Massechet Sheviit não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.
Um grande princípio disseram a respeito da shevi'it: tudo o que é próprio ao alimento de homem — não se faz dele cataplasma (uma pasta medicinal aplicada sobre ferida ou chaga, feita mastigando o alimento) para pessoa; e não é preciso dizer que não se faz para animal. Tudo o que não é próprio ao alimento de homem — faz-se dele cataplasma para pessoa, mas não para animal. E tudo o que não é próprio nem ao alimento de homem nem ao de animal, mas ele o dono decidiu usá-lo para alimento de homem ou de animal — impõem-se sobre ele os rigores de homem e os rigores de animal (a soma das restrições de ambas as categorias). Decidiu usá-lo para lenha (combustível) — eis que ele é como lenha (perde toda santidade de shevi'it, pois madeira não tem a santidade dos frutos comestíveis), como a segurelha, e o hissopo, e a tomilho-selvagem (ervas cujo uso costumeiro é como lenha ou tempero, e não como alimento propriamente dito).
A shevi'it foi dada (pela Torá) para comer, para beber e para ungir: comer uma coisa que costuma ser comida, e ungir uma coisa que costuma ser usada para untar. Não se unge com vinho e vinagre, mas unge-se com óleo. E assim também com a teruma, e assim também com o maasser sheni (segundo dízimo — regem-se pelo mesmo princípio). Foi dada maior leniência ao óleo de shevi'it, pois foi dado para acender a lâmpada (um quarto uso, exclusivo do óleo de shevi'it, que nem a teruma nem o maasser sheni possuem).
Não se vendem os frutos de shevi'it, nem por medida, nem por peso, nem por número. Nem figos se vendem por número, nem vegetais por peso. Bet Shamai diz: nem sequer vendidos em molhos (atados, como se costuma vender em anos comuns). Mas Bet Hillel diz: o que costuma ser atado ao ser levado para casa (uso doméstico) pode também ser atado ao ser levado para o mercado (vender já atado, contanto que seja o costume igual ao de casa e não especificamente feito para o comércio), como os alhos-porros e o nets hechalav.
O que diz ao trabalhador: "Toma este issar (uma pequena moeda) e colhe para mim vegetais hoje" — seu salário é permitido (não carrega a santidade de shevi'it, pois é pagamento comum por trabalho). "Colhe para mim com ele (com este issar, isto é: em troca dele) vegetais hoje" — seu salário é proibido (equivale a uma venda dos vegetais pelo issar, e assim o dinheiro se torna dinheiro de shevi'it). Se comprou do padeiro um pão por um pondion (uma moeda maior que o issar) e disse-lhe: "Quando eu colher vegetais do campo, trarei a ti" — isto é permitido (o pão comum não se torna dinheiro de shevi'it, pois foi comprado antes, sem condicionar o preço aos vegetais). Se tomou dele o pão sem especificar (sem mencionar os vegetais no momento da compra, mas apenas comprou fiado), não lhe pagará a dívida com dinheiro de shevi'it, pois não se pagam dívidas com dinheiro de shevi'it.
Não se dá dinheiro de shevi'it, nem a poceiro (quem escava poços e fornece água à cidade), nem a banheiro (quem aquece a casa de banho), nem a barbeiro, nem a marinheiro (pelo pagamento de seus respectivos serviços). Mas dá-se ao poceiro dinheiro de shevi'it para que ele forneça água a beber (pois beber é um dos usos autorizados da shevi'it). E a todos eles pode dar-se como presente gratuito (mesmo sabendo que, tendo recebido o presente, não lhe cobrarão o serviço, contanto que o pagamento não seja formalmente designado como salário).
Figos de shevi'it não se cortam (para secar) com o mukzê (o instrumento especial, próprio, usado normalmente para essa tarefa), mas corta-se com um instrumento comum, uma foice qualquer, no descampado (alterando o local ou o instrumento, para que se veja que aquele ano é diferente). Uvas não se pisam no lagar (o grande tanque próprio da vindima), mas pisam-se numa amassadeira (pequena, própria de amassar pão, alterando também aqui o utensílio). Azeitonas não se preparam na prensa (a grande prensa de azeite) nem no pequeno lagar (bodidá), mas ele as esmaga manualmente e as leva à prensinha no campo (um instrumento improvisado e reduzido). Rabi Shimon diz: pode até esmagá-las na prensa grande, contanto que então as leve à prensinha (o essencial é que o produto final chegue por meio incomum ao pequeno recipiente, não a proibição da prensa em si).
Não se cozinham vegetais de shevi'it em óleo de teruma, para que não os leve à invalidação (se o óleo de teruma se tornar impuro, todo o cozido, incluindo os vegetais de shevi'it, terá de ser queimado, causando a perda de frutos que a Torá quer preservados para consumo). Mas Rabi Shimon permite (considera o risco insuficiente para proibir tal mistura). E o último elo de uma cadeia de trocas sucessivas é sempre preso pela santidade de shevi'it (à medida que o dinheiro ou produto de shevi'it é sucessivamente trocado por outra coisa, a santidade sempre "salta" para o novo item recebido, liberando o anterior).
Não se compram escravos, terras e animal impuro com dinheiro de shevi'it (pois são bens duráveis, não consumíveis, alheios aos usos autorizados de comer, beber e ungir). E se comprou indevidamente, come o equivalente (gasta, de seu próprio dinheiro, o valor equivalente ao que usou indevidamente, comprando com ele alimento e consumindo-o com a santidade de shevi'it, para retificar o desvio). Não se trazem os ninhos de zavim e zavot (homens e mulheres com certos fluxos que os tornam impuros) com dinheiro de shevi'it (as oferendas de aves obrigatórias que devem trazer). E se trouxe, come o equivalente. Não se untam vasilhas com óleo de shevi'it (pois o uso autorizado de "ungir" é restrito ao corpo, e não a objetos). E se untou, come o equivalente.
Um couro que untaram o curtidor untou com óleo de shevi'it (vedado, pois "ungir" refere-se a pessoa, e não a objetos — ver 8:8): Rabi Eliezer diz: será queimado (pois a santidade de shevi'it não pode ser removida do couro de outro modo). Mas os sábios dizem: come-se o equivalente (a solução comum já vista em 8:8 — gastar valor equivalente em alimento). Disseram diante de Rabi Akiva: "Rabi Eliezer costumava dizer: um couro que untaram com óleo de shevi'it será queimado." Ele lhes disse: "Silêncio! Não vos direi o que Rabi Eliezer dizia sobre isso" (recusando-se a confirmar publicamente uma versão ainda mais estrita da opinião de seu mestre, por razões de disciplina ou prudência haláchica).
E também disseram diante dele (de Rabi Akiva): "Rabi Eliezer costumava dizer: quem come pão de samaritanos (cutim — um povo cuja condição halachica quanto à validade de seus alimentos era controversa entre os sábios) é como quem come carne de porco." Ele lhes disse: "Silêncio! Não vos direi o que Rabi Eliezer dizia sobre isso" (repetindo a mesma recusa da mishná anterior, por não poder confirmar publicamente a versão exata da opinião de seu mestre sobre este assunto controverso).
Uma casa de banho que foi aquecida com palha ou com restolho de shevi'it (materiais que sobraram da colheita do ano sabático, usados como combustível) — é permitido banhar-se nela (mesmo pagando pelo uso, pois a palha e o restolho, embora advindos da shevi'it, já perderam seu valor de alimento e podem ser usados como lenha, ver 8:1). Mas se ele é homem importante (uma pessoa de destaque, cujos atos são exemplo para os outros), não deve banhar-se nela (por precaução: seu exemplo público poderia levar donos de casas de banho a queimar deliberadamente mais palha e restolho de shevi'it do que o necessário, apenas para atrair clientela importante — desperdiçando os frutos do ano sabático).