמְרֵי רַבָּן גַּמְלִיאֵל וּכְחוּמְרֵי רִבִּי אֱלִיעֶזֶר. וְרַבָּן גַּמְלִיאֵל וְרִבִּי לִיעֶזֶר לֹא מִן בֵּית הִלֵּל אִינּוּן הֲווֹ. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי בּוּן. תִּיפְתָּר בְּשֶׁחָנַט קוֹדֶם לְט"ו בִּשְׁבָט שֶׁלַּשְּׁנִיָיה וְנִכְנְסָה שְׁלִישִׁית. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל עִישּׂוּרוֹ עָנִי. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי לִיעֶזֶר עִישּׂוּרוֹ שֵׁינִי. מַה עָשָׂה לוֹ. קָרָא שֵׁם לְמַעֲשֵׂר שֵׁינִי שֶׁבּוֹ וּפְדָייוֹ וְנוֹתְנוֹ לֶעָנִי.

Ensina-se: “Aconteceu com Rabi Akiva que colheu um etrog e observou sobre ele as rigorosidades de Beit Shamai e as rigorosidades de Beit Hilel.” Por que se menciona para mim um etrog? Isso valeria mesmo para todas as demais árvores! Ensinou-se numa outra versão: “segundo as rigorosidades de Rabban Gamliel e segundo as rigorosidades de Rabi Eliezer.” E Rabban Gamliel e Rabi Eliezer, não eram eles de Beit Hilel? Disse Rabi Yossi beRabi Bun: explica-se no caso em que o etrog floresceu antes do quinze de Shevat do segundo ano do ciclo e entrou o terceiro ano, quando foi colhido. Segundo a opinião de Rabban Gamliel, que segue a colheita, o seu dízimo é o maasser ani (o dízimo do pobre); segundo a opinião de Rabi Eliezer, que segue a floração, o seu dízimo é o maasser sheni (o segundo dízimo). Que fez Rabi Akiva com ele? Deu nome ao maasser sheni que há nele, resgatou-o e o deu ao pobre, cumprindo assim as duas opiniões.

Nota

Esta é a quarta halachá do Perek Bet de Massechet Bikurim. Corresponde à Mishná Bikurim 2:6 da Mishná avulsa, inteira.

A Mishná ensina que o etrog segue as leis da árvore quanto à orlá, ao revai e ao sheviit, e as da verdura quanto ao dízimo, que se determina pelo momento da colheita, segundo Rabban Gamliel; para Rabi Eliezer, segue as leis da árvore em tudo. A guemará pergunta como o etrog pode ser árvore e verdura ao mesmo tempo, e Rav Hamnuna refuta a leitura babilônica que somava as duas leniências; traz o ensino de Rabi Yochanan e a votação dos mestres; fixa no quinze de Shevat o início do ano do etrog, mesmo no ano intercalado; e explica o episódio de Rabi Akiva, que deu o maasser sheni do seu etrog ao pobre para cumprir as duas opiniões.

Observações de leitura. Na seção 01, segundo Guggenheimer, os babilônios liam a Mishná como se permitisse duas leniências contraditórias; a pergunta final, se o hefker está obrigado aos dízimos, mostra que essa leitura não se sustenta, pois o que é sem dono está isento dos dízimos. Na seção 02, a frase “se os colheu a partir do sexto, são do quinto” é concisa; Guggenheimer a traduz “se os colheu no sexto, são dizimados como do quinto”, sem outra explicação, e a tradução segue o hebraico. Segundo Guggenheimer, a votação dos mestres é a da Tosefta (Sheviit 4:21), que o Talmud Bavli (Rosh Hashaná 15a, Sucá 40a) situa em Ushá. Na seção 03, Guggenheimer explica que não se separa o dízimo dos frutos de um ano pelos de outro, e que, embora o dízimo do etrog se determine pela colheita, o seu ano começa no quinze de Shevat, como o das árvores; a pergunta de Rabi Yochanan é se essa data segue o calendário lunar ou a posição em relação às estações. Na seção 04, a palavra etrog, entre colchetes no hebraico, foi suprida pelo editor a partir do texto paralelo em Rosh Hashaná 1:1; segundo Guggenheimer, o episódio está na Tosefta (Sheviit 4:21) e no Talmud Bavli, Rosh Hashaná 14a, Eruvin 7a e Yevamot 15a.