Talmud Yerushalmi · Massechet Bikurim · Perek Alef · Halachá 2
בִּכּוּרִים

Os meeiros, os arrendatários, o sicaricon e o ladrão não trazem bikurim

Perek Alef, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Bikurim

Segunda halachá do Perek Alef de Massechet Bikurim. A Mishná ensina que os arissin, os meeiros, os chachorot, os arrendatários, o sicaricon e o ladrão não trazem bikurim, pela mesma razão que excluía a árvore mergulhada no terreno alheio: a Torá diz “o princípio dos primeiros frutos da tua terra”. A guemará pergunta se quem roubou um sarmento e o plantou, devendo ao dono apenas o seu valor, pode trazer; liga a questão à dúvida sobre se os mandamentos são como as oferendas do Alto, com a asherá anulada, o lulav de Rabi Shimon ben Lakish e a disputa entre Rabi Yehudá e os rabinos; e examina o roubo do qual os donos desistiram à luz das leis da terumá e do dízimo, com Rabi Yossi, Rabi Imi e Rabi Yochanan, deixando a questão em aberto.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הָאֲרִיסִין וְהֶחָכוֹרוֹת וְהַסִּיקָרִיקוֹן וְהַגַּזְלָן אֵין מְבִיאִין מֵאוֹתוֹ הַטַּעַם מִשּׁוּם שֶׁנֶּאֱמַר רֵאשִׁית בִּיכּוּרֵי אַדְמָתְךָ.

Mishná: Os arissin (meeiros, que cultivam o campo alheio em troca de uma parte da colheita), os chachorot (arrendatários, que pagam ao dono uma quantia fixa), o sicaricon (quem adquiriu o campo de um sicário, que o tomou à força) e o ladrão não trazem bikurim, pela mesma razão já dita: porque foi dito: “O princípio dos primeiros frutos da tua terra” (Shemot 23:19), e não da terra alheia.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01O sarmento roubado: os mandamentos são como as oferendas do Alto?
Yerushalmi · Bikurim 1:2
עַד כְדוֹן בְּשֶׁגָּזַל קַרְקַע. גָּזַל זְמוֹרָה וּנְטָעָהּ וְלֹא דָמִים הוּא חַיָיב לוֹ. אֶלָּא צְרִיכָא לְרַבָּנִין. מִצְווֹת כִּגְבוֹהַּ הֵן אוֹ אֵינָן כִּגְבוֹהַּ. הִין תִּימַר כִּגְבוֹהַּ הֵן אֵינוֹ מֵבִיא. וְאִין תֵּימַר אֵינוֹ כִגְבוֹהַּ מֵבִיא. הַכֹּל מוֹדִין בָּאֲשֵׁירָה שֶׁבִּיטְּלָהּ שֶׁאֵינוֹ מֵבִיא מִמֶּנָּה גֵיזִירִין לְמַעֲרָכָה. רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ בָּעֵי. מָהוּ שֶׁיָּבִיא מִמֶּנָּה לוּלָב. מִצְוֹות כִּגְבוֹהַּ הֵן אוֹ אֵינָן כִּגְבוֹהַּ. אִין תֵּימַר כִּגְבוֹהַּ הֵן אֵינוֹ מֵבִיא. אִין תֵּימַר אֵינוֹ כִּגְבוֹהַּ מֵבִיא. פְּשִׁיטָא שֶׁהוּא מֵבִיא מִמֶּנָּה לוּלָב שֶׁאֵין מִצְווֹת כִּגְבוֹהַּ. מָהוּ שֶׁיָּבִיא בִּיכּוּרִים. כְּרִבִּי יוּדָה דּוּ אָמַר הוּקְּשׁוּ לְקָדְשֵׁי הַגְּבוּל מֵבִיא. כְּרַבָּנִין דְּאִינּוּן מָרִין הוּקְּשׁוּ לְקָדְשֵׁי מִקְדָּשׁ אֵינוֹ מֵבִיא.

Até agora, a Mishná trata do caso em que roubou um terreno. Mas, se roubou um sarmento e o plantou no seu próprio terreno, acaso não é apenas o valor do sarmento que ele lhe deve, de modo que a planta é sua e deveria trazer? Mas a questão é duvidosa para os rabinos: os mandamentos são como as oferendas do Alto, ou não são como as do Alto? Se dizes que são como as do Alto, não traz, pois uma oferenda não pode vir de um roubo; e se dizes que não são como as do Alto, traz. Todos concordam, a respeito de uma asherá (árvore cultuada como ídolo) que o idólatra anulou, que não se trazem dela achas para a pilha de lenha do altar. Rabi Shimon ben Lakish questionou: pode trazer dela um lulav (o ramo de palmeira da festa de Sucot)? Os mandamentos são como as oferendas do Alto, ou não são como as do Alto? Se dizes que são como as do Alto, não traz; se dizes que não são como as do Alto, traz. É evidente que traz dela um lulav, pois os mandamentos não são como as oferendas do Alto. E pode trazer dela bikurim? Segundo Rabi Yehudá, que diz que os bikurim foram comparados aos kodshei hagevul (as coisas santas da província, que se comem em qualquer lugar da Terra), traz; segundo os rabinos, que dizem que foram comparados aos kodshei hamikdash (as coisas santas do Santuário), não traz.

02Quando os donos desistiram: terumá, dízimo e bikurim
Yerushalmi · Bikurim 1:2
עַד כְּדוֹן בִּגְזֵילָה שֶׁלֹּא נִתְיָיאֲשׁוּ הַבְּעָלִים מִּמֶּנָּה. אֲפִילוּ בִגְזֵילָה שֶׁנִּתְיָיאֲשׁוּ הַבְּעָלִים מִמֶּנָּה. סָבְרִין אָמְרִין נִיִשְׁמְעִינָהּ מִן הָדָא הֲרֵי אֵילּוּ בִתְרוּמָה וּבְמַעֲשֵׂר מָה שֶׁאֵין כֵּן בְּבִיכּוּרִים. כְּלוּם צְרִיכָה לֹא בִגְזֵילָה שֶׁלֹּא נִתְיָיאֲשׁוּ הַבְּעָלִים מִּמֶּנָּה. אֲבָל בִּגְזֵילָה שֶׁנִּתְיָיאֲשׁוּ הַבְּעָלִים מִמֶּנָּה אֲפִילוּ בִתְרוּמָה לֹא עָשָׂה כְּלוּם. כְּהָדָא דְתַנֵּי הָאוֹנֵס וְהַגַּנָּב וְהַגַּזְלָן. בִּזְמַן שֶׁהַבְּעָלִים מְרַדְּפִין אַחֲרֵיהֶן אֵין תְּרוּמָתָן תְּרוּמָה וְלֹא מַעְשְׂרוֹתָיו מַעֲשֵׂר וְלֹא הֶקְדֵּישָׁן הֶקְדֵּשׁ. אִם אֵין הַבְּעָלִין מְרַדְּפִין אַחֲרֵיהֶן תְּרוּמָתָן תְּרוּמָה וְמַעְשְׂרוֹתָן מַעֲשֵׂר וְהֶקְדֵּישָׁן הֶקְדֵּשׁ. רִבִּי יוֹסֵי בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. לֹא זֶה תוֹרֵם וְלֹא זֶה תוֹרֵם. רִבִּי אִמִּי בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. אֲפִילוּ הַבְּעָלִין שֶׁתָּרְמוּ אֵין תְּרוּמָתָן תְּרוּמָה. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי עַד כְּדוֹן אֲנָן קַיָימִין בִּגְזֵילָה שֶׁלֹּא נִתְיָיאֲשׁוּ הַבְּעָלִים מִּמֶּנָּה. וּלְיֵידָא מִי לָּא אֲנָן תַנִּינָן הֲרֵי אֵילּוּ בִּתְרוּמָה וּמַעֲשֵׂר מַה שֶׁאֵין כֵּן בְּבִיכּוֹרִין. אֶיפְשָׁר לַפֵּירוֹת לָצֵאת בְּלֹא בִכּוּרִין. אֵיפְשָׁר לַפֵּירוֹת לָצֵאת בְּלֹא תְרוּמָה וּמַעְשְׂרוֹת. אֲבָל בִּגְזֵילָה שֶׁנִּתְיָיאֲשׁוּ הַבְּעָלִים מִּמֶּנָּה עַד כְּדוֹן צְרִיכָה.

Até agora, tratamos de um roubo do qual os donos não desistiram. Vale também para um roubo do qual os donos desistiram? Pensavam dizer: ouçamo-lo disto que ensinamos: “Estas são as leis que valem na terumá e no dízimo, o que não é assim nos bikurim.” Mas acaso é necessário esse ensino, não para um roubo do qual os donos não desistiram, mas para um roubo do qual os donos desistiram? Pois, no roubo do qual os donos não desistiram, mesmo quanto à terumá ele não fez nada, como isto que foi ensinado: “O que toma à força, o que furta e o ladrão: enquanto os donos os perseguem, a terumá deles não é terumá, nem os dízimos dele são dízimo, nem a consagração deles é consagração; se os donos não os perseguem, a terumá deles é terumá, os seus dízimos são dízimo e a consagração deles é consagração.” Rabi Yossi, em nome de Rabi Yochanan: nem este separa terumá, nem aquele separa terumá, o ladrão porque o campo não é seu, e o dono porque não está em sua posse. Rabi Imi, em nome de Rabi Yochanan: mesmo os donos que separaram terumá, a terumá deles não é terumá. Disse Rabi Yossi: até agora, estamos tratando de um roubo do qual os donos não desistiram. E para que, então, ensinamos: “Estas são as leis que valem na terumá e no dízimo, o que não é assim nos bikurim”? Porque é possível que os frutos saiam para o consumo sem bikurim; mas é possível que os frutos saiam sem terumá e dízimos? Por isso a Mishná diz que a lei da terumá se aplica a eles: sem ela, nunca poderão comer desses frutos. Mas, num roubo do qual os donos desistiram, até agora a questão continua em dúvida.

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Alef de Massechet Bikurim. Corresponde ao final da Mishná Bikurim 1:2 da Mishná avulsa, a partir das palavras “os meeiros, os arrendatários”; o início dessa mishná, “por que razão não traz”, está na Halachá 1:1.

A guemará parte do sarmento roubado e plantado, pelo qual o ladrão deve ao dono apenas o valor, e pergunta se os mandamentos seguem as regras das oferendas do Alto, que não podem vir de um roubo; traz a asherá anulada, o lulav e a disputa entre Rabi Yehudá e os rabinos sobre a natureza dos bikurim; e, a partir da baraita do que toma à força, do que furta e do ladrão, conclui que a Mishná que aplica a terumá e o dízimo a estes casos não resolve o roubo do qual os donos desistiram.

Observações de leitura. As palavras “o princípio dos primeiros frutos da tua terra” estão em Shemot 23:19 (e se repetem em Shemot 34:26); a edição de Guggenheimer remete aqui a Devarim 26:2, cujo texto é outro. A frase “estas são as leis que valem na terumá e no dízimo, o que não é assim nos bikurim”, citada na seção 02, é da Mishná Bikurim 2:3, que inclui entre essas leis os meeiros, os arrendatários, o sicaricon e o ladrão; a disputa entre Rabi Yehudá e os sábios, mencionada na seção 01, está na Mishná Bikurim 3:12. Guggenheimer entende o sicaricon como os próprios sicários; seguimos a leitura comum dos comentaristas, que o entendem como quem comprou o campo do sicário. Na seção 02, muitos comentaristas invertem os dois casos do roubo, contra todos os manuscritos; mantivemos a ordem do hebraico, como Guggenheimer. Na mesma seção, o hebraico escreve “é possível” nas duas frases sobre os frutos; a segunda foi traduzida como pergunta retórica, que é o sentido que Guggenheimer dá a ela (“é impossível”).