Talmud Yerushalmi · Massechet Bikurim · Perek Alef · Halachá 6
בִּכּוּרִים

Duas árvores no campo do companheiro; de Shavuot a Sucot e de Sucot a Chanucá

Perek Alef, Halachá 6, no Talmud Yerushalmi, Massechet Bikurim

Sexta halachá do Perek Alef de Massechet Bikurim. A Mishná ensina que quem compra duas árvores dentro do campo do seu companheiro traz os bikurim e não recita, contra a opinião de Rabi Meir; que, se secou a fonte ou foi cortada a árvore, traz e não recita, contra a opinião de Rabi Yehudá; e que de Atzeret até Sucot traz e recita, e de Sucot até Chanucá traz e não recita, contra a opinião de Rabi Yehudá ben Beteirá. A guemará traz a pergunta de Rabi Yossi ben Chanina sobre quem compra uma única árvore; explica que Rabi Yehudá trata a árvore como os caules do cereal, relacionando-o à bênção “que cria o fruto da terra”; discute se quem compra um campo com a seara em pé traz bikurim, e se o vendedor que volta a comprar os frutos os traz, provando-o com a lei da paga da prostituta; e termina com os bikurim separados antes de Sucot ou de Chanucá, a divergência de Rabi Zeirá e a regra de que não se trazem do novo pelo velho.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַקּוֹנֶה שְׁנֵי אִילָנוֹת בְּתוֹךְ שֶׁל חֲבֵירוֹ מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא. רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר מֵבִיא וְקוֹרֵא. יָבַשׁ הַמַּעְיָין נִקְצַץ הָאִילָן מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר מֵבִיא וְקוֹרֵא. מִן הָעֲצֶרֶת וְעַד הֶחָג מֵבִיא וְקוֹרֵא. מִן הֶחָג וְעַד הַחֲנוּכָּה מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא. רִבִּי יְהוּדָה בֶּן בְּתֵירָה אוֹמֵר מֵבִיא וְקוֹרֵא.

Mishná: Quem compra duas árvores dentro do campo do seu companheiro traz os bikurim (primeiros frutos) e não recita a declaração, porque não adquiriu a terra em que elas estão. Rabi Meir diz: traz e recita, porque, segundo ele, quem compra duas árvores adquire também o solo. Se secou a fonte que regava o campo, ou se foi cortada a árvore, depois de separados os frutos, traz e não recita. Rabi Yehudá diz: traz e recita. Desde Atzeret (Shavuot) até a Festa de Sucot, traz e recita; desde a Festa até Chanucá, traz e não recita. Rabi Yehudá ben Beteirá diz: também então traz e recita.

A Halachá · הֲלָכָה ו

01Uma árvore ou duas: a pergunta de Rabi Yossi ben Chanina
Yerushalmi · Bikurim 1:6
רִבִּי יוֹסֵי בֶּן חֲנִינָה בָּעֵי. קָנָה אִילָן אֶחָד לֹא קָנָה קַרְקַע. שְׁנַיִם לֹא קָנָה קַרְקַע. אֶחָד אֵינוֹ מֵבִיא כָּל עִיקָּר. שְׁנַיִם מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא. אָמַר לֵיהּ רִבִּי לָעְזָר מִילִּין דִּצְרִיכִין לָרַבָּנִין בְּבֵית וַועֲדָא אַתְּ שְׁאִיל.

Rabi Yossi ben Chanina perguntou: se alguém comprou uma única árvore, não adquiriu o solo; se comprou duas, também não adquiriu o solo. Por que, então, de uma árvore não traz os bikurim de modo algum, e de duas traz e não recita? Rabi Elazar disse-lhe: tu perguntas coisas de que os rabanim ainda precisam no bet vaad (casa de reunião, a academia), isto é, uma questão que nem os sábios reunidos resolveram.

02Rabi Yudá trata a árvore como os caules do cereal
Yerushalmi · Bikurim 1:6
רִבִּי יוּדָה עֲבַד אֶת הָאִילָן כְּקַשִּׁים. תַּמָּן תִּנִּינָן בֵּירַךְ עַל פֵּירוֹת הָאִילָן בּוֹרֵא פְרִי הָאֲדָמָה יָצָא. רִבִּי חִזְקִיָּה בְּשֵׁם רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא דְּרִבִּי יוּדָה הִיא. דְּרִבִּי יוּדָה אָמַר עֲבַד אֶת הָאִילָן כְּקַשִּׁים. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי דִּבְרֵי הַכֹּל הִיא. פֵּירוֹת הָאִילָן בִּכְלַל פֵּירוֹת הָאֲדָמָה. וְאֵין פֵּירוֹת הָאֲדָמָה בִּכְלַל פֵּירוֹת הָאִילָן.

Rabi Yudá tratou a árvore como os caules do cereal: assim como o caule é ceifado e a terra continua a produzir, também a árvore cortada não interrompe a posse da terra, e por isso ele diz, na Mishná, que traz e recita. Ali, na Mishná de Berachot, ensinamos: “Se recitou a bênção sobre frutos da árvore com ‘que cria o fruto da terra’, cumpriu a obrigação.” Rabi Chizkiá, em nome de Rabi Yaakov bar Acha: essa Mishná é de Rabi Yudá, pois Rabi Yudá disse: tratou a árvore como os caules. Disse Rabi Yossi: essa Mishná é conforme as palavras de todos: os frutos da árvore estão incluídos na categoria dos frutos da terra, e os frutos da terra não estão incluídos na categoria dos frutos da árvore.

03O campo vendido com a seara em pé
Yerushalmi · Bikurim 1:6
רִבִּי בּוּן בַּר כַּהֲנָא בְּעָא קוֹמֵי רִבִּי אִילָא. מָכַר לוֹ שָׂדֶה בְּקָמָתָהּ. הַלּוֹקֵחַ מַהוּ שֶׁיָּבִיא מִּמֶּנָּה בִּיכּוּרִים. אָמַר לֵיהּ לָמָּה לָאו. עַד כְּדוֹן לַחָה. אֲפִילוּ יְבֵישָׁה. אָמַר לֵיהּ אֲפִילוּ יְבֵישָׁה אֲפִילוּ קְצוּרָה. מֵעַתָּה אֲפִילוּ חִיטִּין. כֵּן אָנוּ אוֹמְרִים הַלּוֹקֵחַ מִן הַשּׁוּק מֵבִיא בִּיכּוּרִין.

Rabi Bun bar Cahana perguntou diante de Rabi Ila: se alguém lhe vendeu um campo com a sua seara em pé, o comprador, o que é a lei quanto a trazer dela bikurim? Disse-lhe: por que não? Perguntou: até aqui, quando a seara ainda está úmida e cresce em poder do comprador; mas mesmo quando já está seca? Disse-lhe: mesmo seca, mesmo ceifada. Perguntou: de agora em diante, traria mesmo de grãos de trigo que comprou? Assim diremos que quem compra no mercado traz bikurim?

04O vendedor que volta a comprar os frutos: a paga da prostituta
Yerushalmi · Bikurim 1:6
פְּשִׁיטָא הָדָא מִילְתָא. מָכַר לוֹ פֵּירוֹת וְשִׁיֵיר לוֹ קַרְקַע הַמּוֹכֵר אֵינוֹ יָכוֹל לְהָבִיא שֶׁאֵין לוֹ פֵירוֹת. חָזַר וּלְקָחָן מִמֶּנּוּ. נִישְׁמְעִינָהּ מִן הָדָא. נָתַן לָהּ קֳדָשִׁים הֲרֵי אֵילּוּ מוּתָּרִין. יֵינוֹת שְׁמָנִין וּסְלָתוֹת כָּל דָּבָר שֶׁכְּיוֹצֵא בוֹ קָרֵב לְגַבֵּי הַמִּזְבֵּחַ אָסוּר. אֵין בִּכְלָל אֶלָּא פַרְכִּירֵי עֲנָבִים וַעֲטָרוֹת שֶׁלְשִׁיבֳּלִין. מַה נָן קַיָימִין. אִם בְּשֶׁנָּתַן לָהּ בְּאֶתְנַנָּהּ כָּךְ אָנוּ אוֹמְרִים הַלּוֹקֵחַ מִן הַשּׁוּק מֵבִיא בִּכּוּרִים. אֶלָּא כִּי נָן קַיָימִין בְּשֶׁהָיוּ הַגְּפָנִים מִשֶּׁלָּהּ וּמָכַר לוֹ פֵירוֹתֵיהֶן וְחָזַר וּנְתָנָם לָהּ בְּאֶתְנַנָּהּ. מִפְּנֵי שֶׁהָיָה אֶתְנַן. הָא לֹא הָיָה אֶתְנַן מֵבִיא. הָדָא אָמֶרָה חָזַר וּלְקָחָן מִמֶּנּוּ מֵבִיא.

Esta coisa é simples: se alguém lhe vendeu os frutos e reservou para si o solo, o vendedor não pode trazer bikurim, porque não tem frutos. E se voltou a comprá-los dele, o que é a lei? Ouçamo-lo a partir disto: “Se lhe deu, a uma prostituta, como paga, coisas consagradas, elas são permitidas para o altar; vinhos, azeites e farinhas finas, e toda coisa cuja semelhante é oferecida sobre o altar, é proibida.” E a última cláusula não inclui senão cachos de uvas e coroas de espigas, isto é, os bikurim. De que estamos tratando? Se de quando lhe deu esses frutos como seu etnan (paga de prostituta), assim diremos que quem compra no mercado traz bikurim? Mas é disto que estamos tratando: do caso em que as videiras eram dela, e lhe foram vendidos os seus frutos, e ele voltou a dá-los a ela como seu etnan. São proibidos porque foram etnan; portanto, se não tivessem sido etnan, ela os traria. Isto diz que, se o vendedor voltou a comprá-los dele, traz.

05Separados antes da Festa ou de Chanucá; o novo e o velho
Yerushalmi · Bikurim 1:6
חֲבֵרַיָיא בְשֵׁם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי. הִפְרִישָׁן קוֹדֶם לֶחָג וְעָבַר עֲלֵיהֶן הֶחָג מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא. הִפְרִישָׁן קוֹדֶם לַחֲנוּכָּה וְעָבְרָה עֲלֵיהֶן חֲנוּכָּה וְנִרְקָבוּ. לְאַחַר חֲנוּכָּה לֹא קָדְשֵׁי. וְלֵית לֵיהּ לְרִבִּי זְעִירָא כְּהָדָא דַחֲבֵרַיָיא. סָבַר רִבִּי זְעִירָא שֶׁכָּל הַבִּיכּוּרִים שֶׁנִּרְאוּ לִיתּוּר בָּאָרֶץ אֵינָן נִיתּוּרִין אֶלָּא בְקִרְיָיה. וְלֵית לַחֲבֵרַיָיא כֵּן. אִית לְהוֹן בְּשֶׁהִפְרִישָׁן קוֹדֶם לֶחָג לַהֲבִיאָן אַחַר הֶחָג. וְהָתַנִּינָן אֵין מְבִיאִין בִּכּוּרִים לֹא מִן הֶחָדָשׁ עַל הַיָּשָׁן וְלֹא מִן הַיָּשָׁן עַל הֶחָדָשׁ. מָה נָן קַיָימִין. אִם בְּפֵירוֹת שֶׁהֵבִיאוּ שְׁלִישׁ לְאַחַר רֹאשׁ הַשָּׁנָה עַל הַפֵּירוֹת שֶׁהֵבִיאוּ שְׁלִישׁ לְאַחַר רֹאשׁ הַשָּׁנָה. מִכִּיוָן שֶׁלֹּא הֵבִיאוּ שְׁלִישׁ לִפְנֵי רֹאשׁ הַשָּׁנָה דָּבָר בָּרוּר שֶׁלֹּא הִשְׁרִישׁוּ קוֹדֶם לָעוֹמֶר וְהֵן אֲסוּרִין עַד שֶׁיָּבוֹא הָעוֹמֶר וִיתִּירֵם. אֶלָּא כִּי נָן קַיָימִין בְּפֵירוֹת שֶׁחָנְטוּ קוֹדֶם טֹוֹ בִּשְׁבָט עַל פֵּירוֹת שֶׁחָנְטוּ אַחַר טֹוֹ בִּשְׁבָט. מִכִּיוָן שֶׁהוּא מִן חָדָשׁ עַל הַיָּשָׁן. הָוא מִן חָדָשׁ עַל חָדָשׁ מָבִיא. וְסָבְרִנָן מֵימַר לְאַחַר חֲנוּכָּה אֲנָן קַיָימִין. אָמַר רִבִּי חִינְנָא בִּזְמַנָּן.

Os chaverim (colegas), em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: se os separou antes da Festa de Sucot e a Festa passou sobre eles, traz e não recita. Se os separou antes de Chanucá e Chanucá passou sobre eles, deixam-se apodrecer, pois já não podem ser trazidos e estão proibidos para qualquer uso. Se os separou depois de Chanucá, não se tornam sagrados. E Rabi Zeirá não sustenta esta opinião dos colegas, porque Rabi Zeirá entende que todos os bikurim que foram aptos a ser permitidos na Terra não são permitidos senão com a recitação. E os colegas não sustentam assim? Sustentam; a palavra deles trata do caso em que os separou antes da Festa com a intenção de trazê-los depois da Festa, de modo que nunca estiveram sujeitos à recitação. Mas não ensinamos: “Não se trazem bikurim nem do novo pelo velho, nem do velho pelo novo”? De que estamos tratando? Se de frutos que atingiram um terço do amadurecimento depois de Rosh Hashaná, trazidos pelos frutos que atingiram um terço depois de Rosh Hashaná, não é preciso ensiná-lo: uma vez que não atingiram um terço antes de Rosh Hashaná, é coisa clara que não lançaram raízes antes do ômer, e estão proibidos até que venha o ômer e os permita. Mas é disto que estamos tratando: de frutos de árvore que brotaram antes do quinze de Shevat, trazidos pelos frutos que brotaram depois do quinze de Shevat; uma vez que é do novo pelo velho, não traz; se é do novo pelo novo, traz. E pensávamos dizer que estamos tratando do tempo depois de Chanucá, e que daí se prova que os bikurim separados então não se tornam sagrados. Disse Rabi Chinena: trata-se dos bikurim no seu tempo, de Shavuot a Sucot.

Nota

Esta é a sexta halachá do Perek Alef de Massechet Bikurim. Corresponde à Mishná Bikurim 1:6 da Mishná avulsa, inteira.

A guemará pergunta por que a Mishná fala de duas árvores, se quem compra uma só também não adquire o solo; explica a opinião de Rabi Yehudá sobre a árvore cortada, comparando-a aos caules do cereal e à bênção “que cria o fruto da terra”; discute o campo vendido com a seara em pé e o vendedor que volta a comprar os frutos, provando-o com a lei da paga da prostituta; e examina os bikurim separados antes de Sucot ou de Chanucá, com a regra de que não se trazem do novo pelo velho.

Observações de leitura. Na seção 01, o hebraico tem Lazar, forma abreviada de Elazar, e traduzimos Rabi Elazar, como Guggenheimer (Rabi Eleazar). Na seção 02, a Mishná citada é a de Berachot 6:2; Rabi Yudá é o Rabi Yehudá da Mishná, que diz que, mesmo cortada a árvore, traz e recita. Na seção 03, segundo Guggenheimer, a última pergunta fica sem resposta, porque quem compra grãos no mercado evidentemente não traz bikurim. Na seção 04, a citação sobre a paga da prostituta corresponde, com outra ordem, à Mishná de Temurá 6:4, e a proibição é a de Devarim 23:19 (“não trarás a paga de uma prostituta”); a frase sobre os cachos de uvas e as coroas de espigas é, segundo Guggenheimer, uma baraita não registrada em outro lugar; o hebraico diz “e lhe vendeu” no masculino, e Guggenheimer entende que foi ela quem vendeu os frutos das suas videiras. Na seção 05, o hebraico diz duas vezes “depois de Rosh Hashaná”; Guggenheimer traduz a primeira como “antes de Rosh Hashaná”, de modo que o caso seja o do velho pelo novo; ele observa ainda que “ensinamos” introduz aqui uma baraita, e não uma Mishná, e que a resposta de Rabi Chinena limita essa baraita ao tempo próprio dos bikurim, entre Shavuot e Sucot.